# Cadernos Barruel 27 - 1994

# Os judeus-cristãos, de Qumran às origens do Islã

No decorrer de nossas pesquisas sobre as origens do Cristianismo, do Islã e do Budismo, deparamo-nos constantemente com o Judeu-cristianismo, comunidade religiosa ao mesmo tempo onipresente e fugidia. Pensamos que seria bom estudá-lo por si mesmo, a partir do que os documentos da época podiam nos fornecer em matéria de informações.

Tivemos a impressão, no decorrer de nossas pesquisas, de seguir uma pista da qual faltam a maior parte das setas. Os documentos relativos a essa Igreja são raros, dispersos por toda parte, escalonados ao longo de vários séculos. No entanto, um exame atento desses textos mostra-nos que eles se encontram, confortam-se mutuamente. Existe, de um documento a outro, uma continuidade bastante notável. Sabemos, com efeito, que as crenças religiosas e os hábitos litúrgicos, uma vez solidamente estabelecidos, transmitem-se fielmente de geração em geração e são, portanto, bastante estáveis. Concluímos daí que era necessário ler os textos reunidos confrontando-os e esclarecendo-os uns pelos outros, e que era preciso aplicar-lhes uma chave inteligível, se não se queria cair na extravagância ou na incoerência.

Uma primeira dificuldade desse estudo provém do fato de que só conhecemos essa Igreja judeu-cristã por meio de seus inimigos: as acusações e as denúncias dos bispos cristãos e dos rabinos talmudistas, herdeiros dos fariseus. Ela se encontrava, portanto, como que « encurralada » entre dois mundos religiosos que a rejeitavam.

Uma segunda dificuldade deve ser assinalada. Não possuímos os textos autênticos dessa Igreja. Ora, é inverossímil que uma comunidade tão numerosa, espalhada por todo o Oriente durante vários séculos, não tenha possuído livros de doutrina, manuais de liturgia, obras de polêmica contra seus inimigos. Concluímos que toda essa literatura havia sido sistematicamente destruída ao longo dos séculos pelos bispos cristãos e pelos rabinos. Temos aliás disso uma prova nos decretos dos Papas que denunciavam como apócrifos os livros considerados heréticos. O decreto **do papa Gelásio** tem assim por título: « De libris recipiendis et non recipiendis », com uma « Notitia librorum apocryphorum qui non recipiuntur », cujo texto é retomado no **decreto de Graciano.** Toda obra rejeitada deve ser subtraída à leitura dos fiéis. É o sentido da palavra « apócrifo ».

Ignoramos também os nomes dos bispos, dos sacerdotes, dos mestres dessa comunidade judeu-cristã. Pode-se dizer que ela foi bem « enterrada », e veremos que é a palavra exata.

Mas eis que, ó maravilha, de um só golpe, em 1947, foi « desenterrada » toda a literatura judeu-cristã dos Ebionitas, os « Pobres » de Jerusalém, retirada das grutas do Mar Morto que dominam seu cemitério, o « cemitério dos Santos », o de Qumran. Enfim podíamos tomar conhecimento dos textos autênticos dessa comunidade. E veremos que estão em perfeita conexão e continuidade com o que sabemos, por outras vias, de sua doutrina.

Infelizmente! Foi a ocasião para os historiadores de desenterrar a velha lenda dos Essênios. Assim, a leitura desses documentos foi falseada desde o início por uma verdadeira impostura.

O MITO DOS ESSÊNIOS ¹

Toda a tradição cristã, desde os primórdios do Cristianismo, afirmou, com notável continuidade, que os Essênios e os Terapeutas de que falam Fílon de Alexandria e Flávio Josefo eram os primeiros monges cristãos da Palestina. Basta ler inteligentemente os textos dessas duas testemunhas para se convencer disso.

Fílon interpreta o nome dos Essênios pela ideia de Santidade. A palavra siríaca Hasaya significa « piedoso, santo » e serviu para designar os monges de Hebron.

Eusébio o afirma em sua « História eclesiástica ». Eis como ele resume Fílon: « Constroem para si, diz esse autor, pequenos oratórios retirados no campo, aos quais dão o nome de mosteiros (μοναστήριον). É ali que passam a vida, longe dos demais mortais, nos exercícios da piedade, e que celebram os augustos MISTÉRIOS. A lei de Deus, os oráculos dos profetas e os outros escritos são o tema contínuo de suas meditações. O dia inteiro, desde o raiar da aurora até o pôr do sol, é consagrado a piedosos exercícios, ao canto dos salmos e dos santos cânticos. Reprovariam a si mesmos perder, cuidando do corpo, qualquer parte de um dia que reservam inteiro à contemplação das coisas celestes. Só tomam, portanto, após o pôr do sol, um alimento frugal e pouco abundante. Têm, além disso, para animar sua solidão, os escritos dos homens ANCIÃOS **que fundaram a sua religião,** e é ali que encontram sua regra de conduta e os modelos que devem imitar. »

Sublinhamos nesse texto três palavras-chave que convém compreender bem. Fílon descreve a construção dos oratórios como uma novidade, desconhecida, portanto, do Judaísmo ortodoxo. A vida monástica é **totalmente ausente** de todas as religiões anteriores ao cristianismo e de toda a tradição judaica. O voto de **nazireato,** que poderia ser aproximado dela, é **provisório** e não dispensa o judeu piedoso do dever de casar-se e procriar, obrigatório na lei de Moisés. Somente o Cristo disse: « Vendei os vossos bens, renunciai a tudo e segui-me. »

Os MISTÉRIOS? É o nome dado, na liturgia siro-caldeia, à Missa. Em aramaico, RAZE. A palavra está sempre no plural para designar as duas Santas Espécies. Vem do verbo raz, que significa: iniciar em ritos sagrados. O ordinário da Missa é a Ordem dos Mistérios, « Taksa d'Razé ».

Os homens ANCIÃOS? São os sacerdotes; em aramaico « Quashisha », que quer dizer: velho, idoso. É o mesmo sentido da palavra **presbítero** (« padre »), derivada do grego. Fílon precisa claramente que eles fundaram uma nova religião. São, portanto, aqui, os Apóstolos. Eusébio acrescenta: « Esses escritos de que fala Fílon não são outros senão os Evangelhos, os escritos dos apóstolos e alguns comentários compostos pelos doutores do século apostólico ». Teremos ocasião de apresentá-los.

Ora, essa liturgia siro-caldeia foi instituída pelos Apóstolos, em aramaico. É bem a liturgia das primeiras comunidades cristãs que se espalhavam pelo Oriente na época em que foi escrito esse livro de Fílon, isto é, em meados do primeiro século da era cristã.

Continuemos nossa investigação. Um manuscrito de Fílon, copiado no século X e conservado na Biblioteca Nacional, é intitulado: « Sobre os fiéis circuncisos e convertidos ao Cristianismo, que levam no Egito a vida monástica », e traz a seguinte menção: « Alguns pretendem que este livro de Fílon (« Sobre a vida contemplativa ») diz respeito a monges judeus pertencentes à seita dos Nazarenos; outros sustentam que se trata de judeus convertidos, observando a lei de Moisés como figura da Lei nova; outros, enfim, que se trata de perfeitos cristãos ». Nos três casos assim enumerados, vemos que todos são discípulos de Jesus Cristo.

Essa ideia de que os Essênios e os Terapeutas constituíram uma **seita judaica anterior ao Cristianismo** foi lançada pelos Enciclopedistas no século XVIII, como máquina de guerra contra a divindade de Jesus Cristo, tornado simples repetidor de uma doutrina professada antes dele e por ele recebida. Imediatamente, um erudito beneditino, **Dom Bernard de Montfaucon,** reagiu energicamente, demonstrando, com notável luxo de provas, que os Essênios descritos por Fílon eram monges Cristãos.

Os Terapeutas e os Essênios rezavam voltados para o Oriente, com as mãos estendidas: « Isso se observa, diz o P. de Montfaucon, entre os antigos cristãos, não somente quanto à postura e à situação, mas também quanto à forma da oração, que encontramos a mesma nas constituições apostólicas e nos mais antigos hinos do breviário. » Com efeito, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Orígenes e Eusébio atestam que os primeiros cristãos rezavam a Deus com as mãos estendidas (expansis manibus) para o Oriente. Pediam, segundo o texto das Constituições apostólicas, um espírito vigilante, uma ciência sem erros, e que o Espírito Santo descesse sobre eles para lhes dar posse e conhecimento da Verdade. « Ao amanhecer, diz Fílon, seus olhares e todo o seu corpo voltam-se para o oriente, para espreitar os primeiros raios do sol nascente. Quando os avistam, estendem as mãos ao céu, pedindo um dia feliz, o conhecimento da verdade e a lucidez da inteligência. » São Basílio põe o uso de rezar voltado para o oriente entre as tradições que não se encontram na Escritura e nem por isso são menos invioláveis, porque vieram dos Apóstolos. « Essa prática especial, frequentemente mencionada pelos gregos, distinguia os cristãos dos judeus, aos quais era proibido voltar-se para o oriente para rezar, » sem dúvida, precisa Montfaucon, « por causa da inclinação dessa nação pelo culto dos falsos deuses e particularmente do sol e dos astros. »

Ora, essa oração pertence à liturgia siro-caldeia; é mesmo um dos mais antigos hinos, o LAKOU MARA (« A Ti, Senhor »), cantado nas primeiras comunidades cristãs. Plínio, o Jovem, alude a ele em sua carta a Trajano, quando descreve os cristãos da Bitínia: « Reúnem-se em dia fixo, antes do nascer do sol, cantando alternadamente um hino ao Cristo como a um deus. »

Continuaremos mais adiante o exame dessa liturgia essênia e veremos que ela é **especificamente cristã.**

O « Mito dos Essênios » foi difundido no decorrer do século XIX na Igreja pelas visões de Anne-Catherine Emmerich, retomadas dos enciclopedistas, graças ao « irmão » Clemente Brentano, e depois divulgado admiravelmente na « Vida de Jesus » por **Ernest Renan,** graças em particular à magia de seu verbo e de seu estilo; foi rejeitado, naquela época, por todos os historiadores eclesiásticos sérios.

Como se explica, então, que tenha sido relançado no momento das descobertas do Mar Morto? Não podemos passar em silêncio a presença em Qumran do Sr. Laperrousaz, grão-mestre do Livre Pensamento Francês, presidente do Círculo Ernest Renan, que participa muito cedo das escavações, em companhia do P. de Vaux, e o desviou de seguir as primeiras conclusões tiradas dessas descobertas por um erudito inglês, John Lewis Teacher, que logo percebera o caráter ebionita dos textos. Em consequência, todos os eclesiásticos que se debruçaram sobre eles retomaram o mito por unanimidade, desenvolvendo-o na linha da mais extrema extravagância imaginativa. Citemos, depois do Sr. Dupont-Sommer, os padres de Vaux e Daniélou, os abades Carmignac e Puech, entre uma multidão de outros. O mais escandaloso é a inconsciência desses sacerdotes que, contra toda a verdade, se puseram a reboque das mentiras de Ernest Renan, desenvolvendo assim, no interior da Igreja, teses que só podem reforçar o mais profundo desprezo pela divindade de Jesus Cristo.

Um religioso, o P. **O'Callaghan,** pôde demonstrar, há alguns anos, que dois fragmentos gregos eram manifestamente cristãos, atribuídos a São Paulo e a São Marcos. Grande alvoroço! Contestações violentas! Um alemão, o professor Peter Thiede, organizou um colóquio em Eichstätt, em outubro de 1991, para estudar esse novo dado. Poder-se-ia ter pensado que esses senhores eruditos iriam examinar as questões colocadas por essa descoberta inesperada e incômoda: O que foi feito dos manuscritos de que se encontraram esses fragmentos? Havia outros do Novo Testamento? O que parecia lógico e podia pôr em causa a honestidade das escavações. Enfim, iria-se estudar a presença cristã em Qumran? Absolutamente! Esse colóquio foi a ocasião de renovar o **romance dos Essênios,** enriquecido de alguns episódios novos, puramente imaginários, é claro! Um único especialista, o P. Schwank, deu-se ao trabalho de declarar « que nenhuma descoberta arqueológica na colina sudoeste de Jerusalém pode ser considerada **especificamente essênia.** » Não foi ouvido, infelizmente! E a descoberta do P. O'Callaghan foi conscienciosamente « enterrada ». Isso é o que se chama « trabalho bem feito ».

OS « POBRES » DE JERUSALÉM

Nos manuscritos do Mar Morto, jamais se trata de Essênios. Seu nome não aparece em lugar nenhum nos textos. A comunidade designa-se a si mesma por vários nomes: os Santos (de onde se tirou a palavra: Essênio!), os Justos, os « filhos do Justo (bene sedec) », os Eleitos e sobretudo os « pobres », « ebionim ». Este último termo é constantemente repetido, ao longo dos textos. Citemos: « É na mão dos Pobres que entregarás os inimigos de todos os países... Bendito seja o seu nome, pois salvou a alma dos pobres (ebion), dos humildes (ani) e dos oprimidos (dal) ». Poder-se-iam multiplicar as citações. A palavra « ebionim » é, portanto, **a verdadeira assinatura** dos autores desses manuscritos.

Se nos damos ao trabalho de estudar bem os ebionitas, temos a resposta a todas as dificuldades levantadas. Os « pobres » de Jerusalém haviam-se estabelecido em « lauras », ou grutas adaptadas como celas monásticas, nos Montes de Judá, ao longo da estrada de Hebron, nas encostas do vale do Cedron, acima da cidade de Engadi, precisa Plínio, o Velho. Formavam a primeira comunidade monástica cristã, ligada à Igreja de Jerusalém, sob a autoridade de São Tiago, o Menor, primeiro bispo da cidade, « irmão » do Senhor, chamado o « Justo », que fizera voto de nazireato, rezava no templo, era venerado pelo povo. Era a « coluna » da Igreja-Mãe. É a ele que o Cristo apareceu primeiro depois da ressurreição, segundo o Evangelho dos Hebreus. Faz parte dos três grandes apóstolos, Pedro, Tiago e João. Seu sucessor será Simeão, filho de Cléofas, também primo do Senhor. Eusébio assinala que os irmãos do Senhor conduziam toda a Igreja, como mártires e parentes do Senhor. »

Esses Ebionitas só conheciam o Antigo Testamento, mais o Evangelho dito dos « Hebreus » ou dos « Nazarenos ». Durante um século aproximadamente, até 135 depois de Cristo, viveram ali, escrevendo os comentários chamados « apócrifos » do Antigo Testamento. São os autores do Livro de Henoc, das Odes de Salomão, do Testamento dos doze patriarcas, dos cantos da Sibila. Tudo isso para aplicar a Jesus Cristo, o último e o maior dos profetas, a quem chamavam o « Mestre Justo » (more sedec), todas as profecias anteriores.

A comparação dos textos é bastante eloquente. São Mateus havia dito: « A boa nova é anunciada aos pobres ». (Traduzamos: o Evangelho é anunciado aos ebionitas.) Quando São Paulo veio a Jerusalém, em 57, Pedro, Tiago e João lembraram-lhe a obrigação de socorrer os Pobres: « Devíamos apenas lembrar-nos dos Pobres, o que precisamente tive o empenho de fazer », tratava-se da coleta em favor dos Santos... de levar « as vossas liberalidades a Jerusalém », « uma contribuição em favor dos Santos de Jerusalém que são Pobres. »

Os « Pobres », os « Santos », são os mesmos termos que se encontram ao longo de páginas nos manuscritos de Qumran. Ter atribuído estes últimos a supostos Essênios é da mais absoluta má-fé. Absolutamente nada nos textos pode permitir tal atribuição. ²

Eis como é apresentada a primeira comunidade cristã de Jerusalém nos « Atos dos Apóstolos »: « Todos os que creram estavam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e seus bens e distribuíam o preço a todos, segundo as necessidades de cada um. Ora, a assembleia dos crentes tinha um só coração e uma só alma, e ninguém dizia seu o que lhe pertencia, mas tudo era comum entre eles... Não havia nenhum indigente entre eles, pois todos os que possuíam terras ou casas as vendiam, trazendo o preço que depositavam aos pés dos Apóstolos, e distribuía-se a cada um segundo suas necessidades. » Vê-se aqui a diferença entre o « pobre » (ebion), que renuncia a seus bens pessoais, e o indigente (anaw), pobre infeliz, sem recursos, que não existe, portanto, entre os cristãos.

Esse texto é anterior ao ano 70 depois de Cristo, pois o autor dos « Atos » ignora a destruição do Templo. Eis a tradução que Flávio Josefo deu desse texto em sua « Guerra Judaica » e que atribuiu aos supostos Essênios: Desprezadores da riqueza, são admiradores da vida em comum, e não se encontra entre eles ninguém que seja mais rico que outro, pois é lei que, ao entrar na seita, se abandone à corporação a própria fortuna, de modo que ninguém apareça no estado miserável da pobreza, nem no esplendor da riqueza. Estando todas as posses postas em comum, não têm mais, como irmãos, que um só patrimônio... Entre eles, não há compra nem venda, mas cada um dá ao outro o que lhe é necessário sem nada dar em troca. Podem livremente fazer-se assistir por quem lhes aprouver. Flávio Josefo escreve muito tempo depois da ruína de Jerusalém e apresenta a mesma comunidade ou « corporação » de crentes que o texto dos « Atos ». É, portanto, bem a prova de que aqueles que ele designa pelo nome de Essênios, isto é, de « Santos », são os cristãos da Igreja primitiva.

Estudemos a liturgia desses Ebionitas chamados Essênios. Eis o texto de Qumran: « E quando se reúnem e se dispôs a mesa para beber o vinho, que ninguém estenda a mão para partir o pão antes que o sacerdote (« Cohen ») ponha primeiro a mão no pão, pois é ele quem deve abençoar as primícias do pão e do vinho. Depois, o Ungido de Israel estenderá a mão para o pão... e toda a assembleia, cada um segundo a sua dignidade... »

Texto a ser bem compreendido. O sacerdote oficiante é chamado « cohen », o que quer dizer sacrificador. No Templo de Jerusalém, chamava-se cohen o sacrificador designado pelo Sumo Sacerdote naquele dia para oferecer a vítima. Na liturgia siro-caldeia, a dos Apóstolos, praticada na Igreja primitiva, o sacerdote, quando celebra os Santos Mistérios (nome da missa), é chamado em aramaico Kahna, do verbo kahen, « sacrificar », e designado pelo arquipresbítero para a celebração eucarística. O sacerdote oficiante, em Qumran, é, portanto, bem um sacrificador; sua vítima é bem o pão e o vinho. O sacrifício do pão e do vinho é a própria definição da Missa. Não pode ter sido praticado antes de sua instituição por Jesus Cristo.

