# Lição 10

The Definition of Happiness

Mas talvez pareça algo consentido dizer que a felicidade é o que há de melhor. Deseja-se, porém, que se diga ainda mais manifestamente o que ela é. [118]

Isto talvez venha a acontecer se se tomar a obra do homem. Pois, assim como para o flautista, para o escultor e para todo artífice, e de modo geral para aqueles cuja obra e ato existem, o bem e o bem-fazer parecem estar na obra, assim parecerá também para o homem, se é que há para ele alguma obra. [119]

Acaso, então, do tecelão e do curtidor há certas obras e atos, mas do homem não há nenhuma, e ele é por natureza ocioso? [121]

Ou, assim como do olho, da mão, do pé e, de modo geral, de cada uma das partes parece haver alguma obra, assim também, além de todas estas, alguém porá para o homem alguma obra. [122]

Que será, então, esta? Pois o viver parece comum também às plantas, mas busca-se o que é próprio. Deve-se, portanto, separar a vida nutritiva e aumentativa. Em seguida, haveria uma certa vida sensitiva; mas também esta parece comum ao cavalo, ao boi e a todo animal. Resta, pois, uma certa vida operativa daquele que tem razão. Desta, uma parte é como que persuasível pela razão, e outra como que tendo razão e entendendo. Mas, dizendo-se isto de dois modos, deve-se pôr aquela que é segundo a razão, pois esta parece dizer-se mais principalmente. [123]

Ora, se a obra do homem é uma operação da alma segundo a razão ou não sem a razão, e dizemos que a obra é a mesma quanto ao gênero, tanto deste como daquele que é diligente, assim como do citarista e do citarista diligente, e absolutamente assim em todas as coisas, acrescentando-se à obra a superioridade segundo a virtude, pois a obra do citarista é tocar a cítara e a do diligente é fazê-lo bem; se é assim, e pomos que a obra do homem é uma certa vida, e esta é uma operação e ato da alma com razão, e a do homem diligente é fazer isto bem e da melhor maneira, e cada coisa se realiza bem segundo a própria virtude; se é assim, o bem humano vem a ser uma operação segundo a virtude, e, se há muitas virtudes, segundo a mais perfeita e melhor. [127]

E ainda numa vida perfeita. Pois uma só andorinha não faz a primavera, nem um só dia; assim, tampouco um só dia ou um breve tempo faz alguém bem-aventurado e feliz. [129]

**118**. ***Mas talvez a felicidade*** etc. Depois que o Filósofo estabeleceu algumas condições da felicidade, aqui investiga a sua definição.

E acerca disto faz três coisas:

primeiro, mostra a necessidade desta investigação;

segundo, caça a definição da felicidade, ali: *isto talvez venha a acontecer* etc.;

terceiro, mostra que a definição precedente não é suficiente, mas que ainda é preciso dizer mais, ali: *fique, pois, assim delineado* etc.

Diz, portanto, primeiro, que todos confessam ser a felicidade algo ótimo, ao que pertence o fato de a felicidade ser o fim último e o bem perfeito e suficiente por si. Mas ainda é preciso dizer algo mais manifestamente sobre a felicidade, para que se saiba o que ela é em particular.

**119**. Em seguida, quando diz: ***isto talvez*** etc., investiga a definição da felicidade. E acerca disto faz duas coisas:

primeiro, indaga o seu gênero;

segundo, as suas diferenças, ali: *ora, se a obra do homem* etc.

Acerca do primeiro faz três coisas:

primeiro, mostra que a felicidade é uma operação do homem;

segundo, mostra que há para o homem alguma operação própria, ali: *acaso, então, do tecelão* etc.;

terceiro, mostra qual é a operação própria do homem, ali: *que será, então, esta* etc.

