# Os judeus-cristãos, de Qumran às origens do Islã

No decorrer de nossas pesquisas sobre as origens do Cristianismo, do Islã e do Budismo, deparamo-nos constantemente com o Judeu-cristianismo, comunidade religiosa ao mesmo tempo onipresente e fugidia. Pensamos que seria bom estudá-lo por si mesmo, a partir do que os documentos da época podiam nos fornecer em matéria de informações.

Tivemos a impressão, no decorrer de nossas pesquisas, de seguir uma pista da qual faltam a maior parte das setas. Os documentos relativos a essa Igreja são raros, dispersos por toda parte, escalonados ao longo de vários séculos. No entanto, um exame atento desses textos mostra-nos que eles se encontram, confortam-se mutuamente. Existe, de um documento a outro, uma continuidade bastante notável. Sabemos, com efeito, que as crenças religiosas e os hábitos litúrgicos, uma vez solidamente estabelecidos, transmitem-se fielmente de geração em geração e são, portanto, bastante estáveis. Concluímos daí que era necessário ler os textos reunidos confrontando-os e esclarecendo-os uns pelos outros, e que era preciso aplicar-lhes uma chave inteligível, se não se queria cair na extravagância ou na incoerência.

Uma primeira dificuldade desse estudo provém do fato de que só conhecemos essa Igreja judeu-cristã por meio de seus inimigos: as acusações e as denúncias dos bispos cristãos e dos rabinos talmudistas, herdeiros dos fariseus. Ela se encontrava, portanto, como que « encurralada » entre dois mundos religiosos que a rejeitavam.

Uma segunda dificuldade deve ser assinalada. Não possuímos os textos autênticos dessa Igreja. Ora, é inverossímil que uma comunidade tão numerosa, espalhada por todo o Oriente durante vários séculos, não tenha possuído livros de doutrina, manuais de liturgia, obras de polêmica contra seus inimigos. Concluímos que toda essa literatura havia sido sistematicamente destruída ao longo dos séculos pelos bispos cristãos e pelos rabinos. Temos aliás disso uma prova nos decretos dos Papas que denunciavam como apócrifos os livros considerados heréticos. O decreto **do papa Gelásio** tem assim por título: « De libris recipiendis et non recipiendis », com uma « Notitia librorum apocryphorum qui non recipiuntur », cujo texto é retomado no **decreto de Graciano.** Toda obra rejeitada deve ser subtraída à leitura dos fiéis. É o sentido da palavra « apócrifo ».

Ignoramos também os nomes dos bispos, dos sacerdotes, dos mestres dessa comunidade judeu-cristã. Pode-se dizer que ela foi bem « enterrada », e veremos que é a palavra exata.

Mas eis que, ó maravilha, de um só golpe, em 1947, foi « desenterrada » toda a literatura judeu-cristã dos Ebionitas, os « Pobres » de Jerusalém, retirada das grutas do Mar Morto que dominam seu cemitério, o « cemitério dos Santos », o de Qumran. Enfim podíamos tomar conhecimento dos textos autênticos dessa comunidade. E veremos que estão em perfeita conexão e continuidade com o que sabemos, por outras vias, de sua doutrina.

Infelizmente! Foi a ocasião para os historiadores de desenterrar a velha lenda dos Essênios. Assim, a leitura desses documentos foi falseada desde o início por uma verdadeira impostura.

 O MITO DOS ESSÊNIOS ¹

Toda a tradição cristã, desde os primórdios do Cristianismo, afirmou, com notável continuidade, que os Essênios e os Terapeutas de que falam Fílon de Alexandria e Flávio Josefo eram os primeiros monges cristãos da Palestina. Basta ler inteligentemente os textos dessas duas testemunhas para se convencer disso.

Fílon interpreta o nome dos Essênios pela ideia de Santidade. A palavra siríaca Hasaya significa « piedoso, santo » e serviu para designar os monges de Hebron.

Eusébio o afirma em sua « História eclesiástica ». Eis como ele resume Fílon: « Constroem para si, diz esse autor, pequenos oratórios retirados no campo, aos quais dão o nome de mosteiros (μοναστήριον). É ali que passam a vida, longe dos demais mortais, nos exercícios da piedade, e que celebram os augustos MISTÉRIOS. A lei de Deus, os oráculos dos profetas e os outros escritos são o tema contínuo de suas meditações. O dia inteiro, desde o raiar da aurora até o pôr do sol, é consagrado a piedosos exercícios, ao canto dos salmos e dos santos cânticos. Reprovariam a si mesmos perder, cuidando do corpo, qualquer parte de um dia que reservam inteiro à contemplação das coisas celestes. Só tomam, portanto, após o pôr do sol, um alimento frugal e pouco abundante. Têm, além disso, para animar sua solidão, os escritos dos homens ANCIÃOS **que fundaram a sua religião,** e é ali que encontram sua regra de conduta e os modelos que devem imitar. »

Sublinhamos nesse texto três palavras-chave que convém compreender bem. Fílon descreve a construção dos oratórios como uma novidade, desconhecida, portanto, do Judaísmo ortodoxo. A vida monástica é **totalmente ausente** de todas as religiões anteriores ao cristianismo e de toda a tradição judaica. O voto de **nazireato,** que poderia ser aproximado dela, é **provisório** e não dispensa o judeu piedoso do dever de casar-se e procriar, obrigatório na lei de Moisés. Somente o Cristo disse: « Vendei os vossos bens, renunciai a tudo e segui-me. »

Os MISTÉRIOS? É o nome dado, na liturgia siro-caldeia, à Missa. Em aramaico, RAZE. A palavra está sempre no plural para designar as duas Santas Espécies. Vem do verbo raz, que significa: iniciar em ritos sagrados. O ordinário da Missa é a Ordem dos Mistérios, « Taksa d'Razé ».

Os homens ANCIÃOS? São os sacerdotes; em aramaico « Quashisha », que quer dizer: velho, idoso. É o mesmo sentido da palavra **presbítero** (« padre »), derivada do grego. Fílon precisa claramente que eles fundaram uma nova religião. São, portanto, aqui, os Apóstolos. Eusébio acrescenta: « Esses escritos de que fala Fílon não são outros senão os Evangelhos, os escritos dos apóstolos e alguns comentários compostos pelos doutores do século apostólico ». Teremos ocasião de apresentá-los.

Ora, essa liturgia siro-caldeia foi instituída pelos Apóstolos, em aramaico. É bem a liturgia das primeiras comunidades cristãs que se espalhavam pelo Oriente na época em que foi escrito esse livro de Fílon, isto é, em meados do primeiro século da era cristã.

Continuemos nossa investigação. Um manuscrito de Fílon, copiado no século X e conservado na Biblioteca Nacional, é intitulado: « Sobre os fiéis circuncisos e convertidos ao Cristianismo, que levam no Egito a vida monástica », e traz a seguinte menção: « Alguns pretendem que este livro de Fílon (« Sobre a vida contemplativa ») diz respeito a monges judeus pertencentes à seita dos Nazarenos; outros sustentam que se trata de judeus convertidos, observando a lei de Moisés como figura da Lei nova; outros, enfim, que se trata de perfeitos cristãos ». Nos três casos assim enumerados, vemos que todos são discípulos de Jesus Cristo.

Essa ideia de que os Essênios e os Terapeutas constituíram uma **seita judaica anterior ao Cristianismo** foi lançada pelos Enciclopedistas no século XVIII, como máquina de guerra contra a divindade de Jesus Cristo, tornado simples repetidor de uma doutrina professada antes dele e por ele recebida. Imediatamente, um erudito beneditino, **Dom Bernard de Montfaucon,** reagiu energicamente, demonstrando, com notável luxo de provas, que os Essênios descritos por Fílon eram monges Cristãos.

Os Terapeutas e os Essênios rezavam voltados para o Oriente, com as mãos estendidas: « Isso se observa, diz o P. de Montfaucon, entre os antigos cristãos, não somente quanto à postura e à situação, mas também quanto à forma da oração, que encontramos a mesma nas constituições apostólicas e nos mais antigos hinos do breviário. » Com efeito, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Orígenes e Eusébio atestam que os primeiros cristãos rezavam a Deus com as mãos estendidas (expansis manibus) para o Oriente. Pediam, segundo o texto das Constituições apostólicas, um espírito vigilante, uma ciência sem erros, e que o Espírito Santo descesse sobre eles para lhes dar posse e conhecimento da Verdade. « Ao amanhecer, diz Fílon, seus olhares e todo o seu corpo voltam-se para o oriente, para espreitar os primeiros raios do sol nascente. Quando os avistam, estendem as mãos ao céu, pedindo um dia feliz, o conhecimento da verdade e a lucidez da inteligência. » São Basílio põe o uso de rezar voltado para o oriente entre as tradições que não se encontram na Escritura e nem por isso são menos invioláveis, porque vieram dos Apóstolos. « Essa prática especial, frequentemente mencionada pelos gregos, distinguia os cristãos dos judeus, aos quais era proibido voltar-se para o oriente para rezar, » sem dúvida, precisa Montfaucon, « por causa da inclinação dessa nação pelo culto dos falsos deuses e particularmente do sol e dos astros. »

Ora, essa oração pertence à liturgia siro-caldeia; é mesmo um dos mais antigos hinos, o LAKOU MARA (« A Ti, Senhor »), cantado nas primeiras comunidades cristãs. Plínio, o Jovem, alude a ele em sua carta a Trajano, quando descreve os cristãos da Bitínia: « Reúnem-se em dia fixo, antes do nascer do sol, cantando alternadamente um hino ao Cristo como a um deus. »

Continuaremos mais adiante o exame dessa liturgia essênia e veremos que ela é **especificamente cristã.**

O « Mito dos Essênios » foi difundido no decorrer do século XIX na Igreja pelas visões de Anne-Catherine Emmerich, retomadas dos enciclopedistas, graças ao « irmão » Clemente Brentano, e depois divulgado admiravelmente na « Vida de Jesus » por **Ernest Renan,** graças em particular à magia de seu verbo e de seu estilo; foi rejeitado, naquela época, por todos os historiadores eclesiásticos sérios.

Como se explica, então, que tenha sido relançado no momento das descobertas do Mar Morto? Não podemos passar em silêncio a presença em Qumran do Sr. Laperrousaz, grão-mestre do Livre Pensamento Francês, presidente do Círculo Ernest Renan, que participa muito cedo das escavações, em companhia do P. de Vaux, e o desviou de seguir as primeiras conclusões tiradas dessas descobertas por um erudito inglês, John Lewis Teacher, que logo percebera o caráter ebionita dos textos. Em consequência, todos os eclesiásticos que se debruçaram sobre eles retomaram o mito por unanimidade, desenvolvendo-o na linha da mais extrema extravagância imaginativa. Citemos, depois do Sr. Dupont-Sommer, os padres de Vaux e Daniélou, os abades Carmignac e Puech, entre uma multidão de outros. O mais escandaloso é a inconsciência desses sacerdotes que, contra toda a verdade, se puseram a reboque das mentiras de Ernest Renan, desenvolvendo assim, no interior da Igreja, teses que só podem reforçar o mais profundo desprezo pela divindade de Jesus Cristo.