Quando o sacerdote sacrificador abençoou a oferenda, o Ungido de Israel, então, designa o Messias, é a tradução da palavra « Messiah ». Pode-se traduzi-la igualmente em grego por « o Cristo », é a palavra própria. (κριστος κυρίου, isto é, o Ungido do Senhor.) Assim que o sacerdote tocou o pão pronunciando a fórmula de bênção, o Cristo (é bem Ele) « estende a mão » sobre a oferenda. É uma fórmula de tomada de posse. Faz dela coisa sua, bem próprio. Eis uma maneira de exprimir a ideia de transubstanciação, segundo o vocabulário atual. Porque, não o esqueçamos, o Ungido de Israel foi morto pelo sacerdote ímpio », como sabemos por outras vias. Veremos mesmo que foi « ressuscitado » e que podia, portanto, reaparecer em cada celebração.

Precisemos ainda. A palavra empregada aqui para designar o vinho significa, de fato, o « Mosto ». Sabemos que São Tiago fizera o voto de nazireato, que compreendia a obrigação de abster-se de vinho fermentado. Eis uma dificuldade a resolver. Restava o « mosto », em grego « γλεῦκος », « doce », em hebraico « metiqah », vinho levemente fermentado para que possa conservar-se. A Eucaristia era celebrada à noite, em vigília. No dia de Pentecostes, os apóstolos viram-se acusados « de estar cheios de mosto ». É, portanto, o mesmo termo que se encontra no texto de Qumran.

Vamos prosseguir esse confronto dos manuscritos do Mar Morto com o que sabemos da Igreja primitiva em Jerusalém.

JESUS CRISTO, O « MESTRE JUSTO »

Constata-se certa oscilação na concepção que os Judeu-cristãos tinham da personalidade do Cristo. Certamente, ele é divino. Encontrou-se em Qumran um fragmento da quarta gruta onde ele é « saudado com o nome de filho de Deus e chamado Filho do Altíssimo ». Mas de que divindade se trata? Parece que a doutrina dos Ebionitas variou ao longo dos séculos, como veremos.

Nos manuscritos do Mar Morto dizem-nos que « Deus lhe deu a conhecer todos os mistérios das palavras de seus servos, os profetas »; que « aqueles que desprezam sua palavra serão retirados do mundo, aqueles que não reconheceram sua aliança »; que ele é o « príncipe da Comunidade ». Deus o estabeleceu mestre de Justiça « para edificar a comunidade de Verdade que não vacilará », fez-lhes conhecer por seu Ungido, seu Espírito Santo ».

O Ungido do Senhor é o Messias, é, portanto, o Cristo, já que essa palavra grega traduz exatamente o hebraico « messiah ». É também o Justo, o « sedec ». É igualmente o Eleito. « Suscitou para si homens chamados por seu nome a fim de salvaguardar sobreviventes ». Precisemos ainda: « O Deus de Israel, com seu Anjo de Verdade, criou todos os espíritos de luz e de trevas. Vem em auxílio de todos os filhos da luz. » O Messias é, pois, bem considerado um **Anjo,** um Enviado, mas « por seu eleito, Deus **julgará todas as nações** e aqueles que **praticarem a Lei** serão salvos por causa de seus sofrimentos e **de sua Fé no mestre de Justiça.** » Melhor ainda: « Aqueles que tiverem escutado a voz do Mestre e se tiverem confessado estarão na alegria. Rejubilar-se-ão. Deus lhes perdoa. Seu coração se fortalecerá e eles se tornarão poderosos e Deus fará remissão por eles. »

Eis uma boa seleção de expressões aplicadas ao « **Messias** » dos manuscritos. Ele é associado a Deus de maneira vaga, imprecisa e flutuante, na criação do mundo, no julgamento final das nações, na remissão dos pecados, no ensino da Lei, na realização de todas as profecias de que é o « **intérprete** » definitivo. Reencontraremos essas hesitações nos juízos formulados pelos Judeu-cristãos sobre a personalidade do Cristo.

Enfim, o « Mestre Justo » foi **crucificado** e **ressuscitou.** Os textos de Qumran são **formais** e **incontestáveis,** como se diz hoje. Diz-se num comentário de Naum:

« O leãozinho furioso que exerceu vinganças sobre aqueles que procuram as coisas lisonjeiras, ele que suspendia homens vivos no madeiro, o que não se havia feito em Israel anteriormente, mas aquele que foi suspenso vivo no madeiro, será venerado. »

No início da era cristã, Herodes, o Grande, havia mandado crucificar em grande número os fariseus que se haviam revoltado contra ele. Pois « aqueles que procuram as coisas lisonjeiras » são bem os fariseus, indignados de ver um asmoneu imposto como rei pelo Imperador Augusto ao povo judeu. O texto precisa claramente que a crucificação era um castigo novo e escandaloso. Ora, a expressão « suspender vivo no madeiro » é corrente na literatura judeu-cristã: « Pois nossa vida, ζαή ημων, diz Clemente de Alexandria, foi suspensa (εκρεμάσθη) no madeiro (ξύλον), pela nossa fé (εις πιστιν ή μων). » Nossa vida é bem Jesus Cristo, o madeiro é bem a Cruz. Essas expressões, como assinala o Padre Daniélou, reencontram-se nos « Testimonia », onde designam a crucificação.

Quanto à « veneração de um crucificado », por mais que revolvamos em todos os sentidos a história da humanidade inteira, não conhecemos senão Jesus Cristo, e é impossível, com a melhor boa vontade, contestar o sentido do texto. Por isso nos escandalizamos com as reflexões acrescentadas em nota na obra do Sr. Dupont-Sommer sobre « Os Escritos Essênios », à página 281: « A frase faria alusão a uma personagem que teria sofrido o suplício da cruz e se teria tornado objeto de invocação. Quem seria essa extraordinária personagem? Por quem teria sido crucificada? Nada obriga a pensar que teria sido um dos oitocentos fariseus crucificados por Janeu... »

Não é possível zombar mais descaradamente de uma verdade que salta aos olhos dos menos prevenidos. O Sr. Dupont-Sommer faz a pergunta, embora conheça muito bem a resposta. Tem os olhos vendados por evidente má-fé. Seu ódio ao Cristianismo é manifesto. Sugere mesmo uma **falsa pista** para perturbar o leitor, evocando um certo Janeu que nada tem a ver com a questão.

Enfim, o Messias foi « ressuscitado ». Eis o texto do comentário de Naum: « O sacerdote ímpio pôs a mão sobre o Mestre Justo para matá-lo, mas Deus **o despertou** enviando-lhe seu Espírito. » Despertou-o, portanto, da morte. O texto é claro. É a ressurreição. Só a Jesus Cristo isso aconteceu. Vê-se já esboçar-se um erro sobre a ressurreição. Jesus Cristo não ressuscitou a si mesmo por sua própria força divina, mas pela de seu Pai. São Pedro o disse, no dia de Pentecostes: « Deus o ressuscitou, libertando-o dos laços da morte. » Ainda nos Atos dos apóstolos, está dito: « O Deus de nossos Pais ressuscitou esse Jesus que vós fizestes morrer **suspendendo-o no patíbulo.** » O Cristo não porta, portanto, em si mesmo a plenitude do poder divino. Eis o início de uma **deriva doutrinal** que desembocará mais tarde na negação pura e simples de sua divindade.

Assim, pensamos que os textos citados nestas últimas páginas são **suficientemente explícitos** e que o « Mestre Justo » descrito nos manuscritos não pode ser senão Jesus Cristo.

A DESTRUIÇÃO DO TEMPLO EM 70

Foi o acontecimento-chave de toda a história de Israel, a catástrofe definitiva que devia marcar o fracasso final do Judaísmo, do qual nunca mais se recuperou. Havia ali um sinal divino. Deus havia abandonado seu povo eleito.

Distingamos **três etapas** nesse abandono por Javé.

Deus estava presente na Arca da Aliança e no Santo dos Santos, no Templo de Jerusalém. No momento da **morte de Jesus na cruz,** « o véu do Templo, escreve São Mateus, rasgou-se em dois, de alto a baixo. » São Jerônimo precisa o sentido desse rasgão: « O véu do Templo rasgou-se em dois para cumprir o que é relatado por Josefo, a saber, que as potências invisíveis que presidiam ao Templo haviam dito: Abandonemos estas moradas. » E o autor da Epístola aos Hebreus faz notar: « o Cristo entra **uma vez por todas** no santuário, não com sangue de bodes e de novilhos, **mas com seu próprio sangue,** tendo-nos obtido uma redenção eterna. » Isso para fazer compreender aos judeu-cristãos a quem o autor se dirige que não se deve mais lamentar o culto do Templo, pois está caduco.

É o início de uma incompreensão que se desenvolverá progressivamente até a ruptura entre estes últimos e o restante das Igrejas cristãs não judaicas.

A segunda etapa é o **cerco de Jerusalém** pelos Kittim, isto é, os Romanos, e a destruição do Templo pelos soldados de Tito. É no decorrer desse acontecimento que se situa o episódio da **morte do sacerdote ímpio,** tal como é apresentado nos textos descobertos em Qumran. Trata-se de **Hanan,** como demonstramos.³ Era filho de Anás, aquele que havia condenado à morte Jesus Cristo. Era saduceu e havia mandado atirar do alto do muro do Templo São Tiago, o « Justo », irmão do Senhor, bispo de Jerusalém e Pai dos Ebionitas.

Foi o último sumo sacerdote. Tendo subido ao assalto do Templo para retomá-lo dos Zelotes que o ocupavam, foi vencido, torturado e morto por eles, enquanto as legiões romanas aguardavam o massacre final para dar o assalto à cidade. Os textos são formais e precisos e não deixam nenhuma dúvida: « O sacerdote ímpio de quem se exigirá justiça pelo que fez aos Pobres (ebionim), pois Deus o condenará ao extermínio, como ele premeditou exterminar os Pobres (ebionim)... A cidade de Jerusalém, na qual o sacerdote ímpio cometeu ações abomináveis e maculou o santuário de Deus... Roubou o bem dos Pobres (ebionim)... »

Mais adiante: « O sacerdote ímpio, que por causa do pecado cometido contra o Mestre de Justiça e seus partidários, Deus entregou às mãos de seus inimigos... Porque havia cometido um crime contra seu Eleito. » Outro texto: « Deus não deixará impune o sacerdote ímpio pelo sangue que derramou, mas a ele Deus pagará sua retribuição entregando-o às mãos dos violentos para exercerem sobre ele sua vingança. »

Precisemos ainda: « No fim do tempo do repouso, o Mestre de Justiça **manifestou-se** a eles para os engolir... » Ora, esse combate das tropas judaicas, conduzidas pelo sumo sacerdote Hanan no interior do Templo para expulsar os Zelotes, desenrolava-se no **dia das Expiações,** dia temível para o sumo sacerdote. A tradição talmúdica conservou igualmente a história de **um anjo do Senhor** cuja aparição (o texto de Qumran emprega o verbo « hôphia »: ele apareceu) acarretou a morte do saduceu ímpio, no Santo dos Santos, no dia da Expiação. Enfim, o comentário de Habacuc menciona a pilhagem « dos últimos sacerdotes de Jerusalém, cujos tesouros caíram nas mãos dos Kittim », isto é, dos Romanos.

« Um Anjo, diz Flávio Josefo, guardava o Templo e o abandonou por ocasião de sua destruição por Tito », e a Didascália precisa: « Quando Deus abandonou o povo, deixou o Templo deles deserto, rasgou o véu, retirou dele seu Espírito Santo e o derramou sobre aqueles que creram entre os Gentios... »

Os Judeu-cristãos de Jerusalém haviam abandonado a cidade e retirado-se para a Transjordânia, em **Pela.** Ali também os textos de Qumran são explícitos: « Os penitentes de Israel deixaram o país e exilaram-se, na época final da destruição do país... Saíram da casa de discórdia - a cidade santa - e apoiaram-se em Deus no tempo em que Israel era infiel. »

Passada a tormenta, os Cristãos de Pela voltaram a Jerusalém; outros fixaram-se nessa cidade, de modo que, a partir de 70, os chefes da comunidade judeu-cristã são bispos de Jerusalém e de Pela. « Aprendi, escreve Eusébio, por documentos escritos que, até o cerco dos Judeus sob Adriano, em 135, houvera em Jerusalém uma sucessão de quinze bispos, que se diz terem sido todos Hebreus de velha cepa. Com efeito, a Igreja inteira de Jerusalém era então composta de Hebreus fiéis. » E Eusébio os chama « bispos da circuncisão ».

Qual era o estado de espírito desses Judeus fiéis? Ao mesmo tempo uma grande cólera contra os últimos sacerdotes que, por sua perseguição aos cristãos e aos « Pobres », haviam atraído o castigo divino sobre a cidade Santa, chamada nesse momento a « casa de discórdia ». Mas também um violento ódio contra os Romanos, destruidores do Templo e instrumentos da vingança divina. No entanto, permaneciam marcados por um apego indestrutível às promessas divinas. Haviam retido a profecia de Jesus Cristo, que adquiria subitamente, diante de sua manifesta realização, um sentido renovado: « Voltarei em breve e **reconstruirei o Templo em três dias.** »

Os judeu-cristãos eram sustentados por uma imensa esperança. Era preciso, portanto, preparar esse retorno do Mestre e ajudá-lo a realizar sua promessa. Segundo os textos de Qumran, esperavam « a vinda de um profeta e dos Messias de Aarão e de Israel. » O autor da epístola aos Hebreus lhes havia explicado bem que o Messias já viera, que era ao mesmo tempo rei e sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (o « rei justo »). O « melqui-sedec » e o « more sedec » eram, portanto, bem a mesma pessoa. Aliás, o Evangelho da Infância, em São Lucas, precisava bem que Jesus era « filho de Davi » pelos ancestrais de José e « filho de Aarão », pois Maria era sua mãe e parenta de Isabel, que era « das filhas de Aarão ».

Toda essa argumentação bíblica não podia desviar os judeu-cristãos dessa poderosa esperança que depositavam na reconstrução do Templo. Era preciso, para isso, preparar um exército capaz de retomar a cidade aos Kittim. Compuseram uma « Regra da Guerra » que descrevia os quarenta anos previstos para o extermínio dos Romanos. É « o Combate dos Filhos da Luz (eles, os Judeu-cristãos) contra os filhos das Trevas » (os Kittim ou Romanos), para o qual se organizam campos onde os homens serão agrupados por dez, cem e mil, segundo a ordenação das legiões romanas. Era preciso também prever as riquezas necessárias ao armamento da Guerra Santa. Os « ebionitas » eram bem pobres por voto pessoal, mas a Comunidade era imensamente rica, pois **coletava os donativos** enviados por todas as outras comunidades cristãs da diáspora.

Encontrou-se **esse rolo de cobre,** espécie de catálogo dos tesouros escondidos em Jerusalém e nas imediações, assim como de objetos de culto e de vestes sacerdotais para restabelecer a liturgia sagrada do Templo. Notou-se, entre os locais de esconderijo, **a localização do túmulo do Justo,** e nem sequer se percebeu que o Justo em questão era São Tiago, o Menor, que, atirado do alto do muro do Templo, fora enterrado bem perto.

Pensava-se assim preparar o retorno do Cristo, o « Príncipe da Comunidade » do rolo da Guerra. À frente dos Filhos da Luz, vindos da Judeia e da diáspora, ele subirá do deserto na direção de Jerusalém. Travará batalha campal sob os muros da Cidade Santa, contra os Kittim que terão vindo do vale de Acor. Auxiliado pelo exército dos Anjos, retomará a cidade, reconstruirá o Templo e preparará assim a chegada triunfal do Messias-Sacerdote, que restabelecerá o culto sacrificial. Sonho grandioso que se lê nos manuscritos do Mar Morto.

Infelizmente! No decorrer de uma **terceira etapa,** essa grande esperança desmoronou de um só golpe por culpa dos Zelotes. Instigados por Bar Kochba, o « Filho da Estrela », esforçaram-se por antecipar-se a essa vitória judeu-cristã, lançando seus homens contra os Romanos numa guerra absurda e desesperada. Sabemos por São Justino que « na última guerra da Judeia, Bar-Kochba, o chefe da revolta, fazia os cristãos, e só os cristãos, sofrerem os últimos suplícios, caso não renegassem e não blasfemassem contra Jesus Cristo. »

O golpe foi definitivo. O Imperador Aélio Adriano destruiu a cidade, expulsou todos os Judeus da Palestina e reconstruiu uma cidade grega, « Aelia Capitolina ». Estamos em 135 depois de Cristo. **Uma nova comunidade cristã** instalou-se então na nova cidade, com um bispo grego chamado Marcos. Uma nova comunidade monástica reocupou as « lauras » dos Ebionitas e fundou um novo mosteiro. Restam-nos hoje as ruínas de Khirbet Mird, nos Montes de Judá, perto do vale do Cedron, onde se encontraram fragmentos de manuscritos gregos do Novo Testamento.

Esses monges cristãos de rito grego reuniram, selecionaram e puseram de lado os textos judeu-cristãos e ebionitas abandonados nas « lauras ». Considerados heréticos e, portanto, « apócrifos », era preciso subtraí-los à leitura dos fiéis. Foram jogá-los nas **grutas-lixeiras,** ou « gueniza », nos penhascos que dominam o cemitério deles, o dos « Santos », perto do Wadi Qumran.

Se nos demos ao cuidado de estudar a Igreja judeu-cristã de Jerusalém à luz dos manuscritos do Mar Morto, terá sido notado quanto estes se inscrevem exatamente na sucessão dos acontecimentos. Terá sido igualmente notado que só adquirem um sentido inteligível se os confrontamos com a história da Comunidade dos Ebionitas antes de sua dispersão pelas legiões de Adriano.

Há mais de quarenta anos, os historiadores que « confiscaram » os documentos do Mar Morto se obstinam em identificar Mestre de Justiça e Sacerdote Ímpio. Continuam sem ter encontrado, e todas as **hipóteses** construídas desde então tiveram de ser abandonadas. Mas recusam obstinadamente olhar na única direção que lhes daria a **chave do mistério.** Ora, não há mistério. A chave é muito simples. A história é muito clara. Cremos ter demonstrado suficiente e definitivamente que esses manuscritos são bem **os textos autênticos** dos « Pobres » de Jerusalém, os monges ebionitas.

A DOUTRINA JUDEU-CRISTÃ

Depois de sua expulsão da Palestina, os cristãos de Jerusalém e os de Pela abandonaram a Batanéia, para onde haviam emigrado, e foram instalar-se no deserto de Cálcis, perto da **cidade de Beroia, na Síria.** Dali espalharam-se por todas as cidades do Oriente, mas sobretudo na Síria. Eram objeto de desprezo por parte de seus irmãos que permaneceram fiéis aos rabinos, os quais os chamavam **Galileus,** mas sobretudo **nazarenos.** Estes, convertidos do Judaísmo, não se indignavam de serem assim denominados, por causa de Jesus de Nazaré e em lembrança dos célebres nazireus do Antigo Testamento, esses homens tão perfeitamente consagrados a Deus como o foram Sansão e Samuel.

