Gnose e Paganismo

Quando o Cristianismo começou a espalhar-se pelo Império Romano, penetrou fácil e profundamente nos meios populares, não instruídos. Penetrou igualmente, mas mais lentamente, nas famílias patrícias e nos meios cultos. Chocou-se então com um conjunto de ideias religiosas que desempenharam o papel de anteparo protetor contra essa novidade vinda do Oriente.

Com efeito, a elite intelectual do mundo romano havia forjado para si, na esteira do platonismo e do pitagorismo, uma síntese religiosa reunindo noções variadas, mas cimentadas entre si por um simbolismo poético e matemático, tomado também da Astrologia. Esse conjunto, que hoje nos parece antes heteróclito, ficou nos manuais de História religiosa sob o nome de estoicismo. Explicaram-nos que essa filosofia religiosa representava o melhor do pensamento antigo, o cume que espíritos ainda não iluminados pela revelação cristã podiam esperar atingir.

O estoicismo nos foi ensinado como uma doutrina orgulhosa de recusa da dor, de domínio da vontade sobre os impulsos e as paixões. Inspirou Cícero, Sêneca, Virgílio, Horácio e os outros grandes clássicos do primeiro século de nossa era.

Ora, o Estoicismo foi uma retomada do platonismo e do pitagorismo, de origem grega, mas corrigidos e revistos pelo espírito positivo dos Romanos. Acrescentaram-lhe a mística dos números, o estudo dos signos do Zodíaco. Incluíram nele vários mitos orientais, o culto do Sol, mais tarde o de Mitra, sobretudo graças à influência dos neoplatônicos como Posidônio de Apameia, Plotino, Porfírio e Jâmblico, sobre os quais não voltaremos.

É importante notar as principais noções que os estoicos difundiram na elite romana. Foram como pedras de espera de uma construção religiosa sistematizada pelos neoplatônicos e pelos gnósticos dos primeiros séculos, para fazer dela uma máquina de guerra aperfeiçoada contra o Cristianismo.

O DEUS DOS ESTOICOS

No século I de nossa era, os romanos fizeram da divindade uma noção bem vaga, hesitante. Imaginam um deus supremo, Céu, Éter, Fogo envolvendo o mundo. Abaixo, um demiurgo, fabricante do universo, que ele ordena e sobre o qual vela. Chamam-no ora a alma do mundo, de onde escapam, como de um foco, as almas particulares; ora a Razão seminal, que contém em germe tudo o que existe; ou ainda a Natureza, força produtora; o Destino, lei imutável; a Providência, pensamento dirigente e poder conservador.

O Deus dos estoicos é uma inteligência que se mistura à matéria, penetra-a e lhe comunica a vida, a forma e o movimento. Chama-se ainda πνεῦμα ἔμφυτον, espírito divino espalhado na natureza. Fílon o define assim: « seiva ativa que, circulando no mundo como numa grande árvore, nela se metamorfoseia sucessivamente em todas as suas partes. » (Fílon, « De Plant. Noë »)

É nele o verbo, o λόγος προφορικός, imagem e figura, πρόσωπον, forma e caráter da essência divina. Tertuliano, citando as expressões estoicas empregadas por Sêneca, acrescenta: « Entre vossos sábios, o λόγος é o artífice do universo; Zenão chama-o também Destino, Deus, alma de Júpiter, necessidade universal; Cleantes faz dele um espírito espalhado no mundo. » (« Apolog. » 21)

Sêneca é bem panteísta. Essa alma do mundo, segundo ele, é uma substância ígnea, que agiu sobre uma matéria inerte e passiva, eterna ela também; dirige e conserva sua obra, que permanece incorruptível, apesar de mudanças passageiras e exteriores. « Deus, acrescenta, não é outra coisa senão a natureza; a natureza e ele não fazem mais que um; são os dois nomes de um único ser... Deus é a razão divina misturada ao mundo... » (« De beneficiis » V, VI)

Abaixo da divindade, há as divindades inferiores das sete esferas, correspondentes aos sete planetas, depois uma infinidade de demônios ou gênios, intermediários entre o homem e os deuses do alto.

