Cadernos Barruel 6 - 1980
- A VIDA E AS OBRAS DO PADRE AUGUSTIN BARRUEL
- PRECURSORES ESQUECIDOS
- O CARDINAL PIE, UM BISPO DOS TEMPOS MODERNOS
- A GNOSE HOJE
- TESTEMUNHO SOBRE AS ORIGENS DO CENTRO DE PASTORAL LITÚRGICA
- A PROPÓSITO DE KANT E DE HEGEL
- A PROPÓSITO DA CONTRA-IGREJA
- SATANÁS, O MACACO DE DEUS
- NOTAS DE GERÊNCIA
A VIDA E AS OBRAS DO PADRE AUGUSTIN BARRUEL
A Sociedade Augustin BARRUEL sente-se no dever de apresentar, na medida do possível, um relato da vida e uma nomenclatura das obras do escritor cujo nome tomou emprestado.
Ao cumprirmos esta tarefa, servimo-nos da biografia universal de Michaut (tomo 3), do Dicionário de biografia francesa de Prévost e Roman d'Aurat e, sobretudo, de três notas biográficas:
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a de DUSSAULT, bibliotecário de Sainte-Geneviève, escrita em 1823;
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a do Padre MOLLIER, no "Ensaio histórico sobre Villeneuve-de-Berg", escrito em 1866. Villeneuve-de-Berg é a terra natal do Padre BARRUEL, e o Padre MOLLIER dedicou-lhe seis páginas de seu ensaio;
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a do cônego FILLET, pároco de Alex, escrita em 1896 e intitulada: "Nota biográfica, literária e crítica sobre o R. P. Augustin de BARRUEL".
Devemos mencionar também um artigo do periódico "L'Ordre français", de fevereiro de 1966.
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As três notas citadas anteriormente não utilizam o nome Padre BARRUEL, mas designam-no como Padre de BARRUEL. De fato, sua família possuía uma partícula nobiliárquica. Sabe-se que a partícula nem sempre é sinal de nobreza; pode, por exemplo, indicar um país de origem ou derivar do der alemão. No caso da família de BARRUEL, a nobreza é incontestável, existindo duas teses sobre sua origem: a primeira, apoiada em genealogistas, fá-la remontar a um passado distante, indo além da Guerra dos Cem Anos. Naquela época, o reino da Escócia era aliado do rei da França. Os escoceses desempenhavam um papel importante no exército de Carlos VII e muitos gascões combatiam nas fileiras dos ingleses. Remotamente, representantes de uma família da Escócia que possuíram o título de duque e as prerrogativas da fidalguia combatiam a serviço do rei da França; seu nome era BARWEL. Um ramo dessa família permaneceu definitivamente na França e instalou-se no Vivarais; outro permaneceu na Escócia e um de seus membros, Lord BARWEL, vindo a Paris em 1780, reconheceu os de BARRUEL do Vivarais como fazendo parte de sua família e estabelecidos na França há vários séculos. O nome primitivo BARWEL teria se transformado em BARRUEL.
Segundo uma segunda tese, os BARRUEL descendiam de camponeses do Delfinado (Dauphiné). De acordo com a publicação Lecture et Tradition, nº 54, de maio-junho de 1975, os BARRUEL são mencionados pela primeira vez entre 1095 e 1105 na Carta do Capitulário da Reitoria de Oulx, no alto Briançonnais.
Entre a origem escocesa e a origem delfinesa, não sabemos qual é a verdadeira. O que é certo, por outro lado, é que a nobreza da família de BARRUEL é indubitável.
Suas armas eram antigamente barradas de ouro e prata; foram, posteriormente, de ouro com banda de azul, carregada de três estrelas de prata. Seu grito de guerra era: VIVAT REX; sua divisa: VIRTUTE SIDERIS.
Os de BARRUEL ocuparam altos cargos no exército e na magistratura, tendo contraído alianças com os de La Rochefoucauld, os de Sévigné e os de Grignan.
O pai de Augustin BARRUEL, titular de vários senhorios, foi Tenente-general do Rei no bailiado de Villeneuve de Berg; casara-se, em 11 de julho de 1730, com Madeleine de Monnier, que lhe deu doze filhos. Não se sabe a ordem exata de Augustin entre essa dúzia. Sabe-se apenas que três filhos nasceram antes dele, entre os quais Louis-Antoine, que se tornou, por sua vez, Tenente-general do Rei, e Louis-François, que foi Tenente-coronel da artilharia e admitido mais tarde na assembleia da nobreza da província de Bresse. Entre seus irmãos e irmãs mais novos, contam-se Camille de BARRUEL, que foi prior da Abadia dos Beneditinos de Charlieu em Bresse, e Marie-Gabrielle, que foi superiora da Visitação de Valence. Ela deixou renome de alta piedade e de muito saber.
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Augustin nasceu em Villeneuve de Berg, antiga capital do Vivarais, em 2 de outubro de 1740. Villeneuve de Berg é conhecida sobretudo como a pátria de Olivier de Serres, mas, além do Padre BARRUEL, outros escritores mais ou menos célebres ali nasceram na mesma época: o R. P. Dumazel, jesuíta; Antoine Court, pastor calvinista e historiador de Cevenas e das guerras dos Camisardos; o filho de Antoine Court, também ele escritor; e o Padre Geneston, autor de uma coleção de sermões. Nenhum teve, nem de longe, o valor ou a erudição de Augustin BARRUEL.
Nada se pode dizer sobre os anos de infância de Augustin passados em Villeneuve de Berg. Ele fez seus estudos no colégio dos Jesuítas de Tournon. Em 15 de outubro de 1756, entrou no noviciado dessa Sociedade com a intenção de fazer parte dela. Foi inicialmente designado para o ensino e lecionou humanidades em Toulouse, mas, em novembro de 1764, um édito de Luís XV suprimiu a Sociedade dos Jesuítas na França: "Queremos e nos apraz que, no futuro, a Sociedade dos Jesuítas não mais tenha lugar em nosso reino, países, terras e senhorios sob nossa obediência".
Por esta razão, Augustin deixou a França e professou seus votos na Alemanha. Lecionou sucessivamente em Commateau, na Boêmia; em Hradisch, na Morávia; e em Viena, na Áustria, no colégio teresiano, onde ocupou a cátedra de retórica. Em 7 de agosto de 1773, o Papa Clemente XIV pronunciou a abolição total da Ordem dos Jesuítas. Nessa data, Augustin de BARRUEL deixou de ser religioso para tornar-se padre secular. Pode-se notar que, no século seguinte, mas por outras razões, dois de seus futuros continuadores — o Padre Barbier, autor da "História do Catolicismo Liberal", e o cônego Gaudeau, autor do "Perigo Interior da Igreja" — seguiriam a mesma evolução da Companhia de Jesus para o clero secular. Note-se, contudo, que, segundo seus biógrafos, Augustin de BARRUEL permaneceu jesuíta pelo espírito durante toda a sua vida.
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Nessa época, ele foi encarregado da educação do filho de um grande senhor; conduziu seu discípulo à Itália, aprendeu o italiano e visitou Roma.
Certamente havia retornado à França no início de 1774. Sua primeira obra é em verso: uma ode por ocasião da ascensão de Luís XVI, intitulada "Ode sobre a gloriosa ascensão de Luís Augusto", para a qual obteve a licença de impressão em 29 de maio de 1774. Vendeu, ao que parece, doze mil exemplares. Os jesuítas escreviam muitos versos naquela época. Esta Ode é em versos de sete pés, o que lhe confere um estilo ágil. Eis dois de seus quartetos:
Ao ver sobre o próprio trono
Seu ardor e seus trabalhos
Parece do diadema
Ter tomado apenas os fardos.*************************************
Que o amor, príncipe, inflame
O coração de todos os franceses.
Gravou em nossa alma
Teu nome com teus benefícios.
Mas o futuro não viria a confirmar as esperanças que o padre BARRUEL depositava, não no rei, mas nos sentimentos dos franceses em relação a ele.
Em 1779, BARRUEL traduziu ainda em versos um poema italiano sobre os eclipses; em seguida, colaborou com o Année littéraire, dirigido por Fréron.
Em julho de 1774, o príncipe Xavier de Saxe tomou-o como preceptor de seus filhos; em 1777, foi nomeado esmoler da princesa de Conti, título que manteve até a Revolução.
Publicou em 1778 a "Física reduzida a quadros fundamentados" (Physique réduite en tableaux raisonnés).
De 1781 a 1788, escreveu as Helvienses ou "Cartas provinciais filosóficas", que tiveram um sucesso retumbante. Com elas começa sua carreira de polemista. As Helvienses foram escritas em forma de cartas, como as Provinciais de Pascal. O primeiro volume é dedicado à física; o segundo e o terceiro à metafísica; o quarto trata das contradições. O objetivo das Helvienses era denunciar os erros dos filósofos. O nome enigmático de helviennes provém dos Helvícios que, no tempo dos romanos, era a denominação dos povos do Vivarais. A primeira metade do trabalho apareceu em 1784; a segunda em 1788.
Essas cartas, exposição das bizarrias, das incoerências e das contradições dos filósofos, foram atacadas. BARRUEL defendeu-as na "Resposta do autor das helviennes a uma carta anônima e sem data", que apareceu no Année littéraire de 1784. À página 185 dessa resposta, escreveu: "O censor de nossas cartas helvienses precisou de toda a sua firmeza para manter os direitos dele e os nossos ao permitir a publicação desta obra que os sofistas queriam suprimir".
Em suas cartas helvienses, o padre BARRUEL criticara particularmente um padre Soulavie, originário de Largentière, no Vivarais, tentando ridicularizar seu sistema de geologia. Continuou sua polêmica em "A Gênese segundo o Sr. Soulavie".
Soulavie moveu um processo por difamação contra o padre BARRUEL.
A história não diz quem ganhou e quem perdeu esse processo. Parece que o perdedor foi o padre BARRUEL, pois "A Gênese segundo o Sr. Soulavie" foi destruída por ordem do Guardião dos Selos. Nenhum exemplar é conhecido. A obra deve ser considerada perdida.
Em janeiro de 1788, o padre BARRUEL assumiu a direção do "Jornal Eclesiástico" (Journal ecclésiastique) ou "Biblioteca fundamentada das ciências eclesiásticas". Publicou o último número em julho de 1792.
Com a Revolução, suas obras multiplicaram-se; pode-se julgar pela seguinte nomenclatura:
- "O Patriota Verdadeiro" (Le Patriote véridique) ou "Discurso sobre as verdadeiras causas da revolução atual", em 132 páginas, onde afirma a responsabilidade dos filósofos nos males da França.
- "Carta sobre o Divórcio a um deputado da Assembleia Nacional", em 42 páginas. Era a refutação de uma obra sobre o divórcio. A propósito desta carta, BARRUEL diria: "Vossa Paternidade não acreditaria se eu dissesse que ela foi escrita em oito dias".
- "Prédica de um bom pároco sobre o juramento cívico exigido dos bispos e dos párocos", opúsculo frequentemente reimpresso em 1790.
- "Os verdadeiros princípios sobre o matrimônio, opostos ao relatório de Durand de Maillane", 1790, 43 páginas.
- "Discurso a ser pronunciado por um dos membros dos Estados Gerais pelo retorno dos Jesuítas".
- "Da conduta dos párocos nas circunstâncias presentes, carta de um pároco de aldeia ao seu colega, deputado na Assembleia Geral".
- "Desenvolvimento do juramento dos sacerdotes em função pela Assembleia Nacional", 1790.
- "Desenvolvimento do segundo juramento chamado cívico, decretado em 16 e 29 de novembro de 1791".
- "O plágio do Comitê dito eclesiástico da Assembleia Nacional ou decreto de Juliano, o Apóstata, formando as bases da Constituição Civil do Clero francês, seguido das representações de São Gregório de Nazianzo", 1790.
- "Preconceitos legítimos sobre a Constituição Civil do Clero e sobre o juramento exigido dos funcionários públicos".
- "Questão decisiva sobre os poderes ou a jurisdição dos novos pastores", 1791.
- "Questão nacional sobre a autoridade e os direitos do povo no governo", 1791.
Naturalmente, a atividade de BARRUEL não se limitou à redação de obras; ele insistiu junto ao arcebispo constitucional de Paris, Gobel, para obter a retratação de seu juramento. O arcebispo hesitou, mas julgou mais prudente não o fazer, o que não o impediu de morrer no cadafalso sob a acusação de ateísmo.
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Após os massacres de setembro, o padre BARRUEL, que se escondera por algum tempo, embarcou para a Inglaterra. Lá permaneceria por dez anos, de 1792 a 1802. Em Londres, foi acolhido por Burke e por Lord Clifford. Lord Clifford ajudou-o a prosseguir seus trabalhos literários. Escreveu: "A História do Clero durante a Revolução Francesa". Esta história parou em 1792. A obra, que contém 379 páginas, apareceu em 1797, foi reeditada e traduzida em várias línguas. O dicionário de biografia francesa alega que, por falta de memória e redigida com base em informações não verificadas, ela contém erros e incertezas. Evidentemente, estando na Inglaterra, BARRUEL não teria mais os documentos à mão.
De 1797 a 1798, publicou em quatro volumes sua obra mais célebre: "Memórias para servir à História do Jacobinismo" (Mémoires pour servir à l'Histoire du Jacobinisme).
Nela, demonstra o papel decisivo dos filósofos, dos maçons e dos iluminados na preparação da revolução.
A publicação destas memórias foi um verdadeiro acontecimento. Foram traduzidas para um grande número de línguas, nomeadamente duas vezes para o polonês. Mais tarde, o padre BARRUEL publicou um resumo em dois volumes. Surgiram enormes contestações, o que não é surpreendente. Mounier publicou um ensaio de refutação: "Da influência atribuída aos filósofos, aos maçons e aos iluminados sobre a revolução na França". Charpy de Saint-Étienne escreveu outro: "A maçonaria justificada de todas as calúnias espalhadas contra ela, ou refutação do livro do padre BARRUEL".
Em uma nota de 1823, Dussault faz uma distinção entre o que BARRUEL diz dos filósofos e o que concerne aos maçons e aos iluminados. Sobre os filósofos, Dussault pensa que tudo é claro e palpável, mas sobre os maçons e os iluminados da Baviera, estima que BARRUEL supõe, conjectura, imagina. Chega a dizer: "Ele parece compor o romance do Jacobinismo muito mais do que a sua história".
Michaut, em sua biografia, estima que estas memórias "estão desfiguradas por um exagero e uma crítica acerba". A obra foi comparada às dos padres Fiard e Wurtz, que alegaram que a Revolução era obra de feiticeiros e demonólatras.
BARRUEL havia precisado as razões que o levaram a escrever seu livro:
"Vimos homens cegarem-se sobre as causas da Revolução Francesa. Ao ignorar as causas, reconhece-se a gravidade dos eventos, mas coloca-se na impossibilidade de remediar os males que deles decorrem".
"É um preconceito dos mais perigosos pensar que a Revolução Francesa é um vulcão que se abriu sem que se possa conhecer o foco onde se preparou; somos levados a pensar que ele se esgotará por si mesmo junto com seu combustível".
O autor indica que o motivo que o levou a escrever estas memórias é o desejo de colocar os homens a salvo do perigo que os ameaça, mostrando esse perigo à luz do dia, à luz irrecusável dos fatos mais evidentes.
Provavelmente foi também na Inglaterra que o padre BARRUEL escreveu as cartas sobre a pintura, as pesquisas sobre a pintura e as pesquisas sobre os obstáculos ao progresso das artes.
Sobre sua estada na Inglaterra, temos duas anedotas:
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O arcebispo anglicano de Cantuária anunciou um dia ao padre BARRUEL que a verdade se transmite na Igreja Romana e que Jesus Cristo prometera a Pedro que sua fé não desfaleceria. Em consequência, o padre BARRUEL declarou-lhe que ele deveria, logicamente, abjurar o erro. O arcebispo respondeu-lhe que as vinte e cinco mil libras esterlinas que seu arcebispado rendia eram necessárias para sustentar sua família. O padre BARRUEL retrucou: "Então, o senhor vende sua alma ao diabo por vinte e cinco mil libras esterlinas".