Entre esses Nazarenos, aqueles que formavam a comunidade dos « Ebionitas », dos « Pobres », conservaram, portanto, suas regras monásticas, de modo que suas comunidades constituíam espécies de **igrejas-sinagogas-mosteiros.** Sabemos, com efeito, pela tradição caldeia, que as primeiras comunidades cristãs haviam conservado os usos da liturgia sinagogal, aos quais haviam acrescentado a celebração dos Santos Mistérios, isto é, da Missa. Seus edifícios eram sinagogas onde se havia reservado um nicho, com uma lâmpada votiva para a conservação das santas Espécies. Chamava-se-o o Santo dos Santos ou Tabernáculo.

São Jerônimo ficou impressionado com a **persistência e a vitalidade** dessas comunidades judeu-cristãs durante vários séculos. Numa carta a Santo Agostinho, ele precisa: « Que direi dos Ebionitas que fingem ser cristãos? Até hoje, em todas as sinagogas do oriente, há entre os Judeus uma seita chamada « Minim », que é condenada pelos Fariseus. Chamam-nos vulgarmente **Nazarenos.** Creem no Cristo, filho de Deus, nascido da Virgem Maria, e dizem que foi ele quem, sob Pôncio Pilatos, sofreu e ressuscitou. Nele nós também cremos, mas, enquanto eles querem ser ao mesmo tempo judeus e cristãos, não são nem judeus, nem cristãos. »

Eram condenados pelos rabinos talmudistas sob o nome de « Minim », isto é, de hereges. Com efeito, convertidos ao Cristianismo, eram considerados renegados: « Desde os apóstolos até hoje, escreve São Jerônimo num comentário de Isaías, os chefes dos Judeus perseveram em suas blasfêmias e, três vezes por dia, em todas as sinagogas, sob o nome de Nazarenos, anatematizam o nome de cristãos. » Haviam acrescentado a suas orações de dezoito bênçãos uma fórmula de maldições contra os « Notzrim », assim redigida pelo **patriarca Gamaliel II**: « Que para os caluniadores (os apóstatas) não haja esperança, e que todos os que cometem a iniquidade (o reino ímpio) sejam destruídos num instante, e que todos eles (os Nazarenos e os hereges) sejam em breve suprimidos e humilhados em nossos dias, os soberbos, que sejam apagados do livro dos vivos e que com os justos não sejam inscritos. Bendito sejas, Senhor, que quebras os inimigos e humilhas os soberbos. »

Nos livros judaicos, eram ainda **estigmatizados sob os nomes** de Samaritanos (sinônimo de hereges), de Edomitas (os inimigos mais abominados dos Judeus), de homens diabólicos, de ímpios, de adoradores dos astros...

Eis como **Santo Ireneu** os apresenta em seu « Contra as Heresias »: « Aqueles que se chamam **Ebionitas** admitem que o mundo foi feito pelo verdadeiro Deus, mas, no que diz respeito ao Senhor, professam as mesmas opiniões que Cerinto e Carpócrates (isto é, negam sua divindade). Só utilizam o Evangelho segundo Mateus, rejeitam o apóstolo Paulo, a quem acusam de apostasia com relação à Lei. Dedicam-se a comentar as profecias com excessiva minúcia. Praticam a circuncisão e perseveram nos costumes legais e nas práticas judaicas, a ponto de chegar a adorar Jerusalém, como sendo a Casa de Deus. »

Os judeu-cristãos não conhecem o Novo Testamento. Permanecem fiéis ao Antigo Testamento, ao qual acrescentam o Evangelho de São Mateus; mas, no decorrer dos séculos, não hesitaram em alterar-lhe o texto e em nele introduzir novidades consideradas pelos bispos cristãos como heresias. Chamava-se-o o **Evangelho dos Nazarenos ou dos Ebionitas.**

Jesus Cristo, dizem eles, é o maior dos profetas, mas na linhagem do Antigo Testamento. Sem dúvida é Filho de Deus, pois o sustentou diante do sinédrio, mas essa filiação permaneceu obscura e incerta entre eles. São Jerônimo escreve em 415 depois de Cristo: « É uma obra redigida em siro-caldaico, mas escrita em letras hebraicas. Os Nazarenos servem-se dela até hoje e a chamam Evangelho dos Doze, mas a maioria dos Cristãos a denomina Evangelho segundo São Mateus. Encontra-se na biblioteca de Cesareia (Alepo, na Síria). » São Jerônimo recebeu suas primeiras lições de língua hebraica de um monge ebionita de Beroia, que havia repudiado as práticas dos Nazarenos e lhe comunicara o texto desse Evangelho.

Os Ebionitas haviam seguido Cerinto e Carpócrates ao negar a divindade de Jesus. Viam nele um puro homem, oriundo da raça de Davi, filho de Maria e de José. Com o auxílio da genealogia de São Mateus, julgavam poder demonstrar que o Salvador havia nascido verdadeiramente de José.

Em seguida, identificaram o Cristo com o **Anjo do Senhor,** como vimos no texto de Qumran. Hipólito, num comentário sobre Daniel, quer reconhecer o Verbo no Anjo que desceu à fornalha para defender os três meninos: « Esse Anjo é aquele que recebeu de seu Pai o poder de julgar... É a esse Anjo que Isaías diz: Seu nome é Anjo do Grande Conselho! É ele quem apareceu a Abraão sobre o rochedo do Sacrifício, a Moisés sobre o monte Sinai. É ele quem anuncia os mistérios do pai. É o Enviado, o mensageiro de Deus. Novaciano afirma igualmente que ele apareceu a Agar e esforça-se por conciliar a noção de Anjo com a de Deus: « Se, portanto, essa aparição não convém à pessoa do Pai, de quem não se pode dizer que é um Anjo, nem à pessoa de um Anjo, para não dizer que é Deus, ela convém à pessoa do Cristo, pois ele anuncia o desígnio de seu Pai. Os hereges (isto é, os Ebionitas) devem, portanto, compreender que traem a escritura ao crer que o Cristo é um Anjo sem querer proclamá-lo Deus, quando leem suas numerosas visitas ao gênero humano no Antigo Testamento. »

Os Nazarenos, diz Teodoreto de Ciro, no fim do século V, « são Judeus que honram o Cristo **como um homem justo** (cf. o « more sedec » dos manuscritos do Mar Morto). » Negam a possibilidade de um Deus trinitário. Basílio de Cesareia fazia notar que os Judeus ficavam « exasperados » com o dogma e o assimilavam ao politeísmo. São noções que se vão reencontrar no Corão.

Os bispos cristãos lutaram com notável energia e perseverança contra a tentação de « judaizar », renovada entre os cristãos. Suas condenações e suas advertências repetidas durante vários séculos mostram sua ineficácia. É que o atrativo do Judeu-cristianismo era muito poderoso. Jesus Cristo havia dito: « Não penseis que vim abolir a Lei. Não, vim, não para abolir, mas para cumprir. » O que podia ser entendido de duas maneiras: A Lei cumprida, acabada, perfeita, **tornava-se caduca** naquilo que tinha de provisório e inacabado. Foi o ensinamento dos apóstolos e dos bispos que os seguiram. Mas os Nazarenos compreenderam a fórmula do Cristo no sentido de que deviam permanecer-lhe integralmente fiéis e acrescentar-lhe os conselhos evangélicos de perfeição, tais como os praticavam os Ebionitas. Para ser « perfeito », era preciso permanecer fiel a toda a Lei, sem omitir os menores preceitos, com excessiva minúcia. No entanto, rejeitavam, a exemplo do Cristo, tudo o que os rabinos lhe haviam acrescentado nas prescrições do Talmude. Mais um motivo de ódio da parte destes últimos.

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¹ — Para bem compreender as páginas que se seguem, é necessário ter bem presente no espírito o que desenvolvemos em nosso primeiro livro: "Da gnose ao Ecumenismo"; cap. IV, "Um mito histórico destruidor do cristianismo".

² — Fica-se confuso diante de tal incoerência. São os mesmos professores de história da Universidade Francesa que, por um lado, ensinam a obrigação de ater-se estritamente aos textos autênticos sem falseá-los por interpretações oriundas de teses prematuras e que, por outro lado, no caso que nos ocupa, impuseram imediatamente e sem referência aos manuscritos descobertos, com todo o peso de sua autoridade moral, a Lenda dos Essênios.

³ — cf. *Da Gnose ao Ecumenismo*, p. 110 e 111.

As práticas judaicas deviam ser rigorosamente aplicadas. No século III, as « Homilias Clementinas » precisavam: « Eis o que agrada a Deus: dirigir-lhe orações, suplicar-lhe, embora todos os seus dons sejam tornados iguais pela Lei, abster-se das refeições demoníacas, não comer carne não abatida ritualmente, não tocar no sangue, evitar toda mácula. » A lei do cristo é identificada à de Moisés. A Igreja de Jerusalém tem a primazia sobre a de Roma. Essas « Homilias », escritas em Roma, são obra de um ebionita.

São Jerônimo lhes diz, num comentário sobre Isaías: « Que escutem os Ebionitas, eles que, depois da paixão do Cristo e da abolição da lei, pensam que ela deve, contudo, ser observada. Que escutem os amigos dos ebionitas que pensam que os sacrifícios devem ser oferecidos somente pelos Judeus e pela raça de Israel », e Teodoreto de Ciro mencionava « que observavam o sábado segundo a Lei judaica e santificavam o domingo segundo nosso costume. » E Santo Agostinho, em seu « Tratado sobre as heresias », escrito em 428 d.C., protesta contra os Nazarenos que, « embora confessando que o Cristo é filho de Deus, observam, contudo, todos os preceitos da lei antiga, que os cristãos aprenderam, pela Tradição apostólica, a não mais compreender de maneira carnal, mas espiritual. » Acrescenta « que os Ebionitas dizem mesmo que o Cristo é **apenas um homem,** que observam os mandamentos carnais da Lei, isto é, a circuncisão e todos os outros, do peso dos quais o Novo Testamento nos libertou. »

São Jerônimo também se levantou contra o uso da circuncisão, a observância do sábado, a imolação de um cordeiro na Festa da Páscoa e a observância do jejum do Kippur.

Esforço perdido: os Cristãos continuavam atraídos pelas práticas judeu-cristãs. Os Nazarenos mostravam com convicção que não se devia cortar a tradição em dois, que era preciso recebê-la e respeitá-la inteira, até os preceitos do Cristo inclusive, se se queria tornar-se « perfeito ». Reencontraremos o mesmo estado de espírito na redação do Corão.

Enfim, os Nazarenos esperavam sempre o retorno do Cristo, a reconstrução do templo e o restabelecimento do culto sacrificial. O Messias ia voltar em breve, descer triunfante dos céus, seguido de um exército de anjos, para restaurar o trono de Davi e restabelecer o « Reino ». Então eles, os « Santos », os « Pobres », reinariam com ele sobre as doze tribos e dominariam o mundo. Esperavam igualmente a vinda de um profeta, anunciador do Messias. Tratava-se do profeta Elias, cujo retorno devia anunciar o fim do mundo. O Messias ainda não podia ter aparecido, pois devia seguir-se ao retorno de Elias, como diz o profeta Malaquias: « Eis que vou enviar-vos Elias, o profeta, antes que chegue o meu dia, grande e temível. Ele reconduzirá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha ferir o país com antema. » Ora, essa profecia era venerada entre as gentes de Qumran, e retomada pelos Judeus caraítas, seus herdeiros. ⁴

Um **apocalipse de Pedro,** de origem judeu-cristã, já aludia ao retorno de Henoc e de Elias, e o apocalipse de São João havia anunciado: « Enviarei minhas duas testemunhas para profetizar durante mil duzentos e sessenta dias, **vestidas de sacos...** »

Mas os bispos podiam opor a essa expectativa escatológica dos Nazarenos o próprio texto do Evangelho de São Mateus: « Com efeito, Jesus declarou: Sim, Elias deve voltar e restabelecer tudo, mas eu vos digo, Elias já veio e não o reconheceram, mas trataram-no como quiseram. E o filho do homem também terá de sofrer da parte deles. Então os discípulos compreenderam que essas palavras se referiam a João Batista. » Tal é a interpretação do Cristo sobre a profecia de São Malaquias. São Jerônimo nega muito claramente a crença no retorno de Elias. Em seu comentário sobre Malaquias, escreve: « Os Judeus e os hereges judaizantes (diríamos os Nazarenos e os cristãos que se esforçavam por imitá-los) pensam que Elias deve vir antes do Messias, que restabelecerá todas as coisas. Assim, no evangelho, esta pergunta é feita ao Cristo: Por que os fariseus dizem que Elias deve vir? - O Cristo lhes respondeu: É verdade que Elias virá e, se quiserdes crê-lo, eu vos direi que ele já veio. Por Elias queria dizer João Batista. » É por isso que os Padres da Igreja afirmaram que todas as profecias foram cumpridas no Cristo e que não há mais que esperar Elias, mas somente o retorno glorioso do Senhor no fim dos tempos.

Constatamos de novo que, a partir de 135 d.C. e da dispersão dos judeus no Oriente, não encontramos mais os textos autênticos dos Nazarenos e só podemos conhecer seu ensinamento pelas acusações dos bispos cristãos e dos Padres da Igreja.

UMA DERIVA GNÓSTICA

Dispersos pelo Oriente, sobretudo na Síria, privados de uma autoridade incontestada, como a de São Tiago, o Menor, e, portanto, de um magistério doutrinal estável, as comunidades dos Nazarenos tornavam-se presa fácil para os mestres da Gnose, numerosos sobretudo na Síria.

O primeiro responsável por essa deriva doutrinal é, evidentemente, **Fílon de Alexandria.** Seu Logos platônico foi assimilado a Jesus Cristo. Ele o designava com o nome de **Primeiro Anjo,** o « πρῶτος ἄγγελος » que havia participado da criação do mundo. É bem a ele que responde o Prólogo de São João: « O Verbo era Deus (e não um Anjo). Por ele tudo foi feito (Ele é, pois, o verdadeiro criador, e não apenas um participante dessa criação) e nada do que foi feito foi feito sem ele. Veio **para os seus** (Era, pois, plenamente homem e não anjo) e os seus não o receberam, mas deu a todos os que o receberam (e não somente aos Santos, aos Perfeitos) o poder de tornar-se filhos de Deus... etc. »

O prestígio de Fílon entre os judeu-cristãos permitiu ao pensamento platônico penetrar na doutrina dos Nazarenos e preparar os futuros desvios gnósticos.

O culto de São Tiago foi muito cedo desviado na direção de um esoterismo. Clemente, nas « Hipotiposes », coloca-o ao lado de João e de Pedro entre aqueles que receberam a Gnose do Cristo ressuscitado. Os « Reconhecimentos » clementinos, o « Segundo apocalipse de Tiago » encontrado em Nag Hammadi, a notícia o apresentam como detentor dos segredos do Senhor.

Ora, várias seitas gnósticas de origem judeu-cristã o veneraram como a perfeição da Santidade. Os Naasenos, adoradores da Serpente, os Elcasaítas pretendem ter recebido de São Tiago uma revelação mais perfeita que os Nazarenos. Jesus, segundo eles, era **o homem realizado,** em quem se incorporou finalmente o Verbo do Pai, tornado o Éon-Cristo.

Jérôme Carcopino apresentou-nos outrora os judeu-cristãos ou Nazarenos do hipogeu dos Inocentes, nas **catacumbas de São Sebastião, em Roma.** Chamam-se os Justos, repousam entre os Bons, - in bonis - ἐν ἀγαθοῖς - no meio dos Justos - μετὰ τῶν δικαίων ἡ κοίμησις, a « dormitio inter dicaeos » - « lembra-te, Pai, com todos os Justos ». São os « Inocentes » (ex.: Nazareus Innocentius). Trazem nomes herméticos, portanto em referência à Gnose de Hermes Trismegisto: « Hermesianus, Titus Flavius Hermes, Marcus Ulpius Hermes, Aelius Hermes ». Trazem o ascia no frontão de suas estelas. São, pois, Nazarenos já impregnados de Gnose, acolhidos num cemitério cristão, mas num espaço reservado e separado dos outros túmulos cristãos. Terão sido notados os patronímicos da **gens imperial**: Titus - Flavius - Aelius (em referência a Adriano). Sabemos que os gnósticos haviam adotado o costume de **representar o Cristo** sob a forma de um **Hermes criófero,** isto é, portador de cordeiro. Esse hipogeu data do século segundo de nossa era.

Mais tarde, no terceiro século, os Padres lutaram contra um ressurgimento do judeu-cristianismo de tendência gnóstica, a **seita ariana dos Anomeus,** que asseguram que o Filho de Deus é inferior ao pai. « Escuta, tu também, fulmina São Basílio de Cesareia, que, novo circunciso, sustentas o judaísmo fingindo o cristianismo. De onde te veio a intolerável impiedade de pretender que o Filho não é semelhante ao Pai?... Que o anomeu enrubesça de vergonha, que o judeu reflita, que o fiel encontre sua alegria na verdadeira doutrina. » Do mesmo modo São João Crisóstomo partiu em guerra contra os cristãos que observavam as festas judaicas e frequentavam as sinagogas. Precisemos bem que se tratava das sinagogas-igrejas dos Judeu-cristãos. Em seus tratados « Homilia contra os Anomeus », « O Cristo-Deus », « Discursos contra os Judeus » (entendamos sempre os judeu-cristãos nazarenos), protesta contra suas acusações. Esses anomeus, como os Nazarenos, acusam o Cristo de chamar Deus seu Pai e de fazer-se igual a Deus. « Aliás, precisa ele, nossa argumentação não se limita a confundi-los, confundirá com eles os partidários de Marcião, de Mani, de Valentim e de todos os Judeus juntos. »

Vê-se que, pouco a pouco, os Nazarenos se deixaram conquistar pelas elucubrações e pelos absurdos dos grandes mestres da Gnose. Faltava-lhes um magistério doutrinal sólido e imutável.

UM ENSAIO DE IMPÉRIO JUDEU-ÁRABE: PALMIRA

Assistimos, no século III, a uma primeira tentativa dos Judeu-cristãos impregnados de Gnose de converter os **Árabes da Síria,** que começavam então a tornar-se poderosos e organizados.

Os Nabateus haviam-se instalado nos confins da Síria. Atraíam as tribos agrupadas em confederações e aliadas dos Romanos. Formaram, sob Trajano, em 106 d.C., uma província romana e desenvolveram, em pleno deserto da Síria, a cidade de Palmira. Ela tomou o nome de Hadriana em 130 d.C., para lisonjear o imperador Adriano e obter sua benevolência. No século III, era uma bela cidade, greco-romana, imbuída de cultura helênica e de neoplatonismo.

A rainha Zenóbia, mãe de Wabalat e regente em nome de seu filho, esforçou-se então por construir um império, sob pretexto de proteger os interesses de Roma. Anexou a Síria e o Egito. Era judia, como assinala Santo Atanásio em sua « História dos Arianos », e Sozomeno afirma que ela « pensava como os Judeus », isto é, como os judeu-cristãos.

Empreendeu reconduzir esses árabes mal romanizados à religião dos Nazarenos. Para isso, deu ao deus Bel, dos babilônios, adorado em Palmira, os atributos de Javé. Bel tornou-se o Rei dos Deuses, o Deus bom, o Deus eterno, o Deus bendito para sempre, o Deus remunerador. Era representado com raios como um sol, e Malakbel entendia-se também como o Rei « Bel ».