Um religioso, o P. **O'Callaghan,** pôde demonstrar, há alguns anos, que dois fragmentos gregos eram manifestamente cristãos, atribuídos a São Paulo e a São Marcos. Grande alvoroço! Contestações violentas! Um alemão, o professor Peter Thiede, organizou um colóquio em Eichstätt, em outubro de 1991, para estudar esse novo dado. Poder-se-ia ter pensado que esses senhores eruditos iriam examinar as questões colocadas por essa descoberta inesperada e incômoda: O que foi feito dos manuscritos de que se encontraram esses fragmentos? Havia outros do Novo Testamento? O que parecia lógico e podia pôr em causa a honestidade das escavações. Enfim, iria-se estudar a presença cristã em Qumran? Absolutamente! Esse colóquio foi a ocasião de renovar o **romance dos Essênios,** enriquecido de alguns episódios novos, puramente imaginários, é claro! Um único especialista, o P. Schwank, deu-se ao trabalho de declarar « que nenhuma descoberta arqueológica na colina sudoeste de Jerusalém pode ser considerada **especificamente essênia.** » Não foi ouvido, infelizmente! E a descoberta do P. O'Callaghan foi conscienciosamente « enterrada ». Isso é o que se chama « trabalho bem feito ».

 OS « POBRES » DE JERUSALÉM

Nos manuscritos do Mar Morto, jamais se trata de Essênios. Seu nome não aparece em lugar nenhum nos textos. A comunidade designa-se a si mesma por vários nomes: os Santos (de onde se tirou a palavra: Essênio!), os Justos, os « filhos do Justo (bene sedec) », os Eleitos e sobretudo os « pobres », « ebionim ». Este último termo é constantemente repetido, ao longo dos textos. Citemos: « É na mão dos Pobres que entregarás os inimigos de todos os países... Bendito seja o seu nome, pois salvou a alma dos pobres (ebion), dos humildes (ani) e dos oprimidos (dal) ». Poder-se-iam multiplicar as citações. A palavra « ebionim » é, portanto, **a verdadeira assinatura** dos autores desses manuscritos.

Se nos damos ao trabalho de estudar bem os ebionitas, temos a resposta a todas as dificuldades levantadas. Os « pobres » de Jerusalém haviam-se estabelecido em « lauras », ou grutas adaptadas como celas monásticas, nos Montes de Judá, ao longo da estrada de Hebron, nas encostas do vale do Cedron, acima da cidade de Engadi, precisa Plínio, o Velho. Formavam a primeira comunidade monástica cristã, ligada à Igreja de Jerusalém, sob a autoridade de São Tiago, o Menor, primeiro bispo da cidade, « irmão » do Senhor, chamado o « Justo », que fizera voto de nazireato, rezava no templo, era venerado pelo povo. Era a « coluna » da Igreja-Mãe. É a ele que o Cristo apareceu primeiro depois da ressurreição, segundo o Evangelho dos Hebreus. Faz parte dos três grandes apóstolos, Pedro, Tiago e João. Seu sucessor será Simeão, filho de Cléofas, também primo do Senhor. Eusébio assinala que os irmãos do Senhor conduziam toda a Igreja, como mártires e parentes do Senhor. »

Esses Ebionitas só conheciam o Antigo Testamento, mais o Evangelho dito dos « Hebreus » ou dos « Nazarenos ». Durante um século aproximadamente, até 135 depois de Cristo, viveram ali, escrevendo os comentários chamados « apócrifos » do Antigo Testamento. São os autores do Livro de Henoc, das Odes de Salomão, do Testamento dos doze patriarcas, dos cantos da Sibila. Tudo isso para aplicar a Jesus Cristo, o último e o maior dos profetas, a quem chamavam o « Mestre Justo » (more sedec), todas as profecias anteriores.

A comparação dos textos é bastante eloquente. São Mateus havia dito: « A boa nova é anunciada aos pobres ». (Traduzamos: o Evangelho é anunciado aos ebionitas.) Quando São Paulo veio a Jerusalém, em 57, Pedro, Tiago e João lembraram-lhe a obrigação de socorrer os Pobres: « Devíamos apenas lembrar-nos dos Pobres, o que precisamente tive o empenho de fazer », tratava-se da coleta em favor dos Santos... de levar « as vossas liberalidades a Jerusalém », « uma contribuição em favor dos Santos de Jerusalém que são Pobres. »

Os « Pobres », os « Santos », são os mesmos termos que se encontram ao longo de páginas nos manuscritos de Qumran. Ter atribuído estes últimos a supostos Essênios é da mais absoluta má-fé. Absolutamente nada nos textos pode permitir tal atribuição. ²

Eis como é apresentada a primeira comunidade cristã de Jerusalém nos « Atos dos Apóstolos »: « Todos os que creram estavam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e seus bens e distribuíam o preço a todos, segundo as necessidades de cada um. Ora, a assembleia dos crentes tinha um só coração e uma só alma, e ninguém dizia seu o que lhe pertencia, mas tudo era comum entre eles... Não havia nenhum indigente entre eles, pois todos os que possuíam terras ou casas as vendiam, trazendo o preço que depositavam aos pés dos Apóstolos, e distribuía-se a cada um segundo suas necessidades. » Vê-se aqui a diferença entre o « pobre » (ebion), que renuncia a seus bens pessoais, e o indigente (anaw), pobre infeliz, sem recursos, que não existe, portanto, entre os cristãos.

Esse texto é anterior ao ano 70 depois de Cristo, pois o autor dos « Atos » ignora a destruição do Templo. Eis a tradução que Flávio Josefo deu desse texto em sua « Guerra Judaica » e que atribuiu aos supostos Essênios: Desprezadores da riqueza, são admiradores da vida em comum, e não se encontra entre eles ninguém que seja mais rico que outro, pois é lei que, ao entrar na seita, se abandone à corporação a própria fortuna, de modo que ninguém apareça no estado miserável da pobreza, nem no esplendor da riqueza. Estando todas as posses postas em comum, não têm mais, como irmãos, que um só patrimônio... Entre eles, não há compra nem venda, mas cada um dá ao outro o que lhe é necessário sem nada dar em troca. Podem livremente fazer-se assistir por quem lhes aprouver. Flávio Josefo escreve muito tempo depois da ruína de Jerusalém e apresenta a mesma comunidade ou « corporação » de crentes que o texto dos « Atos ». É, portanto, bem a prova de que aqueles que ele designa pelo nome de Essênios, isto é, de « Santos », são os cristãos da Igreja primitiva.

Estudemos a liturgia desses Ebionitas chamados Essênios. Eis o texto de Qumran: « E quando se reúnem e se dispôs a mesa para beber o vinho, que ninguém estenda a mão para partir o pão antes que o sacerdote (« Cohen ») ponha primeiro a mão no pão, pois é ele quem deve abençoar as primícias do pão e do vinho. Depois, o Ungido de Israel estenderá a mão para o pão... e toda a assembleia, cada um segundo a sua dignidade... »

Texto a ser bem compreendido. O sacerdote oficiante é chamado « cohen », o que quer dizer sacrificador. No Templo de Jerusalém, chamava-se cohen o sacrificador designado pelo Sumo Sacerdote naquele dia para oferecer a vítima. Na liturgia siro-caldeia, a dos Apóstolos, praticada na Igreja primitiva, o sacerdote, quando celebra os Santos Mistérios (nome da missa), é chamado em aramaico Kahna, do verbo kahen, « sacrificar », e designado pelo arquipresbítero para a celebração eucarística. O sacerdote oficiante, em Qumran, é, portanto, bem um sacrificador; sua vítima é bem o pão e o vinho. O sacrifício do pão e do vinho é a própria definição da Missa. Não pode ter sido praticado antes de sua instituição por Jesus Cristo.

Quando o sacerdote sacrificador abençoou a oferenda, o Ungido de Israel, então, designa o Messias, é a tradução da palavra « Messiah ». Pode-se traduzi-la igualmente em grego por « o Cristo », é a palavra própria. (κριστος κυρίου, isto é, o Ungido do Senhor.) Assim que o sacerdote tocou o pão pronunciando a fórmula de bênção, o Cristo (é bem Ele) « estende a mão » sobre a oferenda. É uma fórmula de tomada de posse. Faz dela coisa sua, bem próprio. Eis uma maneira de exprimir a ideia de transubstanciação, segundo o vocabulário atual. Porque, não o esqueçamos, o Ungido de Israel foi morto pelo sacerdote ímpio », como sabemos por outras vias. Veremos mesmo que foi « ressuscitado » e que podia, portanto, reaparecer em cada celebração.

Precisemos ainda. A palavra empregada aqui para designar o vinho significa, de fato, o « Mosto ». Sabemos que São Tiago fizera o voto de nazireato, que compreendia a obrigação de abster-se de vinho fermentado. Eis uma dificuldade a resolver. Restava o « mosto », em grego « γλεῦκος », « doce », em hebraico « metiqah », vinho levemente fermentado para que possa conservar-se. A Eucaristia era celebrada à noite, em vigília. No dia de Pentecostes, os apóstolos viram-se acusados « de estar cheios de mosto ». É, portanto, o mesmo termo que se encontra no texto de Qumran.

Vamos prosseguir esse confronto dos manuscritos do Mar Morto com o que sabemos da Igreja primitiva em Jerusalém.

 JESUS CRISTO, O « MESTRE JUSTO »

Constata-se certa oscilação na concepção que os Judeu-cristãos tinham da personalidade do Cristo. Certamente, ele é divino. Encontrou-se em Qumran um fragmento da quarta gruta onde ele é « saudado com o nome de filho de Deus e chamado Filho do Altíssimo ». Mas de que divindade se trata? Parece que a doutrina dos Ebionitas variou ao longo dos séculos, como veremos.

Nos manuscritos do Mar Morto dizem-nos que « Deus lhe deu a conhecer todos os mistérios das palavras de seus servos, os profetas »; que « aqueles que desprezam sua palavra serão retirados do mundo, aqueles que não reconheceram sua aliança »; que ele é o « príncipe da Comunidade ». Deus o estabeleceu mestre de Justiça « para edificar a comunidade de Verdade que não vacilará », fez-lhes conhecer por seu Ungido, seu Espírito Santo ».