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Chateaubriand, que também estava refugiado na Inglaterra, queria ter a opinião de BARRUEL sobre "O Gênio do Cristianismo" e confiou-lhe seu manuscrito. O padre BARRUEL começou o exame e parou na quinquagésima página, após ter escrito na margem o salmo XLIX, 17: "Deus diz ao pecador: cabe a vós contar as minhas justiças e anunciar a minha aliança?". O padre BARRUEL estimava, sem dúvida, que Chateaubriand combatia mais por sua glória pessoal do que pela causa que pretendia defender.
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Quando o Consulado sucedeu ao Diretório, uma questão se colocou aos eclesiásticos emigrados: deveriam eles regressar à França para tentar cumprir a tarefa para a qual haviam sido ordenados padres, ou permanecer no exílio para não servir a um governo ilegítimo?
O padre BARRUEL pronunciou-se claramente pela primeira solução. Em 8 de julho de 1800, ele recomendou a submissão às leis em dois opúsculos: "Detalhamento das razões peremptórias que determinaram o clero de Paris e de outras dioceses a fazer a promessa de fidelidade" e "O Evangelho e o clero francês sobre a submissão dos pastores nas revoluções dos impérios". Neles, expunha que os padres, sendo encarregados da salvação das almas, deveriam acima de tudo trabalhar por ela, e que apenas a impossibilidade de exercer suas funções poderia servir-lhes de escusa.
Um Padre Lambert, antigo secretário do arcebispo de Paris, atacou essa doutrina; os bispos refugiados na Inglaterra julgaram a atitude do padre BARRUEL, no mínimo, imprudente. No entanto, ao que parece, quatro mil sacerdotes regressaram à França após a leitura dos dois opúsculos. Em 20 de setembro de 1801, o padre BARRUEL lançava um panfleto: "As duas páginas", endereçado aos bispos franceses que, apesar do pedido do Papa, não haviam renunciado após a Concordata. O panfleto causou tanto barulho que teve de ser retirado das livrarias.
Em setembro de 1802, o padre BARRUEL obteve permissão para retornar à França. Ao seu regresso, o arcebispo de Paris, de Belloy, e o Primeiro Cônsul nomearam-no cônego honorário de Notre-Dame de Paris. Ele parece ter renunciado à partícula nobiliárquica. Numa lista dos cônegos honorários de Notre-Dame, constante num almanaque publicado em 1813, ele aparece em terceiro lugar sob a simples denominação: BARRUEL. Ora, outros cônegos, entre os quarenta e um enumerados em 1813, mantinham a partícula.
Em 1803, o padre BARRUEL escreveu, em dois volumes: "Do Papa e de seus direitos religiosos por ocasião da Concordata".
Como objetivo desta obra, ele indicou: "Temos de demonstrar aqui a legitimidade desta Igreja restabelecida na França por essas convenções firmadas sob o nome de Concordata entre o Papa Pio VII e o Governo francês. Temos de vingar, ao mesmo tempo, esta Igreja, seus pastores e o príncipe dos pastores que no-los deu. Temos de tranquilizar o povo francês sobre o poder do pontífice que lhe dá seus sacerdotes e suas sedes episcopais, e sobre a santidade e o uso que ele faz de seu poder".
BARRUEL faz todo um histórico que destaca os poderes dos sucessores de São Pedro. Remonta ao Concílio de Sárdica de 347 a respeito dos bispos depostos que apelam a Roma. Cita Cirilo de Alexandria que, no Concílio de Éfeso, recusa-se a julgar Dióscoro antes de saber o que o Papa havia prescrito.
Nesta obra, BARRUEL ataca novamente os bispos que recusam a Pio VII a renúncia exigida após a Concordata. No entanto, no mesmo livro, ele é bastante indulgente em relação à declaração galicana de 1682, que atribui a Luís XIV mais do que ao clero da França. A dureza para com a Petite Église (Pequena Igreja) e a falta de severidade em relação ao Galicanismo de 1682 conciliam-se dificilmente; provavelmente pensava ele que a primeira era um cisma e a segunda apenas uma manifestação de opinião.
A atitude do padre BARRUEL em relação ao regime consular também coloca um problema: teria ele agido por conveniência ou não compreendeu que a influência maçônica que tão bem denunciara na revolução continuava a exercer-se, embora de outra maneira, sob o Consulado? A questão não está resolvida. Acreditamos, no entanto, que o padre BARRUEL não se iludira; seu comportamento baseava-se na necessidade primordial da salvação das almas. Para compreendê-lo, deve-se certamente levar em conta também sua formação na Companhia de Jesus, que impõe a obediência incondicional ao papa, "perinde ac cadaver". O papa havia tratado com o Consulado; era preciso seguir o papa.
Seja como for, não lhe faltaram dificuldades. Malquistara-se, por um lado, com os sacerdotes juramentados e, por outro, com os sacerdotes anticoncordatários. Doravante, teria inimigos em ambos os campos. Sua apologia do papa foi atacada pelo padre Blanchard, que publicou em Londres três refutações sucessivas sob o título de "Controvérsia pacífica".
Mesmo sob o Primeiro Império, quando Pio VII foi internado em Savona, sua postura incondicional em relação ao papa trouxe-lhe problemas. BARRUEL, que como antigo emigrado estava sob vigilância policial, foi preso em 1811. Suspeitava-se que ele tivesse difundido o breve do papa contra o Cardeal Maury. No lugar do Cardeal de Belloy, falecido em 1802, Bonaparte nomeara arcebispo de Paris o Cardeal Fesch; depois, indisposto com este último, substituíra-o pelo Cardeal Maury em 1810. Maury informou o papa e assumiu a administração do arcebispado.
Por um breve assinado em Savona, Pio VII ordenou a Maury que deixasse imediatamente o arcebispado de Paris. Foi um grande escândalo. O aprisionamento de BARRUEL, acusado de apoiar Pio VII contra o Cardeal Maury, foi de curta duração, ao que parece, embora não saibamos nada de preciso a esse respeito.
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Em 1813, a influência do padre BARRUEL foi benéfica para obter uma retratação de Soulavie. Soulavie era aquele padre com quem, outrora, ele estivera em processo a propósito das Helviennes, muito antes da Revolução. Desde então, o padre SOULAVIE havia prestado juramento à Constituição Civil do Clero e fora nomeado residente da República Francesa em Genebra. BARRUEL, em suas "Memórias para servir à História do Jacobinismo", acusara-o de ter contribuído para a revolução naquela cidade. O padre Soulavie casara-se quatro vezes — o que não quer dizer que tivera quatro esposas, mas que fizera celebrar quatro vezes o seu casamento com a mesma pessoa. Pio VII o havia devolvido à vida secular.
Ao final de sua vida, em 1813, ele entregou a BARRUEL a seguinte retratação, escrita, assinada e datada de próprio punho: "Senhor, desejando viver no seio da Igreja Católica, Apostólica e Romana, peço-vos que constateis, pela inserção da minha presente declaração em vossas obras, meu arrependimento por ter publicado nas minhas erros contra a religião. Condeno-os. Não é notório que as desgraças de nossa pátria e os crimes da revolução provêm do esquecimento da religião? Qual é, pois, o cristão que não geme pelos erros desta natureza quando vê os seus resultados?". Este texto de retratação é autêntico. O autor do artigo sobre Soulavie no Dicionário de Biografia Francesa declara que teve o manuscrito diante dos olhos.
Em 1814, o padre BARRUEL depositou pouca confiança na Restauração. Escreveu a um membro de sua família: "Não vos fieis na nova ordem de coisas. Luís XVIII será em breve derrubado do trono e expulso da França". Essa predição realizou-se muito rápido. Durante os Cem Dias, o padre BARRUEL retirou-se para junto de sua família, provavelmente no Vivarais.
Em 14 de outubro de 1815, ele regressa à Companhia de Jesus, então reconstituída.
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Um dia, ele foi recebido em audiência por Luís XVIII. Seu irmão, Louis-François de BARRUEL, então Tenente de artilharia, também fora apresentado outrora em Coblença, em 1791, ao futuro Luís XVIII, que na época era apenas o Conde de Provença.
Augustin BARRUEL propôs a Luís XVIII um meio de expurgar o país da maçonaria: "Sire, aqui estão os nomes de trinta principais chefes, aqui estão os endereços. Mande prendê-los todos no mesmo dia, imponha à sociedade uma pesada contribuição, insista na santificação do domingo e na observância das outras leis que os infelizes visam, sobretudo, aniquilar. Assim, privada de seus chefes, empobrecida e reprimida, a seita, se não for aniquilada, ao menos não terá, por muito tempo, os meios de prejudicar". Mas o rei não aderiu a um plano que, aliás, era demasiado simplista. Não se pode pôr fim apenas com medidas policiais a uma intoxicação profunda e penetrante dos espíritos.
Luís XVIII quisera nomear o padre BARRUEL como bispo; este, sempre desinteressado, recusou. Ninguém jamais negou sua total ausência de ambição. A recusa ao episcopado era frequente nos primeiros séculos do cristianismo. A dignidade de bispo conferia um grande poder e responsabilidades extensas. Frequentemente, aqueles a quem uma sede episcopal era proposta temiam pela salvação de sua alma e preferiam não incorrer em graves perigos. As motivações do padre BARRUEL nada têm a ver com as daquela época.
Duas explicações diferentes foram dadas pelo padre Mollier, por um lado, e pelo cônego Fillet, por outro. Para este último, era contrário às regras da Companhia de Jesus aceitar uma dignidade eclesiástica sem uma ordem expressa do papa; segundo o padre Mollier, BARRUEL teria respondido a Luís XVIII: "Permiti-me, Sire, recusar este favor: se eu o aceitasse, não poderia mais servir-vos tão utilmente".
É que BARRUEL queria continuar a escrever; as funções de bispo, demasiado absorventes, tê-lo-iam impedido. Em 1814, ele ainda publicara um tratado: "Do princípio e da obstinação dos Jacobinos em resposta ao Senador Grégoire", que levantara tempestades, e uma "Réplica pacífica aos três advogados do Senhor Senador Grégoire". Em 1815, posicionou-se ainda contra a Petite Église. O nome exato desta última obra publicada não é mencionado.
Seus últimos anos foram consagrados a escrever uma história das sociedades secretas na Idade Média, uma dissertação sobre a Cruzada contra os Albigenses e uma refutação do sistema de Kant. O padre BARRUEL, de fato, preocupara-se muito com Kant; teria dito a esse respeito: "Que malícia há nesse homem! Mas eu o apanhei e o desmascararei diante do mundo".
Infelizmente, essas três obras não foram terminadas. O padre A. BARRUEL faleceu em 5 de outubro de 1820, aos setenta e nove anos. Está sepultado no cemitério de Montparnasse, em Paris. Seus manuscritos inacabados sobre Kant foram queimados, ao que parece. É uma perda das mais lamentáveis.
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A obra escrita deste poeta, filósofo, historiador e polemista não deixa de ser considerável. É um contraveneno dos mais úteis contra uma subversão que não fez senão estender-se e crescer.
Um dia, Pio IX concedeu uma audiência a Alfred de Barruel, sobrinho-neto do padre Augustin. O Papa falou-lhe do grande escritor, do defensor da Igreja.
O cônego Fillet, em 1894, concluíra seu opúsculo observando que era bastante estranho que não o tivessem incluído entre os escritores de primeira ordem de sua época. "Perguntamo-nos francamente", diz ele, "se ele não é superior a La Harpe, a Maury, a Chateaubriand, a Frayssinous". Por volta de 1935, o grão-rabino de Paris, Lieber, reconhecera: "Barruel tem toda a razão. Suas afirmações e suas teses são exatas".
O Cônego Fillet lamentara que suas obras não fossem reimpressas. A editora Diffusion de la pensée française começou a satisfazer esse desejo em 1974, republicando as "Memórias para servir à história do Jacobinismo", em dois volumes.
A sociedade A. BARRUEL, ao adotar seu nome, quis colocar em evidência um escritor superabundante cujos ensinamentos, cento e sessenta anos após sua morte, continuam sendo salutares. Seria um erro ver no padre BARRUEL apenas um denunciador de complôs. Nenhum complô pode ser eficaz sem um terreno já preparado. BARRUEL quis remontar até as origens do mal. Seus trabalhos sobre os Albigenses e sobre o sistema de Kant, infelizmente perdidos, mostram-no bem. Não se poderia fazer uma ideia justa do padre BARRUEL sem levar isso em conta.
Também não se deve permitir que a antiguidade deste autor lance uma nota pessimista, ao sublinhar que, após tanto tempo decorrido, a subversão parece mais forte do que nunca. Pelo contrário, o padre BARRUEL deve ensinar-nos que, se é preciso conhecer as sociedades perversas e denunciar sua influência e seu mecanismo, não se deve ter medo delas. Depois do padre BARRUEL, e como ele, podemos repetir e tomar como regra de conduta estes versos da primeira cena de Athalie, que ele adotara como divisa:
"Aquele que põe freio à fúria das vagas
Sabe também dos maus deter as tramas.
Submisso com respeito à Sua vontade santa,
Temo a Deus, caro Abner, e não tenho outro temor".
G. L.
PRECURSORES ESQUECIDOS
UM FRANCO-ATIRADOR "ROBUSTO": Joseph SANTO
"Joseph SANTO, de Colmar, antigo conselheiro municipal de Nancy". É sob este título que se apresentava um valente lutador no período de 1910-1940.
Um alsaciano abrupto, apaixonado por sua terra, ardente patriota, católico de combate, radical em suas convicções, exclusivo em suas escolhas, excessivo em suas polêmicas, duro com o adversário e nem sempre conciliador com seus companheiros de luta. Em suma, o oposto de um católico liberal. Um sujeito de trato difícil, uma espécie de Grand Ferré saído da epopeia medieval e sempre na brecha, pensando apenas em golpear o inimigo. A prudência e o senso de medida faziam-lhe muita falta, e isso lhe rendeu inúmeras humilhações.
Condenado em Nancy, em 1904, por ter "difamado" seus adversários nas eleições municipais, viu-se atingido por uma pesada multa que não pôde pagar, resultando no penhor de seu mobiliário e, por ricochete, na perda de seu sustento. Os patrões "bem-pensantes" recusavam-se a empregar um sujeito tão comprometedor. Os negócios acima de tudo!...
Outros teriam desistido de tudo: SANTO, longe de se abater, só pensou na revanche. Foi a origem de uma carreira bem preenchida.
Que se julgue:
145 volumes ou brochuras, numerosos panfletos e impressos diversos, mais de 2.000 conferências e contestações levadas a reuniões públicas de adversários.
Entre os livros de Joseph SANTO, citemos apenas alguns títulos:
Quarenta Anos de Loucura – As Duas Escolas – Armas e Munições para os Combates da Fé – Toques de Clarim e Tiros – A Obra Benfazeja da Igreja – A Religião, a Alma, o Além – Os Segredos do Castelo Vermelho – A Seita Maçônica – O Socialismo – A Falência da República – A Maravilhosa Epopeia Congregacionista – O Toque de Alarme sobre a Cidade... etc.
A maneira de compor esses livros não carecia de originalidade nem de pitoresco. Henry Coston, em seu livro "A República do Grande Oriente" (1), nos informa:
"SANTO havia disposto sobre uma tábua, no cubículo onde amontoava suas coleções de revistas e jornais, vários penicos de louça, que naturalmente nunca haviam tido outro uso. Sobre cada pote, ele havia colocado uma grande etiqueta ostentando, em letras garrafais — pois era míope —, uma inscrição: 'Democratas-cristãos', 'Escola leiga', 'Boatos históricos', 'Maçons'... Esses eram os seus dossiês. Cada manhã, ele lia a imprensa, marcava e depois recortava os artigos e as informações que lhe interessavam e, finalmente, colocava os recortes nos potes correspondentes. Quando um pote estava cheio, ele fazia uma brochura. Havia de tudo, portanto, nos folhetos e nos livros que publicava. Mas, se o leitor demonstrasse um pouco de paciência, acontecia-lhe de encontrar citações do mais alto interesse, esquecidas há muito tempo e cujo lembrete nem sempre agradava aos 'cata-ventos' políticos, já muito numerosos sob a IIIª República. Conhecido por todos os seus confrades católicos e monarquistas, recebia uma enorme quantidade de jornais, preciosa fonte de abastecimento para seus 'dossiês-penicos', e beneficiava-se em suas colunas de uma publicidade gratuita e eficaz que lhe permitia difundir facilmente sua produção nos meios nacionais de Paris e, sobretudo, da província."
