Cadernos Barruel 3 - 1979
- CRISTIANISMO E REVOLUÇÃO: PRIMEIRAS ABORDAGENS
- O GENERAL FRANCO E A REVOLUÇÃO de 1976
- A GNOSE, UM TUMOR NO SEIO DA IGREJA
- O Padre JANDEL, FUTURO MESTRE GERAL da ORDEM dos FRADES PREGADORES, EXPULSOU O DIABO de uma "LOJA MAÇÔNICA LIONESA"?
- O ITINERÁRIO AGOSTINIANO e suas CONSEQUÊNCIAS INTELECTUAIS
CRISTIANISMO E REVOLUÇÃO: PRIMEIRAS ABORDAGENS
Essas duas palavras, que resumem a razão de ser de nossa Sociedade, podem parecer precisas à primeira vista, mas, se tomarmos um pouco de distância, elas se mostram, na realidade, bastante vagas.
Convém, portanto, antes de examinar suas relações, precisar em que sentido as empregaremos ao longo deste texto e, de modo geral, no conjunto dos estudos publicados por este Boletim.
O Cristianismo será não apenas a religião cristã com seus dogmas, suas instituições, seus membros, todos os batizados, mas também a sociedade civil surgida dessa religião, tal como se formou nos primeiros tempos, a Cristandade, e tal como se tornou ao longo dos séculos à medida que era contaminada por numerosas correntes estrangeiras.
Da mesma forma, a Revolução não deve ser entendida no sentido restrito que adquiriu desde 1789, de uma revolução política circunscrita no espaço e no tempo. A própria palavra não tem esse sentido restrito, mas o uso tendeu a impor essa restrição; de modo que nasceu o hábito de uma segunda expressão, a Subversão, que, embora possuindo etimologicamente o mesmo sentido, designa melhor a Revolução em sua essência profunda; fomos tentados a usar preferencialmente esta segunda fórmula, pois tal é de fato o nosso objetivo, mas, devido ao seu emprego frequente nas últimas décadas, a palavra subversão adquiriu, também ela, uma conotação particular, a do comunismo e do filocomunismo, e, portanto, designa apenas uma parte da questão, e não a mais importante, certamente.
Conservamos, assim, a palavra Revolução, dando-lhe um sentido um pouco ampliado, embora totalmente conforme à etimologia; por conseguinte, a Revolução será também tudo o que for de natureza a alterar o Cristianismo e, por via de consequência, a desestabilizar a sociedade civil dele oriunda, e isso seja qual for a época considerada; o que é muito lógico se lembrarmos que a Revolução é, desde a origem, filha de Satanás, filha de um pai que se destaca em tirar proveito de todas as oportunidades e não apenas das revoluções políticas.
Certamente, veremos que há grandes diferenças entre determinado elemento revolucionário do século II, a Gnose, e determinado outro elemento do século XIV, o neoplatonismo medieval, ou entre as heresias dos séculos XII e XIII e o modernismo dos séculos XIX e XX, ou ainda entre os círculos hermetistas dos séculos XIV e XV e a Maçonaria do século XVIII; mas também constataremos que profunda unidade de doutrina e de frutos reúne essas diversas manifestações para transformá-las em fases, em estágios, da Revolução tomada em seu sentido mais amplo, ao mesmo tempo que o mais exato, de derrubada do Cristianismo: derrubada que atinge o espiritual e o temporal ao mesmo tempo, pois a Revolução não separa os dois domínios, sabendo bem que, controlando um, ela controla o outro e, arruinando um, ela arruína o outro.
O estudo da Revolução em ação no seio do Cristianismo tem, portanto, poucos limites quanto ao seu domínio, o temporal como o espiritual, nem quanto à sua abrangência cronológica, já que começa no "Non serviam": isto é, não esgotaremos a matéria nesta breve exposição que pretende apenas apresentar o problema em seus diversos aspectos, medir o seu escopo, deixando para numerosos trabalhos posteriores de diversos autores a tarefa de pintar a própria tela.
Bispos Maçons, quarenta na França talvez, uma multidão em Roma, até nas escadarias do trono pontifício... eis o que é capaz de estarrecer a massa de fiéis. E, no entanto, para quem acompanhou o curso da evolução nos últimos séculos, para quem conhece um pouco a Revolução em sua essência, não há aí nada mais que o fruto de uma lógica impiedosa, um fruto que, aliás, começou a amadurecer há bastante tempo, já que os primeiros prelados iniciados conhecidos datam de aproximadamente dois séculos, e que, mais próximos de nós, um relatório episcopal redigido em 1938 já fixava o número em uma boa vintena só para a França...
Evidentemente, se considerarmos a Revolução apenas sob o ângulo dos sobressaltos políticos, da violência material, compreende-se mal esse fenômeno diabólico; mas essa não é, de forma alguma, a característica intrínseca da Revolução, mesmo que a violência lhe seja frequentemente muito útil.
A Revolução é fundamentalmente a recusa de Deus, do verdadeiro Deus, mais precisamente a recusa do plano de Deus para o mundo, da ordem que Ele estabeleceu em sua criação e do destino que Ele lhe atribuiu.
Foi isso que Satanás recusou primeiro, e é para arrastar o homem em sua recusa que ele não teme colocar o mundo a ferro e fogo quando necessário; mas ele dispõe de muitos outros métodos, mais pacíficos e mais sutis, e a ação revolucionária, ação satânica, é um tecido complexo feito de um emaranhado de táticas diversas, Gog e Magog, diz a Bíblia, sedução e violência, traduziremos livremente.
Este é o primeiro ponto a ser distinguido. Certamente, não é uma descoberta, mas, embora conhecida, essa noção é muitas vezes negligenciada na prática; sabe-se disso em teoria, e quando se tenta compreender, não se leva mais em conta de forma alguma; é-se então tentado a ver na Revolução apenas uma força negativa, destrutiva, o que é falso no plano dos meios: é um erro grave, cheio de consequências para o equilíbrio do julgamento, pois impede quem é vítima de ver claramente na multidão de avatares revolucionários.
Sim, a Revolução é negativa em sua essência, por se opor ao verdadeiro Deus, mas não o é, ou ao menos o é de uma maneira extremamente sutil, em seus meios, e seu ateísmo é frequentemente muito bem camuflado: a título de exemplo, lembremos apenas que as "Constituições de Anderson", carta da Maçonaria moderna formalizada por dois pastores protestantes, especificam bem que o Irmão... não deve ser um ateu... estúpido!
Mesmo que, aqui e ali, ela utilize transitoriamente o ateísmo para desobstruir o terreno religioso, o pensamento revolucionário, em sua essência, não tende a suprimir Deus pura e simplesmente; ele sabe muito bem que só se suprime algo de forma eficaz substituindo-o, e sua vontade é a de substituir o verdadeiro Deus por um arremedo de Deus: para que Deus não esteja mais em lugar algum, que melhor artifício do que colocá-lo em toda parte, que melhor solução do que o panteísmo?
Esse erro frequente sobre a natureza da Revolução encontra algumas explicações, e, portanto, algumas desculpas, em certos movimentos surgidos há cerca de um século; o caso do Grande Oriente e da política maçônica da Terceira República, o caso também do Comunismo, enfatizaram demais um aspecto particular e de forma alguma essencial: o do materialismo vulgar.
A evolução recente, sobretudo nas últimas três décadas, mostra o retorno em força da verdadeira tendência revolucionária, aquela que se exerce há milênios: a tendência religiosa, ou pseudorreligiosa, se preferir.
Essa pseudorreligião, esse panteísmo, não é, aliás, novo na terra: é, ao contrário, a situação em que caíram todos os homens após a Queda e a regressão que a seguiu, e é ainda a posição de toda a parcela da humanidade que não é cristã, mesmo que por vezes certas aparências sejam diferentes.
É inevitavelmente a posição em que recai aquele que, por alguma razão, deixa de ser cristão sem, contudo, se tornar estupidamente ateu. É, portanto, logicamente, a posição de líderes religiosos que efetivamente deixaram de ser cristãos, de bispos ou de outros que o cristianismo abandonou como o casulo cai da crisálida que virou borboleta.
O escândalo, pois ele subsiste, claro, e não diminuído, mas ainda mais imenso, reside no processo que conduziu esses bispos, esses teólogos, esses intelectuais, esses pastores, a tal transformação, a tal mutação insidiosa: foi esse o trabalho dos séculos, e a nós mesmos levará muito tempo para percorrê-lo por completo.
Desde os primeiros séculos, a pessoa de Cristo e o plano da Redenção geraram problemas e se revelaram tão estranhos ao modo geral de pensamento que toda uma corrente se desenvolveu para deformar o Cristianismo nascente e reduzi-lo aos esquemas anteriores.
É a origem da proliferação das correntes gnósticas (1) que puseram a Igreja em perigo durante vários séculos; a vinda de Santo Irineu a Lugdunum (Lyon) junto a São Potino teve provavelmente como causa a intrusão dos Gnósticos no vale do Ródano, em meados do século II e, aliás, sua obra mais conhecida não é o "Contra Haereses"?
Por sua vez, Santo Agostinho, antes de sua conversão, nos mostra qual poderia ser o atrativo dessas doutrinas sobre um intelectual romano de valor.
O Arianismo e as invasões bárbaras que o levaram ao Ocidente desviaram a atenção por alguns séculos, mas as correntes gnósticas continuaram seu percurso de forma subterrânea, notadamente na Europa Central, para ressurgir com força total nos séculos XII e XIII na Itália e na França: eles chegaram então a contaminar regiões inteiras como o Languedoc e deixaram muito poucas incólumes.
Outra corrente de influências, diferente mas convergente, é a da contribuição árabe e da contribuição judaica, que foram determinantes. A contribuição árabe exerceu-se em duas etapas: as Cruzadas primeiro, o primeiro contato importante dos cristãos com uma sociedade pagã elaborada, o Islã: o caso dos Templários é um bom exemplo dos riscos corridos e testemunha uma situação infinitamente mais ampla; os Árabes da Espanha em seguida, notadamente com Averróis, no século XII, que difundiram no Ocidente um panteísmo materialista. A contribuição judaica, vinda também da Espanha e dos diversos guetos da Europa (Provença, Praga, Renânia, etc.) foi a de um panteísmo mais místico (o que não significa de modo algum melhor) oriundo da Cabala.
O conjunto dessas contribuições, por vezes contraditórias em aparência, mas cumulativas na realidade, constituiu a primeira fonte de um ocultismo que não pararia de se desenvolver durante a Idade Média, o Renascimento e a Idade Clássica, sob nomes diversos: Alquimia, Teosofia, Iluminismo, etc.
Na época medieval, esse panteísmo latente encontrou também uma nova face, mais nobre, mais religiosa, com o neoplatonismo cujo aperto não mais se afrouxaria, culminando finalmente na Reforma e no idealismo cartesiano.
Trata-se aí de todo um corpo de doutrinas que, sob aparências refinadas, ares de religião, por vezes até de piedade mística, tende a arruinar o equilíbrio cristão; elas deixaram, em todo caso, os espíritos muito desarmados e muito permeáveis quando a onda neopagã do Renascimento avassalou a Europa no século XV.
Por outro lado, a crise do Sacerdócio e do Império e o Grande Cisma que dela foi a consequência contribuíram fortemente para o abalo da Fé. Certamente, à primeira vista, vemos aí apenas questões de estruturas e de organização, mas, de fato, todo o Cristianismo viu-se posto em questão nessa ocasião, até em seus fundamentos doutrinários.
Para espíritos habituados, como convém, a não dissociar o corpo da cabeça, a Igreja do Cristo, a perda do respeito pelo Episcopado e pela Papado devia inevitavelmente levar a mais do que uma simples crise jurídica: é a Igreja enquanto mediadora entre o Céu e a Terra que se encontrava atingida, e os desdobramentos de uma catástrofe semelhante são muito difíceis de medir com exatidão.
Para aqueles que foram atingidos por tamanha perda de confiança, duas atitudes se ofereciam à escolha: ou bem, não mais crendo no poder das mediações humanas, eles se ligavam diretamente a Deus, e essa é a porta aberta para o individualismo com todas as suas armadilhas que se revelarão pouco a pouco – é também, notemos de passagem, certo desprezo pela piedade litúrgica e seu caráter objetivo e comunitário – ou bem, de forma ainda mais radical, desviando-se da instituição "abalada", eles cessavam ao mesmo tempo de aderir à Tradição transmitida e de crer em seu divino fundador.
Ali também, que fendas profundas pelas quais o neopaganismo da Renascença irromperá!
A partir do século XV, múltiplas influências se conjugaram; às causas previamente evocadas, e os escândalos da Roma renascentista provam suficientemente que não desapareceram, somam-se agora dois outros elementos importantes: o retorno do paganismo antigo e o desenvolvimento das ciências modernas, a astronomia em particular.
Para os espíritos cultos da época, a organização do pensamento cristão encontrava-se posta em questão, primeiro em sua periferia, em suas relações com o mundo material, depois em seu próprio centro, em sua noção de Deus.
O fato foi especialmente sensível na Itália, nessa Itália do Quattrocento onde pululavam as Academias neopagãs na corte dos príncipes, focos anticristãos de intelectualismo e mundanidade.
Passaremos aqui sobre os estragos causados ao corpo cristão, às suas instituições e à sua doutrina, pela Reforma; a questão é suficientemente conhecida para que todos a pensem espontaneamente e para que possamos não abordá-la no âmbito deste breve artigo.
Mais negligenciado é habitualmente o papel desempenhado pela exploração do mundo, a conquista das Índias, como se dizia na época. À semelhança do que havia acontecido nas Cruzadas, mas em escala mais vasta, a intrusão de civilizações estrangeiras, pagãs, panteístas, muitas vezes transmitidas à Europa com um aparato de luxo, contribuiu para desintegrar o espírito dos cristãos, já muito abalados por tudo o que vimos anteriormente.
Essa influência perniciosa exerceu-se tanto mais facilmente quanto uma multidão de autores de talento se tornaram os incansáveis difusores de relatos mais intrigantes uns que os outros e cuja conclusão idêntica é a superioridade de nações pagãs refinadas sobre Estados europeus dilacerados pelas guerras de religião.
No limiar do século XVIII, o mal está feito em profundidade: grande parte da elite francesa e europeia, elite social e intelectual, já não é cristã, mesmo que ainda conserve alguma aparência. Isso se tornará evidente em círculos cada vez mais amplos, a partir da Regência e durante todo o século XVIII.
É então que se estabelece a Maçonaria moderna, não mais destinada apenas a redes de doutrinadores e sábios, mas à massa das elites sociais. Generaliza-se também a propaganda abertamente anticristã: os livros proliferam, impulsionados por centenas de sociedades de leitura, difundidos também por miríades de mascates através das províncias e até nas zonas rurais: o povo começa a ser atingido, não mais apenas em suas práticas, mas também em sua inteligência.
O mal é agora profundo o suficiente para que a Revolução possa considerar passar ao estágio político: a Maçonaria encarrega-se de derrubar o Trono e o Altar, pois os dois são solidários, pelo menos por natureza; a Revolução sabe disso, enquanto muitas monarquias europeias o esqueceram e passaram este último meio século a minar a Igreja (2).
Nesta virada do século XVIII para o XIX, a máscara é levantada; a Revolução que, por vários séculos, se arrastava contra o Cristianismo, agora se ergue clamando sua revolta: os jogos são claros, ninguém mais pode ser enganado, a não ser voluntariamente.
Antes de ir mais longe e, tendo sobrevoado a Revolução rastejante, nos deter um pouco na Revolução erguida, precisamos aludir a uma dificuldade muito geral. Acabamos de dizer algumas linhas acima: "O povo começa a ser atingido". Ora, essa expressão levanta um problema bastante delicado.
De fato, quando ideias novas, comportamentos novos surgem em uma população, é evidente que nem todos os membros são atingidos ao mesmo tempo.
Isso era particularmente verdadeiro nos séculos passados, quando não atuava, ou pouco, diferentemente da época moderna, a rapidez de difusão devido aos meios de comunicação em massa. Nesses tempos em que não existiam jornais (ou quase), nem rádio, nem televisão, e onde a maioria dos homens permanecia ligada à terra, as próprias condições de vida os protegiam melhor contra a subversão das ideias e dos costumes.
É por isso que as transformações diziam respeito sobretudo às camadas mais cultas da população e com tempo livre significativo: o clero em primeiro lugar, depois a aristocracia e, em seguida, a burguesia, em sua forma mercantil ou judicial. É logicamente nessas categorias que se recrutaram, pouco a pouco, os partidários das ideias novas, que estabeleceram novos consensos sociais e morais, que se distanciaram da Igreja, tanto de sua doutrina quanto de suas práticas.
Essa defasagem acarreta uma grande diversidade entre as diferentes camadas da população e, por isso, os comportamentos oficiais, exteriores, podem se revelar muito diferentes das motivações profundas: é preciso, de fato, por vezes séculos para que as convicções de uma pequeníssima minoria (a vanguarda, como geralmente é designada) se estendam à maioria e, subindo então à superfície, consigam fazer explodir as normas antigas; o observador superficial fica então surpreso com uma situação que lhe parece imprevisível apenas porque levou vários séculos para amadurecer.