O Ungido do Senhor é o Messias, é, portanto, o Cristo, já que essa palavra grega traduz exatamente o hebraico « messiah ». É também o Justo, o « sedec ». É igualmente o Eleito. « Suscitou para si homens chamados por seu nome a fim de salvaguardar sobreviventes ». Precisemos ainda: « O Deus de Israel, com seu Anjo de Verdade, criou todos os espíritos de luz e de trevas. Vem em auxílio de todos os filhos da luz. » O Messias é, pois, bem considerado um **Anjo,** um Enviado, mas « por seu eleito, Deus **julgará todas as nações** e aqueles que **praticarem a Lei** serão salvos por causa de seus sofrimentos e **de sua Fé no mestre de Justiça.** » Melhor ainda: « Aqueles que tiverem escutado a voz do Mestre e se tiverem confessado estarão na alegria. Rejubilar-se-ão. Deus lhes perdoa. Seu coração se fortalecerá e eles se tornarão poderosos e Deus fará remissão por eles. »

Eis uma boa seleção de expressões aplicadas ao « **Messias** » dos manuscritos. Ele é associado a Deus de maneira vaga, imprecisa e flutuante, na criação do mundo, no julgamento final das nações, na remissão dos pecados, no ensino da Lei, na realização de todas as profecias de que é o « **intérprete** » definitivo. Reencontraremos essas hesitações nos juízos formulados pelos Judeu-cristãos sobre a personalidade do Cristo.

Enfim, o « Mestre Justo » foi **crucificado** e **ressuscitou.** Os textos de Qumran são **formais** e **incontestáveis,** como se diz hoje. Diz-se num comentário de Naum:

« O leãozinho furioso que exerceu vinganças sobre aqueles que procuram as coisas lisonjeiras, ele que suspendia homens vivos no madeiro, o que não se havia feito em Israel anteriormente, mas aquele que foi suspenso vivo no madeiro, será venerado. »

No início da era cristã, Herodes, o Grande, havia mandado crucificar em grande número os fariseus que se haviam revoltado contra ele. Pois « aqueles que procuram as coisas lisonjeiras » são bem os fariseus, indignados de ver um asmoneu imposto como rei pelo Imperador Augusto ao povo judeu. O texto precisa claramente que a crucificação era um castigo novo e escandaloso. Ora, a expressão « suspender vivo no madeiro » é corrente na literatura judeu-cristã: « Pois nossa vida, ζαή ημων, diz Clemente de Alexandria, foi suspensa (εκρεμάσθη) no madeiro (ξύλον), pela nossa fé (εις πιστιν ή μων). » Nossa vida é bem Jesus Cristo, o madeiro é bem a Cruz. Essas expressões, como assinala o Padre Daniélou, reencontram-se nos « Testimonia », onde designam a crucificação.

Quanto à « veneração de um crucificado », por mais que revolvamos em todos os sentidos a história da humanidade inteira, não conhecemos senão Jesus Cristo, e é impossível, com a melhor boa vontade, contestar o sentido do texto. Por isso nos escandalizamos com as reflexões acrescentadas em nota na obra do Sr. Dupont-Sommer sobre « Os Escritos Essênios », à página 281: « A frase faria alusão a uma personagem que teria sofrido o suplício da cruz e se teria tornado objeto de invocação. Quem seria essa extraordinária personagem? Por quem teria sido crucificada? Nada obriga a pensar que teria sido um dos oitocentos fariseus crucificados por Janeu... »

Não é possível zombar mais descaradamente de uma verdade que salta aos olhos dos menos prevenidos. O Sr. Dupont-Sommer faz a pergunta, embora conheça muito bem a resposta. Tem os olhos vendados por evidente má-fé. Seu ódio ao Cristianismo é manifesto. Sugere mesmo uma **falsa pista** para perturbar o leitor, evocando um certo Janeu que nada tem a ver com a questão.

Enfim, o Messias foi « ressuscitado ». Eis o texto do comentário de Naum: « O sacerdote ímpio pôs a mão sobre o Mestre Justo para matá-lo, mas Deus **o despertou** enviando-lhe seu Espírito. » Despertou-o, portanto, da morte. O texto é claro. É a ressurreição. Só a Jesus Cristo isso aconteceu. Vê-se já esboçar-se um erro sobre a ressurreição. Jesus Cristo não ressuscitou a si mesmo por sua própria força divina, mas pela de seu Pai. São Pedro o disse, no dia de Pentecostes: « Deus o ressuscitou, libertando-o dos laços da morte. » Ainda nos Atos dos apóstolos, está dito: « O Deus de nossos Pais ressuscitou esse Jesus que vós fizestes morrer **suspendendo-o no patíbulo.** » O Cristo não porta, portanto, em si mesmo a plenitude do poder divino. Eis o início de uma **deriva doutrinal** que desembocará mais tarde na negação pura e simples de sua divindade.

Assim, pensamos que os textos citados nestas últimas páginas são **suficientemente explícitos** e que o « Mestre Justo » descrito nos manuscritos não pode ser senão Jesus Cristo.

 A DESTRUIÇÃO DO TEMPLO EM 70

Foi o acontecimento-chave de toda a história de Israel, a catástrofe definitiva que devia marcar o fracasso final do Judaísmo, do qual nunca mais se recuperou. Havia ali um sinal divino. Deus havia abandonado seu povo eleito.

Distingamos **três etapas** nesse abandono por Javé.

Deus estava presente na Arca da Aliança e no Santo dos Santos, no Templo de Jerusalém. No momento da **morte de Jesus na cruz,** « o véu do Templo, escreve São Mateus, rasgou-se em dois, de alto a baixo. » São Jerônimo precisa o sentido desse rasgão: « O véu do Templo rasgou-se em dois para cumprir o que é relatado por Josefo, a saber, que as potências invisíveis que presidiam ao Templo haviam dito: Abandonemos estas moradas. » E o autor da Epístola aos Hebreus faz notar: « o Cristo entra **uma vez por todas** no santuário, não com sangue de bodes e de novilhos, **mas com seu próprio sangue,** tendo-nos obtido uma redenção eterna. » Isso para fazer compreender aos judeu-cristãos a quem o autor se dirige que não se deve mais lamentar o culto do Templo, pois está caduco.

É o início de uma incompreensão que se desenvolverá progressivamente até a ruptura entre estes últimos e o restante das Igrejas cristãs não judaicas.

A segunda etapa é o **cerco de Jerusalém** pelos Kittim, isto é, os Romanos, e a destruição do Templo pelos soldados de Tito. É no decorrer desse acontecimento que se situa o episódio da **morte do sacerdote ímpio,** tal como é apresentado nos textos descobertos em Qumran. Trata-se de **Hanan,** como demonstramos.³ Era filho de Anás, aquele que havia condenado à morte Jesus Cristo. Era saduceu e havia mandado atirar do alto do muro do Templo São Tiago, o « Justo », irmão do Senhor, bispo de Jerusalém e Pai dos Ebionitas.

Foi o último sumo sacerdote. Tendo subido ao assalto do Templo para retomá-lo dos Zelotes que o ocupavam, foi vencido, torturado e morto por eles, enquanto as legiões romanas aguardavam o massacre final para dar o assalto à cidade. Os textos são formais e precisos e não deixam nenhuma dúvida: « O sacerdote ímpio de quem se exigirá justiça pelo que fez aos Pobres (ebionim), pois Deus o condenará ao extermínio, como ele premeditou exterminar os Pobres (ebionim)... A cidade de Jerusalém, na qual o sacerdote ímpio cometeu ações abomináveis e maculou o santuário de Deus... Roubou o bem dos Pobres (ebionim)... »

Mais adiante: « O sacerdote ímpio, que por causa do pecado cometido contra o Mestre de Justiça e seus partidários, Deus entregou às mãos de seus inimigos... Porque havia cometido um crime contra seu Eleito. » Outro texto: « Deus não deixará impune o sacerdote ímpio pelo sangue que derramou, mas a ele Deus pagará sua retribuição entregando-o às mãos dos violentos para exercerem sobre ele sua vingança. »

Precisemos ainda: « No fim do tempo do repouso, o Mestre de Justiça **manifestou-se** a eles para os engolir... » Ora, esse combate das tropas judaicas, conduzidas pelo sumo sacerdote Hanan no interior do Templo para expulsar os Zelotes, desenrolava-se no **dia das Expiações,** dia temível para o sumo sacerdote. A tradição talmúdica conservou igualmente a história de **um anjo do Senhor** cuja aparição (o texto de Qumran emprega o verbo « hôphia »: ele apareceu) acarretou a morte do saduceu ímpio, no Santo dos Santos, no dia da Expiação. Enfim, o comentário de Habacuc menciona a pilhagem « dos últimos sacerdotes de Jerusalém, cujos tesouros caíram nas mãos dos Kittim », isto é, dos Romanos.

« Um Anjo, diz Flávio Josefo, guardava o Templo e o abandonou por ocasião de sua destruição por Tito », e a Didascália precisa: « Quando Deus abandonou o povo, deixou o Templo deles deserto, rasgou o véu, retirou dele seu Espírito Santo e o derramou sobre aqueles que creram entre os Gentios... »

Os Judeu-cristãos de Jerusalém haviam abandonado a cidade e retirado-se para a Transjordânia, em **Pela.** Ali também os textos de Qumran são explícitos: « Os penitentes de Israel deixaram o país e exilaram-se, na época final da destruição do país... Saíram da casa de discórdia - a cidade santa - e apoiaram-se em Deus no tempo em que Israel era infiel. »

Passada a tormenta, os Cristãos de Pela voltaram a Jerusalém; outros fixaram-se nessa cidade, de modo que, a partir de 70, os chefes da comunidade judeu-cristã são bispos de Jerusalém e de Pela. « Aprendi, escreve Eusébio, por documentos escritos que, até o cerco dos Judeus sob Adriano, em 135, houvera em Jerusalém uma sucessão de quinze bispos, que se diz terem sido todos Hebreus de velha cepa. Com efeito, a Igreja inteira de Jerusalém era então composta de Hebreus fiéis. » E Eusébio os chama « bispos da circuncisão ».

Qual era o estado de espírito desses Judeus fiéis? Ao mesmo tempo uma grande cólera contra os últimos sacerdotes que, por sua perseguição aos cristãos e aos « Pobres », haviam atraído o castigo divino sobre a cidade Santa, chamada nesse momento a « casa de discórdia ». Mas também um violento ódio contra os Romanos, destruidores do Templo e instrumentos da vingança divina. No entanto, permaneciam marcados por um apego indestrutível às promessas divinas. Haviam retido a profecia de Jesus Cristo, que adquiria subitamente, diante de sua manifesta realização, um sentido renovado: « Voltarei em breve e **reconstruirei o Templo em três dias.** »

Os judeu-cristãos eram sustentados por uma imensa esperança. Era preciso, portanto, preparar esse retorno do Mestre e ajudá-lo a realizar sua promessa. Segundo os textos de Qumran, esperavam « a vinda de um profeta e dos Messias de Aarão e de Israel. » O autor da epístola aos Hebreus lhes havia explicado bem que o Messias já viera, que era ao mesmo tempo rei e sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (o « rei justo »). O « melqui-sedec » e o « more sedec » eram, portanto, bem a mesma pessoa. Aliás, o Evangelho da Infância, em São Lucas, precisava bem que Jesus era « filho de Davi » pelos ancestrais de José e « filho de Aarão », pois Maria era sua mãe e parenta de Isabel, que era « das filhas de Aarão ».