Era um trabalho obscuro, de alcance muito limitado, que nenhum editor estabelecido teria aceitado. Haveria muito a dizer sobre essas compilações repletas de citações de valor muito desigual. Os comentários são, com frequência, tendenciosos ou errados, e o senso crítico é limitado. O autor engloba geralmente, sob uma mesma reprovação, textos perfeitamente ortodoxos — se quisermos recolocá-los em seu contexto — e afirmações insustentáveis. Mas, enfim, há interesse em percorrer as coleções de SANTO. Quantos fatos significativos e nomes esquecidos! Revive-se, no plano das lutas religiosas, a primeira parte do nosso século. E pesca-se, aqui ou acolá, uma citação sempre atual.
Conhece-se menos a ação do conferencista. Encontrei, apenas para o ano de 1910, os rastros de sua passagem por diversas localidades: em Frémainville (Val d'Oise), onde se opõe a um alto dignitário maçônico, o Irmão Lefèvre; em Thorigny (Seine-et-Marne), onde o modesto operário tipógrafo refuta com sucesso os erros do manual de história do professor Devinat; em St Rémy-sur-Avre (Eure-et-Loir), onde veio contestar o padre apóstata Charbonnel. Encontramo-lo também em Lattre-Saint-Quentin (Pas de Calais). Desta vez, ele está sozinho contra uma horda uivante de 200 fanáticos que tentam espancá-lo. (Eis o que dá uma ideia do "clima" das controvérsias religiosas da época!). O arcepreste de Vitry-le-François chama SANTO quando um conferencista indesejável é anunciado em sua paróquia, e Dom Dubois, então arcebispo de Bourges, faz questão de opô-lo a todos os "caixeiros-viajantes" da irreligião quando eles desembarcam em sua diocese.
SANTO não é um orador acadêmico de períodos equilibrados e efeitos estudados. Sua eloquência direta, popular e inflamada é cheia de verve, de expressões imagéticas e truculentas, com achados imprevistos e palavras contundentes. Se o auditório é hostil, ele o surpreende primeiro e depois avança... O contato está estabelecido.
Joseph SANTO morreu em 1944, tendo lutado até o limite de suas forças, muitas vezes em condições materiais muito precárias. Numa nota pacificada, ao entardecer de sua vida, declarava:
"Se estas páginas puderam ofender algum de meus leitores e, sobretudo, de meus amigos, ficarei sinceramente aflito; mas minha razão de ser é dizer sempre, contra tudo e contra todos, toda a verdade, nada além da verdade. Calá-la ou diminuí-la por medo de desagradar a certos custar-me-ia ainda mais do que esse próprio desagrado. Apelo à sua consciência mais profunda para perguntar-lhes se esta preferência não é um título a mais para sua estima e até para sua amizade. Em todo caso, pergunto-lhes, com toda a quietude de espírito, se existe um motivo de orgulho comparável à inabalável resolução de enfrentar as piores humilhações, o mais iníquo ostracismo para denunciar todas as mentiras e todos os escândalos que fazem o jogo do eterno inimigo das almas, da Igreja e da França".
Um linguajar viril, em verdade, que quase não se ouve mais hoje na boca daqueles a quem incumbe o dever de falar...
F. M. d'A.
(1) Recomendo esta obra muito documentada e, especialmente, o capítulo intitulado: "Antimaçons d'hier et d'avant-hier" (Difusión de la Pensée française - Chiré-en-Montreuil - 86190 Vouillé).
O CARDINAL PIE, UM BISPO DOS TEMPOS MODERNOS
Fez cem anos em 18 de maio de 1980 que Dom Louis-François-Désiré-Édouard PIE, bispo de Poitiers, cardeal da Santa Igreja, sob o título de Santa Maria da Vitória, entregou sua bela alma a Deus.
Este aniversário (1) deve ser para nós a ocasião de nos debruçarmos sobre a vida e a obra deste grande prelado que foi "tão grande em sua vida, maior após sua morte, e cuja estatura cresce à medida que o vemos a esta justa distância e sob esta plena luz em que o tempo e a reflexão colocam as coisas". (2)
Neste século XIX, marcado pela explosão arrogante do liberalismo oriundo da Revolução de 1789, é oportuno voltar-se para o magistério do bispo de Poitiers. Sua doutrina mostra-se sumamente luminosa e eficaz para solucionar os desafios com que nossa época se depara, os quais radicam justamente naquele catolicismo liberal que Dom Pie tanto combateu.
Diante desta hidra de múltiplos tentáculos, ele soube empunhar o estandarte da doutrina católica, de toda a doutrina católica. Lembrou-se de seu predecessor, Santo Hilário, e, à sua imagem, denunciou o erro e elaborou documentos que serviram para conjurar o mal.
Seus mandamentos, suas instruções sinodais e suas declarações eram sempre aguardados com impaciência em Roma, onde confortavam o coração do grande pontífice que foi Pio IX. Nesse período tão funesto para o mundo cristão, ele foi, sem qualquer dúvida, a consolação do coração desse grande Papa. Dom PIE antecipava todos os seus desejos. Assim que ele falava, o Papa aprovava, encorajava e defendia a obra do primeiro de todos os seus filhos e daquele que, sem dúvida, lhe foi o mais submisso e o mais apegado.
Propomo-nos, numa série de artigos, a estudar a obra deste prelado. Mas antes de procedermos ao exame do seu ensinamento, devemos lançar um olhar sobre a natureza da Revolução, tal como o bispo de Poitiers a analisou na sua "Terceira Instrução Sinodal sobre os Erros do Tempo Presente", datada de 1863.
Dom PIE definiu o programa do seu episcopado ao entrar na catedral de Poitiers, num sermão que se tornou célebre e cujo desenrolar nenhum ato veio manchar.
"Sou bispo; a este título, sou entre vós o cônsul da majestade divina, o embaixador e o encarregado de negócios de Deus. Se o nome do Rei, meu mestre, for ultrajado; se a bandeira do seu Filho Jesus não for respeitada; se os direitos da sua Igreja e do seu sacerdócio forem desconhecidos; se a integridade da sua doutrina for ameaçada — sou bispo, portanto falarei, levantarei a voz, manterei alto e firme o estandarte da Verdade... Os pusilânimes poderão espantar-se, mas que importa, falarei..." (3)
Por estas palavras, o estandarte de Cristo Rei foi plantado na cátedra de Poitiers para não mais descer enquanto o bispo vivesse. Jamais ele cessará de afirmar os direitos soberanos de Jesus Cristo sobre os indivíduos, mas também sobre as nações, pois ali, e somente ali, encontram-se a felicidade e a paz. Como poderia uma criatura criada por Deus e para Deus encontrar em outro lugar essa plenitude, se, já ferida pela queda original, só pode regenerar-se pela GRAÇA que é dada pelo Verbo Encarnado, morto e ressuscitado pela multidão?
A religião católica não é, portanto — e não pode sê-lo —, uma questão privada deixada à livre consciência dos indivíduos, mas é a única religião a ter direitos objetivos, pois está fundada em Jesus Cristo, princípio e fundamento de todas as coisas. Particulares e nações, todos devem submeter-se a Jesus Cristo, que conquistou direitos sobre nós pela sua Morte na Cruz.
É à luz destas considerações que Dom PIE abordará todos os problemas e todos os erros do seu tempo.
É preciso que Jesus Cristo reine; o bispo passará a vida a defender e a promover esta realidade.
Este espírito tão esclarecido soube detectar nos poderes oriundos de 1789 os objetivos reais dos seus detentores. A neutralidade das instituições não passava de uma quimera para afastar os indivíduos da doutrina católica, dividindo artificialmente a pessoa em duas partes distintas e independentes: a pessoa privada e a pessoa pública. A primeira poderia viver na Fé, enquanto a segunda deveria fazer gala de indiferença. Mentira e hipocrisia é essa tese, pois uma vez admitido este princípio, uma vez reconhecida a independência da criatura em relação ao seu Deus no domínio público, seria fácil fazê-la avalizar essa mesma independência na ordem moral, apresentando essa submissão como facultativa!
Este caminho é perigoso, pois as Instituições não poderiam prescindir dos preceitos divinos sem graves danos. Uma vez proclamados os Direitos do Homem, os Direitos de Deus são rapidamente esquecidos. Assim, um século antes de Pio XII, ele compreendeu que "da natureza das Instituições depende a salvação ou a perdição do maior número".
Dom PIE declarava:
"A declaração dos direitos do homem é uma base ruinosa e caduca sobre a qual nenhum edifício durou nem durará. Esforcemo-nos por neutralizar o erro, reprimindo o mal e fazendo do nosso ensinamento uma declaração solene dos Direitos de Deus".
Nesta breve introdução, acabamos de mostrar o que estava em jogo no combate de Dom Pie de Poitiers. É tempo agora de passar ao estudo da sua terceira instrução sinodal, que nos mostrará a Natureza profunda da Revolução e os remédios que convém aplicar.
A NATUREZA da REVOLUÇÃO, definida na TERCEIRA INSTRUÇÃO SINODAL de 1863
I - O Mistério da Encarnação
A Revolução propõe ao homem uma certa independência em relação à divindade; este é o princípio da verdadeira oposição à doutrina da Igreja. O que se visa é a própria pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto Ele é o objeto que a subversão quer atingir.
Cristo realiza em sua pessoa a união hipostática da natureza humana e da natureza divina.
"Este elo deve estender-se, segundo proporções e por meios divinamente instituídos, a toda a raça da qual o Verbo encarnado é o chefe, e que nenhum ser moral, seja individual e particular, seja público e social, pode rejeitar ou romper, no todo ou em parte, sem falhar com o seu fim e, consequentemente, sem prejudicar-se mortalmente a si mesmo e sem incorrer na vindita do Mestre Soberano dos nossos destinos. Tal é a substância do Cristianismo".
Eis, portanto, definido o plano divino tal como a Revelação no-lo propõe. Ora, neste século XIX, homens pretendem livrar-se da tutela da Fé, esquecendo que esta é necessária ao seu fim. Este erro chama-se NATURALISMO ou ANTICRISTIANISMO.
II - O Naturalismo, rosto da Revolução
Esta heresia apresenta-se, primeiramente, como um ato de revolta do homem. E, no entanto, não nos enganemos: historicamente, é preciso fazer remontar essa atitude à revolta dos anjos e de Satanás diante da decisão gratuita de Deus de descer à Sua criação na pessoa do Seu Verbo. Sabemos que esses puros espíritos recusaram-se a inclinar-se diante dessa natureza humana inferior à deles. O pai da mentira,
"sentindo-se ferido, vai refugiar-se no direito e na existência da ordem natural... ao ato livre de Deus, opôs um direito pessoal; enfim, contra o estandarte da graça, levantou a bandeira da natureza... Ele foi 'homicida desde o princípio' porque jurou a morte do Homem-Deus assim que o mistério do Homem-Deus lhe foi mostrado".
"O trabalho do inferno traduz-se sempre pelo ódio a Cristo, pela negação da ordem da Graça e da Glória".
Eis, portanto, a origem do naturalismo.
Este último nem sempre se manifesta de uma maneira tão radical. Existem vários graus de contaminação, mas não nos enganemos: "o veneno é sempre insuportável em qualquer dose!". E aqueles que aderem a esse erro são perigosos pelos efeitos que a sua adesão a essa doutrina diabólica produz.
a) O naturalismo moderado
Primeiramente, encontram-se aqueles que aceitam de bom grado a autoridade de Jesus Cristo na ordem das coisas privadas e estritamente espirituais, mas que O rejeitam nos assuntos públicos e temporais. São, atualmente, todos esses falsos católicos que se pretendem tais, mas que não querem impor a sua Fé aos outros. Toda essa gente esquece que o Verbo se fez carne; ora, Ele assumiu da natureza humana não apenas a substância espiritual, mas também a substância material. Encarnou-Se para todos os homens, portanto, para seres chamados a viver em sociedade. As consequências de tal fato são que Deus não Se encarnou apenas para almas separadas do seu invólucro carnal e que, longe de assistirmos a uma dualidade entre o corpo e o espírito, assistimos à redenção da natureza carnal e da natureza espiritual.
Depois, uma segunda categoria considera a ordem sobrenatural apenas como uma opção facultativa, pois somente a ordem da natureza "oferece à criatura racional um fim condizente com a pura natureza, e meios suficientes para atingir esse fim". Tudo deve ser resolvido fora de qualquer referência à Revelação no que concerne aos problemas da vida humana e do governo público. "É o Estado leigo com a sua educação nacional". Assim, é tachado de "clerical" todo leigo que não renegou o seu batismo e não traiu a sua Igreja.
b) O deísmo racionalista
Em um segundo nível, deparamo-nos com uma vontade que recusa qualquer intervenção do sobrenatural na vida humana. Deus teria estabelecido o estado de natureza de modo imutável, sendo a razão o seu componente essencial e inalienável. Ela torna-se o juiz supremo e o princípio de autonomia absoluta do homem, prescindindo de qualquer iluminação externa. Consequentemente, rejeita-se todo o conteúdo da Revelação. No limite, admite-se Deus apenas como uma causa conservadora, mas "não se admitirá qualquer intervenção pessoal de Deus no mundo criado".
c) O naturalismo alemão
A estas duas classificações, convém acrescentar outra. Até agora, nos sistemas encontrados, a coexistência de Deus e da natureza eram dois princípios reconhecidos. Tratava-se de duas entidades presentes que se opunham na sua relação, logo, que se afirmavam como diferentes. A isto, convém notar que o sistema filosófico que proíbe a Deus qualquer ingerência pessoal na ordem natural nunca passará de uma interdição arbitrária e contestável. Com efeito, se se admite a existência dessas duas entidades (e mesmo alguns não hesitam em afirmar que a natureza foi criada por Deus; ora, quem diz criatura diz noção de dependência em relação ao Criador ao qual deve a sua existência), em que lógica, então, se fundamentará o princípio de não ingerência do divino no criado?
Alguns encontraram o meio de contornar essa dificuldade metafísica estabelecendo a fusão do divino e da criação. A consequência deste raciocínio é extremamente grave, pois tem como resultado erradicar a ordem sobrenatural e levar-nos direto à Natureza-Deus. Temos aqui, resumido, o essencial da filosofia alemã.
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Eis, portanto, as características do naturalismo: a última categoria é, de longe, a mais perigosa, pois conduz diretamente ao panteísmo e ao ateísmo. Pode-se dizer que foi ela que venceu desde o século passado. No entanto, é preciso sublinhar que o catolicismo liberal foi sempre atraído pelas duas primeiras, e foram elas que prevaleceram no segundo concílio do Vaticano sobre a doutrina de sempre da Igreja. É por isso que é útil estudar as consequências do naturalismo em relação à fé.
III - As Consequências do Naturalismo
Na época de Dom PIE, o naturalismo era o fato de uma minoria de católicos que convinha, então, prevenir contra o veneno. Atualmente, esta heresia triunfou no seio dos católicos e ganhou para a sua causa as mais altas autoridades da Igreja. O escândalo é tal que é preciso compreender bem que o último concílio é uma verdadeira proclamação de fé naturalista, no que diz respeito à liberdade religiosa e à própria concepção da Igreja no mundo. Temos, diante destes fatos inconcebíveis, o dever de estudar a verdadeira doutrina da Igreja e de proclamá-la. Deste estudo, ressaltará que apenas o orgulho humano pôde encontrar uma satisfação suficiente na proclamação de tais erros.
Este naturalismo moderado, e que se apresenta como generoso, permite a esses cristãos que têm algum escrúpulo em renegar os seus princípios cristãos poderem valer-se do partido da ordem, já que reconhecem a existência de Deus, embora recusem, no todo ou em parte, a tutela desse mesmo Deus em quem ainda creem, e podendo também afirmar que o ensinamento da Igreja não obriga.
Apenas proclamar o naturalismo apresenta um inconveniente maior para aqueles que o tomam como sistema de pensamento. Com efeito, priva-os da graça sobrenatural da qual Jesus é o autor e o dispensador. De fato, diz Dom PIE, "o naturalismo é para os particulares o caminho certo do inferno".
Se considerarmos o naturalismo aplicado às sociedades: "rejeitando o jugo legítimo e glorioso daquele a quem o Pai Celeste deu todas as nações por herança, elas tornam-se presa de todas as ambições, de todas as ganâncias, de todos os caprichos do seu mestre de um dia; e, passando incessantemente da rebelião à servidão, da licença à tirania, não tardam a perder, com a honra cristã e a liberdade cristã, toda honra e toda liberdade".
