« A herança dos pobres » Sob esse título, a revista « Archéologia » publicou recentemente um artigo muito notável, assinado: Martine Rossignol. (1) Pela primeira vez, vemos sustentadas numa revista para o grande público as conclusões que nos esforçamos por promover com nossos fracos meios. Artigo notável por duplo motivo. Primeiro, está em manifesta contradição com o conteúdo do conjunto do dossiê e com as teses habitualmente sustentadas sobre o assunto. Depois, a autora, apesar de vistas muito novas e muito sugestivas, permanece prisioneira das teses de que falamos, esforçando-se ao mesmo tempo por ultrapassá-las e até, por vezes, por afastá-las. Seu espírito está manifestamente dividido entre o que ela começa a compreender e o que os historiadores continuam a sustentar contra toda a verdade. « Nos manuscritos do mar Morto, diz ela, a comunidade IDENTIFICADA COMO ESSÊNIA PELOS HISTORIADORES não se designa em lugar nenhum por esse nome, mas por vários outros: os Santos, os Numerosos, os Justos, os Eleitos e sobretudo, sobretudo mesmo, os Pobres... » Depois de citar as expressões tiradas dos manuscritos, acrescenta: « Essas similitudes são TÃO IMPRESSIONANTES que levaram J.L. Teacher, desde 1951, a perguntar-se se a seita de Qumran era judeu-cristã. » Precisemos que J.L. Teacher não se contentou em colocar a pergunta, ele afirmou claramente que os manuscritos eram ebionitas. Depois a autora, assustada com sua afirmação, volta atrás: « MAS TAMBÉM SE PODE INVERTER A QUESTÃO: Os primeiros discípulos de Jesus e a comunidade apostólica de Jerusalém não eram membros da seita essênia... ? » Pode-se, evidentemente, supor qualquer coisa. Ainda é preciso ter algumas indicações que tornem verossímil a suposição. No caso presente, jamais se trata de essênios, nem nos textos de Qumran, nem nos textos cristãos... A resposta é muito clara : jamais Jesus Cristo, nem os apóstolos fizeram a menor referência a supostos essênios. Depois de enumerar textos do Novo Testamento, dos Atos dos Apóstolos e das Epístolas de São Paulo que confirmam magnificamente os textos de Qumran, a autora acrescenta: São OS MESMOS NOMES INTERCAMBIÁVEIS QUE NOS MANUSCRITOS. Os pobres de Jerusalém, nos textos em grego, são bem EBIONIM no sentido dos textos em hebraico de Qumran... Em suma, se o Novo Testamento não menciona os Essênios, de quem suas doutrinas são, no entanto, as mais próximas no mundo judaico de então, não seria porque a comunidade judeu-cristã que ele reflete SE DESIGNA A SI MESMA PELO VOCABULÁRIO INTERNO À SEITA DE QUMRAN... ? » Eis o que é claro. A palavra ESSÊNIOS é acrescentada a fórmulas judeu-cristãs, mas é inútil, pois os textos dos manuscritos e os do Novo testamento empregam a mesma linguagem e difundem a mesma doutrina. Infelizmente! Martine ROSSIGNOL acrescenta: « PROVA DE QUE ELA FAZ PARTE DELA ». Conclusão absurda e contraditória. Devia ter escrito: « PROVA DE QUE ELA É ELA MESMA ESSA COMUNIDADE. » E, para tentar justificar seu lapso (a expressão « fazer parte »), imagina (como fazer de outro modo?) que a comunidade de Jerusalém havia ACRESCENTADO às afirmações dos manuscritos a crença em Jesus Cristo e constituía, portanto, um « NEO-ESSENISMO »; não viu que o « Mestre de Justiça » dos manuscritos não era outro senão o próprio Cristo. Numa segunda parte de seu estudo, Martine ROSSIGNOL tenta encontrar traços judeu-cristãos ao longo dos séculos seguintes. Enumera as « Homilias e Reconhecimentos Clementinos ». Precisa: « AÍ, JESUS É CERTAMENTE REVERENCIADO, MAS SOMENTE COMO PROFETA », o profeta da Verdade, que sucedeu no Judaísmo, « SEM TRAÇO DE TRINDADE. » Mais adiante, a autora aborda o problema das origens do Islã. « OS EBIONITAS, diz ela, PODERIAM TER TIDO UMA DESCENDÊNCIA NA ARÁBIA ONDE O ISLÃ FEZ DE MAOMÉ UM PROFETA NA LINHAGEM DE ADÃO, MOISÉS E JESUS... É possível, mesmo provável que tenham persistido no Oriente, na Transjordânia, na Arábia, comunidades descendentes dos Judeu-cristãos de Tiago, crendo em Jesus somente profeta. » Precisamos: « é certo » que essas comunidades se perpetuaram ao longo dos séculos, como demonstramos. E Martine ROSSIGNOL conclui: « DE MODO QUE A EXPANSÃO FULGURANTE DO ISLÃ ALGUNS SÉCULOS MAIS TARDE SE COMPREENDE MELHOR SOBRE TAL SUBSTRATO. » Conclusão notável e inesperada para aqueles que não estudaram essa progressão do Islã através dos países onde se haviam espalhado as comunidades judeu-cristãs. E.C. (1) — cf. « os dossiês de Arqueologia », n.º 189 de janeiro de 1994, inteiramente consagrados aos manuscritos do Mar Morto.