Se quiser ser perspicaz, o observador deve, ao contrário, concentrar sua atenção em duas direções: por um lado, o estudo das minorias de ponta que podem indicar a situação futura com vários séculos de antecedência; por outro lado, um exame minucioso da prática da maioria para distinguir o que se baseia em uma convicção profunda, e que, portanto, durará, do que, em oposição, resulta mais de um simples hábito, e, portanto, não poderá durar e desmoronará um dia, quando o trabalho de minar das minorias ativas der seus frutos.
Esse trabalho em vários níveis, em vários registros, não é dos mais cômodos: cada pesquisa é forçosamente parcial e corre o risco de parecer parcial, as diversas direções tomadas podem até parecer contraditórias. É bem aqui o momento de lembrar que o princípio de não contradição implica que se fale da mesma coisa considerada nas mesmas condições, o que raramente é o caso em matéria histórica.
Após este parêntese, voltemos à Revolução que se ergue a céu aberto e cuja ação vai, por isso, acarretar novos efeitos em várias áreas.
A característica da tormenta revolucionária foi, em primeiro lugar, acelerar consideravelmente os processos em curso e coagular em uma massa homogênea (ao menos grosseiramente) todo um povo cujos membros se situavam, na realidade, em níveis muito diferentes quanto ao espírito revolucionário. Por isso, a revolução interior foi projetada para a frente em um grande número de espíritos pouco atingidos até então: o abalo social, o vazio religioso, provocaram assim em alguns lustros uma evolução que normalmente teria exigido pelo menos mais um século.
Mas o problema mais importante reside no fato de que as relações entre o temporal e o espiritual não se apresentarão mais da mesma forma. E as crises do século XIX derivam em grande parte dessa nova situação, de modo que, além dos elementos propriamente religiosos e doutrinários, é preciso estudar as questões temporais, e isso de uma tríplice maneira: em si mesmas, claro, depois nas relações entre o espiritual e o temporal, finalmente nas consequências, os desdobramentos dessas relações no espiritual em si.
No final do século XVIII, a Revolução triunfa e impõe um novo estado do temporal: ela se opõe à Igreja, impõe-se a ela; pouco a pouco, ao longo do século XIX, ela a subjugará no plano social, depois político, e mesmo no plano doutrinário.
Essa é uma grande novidade em relação aos séculos precedentes, onde o temporal e o espiritual estavam em acordo, ao menos teórico e global.
Doravante, diante da Igreja, senhora do espiritual e guia do temporal, ergue-se uma Contrarrevolução triunfante que possui o poder temporal e o utiliza para orientar o espiritual para pensamentos e práticas diretamente contrárias ao catolicismo.
Tal é a realidade profunda, ora confessada, ora celebrada, mas muitas vezes incompreendida por muitos cristãos. E, de fato, a questão não é simples: pois entre essas duas forças que se enfrentam, não há praticamente descontinuidade, elas estão misturadas corpo a corpo, com tudo o que isso implica de dificuldades no plano da ação como no plano da lucidez; e aí, sem dúvida, reside a principal vantagem da Revolução e a fonte de muitos de seus progressos.
Mal a Igreja havia curado suas maiores feridas, com a Revolução preparando a segunda onda de seus ataques, a de meados do século, o problema da conciliação entre elas foi levantado e resolvido por católicos no sentido favorável à Revolução: esta foi a tarefa do catolicismo liberal, que estudaremos mais tarde em seus textos, mas que podemos relembrar brevemente aqui.
Neste primeiro terço do século XIX, a Revolução se abrandou, não mais guilhotinando. Transformou o estado social e econômico no sentido prefigurado pelos últimos anos pré-revolucionários, e o conjunto dos católicos, embora não todos, acomodou-se muito bem ao liberalismo econômico.
Paralelamente, a Igreja reconstruiu em parte suas estruturas, mas concluir esse trabalho no que concerne às congregações religiosas e, sobretudo, ao ensino exigia acordo com o novo poder temporal, paz e até mesmo certa cooperação.
O que fazer? As soluções possíveis eram múltiplas, o que não significa que fossem boas, e, de fato, o conjunto dos católicos adotou uma gama de posições graduadas, cada um acrescentando a nuance que lhe convinha e que lhe permitia crer que permanecia livre em relação à manobra em curso.
A posição católica, oficial, romana, expressa nas diversas Encíclicas dos Papas, é bem conhecida: a Revolução é satânica, é condenada, não se deve colaborar com ela. Mas Roma abstém-se cuidadosamente da política e mal oferece conselhos práticos, nem para se livrar da Revolução, nem para coabitar com ela.
Em oposição, surgem as opiniões daqueles que se confrontam com os problemas da coabitação. A maioria inclina-se para uma não hostilidade de fato e, como, pelo menos no início, não era possível ir além, os espíritos e os escritos habituam-se a distinguir sutilmente entre a tese e a hipótese, entre a condenação teórica da Revolução e a colaboração prática com ela.
Atenção. Estamos aqui no ponto crucial do drama que motiva nossa abordagem, ou seja, no momento em que a luta secular da Contra-Igreja contra o catolicismo poderá ocorrer não apenas do exterior, mas também do interior da Igreja. O temporal não mais defendendo o espiritual, mas, ao contrário, tendo caído nas mãos de seus inimigos, estes puderam contornar as muralhas e agora estão infiltrados no interior, podendo manobrar à vontade.
Com razão se pôde dizer que o catolicismo liberal foi o pior inimigo que a Igreja já encontrou em seu caminho.
De fato, muito rapidamente, a conciliação de fato tornou-se para alguns uma conciliação de direito, levada por vezes até o batismo da Revolução. Lamennais, e sua condenação por Roma, encontram aqui seu lugar, mas é um lugar um tanto visível demais, pois corre o risco de mascarar aos olhos do público um certo catolicismo liberal menos extremo, mais latente, e, no entanto, tão perigoso quanto, pois infinitamente difundido, menos afirmado em teoria, mas constantemente subjacente às atitudes teóricas e práticas daqueles que exercem influência sobre os assuntos públicos. (3)
O fruto longínquo desse liberalismo católico foi preparar o Ralliement e a Democracia Cristã, e o fruto imediato foi uma desmobilização diante da Revolução, o que frustrava os esforços dos verdadeiros católicos contra ela.
Pois, além dos liberais e da massa amorfa, havia também católicos lúcidos e corajosos que, na falta de um programa global de derrubada da Revolução, esforçavam-se para lutar de forma pontual, denunciando o domínio das seitas ou estabelecendo as primeiras bases de uma doutrina de reconstrução social.
Estudaremos também a obra dos contrarrevolucionários, mas é preciso estar ciente de que, se essa ação não pôde, de fato, assumir um caráter global de contestação da Revolução, não apenas em tal ou qual de suas manifestações, mas sobretudo em sua própria existência, isso se deveu essencialmente à influência deletéria do catolicismo liberal: este anestesiava literalmente todo um povo cuja imensa maioria era, naquela época, ainda globalmente católica; era tudo o que a Revolução pedia naquele momento, e quem não percebe que isso era, de fato, o mais importante [?], pois o resto, o tempo se encarregaria...
Enquanto isso, a coberto da tolerância liberal, a Revolução continuava metodicamente seu avanço em todos os domínios: revoluções políticas de meados do século XIX, que culminaram com a perda da cidade de Roma, radicalização da Maçonaria que, tornando-se abertamente ateia e anticristã, apoderou-se do poder na França e implementou as leis escolares de 1880, principal ferramenta da descristianização que constatamos há quarenta anos.
No plano intelectual, a minagem dos fundamentos históricos e doutrinários do cristianismo deveria levar à crise modernista entre 1890 e 1910. Enquanto isso, a partir do final do século, a Seita, preparando o futuro, dava nova vida à sua tendência espiritualista.
Diante de progressos tão importantes ao longo de um século, a conclusão da maioria dos católicos foi que a Revolução não podia mais ser derrubada, e, portanto, que não devia mais sê-lo, e que, para evitar o pior, convinha aderir às suas estruturas e métodos.
Mas onde se encontra o pior? Ou seja, evitava-se detalhar excessivamente, reservando-se assim o direito de mudar a definição a cada recuo sucessivo. De tal modo que, em poucos anos, assistia-se a um alinhamento dos católicos com as posições revolucionárias:
Primeiramente, em matéria social: a Escola Social Cristã foi integralmente contrarrevolucionária em sua origem; sua crítica do estado social liberal remontava das constatações de fato às causas revolucionárias, e sua análise mostrava pertinentemente que só se poderia curar a sociedade tomando o caminho oposto da Revolução. Apesar de belos devotamentos e grandes talentos, a acolhida dos católicos foi bastante moderada, a ponto de se ver, ao contrário, surgir ao longo do tempo uma corrente dominante que esperava a salvação social, não mais da Contrarrevolução, mas de um recurso cada vez maior às técnicas revolucionárias.
Visto neste pano de fundo da questão social, o ralliement político perde um pouco de seu caráter estarrecedor e torna-se quase compreensível: ele surge como a consequência e a conclusão.
Muito se especulou sobre o pensamento de Leão XIII; ele queria o ralliement à Revolução, ou queria outra coisa? Suas grandes encíclicas, na medida em que são, evidentemente, um reflexo fiel de seu pensamento, mostram de forma inequívoca que ele era realmente oposto à Revolução e parece, portanto, certo que ele desejava outra coisa (4).
Mas diante de uma massa católica já suficientemente "revolucionada" por ter perdido um verdadeiro ímpeto contrarrevolucionário, o Papa julgou hábil lançar os fiéis na competição política, no terreno próprio dos revolucionários, a maior das armadilhas, se é que houve, tão frequentemente renovada desde então e até por católicos que se creem opostos à Revolução.
A pouca honestidade natural que restava aos liberais derreteu-se rapidamente em contato com as manobras politiqueiras, e, se necessário fosse, a história das diferentes alianças e partidos formados no início deste século bastaria para abrir os olhos.
Pouco a pouco, ou melhor, muito rapidamente, a força da massa católica perdeu-se nas areias eleitorais, e a Revolução pôde congratular-se por seu adversário ter perdido, graças a isso, sua última chance de recuperação e vitória: do ponto de vista humano, evidentemente, pois do ponto de vista divino e com meios divinos, é outra coisa, mas os prazos divinos são também outra coisa...
Não só o pior não foi evitado, mas agora e dessa forma ele estava assegurado; os acontecimentos da Separação deveriam rapidamente o demonstrar.
Nem mesmo o bastião da própria fé deixou de sentir o ataque, e esses anos de 1890-1910 viram desenrolar-se a crise modernista, experiência fascinante entre todas.
Ela revelou o impacto dos ataques revolucionários contra a religião entre os intelectuais católicos, tanto no que diz respeito aos temas escolhidos quanto à porcentagem das pessoas envolvidas – um terço do clero, diz-se, e notadamente o jovem clero. Ela mostrou também a resistência do corpo católico e, ao mesmo tempo em que uma certa hesitação de alguns bispos, a determinação de Roma.
Paradoxalmente, ela confirmou também que a separação entre o temporal e o espiritual era vivida, de fato, pela maioria dos católicos, visto que estes aceitavam a revolução nos planos social e econômico, enquanto ainda eram atingidos por ela no plano religioso.
Para a Revolução, a conclusão era clara: a subversão religiosa restava por fazer, e ela se faria pelo clero.
A crise neomodernista contemporânea levou os católicos lúcidos a se debruçarem sobre a crise do início do século e a reabrir um dossiê um pouco cedo demais fechado: São Pio X havia falado, os modernistas haviam desaparecido, não se fala mais nisso. Na realidade, nada disso: já dissemos acima, a maioria dos modernistas não se moveu um milímetro, contentando-se em abafar suas ações por alguns anos, sem esquecer de liquidar seus adversários assim que o Papa da Pascendi morreu.
Mas nosso verdadeiro problema não se situa aqui. Muito mais importante que as peripécias é o sentido da crise modernista em relação ao corpo católico; vista sob esse ângulo, não se trata certamente de um simples resfriado, mas sim do ponto de chegada de uma evolução de vários séculos, de uma incubação de vários séculos de idealismo e subjetivismo, e de dois séculos de ataques pesados contra os fundamentos da fé católica.
Nesse fim do século XIX, é o caráter objetivo da fé católica que é minado, ao mesmo tempo negado pelo materialismo e pelo cientificismo, relativizado pela história das religiões e pela intrusão das espiritualidades orientais, e enfraquecido na consciência dos fiéis por décadas de sentimentalismo e individualismo.
A grande massa dos fiéis, embora minada, ainda não é diretamente atingida, mas a elite intelectual, clerical e leiga, é atingida em suas certezas: ela se esforça para salvar à sua maneira o que pode ser salvo, o que explica o grande número de graus que se observa entre os modernistas, desde aqueles que praticamente varreram tudo até aqueles que pensam poder salvar o essencial sacrificando as formas.
Nessas condições, compreende-se muito bem que a decisão pontifícia, se bem que tenha tranquilizado os fiéis, na verdade não mudou nada na situação real, da qual apenas freou temporariamente a expressão.
Após a guerra de 1914-18, e graças a ela, a Revolução deu um grande passo, notadamente na Europa, onde eliminou ou abalou as monarquias católicas. Politicamente, os católicos estão finalmente integrados ao sistema revolucionário que não mais contestam e do qual constituem uma engrenagem.
Isso ficará bem claro para os infelizes que não aceitam a renegação, e a condenação da Action Française em 1926 será mais um passo, que se pode qualificar de decisivo à falta de ser o último, no avanço revolucionário dentro da Igreja.
Um excelente sinal, e que não engana, dos progressos do mal, é que mesmo os surtos de vitalidade que animam o corpo cristão não tardam a ser gangrenados e a servir, finalmente, o inimigo: dois bons exemplos disso são a Ação Católica e o Renascimento Litúrgico.
É, portanto, muito compreensível que bispos, clérigos, intelectuais tenham continuado seu caminho ao encontro da Revolução, até mesmo em sua doutrina, sua "teologia", por assim dizer. Nesse tempo em que o ecumenismo começa vigorosamente, por volta de 1930, não é muito de se estranhar que esses modernizantes tenham aderido a doutrinas e até mesmo a organizações que são, por natureza, consagradas ao ecumenismo e ao esoterismo.
Compreende-se muito bem, ao contrário, que esses "católicos", ao fim de uma práxis revolucionária longa e generalizada – a deles e a de seu meio –, pudessem ter se sentido aliviados por encontrar, finalmente, um quadro intelectual e humano onde seu pensamento e sua ação se encontravam, finalmente, em harmonia.
O crime, o ilogismo, não se situa tanto aqui quanto nos primeiros passos dados rumo à Revolução, um século ou mais antes; o resto não passa de uma consequência.
Nesse entre-guerras, a guinada final foi, portanto, dada, ao nível de uma minoria, é certo, mas tratava-se de uma minoria consciente e ativa; o relatório episcopal supracitado estimava o número de Excelências iniciadas em cerca de vinte, quantos mais padres, sem dúvida, e quantos leigos militantes!
Quanto aos germes em potencial nessa minoria, só restava fazê-los desenvolver-se na massa do corpo cristão, onde encontrariam um terreno já preparado e tantas cumplicidades inconscientes. Além disso, diversas circunstâncias deveriam favorecer a manobra: primeiro, a eliminação, aproveitando a guerra de 39-45, dos quadros católicos tradicionais, fossem eles liquidados fisicamente ou aniquilados em sua influência social; em seguida, a utilização das estruturas eclesiais – Ação Católica, Escotismo, Missões de França, Centro de Pastoral Litúrgica, etc. – como vetores dos novos modos de pensamento, tudo isso resultando na reciclagem permanente e generalizada da maior parte da elite cristã, clero e militantes.
Aplicam-se novamente aqui as observações feitas acima a respeito da sociedade em geral.
Em um corpo eclesial em plena deriva, os níveis pessoais podem ser muito diversos; não obstante, os mais significativos, e portanto os mais interessantes para o estudo, são aqueles que chegaram antes dos outros ao fim da evolução comum.
Pois se a crise modernista foi um ponto de chegada, ela constituiu também um ponto de partida para uma nova etapa, a da extensão da subversão a todos os fiéis.
No limiar do século XX, é certo que a Revolução se impôs, tanto mais facilmente porque a hierarquia católica aceitou a ela se ralimar. Não só impôs a todos suas formas e estruturas políticas, mas conseguiu relegar a fé católica para o domínio das opiniões privadas, seja em matéria de concepção, de explicação do mundo, ou em matéria de normas para a ação moral e social.
É a esse nível que se situa a verdadeira vitória da Revolução, e é bem evidente que essas transformações não esperaram o início do século XX para começar, nem mesmo para atingir um nível inquietante. Surgida há cerca de três séculos entre alguns intelectuais e pessoas da sociedade – os céticos e os libertinos –, tornada oficial há dois séculos pela Revolução, a atitude revolucionária começou sua penetração na massa católica há um século, e a crise modernista é o sinal irrefutável disso.
Desde 1914-18, ela se desenvolveu em grande velocidade entre os batizados, culminando na "Guerra de Araque"... e no pós-guerra que conhecemos, e deixando o campo livre para a onda de materialismo desenfreado que "se alastra há cerca de trinta anos".