Os últimos duzentos anos da nossa história ilustram suficientemente bem este princípio...
Não resta mais, diante de tais ineptidões, senão proclamar a Verdade. Dom PIE iria quebrar o silêncio pela força da sua palavra. Àqueles que o censuravam por falar, ele respondia: "A teoria do silêncio é, geralmente falando, uma teoria demasiado cômoda para não ser suspeita".
IV - A Proclamação da Verdade
A Verdade é Nosso Senhor Jesus Cristo, como Ele próprio nos ensinou. É neste ensinamento que devemos nos deter, pois ele responde aos falsos argumentos do naturalismo com uma força e uma luminosidade que não deixam margem para a sombra.
a) O Mistério da Santíssima Trindade
O naturalismo conduz à negação de Deus e de Seu Filho, o Verbo. Além disso, esta questão é de uma atualidade candente no momento em que o Padre Schillebeeckx afirma que a questão de saber se Nosso Senhor é Filho de Deus e se Ele é preexistente não passa, no fim das contas, de um simbolismo e de "especulações abstratas". Veja-se o progresso percorrido em 100 anos! É preciso que compreendamos bem que a Salvação só pode ser adquirida pela Fé, e não por especulações de intelectuais podres e sacrílegos. Que eles tremam, portanto, se ainda possuem a Fé!...
O principal erro cometido hoje consiste em aceitar a existência de um Deus que não é o da Revelação, pois esse deísmo é prático e não implica uma vida dominada pelas exigências do Evangelho. Compreende-se melhor agora os teólogos contemporâneos que, após terem modificado a doutrina católica, precisam, para torná-la lógica, atacar a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Ocorre que este erro não possui fundamento algum, pois o Cristo falou e é por Ele que somos restabelecidos na ordem inicial criada pelo Pai. Nossa natureza só pode florescer recebendo a Graça, e a Graça nos vem da Cruz.
Para ser salvo, é preciso crer em Jesus; no entanto, isso não é suficiente: é necessário um ato positivo que torne eficaz nossa adesão a Cristo. É o Sacramento que nos dá isso. Eis a grandeza do Batismo. Uma vez adotados por Deus, não podemos mais nos calar. Ouçamos o Cardeal PIE comentar esta realidade:
"Ai daqueles que de Vós se calam", exclamava Santo Agostinho. Este é o infortúnio deste tempo. O próprio fiel, aquele que crê em Deus, cala-se sobre Deus. A grande heresia da nossa era é a heresia prática contra o primeiro mandamento do decálogo. Falou-se tanto ao homem de seus direitos que ele perdeu de vista os direitos de Deus. Em mil coisas, a criatura assume atualmente, diante de seu Criador, uma atitude que não é conciliável com a virtude da religião. Ah! nós, ao menos, não nos calemos!
Para tanto, não há nada melhor que a oração, a oração da liturgia da Igreja, fundada por Jesus Cristo. Ora, diz Bossuet, "tende por indubitável que a Igreja é o único templo universal de Deus, e que ela é também o único lugar onde Deus é adorado em verdade", o que significa, prossegue Dom PIE, "que ela é a única escola onde os atributos divinos são ensinados tão luminosamente quanto aprouve a Deus nos revelar, e confessados com todo o ardor e pureza que Ele exige de Seus adoradores".
b) O lugar do homem na economia da salvação
Se Deus é rejeitado, reconhecem-se, na maioria das vezes, direitos a Deus na ordem espiritual, mas apenas ao homem na ordem temporal. Esta constatação nos leva à seguinte conclusão: há igualdade entre Deus e o homem. Por esse viés, deifica-se o homem. Mais uma vez, encontramo-nos diante de uma incoerência para com a fé. Sabemo-lo: o homem sem Deus nada pode fazer. Ora, quando ele pretende ser seu único senhor, esquece sua natureza de falha e de pecado e, a partir disso, chega a rebaixar-se ao nível do animal.
O perigo essencial que constitui o panteísmo reside no fato de o homem se fazer igual a Deus. A consequência que daí resulta imediatamente é assim definida por Dom PIE: "Se o mundo é consubstancial a Deus, logo todas as coisas nele são igualmente santas, e a distinção entre bem e mal não existe na realidade, e o próprio vício é uma forma do divino e pode pretender a apoteose: consequência diante da qual o naturalismo não recua". (É assim que se chegou a justificar o aborto em nome de situações de desespero).
O bispo de Poitiers explica que não poderia ser questão para o catolicismo desprezar o homem, já que Deus o criou; mas, por outro lado, o catolicismo sabe que a natureza não pode mover-se, reger-se e governar-se sem o concurso e a assistência de Deus. Ouçamos novamente o prelado: "Portanto, a menos que se chegue à desvairada ideia que confunde o universo com a essência divina, é impossível colocar a natureza inteligente mais alto do que o faz a doutrina cristã. Mas esta doutrina atribui ao ser racional a aptidão radical para a união, seja pessoal, seja mística, com a natureza divina". E, citando São Tomás, ele nos recorda que nossa verdadeira nobreza é poder ser aptos a ser desposados e adotados pela natureza divina.
Negar isso é subverter todos os fundamentos da verdadeira religião. Repitamos com São Paulo:
"Não há outro nome dado sob o céu aos homens pelo qual os homens possam ser salvos senão o de Jesus Cristo".
F.D. (corr.)
(1) Este artigo, devido à pena de um de nossos correspondentes, deveria ter aparecido no Boletim anterior, lançado em maio de 1980. Os imperativos da diagramação não o permitiram e ele sai apenas agora em outubro, passado o aniversário (S. A. B.).
(2) Cf. a Oração Fúnebre de Dom PIE, pronunciada em 7 de julho de 1880 por Dom Charles-Louis Gay, na catedral de Poitiers. Edição H. Oudin.
(3) Sermão de entrada solene em sua catedral, em 8 de dezembro de 1849, em Poitiers.
A GNOSE HOJE
O homem moderno é um "gnóstico sem o saber". Como se surpreender com isso? A sociedade de hoje está quase inteiramente impregnada dos ideais maçônicos. Os modos de pensar atuais são oriundos das lojas por meio de uma multidão de sociedades, clubes e grupos de pressão emanados delas. A própria Igreja já quase não se defende contra esta nova invasão bárbara, mais destruidora que a anterior, visto que se empenha em demolir o que ainda resta da civilização cristã.
Não é nossa intenção realizar uma obra de erudição, até porque isso já foi feito. Não queremos descrever minuciosamente as formas assumidas atualmente pelas gnoses modernas: isso perturbaria o leitor e confundiria os espíritos. Queremos, ao contrário, "decantar" essas gnoses e nelas reencontrar as fórmulas primitivas; melhor ainda, esforçamo-nos por reencontrar, sob o emaranhado das mitologias modernas, as grandes direções de pensamento que se mantêm e se desenvolvem ao longo dos séculos. De fato, existe uma progressão no erro, como na verdade. Certos espíritos, atraídos pela aparência de verdade que princípios falsos podem conter, não veem de imediato todas as consequências de suas afirmações; mas as gerações seguintes nelas se lançarão necessariamente, pois essas consequências estão contidas implicitamente nas premissas. Assim, veremos que Freud, Jung, Hegel e Marx não deixaram de desenvolver a gnose na linha da mais profunda subversão; que a Psicanálise ou o Marxismo são verdadeiras religiões, mas completamente invertidas: não se pode impunemente substituir o culto de Jesus Cristo pelo de Satanás; a subversão de toda a ordem cristã é "fecunda" em catástrofes apocalípticas: Satanás permanece "homicida" e "mentiroso" até a consumação dos séculos.
Poderíamos também ter prosseguido e "rastreado" a Gnose em Nietzsche e no neonazismo: ficará para uma outra vez.
I - ALGUNS DISFARCES MODERNOS DA GNOSE
A Maçonaria é a herdeira e a verdadeira detentora da Gnose. Vimos, no Ritual do Rosa-Cruz (18º grau), que ela pratica o Amor à Humanidade, que ensina a Roda Universal das Coisas e a Evolução do Grande Todo. É do seio das lojas que nasceram os grandes movimentos contemporâneos que se esforçam por divulgar, em uma sociedade descristianizada, as fórmulas e as práticas gnósticas.
1° A PSICANÁLISE
Freud participou regularmente das atividades da loja maçônica B'nai B'rith ("Filhos da Aliança") de Viena. Foi inicialmente atraído pela "Naturphilosophie", espécie de misticismo panteísta extraído particularmente dos escritos maçônicos de Goethe — também ele membro dessa mesma loja B'nai B'rith. Seguiu as ideias de Jacob Frank. Este último ensinava que "tudo doravante era santo", que existe de fato uma raiz do mal em Deus, mas que esse mal resultava apenas da dispersão das "Centelhas Sagradas" (as Almas) e que os homens deviam entregar-se ao mal para reuni-las. O pecado, diz ele, é Santo, é preciso lançar-se nele: é o Novo Messias. A ideia fundamental de Freud é que é preciso livrar-se de todas as leis religiosas, principalmente da Torá. Ele retira suas conclusões da Cabala, que é a forma essencialmente judaica da Gnose.
Diz-se no "Zohar" (Livro do Esplendor): "Com esta Árvore (a do conhecimento), Deus criou o Mundo; come, pois, deste fruto e serás semelhante a Deus, conhecendo o Bem e o Mal; pois é por este conhecimento que Ele é Deus. Come, pois, e serás criador de mundos. Deus sabe tudo isso e é por isso que vos proibiu de comer deste fruto; pois Ele é um Artesão ('um Demiurgo') e um Artesão detesta sempre os companheiros que exercem o mesmo ofício que ele".
Reconhecemos aqui as teses clássicas da Gnose, mas com um novo desenvolvimento. Com efeito, se o mal tem sua fonte em Deus, ele ali coexiste com o Bem, que é de essência divina. Portanto, em Deus (o Grande Todo-Pleroma), o Mal e o Bem são intercambiáveis. Se o Homem come do Fruto da Árvore da Gnose, ele conhece o Bem e o Mal; torna-se o seu Mestre; é ele quem definirá um e outro e dará a si mesmo a sua própria Lei. De repente, ei-lo Criador! E Adão e Eva não quiseram tirar as consequências de tal Presente!
Dissemos que a Psicanálise era a maior tentativa empreendida pelo mundo moderno para desculpabilizar o homem, para retirar-lhe a responsabilidade de seus atos, "libertá-lo" de seus escrúpulos de consciência e permitir-lhe entregar-se sem remorsos aos seus impulsos instintivos.
Deus, diz Freud, é a imagem que produz o sentimento de culpa. A doença do neurótico vem daí. É preciso encontrar uma Contra-Imagem: será Satanás, que permite que todos os impulsos da "Psiquê" se abram, tornem-se acessíveis à consciência e, portanto, sejam aceitos como libertadores. Satanás toma o lugar de Deus; ele venceu essa imagem sufocante do Pai; deu ao neurótico o alívio que este esperava; acalmou assim a sua angústia. Tal é o tema essencial de "A Interpretação dos Sonhos".
Jung acrescentará a essa empreitada de "Libertação" a noção de "Inconsciente Coletivo": o eu, diz ele, é inerente a um Si (Self) superior, que seria o centro de uma Personalidade psíquica total; ilimitada e indefinível "...". "Há apenas", diz ele, "uma Humanidade dotada de uma só Alma". Estamos em pleno Panteísmo. Essa grande Alma ilimitada e indefinível é o Pleroma de nossos gnósticos, que contém todas as Centelhas dispersas nos corpos dos homens e que será preciso reunir pela prática do "Santo Pecado", como dizia Jacob Frank.
A NOÇÃO DE INCONSCIENTE
A palavra e o conceito de inconsciente aparecem pela primeira vez em Fichte e Hegel. A psicanálise fez dele um uso delirante. A necessidade do inconsciente surgiu entre os filósofos idealistas ou subjetivistas para explicar o surgimento das ideias na alma.
Nos filósofos realistas — por exemplo, São Tomás de Aquino —, a percepção do objeto desperta em nossa alma uma faculdade intelectual que, ao se aplicar a esse objeto, extrai dele a ideia inteligível (São Tomás diz: "a forma"). Assim, a ideia é o resultado de uma abstração. O conhecimento é precedido pura e simplesmente pela ignorância (ignorar é não conhecer).
Nos filósofos idealistas, a ideia já está na alma antes da percepção do objeto. Quando o objeto aparece, ele é a ocasião, a circunstância que desperta na alma a ideia que ela continha anteriormente. Nossa alma estaria, portanto, antes de qualquer conhecimento devido a uma percepção, cheia das ideias das coisas que iria perceber ao longo da existência; mas essas ideias estariam em estado de sono, portanto, inconscientes. A percepção do objeto atua como um choque iluminador. A alma reconhece no objeto a ideia que já possuía sem conhecê-la bem. Chama-se a isso "Inatismo" (nossas ideias já estão em nossa alma no momento do nascimento).
Trata-se de um Inconsciente cheio de Ideias, de uma alma repleta de conhecimentos ainda desconhecidos.
Para os gnósticos, de fato, as almas humanas são centelhas divinas caídas do céu em corpos por uma queda catastrófica. Seu novo estado é contra a natureza e violenta sua aspiração fundamental: o retorno ao divino. Mas seu estado anterior era divino, logo, onisciente. Para onde foram os conhecimentos anteriores? É preciso encontrar-lhes um lugar em algum lugar: será o Inconsciente.
Jung acrescenta que as centelhas divinas são parcelas de uma Única Alma universal; as ideias humanas são, portanto, parcelas de uma Ideia universal; dispersas nas almas, elas pertencem a uma Coletividade, a Divindade original encarregada de "coletar" as almas para reconstituir o Grande Todo. Daí a ideia de Inconsciente Coletivo, que supõe a preexistência das almas antes da concepção e que permitirá conceber a noção de reencarnação ensinada na Metempsicose.
Já os grandes gnósticos ensinavam esses dois últimos pontos. A Psicanálise apenas extraiu as consequências: nossas ideias não nos são pessoais, são comuns — não porque o objeto conhecido seja o mesmo para todos que o percebem (o que é o bom senso natural), mas porque nossa alma possui apenas parcelas de uma mesma ideia coletiva inconsciente. É fundindo nossas ideias na corrente do Pensamento coletivo que poderemos nos preparar para o retorno ao Grande Todo original divino. Como se vê, de Jung a Marx, há apenas um passo a ser dado.
Precisemos ainda que as sessões de psicanálise são assimiladas a ritos de iniciação, desvendamento dos Mistérios do Inconsciente, vestidos com uma mitologia pitoresca: complexos de Édipo, de Electra, de Diana. Deus, a Mãe, o Menino divino são, na boca do psicanalista, Arquétipos, ou seja, símbolos religiosos e não seres reais.
Jung toma emprestado da Gnose e da Astrologia alguns termos importantes de seu ensinamento. Assim, a expressão da Perfeição ou da Totalidade é o Quadrado, a Tétrade ou "Tetractys" (a Tetractys é o nome composto pelas quatro letras que, em hebraico, significam Deus). A Trindade divina é, na realidade, uma "quaternidade inacabada". É preciso acrescentar-lhe o Mal ou Satanás para atingir a Perfeição da Essência divina. Em Jung, também o Mal está em Deus; mas Deus e o Si (Self) são idênticos. O "Si" é sagrado: "Observamos que ambos, Deus e o Si, são expressos por Símbolos idênticos".
Jung acrescenta: "Não podemos comparar o interesse despertado pela Psicanálise de Freud senão à eflorescência do Pensamento gnóstico. As correntes espirituais atuais têm, de fato, uma afinidade profunda com o Gnosticismo... A Teosofia, com sua irmã continental, a antroposofia, são Puro Gnosticismo sob um disfarce hindu... O que é surpreendente nos sistemas gnósticos é que eles são baseados exclusivamente nas manifestações do Inconsciente e que seus ensinamentos morais não recuam diante dos lados sombrios da vida (entre parênteses, este inconsciente é a psiquê dos gnósticos, sede das paixões e das agitações do corpo). Não creio ir longe demais ao declarar que o homem moderno, ao contrário de seu irmão do século XIX, volta-se para a psiquê com grandes esperanças e sem se referir a qualquer crença tradicional, mas antes no sentido de uma experiência religiosa gnóstica". (Problema da Alma Moderna).