Além disso, aceitava numa espécie de panteão o « Deus Alexandre », isto é, o imperador Alexandre Severo (222-235), divinizado em vida. Era sírio e praticava o culto dos judeu-cristãos. Teria querido « erguer em Roma um Templo ao Cristo e colocá-lo entre os deuses », diz-nos o historiador Lampridio. Consagrara a capela de seu palácio ao culto de Apolônio de Tiana, do Cristo, de Abraão e de Orfeu. Se se precisar que os gnósticos haviam assimilado o Cristo a Orfeu, vemos bem que Alexandre Severo seguia a doutrina dos Nazarenos. Tinha, portanto, sua estátua em Palmira. Zenóbia organizou um culto monoteísta ao Deus Bel, recusando a Trindade cristã, reconhecendo Jesus como um profeta.

Por outro lado, havia atraído para sua corte o filósofo Longino, discípulo de Plotino, portanto neoplatônico, que manifestara em seu « Tratado do sublime » seu entusiasmo pela Bíblia judaica.

Zenóbia, prosélita judia, havia assimilado seu judaísmo e seu cristianismo à doutrina dos Platônicos, mas « revista e acomodada » por Fílon de Alexandria. Não se tratava de um sincretismo, como se disse. Fórmula preguiçosa que evita examinar atentamente essa adaptação de Platão ao Judaísmo. Tratava-se, muito exatamente, de preparar os árabes para adorar o Deus dos Judeus e de reconduzir os cristãos à prática do judeu-cristianismo.

Para isso, ela recorreu ao patriarca de Antioquia, Paulo de Samósata. Paulo de Samósata era um retor e um aventureiro que se fizera cristão e patriarca para enriquecer, segundo o ideal do « Peregrino » descrito anteriormente por seu compatriota Luciano de Samósata. Seduzira os cristãos de Antioquia. Foi promovido a patriarca da igreja metropolitana e « ducenário » do Estado, espécie de oficial superior administrativo e judiciário. Sustentava que Deus era único, dos quais o Verbo e o Espírito Santo procedem como a inteligência e a ação procedem do Ser Supremo. Quanto a Jesus, foi o homem providencial que havia recebido de Deus a função de iluminar o mundo e que se unira misteriosamente à divina « Sofia » dos Gnósticos para tornar-se apto a essa grande missão. O Cristo era, portanto, divino por adoção e não por natureza. Tornava-se aceitável para os pensadores pagãos e neoplatônicos que o admiravam como um filósofo nazareno, um Sócrates galileu venerado pelo deus Alexandre Severo. A rainha Zenóbia o cumulara de favores e contava com ele para reconduzir os cristãos da Síria a um judeu-cristianismo tingido de gnose.

Mas em 270 d.C., as legiões da Panônia proclamaram imperador Aureliano. Este, inquieto com as manobras de Zenóbia, declarou-lhe guerra, fê-la prisioneira e destruiu de alto a baixo sua cidade de Palmira. Uma tentativa abortada de judaização dos Árabes!

JUDEU-CRISTÃOS, HANIFES E SARRACENOS ⁵

A partir do século V e do século VI, os documentos são singularmente mudos sobre os Judeu-cristãos. Os bispos cristãos não troam mais contra a tendência de seus fiéis a « judaizar ». Prova de que o atrativo dos Nazarenos já não se exercia sobre eles. As crônicas da época não se interessam mais por seu caso. Mas sabemos, por estudos aplicados a situações análogas, por exemplo aos mosteiros budistas, que uma mesma comunidade pode receber, de um século para outro, denominações novas às quais os historiadores não prestam mais atenção. Vimos que os rabinos talmudistas tratavam os judeu-cristãos de renegados, de Galileus, de Nazarenos, mas também de **Samaritanos,** de Edomitas (título injurioso que reservavam também aos Romanos), de adoradores dos astros, sem dúvida porque os Nazarenos se voltavam para o sol durante sua oração da manhã, como vimos. Ora, os bispos adquiriram o hábito, nessa época, de distinguir os cristãos dos Judeus, dos Samaritanos e dos Magaritas. (São os árabes convertidos ao Judeu-cristianismo.) E as notícias que consagram aos Samaritanos mostram que estes são os herdeiros dos Nazarenos, pois esses bispos lhes censuram sustentar que « o Messias não é divino ».

Nos anos que precedem os primórdios do Islã, os historiadores assinalam a existência dos **Hanifes.** São árabes em busca da verdadeira religião. Ibn Ishaq diz-nos que eles « não tomavam parte nos ídolos, abstinham-se de comer o que estava morto de morte natural, abstinham-se do sangue e das vítimas sacrificadas aos ídolos, proibiam enterrar vivas as recém-nascidas do sexo feminino e proclamavam que adoravam o Senhor de Abraão. »

O mais célebre deles é **Ommaya** b. Abi, s. Salt. Segundo o « Kitab al Aghani », estudara as Escrituras, estava **vestido de saco,** proibia-se o vinho, não acreditava nos ídolos. Era um monoteísta de tendências ascéticas. Diz-se que se contentava em tomar do Judaísmo e do cristianismo o que lhe agradava, que fizera disso uma espécie de **sincretismo.** Rejeitamos essa conclusão e vemos bem que esses Hanifes haviam simplesmente **feito o voto de nazireato,** praticado pelos Ebionitas nas comunidades judeu-cristãs.

Pensamos poder afirmar que **Ommaya** é o verdadeiro autor do Corão, que o compôs num mosteiro ebionita sob o ditado ou o ensinamento de um religioso nazareno. A tradição siro-caldeia designa esse religioso com o nome de **Sarkis** ou Nestor, apelidado **Bahira,** isto é, « o sábio ».

Há no Corão textos significativos. Eis um que nos mostra seu autor escrevendo à luz da lâmpada do santuário:

« Alá ilumina o Céu e a Terra. Sua luz assemelha-se ao luminar onde arde uma lâmpada. A lâmpada está num vaso e o vaso cintila como uma estrela brilhante. Seu alimento é o fruto bendito de uma oliveira que não se encontra nem no oriente, nem no ocidente e cujo óleo ilumina sem que o fogo o toque. Luz sobre luz! Alá conduz à sua claridade quem Ele quer! Propõe aos homens suas parábolas e conhece todas as coisas. (Essa luz) brilha nas casas que Alá permitiu erguer para o culto de seu nome. É ali que, manhã e tarde, o celebram homens que nem o comércio nem o tráfico distraem do ofício divino, do cumprimento da oração e do dom das esmolas. (Esses homens) temem o dia que revirará os corações e os olhos (o dia, pois, da Ressurreição) para receber de Alá a retribuição de seus atos e a abundância de sua graça. Sim, Alá sacia quem Ele quer sem medida! » (24, 35-38)

Nesse texto todas as expressões são tomadas do judeu-cristianismo. A lâmpada que cintila no santuário como uma estrela brilhante revela na noite a presença divina. A Igreja, casa de Alá, está toda zumbindo do ofício dos monges. O autor do Corão gostaria de fazer seus compatriotas árabes partilharem sua admiração pela vida monástica e de levá-los a adotar os votos do nazireato. Veremos que será um fracasso total. Senhores do poder, os chefes árabes rejeitarão toda ideia de vida ascética. Os primeiros califas, os de Damasco, são os discípulos **de Ommaya** e chamaram-se os **Omíadas,** a começar por **Omar ou Amr,** como veremos.

O autor do Corão dá o título de Hanif a **Abraão** em pessoa. Ele é o primeiro e o maior dos Hanifes, é o Amigo de Deus, que renunciou até a seu próprio filho para consagrar-se todo a Ele. Deu-se também a si mesmo o nome de « Ahmed », que quer dizer « bem-amado » de Deus. É uma denominação que é várias vezes atribuída no Corão e até uma vez manifestamente a Jesus. Era « Isha », isto é, o Ungido de Deus, e Ahmed, seu Bem-Amado. Os Hanifes são, pois, os Amigos de Deus e Deus os ama.

O autor do Corão esforçou-se por fazer compreender aos Árabes que Jesus não era divino e que não se devia adorá-lo. É um refrão retomado obstinadamente e repetido ao longo de suras. Como mostramos em estudo anterior ⁶, queria desviar os Árabes cristãos, a quem se dirigia, da adoração do Cristo:

« Dizem-vos: Sede judeus ou cristãos! Responde: Não! Abraão era de religião hanife, não associava nada ao culto de Alá! Dizei: Cremos em Alá, nas revelações de Abraão, de Jacó e das tribos, nos livros dados por seu Senhor a Moisés, a Jesus, aos profetas! Não estabelecemos nenhuma diferença entre eles e somos perfeitos » (sura 2, 125-130). Não há o menor **sincretismo** em tudo isso, e os Hanifes são bem religiosos que fizeram o voto de Nazireato. Voltaremos a isso.

A partir do século VII, os acontecimentos se precipitam e todo o Oriente é sacudido pelas idas e vindas das legiões romanas e dos exércitos sassânidas. O grande conflito secular de Roma contra os Persas vai logo tomar um rumo dramático. Para não cometer erro sobre esses acontecimentos, é preciso compreender bem os textos que os relatam. **A Arábia** é o país ocupado pelos **Árabes,** são os oásis estabelecidos nos confins da Síria e da Mesopotâmia, onde **os Sarracenos** desempenham o papel de policiais do deserto para proteger o Crescente fértil contra as hordas nômades dadas à pilhagem das caravanas. Os textos enumeram em seguida a Síria, a Arábia e a Babilônia. Também não distinguem suficientemente os Judeus dos Nazarenos. Será preciso atentar que uns e outros são frequentemente confundidos no pensamento dos bispos cristãos e nas crônicas da época.

No início do século VII, o último grande rei sassânida, **Cosroés II,** organiza uma grande expedição contra o império romano. Seus exércitos percorrem e saqueiam a Síria, a Palestina e o Egito. Compreendem soldados Sarracenos e judeus. Em 614, o general persa Romizanes toma Jerusalém e confia a administração da cidade aos Judeus. Um deles, que toma o nome de **Neemias,** oferece um sacrifício no local do Templo. Segundo Miguel, o Sírio, « os Judeus compraram por nada os cristãos feitos prisioneiros e, entregando-se à sua maldade, mataram-nos ».

Esse acontecimento capital e inesperado provocou uma **imensa esperança** em todas as comunidades judaicas do Oriente. Pela primeira vez, os Romanos eram vencidos e a Cidade Santa libertada. Enfim o Templo poderia ser reconstruído e o Messias tão esperado ia finalmente aparecer. Mas essa alegria foi de curta duração. Diante das exigências dos Judeus, o rei Cosroés expulsou-os de Jerusalém e enviou-os como escravos à Pérsia. Depois **o Imperador Heráclio** despertou de sua letargia. Sacudido pelas censuras indignadas do patriarca de Constantinopla, formou um imenso exército e partiu à reconquista de seu império saqueado. Em poucos anos, havia retomado o domínio de todo o Oriente. Reconquistou Jerusalém, perseguiu o rei sassânida até a Mesopotâmia. Em 627, havia retomado Edessa e Nínive. Cosroés teve de capitular e render-se.

A **decepção para os Judeus** foi tanto mais profunda quanto a esperança fora inesperada e a alegria intensa. É dessa época que data a redação do Corão. Seu autor **procura reanimar a coragem** dos Sarracenos e dos Judeus abatidos e quase desmobilizados.

« Sim, diz ele, os Romanos foram derrotados nos confins do país, mas, depois de sua derrota, vencerão dentro de alguns anos. **Alá reina antes como depois!** Então os crentes se rejubilarão com o triunfo de Alá. Ele socorre quem quer. » Não vos desencorajeis, vós, Sarracenos, que adotastes a religião dos Hanifes, que sois, portanto, crentes. Retomai o combate e Alá vos dará a vitória.

OS PRIMÓRDIOS DO ISLÃ SEGUNDO AS CRÔNICAS

Apareceu em 1977, em Cambridge, uma tese intitulada « Hagarismo », sustentada por dois escritores, Patricia Crone e Michael Cook. Não foi traduzida para o francês, mas graças à complacência de um padre amigo, pudemos tomar conhecimento dela e ficamos impressionados com a convergência de uma multidão de crônicas da época que nos apresentam os primórdios do Islã sob uma luz totalmente inesperada. Com efeito, os autores, sem se preocupar com a história tornada clássica de Maomé, reuniram e puseram em sequência as crônicas siríacas, bizantinas, judaicas, nestorianas e outras, escritas na hora.

Elas ignoram totalmente a história de Maomé e mostram-nos em ação **a ação perseverante** dos Judeus no triunfo dos Sarracenos contra os Romanos e **seu fracasso final,** no momento da destruição do Templo em Jerusalém.

Escolhemos, entre essas crônicas, as mais explícitas. Eis uma **crônica armênia** escrita em 660, intitulada « História de Heráclio pelo bispo Sebeos ». Começa pelo êxodo dos Judeus de Edessa, expulsos da cidade pelo exército de Heráclio por volta de 628:

« **Partiram para o deserto** e vieram **para a Arábia,** para junto dos filhos de Ismael. Buscaram sua ajuda e explicaram-lhes que eram parentes segundo a Bíblia. Embora os Ismaelitas estivessem prontos a aceitar essa proximidade de parentesco, os Judeus não puderam, contudo, convencer a massa do povo, porque seus **cultos eram diferentes.** Naquele tempo havia um Ismaelita chamado Mahmet. Apresentou-se a eles como se estivesse às ordens de Deus, como um pregador, como o caminho da verdade, e ensinou-lhes a conhecer o Deus de Abraão, pois estava bem informado e à vontade com a história de Moisés. Como a ordem vinha do alto, uniram-se todos sob a autoridade de um só homem, sob uma só lei e, **abandonando vãos cultos,** voltaram ao Deus vivo que se revelara a seu Pai Abraão. Mahmet proibiu-lhes comer a carne de todo animal morto, beber vinho, mentir e fornicar. ⁷

Acrescentou: « Deus prometeu este país a Abraão e à sua descendência para sempre. Segundo sua promessa, ele age amando Israel. Vós sois os filhos de Abraão e Deus realiza em vós a promessa feita a Abraão e à sua descendência. Amai **somente** o Deus de Abraão e ide tomar posse de vosso país dado por Deus a Abraão, e ninguém poderá resistir-vos no combate, pois Deus está convosco. »

Então reuniram-se de Havilá até Sur e diante do Egito. Deixaram o deserto de Farã, repartidos em doze tribos segundo a linhagem de seus patriarcas. Repartiram em suas tribos os 12000 Israelitas, mil por tribo, para guiá-los ao País de Israel. Acampamento após acampamento, partiram segundo a ordem de seus patriarcas: Nebaiot, Cedar, Abdeel, Mibsam, Mishma, Dumá, Massa, Temá, Jetur, Nafis e Cedema. (Gên. 25, 13-15) São as tribos de Ismael. Os que restavam do povo dos filhos de Israel vieram juntar-se a eles e constituíram um poderoso exército. Então enviaram uma embaixada ao Imperador dos Gregos, para lhe dizer: Deus deu este país em herança a nosso pai Abraão e à sua descendência depois dele. Somos os filhos de Abraão. Vós ocupastes suficientemente nosso país. Devolvei-no-lo pacificamente e não invadiremos vosso território. Caso contrário, retomaremos o que tomastes, com juros. » Isto é, ocuparemos outros territórios. Mais adiante, Sebeos assinala que o governador ismaelita pediu ao Imperador que renunciasse « a Jesus, que chamais Cristo e que nem sequer pôde salvar-se a si mesmo dos Judeus ».

A historicidade dessa crônica foi contestada, porque está em manifesta contradição com a história clássica de Maomé. Como sabemos que esta última é uma lenda tardia, a contradição é para nós uma prova suplementar de sua veracidade. Contestou-se igualmente a possibilidade de os Judeus percorrerem toda a Arábia a partir de Edessa. Se se cuida de não errar sobre a noção de Arábia, tem-se, ao contrário, aqui uma notável confirmação do fato de que esse encontro entre Judeus e Sarracenos ocorrera no local da casa de Abraão, em Harã, ao norte do deserto da Síria, como assinala uma crônica Bizantina. Viu-se igualmente a preocupação de Maomé de reconduzir os Sarracenos ou Ismaelitas ao culto único de deus, excluindo o de Jesus, e de reconduzi-los também à prática do nazireato. Censurou-se a esse texto suas referências ao Gênesis na enumeração das tribos de Ismael e seu reagrupamento no deserto. É bem a prova de que esses judeu-cristãos que propunham a aliança viviam na esperança de realizar de novo o feito de Moisés: a fuga para o deserto, « al Hijr », isto é, a partida para o exílio (donde a palavra: Hégira), na direção, não de Sur, mas de Hagra, segundo outras crônicas, que seria, na Síria, o local do túmulo de Abraão ou de Ismael.

A reunião dos exércitos para a reconquista da Terra Prometida, isto é, de Jerusalém. Contestou-se, por fim, o encontro com o imperador Heráclio, porque dele não se encontra traço na tradição bizantina. É certo que tal embaixada de expulsos só podia provocar um dar de ombros em um imperador no auge de seu triunfo.

Os autores de « Hagarismo » apoiam esse texto em outras crônicas que o completam felizmente. Citemos algumas.

Uma « Didascália de Jacó » apresenta um diálogo entre judeus em Cartago por volta de 634: « Um falso profeta apareceu entre os sarracenos... Dizem que o profeta apareceu vindo com os Sarracenos e proclamando a vinda do Ungido (portanto, do Cristo), aquele que deve vir. - É um impostor. Por acaso os profetas vêm com espada e carros? - Não há verdade a encontrar nesse pretenso profeta, somente sangue derramado. Ora, ele disse que tem a chave do Paraíso, o que é inacreditável. »

Um apocalipse judeu do século VIII, « Os segredos de Rabi Simeão ben Yohai », expõe-nos este diálogo: « Quando viu surgir o reino de Ismael, começou a dizer: Não bastava que o mau reino de Edom (isto é, dos Romanos) nos tenha feito mal, para que tenhamos ainda o de Ismael? - Não temas, filho do homem, pois o Único Santo, bendito seja, estabelece o reino de Ismael unicamente para te salvar desse mal (o dos Romanos, chamados Edomitas). Ele fará levantar contra eles um profeta segundo sua vontade, que conquistará o país para eles, e eles virão e o restaurarão em sua grandeza. - Rabi Simeão respondeu: como sabemos que eles são nossa salvação? Respondeu: O profeta Isaías não disse: E viu uma tropa de cavaleiros, dois a dois, montados um num jumento, outro num camelo... Mas então o cameleiro (isto é, o profeta) marcha à frente e o reino se levantará graças àquele que cavalga um jumento (isto é, o Messias). Visto que este último cavalga um jumento, isso mostra que eles são a salvação de Israel, assim como a salvação daquele que cavalga a alma. »

É uma profecia que não escapara ao chefe dos Sarracenos, **Omar.** Fez-se chamar **al faruq**, isto é, « o redentor », e, em sua quarta visita à Síria, entrou em Damasco « cavalgando um jumento », para marcar bem que era ele mesmo o Messias esperado.