Diz, portanto, primeiro, que o que seja a felicidade poderá tornar-se manifesto se se tomar a operação do homem. Pois, para qualquer coisa que tenha uma operação própria, o seu bem e aquilo que lhe é bem consiste na sua operação, assim como o bem do flautista consiste na sua operação, e igualmente o daquele que faz uma estátua e o de qualquer artífice. E a razão disto é que o bem final de qualquer coisa é a sua última perfeição, ao passo que a forma é a primeira perfeição, mas a operação é a segunda perfeição. E, se se disser que alguma coisa exterior é o fim, isto não será senão por meio da operação, pela qual, a saber, o homem alcança aquela coisa, ou fazendo-a, como o construtor a casa, ou usando-a ou desfrutando-a; e assim resta que o bem final de qualquer coisa deve ser buscado na sua operação. Se, portanto, há para o homem alguma operação própria, é necessário que na sua operação própria consista o seu bem final, que é a felicidade, e assim o gênero da felicidade é a operação própria do homem.

**120**. E se se disser que a felicidade consiste em alguma outra coisa, ou isto será algo pelo qual o homem é tornado idôneo a tal operação, ou será algo ao qual ele chega por sua operação, assim como se diz que Deus é a bem-aventurança do homem.

**121**. Em seguida, quando diz: ***acaso, então, do tecelão*** etc., prova que há alguma operação própria do homem. E isto de dois modos.

Primeiro, pelas coisas que acontecem ao homem. Pois acontece ao homem ser tecelão ou curtidor, ou gramático ou músico, ou alguma outra coisa deste gênero; mas nenhuma destas há que não tenha uma operação própria, do contrário seguir-se-ia que tais coisas adviriam ao homem ociosa e inutilmente; ora, muito mais inconveniente é que seja ocioso e inútil aquilo que é segundo a natureza, que está ordenado pela razão divina, do que aquilo que é segundo a arte, que está ordenado pela razão humana; sendo, portanto, o homem algo que existe segundo a natureza, é impossível que seja naturalmente ocioso, como que não tendo operação própria; há, portanto, alguma operação própria do homem, assim como daquelas coisas que lhe acontecem. A causa disto é que cada coisa, seja natural, seja artificial, existe por alguma forma que é princípio de alguma operação; donde, assim como cada coisa tem o seu próprio ser por sua forma, assim também tem a sua própria operação.

**122**. Segundo, ali: ***ou, assim como do olho*** etc., mostra o mesmo pelas partes do homem. Pois é preciso considerar a mesma operação no todo e nas partes, porque, assim como a alma é o ato de todo o corpo, assim certas partes da alma são atos de certas partes do corpo, como a vista o é do olho; mas cada parte do homem tem uma operação própria, assim como a operação do olho é ver, a da mão apalpar, a do pé caminhar, e assim das outras partes; resta, portanto, que também de todo o homem há alguma operação própria.

**123**. Em seguida, quando diz: ***que será, então, esta*** etc., indaga qual é a operação própria do homem. Ora, é manifesto que a operação própria de cada coisa é a que lhe compete segundo a sua forma; mas a forma do homem é a alma, cujo ato se diz viver, não, porém, enquanto o viver é o ser do vivente, mas enquanto o viver se diz alguma obra da vida, por exemplo, entender ou sentir; donde é manifesto que a felicidade do homem consiste em alguma obra da vida.

**124**. Não se pode, porém, dizer que a felicidade do homem se considera segundo qualquer viver, porque o viver é comum também às plantas, mas a felicidade busca-se como um certo bem próprio do homem, pois se diz bem humano. E, por igual razão, também a espécie de vida que se diz nutritiva ou aumentativa deve ser separada da felicidade, porque também estas são comuns às plantas. E disto se pode inferir que a felicidade não consiste nem na saúde, nem na beleza, nem na fortaleza, nem na altura do corpo, pois todas estas coisas se adquirem pelas operações desta vida.

**125**. Depois da vida nutritiva e aumentativa segue-se a vida sensitiva, que também não é própria do homem, mas convém igualmente ao cavalo, ao boi e a qualquer animal, donde nem nesta vida consiste a felicidade. E disto se pode inferir que a felicidade humana não consiste em algum conhecimento ou deleite sensível.