Não se poderia dizer melhor. A Gnose fez, por meio da Psicanálise, um retorno triunfal em um mundo descristianizado. Mas a Psicanálise apresenta uma novidade notável. Com efeito, a Gnose esbarrava em incoerências e contradições que tinha dificuldade em resolver. A Psicanálise brinca com essas dificuldades. Exemplo: o problema do Mal.
Os gnósticos não sabiam como conciliar o Bem e o Mal na Divindade. Pois bem! Não há diferença alguma entre o Bem e o Mal, dizem os psicanalistas. Melhor ainda, em Deus, o Mal é a Perfeição do Bem, o coroamento da Divindade. O próprio Satanás faz parte integrante de Deus. Ele é aquele ser divino que ensinou aos homens que eram senhores de si mesmos, capazes de discernir o Bem e o Mal.
Os gnósticos afirmavam que nossa alma, centelha divina, devia permanecer indiferente, impassível diante das agitações e impulsos da Psiquê. Os psicanalistas afirmam, ao contrário, que o homem deve dar livre curso a esses impulsos, deve até mergulhar neles na satisfação de seus prazeres, como em uma orgia sagrada, já que os movimentos da Psiquê são também símbolos da Perfeição divina. O que, outrora, era reservado a alguns iniciados durante uma cerimônia sagrada, será praticado correntemente hoje por todos. A prática da ascese nos Gnósticos Perfeitos, Puros, Cátaros, era outrora não um meio de atingir a divindade, mas o Sinal de que ela já havia sido atingida, de que o Homem havia realizado em si a Unidade perfeita. A prática da devassidão no gnóstico moderno será, portanto, o Sinal de que o Homem ultrapassou as categorias do Bem e do Mal, que chegou finalmente ao Domínio total de si mesmo, capaz de dar a si mesmo a lei de seu prazer sem ter de prestar contas a ninguém: a liberdade total sem a menor responsabilidade.
Como Subversão de toda a Ordem natural e divina, não se poderia encontrar nada melhor; e, no entanto, veremos que os Marxistas levarão ainda as teses gnósticas até as suas consequências extremas. Com eles, cairemos no último grau do Ódio satânico contra a Ordem do Criador.
2° O HINDUÍSMO OCIDENTALIZADO
Nos tempos modernos, a Gnose despojou-se de toda uma linguagem obscura e complicada com a qual disfarçava o seu ensinamento verdadeiro. Foi-lhe necessário renovar o seu vocabulário e as suas fórmulas para atingir um novo público. Foi, portanto, buscar nas Índias as novidades capazes de devolver um certo prestígio ao seu ensinamento. Lançou uma moda nova, inteiramente realçada pelo atrativo dos países exóticos.
Será preciso salientar que, se o formulário foi renovado, o conteúdo permanece inalterado? A Gnose continua sendo, por definição, a antítese da Fé cristã, mesmo quando se apresenta cheia de benevolência para com a Igreja e de aparente respeito pelo seu ensinamento. Respeito e benevolência de pura conveniência. Não se vai, de pronto, atacar as convicções daqueles que se espera atrair. Ao contrário, mostrar-se-lhes-á que o novo ensinamento não faz senão aperfeiçoar, coroar, explicitar a sua fé cristã. Esse será o objetivo da "Nova Direita": apresentar esse ensinamento como a perfeição da Doutrina cristã, retomando assim o procedimento dos gnósticos de outrora, que se apresentavam aos seus futuros discípulos com todas as aparências da ortodoxia, afirmando até terem compreendido melhor o ensinamento do Cristo do que os chefes da Igreja.
a) A Teosofia
Sabe-se, pela história de Mme. Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, que a sua formação é de origem inteiramente maçônica. Já em 1856, ela aderia aos carbonários da "Jovem Europa"; em 1857, adere a uma sociedade de Rosa-Cruzes na América e apenas em 1878 parte para as Índias, onde pretende descobrir uma reencarnação de Pitágoras (?). Funda revistas: "Ísis sem Véu" (L'Isis dévoilée) – "Lúcifer", e depois "O Lótus Azul". Em 1907, M. Oltramare publicava nos "Anais do Museu Guimet" um esclarecimento muito enérgico: "Sabe-se como os apóstolos do novo evangelho ocultista afetaram pedir à Índia a solução dos problemas da vida e da morte... Não é da Índia, mas da tradição antiga, do Judaísmo e do Renascimento que vêm, no que têm de essencial, as concepções teosóficas modernas. Em busca de autoridades que parecessem decisivas, o que os nossos teosofistas pediram à Índia foi a confirmação de teorias que eles já possuíam. É verdade que lhe tomaram emprestada também uma grande parte da sua nomenclatura". A Teosofia é inteiramente extraída da Gnose, da Cabala e do Neopitagorismo. Ela encontra-se exposta em "O Livro dos Espíritos" de Allan Kardec, publicado em 1857, onde se encontram enumeradas as doutrinas da emanação e do retorno final ao Todo original, tal como foram ensinadas outrora pelos Gnósticos, sem a menor referência ao Hinduísmo.
b) René GUÉNON
René GUÉNON é também um exemplo notável do gnóstico moderno que possui a arte de se apresentar como um cristão, colaborando em revistas católicas, oferecendo ao mundo moderno ateu uma crítica muito particular que enganou mais de um sobre as suas verdadeiras intenções. A sua conversão ao Islã acabou por abrir os olhos à maioria daqueles que foram atraídos por ele. Mas, na realidade, ele recebeu toda a sua formação nos meios maçônicos, e era preciso sabê-lo. Aderiu desde 1906 a Sociedades iniciáticas: Ordem Martinista, Rito de Memphis, Igreja Gnostica, Grande Loja da França, etc. Criou a revista "A Gnose" (La Gnose) e, depois, os "Estudos Tradicionais" (Les Études Traditionnelles). Primeiramente, despreza o Budismo, vendo nele apenas uma heresia protestante do Hinduísmo. Depois, retrata-se, interessa-se vivamente pelas Índias, estuda o Bramanismo.
Vejamos a sua doutrina. Ela é dita inteiramente extraída do "Vedanta" na sua forma tradicional e ortodoxa. O Mundo é a manifestação de um princípio supremo "não manifestado": Brahma. Este é o Universal, o Todo absoluto, o Infinito. Só se pode falar dele por negação. O mundo, a sua manifestação universal, não se distingue de Brahma. "Brahma modifica-se diversamente... Todas as coisas não existem senão como as suas modificações" (O Homem e o seu Devir). O movimento da existência é uma expansão do Princípio imutável. René Guénon, embora se defenda, não escapa, com tais fórmulas, à acusação de Panteísmo.
O Ser humano comporta um princípio universal, o Si (Soi), idêntico a Brahma; modalidades mediadoras entre o Si e as modalidades inferiores, "sutis ou psíquicas" e "grosseiras ou corpóreas". O Si está "sepultado como um grão de arroz" nas modalidades inferiores. A libertação consiste em passar por graus diversos de Retorno a Brahma: "descida aos Infernos" — isto é, desenvolvimento da individualidade corpórea —, depois acesso progressivo aos estados superiores do Ser: realização dos estados angélicos, até atingir a Identidade suprema, a unidade com Brahma... "A ressurreição dos corpos é a transposição para fora da forma e das outras condições da existência individual", portanto, o retorno ao grande Todo.
Visto que o Homem possui no centro de si mesmo o "Si" idêntico a Brahma, depende apenas dele reunir as suas forças concentrando-as no Si. É preciso primeiro receber uma "influência espiritual", um sopro do Espírito, depois praticar exercícios progressivos de "concentração", passar pelo estado de sonho e, em seguida, por estados "supraindividuais". Chega um momento em que o ser, que "já não pode ser dito humano, está doravante fora da corrente das formas". É a libertação, a União com o Absoluto; o Yoga tornou-se Yogi, identificação suprema, definitiva, eterna. Mais feliz que Adão, tornou-se Homem Universal, Rei do Mundo.
É então que se pode falar do Ser que é para si mesmo a sua própria lei, porque é plenamente idêntico à sua razão suficiente, que é ao mesmo tempo a sua origem e o seu destino final (Estados Múltiplos do Ser). Ele percebe diretamente os estados superiores do seu ser, espécie de êxtase ou hipnose; depois atinge "a restauração do estado primordial", prerrogativa que era natural nas primeiras eras da Humanidade e que foi perdida por Adão e Eva. É necessário agora um "alto grau de iniciação" para tornar-se o êmulo do primeiro Adão e triunfar onde ele falhou.
A Igreja Católica possui em si mesma uma força latente, oculta, da qual deve tomar consciência para estar em posse do "Catolicismo integral". Basta "restituir à doutrina desta, sem nada mudar na forma religiosa sob a qual se apresenta exteriormente, o sentido profundo que ela tem em si mesma, mas do qual os seus representantes atuais parecem já não ter consciência, tal como da sua unidade essencial com as outras formas tradicionais...". A Tradição subsiste na Igreja "em modo de expressão simbólica". O Cristo é o "Homem universal", o maior dos Iniciados, o Símbolo da Identificação suprema do Homem com Deus".
Retranscrevamos tudo isto em grego: Brahma é o Pleroma; o Si é o "Pneuma"; depois vêm as modalidades mediadoras: a "Psyche", modalidade sutil, e o "Soma", modalidade grosseira. O grão de arroz que sepulta o Si é a matéria que mantém prisioneira a centelha divina. A subida para os estados superiores é a passagem através dos Éons dos Gnósticos. Reencontra-se em Guénon o Panteísmo e o Emanatismo próprios de toda gnose. Nada há ali de muito original. Estamos em um mundo já bem conhecido.
Para se deixarem atrair por tais elucubrações, é preciso que os cristãos de hoje tenham verdadeiramente perdido, junto com todo o bom senso, o essencial da doutrina cristã. Já não encontram no ensinamento da Igreja os pontos de apoio necessários para resistir a essa invasão gnóstica disfarçada de Hinduísmo. Daí o sucesso atual da prática do Yoga, das sessões de expressão corporal, do "Retorno às Fontes" de um Lanza del Vasto, etc.
2° DA GNOSE ao MARXISMO ou "dos PROGRESSOS do ESPÍRITO HUMANO NA HERESIA"
Se, no dizer de Tertuliano, Adão e Eva foram apenas noviços em matéria de heresia, deve-se confessar que os Gnósticos haviam aperfeiçoado o seu sistema. A inspiração satânica tem isto de notável: esforça--se por introduzir uma lógica rigorosa na inversão do Real, o que é uma proeza. A partir de um Princípio falso — a confusão entre Deus e o Mundo —, era necessária uma inteligência sutil para imaginar uma construção na qual todas as partes estivessem bem ajustadas, apresentando um Edifício acabado, atraindo os olhares e as inteligências. Conhecemos o poder de Satanás na Arte da Mentira. É necessário que a mentira tenha as aparências da Verdade para obter o assentimento dos homens. Ela não pode extrair essa aparência do seu ponto de partida, já que este é falso, por definição; extraí-la-á, portanto, da coesão interna das proposições pelas quais o Mentiroso expõe o seu ensinamento.
Ora, os primeiros Gnósticos viram-se enredados nas suas distinções entre o Bem e o Mal, sem poderem resolver essa antinomia. Vimos os psicanalistas varrerem com um traço de pena tal distinção: não há nem Bem nem Mal. Para um Ser divino, tudo é bom. Resta uma dificuldade suprema: entre o Grande Todo imutável e eterno e as suas manifestações múltiplas e mutáveis, tais como aparecem ao olhar de qualquer um, há ainda uma antinomia: como conciliar, no interior da Única Divindade total, a Imutabilidade e a mudança, a Eternidade e o Tempo, a Unidade e a multiplicidade dos Seres?
Com efeito, o Panteísmo obriga aqueles que o professam a introduzir e a fazer coabitar em Deus a Eternidade e o Tempo, o Imóvel e a Evolução, em suma, o Ser e o Nada. Singular dificuldade! Ela não escapou aos Gnósticos.
a) Os escritos herméticos
Eis como M. Vacherot, na sua "História Crítica da Escola de Alexandria", resume o ensinamento de Hermes Trismegisto sobre a divindade: "Deus é o Bem, como o Bem é Deus. Ele é o Não-Ser enquanto é superior ao Ser. Deus produz tudo o que é e contém tudo o que ainda não é... Deus é a vida universal, o todo do qual os seres individuais são apenas as partes... Deus é Tudo, Tudo está cheio de Deus; não há nada no Universo que não seja Deus. Todos os nomes Lhe convêm como ao Pai do Universo, mas porque Ele é o Pai de Todas as Coisas, nenhum nome é o Seu próprio nome. O um é o todo, o todo é o um..." "Deus, o Pai, o Bem, o que é? senão a existência daquilo que ainda não é?"
Eis ainda outras fórmulas de Hermes Trismegisto: "Eu sou o Ser e o Nada... Eu sou o Gerador de todas as coisas; de mim o Universo se desenvolve. Eu sou o Começo, o Meio e o Fim". "O Eterno não foi gerado por outro; Ele cria-Se a Si mesmo eternamente. Se o Criador não é outro senão aquele que cria, Ele cria-Se necessariamente a Si mesmo, pois é ao criar que Se torna criador. Ele é o que é e o que não é" (subentendido: o que ainda não é, mas que será mais tarde).
Pode-se resumir tudo isso em algumas proposições simples:
- O Emanatismo: tudo emana de Deus, já que Ele gera a partir de Si mesmo e não cria. O Universo é o seu próprio desenvolvimento, uma extensão do seu ser.
- A autocriação: por esta geração, Deus não coloca seres fora de Si, nem mesmo sob a Sua dependência; Ele cria-Se a Si mesmo pela expansão da Sua própria substância. Não é, portanto, criador de um Mundo distinto de Si. Será preciso prestar atenção a este novo sentido da palavra "Criação" nos textos que se seguirão, particularmente em Hegel.
- A Evolução: Deus, gerando perpetuamente um Universo em constante expansão, é Ele próprio a Evolução. Digamos ainda melhor: a Evolução é Deus desenvolvendo-Se, produzindo a multiplicidade dos Seres por uma geração interna. Ele é, portanto, em cada instante do Seu desenvolvimento, o Ser daquilo que já é e o nada daquilo que ainda não existe e que existirá ulteriormente.
Há, portanto, n’Ele um movimento perpétuo do Nada ao Ser, uma gestação dolorosa e difícil para fazer passar ao Ser o Nada que resiste. Eis a fonte da Dialética hegeliana.
b) Hegel em sua "Filosofia da História"
"Na origem", diz ele, "Deus não passava de uma solidão sem vida", portanto, um ser não-ser, um Nada Universal, uma Consciência universal inconsciente (vê-se aonde levam tais pressupostos). Esta é a asserção fundamental do Panteísmo: a posição da tese. Mas a necessidade de se manifestar para se contemplar como num espelho, ou ainda para se tornar Consciência, levará esse "Todo divino abstrato" a desdobrar-se e a projetar diante de si uma fração de si mesmo: a Natureza concreta. Eis a antítese.
Não se trata de uma criação, embora Hegel utilize o termo; trata-se de uma geração, de um processo de desdobramento. Do "Nada superextencial" é gerado um mundo concreto, a Natureza. É uma autocriação interna. Com efeito, Hegel acrescenta: "A Essência divina é a mesma coisa que a Natureza em toda a sua amplitude". A Essência divina, a princípio "sombra incriada", não-ser, puro abstrato, eleva-se ao estado de existência exterior.
Não há queda, embora Hegel utilize a expressão "pecado original cósmico" (veremos, de fato, que ele aprecia fórmulas emprestadas da linguagem cristã, mas para subverter-lhes o sentido); há, na realidade, um desenvolvimento do Ser divino por desdobramento, como um ser vivo se desenvolve pelo desdobramento de suas células. Esse processo de exteriorização de Deus permite à Consciência inconsciente tornar-se manifesta, "finita", delimitada, cognoscível e, portanto, "consciente". Mas, ao fazê-lo, ela se manifesta como dividida. Eis uma dualidade introduzida em Deus.
O Homem não é divino como o restante da Natureza; ele o é de maneira supereminente, pois somente ele possui o privilégio de ser consciente de sua existência. Ele é a fração da Consciência universal que chegou a esse saber. Somente o Homem é espírito; ele é a Consciência divina concretizada. Ele é gerado de Deus, portanto, Filho de Deus. Ele é o Verbo de Deus, pois é ele quem dá consciência e palavra ao Espírito divino universal inconsciente. (Vê-se, aqui, a utilização blasfema dos atributos de Cristo). Ele é, no processo da própria Gênese de Deus, o momento crucial, o advento de um estado superior da Divindade. Mas esse Advento do Homem é um parto doloroso e trágico, uma provação divina. Com efeito, a lei universal da Evolução provoca assim, em Deus, reviravoltas, metamorfoses qualitativas internas.