Rabi Simeão ben Yohai continua: « Ele será um amante de Israel, reparará suas brechas e as brechas do Templo. » Infelizmente! a sequência dos acontecimentos vai marcar a ruptura entre Omar e os Judeus. Sebeos, o bispo armênio, relata a querela entre os Judeus e os Árabes pela posse do local do Templo. Precisa claramente que Omar, rei dos Sarracenos, de volta de sua expedição ao Egito, expulsou todos os Judeus de Jerusalém e da Arábia. A última esperança de ver restabelecido o culto do Templo na cidade Santa estava definitivamente enterrada. Os Sarracenos lançados pelos Judeus nessa recuperação da Terra Prometida instalaram-se nela definitivamente como senhores absolutos e expulsaram aqueles que os haviam conduzido a ela.

Os autores de « Hagarismo » citaram também outras crônicas contemporâneas que confirmam, com numerosas precisões, a história que acabamos de expor. Será preciso, portanto, remeter-se às citações dessa obra, se se quiser compreender a sequência dos acontecimentos até a instalação definitiva na Terra Santa. Detemos aí nossa própria exposição. Com efeito, a partir desse momento, os Judeu-cristãos **desaparecem aos olhos do historiador.**

CONCLUSÃO

Como se vê, os judeu-cristãos, herdeiros da primeira comunidade cristã de Jerusalém, tentaram durante séculos manter alto e firme o facho de sua esperança: o retorno a Jerusalém, a reconstrução do Templo e a espera do Messias de Aarão e de Israel, um Messias-Rei e um Messias-sacerdote, que restabelecerá o culto sacrificial de Javé.

Sua última tentativa foi lançar ao assalto dos Romanos os Árabes da Síria, « os Sarracenos ». Foi, como diz muito bem o frei Bruno Bonnet-Aymard, o **fracasso de um retorno.** Um fracasso definitivo, não deixando mais nenhuma esperança para o futuro.

Que foi feito desses últimos judeu-cristãos? É difícil sabê-lo.

Notamos, no entanto, entre os Siro-Caldeus, refugiados nas montanhas do Curdistão e decididos a resistir com a última energia às tentativas de arabização dos Curdos e dos Turcos, um grande número de usos religiosos herdados do judeu-cristianismo.

Chamam-se entre si os « Nazarenos », e seu bispo é denominado « o patriarca de todos os Nazarenos ». São « cristãos convertidos do judaísmo, cujo principal erro consiste em manter a necessidade ou a conveniência das obras da Lei e que aderem obstinadamente à prática das cerimônias judaicas. Mas rejeitavam, para si mesmos, os acréscimos feitos ao ritual mosaico pelos doutores da Lei e pelos Fariseus ». (Mosheim: Hist. eccl. t. I p. 170)

Chamam-nos ainda os **Sírios,** porque praticavam uma liturgia em uso entre eles e conforme à primeira liturgia da Igreja de Antioquia.

Chamam-nos ainda os **Nestorianos,** mas eles rejeitavam essa denominação, porque não queriam ser confundidos com os hereges desse nome, discípulos do bispo de Constantinopla **Nestório,** condenado pelo Concílio universal em 431 d.C. Diziam que nunca haviam sustentado as heresias que o haviam feito excomungar. Aprovavam-no somente por ter elevado a voz contra a adoração das imagens e contra o título de **Mãe de Deus** dado a Maria, porque esse título, anulando implicitamente a humanidade de Jesus Cristo, deixava-nos **sem mediador.** Chamavam Maria de **mãe do Cristo,** e sempre creram na união da natureza divina e da natureza humana na pessoa do Salvador.

Seus bispos praticavam **o voto de nazireato,** deixando crescer barba e cabelos, comendo apenas a comida mais simples, com abstinência de carne, evitando as impurezas cerimoniais, respeitando o celibato.

No momento do **avanço dos muçulmanos** no Império da Pérsia, grande número deles fugiu para as Índias, escapando à espada dos perseguidores no decorrer do século VII. Constituíram o que chamamos os Cristãos de São Tomé, no Travancore. Também eles trazem o **nome de Nazarenos,** abstêm-se da carne de porco e dos outros alimentos proibidos pela Lei de Moisés, dão-se nomes hebraicos, como Zacarias, Urias, Josué, Mateus, Lucas, Abraão etc.

Emigraram da Ásia ocidental. Afirmam que São Tomé pregou nas Índias, atraído pelos Israelitas que ali já estavam instalados, pois era o apóstolo da circuncisão antes de dirigir-se à Índia onde, dizem os Judeus de Malabar, pregou desde 52 d.C.

Pensamos que os últimos judeu-cristãos e ebionitas, expulsos e perseguidos pelos **OMÍADAS,** tornados todo-poderosos na Síria e em Jerusalém, abriram os olhos, converteram-se plenamente ao Cristianismo, reconhecendo enfim a divindade de Jesus Cristo, renunciando ao culto do Templo, mas conservando os usos religiosos a que estavam habituados e que os cristãos de rito siro-caldeu acolheram de braços abertos.

E.C.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

Às obras já citadas em nossos estudos sobre os manuscritos do Mar Morto (cf. *Da Gnose ao Ecumenismo*, p. 177 e 178) e sobre o Islã (cf. *A gnose universal* p. 203 e 204) pode-se acrescentar:

- Joseph BONSIRVEN: *Sur les ruines du Temple: Le Judaïsme après Jésus-Christ* \[Sobre as ruínas do Templo: O Judaísmo depois de Jesus Cristo\]. (Grasset, 1928)
- Albert GELIN: *Les Pauvres de Yahvé* \[Os Pobres de Javé\]. (Cerf, 1953)
- MISSAL CALDEU, traduzido do texto aramaico por Mons. Francis ALICHORAN em 1982
- Ferdinand DELAUNAY: *Moines et Sibylles dans l'antiquité judéo-grecque* \[Monges e Sibilas na antiguidade judeu-grega\]. (Libr. acad. Perrin, 1874), contém o texto completo da *Vida contemplativa* de Fílon, o do livro de Henoc e dos cantos da Sibila.
- Jean DANIÉLOU: *Philon d'Alexandrie* \[Fílon de Alexandria\] (Fayard, 1958)
- Denise JUDANT: *Judaïsme et christianisme: Dossier patristique* \[Judaísmo e cristianismo: Dossiê patrístico\]. (Ed. du Cèdre, 1969), **obra essencial** onde se encontrarão as referências precisas dos textos que citamos em nosso estudo.
- id. *Les deux Israël: essai sur le mystère du Salut d'Israël selon l'économie des deux Testaments* \[Os dois Israéis: ensaio sobre o mistério da Salvação de Israel segundo a economia dos dois Testamentos\]; (Cerf, 1960). A autora é uma judia convertida.
- Abade Joseph VARIOT: *Les Evangiles apocryphes* \[Os Evangelhos apócrifos\] (Berche et Tralin, 1878) dá muitas informações sobre as diversas edições do Evangelho dos Nazarenos.
- Jérôme CARCOPINO: *De Pythagore aux apôtres* \[De Pitágoras aos apóstolos\] (Flammarion, 1956). O autor descreve, em sua última parte, o hipogeu dos Inocentes na catacumba de São Sebastião e estuda os ebionitas de Roma e suas tendências gnósticas.
- Mons. Umberto BENIGNI: *Les Juifs et le catholicisme d'après l'Histoire sociale de l'Eglise* \[Os Judeus e o catolicismo segundo a História social da Igreja\] (na *Revue internationale des Sociétés secrètes*, out. 1922 a dez. 1923). Bons desenvolvimentos sobre os pobres de Jerusalém e sobre o reino de Palmira.
- J.M. LAGRANGE: *Palmyre, Histoire, Monuments, Inscriptions, religion* \[Palmira, História, Monumentos, Inscrições, religião\] (Le Correspondant, 10 set. 1908)
- Joseph HUBY: *Christus, manuel d'Histoire des Religions* \[Christus, manual de História das Religiões\] (Beauchesne, 1934), o capítulo XV por Edmond POWER sobre o Islã.
- Frei Bruno BONNET-AYMARD: *Le Coran, traduction et commentaire systématique* \[O Corão, tradução e comentário sistemático\] 2 vol. (Contre-Réforme catholique, 1988-1990), **obra essencial.**
- Patricia CRONE e Michael COOK: *Hagarism, The Making of the Islamic world* (Cambridge University Press, 1977), **outra obra essencial.**
- Asahel GRANT: *Les Nestoriens ou les Tribus perdues* \[Os Nestorianos ou as Tribos perdidas\] (Libr. Delay, 1843), relato muito interessante de uma estada entre os cristãos nestorianos do Curdistão. O autor anotou com precisão seus usos litúrgicos.

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⁴ — cf. *Da gnose ao ecumenismo* p. 105 a 107.

⁵ — Para bem compreender as páginas que se seguem, é necessário ter bem presente no espírito o que desenvolvemos sobre o Islã em nossa terceira obra: *A Gnose Universal*, cap. II.

⁶ — cf. Étienne COUVERT; *A Gnose Universal*, cap. II: *Gnose e Islã.*

⁷ — Vê-se por aí que Mahmet queria reconduzir todos os árabes à prática dos Hanifes, impondo-lhes o voto de nazireato. Pretensão extravagante, que só podia ser rejeitada. Não se transforma à vontade árabes em monges!

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# A propósito dos manuscritos do mar morto

*Complementos de informação após as descobertas dos manuscritos 7Q4 e 7Q5.*

Fílon interpreta o nome dos Essênios pela ideia de santidade. A palavra siríaca HASAYA significa « piedoso, santo » e serviu para designar os monges de Hebron. Lembremos que, na Palestina, os judeus não falavam o hebraico, mas o aramaico ou siríaco.

Na Igreja, sempre se considerou que a palavra « Essênios » designava os primeiros monges cristãos. Eusébio o afirma em sua « História eclesiástica ». Um manuscrito de FÍLON do século X, conservado na biblioteca Nacional, é intitulado: « Sobre os fiéis circuncisos e convertidos ao Cristianismo, que levam no Egito a vida monástica », e traz o seguinte escólio: « Alguns pretendem que este livro de Fílon diz respeito a monges judeus pertencentes à seita dos Nazarenos; outros sustentam que se trata de judeus convertidos, observando a lei de Moisés como figura da lei nova; outros, enfim, que se trata de perfeitos cristãos. » Nesses três casos enumerados, trata-se, portanto, sempre de discípulos de Jesus Cristo.

Essa ideia de que os Essênios **constituíram uma seita judaica** anterior ao cristianismo foi lançada pelos Enciclopedistas do século XVIII. Imediatamente, um erudito beneditino, **Dom Bernard de Montfaucon,** reagiu energicamente, demonstrando, com notável luxo de provas, que os Essênios descritos por Fílon eram monges Cristãos.

Os Terapeutas e os Essênios rezavam voltados para o Oriente, com as mãos estendidas: « Isso se observava, diz o P. de Montfaucon, entre os antigos cristãos, não somente quanto à postura e à situação, mas também quanto à forma da oração, que encontramos a mesma nas constituições apostólicas e nos mais antigos hinos do breviário. » Com efeito, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Orígenes e Eusébio atestam que os primeiros cristãos rezavam a Deus com as mãos estendidas (expansis manibus), para o Oriente. Pediam, segundo o texto das « Constituições apostólicas », um espírito vigilante, uma ciência sem erro e que o Espírito Santo descesse sobre eles para lhes dar posse e conhecimento da verdade. - « Ao amanhecer, diz Fílon, seus olhares e todo o seu corpo voltam-se para o Oriente, para espreitar os primeiros raios do sol nascente. Quando os avistam, estendem as mãos ao céu, pedindo um dia feliz, o conhecimento da Verdade e a lucidez da inteligência. »... São Basílio põe o uso de rezar voltado para o Oriente entre as tradições que não se encontram na Escritura e nem por isso são menos invioláveis, porque vieram dos apóstolos. Essa prática especial, frequentemente mencionada pelos Gregos, distinguia os cristãos dos judeus, aos quais era proibido voltar-se para o oriente para rezar, « sem dúvida, diz Montfaucon, por causa da inclinação que essa nação tinha pelo culto dos falsos deuses e particularmente do sol e dos astros. »

É coisa muito digna de nota que um rito contrário à religião judaica e anatematizado pelos profetas se encontre ao mesmo tempo entre os Essênios e entre os Cristãos.

Lendo na carta de Plínio, o Jovem, a Trajano, as confissões colhidas da boca dos cristãos da Bitínia, dir-se-ia tratar-se de Essênios perseguidos: « Tinham o costume de reunir-se antes da aurora para cantar um hino a Cristo, como a um Deus... etc. etc. » Relede essa carta. Um observador superficial e não cristão descreve a comunidade cristã nos mesmos termos em que Fílon e Josefo descrevem os Essênios.

Nos manuscritos de Qumran, jamais se trata de Essênios, mas sempre de Ebionitas. A palavra « Ebionim » encontra-se em todos os textos encontrados ali. **É uma assinatura.**

Se nos damos ao trabalho de estudar bem **os ebionitas,** temos a resposta a todas as dificuldades levantadas. Os pobres de Jerusalém haviam-se estabelecido nas Lauras, ou grutas adaptadas, dos montes de Judá, nas encostas do vale do Cedron. Praticavam uma liturgia em Hebraico, língua sagrada para os Judeus. Só conheciam o Antigo Testamento, mais um evangelho, dito dos « hebreus » ou dos « Nazarenos », conhecido por São Jerônimo. **Durante um século** viveram ali, escrevendo os apócrifos ditos do antigo Testamento: Livro de Henoc, Odes de Salomão, Testamento dos Doze patriarcas etc. Tudo isso para aplicar a Jesus, a quem chamavam o Mestre de Justiça, as profecias do Antigo Testamento.

Em 70, refugiaram-se em **Pela,** do outro lado do Mar Morto, para escapar ao massacre. Depois, restabelecida a paz, voltaram para suas lauras. Mons. Lagier, em seu livro sobre « O Oriente Cristão », dá a lista dos bispos de Jerusalém e Pela até 135 depois de Jesus Cristo. Todos têm nomes judaicos.

Depois **da revolta de Bar Kochba** e **da expulsão de todos os judeus** da Palestina pelo imperador Adriano, os Ebionitas tiveram de abandonar suas Lauras dos montes de Judá e seu cemitério de Qumran. Sem dúvida já haviam utilizado as grutas dos arredores para jogar manuscritos rasurados ou em mau estado; A coisa não é impossível, pois é um uso propriamente judaico utilizar « genizá » para esse fim.

Depois de 135, post Christum, uma nova comunidade cristã se instala em Jerusalém. A lista dos bispos dada por Mons. Lagier comporta nomes gregos ou latinos. São, portanto, cristãos não judeus. Seus monges vão reocupar as Lauras dos ebionitas e fundar o que se tornará o Mosteiro de São Saba, recolher **os manuscritos ebionitas,** considerados então heréticos, e jogá-los em **lixeiras inacessíveis,** em grutas no alto dos penhascos que dominam Qumran. Continuam a utilizar o cemitério de Qumran para si mesmos. Continuam igualmente a jogar em lixeiras mais acessíveis seus manuscritos deteriorados ou rasurados. É por isso que se encontraram em grutas ou esconderijos sob o cemitério e em volta **esses pedaços de manuscritos gregos** que hoje nos apresentam, 7Q4 e 7Q5, depois de os terem mantido por muito tempo escondidos porque **atrapalhavam a tese** dos Essênios pré-cristãos... Prova suplementar de que essa tese era uma mentira, já que era preciso escorá-la por um subterfúgio...

É preciso, portanto, bem **distinguir duas literaturas cristãs**: uma literatura judeu-cristã em hebraico, língua sagrada, e uma literatura grega mais recente. O conhecimento da história dos Ebionitas permite encontrar uma explicação SIMPLES E NATURAL para as descobertas atuais, sendo a mais verossímil a mais próxima da verdade (Desculpem este pleonasmo!). Essas conclusões a que cheguei por um estudo de mais de trinta anos têm todas as garantias da certeza. **As descobertas ulteriores** só poderão confirmá-las. É bem o que se passa hoje.

Ao anunciar a descoberta de 7Q4 e 7Q5, tiraram-se imediatamente e sem reflexão **conclusões temerárias e prematuras.** Na verdade, esses textos gregos cristãos eram conhecidos há muito tempo, **mas ocultados,** pois tornavam difícil a crença na tese dos Essênios. O que mostra a **má-fé** dos especialistas.

A tese de uma biblioteca essênia depositada em Qumran antes de 70 por seus proprietários antes de fugirem dos Romanos é uma **invenção romanceada de Dupont-Sommer,** que a impôs imediatamente. Daniélou e Carmignac aderiram a ela. Talvez ignorassem a existência dos manuscritos gregos cristãos... (?)

Mas já que essa tese romanceada é falsa, é preciso rejeitá-la completamente e não conservar dela elementos que **se tentará fazer encaixar** com novos dados, senão falseia-se toda a pesquisa. É como num jogo de palavras cruzadas. Se tal palavra bastante longa aparece errada porque **uma de suas letras** não corresponde à da linha transversal, **é preciso rejeitar a palavra inteira,** senão o jogo se torna impossível.

Em lugar nenhum foi **provado** que os manuscritos depositados em Qumran o tenham sido antes de 70; em lugar nenhum foi **afirmado nem provado** que as grutas tenham sido « obturadas » em 68. Só li essa afirmação depois do anúncio de 7Q4 e 7Q5. Há impossibilidades manifestas em tal hipótese. O Midrash de Habacuc contém **um relato da tomada de Jerusalém** e da destruição do Templo, que só pode ter sido escrito depois de 70, pois faz menção do culto romano das insígnias, e sabemos que os Romanos vencedores reuniram as insígnias no átrio do Templo para lhes oferecer um sacrifício antes de pôr fogo ao templo. Era **a abominação da desolação** no lugar santo, que não podia ser conhecida antes de ter acontecido. Isso me parece decisivo para o depósito dos manuscritos, que pôde ter ocorrido no fim do século I ou mais tarde.

Aliás, é impossível que os **Ebionitas** tenham podido deter manuscritos cristãos gregos. Sua língua era o aramaico e sua liturgia era celebrada em Hebraico. Esses textos gregos foram depositados na gruta 7, perto do cemitério e não nas primeiras grutas situadas no alto do penhasco. Trata-se, portanto, de outro depósito, feito por cristãos de rito grego. Não vejo como explicação plausível senão a substituição, depois de 135 post Christum, por uma comunidade cristã grega em Jerusalém, após a expulsão dos judeus e, portanto, dos judeu-cristãos pelas legiões de Adriano. Não vejo outra explicação possível e verossímil da coisa.