**126**. Depois da vida nutritiva e sensitiva, não resta senão a vida que é operativa segundo a razão, a qual vida é, com efeito, própria do homem, pois o homem obtém a sua espécie do fato de ser racional. Mas o racional é de dois modos:

um, com efeito, por participação, enquanto, a saber, é persuadido e regulado pela razão;

outro, porém, é racional essencialmente, isto é, aquele que tem de si mesmo o raciocinar e o entender;

e esta parte se diz racional mais principalmente, pois aquilo que se diz por si é sempre mais principal do que aquilo que é por outro. Portanto, sendo a felicidade o bem mais principal do homem, segue-se que ela consiste mais naquilo que pertence ao que é racional por essência do que naquilo que pertence ao que é racional por participação. Do que se pode inferir que a felicidade consiste mais principalmente na vida contemplativa do que na ativa, e no ato da razão ou do intelecto do que no ato do apetite regulado pela razão.

**127**. Em seguida, quando diz: ***ora, se <há> obra do homem*** etc., investiga as diferenças da felicidade.

E divide-se em duas partes, segundo as duas diferenças que investiga;

a segunda parte começa ali: *e ainda* etc.

Primeiro, portanto, toma do que foi premissado que a obra própria do homem é a operação da alma que é segundo a própria razão ou não sem a razão, o que diz por causa da operação do apetite regulado pela razão. Ora, isto se encontra comumente em todas as coisas: que é a mesma a obra de alguma coisa tomada em seu gênero e a obra dessa coisa se for boa, exceto que é preciso acrescentar, da parte da operação, aquilo que pertence à virtude, assim como a obra do citarista é tocar a cítara, mas a obra do bom citarista é tocar bem a cítara, e igualmente é em todas as outras coisas.

**128**. Se, portanto, a obra do homem consiste em uma certa vida, a saber, enquanto o homem opera segundo a razão, segue-se que é próprio do homem bom operar bem segundo a razão, e do homem ótimo, isto é, do feliz, fazer isto da melhor maneira. Mas pertence à noção de virtude que cada um que a possui opere bem segundo ela, assim como a virtude do cavalo é aquela segundo a qual corre bem. Se, portanto, a operação do homem ótimo, isto é, do feliz, é operar bem e da melhor maneira segundo a razão, segue-se que o bem humano, isto é, a felicidade, é uma operação segundo a virtude, de tal modo, a saber, que, se há apenas uma virtude do homem, a operação que é segundo aquela virtude será a felicidade; mas, se há muitas virtudes do homem, a felicidade será a operação que é segundo a melhor delas, porque a felicidade não é somente o bem do homem, mas o ótimo.

**129**. Em seguida, quando diz: ***e ainda numa vida perfeita*** etc., investiga outra diferença da felicidade. Pois requer-se para a felicidade a continuidade e a perpetuidade, quanto é possível; com efeito, isto naturalmente o deseja o apetite daquele que tem intelecto, uma vez que apreende não somente o ser como agora, tal como o sentido, mas também o ser absolutamente; ora, sendo o ser apetecível por si mesmo, segue-se que, assim como o animal, apreendendo pelo sentido o ser como agora, apetece ser agora, assim também o homem, apreendendo pelo intelecto o ser absolutamente, apetece ser absolutamente e sempre, e não somente como agora; e por isso pertence à noção da felicidade perfeita a continuidade e a perpetuidade. A qual, contudo, a vida presente não comporta, donde na vida presente não pode haver felicidade perfeita. É preciso, contudo, que a felicidade, tal como é possível ser na vida presente, seja numa vida perfeita, isto é, por toda a vida do homem. Pois, assim como uma só andorinha ao chegar não indica a primavera, nem um só dia temperado, assim também nem uma só operação feita uma vez torna o homem feliz, mas quando o homem continua a boa operação por toda a vida.

**130**. Assim, portanto, é patente que a felicidade é a operação própria do homem segundo a virtude, numa vida perfeita.