O Homem é um Espírito-Consciência, mas sendo uma fração da Divindade, ele se conhece, porém como submetido à Consciência universal primitiva (e Inconsciente). É um Espírito limitado, "finito". Ele quer igualar-se à Consciência universal. Não aceita ser apenas uma fração dela. É o gesto de revolta de Adão, o início de um movimento para uma "legítima recuperação" da Divindade total. "Adão inaugurou os trabalhos gigantescos de sua ascensão ao Espírito". Ele falha e perde o Paraíso, que lhe é retirado pela jalousie [ciúme/inveja] do Deus inconsciente primitivo: "Eis que Adão se tornou como um de nós, conhecendo o Bem e o Mal", diz este último, confirmando assim as palavras da Serpente: "Se comerdes deste fruto, sereis como deuses" (Eritis sicut dei).
Ora, em Deus, Satanás é o Motor da Evolução, a força interna do Devir, a potência evolutiva da Consciência. É ele quem gera o Deus final perfeito, quem faz a História. Ao inspirar a revolta do Homem, ele prepara o advento da Divindade perfeita, ele completa o Mundo. Sua promessa feita a Adão está em devir.
A Encarnação de Cristo marcará uma nova fase dessa recuperação divina, dessa subida progressiva rumo à perfeição em devir. Com efeito, privados de sua parte celeste, a Natureza e o Homem tornaram-se fragmentos insatisfeitos de Deus. O Cristo, ou essa parte celeste da Divindade tornando-se progressivamente consciente, atinge assim uma perfeição supereminente, a de uma Consciência que se conhece. Por meio disso, Deus reconhece essa igualdade que havia recusado a Adão. A Encarnação é a Elevação da divindade primitiva cega à realidade concreta e consciente da Pessoa humana. É igualmente uma queda: é a "Morte de Deus em Jesus Cristo". "Ao tornar-se Homem", diz Hegel, "Deus morreu enquanto Deus", isto é, o Cristo matou em si a divindade primitiva inconsciente e fez-se Homem consciente, Homem incomparável. É um grande passo em direção à Unidade divina; mas para que a "renovação do divino e do humano em Deus" seja completa, é preciso ainda que o Cristo morra enquanto Homem. Então, não subsistirá mais nenhum privilégio, nem na terra, nem no céu; a Fusão será total, a Unidade alcançada. O homem sozinho será Deus: ele é o Espírito finito que se metamorfoseia em Espírito infinito. Mas, para isso, o homem deve "matar" o Cristo, Deus feito homem.
A humanidade futura será a Igreja, a "Consciência coletiva" que terá reencontrado sua Unidade interna. Então o Homem terá a "Intuição de si do divino". A Gênese de Deus estará terminada. O Deus primitivo e zeloso ter-se-á apagado diante do homem. "Somente o homem é divino". A síntese estará concluída. Eis o verdadeiro sentido da História.
Resta apenas comparar Hegel aos primeiros gnósticos. Que progresso!
O aparecimento do Mundo material não é mais considerado uma catástrofe, mas um desenvolvimento biológico, segundo a Evolução de um Ser em Devir — desenvolvimento doloroso, decerto, como todo parto, mas segundo um processo regular, o de um ser em expansão, e não como uma ruptura (a expressão Pecado Original cósmico, retomada da fórmula cristã, destina-se a marcar que, para o Homem ainda não chegado à Perfeição divina, essa Evolução resulta numa fratura de sua consciência em uma multidão de individualidades, do mesmo modo que as células de um ser vivo se cindem em duas para assegurar o desenvolvimento de todo o organismo). Assim, a Matéria não pode mais ser dita má. Ela é apenas um momento (no sentido de fase) imperfeito em uma Evolução.
A alma humana não é mais uma parcela divina caída, decaída, encerrada na matéria pela vontade de um Ser malfaisante; ela é, pelo contrário, a eflorescência da Natureza divina que passa de um estado inconsciente ao estado consciente que é o Pensamento humano. O Espírito sai da Matéria por uma emanação natural. Ele é a Matéria tornada pensante, consciente de si mesma: é um processo de Conscientização.
A revolta de Adão contra uma Divindade zelosa, a Encarnação de Cristo rejeitando sua Divindade primitiva para elevar-se à Consciência humana — estas são as etapas (Hegel diz os "momentos") sucessivas e capitais do divino rumo ao seu Coroamento. Com efeito, como todo ser vivo que cresce rejeita os resíduos inúteis, as velhas vestes pequenas demais para adquirir novas dimensões e acréscimo de ser (é a própria lei de toda Evolução biológica), assim uma perfeição nova no processo de divinização torna caducas as formas anteriores: o que pode fazer um Deus inconsciente, mas começando a conhecer, diante da Ciência de Adão? Senão retardar o momento em que essa ciência o dominará. O que pode fazer um Cristo tornado Homem, senão despojar-se de uma Divindade tornada ilusória em presença da Perfeição do Espírito humano? etc.
Enfim, as distinções entre Bem e Mal não têm mais sentido algum. A Evolução do Todo no Panteísmo só deixa lugar para duas noções: as forças que propulsionam o movimento (e sabemos que Satanás é o seu Mestre) e as forças que freiam o processo de autodivinização — e já sabemos que estas serão esmagadas pela velocidade adquirida pelo próprio movimento.
Da mesma forma, não há mais necessidade de Iniciação, de Segredo reservado aos que vão realizar sua Unidade perfeita e atingir esse Pleroma, e recusado aos outros, condenados a permanecer encerrados, cegos, em seu corpo material. Pelo contrário, todos os homens são arrastados no Movimento, queiram ou não: os que se atrasam são esmagados, e os eventos da História nada mais são que os solavancos provocados pelas variações de velocidade entre os seres múltiplos que se deixam empurrar com maior ou menor facilidade rumo à Unidade do Grande Todo.
O que permanece imutável, eterno nesta Evolução, é a Lei do Movimento, lei absoluta da qual nenhum ser escapa. As resistências de alguns não passam de sobressaltos sem consequências. Um empurrão mais forte dado pelo Mestre da Evolução recoloca cada um em posição na "Roda universal das coisas".
c) Algumas consequências na Doutrina marxista-leninista
O Marxismo é um esforço gigantesco para passar à prática o tema da morte de Deus e da Divindade do Mundo:
"Tomar consciência da inexistência de Deus e não tomar consciência ao mesmo tempo da própria divindade é um absurdo", faz Dostoievski dizer a um de seus heróis. Em outras palavras, não há outra alternativa ao Teísmo senão o Panteísmo, permanecendo o Ateísmo uma noção puramente negativa. O homem deve apropriar-se da potência criadora outrora atribuída a Deus. A promessa de Satanás: "Sereis como deuses" deve ser realizada pelo Homem: "será a Deificação do Homem pelo Homem, com o Homem e no Homem". Veja a Inversão blasfema da fórmula litúrgica do "Per ipsum"!
Os atributos de Deus passarão doravante ao Mundo e ao Homem.
O Culto do Trabalho: Karl Marx escreve: "Toda a História universal não é outra coisa senão a procriação do Homem pelo Trabalho humano. O Homem possui assim a prova visível e irrecusável de seu nascimento por si mesmo, do processo de sua criação". O Homem é o produto do trabalho humano. O Trabalho é potência criadora e libertadora.
Vimos os Gnósticos afirmarem a autocriação de Deus por si mesmo. Ao criar, Deus cria-se a si mesmo, visto que os seres que gera não são ainda senão um desenvolvimento no interior de sua divindade. O Homem é Deus, diz Hegel, e o é supereminentemente, pois é o Deus-Consciência. Ele procria-se a si mesmo por sua ação. O Trabalho que transforma a natureza transforma-o e conduz-no ao coroamento de sua "Autodivinização". O Trabalho é, portanto, obrigatório: "Quem não trabalha, não come", pois "sem o trabalho que transforma o mundo objetivo, o homem não pode transformar-se a si mesmo", disse Marx. Vê-se bem que não é possível apenas resistir ao Movimento da História, mas tampouco cruzar os braços para assisti-lo como espectador indiferente: "a Roda universal esmaga também os que param à beira do caminho".
Satanás é o Grande Tentador. Sua mentira tem verdadeiramente as aparências de uma Verdade total. É por isso que atrai tantas almas em suas armadilhas. É muito difícil resistir-lhe se não se estiver armado por um sólido conhecimento da verdadeira Fé. É na medida em que os espíritos são privados do ensinamento da Igreja que eles se precipitam nas seitas "gnósticas" modernas ou no marxismo, que lhes propõem um Conhecimento perfeito e uma eficácia temporal que conduz a um "Sucesso" assegurado neste Mundo divino. Como resistir a tal atrativo?
E.C.
TESTEMUNHO SOBRE AS ORIGENS DO CENTRO DE PASTORAL LITÚRGICA
Um artigo publicado no Boletim nº 4 analisou o testemunho de um beneditino alemão sobre a situação do movimento litúrgico na Alemanha e na Itália por volta da Primeira Guerra Mundial, durante o primeiro quartil do século XX.
Seguindo o mesmo procedimento, apresentamos hoje outro testemunho proveniente, desta vez, de um religioso francês, e que se refere ao período da Segunda Guerra Mundial; outra diferença importante reside no fato de o autor não ser mais um espectador mais ou menos marginal, mas um dos próprios protagonistas da operação durante o segundo quartil do século XX.
O R. P. [Reverendo Padre] Pie DUPLOYÉ, O. P., foi, de fato, o fundador do Centro de Pastoral Litúrgica (C.P.L.), cujos primeiros passos relatou em um livro intitulado: As Origens do C.P.L. — 1943/1949, escrito em 1967 e publicado em 1968 pelas Edições Salvator. As citações abaixo foram extraídas desta obra, que pode ser adquirida em livrarias e que contém, aliás, páginas muito belas. (1)
O Centro de Pastoral Litúrgica, que se tornou posteriormente Centro Nacional quando foi plenamente oficializado, nasceu no viveiro dominicano. Após uma longa preparação doutrinária, especialmente no seio da ordem beneditina, na Bélgica e na Alemanha, a revolução litúrgica recrutou seus homens na França dentro da Ordem Dominicana e, para compreendê-lo, é preciso levar em conta o ambiente da época.
Após a crise de 1926, os elementos tradicionais dentro da ordem foram reduzidos ao silêncio, enquanto um homem de grande talento, o P. CHENU, pôde apoderar-se livremente das mentes dos jovens frades, particularmente numerosos naquele momento, para lhes instilar seu vírus progressista: desta forma, por volta do ano de 1935, formou-se todo um meio humano onde se recrutaram as equipes necessárias para as operações de desvio.
A principal dessas operações, que serviu de suporte às outras, foi a criação das Éditions du Cerf em Juvisy, pelo P. BERNADOT; ali nasceria o semanário progressista Sept (2) e seu sucessor Temps Présent (3). Sobre esta origem humana e doutrinária, o P. Duployé não faz mais mistério ao escrever:
"Mas, enfim, foi no próprio Paris, desde 1935, que se ligou o 'Querigma' às 'ágapes'. A esses amigos que se questionavam em uma Paris deserta e faminta, e dos quais vários viriam a perecer na deportação, propor-se-ia novamente a atividade que os havia reunido por ocasião da fundação da Sept: a propaganda de um jornal." (páginas 262-283). (4)
O autor especifica, além disso, que se tratava de um plano de conjunto, cujos fios eram todos puxados pela mesma mão:
"O trabalho comumente designado pelo nome de movimento litúrgico não é um fenômeno isolado na vida da Igreja contemporânea. É apenas um dos aspectos desse questionamento geral, benfazejo, e que desejamos cada vez mais drástico, ao termo do qual as coisas e as palavras cristãs reencontrarão seu sentido. Nesta perspectiva, é altamente significativo que o CPL tenha nascido nas Éditions du Cerf." (página 332)
"A este respeito, o movimento litúrgico é estreitamente solidário ao trabalho de purificação e de educação empreendido com uma coragem admirável por meus irmãos e amigos, os Padres Couturier e Régamey, no domínio da arte sacra." (página 333)
O verdadeiro arranque do CPL ocorreu em 1941, por iniciativa do P. Maydieu, e consistiu em um álbum litúrgico coproduzido em ligação com as Éditions du Temps Présent e a J.A.C. [Juventude Agrária Católica]. Em junho de 1941, o P. Boisselot, diretor das Éditions du Cerf, lançava também o periódico Fêtes et Saisons, que publicou desde então tantas e tantas enormidades. Este era apenas um primeiro passo, e o P. Duployé prossegue:
"As Éditions du Cerf e as Éditions du Temps Présent estão decididas a prosseguir mais vigorosamente do que nunca o esforço que iniciaram com... Fêtes et Saisons. Cinco álbuns apareceram em um ano, constituindo um verdadeiro ano litúrgico ao alcance de todos... Fêtes et Saisons... 'um verdadeiro ano litúrgico'... quase chegamos lá." (página 283)
O P. Duployé mostra aqui a ponta da orelha: tratava-se de fingir estar no prolongamento de Dom Guéranger, mas para realizar algo totalmente diferente e para ir a outro lugar; eis um bom exemplo desse deslizamento sutil que se reencontra a cada passo na questão litúrgica.
Em 1942, as Éditions de l'Abeille, em Lyon, na zona livre, lançavam La Clarté-Dieu, revista na mesma linha ideológica e oriunda dos mesmos meios, sendo as mudanças de rótulo apenas uma consequência das condições políticas de então. Ainda na zona livre, o P. Duployé associou-se ao P. Roguet, cujos últimos anos antes da guerra haviam sido dedicados à liturgia radiofônica:
"O P. Roguet, por sua vez, havia lançado, em um setor de trabalho totalmente diferente, as bases de um verdadeiro movimento litúrgico antes mesmo do nome... O exílio de 1941, em Lyon e Marselha, aproximou-nos ainda mais. O P. Roguet começava então a tradução das obras magistrais de Dom Vonier que iriam, também elas, ter uma influência decisiva." (página 285)
Todos esses encontros, todo esse trabalho preparatório, fizeram com que, quando o projeto do CPL veio a público, ele não constituísse uma simples petição de princípios; aparecia, ao contrário, como a conclusão lógica de um longo esforço e podia, portanto, parecer natural:
"Com a 'homilia' reencontrada e o 'ano litúrgico em imagens', tínhamos agora que apresentar aos católicos franceses algo mais do que planos ou críticas. Um trabalho fora realizado que iniciava agora uma reflexão sistemática. Tudo estava pronto para a convocação de 20 de maio de 1943 nas Éditions du Cerf." (página 286).
Esta reunião de fundação ocorreu na primavera de 1943 na sede das Éditions du Cerf e reuniu cerca de quarenta participantes, entre os quais o padre Martimort, de Toulouse (futuro chefe do CPL), sendo os três relatores os dominicanos Roguet e Lajeunie e o beneditino de Ligugé, Dom Debar.
Um panfleto anunciando essa criação foi enviado em seguida para toda a Europa e, entre as numerosas adesões recebidas, deve-se notar a da abadia de Maria-Laach, há muito tempo foco de inovações litúrgicas e de onde provinha Dom Winzen, herói involuntário de nosso artigo litúrgico anterior.
Depois, os contatos multiplicaram-se durante o restante do ano de 1943 e pôde-se passar ao estágio seguinte no início do ano de 1944:
"Nos dias 26, 27 e 28 de janeiro de 1944, decidiu-se convocar, a portas fechadas, uma primeira reunião de trabalho. Escolheu-se para isso o ambiente do mosteiro das beneditinas de Vanves... No início da sessão, foram projetados os filmes do Padre Aupiais: as cerimônias fetichistas e as danças sagradas dos negros do Daomé. Abria-se assim, de forma muito ampla, a visão inicial de nossa comunidade de trabalho."
Oh! E tanto! E pensar que ainda existem pessoas que se surpreendem com o ponto a que chegou a liturgia atual!
Em outubro de 1944, é criada, nas Éditions du Cerf, a coleção "Lex Orandi", dedicada a estudos doutrinários em relação à liturgia: ela publicaria um grande número de obras, algumas excelentes, cujo conhecimento é indispensável para quem deseja se debruçar sobre a questão litúrgica.