Toda essa argumentação bíblica não podia desviar os judeu-cristãos dessa poderosa esperança que depositavam na reconstrução do Templo. Era preciso, para isso, preparar um exército capaz de retomar a cidade aos Kittim. Compuseram uma « Regra da Guerra » que descrevia os quarenta anos previstos para o extermínio dos Romanos. É « o Combate dos Filhos da Luz (eles, os Judeu-cristãos) contra os filhos das Trevas » (os Kittim ou Romanos), para o qual se organizam campos onde os homens serão agrupados por dez, cem e mil, segundo a ordenação das legiões romanas. Era preciso também prever as riquezas necessárias ao armamento da Guerra Santa. Os « ebionitas » eram bem pobres por voto pessoal, mas a Comunidade era imensamente rica, pois **coletava os donativos** enviados por todas as outras comunidades cristãs da diáspora.

Encontrou-se **esse rolo de cobre,** espécie de catálogo dos tesouros escondidos em Jerusalém e nas imediações, assim como de objetos de culto e de vestes sacerdotais para restabelecer a liturgia sagrada do Templo. Notou-se, entre os locais de esconderijo, **a localização do túmulo do Justo,** e nem sequer se percebeu que o Justo em questão era São Tiago, o Menor, que, atirado do alto do muro do Templo, fora enterrado bem perto.

Pensava-se assim preparar o retorno do Cristo, o « Príncipe da Comunidade » do rolo da Guerra. À frente dos Filhos da Luz, vindos da Judeia e da diáspora, ele subirá do deserto na direção de Jerusalém. Travará batalha campal sob os muros da Cidade Santa, contra os Kittim que terão vindo do vale de Acor. Auxiliado pelo exército dos Anjos, retomará a cidade, reconstruirá o Templo e preparará assim a chegada triunfal do Messias-Sacerdote, que restabelecerá o culto sacrificial. Sonho grandioso que se lê nos manuscritos do Mar Morto.

Infelizmente! No decorrer de uma **terceira etapa,** essa grande esperança desmoronou de um só golpe por culpa dos Zelotes. Instigados por Bar Kochba, o « Filho da Estrela », esforçaram-se por antecipar-se a essa vitória judeu-cristã, lançando seus homens contra os Romanos numa guerra absurda e desesperada. Sabemos por São Justino que « na última guerra da Judeia, Bar-Kochba, o chefe da revolta, fazia os cristãos, e só os cristãos, sofrerem os últimos suplícios, caso não renegassem e não blasfemassem contra Jesus Cristo. »

O golpe foi definitivo. O Imperador Aélio Adriano destruiu a cidade, expulsou todos os Judeus da Palestina e reconstruiu uma cidade grega, « Aelia Capitolina ». Estamos em 135 depois de Cristo. **Uma nova comunidade cristã** instalou-se então na nova cidade, com um bispo grego chamado Marcos. Uma nova comunidade monástica reocupou as « lauras » dos Ebionitas e fundou um novo mosteiro. Restam-nos hoje as ruínas de Khirbet Mird, nos Montes de Judá, perto do vale do Cedron, onde se encontraram fragmentos de manuscritos gregos do Novo Testamento.

Esses monges cristãos de rito grego reuniram, selecionaram e puseram de lado os textos judeu-cristãos e ebionitas abandonados nas « lauras ». Considerados heréticos e, portanto, « apócrifos », era preciso subtraí-los à leitura dos fiéis. Foram jogá-los nas **grutas-lixeiras,** ou « gueniza », nos penhascos que dominam o cemitério deles, o dos « Santos », perto do Wadi Qumran.

Se nos demos ao cuidado de estudar a Igreja judeu-cristã de Jerusalém à luz dos manuscritos do Mar Morto, terá sido notado quanto estes se inscrevem exatamente na sucessão dos acontecimentos. Terá sido igualmente notado que só adquirem um sentido inteligível se os confrontamos com a história da Comunidade dos Ebionitas antes de sua dispersão pelas legiões de Adriano.

Há mais de quarenta anos, os historiadores que « confiscaram » os documentos do Mar Morto se obstinam em identificar Mestre de Justiça e Sacerdote Ímpio. Continuam sem ter encontrado, e todas as **hipóteses** construídas desde então tiveram de ser abandonadas. Mas recusam obstinadamente olhar na única direção que lhes daria a **chave do mistério.** Ora, não há mistério. A chave é muito simples. A história é muito clara. Cremos ter demonstrado suficiente e definitivamente que esses manuscritos são bem **os textos autênticos** dos « Pobres » de Jerusalém, os monges ebionitas.

 A DOUTRINA JUDEU-CRISTÃ

Depois de sua expulsão da Palestina, os cristãos de Jerusalém e os de Pela abandonaram a Batanéia, para onde haviam emigrado, e foram instalar-se no deserto de Cálcis, perto da **cidade de Beroia, na Síria.** Dali espalharam-se por todas as cidades do Oriente, mas sobretudo na Síria. Eram objeto de desprezo por parte de seus irmãos que permaneceram fiéis aos rabinos, os quais os chamavam **Galileus,** mas sobretudo **nazarenos.** Estes, convertidos do Judaísmo, não se indignavam de serem assim denominados, por causa de Jesus de Nazaré e em lembrança dos célebres nazireus do Antigo Testamento, esses homens tão perfeitamente consagrados a Deus como o foram Sansão e Samuel.

Entre esses Nazarenos, aqueles que formavam a comunidade dos « Ebionitas », dos « Pobres », conservaram, portanto, suas regras monásticas, de modo que suas comunidades constituíam espécies de **igrejas-sinagogas-mosteiros.** Sabemos, com efeito, pela tradição caldeia, que as primeiras comunidades cristãs haviam conservado os usos da liturgia sinagogal, aos quais haviam acrescentado a celebração dos Santos Mistérios, isto é, da Missa. Seus edifícios eram sinagogas onde se havia reservado um nicho, com uma lâmpada votiva para a conservação das santas Espécies. Chamava-se-o o Santo dos Santos ou Tabernáculo.

São Jerônimo ficou impressionado com a **persistência e a vitalidade** dessas comunidades judeu-cristãs durante vários séculos. Numa carta a Santo Agostinho, ele precisa: « Que direi dos Ebionitas que fingem ser cristãos? Até hoje, em todas as sinagogas do oriente, há entre os Judeus uma seita chamada « Minim », que é condenada pelos Fariseus. Chamam-nos vulgarmente **Nazarenos.** Creem no Cristo, filho de Deus, nascido da Virgem Maria, e dizem que foi ele quem, sob Pôncio Pilatos, sofreu e ressuscitou. Nele nós também cremos, mas, enquanto eles querem ser ao mesmo tempo judeus e cristãos, não são nem judeus, nem cristãos. »

Eram condenados pelos rabinos talmudistas sob o nome de « Minim », isto é, de hereges. Com efeito, convertidos ao Cristianismo, eram considerados renegados: « Desde os apóstolos até hoje, escreve São Jerônimo num comentário de Isaías, os chefes dos Judeus perseveram em suas blasfêmias e, três vezes por dia, em todas as sinagogas, sob o nome de Nazarenos, anatematizam o nome de cristãos. » Haviam acrescentado a suas orações de dezoito bênçãos uma fórmula de maldições contra os « Notzrim », assim redigida pelo **patriarca Gamaliel II**: « Que para os caluniadores (os apóstatas) não haja esperança, e que todos os que cometem a iniquidade (o reino ímpio) sejam destruídos num instante, e que todos eles (os Nazarenos e os hereges) sejam em breve suprimidos e humilhados em nossos dias, os soberbos, que sejam apagados do livro dos vivos e que com os justos não sejam inscritos. Bendito sejas, Senhor, que quebras os inimigos e humilhas os soberbos. »

Nos livros judaicos, eram ainda **estigmatizados sob os nomes** de Samaritanos (sinônimo de hereges), de Edomitas (os inimigos mais abominados dos Judeus), de homens diabólicos, de ímpios, de adoradores dos astros...

Eis como **Santo Ireneu** os apresenta em seu « Contra as Heresias »: « Aqueles que se chamam **Ebionitas** admitem que o mundo foi feito pelo verdadeiro Deus, mas, no que diz respeito ao Senhor, professam as mesmas opiniões que Cerinto e Carpócrates (isto é, negam sua divindade). Só utilizam o Evangelho segundo Mateus, rejeitam o apóstolo Paulo, a quem acusam de apostasia com relação à Lei. Dedicam-se a comentar as profecias com excessiva minúcia. Praticam a circuncisão e perseveram nos costumes legais e nas práticas judaicas, a ponto de chegar a adorar Jerusalém, como sendo a Casa de Deus. »

Os judeu-cristãos não conhecem o Novo Testamento. Permanecem fiéis ao Antigo Testamento, ao qual acrescentam o Evangelho de São Mateus; mas, no decorrer dos séculos, não hesitaram em alterar-lhe o texto e em nele introduzir novidades consideradas pelos bispos cristãos como heresias. Chamava-se-o o **Evangelho dos Nazarenos ou dos Ebionitas.**

Jesus Cristo, dizem eles, é o maior dos profetas, mas na linhagem do Antigo Testamento. Sem dúvida é Filho de Deus, pois o sustentou diante do sinédrio, mas essa filiação permaneceu obscura e incerta entre eles. São Jerônimo escreve em 415 depois de Cristo: « É uma obra redigida em siro-caldaico, mas escrita em letras hebraicas. Os Nazarenos servem-se dela até hoje e a chamam Evangelho dos Doze, mas a maioria dos Cristãos a denomina Evangelho segundo São Mateus. Encontra-se na biblioteca de Cesareia (Alepo, na Síria). » São Jerônimo recebeu suas primeiras lições de língua hebraica de um monge ebionita de Beroia, que havia repudiado as práticas dos Nazarenos e lhe comunicara o texto desse Evangelho.

Os Ebionitas haviam seguido Cerinto e Carpócrates ao negar a divindade de Jesus. Viam nele um puro homem, oriundo da raça de Davi, filho de Maria e de José. Com o auxílio da genealogia de São Mateus, julgavam poder demonstrar que o Salvador havia nascido verdadeiramente de José.