Segundo uma regra quase sistemática, enquanto esse movimento se desenvolvia, outro se preparava, colocando seus primeiros peões e entrelaçando suas realizações com as do precedente.
Enquanto sua fase materialista triunfava, e no próprio triunfo encontrava as causas de sua ruína, a Revolução preparava e implementava sua fase espiritualista.
Ali também os germes são antigos, ao nível das minorias; a extensão ao público começou há cerca de um século com um início de "exoterização" no entre-guerras. Esse movimento acelerou-se antes de 1939 com a propaganda pelo hinduísmo e as tentativas de aproximação da Maçonaria com a Igreja.
É sobretudo há cerca de vinte anos que a fase decisiva se iniciou, com essa vasta propaganda pelo retorno à natureza e a formidável expansão das artes marciais e do yoga (5), do Zen hoje e seus numerosos mosteiros na Europa e na própria França, do pensamento e dos métodos orientais em geral, tanto hindus quanto chineses e japoneses.
A massas longa e habilmente descristianizadas em sua inteligência e em sua vida prática, e que a "civilização moderna", ou seja, materialista e revolucionária, conduziu a um beco sem saída, a Revolução tem a astúcia de propor uma solução alternativa espiritualista que já conquistou uma parte das elites.
Essa manobra consegue tanto mais facilmente porque esse neoespiritualismo se oferece sob diversos aspectos capazes de satisfazer os diferentes gostos, desde o hippie barbudo e sujo, adepto da droga e do flower power, até o jovem universitário de nuca raspada, fervoroso do "Grece" e dos rituais solsticiais, passando pelos moonistas e guenonianos de todos os tipos.
Evidentemente, para o sucesso de tal empreendimento, era indispensável que a verdadeira religião desaparecesse; foi a isso que nossas hierarquias se dedicaram desde o Concílio Vaticano II: sob o pretexto de reformas, o Concílio teve como missão legalizar a Revolução e preparar o desaparecimento de tudo o que "cheirava" demais a catolicismo para facilitar o ecumenismo com os "irmãos separados".
Atingido esse estágio, viu-se em seguida atacar os dogmas que ainda eram mais ou menos respeitados por heréticos e cismáticos; é toda a doutrina cristã que se encontra minada por cima, é ela que deve desaparecer para dar lugar ao "ecumenismo planetário", à religião mundial ateia! Pois tal é o objetivo: a Revolução não tem nada contra a religião, ela tem tudo contra Deus, está, portanto, pronta para aceitar uma religião sem Deus; há séculos ela se esforça para promovê-la e está quase lá.
Cristianismo e Revolução... Ao fim dessas primeiras abordagens, quem não percebe que é antes "Cristianismo OU Revolução" que se deve escrever? A oposição é total, não acidental, mas substancial e irreformável.
Os revolucionários, aliás, o sabem muito bem, enquanto muitos cristãos – a grande maioria hoje, infelizmente! – o ignoram e se encontram até desprovidos dos meios de compreendê-lo quando lhes é explicado.
Tal é, no entanto, o dever, e portanto a primeira urgência: depurar as inteligências para permitir aos contrarrevolucionários pensar realmente, não sendo submetidos a paixões, mesmo que qualificadas de nobres.
Compreender a Revolução requer conhecimentos, claro, mas sobretudo um espírito livre: capaz de remover as aparências, de descolar os rótulos, de aprofundar o real apesar dos apegos sentimentais, capaz também de controlar suas pulsões ativistas, pois no ponto em que chegamos as ilusões não cabem mais e, na maioria das vezes, a ação não passa de uma armadilha a serviço do Adversário.
O sucesso ou a derrota da Revolução, o triunfo ou o fracasso do projeto satânico, tudo isso está nas mãos de Deus. Já, na luta entre os Anjos, Satanás perdeu uma primeira vez. Depois, entre a cruz do Gólgota e o sepulcro da Ressurreição, ele perdeu uma segunda vez.
E agora, temos a promessa divina, várias vezes renovada, de que, quando ele se levantar novamente contra Cristo, ele, o Anticristo, perderá pela terceira e última vez: será no instante derradeiro em que a Revolução, tendo coberto a Terra e esmagado a Igreja, acreditará ter sua vitória definitiva contra Deus.
Resta o mistério do triunfo provisório da Revolução, mistério do fracasso aparente da Igreja. Na noite que se estende, como na noite de Sexta-feira Santa, quando o Mestre está morto e os discípulos dispersos, o Mal é vencedor e se adorna com os despojos do Bem.
Só nos pertencem a lucidez e a Esperança.
P. R.
(1) Outro artigo deste mesmo Boletim trata do fundo do pensamento gnóstico – Ver página 23.
(2) Um autor muito bem informado definiu esse tempo como o da "Europa dos príncipes iluminados", o que é lógico, pois é também o das "Luzes".
(3) Um fenômeno semelhante se repetiu no momento da crise moderna no início do século XX. Alguns líderes foram condenados, mas milhares de clérigos modernizantes permaneceram tranquilamente em seu lugar na expectativa de dias melhores em que pudessem retomar sua ação: como não ver que esses constituíam o verdadeiro perigo, mais ainda do que publicistas muito chamativos como um Loisy?
(4) Para ser exato neste ponto, conviria examinar aqui o caso do cardeal Rampolla, secretário de Estado e Maçom. As dimensões deste estudo não o permitem, mas o fato de levantar o problema basta para indicar quais influências múltiplas devem ter atuado.
(5) Alguns exemplos, entre outros – A Federação Francesa de Judô é a entidade esportiva que possui o maior número de licenciados e, entre eles, muitos jovens – Em uma cidade como Lyon, há mais centros de Yoga do que locais de culto católico, e esses centros são frequentemente instalados em estruturas oficiais, como Casas de Juventude, Centros Sociais, onde estão ao alcance do grande público – Finalmente, o número de casas religiosas, geralmente de contemplativos, onde o Yoga e o Zen são praticados como ascese regular, é incontável.
O GENERAL FRANCO E A REVOLUÇÃO de 1976
Como a Hidra de Lerna, a Revolução possui cem cabeças e cem faces, muitas vezes muito diferentes, ou mesmo opostas, a ponto de ser por vezes muito difícil reconhecê-las como pertencentes a um mesmo corpo.
O problema, já complexo no plano das doutrinas, torna-se quase inextricável quando se aborda o domínio da ação, nomeadamente política; a este nível, de fato, atua toda uma série de restrições que levam facilmente a esquecer ou, pelo menos, a colocar entre parênteses os princípios iniciais.
Por este motivo, a condução da ação contrarrevolucionária afigura-se muito delicada, e o exemplo da Espanha e de Portugal, onde a experiência terminou como se sabe, é rico em lições.
É, contudo, um domínio ainda pouco explorado, e mesmo praticamente intocado. Valorizamos ainda mais poder apresentar-vos este artigo escrito por um dos nossos correspondentes estrangeiros, que revela alguns aspectos desconhecidos da situação espanhola nos últimos quarenta anos.
As revoluções não acontecem num dia. Este axioma permanece verdadeiro, quer se trate da Revolução Francesa (1789), da Russa (1917) ou da Portuguesa (1974). E certamente assim é com o que podemos chamar a "revolução" espanhola de 1976. Não se pode atribuir o rápido triunfo da democracia, do parlamentarismo e do liberalismo na Espanha após a morte do General Francisco Franco (novembro de 1975) apenas a Adolfo Suárez ou apenas ao Rei Juan Carlos. As suas causas são mais profundas e a sua história remonta a tempos mais antigos.
É ao próprio General Franco que se deve imputar, em grande parte, a culpa pela situação atual da Espanha. Apesar da alta reputação de que gozava em todos os países entre os católicos tradicionais, um exame mais rigoroso da recente história da Espanha fará surgir uma certa perplexidade em relação a este "herói" católico. A tentação de encontrar uma explicação atenuadora para as falhas mais recentes e mais evidentes ("Ele morreu traído", diz-se, e assim o fardo das responsabilidades pelos últimos anos é convenientemente jogado para outros ombros) cai por terra, uma vez que, com isso, se omite a explicação das importantíssimas decisões dos anos 40 e 50 que moldaram a política espanhola até hoje.
Propomo-nos aqui elaborar uma lista de eventos recentes da história espanhola, com os quais os tradicionalistas estão, sem dúvida, pouco familiarizados, mas dos quais se deve ter em conta para rever a sua avaliação do período franquista. Esta lista está longe de ser completa; muitas coisas não figuram nela – por exemplo, a importância do Opus Dei na política espanhola, a perseguição aos movimentos tradicionalistas, etc. – porque as informações de fonte segura ainda são escassas. No entanto, os fatos aqui reunidos permanecem muito instrutivos.
1 - O primeiro plano para o levantamento militar de 1936, um mês antes que a insurreição ocorresse (plano aprovado pelos generais Mola, Franco, etc., em 5 de junho de 1936), continha os seguintes pontos: "Assim que o movimento nacional triunfar, será constituído um diretório do qual farão parte um presidente e quatro outros representantes do exército. Estes últimos serão encarregados dos ministérios da guerra, da marinha, do governo e das comunicações. (...) Os decretos-leis em questão serão revistos como convém por uma assembleia parlamentar constituinte eleita por uma forma de sufrágio a ser especificada. (...) A defesa da ditadura republicana... será efetuada pelo diretório sem a intervenção dos tribunais de justiça. (...) Separação da Igreja e do Estado; liberdade de cultos e respeito a todas as religiões. (...) O diretório compromete-se, durante a sua função, a não modificar o regime republicano..." (Citado por Antonio UZARZA IRRIBAREN, Memorias de la conspiración, Pamplona, Editorial Gómez, 1954, p. 95-96). Sob a pressão da Comunhão Tradicionalista (carlista), a qual deveria assegurar o sucesso da insurreição no Norte, este programa foi modificado posteriormente.
2 - O primeiro "manifesto" de Franco a todos os espanhóis, datado de 18 de julho de 1936, em Tenerife, Ilhas Canárias, terminava com estas palavras: "Saberemos como salvar o que é compatível com a paz interior da Espanha e com a grandeza que lhe desejamos, realizando, em nossa nação, pela primeira vez e nesta ordem, a trilogia: fraternidade, liberdade e igualdade" (F. DIAZ PLAJA, La guerra de España en sus documentos, Madrid, 1966, p. 129; Albores de la gesta española, Santa Cruz de Tenerife, 1937, p. 113).
3 - Em 1º de outubro de 1936, Franco foi nomeado Chefe do Governo espanhol (título que foi posteriormente alterado nos documentos oficiais para "Chefe de Estado espanhol"), apesar da oposição de alguns membros da junta militar, em grande parte graças às manobras hábeis de seu irmão, Nicolás Franco (Hugh THOMAS, La guerra civil española, Paris, España Contemporânea, 1962, p. 235). A anglofilia de Nicolás Franco era de ampla notoriedade.
4 - Em 5 de junho de 1937, uma delegação de maçons espanhóis, representando "oficiosamente" o governo republicano de Valência, encontrava uma delegação homóloga de maçons franceses em Paris, na sede da Grande Loja. Entre as personalidades presentes, notavam-se Léon Blum, Camille Chautemps e Yvon Delbos (Edouard Daladier, não se sabe bem porquê, não estava presente. O objetivo da reunião era a "Peticion y exposición de los hermanos españoles" (Petição e relatório dos Irmãos espanhóis). Após a intervenção de Barcia, representante dos republicanos espanhóis, solicitando insistentemente a ajuda das democracias e exigindo que a França e a Grã-Bretanha recusassem reconhecer a Franco o estatuto de beligerante, o francês Delbos interveio: "Para a França, o problema espanhol é muito complicado", disse ele, começando, "quanto à Inglaterra, ela está disposta a reconhecer Franco (...). A política da Alemanha, durante esta guerra perigosa... consistiu em impedir qualquer aproximação da Inglaterra e da França com Franco". Depois, o "irmão" Delbos começou a elogiar Franco, em particular o seu bom senso e a sua moderação. Acrescentou: "... A tentativa de (Indalecio) Prieto (um líder comunista espanhol) falhou. Esta guerra é perigosa para a paz na Europa. A França e a Inglaterra orientam todas as suas energias diretamente nesse sentido (...).
A guerra da Espanha deve ser encerrada, e pensamos que, para alcançar este objetivo, não pode existir nenhum obstáculo nem nenhum preconceito intransponível". (José BERTRÁN Y MUSITI, Experiencias de los S.I.F.N.E. durante la guerra, citado por José-Oriol CUFFI CANADELL, em Cristiandad, Barcelona, nº 177-178, ano VIII, 1-15 de agosto de 1951).
5 - Já em janeiro de 1938, o Cardeal Pedro Segura, de Sevilha, publicou uma pastoral em defesa da liberdade das associações católicas contra os ataques dos funcionários governamentais falangistas, os quais desejavam centralizar o seu domínio sobre os assuntos eclesiásticos. Perto do fim da guerra civil, Segura considerava essas tendências totalitárias e agnósticas, particularmente em matéria de censura e vigilância da imprensa religiosa, como "muito graves" dentro do novo governo (Ramón GARRIGA ALEMANY, El Cardenal Segura y el Nacional-Catolicismo, Barcelona, Editorial Planeta, 1977, p. 260-262).
6 - Desde 1946, o governo espanhol, desejoso de parecer religiosamente moderado aos olhos dos poderes do pós-guerra, concedeu cada vez mais liberdades aos protestantes e aos judeus. Daí o proselitismo protestante. Um certo número de bispos espanhóis pronunciou-se contra essa tolerância: Modero Casaus, de Barcelona; Pildain, de Tenerife; e Segura. "Os ataques de Segura contra a tolerância de que desfrutavam os protestantes na Espanha franquista", diz um biógrafo do cardeal, "foram constantes" (CARRIGA, p. 293). De facto, a pastoral de Segura, em 1947, contra a tolerância do evangelismo protestante foi proibida pelo governo espanhol, que considerava as suas críticas embaraçosas (Ibid., p. 294).
7 - A intervenção brutal do presidente americano Harry Truman, exigindo a liberdade religiosa completa na Espanha, só obteve uma resposta evasiva do ministro espanhol das Relações Exteriores, Alberto Martín Artajo. O Cardeal Segura, por outro lado, replicou vigorosamente. Atacou tanto Washington quanto Madrid. Em particular, Madrid havia omitido ocupar-se do crescente proselitismo dos protestantes que se propagava às escondidas na Espanha: segundo uma declaração pública do embaixador americano, o governo espanhol havia "prometido" garantir a liberdade religiosa na Espanha. Ao saber disso, Segura declarou: "Esta afirmação é muito grave; ela explica perfeitamente a grande liberdade em que se deixa, em nosso país, o proselitismo protestante; o qual, uma vez rompida a barreira da tolerância, avançará para a plena liberdade religiosa." (Ibid., p. 302).
8 - No início de 1954, D. Zacarias de Vizcarra, bispo responsável pela Ação Católica espanhola, publicou um artigo em ECCLESIA, a publicação oficial do episcopado espanhol, no qual notava a perversão dos ideais da "cruzada" nacional. Seu artigo era em parte baseado em documentos maçônicos apreendidos. "É bem conhecido", afirmava D. de Vizcarra, "que antes do fim do primeiro ano de guerra, a maçonaria internacional havia previsto a derrota comunista e que estava a implementar os meios para roubar da Cruzada Nacional os frutos da sua vitória. (...) Consequentemente, a maçonaria internacional recrutou astutamente colaboradores nas fileiras anti-marxistas... para alcançar os seus objetivos e, muito habilmente, manobrou sob o pretexto da união e da concórdia entre todos os espanhóis, própria para evitar novos desastres (...)
Os seus três principais meios eram: (A) trabalhar primeiro com vista a um armistício entre as duas Espanhas combatentes, de modo que se pudesse chegar a uma paz negociada; (B) atenuar progressivamente a influência católica na zona nacionalista; (C) utilizar como tática exaltar em toda a ocasião os valores intelectuais de esquerda, silenciando os valores católicos. Estes objetivos, cuidadosamente propagados na zona nacionalista, despertaram um eco imediato, mesmo nos meios acima de qualquer suspeita" (D. de VIZCARRA, "Peligro para el bien común", ECCLESIA, 20 de fevereiro de 1954, nº 658, p. 204). Como exemplo deste processo, ele citava a ampla recepção dada a autores tão anticatólicos como José Ortega y Gasset e Miguel Unamuno (ibid.).
9 - A censura contra as obras de Unamuno e Ortega y Gasset foi levantada em 1955. Os "intelectuais" de esquerda, escritores e professores, começaram a ocupar as cadeiras universitárias na Espanha (GARRIGA, p. 300). Nesse mesmo ano, o bispo de Tenerife, D. Pildain, publicou uma pastoral na qual enumerava um certo número de erros contidos nas obras de Unamuno; mais tarde, no mesmo ano, o General Franco presidiu a uma cerimônia de homenagem em honra de Unamuno, na universidade de Salamanca, da qual ele havia sido reitor antes da guerra civil.
10 - Sob a direção do ministro dos Negócios Estrangeiros, Fernando Castiella, o governo de Franco aprovou, em 24 de fevereiro de 1967, um estatuto que concedia liberdade religiosa completa para todos os cultos, em conformidade com as diretivas do Vaticano II. É certo que algumas pressões foram exercidas sobre o governo pelo Vaticano para esta medida. Mas deve-se lembrar que a reforma de 1967 apenas se seguia a um projeto idêntico (1964-1965) para o qual a influência do Vaticano foi mínima (GARRIGA, p. 336-338).