Em janeiro de 1945, um novo colóquio em Vanves foi dedicado à pastoral litúrgica do Batismo.
Em março de 1945, o P. Chenu enviava ao CPL um satisfecit [atestado de aprovação] dos mais eloquentes: "É verdade que amo o que estais fazendo; como dizeis, o P. Congar e eu mesmo reconhecemos e reconheceremos os belos frutos amadurecidos sobre os rebentos selvagens que cresceram com petulância por volta de 1935". A confissão é de peso e jamais deve ser esquecida.
Em julho, uma equipe reduzida reuniu-se na Abadia de Ligugé, sob a proteção do Padre, Dom Passet, para preparar a continuação das operações. E, em setembro de 1945, o primeiro congresso do CPL ocorreu em St. Flour, graças ao apoio do bispo do local, Dom Pinson, e também graças ao cardeal Gerlier, que fez um discurso de encerramento muito elogioso.
Em abril/maio de 1946, as terceiras jornadas organizadas em Vanves, e dirigidas desta vez pelo padre Martimort, cuja influência era crescente, trataram da Missa e de sua catequese.
Em julho de 1946, a equipe diretiva reuniu-se pela segunda vez em Ligugé, e o P. Duployé apresentou um relatório sobre as primeiras atividades do CPL; trata-se de um texto muito importante, pois resume bem a ação e o pensamento do movimento naquele momento, bem como suas fontes; o autor destaca primeiramente a importância desse encontro nestes termos:
"Agradeço a Deus convosco por ter nos proporcionado, neste mosteiro tão amável, uma ocasião de vivermos juntos e, juntos, assumirmos responsabilidades que não é demasiado ambicioso, dado o que somos, dizer agora que elas empenham a responsabilidade da renovação litúrgica na França. E que uma primeira resolução saia deste encontro. Apeguemo-nos desesperadamente, nos anos que virão, a esta semana de Ligugé. Nela, tomamos decisões que comandam tudo." (página 307)
Em seguida, ele comenta a ampliação das relações do movimento:
"Este aprofundamento concretizou-se para nós, e especialmente para mim mesmo, no encontro com o pensamento litúrgico alemão. Não posso dizer o quanto devo ao padre Rauch e à descoberta do livro monumental de Karl Borgman. Temos poucas coisas a inventar na França; temos, primeiramente, que fazer o inventário da pastoral litúrgica alemã. A ligação estreita com nossos amigos da Alsácia, ao nos colocar em contato direto com essa experiência e ao decantá-la, poupa-nos dez anos de trabalho e tateios. Também estabelecemos contatos com representantes de diferentes Igrejas cristãs. Dom Beauduin ensinou-nos para sempre a não dissociar ecumenismo e liturgia." (página 308).
E para mostrar bem qual era sua convicção, escreve em outra passagem a propósito de suas relações germânicas:
"Nossos detratores, naquele tempo, chamavam-nos, na Alemanha e na Alsácia... de os maníacos litúrgicos, e é verdade, éramos uma seita, mas tínhamos a verdade conosco. Vê-se isso hoje." (página 62)
Vários elementos aparecem aqui: primeiro, a influência alemã, a do movimento litúrgico que já contava então com várias décadas de existência, e também, por trás, a de sua nova eclesiologia; depois, como consequência lógica, a referência ecumênica, tendo como avalista Dom Lambert Beauduin, o beneditino belga.
Doravante, ecumenismo e revolução litúrgica caminharão de mãos dadas: a liturgia será concebida em vista dos "irmãos separados" para que um dia, trinta anos mais tarde, os senhores de Taizé pudessem declarar não ver obstáculo à celebração do Novus Ordo montiniano. O P. Duployé tem razão: a questão litúrgica é uma só com as demais e não pode delas ser separada.
Esta convergência é uma das dobradiças do desenvolvimento subversivo, e outros artigos voltarão futuramente à questão ecumênica que, na mesma época, por volta de 1935, tomara um rumo decisivo após um longo período de estagnação.
Continuando sua análise, o P. Duployé chega aos resultados concretos desse ano de 1946: além do congresso de St. Flour, que permitiu estabelecer oficialmente o CPL aos olhos do clero francês, ele cita inúmeros contatos com os seminários, especialmente o da Missão da França (5), e a criação, no convento dominicano de Saulchoir, de um ensino litúrgico confiado ao P. Roguet:
"Assinalo a constituição espontânea de um grupo de estudos litúrgicos entre os jovens estudantes de Saulchoir, grupo particularmente fervoroso onde devemos encontrar os operários de amanhã." (página 309)
Esse ano de 1946 viu também a realização das primeiras sessões regionais, ancestrais das futuras "reciclagens": a de Rodez, que reuniu 120 padres, acolhendo o padre Marty, prometido, talvez por causa disso, a um alto futuro.
Como se vê, o CPL trabalhou rápido e, em três anos de existência, avançou consideravelmente: essa velocidade corria o risco de ser perigosa, e o P. Duployé estava bem consciente disso; em seu relatório, ele é levado a acumular reflexões de prudência cuja formulação vale, por si só, seu peso em ouro:
"Os riscos existem e são temíveis... Constituímos uma ponta avançada do clero francês. Não falamos a mesma língua que a maioria dos párocos e, se a maior parte do episcopado acompanha nosso esforço com simpatia, não devemos esconder de nós mesmos que essa simpatia, da qual não duvido nem da sinceridade nem da eficácia, pode muito bem coincidir com uma ignorância quase total dos princípios que nos guiam." (página 310)
A confissão é suficientemente enorme para que se precise recuperar o fôlego, mas é sobretudo interessante por nos permitir captar, num momento preciso — julho de 1946 —, as forças presentes: uma rede ativista de qualidade, alguns bispos cúmplices e uma maioria do episcopado demasiado ignorante dessas questões para ter uma opinião pessoal e para permanecer lúcida diante da manobra.
Sem dúvida, também é preciso lembrar que os tempos eram ruins, um tanto tempestuosos, e que muitos bispos pensavam sobretudo em não serem notados: tanto mais que os membros do CPL encontravam-se em harmonia com os donos do poder da época, circunstância que deve ter pesado ali como em muitos outros domínios.
Mas e quanto a Roma? Como de costume, as tendências ali eram diversas; decerto, o pontífice reinante, Pio XII, era de espírito tradicional, mas, abaixo dele, nos diversos escalões, o pessoal era muito heterogêneo, como já vimos suficientemente no artigo sobre Dom Winzen (6): de sorte que as reticências romanas nunca se tornaram advertências francas, muito menos intimações cortantes.
No ano seguinte, em 1947, o Papa publicaria uma Encíclica, Mediator Dei, para recordar os princípios diretores em matéria litúrgica. Ao tomar o cuidado de deslizar por entre os parágrafos sabiamente equilibrados deste texto — tão sabiamente que às vezes dão a impressão de se anularem —, distingue-se algo como uma inquietação no pensamento pontifício que mostra que Pio XII estava bem a par da ação do CPL. Conhecia ele também as intenções profundas, os fundamentos, como esse relatório de Ligugé? Se sim, por que não foi mais claro, mais diretivo? Ou será que sabia que já era tarde demais e que não seria obedecido, como se constataria em 1958, no momento de sua morte?
Todas essas perguntas podem legitimamente ser feitas quando se vê que o Papa não se opôs realmente à empreitada do CPL e que, ao contrário, sua encíclica serviu, de fato, para avalizá-la aos olhos da opinião pública — não certamente por causa de seu conteúdo real, que era excelente, mas pelo simples fato de agitar a questão litúrgica no momento em que uma formidável equipe ocupava-se, concretamente e à sua maneira, de mudar o seu sentido.
Citemos apenas algumas linhas da encíclica "Mediator Dei" que dão uma pequena ideia do problema:
"Embora este apostolado litúrgico nos traga um grande conforto por causa dos frutos salutares que dele provêm, a consciência do nosso cargo impõe-nos, contudo, acompanhar com atenção esta renovação tal como é apresentada por alguns e zelar cuidadosamente para que as iniciativas não ultrapassem a justa medida nem caiam em verdadeiros excessos.
Ora, se, por um lado, constatamos com dor que em alguns países o conhecimento e o gosto pela sagrada liturgia são por vezes insuficientes e até quase inexistentes, por outro lado, notamos — não sem preocupação e sem receio — que alguns são demasiado ávidos de novidades e se extraviam fora dos caminhos da sagrada doutrina e da prudência. Pois, ao quererem renovar a sagrada liturgia, frequentemente fazem intervir princípios que, em teoria ou na prática, comprometem esta causa sagrada, e por vezes até a mancham com erros que atingem a fé católica.
... que os inertes e os tíbios não creiam, todavia, ter a nossa aprovação porque repreendemos os que se enganam ou porque refreamos os audazes; mas que os imprudentes não se imaginem cobertos de louvores pelo fato de corrigirmos os negligentes e os preguiçosos."
Retomemos o texto do P. Duployé, que desenvolve os riscos de uma ação rápida, em circuito fechado, cortada da base (dir-se-ia em linguagem marxista):
"... Entre esta ponta avançada e o grosso do clero francês, devemos, segundo uma tática que foi muito bem valorizada pelo P. Doncoeur (7), zelar para não permitir que se criem intervalos... Os intervalos temidos ocorrerão se não procedermos a uma dispensação econômica e pedagógica da verdade descoberta por nós... Devemos saber calar-nos e saber esperar... Em Ligugé ou em Vanves, trata-se apenas de uma etapa de nosso trabalho... Mas seria terrivelmente perigoso e seria simplesmente estúpido lançar tais aporias à cabeça do clero francês. Só podemos, publicamente, levar-lhe o pão bem assado... Desde o início do nosso esforço, falamos de evolução e adaptação litúrgicas. Pergunto-me às vezes se não somos vítimas dessas palavras." (página 311)
"Estamos em uma máquina lançada a grande velocidade. Seremos ainda capazes de conduzi-la? Confesso-vos, para terminar, meu cansaço e meus receios." (página 312)
É certo que, desde aquele momento, problemas se colocavam aos promotores do movimento, surpresos pela própria amplitude de seu sucesso; na verdade, eles colhiam então os frutos do profundo trabalho de preparação das mentalidades realizado nomeadamente pelo movimento escoteiro e pela Ação Católica há cerca de vinte anos.
Os primeiros pioneiros revelam-se insuficientes em número e divergências inevitáveis vêm à tona: o resultado é que o CPL mudará de estatuto para tornar-se autônomo em relação às Éditions du Cerf, em 1º de julho de 1946.
Esta mudança coincide com a influência crescente do padre Martimort no seio do CPL e, talvez, com uma certa radicalização das teses em nível prático, como deixa entender o P. Duployé:
"Nossa sessão de Ligugé foi dedicada à elaboração de um importante memorial sobre a natureza e os objetivos do CPL, do qual o Sr. Martimort era o autor, e que deveria receber a adesão imediata de sua Excelência Dom Feltin, arcebispo de Bordéus. Este memorial não foi publicado; constituía uma admirável carta do que se poderia realmente chamar de a segunda formação do CPL". (página 313)
Após esta reunião de Ligugé e as mudanças de estrutura que ocorreram durante o verão de 1946 — portanto, após três anos de existência oficial —, o CPL estendeu ainda mais o círculo de suas influências e, em setembro de 1946, uma sessão ocorreu em Thieulin, perto de Chartres, reunindo quarenta superiores e diretores de seminários, sob a presidência de Dom Barsouët, bispo do local (e habitualmente melhor inspirado). As exposições foram feitas pelo padre Perrot, diretor do Seminário da Missão da França, Dom Lambert Beauduin, o R.P. Régamey, da Art Sacré, o padre Martimort, o R.P. Duployé, o R.P. Féret do Saulchoir e o R.P. Congar: em suma, as principais cabeças do movimento.
Um detalhe bastará para dar o espírito desta reunião onde foram "reciclados" os mestres da formação do clero francês:
"Alguns dias antes da reunião de Thieulin, recebi a visita de um lazarista italiano que me pedira para ser convidado, o P. Bugnini. O Padre escutou muito atentamente, sem dizer uma palavra, durante quatro dias. Quando voltávamos para Paris, e o trem passava à altura do espelho d'água dos Suíços, em Versalhes, ele me disse: 'Admiro o que fazeis, mas o maior serviço que vos posso prestar é nunca dizer em Roma uma palavra de tudo o que acabo de ouvir'. Para o maior bem do Concílio Vaticano II, do qual foi um dos mais inteligentes operários, o P. Bugnini não deveria, felizmente, manter sua palavra". (página 31, em nota)
Para apreciar todo o sarcasmo desta observação, é bom lembrar que este texto foi redigido em 1967, e que o Bugnini em questão é o "pai da nova Missa"...
No outono de 1947, ocorreu em Lyon, com o apoio do cardeal Gerlier, o terceiro congresso do CPL, cujo trabalho acentuou seu caráter oficial e pôde, por esse fato, difundir-se com ainda mais autoridade em um grande número de dioceses.
Em 1948, instaurou-se uma colaboração concreta entre o CPL francês e os organismos alemães similares, o Comitê Litúrgico de Fulda e o Secretariado Litúrgico de Tréveris, marcando esta aliança, nos fatos, a forte influência doutrinária da Abadia de Maria-Laach sobre o CPL. Mais uma vez, o P. Duployé nos presta o serviço de uma citação das mais reveladoras, que confirma o fato de que esses senhores sabiam perfeitamente o que estavam fazendo:
"Não deixarei a Renânia sem ter evocado um encontro que, este sim, seria mais decisivo que todos os outros porque, a longo prazo, inscreveria a história do CPL na história da Igreja e do Concílio Vaticano II. Em julho de 1948, fôramos, o P. Doncoeur e eu mesmo, a uma sessão de estudos organizada por Maria-Laach... Terminada a sessão, ele não parecia mais apressado do que o razoável para retornar à sua 'jesuítagem' da rua Monsieur, e aceitou de olhos fechados o convite para irmos a Tréveris, feito por dois padres que também haviam participado da sessão: eram Johannes Wagner, secretário do Liturgisches Institut de Tréveris, e o professor Balthasar Fischer. Trocamos nossas impressões e nossas ideias sobre o futuro do movimento litúrgico e sentíamo-nos incrivelmente felizes por estarmos os quatro juntos e por querermos exatamente as mesmas coisas.
De repente, disse a Fischer, dando-lhe um vigoroso encontrão: 'Sabe, poderíamos fazer muitas coisas juntos e, se soubessem em Roma que Paris e Tréveris marcham juntas, a hegemonia da Congregação dos Ritos estaria acabada'. Olhamo-nos os quatro em silêncio, como que espantados com a enormidade da pretensão, e para ver se ninguém nos ouvira no corredor do vagão. Eu tinha, porém, a certeza de que meus dois interlocutores alemães, que — como se diz entre nós — haviam esquecido de ser estúpidos, tinham compreendido muito bem para onde aquele trem nos levaria doravante"... (página 31)
Para mostrar bem que não se trata de uma simples bravata, e que tudo isso se concretizou, o P. Duployé escreve em outra parte:
"Os movimentos litúrgicos estão cada vez mais coordenados: seus historiadores, seus teólogos, seus pastores estão a postos. Para nos limitarmos à liturgia da missa, pode-se, desde já, prever todo um conjunto de reformas possíveis, em torno do qual um lento trabalho de opinião criará cada vez mais unanimidade. Virá um dia em que não haverá mais movimento litúrgico porque os cristãos terão sido conduzidos para onde desejavam os promotores do movimento litúrgico. Virá um dia em que não haverá mais reformas possíveis porque tudo terá sido reformado". (página 281)
Não deixa de ser interessante notar que estas linhas foram escritas em 1967 e extraídas de um parágrafo intitulado: "após as reformas, tudo começa"...
Ao fazermos alusão à atitude do Papa, duas páginas acima, perguntávamo-nos o que Roma sabia: a observação de Bugnini e a de Duployé incitar-nos-iam prontamente a pensar que Roma via apenas as aparências — algumas boas e outras menos, daí os termos da encíclica Mediator Dei —, mas não possuía uma percepção suficiente das raízes reais da empreitada litúrgica, isto é, das ideias e das relações de seus promotores. Ora, estes começavam então, em 1948, a cobrir a Europa com uma rede semelhante à que haviam montado na França há dez anos; e foi esta rede que, desenvolvida durante os dez anos seguintes, até 1958, prepararia e depois imporia a nova liturgia conciliar e pós-conciliar.