Essa noção da divindade alia vistas físicas a noções metafísicas: o Sol, o Éter, o Fogo supremo são as formas de uma teologia solar muito difundida na crença da época.

A ALMA SEGUNDO OS ESTOICOS

O homem é duplo. A alma veio de Deus, é uma parcela do fogo ou do éter divino. Os estoicos condenam, ao menos em teoria, o corpo e os prazeres carnais, a fortuna e as honras. Mas, na esteira de Platão, distinguem na alma dois princípios: a psique, encarregada de animar o corpo e de mover as paixões, os instintos, os sentimentos. O outro princípio, o νοῦς, aparentado aos inteligíveis, ordena-se por sua própria natureza à contemplação do Deus, lugar das Ideias.

« Não pensas, pergunta Sêneca, que há algo de divino naquele que é uma parte de Deus? Esse todo, onde estamos contidos, é um e é Deus, e somos seus associados e seus membros. » Eis uma bela fórmula panteísta.

« Quis caelus posset, nisi coeli numera nosset, Et reperire Deum, nisi qui pars ipse Deorum est » (Manílio)

A questão é colocada: para poder pretender ao céu, é preciso conhecer-lhe a natureza; para alcançar Deus, é preciso ser uma parte dele mesmo. Sêneca retoma: « Não é preciso erguer as mãos ao céu, nem ganhar um sacristão para que nos introduza até o ouvido da estátua, como se fosse o meio de ser mais bem ouvido. Deus está perto de nós, está conosco, está em nós. » (« prope est a te deus, tecum est, intus est ») (SÊNECA: « Cartas a Lucílio », 41)

Um Deus, qual Deus, ninguém o sabe, habita em cada homem de bem. « Uma força divina desceu ali (vis istuc divina descendit). Qual é ela? A alma, e dessa alma, a razão aperfeiçoada (Animus et ratio in eo perfecta). » Sempre nas cartas a Lucílio.

Encontra-se a mesma ideia em Virgílio:

« Hoc nemus, hunc, inquit, frondosa vertice collem Quis deus, incertum est, habitat deus. » (Eneida, VIII-V, 351)

A SALVAÇÃO ENTRE OS ESTOICOS

Toda a vida tem por fim preparar-se para a subida rumo a Deus. Com efeito, nosso corpo é um invólucro inútil. Segundo Pitágoras, Empédocles e Filolau, é o túmulo da alma. Essa vida é uma expiação, ao sair da qual a alma purificada se une mais intimamente à divindade. Sêneca despreza o corpo e seu desdém se exprime em termos enérgicos: « Esse invólucro mortal, diz ele, impede o homem de elevar-se até o conhecimento do que é imortal...

O Espírito esmagado, maculado, cegado, vê-se afastado do verdadeiro e lançado no erro... Só a filosofia o liberta desse fardo, dessa prisão, desse suplício... Nessa morada frágil habita uma alma livre... Quando eu quiser, romperei minha aliança com ele... O desprezo do corpo é a verdadeira liberdade. Um dia virá que tirará todos os véus que nos envolvem e nos libertará da habitação desse ventre imundo e infecto. » (Ep. 74)

Alcançar o divino é, portanto, livrar-se do corpo. É preciso despojar-se dos elementos grosseiros, terra, água, ar, que formam o invólucro do mundo, e alcançar o elemento divino, o Fogo.

Após a morte, o νοῦς, o espírito, desnudado, atravessa as zonas e os círculos dos sete planetas. Deixa suas vestes de que se havia carregado ao emanar da luz original para cair na prisão do corpo. Reduzido a nada mais que um raio de fogo, que é sua essência primeira, perde-se no elemento de onde saíra...