Em seguida, identificaram o Cristo com o **Anjo do Senhor,** como vimos no texto de Qumran. Hipólito, num comentário sobre Daniel, quer reconhecer o Verbo no Anjo que desceu à fornalha para defender os três meninos: « Esse Anjo é aquele que recebeu de seu Pai o poder de julgar... É a esse Anjo que Isaías diz: Seu nome é Anjo do Grande Conselho! É ele quem apareceu a Abraão sobre o rochedo do Sacrifício, a Moisés sobre o monte Sinai. É ele quem anuncia os mistérios do pai. É o Enviado, o mensageiro de Deus. Novaciano afirma igualmente que ele apareceu a Agar e esforça-se por conciliar a noção de Anjo com a de Deus: « Se, portanto, essa aparição não convém à pessoa do Pai, de quem não se pode dizer que é um Anjo, nem à pessoa de um Anjo, para não dizer que é Deus, ela convém à pessoa do Cristo, pois ele anuncia o desígnio de seu Pai. Os hereges (isto é, os Ebionitas) devem, portanto, compreender que traem a escritura ao crer que o Cristo é um Anjo sem querer proclamá-lo Deus, quando leem suas numerosas visitas ao gênero humano no Antigo Testamento. »

Os Nazarenos, diz Teodoreto de Ciro, no fim do século V, « são Judeus que honram o Cristo **como um homem justo** (cf. o « more sedec » dos manuscritos do Mar Morto). » Negam a possibilidade de um Deus trinitário. Basílio de Cesareia fazia notar que os Judeus ficavam « exasperados » com o dogma e o assimilavam ao politeísmo. São noções que se vão reencontrar no Corão.

Os bispos cristãos lutaram com notável energia e perseverança contra a tentação de « judaizar », renovada entre os cristãos. Suas condenações e suas advertências repetidas durante vários séculos mostram sua ineficácia. É que o atrativo do Judeu-cristianismo era muito poderoso. Jesus Cristo havia dito: « Não penseis que vim abolir a Lei. Não, vim, não para abolir, mas para cumprir. » O que podia ser entendido de duas maneiras: A Lei cumprida, acabada, perfeita, **tornava-se caduca** naquilo que tinha de provisório e inacabado. Foi o ensinamento dos apóstolos e dos bispos que os seguiram. Mas os Nazarenos compreenderam a fórmula do Cristo no sentido de que deviam permanecer-lhe integralmente fiéis e acrescentar-lhe os conselhos evangélicos de perfeição, tais como os praticavam os Ebionitas. Para ser « perfeito », era preciso permanecer fiel a toda a Lei, sem omitir os menores preceitos, com excessiva minúcia. No entanto, rejeitavam, a exemplo do Cristo, tudo o que os rabinos lhe haviam acrescentado nas prescrições do Talmude. Mais um motivo de ódio da parte destes últimos.

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¹ — Para bem compreender as páginas que se seguem, é necessário ter bem presente no espírito o que desenvolvemos em nosso primeiro livro: "Da gnose ao Ecumenismo"; cap. IV, "Um mito histórico destruidor do cristianismo".

² — Fica-se confuso diante de tal incoerência. São os mesmos professores de história da Universidade Francesa que, por um lado, ensinam a obrigação de ater-se estritamente aos textos autênticos sem falseá-los por interpretações oriundas de teses prematuras e que, por outro lado, no caso que nos ocupa, impuseram imediatamente e sem referência aos manuscritos descobertos, com todo o peso de sua autoridade moral, a Lenda dos Essênios.

³ — cf. *Da Gnose ao Ecumenismo*, p. 110 e 111.

As práticas judaicas deviam ser rigorosamente aplicadas. No século III, as « Homilias Clementinas » precisavam: « Eis o que agrada a Deus: dirigir-lhe orações, suplicar-lhe, embora todos os seus dons sejam tornados iguais pela Lei, abster-se das refeições demoníacas, não comer carne não abatida ritualmente, não tocar no sangue, evitar toda mácula. » A lei do cristo é identificada à de Moisés. A Igreja de Jerusalém tem a primazia sobre a de Roma. Essas « Homilias », escritas em Roma, são obra de um ebionita.

São Jerônimo lhes diz, num comentário sobre Isaías: « Que escutem os Ebionitas, eles que, depois da paixão do Cristo e da abolição da lei, pensam que ela deve, contudo, ser observada. Que escutem os amigos dos ebionitas que pensam que os sacrifícios devem ser oferecidos somente pelos Judeus e pela raça de Israel », e Teodoreto de Ciro mencionava « que observavam o sábado segundo a Lei judaica e santificavam o domingo segundo nosso costume. » E Santo Agostinho, em seu « Tratado sobre as heresias », escrito em 428 d.C., protesta contra os Nazarenos que, « embora confessando que o Cristo é filho de Deus, observam, contudo, todos os preceitos da lei antiga, que os cristãos aprenderam, pela Tradição apostólica, a não mais compreender de maneira carnal, mas espiritual. » Acrescenta « que os Ebionitas dizem mesmo que o Cristo é **apenas um homem,** que observam os mandamentos carnais da Lei, isto é, a circuncisão e todos os outros, do peso dos quais o Novo Testamento nos libertou. »

São Jerônimo também se levantou contra o uso da circuncisão, a observância do sábado, a imolação de um cordeiro na Festa da Páscoa e a observância do jejum do Kippur.

Esforço perdido: os Cristãos continuavam atraídos pelas práticas judeu-cristãs. Os Nazarenos mostravam com convicção que não se devia cortar a tradição em dois, que era preciso recebê-la e respeitá-la inteira, até os preceitos do Cristo inclusive, se se queria tornar-se « perfeito ». Reencontraremos o mesmo estado de espírito na redação do Corão.

Enfim, os Nazarenos esperavam sempre o retorno do Cristo, a reconstrução do templo e o restabelecimento do culto sacrificial. O Messias ia voltar em breve, descer triunfante dos céus, seguido de um exército de anjos, para restaurar o trono de Davi e restabelecer o « Reino ». Então eles, os « Santos », os « Pobres », reinariam com ele sobre as doze tribos e dominariam o mundo. Esperavam igualmente a vinda de um profeta, anunciador do Messias. Tratava-se do profeta Elias, cujo retorno devia anunciar o fim do mundo. O Messias ainda não podia ter aparecido, pois devia seguir-se ao retorno de Elias, como diz o profeta Malaquias: « Eis que vou enviar-vos Elias, o profeta, antes que chegue o meu dia, grande e temível. Ele reconduzirá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha ferir o país com antema. » Ora, essa profecia era venerada entre as gentes de Qumran, e retomada pelos Judeus caraítas, seus herdeiros. ⁴

Um **apocalipse de Pedro,** de origem judeu-cristã, já aludia ao retorno de Henoc e de Elias, e o apocalipse de São João havia anunciado: « Enviarei minhas duas testemunhas para profetizar durante mil duzentos e sessenta dias, **vestidas de sacos...** »

Mas os bispos podiam opor a essa expectativa escatológica dos Nazarenos o próprio texto do Evangelho de São Mateus: « Com efeito, Jesus declarou: Sim, Elias deve voltar e restabelecer tudo, mas eu vos digo, Elias já veio e não o reconheceram, mas trataram-no como quiseram. E o filho do homem também terá de sofrer da parte deles. Então os discípulos compreenderam que essas palavras se referiam a João Batista. » Tal é a interpretação do Cristo sobre a profecia de São Malaquias. São Jerônimo nega muito claramente a crença no retorno de Elias. Em seu comentário sobre Malaquias, escreve: « Os Judeus e os hereges judaizantes (diríamos os Nazarenos e os cristãos que se esforçavam por imitá-los) pensam que Elias deve vir antes do Messias, que restabelecerá todas as coisas. Assim, no evangelho, esta pergunta é feita ao Cristo: Por que os fariseus dizem que Elias deve vir? - O Cristo lhes respondeu: É verdade que Elias virá e, se quiserdes crê-lo, eu vos direi que ele já veio. Por Elias queria dizer João Batista. » É por isso que os Padres da Igreja afirmaram que todas as profecias foram cumpridas no Cristo e que não há mais que esperar Elias, mas somente o retorno glorioso do Senhor no fim dos tempos.

Constatamos de novo que, a partir de 135 d.C. e da dispersão dos judeus no Oriente, não encontramos mais os textos autênticos dos Nazarenos e só podemos conhecer seu ensinamento pelas acusações dos bispos cristãos e dos Padres da Igreja.

 UMA DERIVA GNÓSTICA

Dispersos pelo Oriente, sobretudo na Síria, privados de uma autoridade incontestada, como a de São Tiago, o Menor, e, portanto, de um magistério doutrinal estável, as comunidades dos Nazarenos tornavam-se presa fácil para os mestres da Gnose, numerosos sobretudo na Síria.

O primeiro responsável por essa deriva doutrinal é, evidentemente, **Fílon de Alexandria.** Seu Logos platônico foi assimilado a Jesus Cristo. Ele o designava com o nome de **Primeiro Anjo,** o « πρῶτος ἄγγελος » que havia participado da criação do mundo. É bem a ele que responde o Prólogo de São João: « O Verbo era Deus (e não um Anjo). Por ele tudo foi feito (Ele é, pois, o verdadeiro criador, e não apenas um participante dessa criação) e nada do que foi feito foi feito sem ele. Veio **para os seus** (Era, pois, plenamente homem e não anjo) e os seus não o receberam, mas deu a todos os que o receberam (e não somente aos Santos, aos Perfeitos) o poder de tornar-se filhos de Deus... etc. »

O prestígio de Fílon entre os judeu-cristãos permitiu ao pensamento platônico penetrar na doutrina dos Nazarenos e preparar os futuros desvios gnósticos.

O culto de São Tiago foi muito cedo desviado na direção de um esoterismo. Clemente, nas « Hipotiposes », coloca-o ao lado de João e de Pedro entre aqueles que receberam a Gnose do Cristo ressuscitado. Os « Reconhecimentos » clementinos, o « Segundo apocalipse de Tiago » encontrado em Nag Hammadi, a notícia o apresentam como detentor dos segredos do Senhor.

Ora, várias seitas gnósticas de origem judeu-cristã o veneraram como a perfeição da Santidade. Os Naasenos, adoradores da Serpente, os Elcasaítas pretendem ter recebido de São Tiago uma revelação mais perfeita que os Nazarenos. Jesus, segundo eles, era **o homem realizado,** em quem se incorporou finalmente o Verbo do Pai, tornado o Éon-Cristo.