Esta observação não pretende de modo algum encerrar o debate de forma definitiva, pois esta questão do "saber" e do "poder" da Roma de Pio XII face à Revolução ascendente não é exclusiva do domínio litúrgico; ela se impõe, pelo contrário, em relação a toda a evolução da Igreja moderna: o que significa, aliás, que ela não concerne apenas ao período "1938-1958", mas que deveria ser estendida a pelo menos boa parte do século XIX. Não há tempo separado, nem domínio separado; todas as questões se influenciam e se entrelaçam na sobreposição das épocas.
Para confirmar este propósito, encerraremos esta série de citações do P. Duployé com algumas linhas onde o autor recorda as fontes onde se saciou o espírito da Revolução litúrgica:
"Conceder-se-á uma importância especial, a este respeito, aos movimentos literários, mesmo os aberrantes ou francamente heterodoxos, que devolveram ao homem o sentido do mistério natural das coisas: o romantismo alemão, o segundo romantismo francês, o simbolismo, o surrealismo. Este apelo exclusivo à literatura, que trai as preocupações do autor, não deveria fazer esquecer os apelos semelhantes feitos à música, à pintura, ao cinema"... (página 382)
Esta conclusão é interessante por vários motivos; destacaremos apenas dois, podendo cada um fornecer matéria para outro artigo:
O primeiro é que esses neoliturgistas foram formados, ao menos parcialmente, pelo espiritualismo revolucionário, o espiritualismo anticristão, do qual os diversos movimentos indicados acima não são senão as múltiplas facetas. É, no mínimo, constrangedor...
O segundo é que esses movimentos puderam ocupar, e ocuparam efetivamente, junto a uma parte da elite, um lugar que estava vago. Segundo a expressão de Duployé, "devolveram ao homem o sentido do mistério natural das coisas": obviamente, não há nada disso na realidade, mas, como de costume nas investidas do demônio, há uma certa aparência disso, uma aparência que camufla um desvio.
O racionalismo surgido no século XV e que culminou no século XVIII, completado e reforçado pelo materialismo do século XIX, não podia satisfazer um grande número de almas nas quais um resto de sentimento religioso se acomodava mal ao quadro estreito e seco do pensamento moderno. Toda a história do século XIX é, entre outras, a da reconquista desta dimensão para além do homem que se costuma chamar de "o Sagrado": a infelicidade é que a expressão é ambígua, designando duas coisas diferentes e, por fim, opostas, o que era o próprio objetivo do Demônio.
Para compreendê-lo bem, é preciso conhecer as correntes de pensamento às quais se faz alusão aqui, e conhecê-las de outra forma que não por algumas referências de manual de literatura, mais apegado à palha das fórmulas do que ao grão das doutrinas.
Por exemplo, tratando-se do Romantismo, seja ele alemão ou francês, é preciso estar familiarizado com o fundo demoníaco, satânico ou luciferiano, conforme o caso; e, quanto ao Surrealismo, como esquecer, além do anticristianismo visceral de seus fundadores, o apelo que faziam ao delírio coletivo, à hipnose e à droga, dos quais foram os primeiros arautos na Europa entre 1920 e 1940?
Há ali toda uma atitude à qual já fizemos alusão em um artigo anterior (8), um neoespiritualismo antirracionalista, mas também anticristão, que se afirmou nas diversas disciplinas: literatura, pintura, filosofia, etc.; e assistimos atualmente a um fenômeno semelhante, que é, aliás, seu prolongamento, com o "retorno à natureza", quer se trate da alimentação, do Yoga ou do regionalismo.
Sim, o P. Duployé tem, mais uma vez, toda a razão: é impossível compreender as engrenagens do movimento litúrgico que conduziu à Revolução conciliar se não se tiver, ao menos, uma certa noção do movimento das ideias durante o período que vai de 1830 a 1930.
Eis trabalho em perspectiva.
P. R.
(1) Estas citações já foram publicadas, há cinco anos, pelo autor deste artigo, em um estudo intitulado "Liturgia e qualidade na Defesa da Tradição católica": sua pequena tiragem e sua densidade atual fazem com que a maioria de nossos leitores não tenha tido conhecimento delas, justificando, assim, a retomada destes extratos.
(2) Cf. a obra publicada em 1961 na coleção Rencontres das Éditions du Cerf: "Uma corrente do pensamento católico, o semanário Sept (março de 1934 – agosto de 1937)". Este estudo de Aline Coutrot, prefaciado por René Rémond, que foi seu inspirador, é uma tese de doutorado realizada no âmbito da Fundação Nacional de Ciências Políticas: apresenta o duplo interesse de ter sido feita por alguém favorável às teses do Sept e que não teme expor as tendências mais litigiosas. Este livro é, por si só, um excelente testemunho sobre o pensamento e a mentalidade progressista do pré-guerra.
(3) Durante sua curta carreira, o Sept destacou-se por um filomarxismo constante, especialmente no que diz respeito à guerra espanhola e à Frente Popular, e por seus ataques virulentos contra a Igreja e a Hierarquia, sobretudo romana. Como seus oito principais redatores eram religiosos dominicanos, o escândalo levou ao desaparecimento do jornal em agosto de 1937. Mas, apenas dois meses depois, foi-lhe dado um sucessor, o Temps Présent, onde já não aparecia o rótulo dominicano, mas cuja inspiração profunda permanecia inalterada: a permanência do mesmo secretário de redação, Joseph Folliet, basta para demonstrá-lo, assim como a seguinte afirmação de François Mauriac, autor do primeiro editorial do novo periódico: "Corte uma árvore viva, o tronco se encherá de brotos. Com o Sept desaparecido em plena vida, o Temps Présent nasce inflado com a mesma seiva".
(4) Todas as citações feitas em itálico e cuja página está indicada entre parênteses foram extraídas da mesma obra: a do P. Duployé, indicada na introdução deste artigo.
(5) A criação da Missão da França, na mesma época, durante a guerra, em 1943, foi uma operação semelhante, tanto por suas raízes quanto por seu projeto, à do CPL; este organismo, que foi um poderoso catalisador da Revolução na Igreja da França, será objeto de um estudo posterior.
(6) Cf. "Testemunho sobre as origens da revolução litúrgica", publicado no Boletim nº 4.
(7) O P. Doncoeur, SJ, é conhecido sobretudo como um dos mestres do Escotismo. Muitas pessoas muito distantes do progressismo têm por este religioso e por este movimento uma grande admiração e gratidão. Isso é um fato que não pode ser apagado, mas não se pode negar igualmente que tanto um quanto o outro se encontram na origem de organismos heterodoxos como o CPL ou o Vie Nouvelle; essa mistura, precisamente, de elementos contraditórios é uma das chaves do problema: dizíamo-lo no artigo sobre Dom Winzen, e repetimo-lo aqui, pois nunca se enfatizará o suficiente.
O livro do P. Duployé, sempre precioso, traz-nos duas informações que, sem esgotar o assunto, o esclarecem o suficiente para que não reste dúvida; num primeiro texto, vemos o P. Doncoeur como um neoliturgista antes do tempo e, no segundo, assistimos à conexão deste neoliturgismo com os movimentos de juventude: a referência é, aliás, extremamente rica e mereceria um artigo inteiro para aprofundar essas origens distantes:
"... nas Études de 20 de fevereiro de 1938... a missa ideal que ele ali descreve é exatamente aquela que se pode viver hoje, em 1961, em St-Séverin, em St-Sulpice e em tantas outras igrejas. Ela já não nos surpreende. Mas este texto foi escrito em 1938. Ora, naquele momento, qual era o estado litúrgico nas grandes igrejas de Paris? O homem que escreveu esta página, nesta data, bem mereceu do futuro Concílio, é o mínimo que se pode dizer..." (página 341)
"Foi em setembro de 1923 que o P. Doncoeur subiu a grande escadaria de pedra que leva ao Burg de Rothenfels... Guardini acabara de ali reunir os silesianos, fundadores do Quickborn... Mas, em minha opinião, ele recebeu de Rothenfels muito mais do que uma indicação litúrgica. A história de Rothenfels... é a história de uma geração e — não tenhamos medo da palavra — de uma revolução... Para o tema que nos ocupa, ele compreendeu em Rothenfels que a causa do movimento litúrgico estava doravante ligada à de um movimento de juventude... No entanto, essa foi a sua intuição básica e, sem a Route dos Scouts de France, que lhe forneceu um terreno de experimentação apropriado ao seu gênio, ele não teria sido o criador litúrgico que foi." (página 338)
(8) "Cristianismo e Revolução, primeiras abordagens", no Boletim nº 3.
A PROPÓSITO DE KANT E DE HEGEL
A obscuridade da filosofia alemã é conhecida de todos: alguns viram nela a marca do gênio; outros, um simples meio para avançar mascarado.
Eis a opinião de alguns bons autores que lhes entregamos sem maiores delongas.
Após cem anos de traduções, interpretações e conclusões em sentido contrário, ainda se está, quanto à Filosofia de Emmanuel KANT, na carta datada de 14 de agosto de 1801 escrita por um delicado pensador, o Sr. JOUBERT, que possuía o gênio claro e caloroso:
"Imaginem um latim alemão, duro como pedras, um homem que dá à luz suas ideias sobre o papel e que nunca põe nada de límpido, de pronto e de bem acabado; ovos de avestruz que é preciso quebrar com a própria cabeça e onde, na maioria das vezes, não se encontra nada... É preciso que haja entre o espírito alemão e o espírito francês, em suas operações intelectuais, a mesma diferença que se encontrou, durante toda a guerra, entre os movimentos dos soldados das duas nações. Ouvi dizer, e os senhores sabem, que um soldado francês se movia vinte vezes no tempo necessário para um soldado alemão se mover uma única vez: eis o nosso homem. Um espírito francês diria, em uma linha e em uma palavra, o que ele mal diz em um tomo: um criador de sombras opacas que, seduzido e seduzindo os outros por essa mesma opacidade, crê e faz crer que há, em suas abstrações tenebrosas, uma solidez que, certamente, não está lá; vislumbres, algumas clareiras, todavia; sentido, espírito às vezes; quimeras de lógica que preenchem e destroem razoavelmente bem os nadas que a última escola estava tão orgulhosa de ter estabelecido e que dava como plenitude com uma intrepidez fluida e um amor-próprio tão contínuo... Ele não é claro: é um fantasma, um Monte Atos talhado em filósofo".
Essa opacidade que o Sr. JOUBERT denunciava em Emmanuel KANT, esse invólucro coriáceo e duro que é preciso perfurar antes de atingir, se for possível, o pensamento, é o traço dominante, a marca de fabricação de todos esses sistemas que, gerando-se e devorando-se uns aos outros, projetam sua sombra sobre a límpida luz do Cristianismo.
No tempo em que o Sr. Victor COUSIN — que era em filosofia não um criador potente, mas um vulgarizador eloquente — empreendia fazer na Sorbonne um triunfo para as elucubrações de HEGEL, sua correspondência íntima prova que, no fundo, ele não enxergava nada. Ele se dirigia ao próprio mestre para conjurá-lo a não ser excessivamente ininteligível:
"Desça um pouco de suas alturas, meu caro, e dê-me a mão".
Ele implorava comicamente, se não por sua própria fraqueza, ao menos pela de seus ouvintes do Quartier Latin, aos quais gostaria de transmitir a boa pastagem filosófica:
"Eu medirei",
dizia-lhe ele,
"a força do vento pela do pobre cordeiro; mas quanto a mim, que já não sou propriamente um cordeiro, peço que o vento sopre com toda a sua força. Sinto minhas costas firmes o suficiente para suportá-lo; peço clemência apenas pela França. HEGEL, diga-me a verdade: passarei ao meu país o que ele for capaz de compreender". (Carta de COUSIN a HEGEL, 1º de agosto de 1826).
Henri de LACOTE (Science et Christianisme, in "Le Correspondant", de 10 de dez. 1906)
A PROPÓSITO DA CONTRA-IGREJA
Artigo disponível da estante do Jean Vaquie. Clique aqui para acessar.
SATANÁS, O MACACO DE DEUS
A sutileza das relações entre a Igreja e a Contra-Igreja não escapou aos cristãos dos primeiros séculos — longe disso — e os autores antignósticos, como Santo Ireneu, souberam habilmente distinguir as oposições de fundo sob certas semelhanças de forma.
Apresentamos aqui um texto de Tertuliano que ilustra de maneira precisa as astúcias e os perigos do mimetismo diabólico.
"Pergunta-se por quem é interpretado o sentido das passagens que favorecem a heresia nas Escrituras? Pelo diabo, com certeza. Seu papel é perverter a verdade. Não imita ele, nos mistérios dos ídolos, as coisas da fé divina? Ele também batiza aqueles que creem nele, seus fiéis; promete que a expiação das faltas sairá desse banho. E, se ainda me recordo de Mitra, ele marca ali na fronte os seus soldados. Celebra também a oblação do pão. Oferece uma imagem da ressurreição e, sob a espada, resgata a coroa. E que mais? Não impõe ele ao seu sumo sacerdote um matrimônio único? Ele também tem suas virgens, também tem seus continentes. Além disso, se examinarmos as superstições de Numa Pompílio, se estudarmos as funções dos sacerdotes, suas insígnias e seus privilégios, as cerimônias dos sacrifícios, os instrumentos e os vasos que neles servem, as particularidades das expiações e dos votos, não é manifesto que o diabo imitou o espírito minucioso da lei judaica? Aquele que tão zelosamente se esforçou por reproduzir nas coisas da idolatria os próprios ritos que servem para administrar os 'sacramentos' de Cristo, esse também, com uma intenção inteiramente igual, desejou apaixonadamente e pôde aplicar a uma fé profana e rival os instrumentos das coisas divinas e dos sacramentos cristãos, extraindo seu pensamento dos pensamentos deles, suas palavras das palavras deles, suas parábolas das parábolas deles. Eis por que não se deve duvidar que os espíritos de perversidade de onde vêm as heresias tenham sido enviados pelo demônio, e que as heresias difiram muito pouco da idolatria: procedem do mesmo autor e da mesma obra que a própria idolatria. Ou bem imaginam outro Deus contra o Criador, ou bem, se confessam um Criador único, representam-no como outro que ele não é na realidade. Assim, toda mentira proferida a respeito de Deus provém, de algum modo, da heresia."
TERTULIANO
(De praescriptione hereticorum)
NOTAS DE GERÊNCIA
A PROPÓSITO DO Nº 4
Um certo número de assinantes não recebeu o Boletim nº 4 por razões que atualmente desconhecemos.
Alguns reclamaram e puderam ser atendidos uma segunda vez, enquanto outros não se atreveram ou esqueceram de fazê-lo.
Pedimos, portanto, a todas as pessoas que se encontrem nesse caso que por favor se manifestem antes que este nº 4 se esgote, como ocorreu com os três primeiros.
ENVIOS POSTAIS
Pedimos mais uma vez aos nossos correspondentes que enviem à Sociedade Augustin Barruel apenas correspondência não registrada [sem aviso de recebimento].
Se um documento tiver de ser registrado apesar de tudo, deve ser endereçado em nome pessoal, seja do Administrador, Sr. Etienne Couvert, seja do Secretário da Sociedade, Sr. Paul Raynal.
Já as remessas financeiras devem ser endereçadas impreterivelmente ao Sr. Etienne Couvert, conforme indicado no verso do Boletim.
ENDEREÇOS DE AMIGOS
Lembramos que o envio de endereços de amigos interessados é uma ajuda preciosa para a difusão do nosso trabalho, mas que deve referir-se apenas a pessoas realmente motivadas e que, tanto quanto possível, já conheçam a nossa publicação.
Para facilitar esse trabalho de prospecção prévia, temos à disposição dos nossos correspondentes um prospecto gratuito que será enviado mediante solicitação.
VENDA POR EXEMPLAR AVULSO
É necessário que a venda por exemplar avulso continue, sendo inclusive possível desenvolvê-la ainda mais; a experiência de cerca de vinte cidades onde ela é realizada regularmente mostra que um número pelo menos equivalente de outros centros poderia vender [dar saída a], a cada edição, cinco ou dez exemplares cada um.
Que os amigos dedicados que desejarem encarregar-se disso entrem em contato conosco; desde já, agradecemos!