Enfim, não se deve fazer equívoco sobre a expressão « ocupação dos lugares ». Um **cemitério** é ocupado por **cadáveres** habitualmente e, ocasionalmente, pelo pessoal encarregado dos trabalhos de sepultamento e de manutenção, mas que não mora no local, ao menos constantemente. Portanto, a presença ou a ausência de certas peças de moedas não significa grande coisa. Não se faz comércio com cadáveres, parece-me.

Tudo isso não prejulga a datação das primeiras obras gregas do Novo Testamento, que podem remontar muito cedo ao uso das comunidades cristãs de rito grego, mas **certamente não eram** utilizadas pelos judeu-cristãos e seus monges, os **Ebionitas.** É, portanto, muito perigoso **construir tal datação** sobre uma teoria aventurosa que será em breve rejeitada por novas descobertas. A decepção arrisca ser forte e bastante prejudicial para uma apologética apoiada na arqueologia. Nesse terreno, convém permanecer prudente e aguardar confirmações que talvez não venham.

As conclusões dos arqueólogos sobre **o período de ocupação** de Qumran não significam grande coisa. Como disse, um cemitério é ocupado habitualmente por cadáveres e, de tempos em tempos, pelos coveiros e pelos sacerdotes que dão a absolvição. O de Qumran não é exceção. A presença das moedas assinala a passagem destes últimos, mas não se podem tirar delas conclusões precisas em cronologia, porque o uso das moedas se prolonga por várias gerações.

Penso que, antes de ser um **cemitério ebionita,** o local de Qumran foi ocupado por um posto fortificado judeu, destinado a proteger a cidadela de Jericó, até o início da era cristã e abandonado quando **Herodes, o Grande,** construiu, mais ao sul, a cidadela de Massada.

Na expectativa de novos desenvolvimentos e de novas descobertas...

E.C.

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As revelações de Eisenman e de Wise

Nosso estudo sobre os manuscritos do MAR Morto estava concluído quando tomamos conhecimento do último livro de Robert EISENMAN e Michael WISE (I). Havíamos acompanhado com atenção os trabalhos de Eisenman havia vários anos. Acabam de publicar textos de Qumran, conhecidos havia mais de trinta anos, mas mantidos escondidos, « ocultados », jamais publicados. Vamos compreender por quê...

Do exame desses textos, os autores dessa obra tiraram **conclusões notáveis** que se juntam muito precisamente às que nos esforçamos por promover há mais de dez anos.

Eles **rejeitam firmemente** a tese que sustenta a origem essênia desses documentos e mostram as **afinidades consideráveis** que se podem constatar entre eles e os escritos judeu-cristãos, especialmente o ensinamento de São Tiago, o Menor. As fórmulas de Eisenman e de Wise são muito enérgicas: « Se levamos em conta a natureza messiânica dos textos que apresentamos neste livro e os conceitos que lhes são associados, tais como a Justiça, a Piedade, a Justificação, as Obras, os Pobres, os Mistérios, o que temos aí não é senão uma imagem do que o cristianismo foi efetivamente na Palestina. O leitor sem dúvida não poderá, contudo, reconhecê-lo de fato, porque lhe parecerá encontrar ali o contrário do cristianismo que lhe é familiar... A razão disso é, mais uma vez, muito simples. Não podemos falar de um « cristianismo » per se na Palestina no século I. A palavra foi somente forjada, como mostram claramente os Atos dos Apóstolos (II,26), para descrever uma situação que prevalecia em Antioquia, na Síria, nos anos cinquenta de nossa era. Mais tarde, foi utilizada para descrever uma grande porção do mundo de além-mar que se tornara « cristã », mas esse cristianismo era completamente diferente do movimento que temos diante dos olhos - a bem dizer, não completamente. »

É feliz que os autores tenham retificado por si mesmos um absurdo. Entre o cristianismo dos Judeu-cristãos e o dos pagano-cristãos, o essencial do ensinamento do Cristo **permanece idêntico.** Constatam-se apenas acentuações particulares à mentalidade judaica dos primeiros. É bem o que havíamos explicado desde o início. Era absurdo opor o ensinamento do mestre de Justiça ao de Jesus Cristo, já que os manuscritos de Qumran nos davam a interpretação ebionita judaica desse ensinamento.

Os autores continuam: « Podemos designar o primeiro como o cristianismo de Tiago, ao menos a julgar pela epístola atribuída a Tiago no Novo Testamento, que tanto Eusébio como Lutero sentiram que não devia ser incluída no cânon neotestamentário. Compreende-se que, a seus olhos, ela não deveria sê-lo, sua orientação geral lembrando a de muitos documentos de Qumran e seu texto **sendo saturado de Qumranismos.** »

É o que já havíamos notado, há mais de dez anos, e os autores concluem: « **É impossível distinguir** as ideias e a terminologia associadas à comunidade de Tiago, o Justo, dos materiais presentes neste corpus. » A comunidade de São Tiago é bem a dos « Pobres » ou « Ebionitas », como já mostramos. De modo que « na medida em que essa literatura se assemelha ao essenismo, ao pensamento zelote, ao saduceísmo ou ao judeu-cristianismo (qualquer que seja o sentido que se dê a esse termo), pode ser dita, conforme o caso, essênia, zelote, saducéia ou judeu-cristã. A nomenclatura é sem importância, no caso pouco pertinente. » O que quer dizer, em bom português, que as quatro denominações **são sinônimas.**

Resumamos: Os judeu-cristãos são « essênios », como é precisado em outro lugar: « Pode-se qualificar esse grupo de essênios, com a condição de redefinir o que se entende por isso, para levar em conta seu ethos militante, nacionalista e resistente, que alguns qualificam de zelote. » Precisemos bem: Os Ebionitas são « Santos » (sentido da palavra Essênio); são cheios de um zelo poderoso pela **reconquista** da Palestina, a expulsão dos Kittim e a reconstrução do Templo, como vimos.

São também **Saduceus.** Mas precisemos: « Esse grupo é saduceu ou, melhor (para traduzir a nuance do hebraico), « zadoquitas ». Esses saduceus não são semelhantes aos que descrevem o Novo Testamento e Josefo. Trata-se de saduceus de um tipo totalmente diferente. » São discípulos de « Zadoc », isto é, « O Justo », e sabemos bem que se trata de Jesus Cristo.

Os autores publicaram igualmente um texto mantido « ocultado » onde se trata de « Yesha » ou « Yeshua », que quer dizer « Salvação », mas que é também a forma aramaica do nome de Jesus.

Enfim, publicaram um **cântico de louvor ao Rei Jônatas.** Precisaram tratar-se de Alexandre Janeu, ao mesmo tempo Sumo Sacerdote e Rei de Israel: « Muitas moedas cunhadas nesse período, dizem eles, trazem a menção: Jônatas, Sumo Sacerdote dos Judeus (Yehudim). As que trazem a menção de Rei são geralmente em grego e dão seu nome Alexandre. Algumas outras trazem a menção: O Rei Jônatas. »

A publicação desse cântico de louvor **destrói de alto a baixo** a tese essênia que quer identificar o Sacerdote Ímpio com Alexandre Janeu, tal como foi imposta por Dupont-Sommer e retomada em coro por todos os outros.

Eis a conclusão dos autores: « Nas teorias tradicionais sobre as origens de Qumran, a saber, a teoria essênia e suas diversas variantes, Alexandre Janeu é frequentemente assinalado como o candidato mais apto a preencher o papel de Sacerdote Ímpio... Alexandre Janeu, ou qualquer outra figura de combatente do deserto na tradição macabaica, não pode ter sido o « Sacerdote Ímpio ». Há aí uma contradição nos termos e admiti-lo suporia ter fracassado totalmente em apreender o significado dos materiais que estão diante de nós. »

**Conclusão definitiva e incontornável.** Compreende-se por que esse *hino* de louvor a Jônatas foi « ocultado » desde o início das escavações. Mas, infelizmente! compreende-se igualmente que a tese essênia era uma mentira e que aqueles que **a impuseram** sabiam de sua inanidade. Há aí uma prova manifesta de **má-fé.** Chamamos a isso, em português, uma **impostura.**

Enfim, Eisenman e Wise notaram ao longo de páginas as correspondências numerosas e notáveis entre os textos de Qumran e as **fórmulas do Corão.** Bastava ler inteligentemente os manuscritos para neles encontrar **a chave do Islã.**

E.C.

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(I) *Robert Eisenman e Michael Wise: « Os manuscritos do Mar Morto revelados. Seleção, tradução e interpretação de 50 textos-chave inéditos. Traduzido do americano por Jean-Christophe ATTIAS (Fayard, 1995) »*

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# « A herança dos pobres »

Sob esse título, a revista « Archéologia » publicou recentemente um artigo muito notável, assinado: Martine Rossignol. (1)

Pela primeira vez, vemos sustentadas numa revista para o grande público as **conclusões** que nos esforçamos por promover com nossos fracos meios.

Artigo notável por duplo motivo. Primeiro, está em manifesta contradição com o conteúdo do conjunto do dossiê e com as teses habitualmente sustentadas sobre o assunto. Depois, a autora, apesar de **vistas muito novas e muito sugestivas,** permanece prisioneira das teses de que falamos, esforçando-se ao mesmo tempo por ultrapassá-las e até, por vezes, por afastá-las. Seu espírito está **manifestamente dividido** entre o que ela começa a compreender e o que os historiadores continuam a sustentar contra toda a verdade.

« Nos manuscritos do mar Morto, diz ela, a comunidade IDENTIFICADA COMO ESSÊNIA PELOS HISTORIADORES não se designa em lugar nenhum por esse nome, mas por vários outros: os Santos, os Numerosos, os Justos, os Eleitos e sobretudo, sobretudo mesmo, os Pobres... »

Depois de citar as expressões tiradas dos manuscritos, acrescenta: « Essas similitudes são TÃO IMPRESSIONANTES que levaram J.L. Teacher, **desde 1951,** a perguntar-se se a seita de Qumran era judeu-cristã. »

Precisemos que J.L. Teacher não se contentou em colocar a pergunta, ele **afirmou claramente** que os manuscritos eram ebionitas.

Depois a autora, assustada com sua afirmação, volta atrás: « MAS TAMBÉM SE PODE INVERTER A QUESTÃO: Os primeiros discípulos de Jesus e a comunidade apostólica de Jerusalém não eram membros da seita essênia... ? » Pode-se, evidentemente, supor qualquer coisa. Ainda é preciso ter algumas indicações que tornem verossímil a suposição. No caso presente, jamais se trata de essênios, nem nos textos de Qumran, nem nos textos cristãos... **A resposta é muito clara**: jamais Jesus Cristo, nem os apóstolos fizeram a menor referência a supostos essênios.

Depois de enumerar textos do Novo Testamento, dos Atos dos Apóstolos e das Epístolas de São Paulo que confirmam magnificamente os textos de Qumran, a autora acrescenta: São OS MESMOS NOMES INTERCAMBIÁVEIS QUE NOS MANUSCRITOS. Os pobres de Jerusalém, nos textos em grego, são bem EBIONIM no sentido dos textos em hebraico de Qumran... Em suma, se o Novo Testamento não menciona os Essênios, de quem suas doutrinas são, no entanto, as mais próximas no mundo judaico de então, não seria porque a comunidade judeu-cristã que ele reflete SE DESIGNA A SI MESMA PELO VOCABULÁRIO INTERNO À SEITA DE QUMRAN... ? » Eis o que é claro. A palavra ESSÊNIOS é **acrescentada** a fórmulas judeu-cristãs, mas é inútil, pois os textos dos manuscritos e os do Novo testamento empregam a mesma linguagem e *difundem* a mesma doutrina.

Infelizmente! Martine ROSSIGNOL acrescenta: « PROVA DE QUE ELA FAZ PARTE DELA ». Conclusão absurda e contraditória. Devia ter escrito: « PROVA DE QUE ELA É ELA MESMA ESSA COMUNIDADE. »

E, para tentar justificar seu lapso (a expressão « fazer parte »), imagina (como fazer de outro modo?) que a comunidade de Jerusalém havia ACRESCENTADO às afirmações dos manuscritos a crença em Jesus Cristo e constituía, portanto, um « NEO-ESSENISMO »; não viu que o « Mestre de Justiça » dos manuscritos não era outro senão o próprio Cristo.

Numa segunda parte de seu estudo, Martine ROSSIGNOL tenta encontrar traços judeu-cristãos ao longo dos séculos seguintes. Enumera as « Homilias e Reconhecimentos Clementinos ». Precisa: « AÍ, JESUS É CERTAMENTE REVERENCIADO, MAS SOMENTE COMO PROFETA », o profeta da Verdade, que sucedeu no Judaísmo, « SEM TRAÇO DE TRINDADE. »

Mais adiante, a autora aborda o problema das origens do Islã. « OS EBIONITAS, diz ela, PODERIAM TER TIDO UMA DESCENDÊNCIA NA ARÁBIA ONDE O ISLÃ FEZ DE MAOMÉ UM PROFETA NA LINHAGEM DE ADÃO, MOISÉS E JESUS... É possível, mesmo **provável** que tenham persistido no Oriente, na Transjordânia, na Arábia, comunidades descendentes dos Judeu-cristãos de Tiago, crendo em Jesus somente profeta. »

Precisamos: « **é certo** » que essas comunidades se perpetuaram ao longo dos séculos, como demonstramos. E Martine ROSSIGNOL conclui: « DE MODO QUE A EXPANSÃO FULGURANTE DO ISLÃ ALGUNS SÉCULOS MAIS TARDE SE COMPREENDE MELHOR SOBRE TAL SUBSTRATO. »

**Conclusão notável** e inesperada para aqueles que não estudaram essa progressão do Islã através dos países onde se haviam espalhado as comunidades judeu-cristãs.

E.C.

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(1) — cf. « *os dossiês de Arqueologia* », *n.º 189 de janeiro de 1994, inteiramente consagrados aos manuscritos do Mar Morto.*

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# Rudolf Steiner e a inspiração teosófica de Assis

« O Homem... ». « O Homem... ». O tema obsessivo do « Homem » em Karol WOJTYLA, o número infinito de textos de seus discursos sobre a « religião do Homem » e a deificação da Humanidade já se tornaram hoje um lugar-comum: em sua primeira encíclica « Redemptor Hominis », somente, « o Homem » não aparece menos de 245 vezes! ¹

Uma das fontes desse antropocentrismo deificador deve ser buscada nos anos da primeira formação de Karol Wojtyla.

Damos uma pista: um dos três mestres que mais influenciaram o jovem Wojtyla, aquele que modelou sua formação de ator e deixou um traço indelével em seu espírito, foi, segundo todas as fontes biográficas, um teósofo, grande leitor de Rudolf STEINER.

Assunto, portanto, a aprofundar. Em seguida, algumas das provas.

I. A TEOSOFIA EM WOJTYLA

*I - 1: WOJTYLA discípulo de KOTLARCZYK*

Ouçamos seus dois biógrafos poloneses. O primeiro, George BLAZYNSKI, « redator e comentarista da BBC », manteve « entrevistas com a maioria daqueles que o conheceram de perto ». « Em muitas passagens, Blazynski certamente nos contagia com sua exaltação diante da personalidade « carismática » (...) de seu biografado » ². Não é, portanto, suspeito de parcialidade para com ele.

« Em 1940-41, Wojtyla foi um dos primeiros a unir-se ao novo Teatro Rapsódico clandestino como ator e coprodutor. A paixão de toda a sua vida pelo jogo teatral tornava-se finalmente realidade. Foi aproximadamente nessa época, segundo alguns de seus amigos, que sentiu uma atração sentimental por uma jovem.

O Teatro Rapsódico foi organizado por Mieczyslaw KOTLARCZYK, a quem Wojtyla conhecera primeiro no tempo de colegial em Wadowice, quando Kotlarczyk tinha o costume de ajudá-lo na sociedade dramática da escola. Kotlarczyk tivera de sair de Wadowice (que pertencia agora ao III Reich, graças à habilidade de Hitler em cartografia). Foi para Cracóvia e, por sugestão de Wojtyla, mudou-se para a « catacumba » da rua Tyniecka com sua mulher.

O grupo teatral clandestino de três atrizes e dois atores (Wojtyla incluído) que Kotlarczyk reunira fazia-se chamar a princípio « Teatro da Palavra Falada ». O nome resumia suas atividades. Esse pequeno grupo subversivo estava totalmente afastado de todos os meios normais de produção dramática, de todos os complexos recursos de cenário e palco que caracterizam o teatro convencional. Só lhes restava a palavra viva, falada... » ³.

O outro biógrafo polonês, Mieczyslaw MALINSKI, « nasceu em Cracóvia em 1923. Foi companheiro de infância e de estudos de Karol Wojtyla, e percorreram juntos o mesmo caminho espiritual que os conduziu ao sacerdócio ». Um bom especialista no assunto e grande leitor, o abade DE NANTES, considera seu testemunho « o mais leal, o mais interessante e o mais completo » ⁵

« Em seu tempo de colegial, encontra seu verdadeiro mestre em Mieczyslaw KOTLARCZYK. Este não é somente um organizador de academias, festas e representações, mas é um artista autêntico, animado das ideias mais profundas. Descobre a Karol, que o escuta encantado, a força da arte, sua tarefa de gravar a sociedade, de melhorá-la espiritual e moralmente; descobre-lhe o significado do ator como sacerdote da arte, como portador de responsabilidade diante dos destinos da nação » ⁶.

« Nesse tempo, o antigo mestre de Karol, Mieczyslaw KOTLARCZYK, está procurando um apartamento em Cracóvia. Karol lhe oferece sua casa. E o Senhor Kotlarczyk aceita com alegria e muda-se com sua mulher para a rua Tyniecka » ⁷.

« Nesse ínterim, os ensaios teatrais continuam, dirigidos por Mieczyslaw KOTLARCZYK. Com a ajuda de antigos colegas de ambos os sexos, preparam-se as eventuais representações dos grandes clássicos poloneses: Mickiewicz, Zeromski, Wyspianski, Slowacki. Não se trata de uma espécie de teatro de amadores, de um círculo de entusiastas. Todo o grupo é movido por essa ideia que Kotlarczyk já havia comunicado aos jovens colegiais de Wadowice. Todos no grupo olham o artista como um sacerdote. O sacerdote da arte. Que é chamado a remodelar o mundo ao redor, a eliminar o mal com a beleza, a participar da educação do homem novo, do homem bom, honesto, justo, que ama a paz e é aberto ao mundo e aos outros homens.

Dessa maneira, Karol vive numa tensão cada vez mais forte. Tensão entre o sacerdócio da arte e o sacerdócio da Igreja. Entre Kotlarczyk e Tyranowski. Entre seu jogo no palco e seu jogo de pastor » ⁸.

Em resumo: KOTLARCZYK foi um mestre querido de Wojtyla - este o hospedou em sua casa em Cracóvia - e marcou-o com a marca indelével do « sacerdócio da arte »...

*I - 2: KOTLARCZYK, Teósofo*

Rocco BUTTIGLIONE, um leigo de « Comunione e Liberazione », é o melhor biógrafo intelectual de Wojtyla: « O autor partilha totalmente as ideias filosóficas do papa e seu trabalho é uma verdadeira mina de informações a esse respeito » ⁹.