Jérôme Carcopino apresentou-nos outrora os judeu-cristãos ou Nazarenos do hipogeu dos Inocentes, nas **catacumbas de São Sebastião, em Roma.** Chamam-se os Justos, repousam entre os Bons, - in bonis - ἐν ἀγαθοῖς - no meio dos Justos - μετὰ τῶν δικαίων ἡ κοίμησις, a « dormitio inter dicaeos » - « lembra-te, Pai, com todos os Justos ». São os « Inocentes » (ex.: Nazareus Innocentius). Trazem nomes herméticos, portanto em referência à Gnose de Hermes Trismegisto: « Hermesianus, Titus Flavius Hermes, Marcus Ulpius Hermes, Aelius Hermes ». Trazem o ascia no frontão de suas estelas. São, pois, Nazarenos já impregnados de Gnose, acolhidos num cemitério cristão, mas num espaço reservado e separado dos outros túmulos cristãos. Terão sido notados os patronímicos da **gens imperial**: Titus - Flavius - Aelius (em referência a Adriano). Sabemos que os gnósticos haviam adotado o costume de **representar o Cristo** sob a forma de um **Hermes criófero,** isto é, portador de cordeiro. Esse hipogeu data do século segundo de nossa era.

Mais tarde, no terceiro século, os Padres lutaram contra um ressurgimento do judeu-cristianismo de tendência gnóstica, a **seita ariana dos Anomeus,** que asseguram que o Filho de Deus é inferior ao pai. « Escuta, tu também, fulmina São Basílio de Cesareia, que, novo circunciso, sustentas o judaísmo fingindo o cristianismo. De onde te veio a intolerável impiedade de pretender que o Filho não é semelhante ao Pai?... Que o anomeu enrubesça de vergonha, que o judeu reflita, que o fiel encontre sua alegria na verdadeira doutrina. » Do mesmo modo São João Crisóstomo partiu em guerra contra os cristãos que observavam as festas judaicas e frequentavam as sinagogas. Precisemos bem que se tratava das sinagogas-igrejas dos Judeu-cristãos. Em seus tratados « Homilia contra os Anomeus », « O Cristo-Deus », « Discursos contra os Judeus » (entendamos sempre os judeu-cristãos nazarenos), protesta contra suas acusações. Esses anomeus, como os Nazarenos, acusam o Cristo de chamar Deus seu Pai e de fazer-se igual a Deus. « Aliás, precisa ele, nossa argumentação não se limita a confundi-los, confundirá com eles os partidários de Marcião, de Mani, de Valentim e de todos os Judeus juntos. »

Vê-se que, pouco a pouco, os Nazarenos se deixaram conquistar pelas elucubrações e pelos absurdos dos grandes mestres da Gnose. Faltava-lhes um magistério doutrinal sólido e imutável.

 UM ENSAIO DE IMPÉRIO JUDEU-ÁRABE: PALMIRA

Assistimos, no século III, a uma primeira tentativa dos Judeu-cristãos impregnados de Gnose de converter os **Árabes da Síria,** que começavam então a tornar-se poderosos e organizados.

Os Nabateus haviam-se instalado nos confins da Síria. Atraíam as tribos agrupadas em confederações e aliadas dos Romanos. Formaram, sob Trajano, em 106 d.C., uma província romana e desenvolveram, em pleno deserto da Síria, a cidade de Palmira. Ela tomou o nome de Hadriana em 130 d.C., para lisonjear o imperador Adriano e obter sua benevolência. No século III, era uma bela cidade, greco-romana, imbuída de cultura helênica e de neoplatonismo.

A rainha Zenóbia, mãe de Wabalat e regente em nome de seu filho, esforçou-se então por construir um império, sob pretexto de proteger os interesses de Roma. Anexou a Síria e o Egito. Era judia, como assinala Santo Atanásio em sua « História dos Arianos », e Sozomeno afirma que ela « pensava como os Judeus », isto é, como os judeu-cristãos.

Empreendeu reconduzir esses árabes mal romanizados à religião dos Nazarenos. Para isso, deu ao deus Bel, dos babilônios, adorado em Palmira, os atributos de Javé. Bel tornou-se o Rei dos Deuses, o Deus bom, o Deus eterno, o Deus bendito para sempre, o Deus remunerador. Era representado com raios como um sol, e Malakbel entendia-se também como o Rei « Bel ».

Além disso, aceitava numa espécie de panteão o « Deus Alexandre », isto é, o imperador Alexandre Severo (222-235), divinizado em vida. Era sírio e praticava o culto dos judeu-cristãos. Teria querido « erguer em Roma um Templo ao Cristo e colocá-lo entre os deuses », diz-nos o historiador Lampridio. Consagrara a capela de seu palácio ao culto de Apolônio de Tiana, do Cristo, de Abraão e de Orfeu. Se se precisar que os gnósticos haviam assimilado o Cristo a Orfeu, vemos bem que Alexandre Severo seguia a doutrina dos Nazarenos. Tinha, portanto, sua estátua em Palmira. Zenóbia organizou um culto monoteísta ao Deus Bel, recusando a Trindade cristã, reconhecendo Jesus como um profeta.

Por outro lado, havia atraído para sua corte o filósofo Longino, discípulo de Plotino, portanto neoplatônico, que manifestara em seu « Tratado do sublime » seu entusiasmo pela Bíblia judaica.

Zenóbia, prosélita judia, havia assimilado seu judaísmo e seu cristianismo à doutrina dos Platônicos, mas « revista e acomodada » por Fílon de Alexandria. Não se tratava de um sincretismo, como se disse. Fórmula preguiçosa que evita examinar atentamente essa adaptação de Platão ao Judaísmo. Tratava-se, muito exatamente, de preparar os árabes para adorar o Deus dos Judeus e de reconduzir os cristãos à prática do judeu-cristianismo.

Para isso, ela recorreu ao patriarca de Antioquia, Paulo de Samósata. Paulo de Samósata era um retor e um aventureiro que se fizera cristão e patriarca para enriquecer, segundo o ideal do « Peregrino » descrito anteriormente por seu compatriota Luciano de Samósata. Seduzira os cristãos de Antioquia. Foi promovido a patriarca da igreja metropolitana e « ducenário » do Estado, espécie de oficial superior administrativo e judiciário. Sustentava que Deus era único, dos quais o Verbo e o Espírito Santo procedem como a inteligência e a ação procedem do Ser Supremo. Quanto a Jesus, foi o homem providencial que havia recebido de Deus a função de iluminar o mundo e que se unira misteriosamente à divina « Sofia » dos Gnósticos para tornar-se apto a essa grande missão. O Cristo era, portanto, divino por adoção e não por natureza. Tornava-se aceitável para os pensadores pagãos e neoplatônicos que o admiravam como um filósofo nazareno, um Sócrates galileu venerado pelo deus Alexandre Severo. A rainha Zenóbia o cumulara de favores e contava com ele para reconduzir os cristãos da Síria a um judeu-cristianismo tingido de gnose.

Mas em 270 d.C., as legiões da Panônia proclamaram imperador Aureliano. Este, inquieto com as manobras de Zenóbia, declarou-lhe guerra, fê-la prisioneira e destruiu de alto a baixo sua cidade de Palmira. Uma tentativa abortada de judaização dos Árabes!

 JUDEU-CRISTÃOS, HANIFES E SARRACENOS ⁵

A partir do século V e do século VI, os documentos são singularmente mudos sobre os Judeu-cristãos. Os bispos cristãos não troam mais contra a tendência de seus fiéis a « judaizar ». Prova de que o atrativo dos Nazarenos já não se exercia sobre eles. As crônicas da época não se interessam mais por seu caso. Mas sabemos, por estudos aplicados a situações análogas, por exemplo aos mosteiros budistas, que uma mesma comunidade pode receber, de um século para outro, denominações novas às quais os historiadores não prestam mais atenção. Vimos que os rabinos talmudistas tratavam os judeu-cristãos de renegados, de Galileus, de Nazarenos, mas também de **Samaritanos,** de Edomitas (título injurioso que reservavam também aos Romanos), de adoradores dos astros, sem dúvida porque os Nazarenos se voltavam para o sol durante sua oração da manhã, como vimos. Ora, os bispos adquiriram o hábito, nessa época, de distinguir os cristãos dos Judeus, dos Samaritanos e dos Magaritas. (São os árabes convertidos ao Judeu-cristianismo.) E as notícias que consagram aos Samaritanos mostram que estes são os herdeiros dos Nazarenos, pois esses bispos lhes censuram sustentar que « o Messias não é divino ».

Nos anos que precedem os primórdios do Islã, os historiadores assinalam a existência dos **Hanifes.** São árabes em busca da verdadeira religião. Ibn Ishaq diz-nos que eles « não tomavam parte nos ídolos, abstinham-se de comer o que estava morto de morte natural, abstinham-se do sangue e das vítimas sacrificadas aos ídolos, proibiam enterrar vivas as recém-nascidas do sexo feminino e proclamavam que adoravam o Senhor de Abraão. »

O mais célebre deles é **Ommaya** b. Abi, s. Salt. Segundo o « Kitab al Aghani », estudara as Escrituras, estava **vestido de saco,** proibia-se o vinho, não acreditava nos ídolos. Era um monoteísta de tendências ascéticas. Diz-se que se contentava em tomar do Judaísmo e do cristianismo o que lhe agradava, que fizera disso uma espécie de **sincretismo.** Rejeitamos essa conclusão e vemos bem que esses Hanifes haviam simplesmente **feito o voto de nazireato,** praticado pelos Ebionitas nas comunidades judeu-cristãs.

Pensamos poder afirmar que **Ommaya** é o verdadeiro autor do Corão, que o compôs num mosteiro ebionita sob o ditado ou o ensinamento de um religioso nazareno. A tradição siro-caldeia designa esse religioso com o nome de **Sarkis** ou Nestor, apelidado **Bahira,** isto é, « o sábio ».

Há no Corão textos significativos. Eis um que nos mostra seu autor escrevendo à luz da lâmpada do santuário:

« Alá ilumina o Céu e a Terra. Sua luz assemelha-se ao luminar onde arde uma lâmpada. A lâmpada está num vaso e o vaso cintila como uma estrela brilhante. Seu alimento é o fruto bendito de uma oliveira que não se encontra nem no oriente, nem no ocidente e cujo óleo ilumina sem que o fogo o toque. Luz sobre luz! Alá conduz à sua claridade quem Ele quer! Propõe aos homens suas parábolas e conhece todas as coisas. (Essa luz) brilha nas casas que Alá permitiu erguer para o culto de seu nome. É ali que, manhã e tarde, o celebram homens que nem o comércio nem o tráfico distraem do ofício divino, do cumprimento da oração e do dom das esmolas. (Esses homens) temem o dia que revirará os corações e os olhos (o dia, pois, da Ressurreição) para receber de Alá a retribuição de seus atos e a abundância de sua graça. Sim, Alá sacia quem Ele quer sem medida! » (24, 35-38)

Nesse texto todas as expressões são tomadas do judeu-cristianismo. A lâmpada que cintila no santuário como uma estrela brilhante revela na noite a presença divina. A Igreja, casa de Alá, está toda zumbindo do ofício dos monges. O autor do Corão gostaria de fazer seus compatriotas árabes partilharem sua admiração pela vida monástica e de levá-los a adotar os votos do nazireato. Veremos que será um fracasso total. Senhores do poder, os chefes árabes rejeitarão toda ideia de vida ascética. Os primeiros califas, os de Damasco, são os discípulos **de Ommaya** e chamaram-se os **Omíadas,** a começar por **Omar ou Amr,** como veremos.