11 - Em 15 de dezembro de 1938, Franco restituiu todos os direitos e todos os bens ao rei Afonso XIII de Bourbon, no exílio (ele havia sido deposto após a sua abdicação de 1931) (Boletín oficial del Estado, 20 de dezembro de 1938, nº 173, p. 1085).
12 - Em 14 de maio de 1946, Franco declarou perante a assembleia das Cortes espanholas que a monarquia liberal (cujo último representante tinha sido Afonso XIII de Bourbon) tinha "arruinado e desarmado a Espanha" (cf. Cortes Españolas, 14 de maio de 1946, p. 52). No entanto, foi um membro dessa monarquia (D. Juan Carlos) que ele escolheu para o suceder.
13 - Após a derrota do Eixo, o novo ministério Franco (julho de 1945) "foi apresentado como uma transição entre o sistema autoritário e a democracia que seria completamente restabelecida quando Juan de Bourbon regressasse ao trono do qual o seu pai (Afonso XIII) havia tido de descer em 1931" (GARRIGA, p. 290). Para este novo ministério, Franco escolheu um certo número de democratas cristãos, nomeadamente Alberto Martín Artajo, próximo colaborador do Cardeal Ángel Herrera Oria.
14 - Em 4 de dezembro de 1950, baseando-se nas garantias fornecidas pelo governo espanhol de que respeitaria as liberdades civis e no apoio dos Estados Unidos, as Nações Unidas levantaram as sanções que haviam imposto à Espanha em 1946 (Ibid. p. 292).
15 - As interferências da finança americana e internacional nos assuntos espanhóis, que jamais cessaram – mesmo nos momentos mais difíceis – manifestaram-se abertamente no início dos anos cinquenta. O Instituto Nacional de Indústria, criado para estimular a industrialização da Espanha e visto como um órgão "autônomo" do Estado espanhol, foi fundado diretamente por companhias internacionais como Kuhn, Loeb and Company, S. G. Warburg and Company Ltd, Banque de Bruxelles S. A., Goldman Sachs International Corporation, Morgan and Company International S. A., Lazard Brothers and Company Ltd, e N. M. Rothschild and Sons Ltd. A Telefónica e as ferrovias do Estado (RENFE) também foram beneficiadas pelas vantagens internacionais (cf. La Gaceta ilustrada, Madrid, 15 de outubro de 1972).
16 - Importa notar que a Texaco e outros interesses financeiros americanos ajudaram Franco durante a guerra civil. Joseph Kennedy, embaixador em Londres e pai do presidente John Kennedy, apoiou calorosamente Franco perante o presidente Franklin Roosevelt. O governo americano, encorajado pelos interesses capitalistas, iniciou com Franco, em março de 1947, as negociações que resultaram no reconhecimento do governo espanhol pelos Estados Unidos, em 27 de dezembro de 1950 (GARRIGA, p. 292).
17 - Um acordo militar e econômico foi assinado em 26 de setembro de 1953, entre o governo franquista e os Estados Unidos. Martín Artajo, o General Muñoz Grandes, o Almirante Ruiz Carrero Blanco e outros próximos colaboradores de Franco, participaram nestas negociações. Este acordo provocou um vigoroso protesto por parte do Cardeal Pedro Segura. A Espanha ia submeter-se à finança americana e à "cultura" americana: "... a fidelidade à fé católica", declarou o corajoso cardeal, "tem muito mais valor do que um rio de ouro norte-americano. É contrário à nobreza de coração exigir que um pobre transgrida a lei de Deus por uma côdea de pão" (Ibid., p. 302).
18 - Cinco anos antes da morte de Franco em 1975, uma nova lei geral sobre a educação foi promulgada. Esta lei comprometia gravemente o controlo da Igreja sobre as suas escolas e colégios. Reproduzia praticamente o "modelo" da UNESCO tal como já funcionava em outros países (cf. Julian GIL DE SAGREDO, Educación y subversión, Madrid, Fuerza Nueva, 1973).
19 - A Espanha havia reconhecido o regime comunista na China antes da morte de Franco. Da mesma forma, havia autorizado as esquadras de pesca russas a fazer escala nas Canárias.
Concluímos esta enumeração adotando a avaliação dos redatores de LECTURE ET TRADITION (dezembro de 1975, p. 1): "Franco não é para nós o modelo de chefe de Estado, pois desviou-se do caminho contrarrevolucionário para jogar o perigoso jogo de equilíbrio entre um estatismo jacobino e um liberalismo latente, jogo que é a causa da situação trágica em que a Espanha de hoje se debate".
A. C. (Coor.)
A GNOSE, UM TUMOR NO SEIO DA IGREJA
DADOS HISTÓRICOS
A descoberta no Egito, perto de Nag Hammadi, de uma biblioteca gnóstica em língua copta, renovou nosso conhecimento sobre a Gnose. Anteriormente, era comum definir a Gnose como uma penetração do pensamento grego no Cristianismo primitivo ou como o resultado de um sincretismo oriental, com as religiões da Índia, da Pérsia e do Egito esforçando-se para penetrar a jovem Igreja e fazer germinar nela suas próprias crenças.
Desde a descoberta desses manuscritos, devemos revisar esses temas e reconduzir a Gnose a uma origem mais próxima do Cristianismo; ela nasceu em meio judaico-cristão, alimentou-se de um pensamento especificamente judeu, extraído de toda uma bagagem literária do Antigo Testamento, mesmo que tenha buscado seu vocabulário no grego e fórmulas de aparência filosófica no Egito e no Irã. É preciso, de fato, distinguir cuidadosamente um pano de fundo cultural ou religioso sobre o qual um novo ensinamento se desenvolverá e o que constitui o caráter específico deste último: não são as semelhanças de vocabulário, as fórmulas retomadas aqui ou ali que o constituem, mas sim a nova ordenação do conjunto.
Ora, o ensinamento gnóstico é original. Ele não é encontrado em nenhum outro lugar, nem nas religiões pagãs conhecidas naquela época, nem na filosofia grega, nem na astrologia.
A Gnose não é uma Igreja: ela não provocou o surgimento de um clero, com uma hierarquia, nem de rituais litúrgicos. (1)
A Gnose não é uma filosofia: ela não pretende demonstrar, com a ajuda da razão, verdades universais, acessíveis a todos os homens de reflexão. Ela não oferece do Universo uma visão racional. Ela recusa um ensinamento comum difundido por uma escola.
A Gnose é essencialmente uma vegetação religiosa parasitária, alimentando-se do Cristianismo para extrair dele um certo número de elementos os quais ela irá desviar de seu sentido natural para lhes dar uma nova significação totalmente oposta ao ensinamento da Igreja.
A Gnose é uma seita de iniciados, pretendendo ter recebido uma revelação mais perfeita que a de Jesus, reservada a espíritos de elite que serão desviados do ensinamento ordinário da Igreja e constituirão como uma chaga roedora dentro da comunidade cristã.
1º A Revelação de Jesus Cristo
Os milagres de Jesus na Palestina foram o ponto de partida de um imenso espanto: não se podia negá-los; até mesmo os Fariseus e os Saduceus assistiam a eles como que tomados de estupor; dizia-se: "De onde, então, lhe vem seu poder? Quem é ele para que as ondas e os ventos lhe obedeçam? Jamais vimos tal prodígio!" O primeiro gnóstico, mestre de todos eles, Simão Mago, pretendia ser capaz de provocar milagres por meio de uma encenação engenhosa, mas diante dos verdadeiros milagres de São Pedro na Samaria, ele ficou propriamente sufocado: assim, pediu a São Pedro que lhe vendesse seu poder, que lhe revelasse seus "truques" de mágico. Após o espanto, veio a indignação; dizia-se: "É por Belzebu que ele expulsa os demônios!"
Seu ensinamento também provocava um estupor bem justificado: "De onde, então, lhe vêm sua ciência e sua sabedoria? Não era ele o filho de um carpinteiro?" Pode-se fazer uma distinção nesse ensinamento: de um lado, as parábolas, verdades morais simples, acessíveis aos espíritos mais rudes, mas também verdades profundas acessíveis às mais altas inteligências; e, de outro lado, seu ensinamento propriamente divino: os grandes mistérios sobre Deus, superando infinitamente as capacidades de toda inteligência. Quando os Apóstolos forem espalhar esse ensinamento pelo mundo, ele tomará um impulso extraordinário. Alcançará em um século todo o império romano e todas as classes da sociedade. Eis novamente a fonte de um profundo espanto: "Como simples pescadores galileus puderam assim ser ouvidos e seguidos por comunidades numerosas e por mentes de todos os níveis? Ali também deve haver uma causa secreta, oculta, que é preciso descobrir!"
Os Gnósticos não compreenderam isto: as verdades mais simples, apreendidas pelos espíritos mais simples no nível do senso comum, são também as verdades mais profundas que só podem ser apreendidas no nível mais elevado por meio de uma elaboração intelectual difícil, uma reflexão sustentada, uma sabedoria adquirida por uma longa experiência. Eles irão, portanto, buscar a causa dessa expansão em um ensinamento secreto, reservado por Jesus a alguns discípulos privilegiados: Tiago, João, Matias ou Tomé. Eles irão distinguir o ensinamento exotérico, difundido pelos Apóstolos às pessoas comuns, e um ensinamento esotérico, reservado por Jesus e alguns Apóstolos a iniciados superiores.
Eis a origem da Gnose.
Precisemos ainda isto: o ensinamento de Jesus e dos Apóstolos também esteve na origem de uma grande decepção: o Cristianismo não pretende dar de imediato, por uma simples afirmação gratuita, a certeza imediata e definitiva da salvação eterna: é preciso, para alcançá-la, uma vida de virtude, de renúncia, de ascese; ela pode sempre ser posta em xeque pelo pecado. Essa salvação final é conquistada pelo esforço constante de todo o ser em direção à perfeição. Isso é singularmente exigente, difícil, árduo.
Os Gnósticos irão, portanto, buscar um meio de salvação imediato, definitivo, que evite essa obrigação de um esforço constante sobre si. Eles o apresentarão como um segredo cuja posse deve libertá-los de toda inquietação e assegurar-lhes um repouso na certeza.
Finalmente, Cristo não deu uma resposta plenamente satisfatória sobre a existência do mal no mundo. Digo satisfatória para o Gnóstico, que irá, portanto, buscar a origem do mal não no homem, mas no mundo divino, não sendo o homem pecador e, portanto, culpado, mas vítima de um mal que lhe foi imposto do alto. Será preciso esperar os grandes doutores cristãos e precisamente São Tomás de Aquino para encontrar essa resposta adequada à dificuldade levantada.
A partir dessas considerações sobre o ensinamento de Jesus, deduzir-se-ão todas as afirmações dos Gnósticos. Mas antes de desenvolvê-las, será bom examinar seus procedimentos:
2º Os procedimentos gnósticos:
O exame dos fatos mostra que a Gnose seguiu em seu desenvolvimento a expansão do Cristianismo, acompanhando os passos dos discípulos e levantando as objeções de que falamos, seja diretamente, seja indiretamente, sussurrando-as aos primeiros convertidos entusiasmados.
Após o assassinato de Santo Estêvão, São Pedro se refugia na Samaria e se encontra imediatamente diante de Simão Mago, pai da Gnose. A Igreja se desenvolve em Antioquia, na Síria; imediatamente, vê-se aparecer Nicolau, um dos diáconos, que deu seu nome aos Gnósticos Nicolaitas, depois Menandro, Satornilo. O Evangelho é pregado no Egito, em Alexandria. Ouve-se então o ensinamento de Basilides, cujas fórmulas são tão próximas do Budismo, depois de Valentim, o maior dos Gnósticos. Em Roma, ouve-se o de Marcião; em Lyon, o de Marcos, etc.
Os Gnósticos se infiltram no meio das comunidades cristãs. Eles dão um ensinamento individual, discretamente. Tertuliano nos diz que eles começavam "por enunciar a fé comum em fórmulas equívocas!... para induzir os fiéis ao erro". Santo Irineu nos conta: "que eles atraem as pessoas falando-lhes como nós mesmos falamos. Eles se queixam de que os tratamos como excomungados, enquanto, de parte a parte, as doutrinas são as mesmas. E depois abalam pouco a pouco a fé por meio de suas perguntas. Daqueles que não resistem, eles fazem seus discípulos. Eles os levam à parte para lhes desvendar o mistério inenarrável de seu Plêroma."
Eis, não é verdade, um interessante texto tirado do "Contra as Heresias" de Santo Irineu. Dir-se-ia escrito hoje. Assistimos ainda hoje a tais manobras!
Os Gnósticos praticam "o anonimato" como um sistema de ensinamento. Eles não assinam seus escritos. Conhecemos seus nomes apenas por meio dos heréticos, e estes tiveram muita dificuldade para descobri-los. Eles tiveram tanta dificuldade para conseguir seus manuscritos secretos. Santo Epifânio nos conta como ele mesmo frequentou por um tempo os Gnósticos do Egito, atraído para seu covil por alguma mulher: "Se escapei de suas garras, diz ele, isso não se deveu apenas à minha virtude pessoal, mas à ajuda divina que respondeu então às minhas orações."
Graças à sua passagem entre eles, temos muitas informações sobre as diferentes seitas e os manuais utilizados. Santo Epifânio cataloga com uma precisão notável os mestres, suas escolas, seus manuscritos.
Os Gnósticos não assinam seus escritos, mas fabricam escritos "aos quais, diz Santo Atanásio, atribuem antiguidade e dão os nomes dos Santos" (isto é, dos Apóstolos). São "pseudepígrafos" e não "apócrifos". Conhecemos os verdadeiros autores desses livros, mas os autores designados neste texto são mentirosos: são eles "O Livro Secreto de João" - "A Sofia de Jesus" - "O Apocalipse de Tiago" - "O Discurso de Zaratustra" - "O Apocalipse de Adão" - "O Discurso de Hermes" - "O Evangelho de Tomé" - "As Palavras Secretas de Jesus", etc.
Em geral, Jesus, após a ressurreição, chamou à parte alguns discípulos, Tiago, João, Tomé, e, sentado sob uma árvore, revela-lhes um ensinamento que deverão guardar para si mesmos e para aqueles que julgarem dignos de compreendê-lo.
A leitura do "Evangelho de Tomé" é, em particular, muito sugestiva. Este Evangelho era uma obra base dos Gnósticos e particularmente dos Maniqueístas.
Uma primeira leitura superficial do texto deixa na mente a impressão geral de que se trata de uma obra perfeitamente ortodoxa, sendo três quartos das palavras de Jesus substancialmente idênticas às dos Evangelhos canônicos; mas uma releitura mais atenta faz aparecer certas insistências que denotam uma intenção subjacente: são, por exemplo, repetições frequentes: "Que aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça." – "Assim, vocês acessarão a contemplação do que nenhum olho viu." – "Conheçam a si mesmos e o que está oculto lhes será revelado." (Subentendido: saibam que vocês têm em si mesmos a divindade) – fórmulas panteístas: "Quando vocês fizerem com que os dois sejam um, vocês se tornarão filhos do Homem" (isto é, seu retorno à unidade primordial fará aparecer sua essência divina). – "Racha a madeira, eu estou lá; levanta a pedra e me encontrarás nela!" – "O reino está dentro de vocês" – "Toda mulher que se tornar masculina entrará no reino dos céus!"...
Assim, a partir de fórmulas ortodoxas, por insistências seletivas, por adições de fórmulas de aparência obscura ou misteriosa, já se delineiam as principais teses gnósticas que parecem então ter emanado da própria boca de Cristo. Restaria apenas desenvolver essas fórmulas, afirmando-se fiéis discípulos de Jesus.
Finalmente, um procedimento notável, utilizado com grande sucesso pelos Gnósticos, foi o de "resgatar" para reforçar seu prestígio os Grandes Iniciados do paganismo: Orfeu, Pitágoras, Hermes, Zaratustra, até mesmo Homero.
Não se trata de um sincretismo religioso, ou seja, os Gnósticos não se divertem em amalgamar doutrinas religiosas variadas ou contraditórias para delas tirar uma doutrina de "denominador comum". Não se trata de uma super-Igreja "mistura de tudo".
Pelo contrário, trata-se muito precisamente de atribuir a essas personalidades célebres da antiguidade, cujo ensinamento havia sido oral, a própria linguagem da doutrina gnóstica. É o apelo a uma autoridade incontestada no passado e a redação de textos fictícios, atribuídos a posteriori a esses ancestrais distantes.
Assim, vemos Orfeu representando o Cristo nas antigas catacumbas romanas, numa época em que era difícil separar os verdadeiros Cristãos dos Gnósticos. Os hereiologistas os repreendiam por representarem o Cristo sob faces pagãs: Hermes, Orfeu, Homero, Pitágoras. Santo Irineu conta que uma mulher, Marcelina, havia levado para Roma um oratório com as figuras de Jesus, Homero e Pitágoras. Os sectários tinham medalhas ou estatuetas representando Platão, Pitágoras. O imperador Alexandre Severo era igualmente gnóstico. Ele venerava em seu larário Jesus Cristo, Abraão, Orfeu e Apolônio de Tiana.