Por ocasião da publicação da edição original italiana de sua obra ¹⁰, em 1982, « SAPIENZA », a revista filosófica dos dominicanos da província de Nápoles, a pátria do Doutor Angélico, escrevia isto:

« Il pensiero di Wojtila è stato soprattutto, fino alla elzione al pontificato, una « filosofia dell'uomo », ciò che Buttiglione ritrove, oltre che nel filosofia, nel teologo e nel poeta » ¹¹.

A tradução francesa, de 1984 ¹², foi assim julgada pela revista « católica internacional » - sai em 12 línguas! - « Communio », próxima do pensamento de Von Balthasar e Ratzinger:

« Um livro capital para compreender a obra filosófica, teológica e poética daquele que devia tornar-se o papa João Paulo II » ¹³.

Ora, BUTTIGLIONE afirma a inspiração teosófica de KOTLARCZYK:

« Sobre a relação entre as palavras e as coisas, KOTLARCZYK leu e meditou textos da tradição teosófica (de Helena Petrovna Blavatsky...), de fonética e de linguística (Otto Jespersen), da tradição hebraica (Ismar Elbogen), fundindo tudo numa síntese totalmente pessoal » ¹⁴.

« TRIADES », uma revista de antroposofia, que traz como subtítulo « Revista de cultura humana inspirada no ensinamento de Rudolf Steiner » e reconhecida como de utilidade pública na República maçônica francesa por decreto de Pompidou em 1972, publica em 1980 um artigo sobre a orientação de João Paulo II:

« Foi na clandestinidade que ele foi então um dos primeiros atores a ligar-se ao « Teatro rapsódico » (...) que, nessa luta, só recorria a uma arma única e legítima: a palavra. Seu engajamento na arte do palco e da palavra, que conduziu Karol Wojtyla a escrever mais tarde suas próprias peças de teatro, fê-lo encontrar Mieczyslaw KOTLARCZYK, com quem se liga de amizade e trabalha a arte da palavra em coro como um novo elemento da arte do palco. KOTLARCZYK, em seu empreendimento, não se apoiava apenas no romantismo polonês, mas também nos místicos do Leste e do Oeste e em Rudolph STEINER e seu Goetheanum em Dornach. Convencido de seu poder, cultivava *a palavra,* o Logos, como João, o Evangelista, o proclamou.

Não há dúvida de que sua influência foi grande sobre Karol Wojtila que, quando já era cardeal de Cracóvia, *escreveu a* introdução do livro de KOTLARCZYK: « A arte da palavra viva », no qual este revelava seus pensamentos » ¹⁵.

***Em resumo:***

- Em Wojtila, segundo Buttiglione, « **a influência** da experiência vivida com KOTLARCZYK *será* **profunda** e **duradoura** » ¹⁶.
- KOTLARCZYK « leu, meditou » e « apoiou-se », isto é, **inspirou-se** na « tradição teosófica » (Buttiglione) e, *principalmente,* em Rudolf Steiner e seu Goetheanum de Dornach (aldeia a 10 km de Basileia, Suíça, « Vaticano » da Antroposofia fundada por Rudolph Steiner em 1913, e da qual o *« centro espiritual »* ¹⁷ é o Goetheanum):

« A partir de setembro de 1913, STEINER empreende, em Dornach, perto de Basileia, na Suíça, a construção de um Templo-teatro ao qual *ele* dá o nome de GOETHEANUM em honra de Goethe. Houve sucessivamente dois Goetheanum. O primeiro, que era construído em madeira, foi incendiado, sem dúvida *por* contestadores. O segundo, edificado em concreto, subsiste ainda hoje e serve de sede social à « Sociedade Antroposófica Universal ». É igualmente um centro muito ativo de *atividade* teatral, musical e intelectual. O Goetheanum de Dornach porta oficialmente o título de Universidade livre das Ciências do Espírito » » ¹⁸.

*1 - 3: WOJTYLA, acusado de TEÓSOFO*

Já desde 1983, é o abade de NANTES quem melhor analisou a influência de Rudolf Steiner sobre Karol Wojtyla, desvendando as raízes e as influências teosóficas e antroposóficas de muitos de seus discursos. *E, além disso,* contou com o testemunho de testemunhas diretas:

« Quase não fui esclarecido por minhas leituras; foram testemunhas de vossa vida que me esclareceram tudo » ¹⁹.

O « Liber Accusationis Secundus », de 1983, dedicado a denunciar « o humanismo maçônico e o modernismo anticatólico de João Paulo II », consagra várias páginas à *análise da* influência *teosófica* sobre Karol Wojtyla. Citemos alguns textos:

- « Vós fostes o joguete, digo bem: o joguete, de duas forças ocultas das quais *aliás* permaneceis prisioneiro. Voluntário. A primeira, a mais grave, vos captura porque amáveis demais o teatro. Sim, as gentes de teatro amam a ilusão, a vida no irreal; *imaginam-se* ora sedutores, dominadores, magos criadores de mundos invisíveis, comunicando-se com as forças telúricas, o cosmos, o futuro... E sempre apaixonadamente amados, *ídolos das multidões.* Justamente, vosso mestre e amigo Mieczyslaw KOTLARCZYK era desses iniciados e iniciadores maléficos. Era, desde essa época, discípulo do teósofo Rudolf Steiner.

INICIAÇÃO TEOSÓFICA

Nota-se que sentistes a paixão do teatro desde Wadowice, tão forte que a proposta de ser padre vos deixa indiferente. E já KOTLARCZYK era vosso « velho amigo » ²⁰. Mal *um ano* decorrido, este funda seu Teatro rapsódico, do qual sois o primeiro e principal ator. Logo alojareis em vossa própria casa aquele que se fazia chamar « *o mestre da palavra* », ou ainda « o arquipresbítero », cujos atores eram os sacerdotes desse estranho culto que explicáveis a Malinski em termos que lhe pareceram « excessivos » » ²¹.

« Infelizmente, eis fatos, escritos, provas de que sois iniciado, mais que amigo íntimo, discípulo. Sectário do teósofo Rudolf Steiner » ²².

« Parece impossível contestar que vos tenhais tornado então, há quarenta anos! e tínheis apenas pouco mais de vinte! steineriano. Isso salta aos olhos e dá um alcance totalmente outro a vossos discursos humanistas que milhões de fiéis, de padres e de bispos escutam sem mais os ouvir, atribuindo seu estilo confuso e suas tenebrosas audácias a vosso gênio « germano-eslavo » ao qual os Latinos são rebeldes. Trata-se de coisa totalmente diversa! Vossa imprudência, Karol Wojtyla, foi consentir, já cardeal, esse prefácio ao livro teosófico de vosso mestre e amigo Kotlarczyk! esse prefácio, que não figura nas recensões de vossos trabalhos.

O cristianismo de Steiner, pelo qual rompeu com a Sociedade teosófica alemã da qual era presidente, é um cristianismo cósmico, adogmático e, é claro, evolucionista. Comporta uma iniciação a uma magia ocultista que põe seus sectários em ligação com forças tenebrosas (...). Os meios de difusão do teosofismo steineriano eram, e continuam sendo, o teatro, a poesia... » ²³

« Assim vivestes vossos anos decisivos, na intimidade de um místico leigo inquietante, Jan Tyranowski, de um mago teósofo steineriano, Mieczyslaw KOTLARCZYK, e de um liberal aberto às ideias e às obras maçônicas, Jerzy Turowicz » ²⁴.

« Não temeis colocar primeiro essa concepção de um humanismo anterior, que é aliás a « Weltanschauung » da antroposofia de Rudolf Steiner » ²⁵.

« Lendo-vos longamente, entra-se em vossa Weltanschauung de antropósofo steineriano (mas, espero, ainda assim não « luciferiano » como os outros steinerianos o são) » ²⁶.

« É vossa antroposofia básica, e é ela que determina vosso comportamento ecumênico verdadeiramente ilimitado » ²⁷.

***Em resumo:***

- O teosofismo steineriano ensina um « cristianismo » cósmico, adogmático, evolucionista e luciferiano
- KOTLARCZYK, o « mestre e amigo » de Karol Wojtyla, era um iniciado, um « mago teósofo », discípulo de Rudolf Steiner.
- Karol WOJTYLA, já cardeal, escreve o prefácio de um livro teosófico de seu « mestre e amigo » Kotlarczyk: « A arte da palavra viva ».
- Há, portanto, « fatos, escritos, provas » da iniciação de Karol Wojtyla no teosofismo de Rudolf Steiner.
- O teosofismo é a chave para explicar os nebulosos discursos « humanistas », cheios de arrazoados confusos, de João Paulo II.
- O antroposofismo determina e explica o ECUMENISMO wojtyliano.

II. A TEOSOFIA EM ASSIS

Dois textos-chave de altas personalidades teosóficas - um deles de Rudolf STEINER em pessoa - lançam uma luz meridiana, em razão dos antecedentes teosóficos de Karol Wojtyla, sobre a verdadeira raiz e a motivação do « ecumenismo » de João Paulo II, ecumenismo que teve seu apogeu de APOSTASIA em ASSIS, 1986.

- BLECH, presidente da Sociedade Teosófica da França, em seu discurso no « Congresso Espiritualista e Maçônico » (1908):

« Qual é, pois, a religião futura da humanidade? Não é mais uma Fé exclusiva e separatista, mas um reconhecimento das mesmas verdades encontradas em todas as religiões. Só existe uma única religião verdadeira, a Divina Sabedoria, e cada religião, tomada à parte, só é verdadeira na medida em que incorpora os principais ensinamentos dessa Divina Sabedoria... (...).

O grande impulso espiritual (...) não teve por missão fundar uma nova religião (...) mas vivificar, esclarecer as religiões existentes, levá-las pouco a pouco a unir-se numa grande fraternidade das Religiões » ²⁸.

- Rudolf STEINER (1861-1925):

Entre as « opera omnia » de Rudolf Steiner - mais de cinquenta volumes - encontram-se « comentários » dos Evangelhos: três obras dedicadas aos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), com cerca de dez conferências cada uma; duas obras sobre o Evangelho de São João e, finalmente, um « Quinto Evangelho », fruto das « pesquisas » do próprio Steiner - « o 5º Evangelista » -, obra que apresenta « uma cristologia radicalmente ocultista » ²⁹.

Entre as conferências do Ciclo dedicado ao Evangelho de Marcos, encontramos *este texto-chave* para Assis:

« Was wird kommen, wenn sich die einzelnen Bekenner der verschiedenen Relifionssysteme verstehen werden, wenn der Christ zum Buddhisten sagen wird: Ich glaube an deinen Buddha, - und wenn der Buddhist zum Christ sagen wird: Ich kann das Mysterium von Golothe verstehen, wie du es selbst verstehst, - was wird kommen über die Menschheit, wenn so etwas allgemein werden wird? Friede wird kommen über die Menschen, gegenseitige Anerkennung der Religionen. Und die muss kommen. Und die anthroposophische Bewegung muss sein ein solches gegenseitiges wahrhaftiges Erfassen der Religionen » ³⁰.

*(O que acontecerá quando os fiéis individuais dos diferentes sistemas religiosos se compreenderem assim, quando o cristão disser ao budista: creio em teu Buda, e quando o budista disser ao cristão: posso compreender o mistério do Gólgota como tu mesmo o compreendes? O que acontecerá à humanidade quando algo semelhante se tornar comum? A paz virá entre os homens, um reconhecimento recíproco das religiões. E este deve vir. E o movimento antroposófico deve constituir uma tal autêntica compreensão recíproca das religiões).*

Os fatos são tiranos e falam claro: a inspiração teosófica de Karol Wojtyla explica ASSIS.

Contra facta non sunt argumenta.

*1 - PANTEÍSMO*

« A teosofia, em matéria teológica, é panteísta: Deus é tudo, e tudo é Deus » ³¹.

*2 - « DEUS »:*

« Para o teósofo, cabe a cada um descobrir, por sua própria pesquisa metafísica, o verdadeiro rosto de Deus. Pois Deus é o nome secreto da verdade. É o que proclama, de maneira lapidar, o lema da Sociedade Teosófica: « não há religião mais elevada que a verdade », que *é também o antigo* lema dos Marajás de Benares » ³².

*3 - OCULTISMO:*

(A antroposofia de R. Steiner é) « um ocultismo com pretensões científicas, de cor cristã, completado por uma iniciação secreta cujos detalhes são tomados das lendas rosacruzes ». ³³

*4 - EVOLUCIONISMO:*

« É o indivíduo que sobe, por seus esforços pessoais, rumo a um estado de desenvolvimento superior, contribuindo assim para a evolução e para a libertação da humanidade e do Cosmos: verdadeiro fim último *de tudo no sistema steineriano* » ³⁴.

*5 - FRUTOS:*

« O movimento anticolonialista, a emancipação da Índia, a introdução *do budismo,* do bramanismo e do ioguismo no Ocidente, o ecumenismo religioso, a contestação dos dogmas das Igrejas, as formas ariana ou steineriana do germanismo, a vitória do feminismo são devidos, em parte, aos empreendimentos da teosofia moderna » ³⁵.

- Ex SOCIIS COGNOSCITUR IPSE: Dize-me com quem andas...
- DEI PROVIDENTIA HOMINUM CONFUSIONE: Dios escribe derecho con lineas torcidas. \[Deus escreve certo por linhas tortas.\]

G. D. C.

*Este estudo, redigido por um assinante estrangeiro, pareceu-nos resumir bem a questão e poder ser útil a nossos leitores.*

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¹ — Abade V.M. ZINS: *Face à face. Doctrine catholique - Vatican II* Tours, 1982, p. 56. Recomendamos esta obra com numerosos textos da « religião humanista » de João Paulo II.

² — George BLAZYNSKI: *Juan Pablo II. El hombre de Cracovia,* Lasser Press Mexicana, S.A., México, 1981. Contracapa e sobrecapa.

³ — Ibid. pp. 70-71. Nosso grifo.

⁴ — Adam BUJAK y Mieczyslaw MALINSKI: *Juan Pablo II. Historia de un hombre Planeta,* Barcelona, 1981. Sobrecapa

⁵ — *Contre-Réforme Catholique,* St Parres-lès-Vaudes, n.º 186, fevereiro de 1983, *p. I, col. 1a.*

⁶ — MALINSKI: o.c., pp. 14-15. Nossos grifos.

⁷ — Ibid, p. 32. Nosso grifo.

⁸ — Ibid, p. 38. Nossos grifos.

⁹ — Abade Daniel LE ROUX: *Pierre m'aimes-tu ?,* edições Fidélité, Escurolles, 1988, p. 62.

¹⁰ — Rocco BUTTIGLIONE: *Il pensiero di Karol Wojtyla,* Jaca Book, Milão, 1982, 346 pp.

¹¹ — « O pensamento de Karol Wojtyla foi sobretudo, até a eleição ao pontificado, uma « filosofia do homem », que Buttiglione reencontra não somente no filósofo, mas no teólogo e no poeta ». *Sapienza,* Nápoles, abril-junho de 1983, p. 252. Nossos grifos.

¹² — Rocco BUTTIGLIONE: *La pensée de Karol Wojtyla,* coleção *Communio,* Fayard, 1984, 432 pp.

¹³ — *Communio,* X, 1, janeiro-fevereiro de 1985, p. 75. Nosso grifo.

¹⁴ — Rocco BUTTIGLIONE: *La pensée de K. Wojtyla,* p. 39, nota. Nossos grifos

¹⁵ — Christian LECLERCQ: « Qual é o lugar do Papa no mundo moderno em 1980? », in *Triades* outono de 1980, cit. in: Abade de Nantes: *Liber Accusationis Secundus,* 1983, p. 25. Nossos grifos.

¹⁶ — Rocco BUTTIGLIONE: *La pensée de K. Wojtyla,* p. 48. Nossos grifos.

¹⁷ — *Dictionnaire des Religions,* diretor Poupard, P.U.F., Paris, 1985, p. 62.

¹⁸ — Jean VAQUIÉ: *Rudolf Steiner, da Teosofia à Antroposofia,* in: *Bulletin de la Société Augustin Barruel,* Lyon, n.º 14, 1985, p. 39. Recomendamos vivamente todas as obras de Jean VAQUIÉ, e sobre este assunto: *Le retour offensif de la Gnose (Lecture et Tradition,* n.º 110, novembro-dezembro de 1984, 50 pp.) e *Occultisme et Foi Catholique. Les principaux thèmes gnostiques* (Action Familiale et Scolaire, Paris, 1988, 46 p.). Do mesmo modo, é único no mundo o *Bulletin Barruel,* dedicado à penetração esotérico-ocultista no Catolicismo (62, rue Sala, 69002 Lyon. Dois números por ano: 120 FF).

¹⁹ — Abade Georges DE NANTES: *Liber Accusationis Secundus,* Saint-Parres-lès-Vaudes, França, 1983, p. 25.

²⁰ — Citação de MALINSKI: o.c., ed. francesa, p. 16.

²¹ — DE NANTES: o.c., p. 25. Nossos grifos.

²² — DE NANTES: o.c., p. 25. Nossos grifos.

²³ — DE NANTES: o.c., p. 27. Nossos grifos.

²⁴ — DE NANTES: o.c., p. 28. Nosso grifo.

²⁵ — DE NANTES: o.c., pp. 92-93. Nosso grifo.

²⁶ — DE NANTES: o.c., p. 93. Nossos grifos.

²⁷ — DE NANTES: o.c., p. 105. Nossos grifos.

²⁸ — Cit. in E. BARBIER: « Les infiltrations maçonniques dans l'Église », Paris, 19...

²⁹ — Jean VAQUIÉ: *La christologie de Rudolf Steiner,* in: *Bulletin de la Société Augustin Barruel,* n.º 16; 1/1987, pp. 45-60, aqui p. 46

³⁰ — Rudolf STEINER: *Markus,* Dornach, 1960, pp. 70-71. Cit. in: Lothar GASSMANN, *New Age. Kommt die Welteinheitsreligion?,* Verlag der Liebenzeller Mission, Bad Liebenzell, 1987, 2. erweiterte Auflage, p. 126.

³¹ — Annie BESANT: *Why I became a Theosophist,* Londres, 1891, p. 18.

³² — J. LANTIER: *La théosophie,* C.A.L. (Grasset), Paris, 1970, p. 254. Cit. in Marie-France JAMES: *Les précurseurs de l'Ère du Verseau,* edições Paulines, Paris, 1985, p. 75.

³³ — Léonce de GRANDMAISON, in: GRANDMAISON-TONQUÉDEC: *La théosophie et l'anthroposophie,* Beauchesne, Paris, 1939, p. 130.

³⁴ — Joseph de TONQUÉDEC, in: GRANDMAISON-TONQUÉDEC: o.c., p. 172.

³⁵ — Marie-France JAMES: *Les précurseurs de l'Ère du Verseau,* edições Paul Paris, 1985, p. 75 (cujo ecumenismo religioso deve ser sublinhado).