O autor do Corão dá o título de Hanif a **Abraão** em pessoa. Ele é o primeiro e o maior dos Hanifes, é o Amigo de Deus, que renunciou até a seu próprio filho para consagrar-se todo a Ele. Deu-se também a si mesmo o nome de « Ahmed », que quer dizer « bem-amado » de Deus. É uma denominação que é várias vezes atribuída no Corão e até uma vez manifestamente a Jesus. Era « Isha », isto é, o Ungido de Deus, e Ahmed, seu Bem-Amado. Os Hanifes são, pois, os Amigos de Deus e Deus os ama.

O autor do Corão esforçou-se por fazer compreender aos Árabes que Jesus não era divino e que não se devia adorá-lo. É um refrão retomado obstinadamente e repetido ao longo de suras. Como mostramos em estudo anterior ⁶, queria desviar os Árabes cristãos, a quem se dirigia, da adoração do Cristo:

« Dizem-vos: Sede judeus ou cristãos! Responde: Não! Abraão era de religião hanife, não associava nada ao culto de Alá! Dizei: Cremos em Alá, nas revelações de Abraão, de Jacó e das tribos, nos livros dados por seu Senhor a Moisés, a Jesus, aos profetas! Não estabelecemos nenhuma diferença entre eles e somos perfeitos » (sura 2, 125-130). Não há o menor **sincretismo** em tudo isso, e os Hanifes são bem religiosos que fizeram o voto de Nazireato. Voltaremos a isso.

A partir do século VII, os acontecimentos se precipitam e todo o Oriente é sacudido pelas idas e vindas das legiões romanas e dos exércitos sassânidas. O grande conflito secular de Roma contra os Persas vai logo tomar um rumo dramático. Para não cometer erro sobre esses acontecimentos, é preciso compreender bem os textos que os relatam. **A Arábia** é o país ocupado pelos **Árabes,** são os oásis estabelecidos nos confins da Síria e da Mesopotâmia, onde **os Sarracenos** desempenham o papel de policiais do deserto para proteger o Crescente fértil contra as hordas nômades dadas à pilhagem das caravanas. Os textos enumeram em seguida a Síria, a Arábia e a Babilônia. Também não distinguem suficientemente os Judeus dos Nazarenos. Será preciso atentar que uns e outros são frequentemente confundidos no pensamento dos bispos cristãos e nas crônicas da época.

No início do século VII, o último grande rei sassânida, **Cosroés II,** organiza uma grande expedição contra o império romano. Seus exércitos percorrem e saqueiam a Síria, a Palestina e o Egito. Compreendem soldados Sarracenos e judeus. Em 614, o general persa Romizanes toma Jerusalém e confia a administração da cidade aos Judeus. Um deles, que toma o nome de **Neemias,** oferece um sacrifício no local do Templo. Segundo Miguel, o Sírio, « os Judeus compraram por nada os cristãos feitos prisioneiros e, entregando-se à sua maldade, mataram-nos ».

Esse acontecimento capital e inesperado provocou uma **imensa esperança** em todas as comunidades judaicas do Oriente. Pela primeira vez, os Romanos eram vencidos e a Cidade Santa libertada. Enfim o Templo poderia ser reconstruído e o Messias tão esperado ia finalmente aparecer. Mas essa alegria foi de curta duração. Diante das exigências dos Judeus, o rei Cosroés expulsou-os de Jerusalém e enviou-os como escravos à Pérsia. Depois **o Imperador Heráclio** despertou de sua letargia. Sacudido pelas censuras indignadas do patriarca de Constantinopla, formou um imenso exército e partiu à reconquista de seu império saqueado. Em poucos anos, havia retomado o domínio de todo o Oriente. Reconquistou Jerusalém, perseguiu o rei sassânida até a Mesopotâmia. Em 627, havia retomado Edessa e Nínive. Cosroés teve de capitular e render-se.

A **decepção para os Judeus** foi tanto mais profunda quanto a esperança fora inesperada e a alegria intensa. É dessa época que data a redação do Corão. Seu autor **procura reanimar a coragem** dos Sarracenos e dos Judeus abatidos e quase desmobilizados.

« Sim, diz ele, os Romanos foram derrotados nos confins do país, mas, depois de sua derrota, vencerão dentro de alguns anos. **Alá reina antes como depois!** Então os crentes se rejubilarão com o triunfo de Alá. Ele socorre quem quer. » Não vos desencorajeis, vós, Sarracenos, que adotastes a religião dos Hanifes, que sois, portanto, crentes. Retomai o combate e Alá vos dará a vitória.

 OS PRIMÓRDIOS DO ISLÃ SEGUNDO AS CRÔNICAS

Apareceu em 1977, em Cambridge, uma tese intitulada « Hagarismo », sustentada por dois escritores, Patricia Crone e Michael Cook. Não foi traduzida para o francês, mas graças à complacência de um padre amigo, pudemos tomar conhecimento dela e ficamos impressionados com a convergência de uma multidão de crônicas da época que nos apresentam os primórdios do Islã sob uma luz totalmente inesperada. Com efeito, os autores, sem se preocupar com a história tornada clássica de Maomé, reuniram e puseram em sequência as crônicas siríacas, bizantinas, judaicas, nestorianas e outras, escritas na hora.

Elas ignoram totalmente a história de Maomé e mostram-nos em ação **a ação perseverante** dos Judeus no triunfo dos Sarracenos contra os Romanos e **seu fracasso final,** no momento da destruição do Templo em Jerusalém.

Escolhemos, entre essas crônicas, as mais explícitas. Eis uma **crônica armênia** escrita em 660, intitulada « História de Heráclio pelo bispo Sebeos ». Começa pelo êxodo dos Judeus de Edessa, expulsos da cidade pelo exército de Heráclio por volta de 628:

« **Partiram para o deserto** e vieram **para a Arábia,** para junto dos filhos de Ismael. Buscaram sua ajuda e explicaram-lhes que eram parentes segundo a Bíblia. Embora os Ismaelitas estivessem prontos a aceitar essa proximidade de parentesco, os Judeus não puderam, contudo, convencer a massa do povo, porque seus **cultos eram diferentes.** Naquele tempo havia um Ismaelita chamado Mahmet. Apresentou-se a eles como se estivesse às ordens de Deus, como um pregador, como o caminho da verdade, e ensinou-lhes a conhecer o Deus de Abraão, pois estava bem informado e à vontade com a história de Moisés. Como a ordem vinha do alto, uniram-se todos sob a autoridade de um só homem, sob uma só lei e, **abandonando vãos cultos,** voltaram ao Deus vivo que se revelara a seu Pai Abraão. Mahmet proibiu-lhes comer a carne de todo animal morto, beber vinho, mentir e fornicar. ⁷

Acrescentou: « Deus prometeu este país a Abraão e à sua descendência para sempre. Segundo sua promessa, ele age amando Israel. Vós sois os filhos de Abraão e Deus realiza em vós a promessa feita a Abraão e à sua descendência. Amai **somente** o Deus de Abraão e ide tomar posse de vosso país dado por Deus a Abraão, e ninguém poderá resistir-vos no combate, pois Deus está convosco. »

Então reuniram-se de Havilá até Sur e diante do Egito. Deixaram o deserto de Farã, repartidos em doze tribos segundo a linhagem de seus patriarcas. Repartiram em suas tribos os 12000 Israelitas, mil por tribo, para guiá-los ao País de Israel. Acampamento após acampamento, partiram segundo a ordem de seus patriarcas: Nebaiot, Cedar, Abdeel, Mibsam, Mishma, Dumá, Massa, Temá, Jetur, Nafis e Cedema. (Gên. 25, 13-15) São as tribos de Ismael. Os que restavam do povo dos filhos de Israel vieram juntar-se a eles e constituíram um poderoso exército. Então enviaram uma embaixada ao Imperador dos Gregos, para lhe dizer: Deus deu este país em herança a nosso pai Abraão e à sua descendência depois dele. Somos os filhos de Abraão. Vós ocupastes suficientemente nosso país. Devolvei-no-lo pacificamente e não invadiremos vosso território. Caso contrário, retomaremos o que tomastes, com juros. » Isto é, ocuparemos outros territórios. Mais adiante, Sebeos assinala que o governador ismaelita pediu ao Imperador que renunciasse « a Jesus, que chamais Cristo e que nem sequer pôde salvar-se a si mesmo dos Judeus ».

A historicidade dessa crônica foi contestada, porque está em manifesta contradição com a história clássica de Maomé. Como sabemos que esta última é uma lenda tardia, a contradição é para nós uma prova suplementar de sua veracidade. Contestou-se igualmente a possibilidade de os Judeus percorrerem toda a Arábia a partir de Edessa. Se se cuida de não errar sobre a noção de Arábia, tem-se, ao contrário, aqui uma notável confirmação do fato de que esse encontro entre Judeus e Sarracenos ocorrera no local da casa de Abraão, em Harã, ao norte do deserto da Síria, como assinala uma crônica Bizantina. Viu-se igualmente a preocupação de Maomé de reconduzir os Sarracenos ou Ismaelitas ao culto único de deus, excluindo o de Jesus, e de reconduzi-los também à prática do nazireato. Censurou-se a esse texto suas referências ao Gênesis na enumeração das tribos de Ismael e seu reagrupamento no deserto. É bem a prova de que esses judeu-cristãos que propunham a aliança viviam na esperança de realizar de novo o feito de Moisés: a fuga para o deserto, « al Hijr », isto é, a partida para o exílio (donde a palavra: Hégira), na direção, não de Sur, mas de Hagra, segundo outras crônicas, que seria, na Síria, o local do túmulo de Abraão ou de Ismael.

A reunião dos exércitos para a reconquista da Terra Prometida, isto é, de Jerusalém. Contestou-se, por fim, o encontro com o imperador Heráclio, porque dele não se encontra traço na tradição bizantina. É certo que tal embaixada de expulsos só podia provocar um dar de ombros em um imperador no auge de seu triunfo.

Os autores de « Hagarismo » apoiam esse texto em outras crônicas que o completam felizmente. Citemos algumas.