Na primeira catacumba, a de São Sebastião, encontra-se em um hipogeu dos Inocentes inscrições cristãs onde se veem os sobrenomes de Hermes, Hermésio, Hermêsiano. Carcopino descreve um túmulo de Ravena do século III: a pequena defunta, Juliana, é interpelada no masculino: "Salve, Eugamio"; ela é representada sentada e Hermes lhe toca os olhos, para despertá-la, com uma varinha de mágico. Trata-se muito certamente de um túmulo cristão gnóstico. O Cristo é por vezes representado sob a forma de um Deus pagão, armado de uma varinha com a qual ele não ressuscita o morto, mas o chama ao "Despertar": "Abre os olhos! Vê! Tu és divino!"
Carcopino descreve uma basílica pitagórica de Roma, bastante semelhante a um hipogeu de um cemitério cristão. Ele relata uma cerimônia litúrgica que parece calcada na Ceia cristã.
Homero era interpretado por eles assim: Ulisses, retido na ilha de Calipso, designava a alma, centelha divina, prisioneira do corpo material e ainda hesitante em se libertar de seu carcereiro.
Os textos de Hermes Trismegisto (= três vezes grande) foram encontrados na biblioteca gnóstica copta. Da mesma forma, os "Versos Dourados", atribuídos a Pitágoras, são bem posteriores ao início do Cristianismo; eles datam ao menos do final do século I e contêm fórmulas propriamente gnósticas: "Saberás que a natureza é UMA e semelhante em tudo" (panteísmo) – "Aquele que transmitiu à nossa alma a TETRAKTYS, fonte da natureza infinita" (o nome divino é a natureza da nossa alma) – "Àqueles que sabem despertar o que há de sagrado em sua alma, a natureza mostra todas as coisas" – "Quando abandonares teu corpo, serás imortal, um deus imortal e não mais um mortal"... Etc.
Assim, esta primeira parte de nosso estudo terá permitido situar bem a Gnose em relação ao mundo pagão e ao Cristianismo, dentro do qual ela se desenvolveu como uma seita parasitária para subverter todo o seu ensinamento. Reconhecem-se já os procedimentos de nossos modernistas na arte de seduzir e desviar as almas da Verdade; reconhece-se ainda a Lenda nascente dos "Grandes Iniciados" que transmitem de geração em geração uma doutrina secreta.
O ENSINAMENTO DA GNOSE
Para bem compreender as "Revelações" dos Gnósticos, é necessário despojá-las de todo o fatras mitológico de que são ornadas ou, antes, emaranhadas, e também de um vocabulário obscuro que tinha a pretensão de as tornar veneráveis. Não falaremos nem de Éons, nem de Arcontes, nem de Plêroma, etc.
Monsenhor LAGIER, em sua obra sobre "O Oriente cristão", apresenta 7 proposições nas quais se pode resumir todo o ensinamento de nossos heréticos. Veremos que, a partir dessas afirmações estranhas, é possível extrair todos os grandes erros do mundo moderno.
1º "O Deus de quem nos fala o Antigo Testamento é talvez uma divindade inferior, não é o verdadeiro Deus. Muito acima Dele se encontra o Ser supremo, único princípio de tudo o que existe".
Os Gnósticos praticaram um antibiblismo sistemático. Eles inverteram todas as afirmações do Gênesis. Sua cosmologia é uma máquina de guerra erguida contra Yahvé, o Deus criador. O mundo em sua essência é divino. O ser supremo é um Abismo original de onde emergiram todas as potências espirituais. Esta é já uma primeira forma de Panteísmo. Yahvé Sabaoth, o Deus criador do Gênesis, é uma emanação do ser supremo; ele se revoltou contra este ao aprisionar, em uma matéria degradada e má, os seres puros, espirituais emanados do Grande Abismo. Foi um demiurgo (= arquiteto) desajeitado. Ele é a fonte de todos os males. Eis uma explicação da origem do Mal e a designação do Grande Culpado, o Deus que os Cristãos adoram.
2º "A matéria, em si, se opõe a Deus".
Compreendamos bem que esta matéria não é uma emanação da alma suprema, mas uma criação do Demiurgo, obra desajeitada que se oporá à perfeição do poder divino, impedindo sua expansão. Houve, portanto, nesse ato criador um erro, uma degradação dos seres espirituais, uma "queda original", não a do pecado de Adão, mas a do Pecado de Yahvé.
3º "Deus se desdobra e se revela gradualmente por potências celestes, por seres divinos em sua origem".
Esta é a doutrina da emanação (emanar = espalhar-se para fora de si). O mundo é uma divindade que se espalha para fora de si mesma, por uma extensão de seu ser; o mundo é um Deus-Ser supremo em perpétuo crescimento. Do abismo original, este Deus engendra uma multidão de seres que são apenas parcelas de si mesmo. O mundo está em perpétuo devir. É divino por natureza, pois é gerado e não criado. Infelizmente! Yahvé formou a matéria, ele degradou este mundo, ele impediu assim a expansão, a evolução para essa plenitude divina que os Gnósticos chamam de "Plêroma".
Além disso, Deus se revela dentro do mundo por seus enviados, seres divinos, gerados por ele, que, em intervalos regulares, irão lembrar aos homens decaídos e prisioneiros da matéria que eles também são divinos. É necessária, portanto, uma revelação contínua: vemos surgir aí os primeiros lineamentos da Lenda dos Grandes Iniciados. A Gnose é, de fato, uma "revelação" de uma realidade oculta.
4º "A matéria é misturada com centelhas divinas (2); essas centelhas saem de sua prisão material graças ao Cristo que age nos ritos sagrados da magia".
A alma humana é, portanto, divina (centelha ou esplendor de um Deus que se estende a todos os seres). O corpo é uma ganga terrestre, uma prisão da qual é preciso se livrar para fazer aparecer essa divindade que reside em nós. Cristo é o maior dos Iniciados enviados do alto. Ele ensinará aos homens que eles são divinos: "Olhem para dentro de si mesmos e verão sua própria divindade", tal é a fórmula repetida no evangelho de Tomé. Para isso, é preciso se livrar dessa prisão material que lhes esconde sua verdadeira natureza. Acordem! Compreendam, finalmente! Conheçam, pois, seu caráter divino! Não há necessidade de conquistar pela força de sua ascese uma semelhança com Deus. Vocês já são divinos, mas não o sabem. Esse conhecimento os libertará. "A Salvação pela Gnose" (= conhecimento).
Encontramos aqui quase as fórmulas modernistas da imanência vital: Deus permanece no homem (manere in = habitar em), o homem só precisa voltar seu olhar para dentro de si mesmo para encontrá-Lo lá.
5º "A ação de Cristo foi real, mas sua humanidade carnal nunca foi senão aparência enganosa: a paixão e a ressurreição são apenas símbolos sem realidade".
Evidentemente, um enviado divino não pode ter sofrido a degradação de um corpo material. Foi preciso que ele tomasse forma material para se fazer conhecer e poder agir eficazmente junto a homens que também são prisioneiros de seu corpo físico. Mas Cristo não tinha que resgatar por uma paixão os pecados dos homens, já que estes não existem. Há apenas um único pecado, o "pecado do mundo", o pecado desse Yahvé que deteriorou pela sua criação a expansão da divindade. Cristo não veio libertar os homens de suas faltas: Ele não lhes ensinou uma "via", um caminho a percorrer para alcançar uma perfeição possível a vir. Ele lhes "revelou", isto é, "desvelou" o que eles não sabiam, que eles eram Deus, já, desde sempre. O homem é vítima da Criação de Yahvé, não é culpado dela.
6º "O divino que está acorrentado na matéria, ou seja, a alma humana, não é responsável pela carne que o oprime. O espírito permanece puro: ele não é solidário das paixões, nas faltas cometidas."
Eis, finalmente, onde era preciso chegar! O Gnóstico recusa aos homens a responsabilidade por seus atos. Já que a matéria é má, nosso corpo de carne só pode produzir atos maus. Mas este corpo é nossa prisão. Nossa alma, "centelha divina", não pode ter a menor relação com qualquer mal. Como explicar tudo isso? Decompondo o homem em três partes: um corpo material, o "soma", uma animação propriamente fisiológica, a "psique", e uma alma espiritual de essência divina, o "pneuma". Essa estrutura ternária do homem é uma invenção genial: a sede das paixões, a "psique", é uma potência má ligada à matéria que ela sustenta na existência; é preciso se livrar dela o mais rápido possível. O "pneuma", por sua vez, permanece impassível, espectador indiferente das vãs agitações do corpo.
Essa divisão ternária do homem se reencontra no ocultismo moderno que utiliza outro vocabulário para designar as mesmas realidades: eles concebem um mundo espiritual, um mundo astral, um mundo material. O homem é composto de um corpo, de um duplo e de uma alma! Velho processo para tirar do homem sua verdadeira responsabilidade e negar-lhe o domínio de seus atos.
Encontra-se nesta exposição todo o protestantismo. Não afirmou Lutero que o homem era incapaz de um ato bom, que as obras são inúteis e que se é salvo apenas pela fé?
Encontra-se ainda aí os primeiros elementos da psicanálise moderna cuja função essencial é a de pesquisar a sede do subconsciente na "psique", motora das paixões, e de "liberar" o homem desvelando-lhe que ele não é culpado, mas sempre vítima inocente de pulsões instintivas às quais deve dar livre curso, já que elas não alteram sua natureza: libertação sexual, etc.
7º "As leis escritas e as leis naturais foram concebidas por deuses inferiores e nem sempre são homologadas pelo verdadeiro Deus, cuja essência transcende todo pensamento e cuja natureza é indizível."
Os Gnósticos são por definição antinomistas, ou seja, recusam toda lei. Um ser de essência divina não precisa de lei, sendo esta um meio para atingir um fim. Ora, o ser divino é para si mesmo seu próprio fim. Além disso, uma lei é recebida de uma autoridade que o submete a ela. Um ser divino é totalmente senhor de si e não precisa de submissão. Esta lei natural de que falam os Gnósticos é uma construção arbitrária de um espírito mal-intencionado querendo submeter os outros seres aos seus caprichos, é uma sujeição indigna de uma "centelha divina". Yahvé quis aprisionar nossa natureza divina em um corpo material e nos impor seus caprichos. Eis um grande motivo de indignação para nossos sectários. O verdadeiro Deus é a plenitude da Divindade, o "Plêroma": sua essência é conter todos os seres, englobá-los em um imenso "Tudo". Não se pode defini-lo, pois ele transcende todos os limites: é o "Grande Tudo", o "Abismo Inominável"; a salvação para a alma divina é perder-se nele.
Encontra-se nesta última proposição a revolta daquele que pronunciou o "non serviam" e que disse a Adão e Eva: "Eritis sicut Dei", se comerem da Árvore do Conhecimento (= Gnose).
8º O culto da serpente.
Existia entre as seitas gnósticas a dos Ofitas ou Naassenos (ophis em grego e naas em hebraico significam serpente): estes são os Grandes Gnósticos, aqueles que penetraram mais profundamente no Mistério das Revelações: "Veneraremos a serpente, dizem eles, porque Deus a fez causa da Gnose para a humanidade: ela ensinou ao homem e à mulher o completo conhecimento dos mistérios do alto". Eles se reúnem em torno de uma mesa, dispõem os pães, depois chamam com incantações a serpente que vem se aninhar entre as oferendas. Só então, eles partilham os pães... "É aí, pretendem eles, o sacrifício perfeito, a Verdadeira Eucaristia..."
Assim, o círculo se fecha. Todas essas elaborações pretensamente sábias destinam-se, na realidade, a desviar os Cristãos da adoração do verdadeiro Deus e a levá-los à adoração da Serpente, supremo objetivo da Seita: esta celebração satânica assemelha-se, a tal ponto que se pode confundir, à ceia rosacruz praticada na Sexta-feira Santa nos rituais maçônicos do 18º grau. (3)
AS RESSURGÊNCIAS DA GNOSE
O maior Gnóstico do mundo moderno é Hegel, o mestre do Marxismo.
Ouçamos estas fórmulas: elas são copiadas, quase palavra por palavra, dos primeiros gnósticos!
1º "A essência divina é a mesma coisa que a natureza em toda a sua amplitude" (eis o plêroma do Panteísmo).
2º "Deus, na origem, não era senão uma solidão sem vida" (eis o Abismo original).
3º "Não se pode conceber que haja queda a partir da essência divina; a verdade é simplesmente que essa essência divina se aliena a si mesma a principio". O mundo divino cindiu-se, gerou o mundo a partir do "nada superessencial" ou da "sombra incriada anterior". Este ato é um "pecado original cósmico" e um "sacrifício divino": Deus dividiu-se de si mesmo.
4º O homem sozinho é espírito... Ele é um momento de Deus... o momento crucial...
5º Este mundo gerado da Divindade é um "parto doloroso", uma "doença", uma "prova" de Deus. Não há pecado original do homem. "O mal está em Deus".
6º A dialética hegeliana é "a história vista sob o ângulo da serpente". A revolta de Adão é o início de uma "legítima recuperação" de sua essência divina... a reconquista de sua divindade original.
Assistimos, sobretudo desde o século XVIII, a um retorno em força dos temas gnósticos no pensamento ocidental. Essa tendência se reencontra antes da Revolução na proliferação dos altos graus maçônicos, em meados do século XIX no panteísmo dos poetas românticos, no final do século XIX, na invasão dos pensamentos orientais na Europa, na teosofia, por exemplo, no século XX no pseudo-Tradicionalismo de René Guénon e de seus discípulos, hoje mesmo em diversos movimentos como "Nova Acrópole", "Graça", e outros.
E.C.
Notas
(1) É necessário precisar aqui que, por um fenômeno secundário e derivado, surgiram mais tarde Igrejas gnósticas com hierarquia e liturgia: os Maniqueístas, os Mandéanos; mas é preciso sublinhar então que essas Igrejas não puderam desenvolver uma religião de caráter universal por deficiência de natureza: um ensinamento que se quer secreto, reservado a iniciados, não pode levar a tal resultado. O Maniqueísmo acabou por se dissolver em seitas esotéricas, e os Mandéanos são hoje apenas uma minúscula comunidade, testemunhas de um passado do qual perderam o verdadeiro significado.
(2) Lembremos a fórmula de Cristo: "Levanta a pedra, eu estou lá, racha a madeira, eu estou lá igualmente". (Evangelho de Tomé). Isso remete a tal fórmula de cântico moderno: "Ele está em cada pedra... no centro da terra, no fundo dos oceanos, ele faz germinar as sementes, dirige os riachos... etc." Da mesma forma, fórmulas modernas de cânticos intitulados: "Desperta, ó tu que dormes", têm um sabor particularmente gnóstico. São as expressões habituais dos manuais da seita.
(3) Consultar o artigo do mesmo autor, publicado no Boletim nº 2, p. 23.
O Padre JANDEL, FUTURO MESTRE GERAL da ORDEM dos FRADES PREGADORES, EXPULSOU O DIABO de uma "LOJA MAÇÔNICA LIONESA"?
PREFÁCIO
O título deste artigo terá, sem dúvida, surpreendido alguns leitores. De fato, nós também tivemos uma certa relutância diante deste texto, mas a seriedade de seu autor nos fez aceitá-lo e, em retrospecto, estamos muito felizes em publicá-lo aqui neste boletim: de fato, tal qual ele está, contribuirá para manter um certo equilíbrio entre os diversos aspectos da Subversão e introduz um elemento concreto, vivenciado, naquilo que é forçosamente uma descrição abstrata de uma realidade complexa (nota 1).
Por que se espantar e, no fundo, o que temer?
A dificuldade não reside tanto na exatidão das circunstâncias quanto na natureza do fato em si. As circunstâncias são relatadas através de vários documentos que apresentamos pelo que valem, nem mais nem menos. Por outro lado, o fato levanta um problema à partida, e mesmo dois: primeiro, crê-se na existência do Diabo e, em seguida, crê-se na possibilidade de sua manifestação, em uma possibilidade real, não teórica, mas efetivamente realizada? Uma outra questão anexa, mas finalmente secundária, é saber se o Diabo governa por vezes os homens diretamente, por uma intervenção física.
Neste século que se pretende racionalista, tornou-se de bom tom rir dessas coisas, a tal ponto que mal era possível responder a essas perguntas afirmativamente se se quisesse participar de um debate intelectual de algum nível; e o próprio clero, que rapidamente aprendeu a lição, mal se aventurava mais em terrenos tão delicados.
Após o caso "Léo Taxil", os próprios círculos antissubversivos tornaram-se de uma prudência que muitas vezes beirava o silêncio, e o dano causado por essa sinistra maquinação foi tão importante que se compreende facilmente nossos antecessores de cem ou até cinquenta anos atrás (nota 2).
Hoje em dia, parece, pelo contrário, que só se pode lucrar ao abordar uma questão tão necessária agora mais do que nunca, pois isso se tornou possível. Por quê?
A Revolução, que precisou usar o racionalismo para derrubar o cristianismo, pensa que esse resultado foi obtido e hoje precisa, ao contrário, deixar transparecer sua verdadeira face "espiritualista" para se instalar definitivamente, para responder ao vazio deixado pela religião defunta e preparar, em suma, o reinado do Anticristo.