Cícero traduziu assim esse ensinamento de Platão: « Nossa alma, diz ele, saída do céu, foi precipitada dessa morada elevada e mergulhada na lama da terra, lugar tão contrário à sua natureza divina e eterna... Assim, quando Deus lhe tiver dado um justo motivo de sair deste mundo, o sábio se lançará com alegria dessas trevas para voltar a essa luz... pois a vida inteira do filósofo não é senão uma meditação sobre a morte. Destaquemo-nos, pois, pouco a pouco de nossos corpos e habituemo-nos a morrer... Quando, libertos de nossos laços, pudermos voltar à nossa pátria celeste, o voo de nossa alma será menos pesado. » (CÍCERO, « Cato maior - Tusc. », I, 31-49)

Quando Arélio Fusco protesta em suas « Suasoriae » contra a proscrição de que Cícero é ameaçado por Antônio, acrescenta estas reflexões: « O que cairá sob os golpes do triúnviro é o corpo, invólucro frágil e caduco, sujeito aos menores joguetes da fortuna, presa das proscrições. Mas a alma lhe escapará, a alma que tem uma origem celeste, que não conhece nem a velhice nem a morte e que, livre dos laços de carne que a oprimem, tomará seu voo rumo à sua pátria e rumo aos astros de onde desce. »

Vê-se que essa ideia de evasão deste mundo era muito difundida no primeiro século de nossa era. Assiste-se, nessa época, a uma epidemia de suicídios. A vida parecia langorosa e indigna de ser vivida. Compreende-se, com tal concepção deste mundo: « Cuspo em ti, fatalidade, e vou-me, cantando um belo péan », exclamou Metrodoro ao se matar. ¹

Daí o sucesso das religiões de Mistérios que vos garantem, graças a uma iniciação secreta, a salvação definitiva. Uma vez cumprido o rito, acompanhado de fenômenos místicos, bem equívocos, o Noûs está definitivamente salvo: o homem tornou-se uma personalidade imaterial e divina, cujos atos são necessariamente bons, qualquer que seja a aparência, e mesmo quando, a um juízo normal, devessem parecer crimes. Em outras palavras, uma vez « salvo », os atos são moralmente indiferentes. Esse homem pode permitir-se tudo, desde que já não seja nele a alma material que governa, mas um princípio extrínseco que vem do alto.

Num ponto, contudo, os Romanos permaneceram impermeáveis à ideia da metempsicose, com suas reencarnações sucessivas. Sêneca nos conta como o ensinamento de Sótion de Alexandria se esforçava por introduzir as teorias de Pitágoras sobre a abstinência da carne dos animais, e as razões dadas por Séxtio, discípulo do mestre. Analisa uma lição dada por Séxtio e dá suas impressões pessoais:

« Sótion nos explicava os motivos que haviam outrora determinado Pitágoras a abster-se da carne dos animais e os que, mais tarde, haviam decidido Séxtio. Seus motivos eram diferentes, mas igualmente cheios de grandeza.

Séxtio dizia que o homem tinha alimentos bastantes à sua disposição sem beber o sangue dos seres animados e que adquiria o hábito de ser cruel ao fazer do assassínio um objeto de volúpia. Reprimamos, acrescentava, tudo o que alimenta nossas devassidões. Uma alimentação tão variada e tão refinada é contrária à saúde, nociva ao corpo.

Quanto a Pitágoras, estabelecia entre todos os seres laços de parentesco e uma passagem contínua das almas de um corpo para outro...

Quando Sótion havia exposto essa doutrina, fortificando-a com seus próprios argumentos, não credes, dizia ele, que as almas passam sem cessar de um corpo para outro e que o que se chama morte não é senão uma metamorfose? Não credes que nesses rebanhos, nessas feras, nesses habitantes das águas residem almas que foram outrora humanas? Foi a opinião de muitos grandes homens. Suspendei ao menos vosso juízo e reservai-vos a faculdade de crer um dia. Se essa crença é fundada, abster-se dos animais é uma lei da natureza; se é falsa, é uma prescrição da temperança. Afinal, que mal faço à vossa crueldade? O que vos tiro é o pasto dos leões e dos abutres! » (Ep. 108)

Sótion era muito hábil. Segundo um método muito eficaz e bem utilizado em nossos dias, convidava primeiro a praticar a abstinência para permitir em seguida introduzir no espírito a doutrina que repelia de início seus ouvintes. Em suma, fazei o que vos peço e acabareis por pensar como eu!... Não comais mais carne e crereis na metempsicose!!!...