Uma « Didascália de Jacó » apresenta um diálogo entre judeus em Cartago por volta de 634: « Um falso profeta apareceu entre os sarracenos... Dizem que o profeta apareceu vindo com os Sarracenos e proclamando a vinda do Ungido (portanto, do Cristo), aquele que deve vir. - É um impostor. Por acaso os profetas vêm com espada e carros? - Não há verdade a encontrar nesse pretenso profeta, somente sangue derramado. Ora, ele disse que tem a chave do Paraíso, o que é inacreditável. »

Um apocalipse judeu do século VIII, « Os segredos de Rabi Simeão ben Yohai », expõe-nos este diálogo: « Quando viu surgir o reino de Ismael, começou a dizer: Não bastava que o mau reino de Edom (isto é, dos Romanos) nos tenha feito mal, para que tenhamos ainda o de Ismael? - Não temas, filho do homem, pois o Único Santo, bendito seja, estabelece o reino de Ismael unicamente para te salvar desse mal (o dos Romanos, chamados Edomitas). Ele fará levantar contra eles um profeta segundo sua vontade, que conquistará o país para eles, e eles virão e o restaurarão em sua grandeza. - Rabi Simeão respondeu: como sabemos que eles são nossa salvação? Respondeu: O profeta Isaías não disse: E viu uma tropa de cavaleiros, dois a dois, montados um num jumento, outro num camelo... Mas então o cameleiro (isto é, o profeta) marcha à frente e o reino se levantará graças àquele que cavalga um jumento (isto é, o Messias). Visto que este último cavalga um jumento, isso mostra que eles são a salvação de Israel, assim como a salvação daquele que cavalga a alma. »

É uma profecia que não escapara ao chefe dos Sarracenos, **Omar.** Fez-se chamar **al faruq**, isto é, « o redentor », e, em sua quarta visita à Síria, entrou em Damasco « cavalgando um jumento », para marcar bem que era ele mesmo o Messias esperado.

Rabi Simeão ben Yohai continua: « Ele será um amante de Israel, reparará suas brechas e as brechas do Templo. » Infelizmente! a sequência dos acontecimentos vai marcar a ruptura entre Omar e os Judeus. Sebeos, o bispo armênio, relata a querela entre os Judeus e os Árabes pela posse do local do Templo. Precisa claramente que Omar, rei dos Sarracenos, de volta de sua expedição ao Egito, expulsou todos os Judeus de Jerusalém e da Arábia. A última esperança de ver restabelecido o culto do Templo na cidade Santa estava definitivamente enterrada. Os Sarracenos lançados pelos Judeus nessa recuperação da Terra Prometida instalaram-se nela definitivamente como senhores absolutos e expulsaram aqueles que os haviam conduzido a ela.

Os autores de « Hagarismo » citaram também outras crônicas contemporâneas que confirmam, com numerosas precisões, a história que acabamos de expor. Será preciso, portanto, remeter-se às citações dessa obra, se se quiser compreender a sequência dos acontecimentos até a instalação definitiva na Terra Santa. Detemos aí nossa própria exposição. Com efeito, a partir desse momento, os Judeu-cristãos **desaparecem aos olhos do historiador.**

 CONCLUSÃO

Como se vê, os judeu-cristãos, herdeiros da primeira comunidade cristã de Jerusalém, tentaram durante séculos manter alto e firme o facho de sua esperança: o retorno a Jerusalém, a reconstrução do Templo e a espera do Messias de Aarão e de Israel, um Messias-Rei e um Messias-sacerdote, que restabelecerá o culto sacrificial de Javé.

Sua última tentativa foi lançar ao assalto dos Romanos os Árabes da Síria, « os Sarracenos ». Foi, como diz muito bem o frei Bruno Bonnet-Aymard, o **fracasso de um retorno.** Um fracasso definitivo, não deixando mais nenhuma esperança para o futuro.

Que foi feito desses últimos judeu-cristãos? É difícil sabê-lo.

Notamos, no entanto, entre os Siro-Caldeus, refugiados nas montanhas do Curdistão e decididos a resistir com a última energia às tentativas de arabização dos Curdos e dos Turcos, um grande número de usos religiosos herdados do judeu-cristianismo.

Chamam-se entre si os « Nazarenos », e seu bispo é denominado « o patriarca de todos os Nazarenos ». São « cristãos convertidos do judaísmo, cujo principal erro consiste em manter a necessidade ou a conveniência das obras da Lei e que aderem obstinadamente à prática das cerimônias judaicas. Mas rejeitavam, para si mesmos, os acréscimos feitos ao ritual mosaico pelos doutores da Lei e pelos Fariseus ». (Mosheim: Hist. eccl. t. I p. 170)

Chamam-nos ainda os **Sírios,** porque praticavam uma liturgia em uso entre eles e conforme à primeira liturgia da Igreja de Antioquia.

Chamam-nos ainda os **Nestorianos,** mas eles rejeitavam essa denominação, porque não queriam ser confundidos com os hereges desse nome, discípulos do bispo de Constantinopla **Nestório,** condenado pelo Concílio universal em 431 d.C. Diziam que nunca haviam sustentado as heresias que o haviam feito excomungar. Aprovavam-no somente por ter elevado a voz contra a adoração das imagens e contra o título de **Mãe de Deus** dado a Maria, porque esse título, anulando implicitamente a humanidade de Jesus Cristo, deixava-nos **sem mediador.** Chamavam Maria de **mãe do Cristo,** e sempre creram na união da natureza divina e da natureza humana na pessoa do Salvador.

Seus bispos praticavam **o voto de nazireato,** deixando crescer barba e cabelos, comendo apenas a comida mais simples, com abstinência de carne, evitando as impurezas cerimoniais, respeitando o celibato.

No momento do **avanço dos muçulmanos** no Império da Pérsia, grande número deles fugiu para as Índias, escapando à espada dos perseguidores no decorrer do século VII. Constituíram o que chamamos os Cristãos de São Tomé, no Travancore. Também eles trazem o **nome de Nazarenos,** abstêm-se da carne de porco e dos outros alimentos proibidos pela Lei de Moisés, dão-se nomes hebraicos, como Zacarias, Urias, Josué, Mateus, Lucas, Abraão etc.

Emigraram da Ásia ocidental. Afirmam que São Tomé pregou nas Índias, atraído pelos Israelitas que ali já estavam instalados, pois era o apóstolo da circuncisão antes de dirigir-se à Índia onde, dizem os Judeus de Malabar, pregou desde 52 d.C.

Pensamos que os últimos judeu-cristãos e ebionitas, expulsos e perseguidos pelos **OMÍADAS,** tornados todo-poderosos na Síria e em Jerusalém, abriram os olhos, converteram-se plenamente ao Cristianismo, reconhecendo enfim a divindade de Jesus Cristo, renunciando ao culto do Templo, mas conservando os usos religiosos a que estavam habituados e que os cristãos de rito siro-caldeu acolheram de braços abertos.

E.C.

 NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

Às obras já citadas em nossos estudos sobre os manuscritos do Mar Morto (cf. *Da Gnose ao Ecumenismo*, p. 177 e 178) e sobre o Islã (cf. *A gnose universal* p. 203 e 204) pode-se acrescentar:

- Joseph BONSIRVEN: *Sur les ruines du Temple: Le Judaïsme après Jésus-Christ* [Sobre as ruínas do Templo: O Judaísmo depois de Jesus Cristo]. (Grasset, 1928)
- Albert GELIN: *Les Pauvres de Yahvé* [Os Pobres de Javé]. (Cerf, 1953)
- MISSAL CALDEU, traduzido do texto aramaico por Mons. Francis ALICHORAN em 1982
- Ferdinand DELAUNAY: *Moines et Sibylles dans l'antiquité judéo-grecque* [Monges e Sibilas na antiguidade judeu-grega]. (Libr. acad. Perrin, 1874), contém o texto completo da *Vida contemplativa* de Fílon, o do livro de Henoc e dos cantos da Sibila.
- Jean DANIÉLOU: *Philon d'Alexandrie* [Fílon de Alexandria] (Fayard, 1958)
- Denise JUDANT: *Judaïsme et christianisme: Dossier patristique* [Judaísmo e cristianismo: Dossiê patrístico]. (Ed. du Cèdre, 1969), **obra essencial** onde se encontrarão as referências precisas dos textos que citamos em nosso estudo.
- id. *Les deux Israël: essai sur le mystère du Salut d'Israël selon l'économie des deux Testaments* [Os dois Israéis: ensaio sobre o mistério da Salvação de Israel segundo a economia dos dois Testamentos]; (Cerf, 1960). A autora é uma judia convertida.
- Abade Joseph VARIOT: *Les Evangiles apocryphes* [Os Evangelhos apócrifos] (Berche et Tralin, 1878) dá muitas informações sobre as diversas edições do Evangelho dos Nazarenos.
- Jérôme CARCOPINO: *De Pythagore aux apôtres* [De Pitágoras aos apóstolos] (Flammarion, 1956). O autor descreve, em sua última parte, o hipogeu dos Inocentes na catacumba de São Sebastião e estuda os ebionitas de Roma e suas tendências gnósticas.
- Mons. Umberto BENIGNI: *Les Juifs et le catholicisme d'après l'Histoire sociale de l'Eglise* [Os Judeus e o catolicismo segundo a História social da Igreja] (na *Revue internationale des Sociétés secrètes*, out. 1922 a dez. 1923). Bons desenvolvimentos sobre os pobres de Jerusalém e sobre o reino de Palmira.
- J.M. LAGRANGE: *Palmyre, Histoire, Monuments, Inscriptions, religion* [Palmira, História, Monumentos, Inscrições, religião] (Le Correspondant, 10 set. 1908)
- Joseph HUBY: *Christus, manuel d'Histoire des Religions* [Christus, manual de História das Religiões] (Beauchesne, 1934), o capítulo XV por Edmond POWER sobre o Islã.
- Frei Bruno BONNET-AYMARD: *Le Coran, traduction et commentaire systématique* [O Corão, tradução e comentário sistemático] 2 vol. (Contre-Réforme catholique, 1988-1990), **obra essencial.**
- Patricia CRONE e Michael COOK: *Hagarism, The Making of the Islamic world* (Cambridge University Press, 1977), **outra obra essencial.**
- Asahel GRANT: *Les Nestoriens ou les Tribus perdues* [Os Nestorianos ou as Tribos perdidas] (Libr. Delay, 1843), relato muito interessante de uma estada entre os cristãos nestorianos do Curdistão. O autor anotou com precisão seus usos litúrgicos.

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⁴ — cf. *Da gnose ao ecumenismo* p. 105 a 107.

⁵ — Para bem compreender as páginas que se seguem, é necessário ter bem presente no espírito o que desenvolvemos sobre o Islã em nossa terceira obra: *A Gnose Universal*, cap. II.

⁶ — cf. Étienne COUVERT; *A Gnose Universal*, cap. II: *Gnose e Islã.*

⁷ — Vê-se por aí que Mahmet queria reconduzir todos os árabes à prática dos Hanifes, impondo-lhes o voto de nazireato. Pretensão extravagante, que só podia ser rejeitada. Não se transforma à vontade árabes em monges!

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