Dessa forma, ela de certa forma deu um tiro no próprio pé e não pode mais rir quando se fala do Diabo.
É bastante cômico ver como os historiadores modernos trataram a Idade Média "obscurantista" em luta contra a bruxaria: esses pobres coitados de bruxos eram, ao que parece, apenas uns desafortunados, vítimas das condições econômicas, segundo os racionalistas, de sua libido reprimida, segundo os freudianos.
Ora, atualmente, as livrarias já não têm prateleiras suficientes para suportar todos os livros que tratam de ocultismo e bruxaria: cada semana nos traz novos e, se alguns são disparatados, muitos descrevem experiências completamente reais.
Assim, uma obra recente narra a iniciação, longa e penosa, de um universitário americano por um feiticeiro indígena com a ajuda de plantas e cogumelos alucinógenos, e ali se reencontram as situações e as técnicas dos feiticeiros europeus medievais, fazendo o autor, aliás, ele mesmo alusão a isso.
Assim é também o caso das investigações que se encontram até mesmo em revistas de grande circulação e onde a bruxaria atual na França é tratada como um tema normal, importante e fascinante.
A questão não é, portanto, mais tabu e não é ruim que acrescentemos nossa pequena nota ao concerto, mesmo e sobretudo se ela não estiver no mesmo tom.
Resta responder às perguntas que fizemos no início: sim, cremos na existência do Demônio, sim, cremos na possibilidade e na realidade de suas manifestações. Teologicamente, isso é certo, e testemunhos demais o confirmam ao longo dos séculos para que seja razoavelmente possível duvidar (nota 3).
Quanto às suas intervenções em loja, basta refletir um pouco para admitir a sua eventualidade, ao mesmo tempo que se fixam os seus limites: para isso, o adágio segundo o qual "o diabo é o macaco de Deus" pode nos iluminar utilmente.
Deus age ordinariamente no mundo por causas segundas, o Demônio, por sua vez, também – Deus age em seguida inspirando sua Igreja e as almas individuais, o Demônio faz o mesmo pela Contra-Igreja e seus fiéis (sendo este, aliás, o seu modo de ação mais frequente) – Deus age finalmente, por vezes, manifestando-se diretamente a almas privilegiadas, seja por Ele mesmo (Cristo), seja pela Santíssima Virgem, ou pelos Anjos, ou pelos Santos: por que o Demônio não o faria também à sua maneira?
Todos aqueles que estudaram um pouco a Maçonaria sabem que nela reinam "espiritualidades" diversas e, por exemplo, a distinção entre satanistas e luciferianos é bastante conhecida.
Se, habitualmente, os rituais iniciáticos são um canal suficiente para fazer passar a influência do mau Espírito, é muito concebível que, em certos cenáculos, este se dê ao trabalho de vir sob uma forma física, o que é capaz de impressionar muito mais fortemente certos temperamentos.
Mas, sem que se trate de estabelecer um paralelo estrito, deve-se admitir que tais situações não são mais frequentes do que o são, por sua vez, as aparições em meio católico. Em um caso como no outro, a característica da via extraordinária é não ser ordinária e sua importância, embora real, não deve obscurecer a atenção a ponto de fazer esquecer a via normal: em tal matéria, esse risco não deve ser negligenciado, esta seria talvez a suprema habilidade diabólica!
Vocês estão avisados. Agora, façam o sinal da cruz, e boa leitura!
S. A. B.
No clima atual de racionalismo e modernismo, esta questão pode fazer alguns sorrir, outros cairão na gargalhada. E, no entanto, se se quiser estudar objetivamente os fatos, convir-se-á que ela deveria ser levantada, qualquer que seja a resposta que cada um lhe der, com conhecimento de causa.
A "Semaine religieuse de GRENOBLE", de 10 de junho de 1880, publicava um relato extraordinário que ela fazia preceder de uma palavra de introdução.
"O estranho relato que reproduzimos é autêntico, pois antes de publicá-lo quisemos conhecer e possuir todas as provas. O Padre JANDEL em pessoa o contou a várias testemunhas cujas declarações estão em nossas mãos."
Quem eram essas testemunhas? Provavelmente aquelas que citaremos mais adiante de outra fonte. A "Semaine religieuse" não as menciona.
Este relato, retomado por numerosos periódicos, foi inserido ou utilizado em coletâneas de histórias edificantes ou com fins apologéticos, sem nenhuma referência crítica e com algumas variantes de detalhe.
Pode-se perguntar de antemão por que, tendo o evento ocorrido em Lyon, foi em Grenoble que ele foi extraoficialmente acreditado. A resposta é simples: em 1880, o bispo de Grenoble era Dom FAVA, anteriormente bispo da Martinica. Ele era um cavaleiro da Idade Média com uma fé ardente, um homem de ação cujas realizações são impressionantes, um valente lutador contra os governos perseguidores e a Maçonaria.
Ele fundou com esse propósito a revista "La Franc-Maçonnerie démasquée" em 1884, inspirou-a e a dirigiu por nove anos. Foi na sequência de uma diligência feita em Roma por Dom FAVA que Leão XIII publicou sua encíclica "HUMANUS GENUS" contra as sociedades secretas (20 de abril de 1884). No calor da luta, o valente bispo talvez nem sempre teve tempo de controlar rigorosamente as informações que lhe chegavam. Ele se deixou enganar no início pela impostura de Léo Taxil. Longe de ser o único!
Dom FAVA certamente ficou feliz em acolher o relato de que falamos. Ele trazia água para o seu moinho.
Em Lyon, era o oposto. O cardeal de BONALD (falecido em 1870) deixou a memória de um homem reservado, bastante tímido, de extrema prudência e circunspecção, pouco propenso a perturbar a opinião pública pela publicação de fatos, mesmo autênticos, suscetíveis de criar agitação de dupla corrente, não só entre os fiéis sempre ávidos de maravilhoso, mas também entre os adversários da Igreja, virulentos e vingativos. Sabe-se, por parêntese, que naquela época Lyon contava com 12 lojas maçônicas, que os banquetes gordos de Sexta-feira Santa começavam a ser honrados e que a imprensa hostil à Igreja se desenvolvia amplamente? Perto do fim do Segundo Império, houve até um jornal que se intitulava "l'Excommunié".
Aqui está o texto publicado pela "Semaine religieuse de Grenoble":
"O P. JANDEL, pregando em Lyon, foi um dia impelido por um movimento interior a ensinar aos fiéis a virtude do sinal da Cruz; ele não resistiu a essa inspiração e pregou. Ao sair da catedral, foi abordado por um homem que lhe disse:
Senhor, o senhor acredita no que acabou de ensinar?
Se eu não acreditasse, não o ensinaria, respondeu ele, a virtude do sinal da Cruz é reconhecida pela Igreja, eu a considero CERTA.
Verdadeiramente, retoma o interlocutor surpreso, o senhor acredita... Bem, eu sou maçom e não acredito; mas, porque estou profundamente surpreso com o que o senhor ensinou, venho propor-lhe pôr à prova o sinal da Cruz. Todas as noites, nos reunimos em tal rua, em tal número, o demônio vem ele mesmo presidir a sessão. Venha esta noite comigo, ficaremos à porta da sala; o senhor fará o sinal da Cruz sobre a assembleia e eu verei se o que o senhor disse é verdade.
Tenho fé na virtude do sinal da Cruz, acrescenta o P. JANDEL, mas não posso, sem ter pensado detidamente, aceitar sua proposta. Dê-me três dias para refletir.
Quando quiser provar sua fé, estou às suas ordens, retoma ainda o maçom, e ele dá seu endereço ao dominicano.
O P. JANDEL dirigiu-se imediatamente a Dom de BONALD e perguntou-lhe se podia aceitar o desafio, em nome da Cruz. O Arcebispo reuniu alguns teólogos e discutiu longamente com eles os prós e os contras dessa abordagem. Finalmente, todos acabaram por concordar que o P. JANDEL deveria aceitar.
- Vá, meu filho, disse-lhe Dom de BONALD, abençoando-o, e que Deus esteja com você.
Quarenta e oito horas restavam ao P. JANDEL: ele as passou a orar, a mortificar-se, a recomendar-se às orações de seus amigos e, no final da tarde do dia designado, foi bater à porta do maçom. Este o esperava. Nada podia revelar o religioso; ele estava vestido com roupa leiga; apenas havia escondido sob essa roupa uma grande cruz.
Partem e chegam logo a uma grande sala mobilada com muito luxo e param à porta... Pouco a pouco, a sala se enche; todos os assentos iam ser ocupados, quando o demônio aparece sob forma humana. Imediatamente, tirando do peito o crucifixo que tinha escondido, o P. JANDEL o eleva com as duas mãos, fazendo sobre a assistência o sinal da Cruz. Um raio não teria tido um resultado mais inesperado, mais súbito, mais estrondoso. As velas se apagam, os assentos se viram uns sobre os outros, todos os assistentes fogem. O maçom arrasta o Padre JANDEL e, quando se encontram longe, sem poder dar-se conta da maneira como escaparam às trevas e à confusão, o adepto de Satanás se precipita aos joelhos do sacerdote:
- Eu creio, disse-lhe ele, eu creio: reze por mim, converta-me, ouça-me."
Faltam a este texto três esclarecimentos:
1° A data do evento - Tendo o Padre JANDEL pregado na Primacial de Lyon a estação do Advento de 1846, é quase certamente durante essa estação que o evento ocorreu.
2° O local onde teria ocorrido - "Nós nos reuníamos em tal rua, em tal número..." Gostaríamos de conhecer esta rua e este número para identificar a loja maçônica, se for de fato uma loja e não um apartamento privado. Uma tradição oral, infelizmente incontrolada, diz que foi na Montée du Gourguillon, no edifício que mais tarde abrigou a Câmara dos Notários do Ródano, e depois vários grupos escoteiros.
3° O Conselho reunido no Arcebispado, composto por vigários gerais e teólogos, durante o qual se discutiu se o Padre JANDEL deveria ser autorizado a aceitar o desafio, não deixou nenhum rastro. Sabemos apenas que o Padre GAUTRELET, jesuíta, assistiu. "No entanto", precisou o padre PETIT, hoje falecido, que há uns quinze anos era arquivista do Arcebispado e que realizou pesquisas muito aprofundadas, "devo dizer que o silêncio dos documentos oficiais sobre o caso JANDEL não me surpreende em nada. O Cardeal de BONALD sempre foi de uma prudência e de uma circunspecção extremas e certamente não deixou um processo-verbal de uma reunião desse tipo. Ele pode ter deixado o Padre JANDEL agir por sua própria conta e risco; ele certamente não lhe deu uma autorização positiva e formal para ir à cerimônia maçônica, o que poderia tê-lo comprometido na opinião pública".
Em 1890, é publicada em Paris, pela editora Poussielgue, a "Vida do Reverendíssimo Padre Alexandre-Vincent JANDEL, septuagésimo terceiro Mestre Geral dos Frades Pregadores", pelo P. F. Hyacinthe-Marie CORMIER da mesma ordem. É um volumoso in-octavo de 579 páginas, com "Nihil obstat" dos P. P. BION e RAYNAL e "Imprimatur" para a terceira edição (1896), do P. GALLAIS, provincial. Esta terceira edição "revista e aumentada" é precedida de um Breve de SS. Leão XIII, onde o Soberano Pontífice elogia "o homem sem controvérsia eminente, de uma prudência e piedade notáveis que governou por tanto tempo a família dominicana e tão bem a mereceu". O caráter sério do P. JANDEL estava assim consagrado.
Utilizaremos a terceira edição, a mais completa. Na página 133, o volume reproduz palavra por palavra o relato publicado em 1860 na "Semaine religieuse de Grenoble". Pode-se crer que o Padre CORMIER não afirmou o fato levianamente, sabendo-se, por um lado, o pouco gosto que os discípulos de São Tomás de Aquino sentem por "diableries" e fantasmagorias de toda natureza e, por outro, as qualidades de julgamento e ponderação que fizeram deste religioso o Assistente Geral de sua Ordem.
Uma nota complementar fornece os nomes das testemunhas, provavelmente aquelas de que se falava no início.
São elas:
- M. Sauvé, proprietário e por muito tempo Diretor do Hôtel de la Minerve em Roma;
- o P. Lescuyer, Vigário geral da Terceira Ordem docente;
- o P. Eymard, fundador dos Padres do Santíssimo Sacramento, hoje beatificado;
- o Padre Dalongo, Jesuíta, e o Irmão Floride, Procurador geral dos Irmãos das Escolas Cristãs, ouviram o relato da própria boca do Padre JANDEL;
- o Padre Gautrelet, por sua vez, participou da reunião do Arcebispado.
Certamente, houve, entre os dominicanos da época, incrédulos. Foi assim que o Padre Monsabré escreveu, em 16 de julho de 1894, ao doutor Imbert-Goubevre que havia relatado o evento:
"Li, como o senhor, em vários jornais e Semanas religiosas, o relato da Aparição do Diabo expulso de uma loja maçônica pelo P. JANDEL. Não se acredita nisso em nossa casa. Não duvide mais, mas tenha como certo que não se deve dar nenhum crédito a essa fábula".
O jornal "La Vérité" de 12 de novembro de 1894 opinava no mesmo sentido.
Para compreender essas reações vivas, é preciso não perder de vista que, em 1894, um impostor, ainda não desmascarado, Léo Taxil, lançava em grandes quantidades no mercado, para o uso das almas boas e crédulas, galhofas estupefacientes, histórias fantasmagóricas onde Satanás e suas coortes demoníacas assumiam um papel primordial no jogo da Maçonaria. Por reação, todos os espíritos sensatos, dotados de um mínimo de senso crítico, rejeitavam esse sobrenatural de "Grand-Guignol" e englobavam no mesmo desprezo as elucubrações de Taxil e os fatos sérios dignos de serem discutidos.
Hoje, a opinião dos dominicanos é mais matizada. Nenhum historiador da Ordem formou uma opinião original sobre os detalhes do P. JANDEL com o Diabo. Eles sabem que o Padre JANDEL era um religioso sério e prudente e que ele mesmo contou sua aventura. Portanto, a discussão continua possível, o essencial girando em torno do valor dos testemunhos. Este é também o nosso ponto de vista.
Reservei para o final um testemunho capital que não pode ser contestado. Ele apareceu, sob a forma de carta ao "L'Univers" inserida pelo jornal, em 29 de julho seguinte.
Saint Dié, 29 de julho de 1895
"Faço questão de vos trazer, nesta ocasião, o meu testemunho pessoal.
"Sendo vigário em Plombières, de 1864 a 1888, conheci muito o P. JANDEL, tão humilde, tão venerável, tão venerado por todos, e que era nosso comensal. Nessa época, os jornais fizeram grande alarde do fato em questão. Naturalmente, meu venerável pároco, o Sr. Rolland, de tão santa memória, falou-lhe sobre o assunto e o suplicou que nos fizesse o relato dessa aventura.
"O bom P. JANDEL, após muitas hesitações inspiradas pela humildade, contou-nos o seguinte: convidado por um de seus amigos de Lyon para assistir a um importante Convento de Maçons, ele aceita e veste roupas leigas e, conduzido por este amigo, entra na sala de reuniões. Os Maçons chegam e se colocam em seus lugares; espera-se a entrada do presidente, em meio a um silêncio absoluto e aterrador. De repente, a porta se abre, o Grão-Mestre faz sua aparição e avança para seu assento. Ao vê-lo, o P. JANDEL é tomado pelo pavor, tão inconcebível e assustador lhe parece aquele ser; ele faz um grande sinal da Cruz e, de repente, dir-se-ia que tudo desabava; a personagem horrível desaparece, as luzes se apagam e todos os Maçons, cheios de terror, se precipitam, num delírio medonho, para fora do templo.
"Sim, o R. P. JANDEL nos contou esta cena; eu estava lá, ouvi seu relato e afirmo com a mais inteira certeza o que digo e não permito a ninguém contestar minha afirmação. Então, seria preciso duvidar da veracidade do P. JANDEL e tratá-lo como mentiroso. Ora, não o creio, pois sei o que é.
"Que os detalhes dados pelo R. P. Cormier sobre a encenação – o Maçom que quer provar a virtude do sinal da Cruz, a consulta ao Arcebispo de Lyon, a grande Cruz escondida sob a roupa leiga do P. JANDEL, a conversão do Maçom etc. – sejam verdadeiros, isso pode ser, mas não respondo por isso. O que eu certifico da maneira mais absoluta é o fato bruto, tal como acabei de contar e tal como nos foi brevemente contado pelo R. P. JANDEL. E concluo com o doutor Imbert: "Sim, o célebre dominicano realmente expulsou o diabo da loja maçônica de Lyon por um sinal da Cruz".
Assinado: M. de BAZELAIRE, Secretário geral do Bispado de Saint Dié.
Nosso dossiê se encerra com esta carta. Desde esta data, que saibamos, nenhum novo testemunho pró ou contra pôde ser apresentado. Nenhum estudo crítico de alcance decisivo foi publicado. Os espíritos não prevenidos continuarão a se interrogar e a discutir. Mas ninguém mais pode ridicularizar o fato e um certo número, incluindo o autor destas linhas, manterá a íntima convicção da veracidade do Padre JANDEL e do valor do testemunho do Padre de Bazelaire.