Sêneca declara-se convencido: « Entusiasmado por esses discursos, comecei a abster-me da carne dos animais. Ao cabo de um ano, o hábito havia tornado essa privação não somente fácil, mas agradável. Parecia-me que meu espírito ganhava com isso mais ímpeto e vivacidade... » O argumento da higiene... !!!

No entanto, a elite romana não se deixava ganhar pela teoria da metempsicose, tão contrária ao bom senso desse povo positivo e razoável.

ESTOICISMO E CRISTIANISMO

Tal foi o catecismo dos pagãos piedosos e sábios na época dos Antoninos e dos Severos. Se se teve o cuidado de acompanhar nossos estudos precedentes, reconheceu-se no decorrer da exposição a maioria das teses que serão sistematizadas pelos Gnósticos. Com efeito, esse ensinamento é quase inteiramente retomado dos Diálogos de Platão, ele mesmo discípulo de Pitágoras.

Mas os apóstolos, desde o início de sua missão, não pretenderam ensinar um catecismo para os sábios, os intelectuais, os quadros dirigentes do Império romano, como diríamos hoje. Foram ao povo, deram um ensinamento simples, direto, ao alcance de todos. « Entre nós, diz Taciano, não são apenas os ricos que têm acesso à Sabedoria. Nós a distribuímos aos pobres e de graça. » (TACIANO, « Adv. graec. » 32) Nada de longas iniciações, nada de considerações metafísicas difíceis, acessíveis somente a inteligências vivas e sutis. Não! Um ensinamento claro, simples, preciso, ao alcance da multidão.

Por um instante, pôde-se temer que os doutores do Oriente e especialmente do Egito, de Alexandria, impusessem à Igreja nascente a disciplina do segredo e das longas iniciações, isto é, a Gnose. Clemente de Alexandria e Orígenes sobretudo afetaram descrever os mistérios cristãos com os termos usados nas iniciações de Ísis e de Deméter. As revelações misteriosas de que um é depositário, « só se podem descobri-las em sua nudez e integridade a Aarão e aos filhos de Aarão. » O Cristo quis sua doutrina obscura: « É por isso que a velou com figuras, encerradas nos sacramentos. » Felizmente, a Igreja mãe e mestra de Verdade rejeitou tais pretensões. O Cristianismo foi logo popular. Foi a religião dos simples, dos sofredores. O que é totalmente escandaloso para um homem culto da época.

Celso se revolta ao pensar que Jesus mostrava predileção pelas crianças, pelos miseráveis, pelos pecadores. Como é que um escravo, um condenado de direito comum podia, além-túmulo, tomar a frente de um patrício letrado, de um filósofo nutrido da Sabedoria grega: « Nemo eruditus, diz Celso, nemo sapiens, nemo prudens ad nos accedat, haec enim mala aestimantur, sed si quis est ignarus, si quis stultus, si quis insipiens, is fidenter veniat, etc. » « Cur non missus est ad immunes a peccatis? Quid malum est non peccasse? Qua igitur causa peccatores praeferentur? »

Enfim, o cristão não aceita acolher todas as divindades pagãs ao lado de Jesus Cristo num Panteão. Vários imperadores, sobretudo os filósofos neoplatônicos, como Alexandre Severo, os príncipes da Síria, não nutriam hostilidade muito pronunciada contra o Cristianismo. Pediam apenas aos cristãos que tolerassem ao lado os outros cultos, que reconhecessem pelo incenso aos ídolos o culto do Estado sobre o qual estava fundado o Império, que aceitassem figurar entre as outras religiões subordinadas ao Estado romano, que manifestassem um culto público ao Imperador. Mas estes recusaram-se sempre a toda concessão, a toda partilha, e preferiram enfrentar o horror dos suplícios; se tivessem aceitado o toma-lá-dá-cá, compreendiam bem que Jesus Cristo teria seguido a sorte de Zeus, de Serápis ou de Mitra. Encerraram-se numa intransigência que nenhuma perseguição pôde abalar e deveram a vitória a essa obstinação.

E. C.


(1) Cf. a tirada de Baudelaire: « O estoicismo, religião que só tem um sacramento, o suicídio ».



Revision #1
Created 24 October 2026 19:21:01 by Admin
Updated 24 October 2026 19:21:02 by Admin