F. M. d'A.
(1) Aliás, não se trata de um trabalho exaustivo: seu autor reuniu peças válidas por suas referências e consideradas como tal por numerosas pessoas qualificadas, mas este dossiê permanece aberto a eventuais descobertas de documentos ou testemunhos.
(2) Uma das consequências lamentáveis deste caso foi que muitos fatos dignos de estudo foram deixados na sombra por medo do ridículo. No entanto, podem-se destacar três exceções notáveis:
- Dom Trochu, historiador do Cura d'Ars, dedicou em seu livro publicado em 1925 um capítulo inteiro às relações do Santo e do Demônio; ora, este livro foi objeto de uma tese de doutorado defendida perante um júri universitário.
- Dom Cristiani reuniu em uma obra muito conhecida "Presença de Satanás no mundo moderno" diversos testemunhos sobre a atividade contemporânea do Demônio no Oeste da França.
- Finalmente, em 1948, a revista "Les Études Carmélitaines" dedicou um número especial a Satanás, que se tornou um clássico e foi recentemente reeditado. Notemos, porém, que esta obra, devida a uma plêiade de autores muito diferentes, inclui artigos muito variados e alguns muito pouco católicos.
(3) É preciso lembrar aqui o quanto a Igreja sempre levou este problema muito a sério, não só com palavras mas com atos: as funções de exorcista fazem parte do curso das ordens eclesiásticas, e ainda hoje cada diocese possui um exorcista oficial, auxiliar especializado do bispo. Finalmente, há menos de um século, o Papa Leão XIII prescreveu no final das missas privadas a oração a São Miguel, onde se pede a este que nos proteja contra "os espíritos malignos que vagam pelo mundo para a perdição das almas".
O ITINERÁRIO AGOSTINIANO e suas CONSEQUÊNCIAS INTELECTUAIS
A visita de um amigo inspirou estas páginas. Independentemente da antiga amizade que nos une na fé sobrenatural, ela tinha por objetivo uma certa repreensão: a de deixar pairar, em nosso artigo que inaugurava a "COLUNA FILOSÓFICA"(1), uma espécie de responsabilidade do agostinismo no advento do luteranismo e do cartesianismo. Trataremos disso mais tarde. Meu amigo é agostiniano de coração e espírito. Eu o sou de coração, mas menos de espírito. Eis o que alimenta nossas "disputationes".
Amo em Santo Tomás de Aquino esse equilíbrio, essa dosagem exata do místico e do positivo, do metafísico e do concreto, do espiritual e do material, em todos os sentidos diversos dessas palavras, e que procedem de um ser moldado de carne e espírito que não se quer nem anjo decaído, nem besta acabada, mas homem.
Também amo nele essa posição inexpugnável, precisa até no último detalhe, que ele estabelece entre tendências que, quando não compreenderam nossa unidade de natureza, nossa unidade de substância, parecem dividir os espíritos: um empirismo tão frio quanto um cadáver destinado à dissecação, culminando num naturalismo materialista, por um lado, e, por outro, um idealismo com dupla tendência aberrante, racionalista e mística.
Amo nele, enfim, essa capacidade de dar vida ao sonho eterno da Igreja, onde o discurso universal de Deus teria dois profetas: a inteligência humana, filha de Deus, e o Verbo, Filho de Deus e Sua imagem igual, colaborando para uma revelação tanto natural quanto sobrenatural do saber.
Meu velho amigo, embora seja sensível a esse equilíbrio, a essa posição, a esse poder da abordagem tomista, de certa forma, se assusta com ela. Para ele, parte-se de um ponto muito baixo: a matéria. De tão baixo, cansa-se ao tentar subir até Deus, quando é ao homem, melhor, à sua alma, à sua alma somente, que se pede para realizar essa ascensão em direção ao seu divino criador. É assim que meu amigo tem uma ternura particular por Agostinho.
Agostinho é menos um filósofo do que uma alma no rastro de Deus. Agostinho pensa, claro, e pensa intensamente, mas não há, nele, nada de sistemático: ele registra seu pensamento na ordem em que emerge, muito mais do que numa ordem didática. A ponto de que, se há uma metafísica em Agostinho, é a de sua própria conversão.
É esse movimento de pensamento que meu amigo ama, onde a pesquisa filosófica se confunde com a busca pela vida feliz da alma: a beatitude. O que meu amigo ama em Agostinho é talvez, sobretudo, reencontrar essa vontade de ser autossuficiente e essa incapacidade de viver sem Deus, essa ambição e esse fracasso, esse orgulho e essa miséria de cada um de nós, que sua doutrina confessa.
Esta não nos descreve um combate de Titãs, mas o combate de um homem, de um jovem, infatuado de si mesmo, que, arrastado por seus desequilíbrios precoces do coração e da razão, busca sua estrela polar: ele sabe que ela existe, caso contrário não a procuraria; e ele sabe que é Deus — esse Deus de quem sua mãe lhe havia falado, quando era criança. Agostinho não é um cético. Agostinho não compreende; pois há nele um materialismo radical que sustenta sua razão. Agostinho não é sensível ao espiritual!
Na verdade, o que é ele, senão um jovem de palavra fácil e charmosa; mas para além do domínio da palavra, ele nada sabe. Aos dezesseis anos, deixou Tagaste, sua cidade natal, para ir a Cartago: ali aprendeu a retórica; agora, de dia, a ensina ali; à noite...
Aos vinte anos, lê Cícero. Aprende que existe uma sabedoria imortal, bem supremo de todo homem razoável. Com a mesma fúria que o arrasta em seus desequilíbrios, ele quer alcançar, adquirir, possuir essa sabedoria. Ele rompe com tudo, despreza as vãs esperanças do mundo e reencontra até as orações que sua mãe lhe havia ensinado.
Ele quer conhecer esse Cristo de quem ela lhe fala, essa Igreja onde ela reza. Essa Igreja o decepciona: ali se propõe a fé como condição da inteligência. Ele quer ler a Escritura. É esse o Deus de sua mãe, esse homem semelhante a nós que passeia no jardim do Éden e conversa com Adão, como um velho faria com seu neto? Agostinho está decepcionado.
Ele prefere voltar aos seus desequilíbrios e iniciar-se nesse ideal de sabedoria, tal como é cantado por Epicteto, Sêneca, Dion Crisóstomo, Marco Aurélio, tal como ecoa nas mentes dessa intelligentsia cosmopolita de sua época, que quer se alinhar com os tempos romanos. Ali, está-se no concreto. Fala-se de um dinamismo de forma materialista. Tudo é matéria; tudo é corpo — tudo é "cósmico". A matéria tem uma Razão; o universo tem uma alma, adornada com atributos divinos.
Tal é a filosofia geral dos Estoicos — tão próxima da filosofia geral do primitivo, ainda que empregue um vocabulário mais erudito. Ali se chama de espírito o dinamismo racional manifestado em todas as coisas, particularmente no homem, e ali se chama Deus a esse "espírito". Esse "espírito", esse "Deus", é entendido como uma substância material mais sutil que a dos corpos: ela não tem existência subjetiva, mas adivinha-se sua presença em toda parte e ela desempenha em toda parte o papel de Providência, ou seja, de Natureza, no sentido poético e antropomórfico dessa palavra. O que o decepciona é que ali não se fala do Deus dos Cristãos.
É então que ele encontra os Maniqueus. Eles se dizem cristãos e invocam o testemunho da Escritura. Professam uma doutrina dualista e, em sua essência, um materialismo radical. Dois princípios cósmicos dividem o todo do real: um, o Pai da Luz e da Grandeza, o Deus bom, cujo Jesus Cristo dos Evangelhos é apenas a emanação aparente; o outro, o Príncipe das Trevas, Satanás, de quem Eva, a tentadora e a matriz universal da humanidade, é a aliada. Entre essas duas potências, uma guerra encarniçada que eclodiu no dia em que o Caos original gerou nosso mundo, esse mundo que se abriu à luz e sonha em aceder à pureza da Luz.
Para impedir essa proliferação do mundo material, o Pai da Luz, o Deus bom, gerou o homem, puro filho de luz, pura substância luminosa; mas este foi vencido pelas forças tenebrosas, revestidas de matéria e, a partir desse dia, permanece assujeitado à propagação material. Por essa propagação, por essa geração sexual, perpetua-se a transmissão do Mal, gera-se essa humanidade emaranhada na matéria, princípio de todo pecado, e essa impotência para dela se libertar e recobrar sua origem luminosa, divina.
Tal é o verdadeiro Saber, constitutivo da Salvação. A difusão desse Saber é a obra da Redenção, iniciada por todos os "enviados" da Luz, dos quais Jesus Cristo é apenas o maior, e que só atingirá toda a sua extensão salvífica com o advento do Paráclito.
Essa epopeia cósmica inflama a imaginação de Agostinho, ele que, já antes, só se deleitava com as ficções de poetas, com o incêndio de Troia ou com a morte de Dido. Ele é seduzido por essa doutrina cujo princípio e fim é a Salvação, procedendo do Conhecimento, operando por ele e nele, com a ajuda da razão somente — expressão do Cristianismo perfeito, audível apenas à elite, inacessível ao povo, apenas capaz de divinizar tudo o que não compreende — de divinizar o Jesus Cristo das Escrituras.
Agrada-lhe ouvir que o homem, como o mundo, é o joguete de uma luta eterna entre duas forças cósmicas infinitas. Agrada-lhe deixar-se convencer de que não somos nós que pecamos, mas alguma natureza estrangeira que peca em nós. Quem não encontraria ali desculpa para seus próprios desequilíbrios, para suas próprias impotências em vencê-los? Durante doze anos, Agostinho faz parte da seita.
Em 384, ele parte de Cartago e vai a Roma, a fim de ali brilhar: tem trinta anos. Símmaco, governador de Roma, o envia a Milão, então capital administrativa do Império. Curioso, ele vai ouvir Santo Ambrósio, cuja celebridade atravessara os mares. Ele o escuta como retórico, para julgar sua eloquência... Contudo, os sermões do Bispo de Milão têm uma riqueza, uma tonalidade que o perturbam.
Ele duvida da interpretação gnóstica e maniqueia da fé cristã; mas é incapaz de ir além: a própria espiritualidade do catolicismo lhe escapa.
O que é esse Deus, de quem fala Santo Ambrósio, de quem nossa alma é, por sua natureza espiritual, à imagem, desse Deus, isto é, desse Altíssimo e Muito Próximo, Muito Misterioso e Muito Presente, que está em toda parte sem estar em lugar nenhum, visto que nada tem em comum com a forma corpórea? O que é esse Deus? O que é essa alma? Agostinho sente tragicamente sua impotência para ultrapassar o horizonte turvo de suas pálpebras.
Contudo, é nesse instante que ele percebe o quanto toda filosofia, como a sabedoria — essa sabedoria à qual ele aspira — se resume a essas duas questões, e que elas estão indissoluvelmente ligadas. Plotino lho revelará com toda a rigorosidade. Ele se lembrará disso quando escrever mais tarde: "Desejo conhecer duas coisas: Deus e a alma. Nada mais. Não, absolutamente nada mais!" Ele conhece Santo Ambrósio; ele se emociona com a amizade que esse grande prelado lhe dedica; mas é incapaz de se desvencilhar desse materialismo que lhe fecha as pálpebras.
Essa impotência, é a leitura de Plotino que a abalará. Plotino lhe ensina a distinguir a matéria do espírito, a alma do corpo. Nem a alma, nem Deus são substâncias corpóreas, ainda que sejam infinitamente sutis, nem mesmo "incorpóreas", como imaginam os gnósticos. Eles são imateriais, intemporais. Eles são da natureza do espírito, do pensamento, essa luz do espírito, não essa "luz sensível" que é apenas um refluxo dos nossos sentidos até a nossa alma, mas essa "luz inteligível" que é o fluxo da nossa alma, do nosso espírito, que é pensamento puro.
É Plotino quem lhe ensina — e esta será a marca indelével de todo agostinismo de ontem e de hoje — que a alma, e a alma sozinha, é o homem, e que a alma, por sua origem e sua natureza, é divina, porque espiritual. É ele ainda quem lhe ensina que é porque a alma se deixa ofuscar pelo refluxo nela das imagens sensíveis que ela a esquece e se torna incapaz de se entregar à "luz inteligível", de apreendê-la em si mesma e de fazê-la subir até sua fonte, Deus.
É ele ainda quem lhe ensina que é por um ato de vontade da alma que a alma pode realizar esse "retorno sobre si mesma" que a restitui à sua natureza, à sua finalidade: beber da "luz" que a habita, e da qual ela participa — para não dizer, como Plotino, da qual ela emana. Aqui, a razão não atua, mas a vontade. Por ela, a inteligência se apaga, e a alma, desde então, se entrega ao que lhe pertence por estado, por natureza, Deus, essência de toda "luz inteligível", pois é Inteligível em si e por si, essência de toda verdade, pois é Verdade em si e por si.
União fugidia, certamente, mas primícias da união definitiva, quando nossa alma, liberta de sua ganga terrosa que não é outra senão o corpo que ela habita, será uma essência livre e incorpórea e que residirá natural e pacificamente onde está a "essência das essências", onde está o ser, onde está o divino em sua plenitude, isto é, em Deus, sua pátria. Tal é a célebre teoria da conversão ou do retorno a Deus, peça fundamental da filosofia de Plotino, que os pensadores cristãos retomarão e conduzirão à sua verdadeira finalidade.
Compreendemos, por aí, o quanto o agostinismo será marcado pelo selo plotiniano. Mas Plotino não é marcado pelo selo cristão? Contudo, ele, que soube admiravelmente integrar em Deus o ponto de vista de Platão (o Um), o ponto de vista de Aristóteles (o Pensamento do pensamento), o ponto de vista dos Estoicos (Deus, alma do mundo), e cuja obra é animada por uma misticidade sem subterfúgios que ele toma emprestado dos místicos cristãos, não compreendeu o cristianismo: falta-lhe um Deus criador; falta-lhe o Cristo. É o que Agostinho sente; pois se Plotino foi, para Agostinho, uma etapa necessária, até mesmo fundamental, não será senão uma etapa.
Étienne Gilson o salienta muito bem (2): há, em Agostinho, um movimento contínuo que começa com a leitura do Hortênsio, se prolonga, após a leitura de Plotino, pela descoberta do sentido espiritual das Escrituras e atinge o ato de fé no Cristo e em sua Igreja.
Que itinerário! Mas um itinerário que não se pode compreender se esquecermos a explosão nas mentes que a Revelação cristã gerou, esse movimento intelectual que ela suscitou no pensamento pagão, o qual buscou reduzi-la às suas compreensões filosóficas ou religiosas. Agostinho foi apanhado nesse estado e, em toda a sua obra, dele restarão vestígios.
Nada de inútil nesse itinerário que ele percorre depois de ter lido o Hortênsio. Agostinho reconhecerá nele mesmo a obra da Providência. Cada etapa lhe arrancou em pedaços esse materialismo que cobria seu pensamento como uma capa de chumbo; mas a trama desse itinerário movimentado se desenha pela vontade de alcançar a verdade.
É Plotino quem lhe demonstra que essa verdade que ele busca só pode ser obtida depois de ter restituído sua alma à natureza, seu pensamento à sua finalidade: a verdade, não a verdade que os homens imaginam ou concebem, mas essa verdade, nutrição própria da alma enquanto alma, que é, por essência, una, imutável, eterna e necessária, em uma palavra, Deus mesmo. É Santo Ambrósio quem lhe mostra que essa verdade divina tem um nome, um rosto, em suma, que ela é uma Pessoa, o Cristo, Filho de Deus.
Assim, compreende-se por que a filosofia de Agostinho é mais, propriamente falando, uma filosofia da verdade do que uma filosofia do ser enquanto tal. Ele, que buscou a verdade, estará, pelo próprio fato de a descobrir em sua fonte, menos preocupado com as provas da existência de Deus do que com as da verdade divina, causa transcendente de toda verdade, umas conotando as outras.
Agostinho, em sua essência, jamais deixou de crer no Cristo; mas não sabia que crer no Cristo requer crer com o Cristo, pelo Cristo e no Cristo. É isso que ele finalmente compreende. E é então esse grito de união que ressoará até o fim dos tempos em todo homem que descobre essa exigência: não se compreenderia jamais nada, se não se tivesse compreendido primeiro que é preciso crer... Crede ut intelligas!
Milão, 387. Ele tem trinta e três anos. Está na Igreja: recebeu o batismo da própria mão de Santo Ambrósio. Ele tem fé... A fé, luz da razão. Mas essa fé está ali ainda informe, carregada de ignorâncias. Essas ignorâncias, tão pesadas quanto recusas, ele ainda precisa vencê-las.
A fé é apenas um meio; a fé não é um fim, caso contrário, como seria ela luz da razão? É preciso que a fé busque, pois se a fé não se preencher de Deus e da verdade de Deus, e da caridade de Deus, o que é ela? É próprio da fé buscar; mas é a inteligência que encontra: fides quaerit, intellectus invenit. A inteligência — a inteligência das coisas divinas, a inteligência da vida divina, a inteligência da caridade divina, a inteligência de Deus — é a recompensa da fé: intellectus merces est fidei.
Assim, essa Sabedoria à qual Cícero o havia despertado e que ele havia procurado nas fontes das vaidades humanas, é São João quem lha revela em toda a sua corporificação: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus... E o Verbo se fez carne e habitou entre nós". Talvez seja neste instante que Agostinho compreenda o quanto, sem essa Sabedoria, sem essa Verdade que se fez carne, o homem jamais saberia não apenas o que é Deus, mas o que é o próprio homem, o homem em sua vontade de se bastar e sua impotência de viver sem Deus.
Agostinho deverá compreender ainda mais, a saber, que essa fé que o anima, mesmo que a tivesse em toda a plenitude, mesmo que o abrisse à compreensão de todos os mistérios e lhe desse toda a ciência, se ele não tiver a caridade, ele não é nada.
É isso que São Paulo lhe ensina: a caridade! Não essa caridade que seria tornar nossas lágrimas sinônimas das dos outros, mas essa caridade que resplandece do fogo do Amor, porque inflamada pelo próprio Espírito Santo, essa caridade que nos torna alimento de Deus e alimento dos homens.
Então somente — sim, somente — se adota o caminho da humildade, aquele que leva à vida feliz, à beleza santificante; pois não há mais nenhuma recusa à graça. Como poderíamos amar a nós mesmos melhor do que Deus nos ama? Imaginá-lo — mesmo no seio da fé, como com demasiada frequência nós mesmos o imaginamos — é próprio de um coração corrompido.
Com meu velho amigo, nossas controvérsias não se referem à conversão de Santo Agostinho, a essa jornada que começa no nível do chão e termina em uma ascensão, às vezes vertiginosa — como em Óstia — até esse Deus que reivindicou para si o grito fulgurante que nos pulveriza em nossa insignificância: Ego sum qui sum! Compartilhamos a mesma admiração por esse gigante do Cristianismo que foi e permanece Santo Agostinho.
Nossas "disputas" decorrem de nosso diagnóstico do homem contemporâneo. Para meu amigo, o homem não mudou. Tal como era ontem, tal é hoje, e tal será amanhã: o homem em sua vontade de se bastar e sua impotência de viver sem Deus. Isso é verdade; mas é um lugar-comum. Seria preciso ser evolucionista para não o compreender.
Provocado, meu amigo passa a me descrever em todos os detalhes o paralelismo que ele percebe entre o paganismo de ontem e o de hoje, e a me descrever até o totemismo clerical de certos católicos. Em suma, para ele, os homens voltaram a ser pagãos. Se eu lhe digo que João Paulo II, para encontrar alguns espécimes, teve que se embrenhar nas serras do México, porque em todo o resto do mundo o ensino laico e obrigatório extinguiu até a sua espécie, ele tem um gesto de impaciência como faria um professor que acredita nas virtudes civilizadoras de seu ensino.
Pagãos... Não, hoje, já nem existem! Dia e noite, a cada toque de gongo em nosso peito, milhões e milhões de homens morrem vazios de crença, vazios de Deus.
O pagão, por sua vez, acreditava em um Ser supremo e criador. Mesmo que ressoasse em sua cabeça toda uma herança de vinte milênios de crenças mágicas ou míticas, essa própria herança, por mais heteróclita que fosse, testemunhava-lhe o quanto esse Deus, tão puro, tão elevado, tão distante, não podia ser do nosso mundo: Ele era o Inominável, o Imóvel, o Deus, bem além dos deuses que assombravam seus medos. Bastava ao homem olhar o mundo e o que ele contém para se convencer de sua existência necessária. O menor uso do princípio de causalidade o fazia compreender isso.
O que ele não compreendia bem, na verdade, era essa oscilação perpétua das coisas deste mundo da vida à morte e da morte à vida. Daí, esse sentimento confuso e pesado de um Destino, de uma Fatalidade, de uma Necessidade que, à mercê de forças contrárias, enlaça o mundo como um torno, sujeitando-o por completo à sua lei inexorável – e do qual alguns, um dia, chegarão a crer que Deus é também o joguete.
Os Gnósticos não serão senão a continuação dessa corrente blasfematória, na verdade, bem afastada da tradição "pagã": eles a adaptarão à Revelação cristã. Hegel apenas a recolocará em circulação e lhe dará a aparência de racionalidade pelo uso de um vocabulário emprestado da filosofia moderna, nascida de Descartes. Mas essa é outra história...
O pagão acreditava em um Deus supremo, Pai dos homens! Ele conhecia até a Culpa original, aquela que um dia um homem, do qual ele perpetuava a raça, havia cometido, jurando bastar-se a si mesmo. Ele conhecia até a imortalidade da alma, até a ressurreição dos corpos. Por que, senão, essa comida nos túmulos? Sim, ele esperava confusamente ver um dia Aquele que desceria do céu para lhe abrir novamente as portas. Basta ler a história da humanidade, escrita por todos os povos, para se convencer disso.
Hoje, o homem não sabe erguer suas pálpebras para contemplar o céu e a terra e lançar esse grito de admiração, misturado com temor: há um só Deus que possa ser o Criador! O que o homem de ontem, o que o homem de todos os tempos passados já não sabia mais não era crer na existência de Deus (credere Deo), mas crer em Deus (no sentido de adesão e fé – credere in Deum). Bastava solicitar esse movimento, essa passagem do credere Deo ao credere in Deum! Hoje, como solicitar crer em Deus, quando se é impotente para crer na existência de Deus?
Para meu amigo, como para Agostinho, não há, de fato, nenhuma dúvida de que alguns ignoram esse Deus que nos habita, de alguma maneira, mas ignorá-lo era ignorar como se o ignora, ou seja, como nos recusamos a ouvi-lo, a nos entregar a Ele, a fim de viver com Ele, por Ele e n'Ele.
Para Agostinho, sua experiência o prova, como a Escritura o prova a ele: Dixit insipiens in corde suo: non est Deus, non est verum Deus! Agostinho sabe, porque o viveu, que o homem pode chegar a esse grau de cegueira onde nega Aquele que vive em nós e sem o qual nem o céu nem a terra, nem o homem e seu pensamento, nem o pensamento e a verdade que o rege e o julga, existiriam.
Mas para Agostinho – como para meu amigo – tais homens são tão raros que é quase impossível encontrá-los. É por isso que, quando ele busca a razão desse desregramento, logo lhe aparece que aqueles que desconhecem a Deus são corações corrompidos.
Hoje, já não se trata apenas de corações corrompidos... é a própria razão que está corrompida! Atualmente, de fato, o que é quase impossível encontrar em todo o nosso planeta são homens – o que digo? – adolescentes, que não sejam agnósticos, e que não o sejam "racionalmente", a ponto... a ponto de o próprio crente ser incapaz de provar o caráter racional de sua crença. Como, então, viver nossa fé e combater aqueles que a corrompem?
Não digamos que provar o caráter racional de nossa crença exija ser um "letrado", como se dizia ontem, de ser um "intelectual", como se diz hoje. Atualmente, não há ninguém que não conheça a teoria de Einstein, a de Darwin, de Freud ou de Marx, e, portanto, que não seja capaz, se assim o desejar, de conhecer o caráter racional da fé sobrenatural, de conhecer a filosofia de São Tomás de Aquino, a qual é a filosofia da Igreja, a filosofia de toda a catolicidade, e a qual, por fim, é a única filosofia capaz de esvaziar de suas vaidades ilusórias as doutrinas e teorias que enchem nossas cabeças. Hoje, não há ninguém que não seja um "intelectual", que não tenha um certificado de inteligência e não tenha preenchido, até a idade de dezesseis anos, milhares de páginas de escrita – dezesseis anos! Dez anos de escolaridade!
Essa recusa de Deus e de crer em Deus, essa ignorância culpável da fé sobrenatural, não são o efeito de um impulso, de uma distração provocada por nossas desordens da carne e do espírito, o espírito desculpando a carne, e a carne desculpando o espírito!
Essa recusa, essa impotência é o fruto de um ensino deliberado inculcado em todas as mentes pelo ensino laico e obrigatório, por seu "programa", imposto a todos os estabelecimentos "privados" ou estatais de nosso planeta.
Ainda que confusamente, quem não sabe, por seus esforços (desse ensino), que as provas racionais da existência de Deus são insuficientes, a metafísica, uma cogitação vazia, a ontologia, uma ciência vã, etc., e que de Deus não há outras provas senão a prova prática, ou moral que produz a fé moral, cuja certeza é subjetivamente suficiente, embora objetivamente insuficiente?
Isso, nós o lemos no primeiro capítulo da "Crítica da Razão Pura", mas o encontramos também, sob mil pretextos e mil faces, em todos os nossos manuais escolares, em todos os nossos livros e jornais, e o ouvimos até no microfone dominical de nossos padres mitrados ou não (3).
De tudo isso, fomos advertidos. La Salette, Lourdes, Fátima, o que pensamos que isso seja? Sim, Aquela que deu à luz em sua virgindade o Filho do Homem-Filho de Deus, esforçava-se para despertar as consciências para esse trágico advento. Ela sabia que iriam atacar não só a inteligência católica, mas até a inteligência simples, espontânea – os "pobres de espírito" do Evangelho – e que a menor aldeia, em nome da universalidade e da neutralidade do Saber, teria sua escola de ateísmo, de modo que a inteligência, dia após dia, afundaria mais profundamente nas trevas, trevas mais escuras que aquelas que os pagãos haviam vivido.
Desse despertar das consciências, nasceu o Concílio Vaticano I, o qual era doutrinal e teve como tema essencial a condenação dessa afirmação multicefálica, segundo a qual Deus, pela luz natural da razão, não pode ser conhecido com certeza, por meio dos seres criados, e alcançando as perfeições invisíveis. O objeto das condenações reiteradas das "doutrinas modernistas" – das quais ninguém mais parece saber hoje o que são – não é outro senão denunciar sua negação da demonstrabilidade da existência de Deus, princípio e fim de todas as coisas.
Que evento extraordinário! A Igreja se ergue para salvar a inteligência humana do perigo que a assola. Ela não condena apenas, uma a uma, as doutrinas que a matam, mas até a sociedade moderna da qual ela é oriunda. Ora, para salvar o mundo, para salvar a inteligência, o que a Igreja exige? Instruir e ensinar, em toda parte e em todos os graus do ensino, a metafísica e a teologia tomistas, em suma, a doutrina de Santo Tomás. Que estranha fantasia querer voltar a Aristóteles e a Santo Tomás, quando ninguém ignora que a filosofia e a ciência nasceram com Descartes!
Quem se lembra do "juramento antimodernista", exigido de todo católico docente e, implicitamente, de todo escritor católico: "Professo que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido e demonstrado, por meio dos seres que Ele fez, ou seja, das obras visíveis da criação, como a causa é conhecida e se demonstra por seus efeitos".
"Como a causa é conhecida e se demonstra por seus efeitos"... O mundo, a criação... um Criador, fonte tanto do ser quanto da inteligibilidade de todas as coisas! Seria preciso que tudo isso fosse anterior ao meu pensamento; mas, meu pensamento é primeiro, indubitavelmente primeiro.
Isso é indubitavelmente demonstrado pelo Cogito de Descartes – Descartes, ex-aluno do colégio jesuíta de La Flèche, ex-capitão de artilharia pensionado pelo cardeal Bérulle, editado em Amsterdã por nossos queridos irmãos maçons, e finalmente consagrado "filósofo", por toda a clique protestante inglesa, escocesa, holandesa, prussiana e alemã.
Deslumbrados por tal panóplia, não nos surpreendamos que os Jesuítas, desde o início do século XVII, tenham ensinado, na França, em seus célebres colégios, o "Discurso do Método", apesar da proibição reiterada de Roma e de seu próprio Geral. Mas sua divisa não é que é preciso estar no compasso da História, mesmo que seja preciso fabricá-lo?
"Como a causa é conhecida e se demonstra por seus efeitos"... Isso, de fato, tornou-se ininteligível em nossa época cartesiana. Lembremo-nos! Do racionalismo, Descartes estabelece as condições metafísicas, melhor que Parmênides e Platão: meu pensamento é primeiro! Lembremo-nos! Duvido, donde penso. Penso, logo existo. Eu sou e sei que sou! Mas o que sou? Uma coisa cuja essência e existência não é propriamente conhecer, mas pensar, melhor, PENSAR-SE! A existência do pensamento puro que sou, da "consciência" (eu sou e sei que sou), do "eu", do "mim" que sou, é primeira, indubitavelmente primeira. Todo o resto – se é que há resto, incluindo meu corpo, incluindo o mundo, incluindo Deus – é segundo, suspenso à existência do pensamento que sou. A finalidade do meu pensamento, seu objeto é o meu próprio pensamento...
Mas o racionalismo de Descartes não é apenas uma ressurgência do racionalismo de Parmênides. Parmênides era filósofo; Descartes é matemático. Parmênides dizia, conforme sua afirmação da identidade do pensamento e do ser: não há de real senão o que penso, e tal como o penso. Descartes diz ao mesmo tempo a mesma coisa e mais: não há de real senão o que penso, e o que penso matematicamente. Desde então, do pensamento que sou, só há um único modo de pensar, o modo de pensar matemático.
O princípio de causalidade... O racionalismo o nega. Para ele, o princípio de identidade é a lei única do pensamento e do real: "Pensar e ser são uma só e mesma coisa... O pensamento e seu objeto são idênticos", dizia Parmênides, e repete Descartes. Mas, para Descartes, o mesmo acontece, e mais ainda; pois, em matemática, o princípio de causalidade não desempenha nenhum papel; é inútil.
Assim, do cartesianismo, quer se tome a via filosófica ou a via matemática, desemboca-se necessariamente no racionalismo radical e em sua negação do valor ontológico do princípio de causalidade.
Ele não ignora que esse "intuicionismo" é especificamente condenado pelo Vaticano I, mas sua desconfiança em relação à razão é tal que ele tenta trapacear. Daí, seu desejo secreto de me convencer de que a "intuição do coração" não é outra coisa, em sua essência, senão a "iluminação interior" de Agostinho.
Ele sabe que não tenho muita afeição por essa teoria agostiniana, emprestada de Plotino e, mais além, de Platão – refutada por São Tomás. Se Agostinho dizia que a alma se conhece e assim conhece a Deus, pois Deus coincide de alguma maneira com ela, meu amigo diria antes – mas para ele é a mesma coisa – que o coração se conhece e assim conhece a Deus, pois Deus coincide de alguma maneira com ele.
Seja qual for a escolha das palavras, eu me recuso: é – como farão tantos agostinianos – ser tentado a colocar Deus em pé de igualdade conosco. Se queremos respeitar esse abismo infinito – que a própria experiência mística autêntica prova – entre o Incriado e o Criado, não podemos falar assim. Somos deste mundo, e este mundo não é Deus!
Como chegamos a este ponto? É a isso que o filósofo e o historiador da filosofia devem responder.
Independentemente de nossos orgulhos, de nossos desregramentos do coração e do espírito, há condições "filosóficas" que os sustentam. Toda filosofia parte de uma teoria do conhecimento, definida ou não, pois é verdade que é segundo como se pretende perceber ou conceber o mundo, alcançá-lo e conhecê-lo, que nos situamos em relação a ele, e que podemos ou não conhecer a Deus.
Uma vez que o pensamento atingiu racionalmente a certeza da existência necessária de Deus, como princípio e fim de todas as coisas, de sua transcendência e de suas perfeições invisíveis, partindo do mundo que Ele fez, a razão, já que crê na existência de Deus, inclina-se naturalmente a crer em Deus (no sentido de adesão e fé), isto é, a crer que Ele falou por seus profetas, que Ele nos enviou seu Filho, Jesus Cristo, a fim de nos fazer participar de seu desígnio benevolente sobre nós. Tal é a passagem natural do credere Deo ao credere in Deum: passagem da razão, dom de Deus, à fé, outro dom de Deus, pela qual Deus fecunda a razão.
O filósofo, o historiador da filosofia (não se pode ser um sem o outro) é forçado a reconhecer que a teoria do conhecimento, mais intuitiva que racional em seu modo, própria de Platão e de Plotino, retomada por Santo Agostinho (o que nenhum de seus predecessores fez), mesmo que ele se esforce para "cristianizá-la", gera as condições do idealismo místico ou racionalista (4), em suma, do advento do luteranismo e do cartesianismo.
Mesmo que eu deva incorrer nas críticas de meu velho amigo, tal é e será o tema de nossa participação na "Rubrica filosófica" desses Cadernos.
H. P.
(1) cf. Boletim nº 1, o artigo "Nas raízes filosóficas da crise contemporânea".
(2) Etienne Gilson em Introdução ao estudo de Santo Agostinho - Livraria Filosófica Vrin - 1949 (p. 299/323: Conclusão).
(3) É ali o fundamento sutil do modernismo e é também, infelizmente! a opinião, inconfessada e implícita, de muitos espíritos que lhe são opostos ou que acreditam sê-lo.
(4) Emile Baudin em Pesquisas das ciências religiosas destaca este fenômeno do agostinianismo: "Pode-se discernir, ao longo de toda a especulação agostiniana, a presença de dois agostinianismos diferentes que geram dois intuicionismos diferentes, o da razão pura e o do coração".