# Gnose e Paganismo

Quando o Cristianismo começou a espalhar-se pelo Império Romano, penetrou fácil e profundamente nos meios populares, não instruídos. Penetrou igualmente, mas mais lentamente, nas famílias patrícias e nos meios cultos. Chocou-se então com um conjunto de ideias religiosas que desempenharam o papel de anteparo protetor contra essa novidade vinda do Oriente.

Com efeito, a elite intelectual do mundo romano havia forjado para si, na esteira do platonismo e do pitagorismo, uma síntese religiosa reunindo noções variadas, mas cimentadas entre si por um simbolismo poético e matemático, tomado também da Astrologia. Esse conjunto, que hoje nos parece antes heteróclito, ficou nos manuais de História religiosa sob o nome de estoicismo. Explicaram-nos que essa filosofia religiosa representava o melhor do pensamento antigo, o cume que espíritos ainda não iluminados pela revelação cristã podiam esperar atingir.

O estoicismo nos foi ensinado como uma doutrina orgulhosa de recusa da dor, de domínio da vontade sobre os impulsos e as paixões. Inspirou Cícero, Sêneca, Virgílio, Horácio e os outros grandes clássicos do primeiro século de nossa era.

Ora, o Estoicismo foi uma retomada do platonismo e do pitagorismo, de origem grega, mas corrigidos e revistos pelo espírito positivo dos Romanos. Acrescentaram-lhe a mística dos números, o estudo dos signos do Zodíaco. Incluíram nele vários mitos orientais, o culto do Sol, mais tarde o de Mitra, sobretudo graças à influência dos neoplatônicos como Posidônio de Apameia, Plotino, Porfírio e Jâmblico, sobre os quais não voltaremos.

É importante notar as principais noções que os estoicos difundiram na elite romana. Foram como pedras de espera de uma construção religiosa sistematizada pelos neoplatônicos e pelos gnósticos dos primeiros séculos, para fazer dela uma máquina de guerra aperfeiçoada contra o Cristianismo.

O DEUS DOS ESTOICOS

No século I de nossa era, os romanos fizeram da divindade uma noção bem vaga, hesitante. Imaginam um deus supremo, Céu, Éter, Fogo envolvendo o mundo. Abaixo, um demiurgo, fabricante do universo, que ele ordena e sobre o qual vela. Chamam-no ora a alma do mundo, de onde escapam, como de um foco, as almas particulares; ora a Razão seminal, que contém em germe tudo o que existe; ou ainda a Natureza, força produtora; o Destino, lei imutável; a Providência, pensamento dirigente e poder conservador.

O Deus dos estoicos é uma inteligência que se mistura à matéria, penetra-a e lhe comunica a vida, a forma e o movimento. Chama-se ainda πνεῦμα ἔμφυτον, espírito divino espalhado na natureza. Fílon o define assim: « seiva ativa que, circulando no mundo como numa grande árvore, nela se metamorfoseia sucessivamente em todas as suas partes. » (Fílon, « De Plant. Noë »)

É nele o verbo, o λόγος προφορικός, imagem e figura, πρόσωπον, forma e caráter da essência divina. Tertuliano, citando as expressões estoicas empregadas por Sêneca, acrescenta: « Entre vossos sábios, o λόγος é o artífice do universo; Zenão chama-o também Destino, Deus, alma de Júpiter, necessidade universal; Cleantes faz dele um espírito espalhado no mundo. » (« Apolog. » 21)

Sêneca é bem panteísta. Essa alma do mundo, segundo ele, é uma substância ígnea, que agiu sobre uma matéria inerte e passiva, eterna ela também; dirige e conserva sua obra, que permanece incorruptível, apesar de mudanças passageiras e exteriores. « Deus, acrescenta, não é outra coisa senão a natureza; a natureza e ele não fazem mais que um; são os dois nomes de um único ser... Deus é a razão divina misturada ao mundo... » (« De beneficiis » V, VI)

Abaixo da divindade, há as divindades inferiores das sete esferas, correspondentes aos sete planetas, depois uma infinidade de demônios ou gênios, intermediários entre o homem e os deuses do alto.

Essa noção da divindade alia vistas físicas a noções metafísicas: o Sol, o Éter, o Fogo supremo são as formas de uma teologia solar muito difundida na crença da época.

A ALMA SEGUNDO OS ESTOICOS

O homem é duplo. A alma veio de Deus, é uma parcela do fogo ou do éter divino. Os estoicos condenam, ao menos em teoria, o corpo e os prazeres carnais, a fortuna e as honras. Mas, na esteira de Platão, distinguem na alma dois princípios: a psique, encarregada de animar o corpo e de mover as paixões, os instintos, os sentimentos. O outro princípio, o νοῦς, aparentado aos inteligíveis, ordena-se por sua própria natureza à contemplação do Deus, lugar das Ideias.

« Não pensas, pergunta Sêneca, que há algo de divino naquele que é uma parte de Deus? Esse todo, onde estamos contidos, é um e é Deus, e somos seus associados e seus membros. » Eis uma bela fórmula panteísta.

« Quis caelus posset, nisi coeli numera nosset, Et reperire Deum, nisi qui pars ipse Deorum est » (Manílio)

A questão é colocada: para poder pretender ao céu, é preciso conhecer-lhe a natureza; para alcançar Deus, é preciso ser uma *parte* dele mesmo. Sêneca retoma: « Não é preciso erguer as mãos ao céu, nem ganhar um sacristão para que nos introduza até o ouvido da estátua, como se fosse o meio de ser mais bem ouvido. Deus está perto de nós, está conosco, está em nós. » (« prope est a te deus, tecum est, intus est ») (SÊNECA: « Cartas a Lucílio », 41)

Um Deus, qual Deus, ninguém o sabe, habita em cada homem de bem. « Uma força divina desceu ali (vis istuc divina descendit). Qual é ela? A alma, e dessa alma, a razão aperfeiçoada (Animus et ratio in eo perfecta). » Sempre nas cartas a Lucílio.

Encontra-se a mesma ideia em Virgílio:

« Hoc nemus, hunc, inquit, frondosa vertice collem Quis deus, incertum est, habitat deus. » (Eneida, VIII-V, 351)

A SALVAÇÃO ENTRE OS ESTOICOS

Toda a vida tem por fim preparar-se para a subida rumo a Deus. Com efeito, nosso corpo é um invólucro inútil. Segundo Pitágoras, Empédocles e Filolau, é o túmulo da alma. Essa vida é uma expiação, ao sair da qual a alma purificada se une mais intimamente à divindade. Sêneca despreza o corpo e seu desdém se exprime em termos enérgicos: « Esse invólucro mortal, diz ele, impede o homem de elevar-se até o conhecimento do que é imortal...

O Espírito esmagado, maculado, cegado, vê-se afastado do verdadeiro e lançado no erro... Só a filosofia o liberta desse fardo, dessa prisão, desse suplício... Nessa morada frágil habita uma alma livre... Quando eu quiser, romperei minha aliança com ele... O desprezo do corpo é a verdadeira liberdade. Um dia virá que tirará todos os véus que nos envolvem e nos libertará da habitação desse ventre imundo e infecto. » (Ep. 74)

Alcançar o divino é, portanto, livrar-se do corpo. É preciso despojar-se dos elementos grosseiros, terra, água, ar, que formam o invólucro do mundo, e alcançar o elemento divino, o Fogo.

Após a morte, o νοῦς, o espírito, desnudado, atravessa as zonas e os círculos dos sete planetas. Deixa suas vestes de que se havia carregado ao emanar da luz original para cair na prisão do corpo. Reduzido a nada mais que um raio de fogo, que é sua essência primeira, perde-se no elemento de onde saíra...

Cícero traduziu assim esse ensinamento de Platão: « Nossa alma, diz ele, saída do céu, foi precipitada dessa morada elevada e mergulhada na lama da terra, lugar tão contrário à sua natureza divina e eterna... Assim, quando Deus lhe tiver dado um justo motivo de sair deste mundo, o sábio se lançará com alegria dessas trevas para voltar a essa luz... pois a vida inteira do filósofo não é senão uma meditação sobre a morte. Destaquemo-nos, pois, pouco a pouco de nossos corpos e habituemo-nos a morrer... Quando, libertos de nossos laços, pudermos voltar à nossa pátria celeste, o voo de nossa alma será menos pesado. » (CÍCERO, « Cato maior - Tusc. », I, 31-49)

Quando Arélio Fusco protesta em suas « Suasoriae » contra a proscrição de que Cícero é ameaçado por Antônio, acrescenta estas reflexões: « O que cairá sob os golpes do triúnviro é o corpo, invólucro frágil e caduco, sujeito aos menores joguetes da fortuna, presa das proscrições. Mas a alma lhe escapará, a alma que tem uma origem celeste, que não conhece nem a velhice nem a morte e que, livre dos laços de carne que a oprimem, tomará seu voo rumo à sua pátria e rumo aos astros de onde desce. »

Vê-se que essa ideia de evasão deste mundo era muito difundida no primeiro século de nossa era. Assiste-se, nessa época, a uma epidemia de suicídios. A vida parecia langorosa e indigna de ser vivida. Compreende-se, com tal concepção deste mundo: « Cuspo em ti, fatalidade, e vou-me, cantando um belo péan », exclamou Metrodoro ao se matar. ¹

Daí o sucesso das religiões de Mistérios que vos garantem, graças a uma iniciação secreta, a salvação definitiva. Uma vez cumprido o rito, acompanhado de fenômenos místicos, bem equívocos, o Noûs está definitivamente salvo: o homem tornou-se uma personalidade imaterial e divina, cujos atos são necessariamente bons, qualquer que seja a aparência, e mesmo quando, a um juízo normal, devessem parecer crimes. Em outras palavras, uma vez « salvo », os atos são moralmente indiferentes. Esse homem pode permitir-se tudo, desde que já não seja nele a alma material que governa, mas um princípio extrínseco que vem do alto.

Num ponto, contudo, os Romanos permaneceram impermeáveis à ideia da metempsicose, com suas reencarnações sucessivas. Sêneca nos conta como o ensinamento de Sótion de Alexandria se esforçava por introduzir as teorias de Pitágoras sobre a abstinência da carne dos animais, e as razões dadas por Séxtio, discípulo do mestre. Analisa uma lição dada por Séxtio e dá suas impressões pessoais:

« Sótion nos explicava os motivos que haviam outrora determinado Pitágoras a abster-se da carne dos animais e os que, mais tarde, haviam decidido Séxtio. Seus motivos eram diferentes, mas igualmente cheios de grandeza.

Séxtio dizia que o homem tinha alimentos bastantes à sua disposição sem beber o sangue dos seres animados e que adquiria o hábito de ser cruel ao fazer do assassínio um objeto de volúpia. Reprimamos, acrescentava, tudo o que alimenta nossas devassidões. Uma alimentação tão variada e tão refinada é contrária à saúde, nociva ao corpo.

Quanto a Pitágoras, estabelecia entre todos os seres laços de parentesco e uma passagem contínua das almas de um corpo para outro...

Quando Sótion havia exposto essa doutrina, fortificando-a com seus próprios argumentos, não credes, dizia ele, que as almas passam sem cessar de um corpo para outro e que o que se chama morte não é senão uma metamorfose? Não credes que nesses rebanhos, nessas feras, nesses habitantes das águas residem almas que foram outrora humanas? Foi a opinião de muitos grandes homens. Suspendei ao menos vosso juízo e reservai-vos a faculdade de crer um dia. Se essa crença é fundada, abster-se dos animais é uma lei da natureza; se é falsa, é uma prescrição da temperança. Afinal, que mal faço à vossa crueldade? O que vos tiro é o pasto dos leões e dos abutres! » (Ep. 108)

Sótion era muito hábil. Segundo um método muito eficaz e bem utilizado em nossos dias, convidava primeiro a praticar a abstinência para permitir em seguida introduzir no espírito a doutrina que repelia de início seus ouvintes. Em suma, fazei o que vos peço e acabareis por pensar como eu!... Não comais mais carne e crereis na metempsicose!!!...

Sêneca declara-se convencido: « Entusiasmado por esses discursos, comecei a abster-me da carne dos animais. Ao cabo de um ano, o hábito havia tornado essa privação não somente fácil, mas agradável. Parecia-me que meu espírito ganhava com isso mais ímpeto e vivacidade... » O argumento da higiene... !!!

No entanto, a elite romana não se deixava ganhar pela teoria da metempsicose, tão contrária ao bom senso desse povo positivo e razoável.

ESTOICISMO E CRISTIANISMO

Tal foi o catecismo dos pagãos piedosos e sábios na época dos Antoninos e dos Severos. Se se teve o cuidado de acompanhar nossos estudos precedentes, reconheceu-se no decorrer da exposição a maioria das teses que serão sistematizadas pelos Gnósticos. Com efeito, esse ensinamento é quase inteiramente retomado dos Diálogos de Platão, ele mesmo discípulo de Pitágoras.

Mas os apóstolos, desde o início de sua missão, não pretenderam ensinar um catecismo para os sábios, os intelectuais, os quadros dirigentes do Império romano, como diríamos hoje. Foram ao povo, deram um ensinamento simples, direto, ao alcance de todos. « Entre nós, diz Taciano, não são apenas os ricos que têm acesso à Sabedoria. Nós a distribuímos aos pobres e de graça. » (TACIANO, « Adv. graec. » 32) Nada de longas iniciações, nada de considerações metafísicas difíceis, acessíveis somente a inteligências vivas e sutis. Não! Um ensinamento claro, simples, preciso, ao alcance da multidão.

Por um instante, pôde-se temer que os doutores do Oriente e especialmente do Egito, de Alexandria, impusessem à Igreja nascente a disciplina do segredo e das longas iniciações, isto é, a Gnose. Clemente de Alexandria e Orígenes sobretudo afetaram descrever os mistérios cristãos com os termos usados nas iniciações de Ísis e de Deméter. As revelações misteriosas de que um é depositário, « só se podem descobri-las em sua nudez e integridade a Aarão e aos filhos de Aarão. » O Cristo quis sua doutrina obscura: « É por isso que a velou com figuras, encerradas nos sacramentos. » Felizmente, a Igreja mãe e mestra de Verdade rejeitou tais pretensões. O Cristianismo foi logo popular. Foi a religião dos simples, dos sofredores. O que é totalmente escandaloso para um homem culto da época.

Celso se revolta ao pensar que Jesus mostrava predileção pelas crianças, pelos miseráveis, pelos pecadores. Como é que um escravo, um condenado de direito comum podia, além-túmulo, tomar a frente de um patrício letrado, de um filósofo nutrido da Sabedoria grega: « Nemo eruditus, diz Celso, nemo sapiens, nemo prudens ad nos accedat, haec enim mala aestimantur, sed si quis est ignarus, si quis stultus, si quis insipiens, is fidenter veniat, etc. » « Cur non missus est ad immunes a peccatis? Quid malum est non peccasse? Qua igitur causa peccatores praeferentur? »

Enfim, o cristão não aceita acolher todas as divindades pagãs ao lado de Jesus Cristo num Panteão. Vários imperadores, sobretudo os filósofos neoplatônicos, como Alexandre Severo, os príncipes da Síria, não nutriam hostilidade muito pronunciada contra o Cristianismo. Pediam apenas aos cristãos que tolerassem ao lado os outros cultos, que reconhecessem pelo incenso aos ídolos o culto do Estado sobre o qual estava fundado o Império, que aceitassem figurar entre as outras religiões subordinadas ao Estado romano, que manifestassem um culto público ao Imperador. Mas estes recusaram-se sempre a toda concessão, a toda partilha, e preferiram enfrentar o horror dos suplícios; se tivessem aceitado o toma-lá-dá-cá, compreendiam bem que Jesus Cristo teria seguido a sorte de Zeus, de Serápis ou de Mitra. Encerraram-se numa intransigência que nenhuma perseguição pôde abalar e deveram a vitória a essa obstinação.

E. C.

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(1) Cf. a tirada de Baudelaire: « O estoicismo, religião que só tem um sacramento, o suicídio ».

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# O Mundialismo - II

IMPERIALISMO BRITÂNICO E BIBLISMO PROTESTANTE

1891. A Sociedade Rhodes - Stead. (42)

Discípulos de John Ruskin têm a ideia de utilizar o poderio da Inglaterra, com um império colonial em expansão, para difundir a doutrina do Mestre. Camuflado em promoção do imperialismo britânico (extension of the english speaking idea), o objetivo real, sempre o mesmo, é elevar os membros de uma sociedade a criar no topo do poder político e econômico.

Encontram, por intermédio de um jornalista célebre, William T. Stead (1840-1912), entusiasmado pela ideologia a propagar, o F.M. Cecil Rhodes (1853-1902).

Este, muito rico, é sócio do londrino Rothschild, do alemão Alfred Beit e do português Barney Barnato, todos os três judeus e banqueiros, no capital de duas sociedades mineradoras do Transvaal, a « Gold Fields » (jazidas auríferas) e a « De Beers » (monopólio do diamante), ainda existentes.

Patrão desses dois grupos, politicamente poderoso por ser Primeiro-ministro da colônia do Cabo em 1890, Rhodes funda em fevereiro do ano seguinte, com Stead e os alunos de Ruskin, a sociedade secreta com que sonhava havia dez anos.

É, pois, na Inglaterra, onde a F.M., profundamente penetrada pelos « Iluminados » de Jean Weishaupt ou de Emmanuel Swedenborg, se mostra muito eficaz, que nasce essa sociedade cuja estrutura prova à evidência a filiação.

Rhodes e Stead haviam organizado sua sociedade secreta no modelo dos « círculos concêntricos » das « sociedades de quadros », tipo Iluministas da Baviera:

- um « círculo interior » ou Comitê executivo, com Rhodes, Stead, Beit e Milner..., cooptando o Animador. O primeiro nomeado é C. Rhodes;
- um « círculo de iniciados », onde se encontram, entre outros, Lord Balfour, Lord Gray, Sir H. Johnston, Lord Rothschild... etc.;
- um « círculo exterior », sob a forma de uma Associação de Benfeitores... por vir.

O segredo é tanto mais necessário quanto, na época da Rainha Vitória, a sociedade deve dissimular suas ideias socializantes, tais como a abolição da propriedade. Além disso, desejando instaurar uma ditadura colegiada (Sinarquia), encontra-se diante de um regime fundado na hereditariedade dinástica. Enfim, seus doutrinadores não hesitam em preconizar o uso da força para abater todo regime ou toda estrutura existente, a fim de que os novos dirigentes possam dispor de uma « tela virgem » sobre a qual traçarão o plano de sua « nova sociedade ideal ».

No início, tratava-se de servir-se do imperialismo britânico para atingir o objetivo visado (origem da Commonwealth), mas « a extensão da ideia anglófona » tornou-se o objetivo principal, com o pensamento de fundo, para os Britânicos, de dominar primeiro o mundo anglo-saxão, depois de alcançar a hegemonia mundial...

**A penetração das ideias:**

No início, visa essencialmente a elite inglesa. É organizada em direção dos estudantes de nível superior por:

- criações de cátedras em Oxford, Londres, Chatham House...
- a fundação de um centro Rhodes,
- a concessão de bolsas de estudo para estudantes judiciosamente escolhidos. Os beneficiários ingleses e norte-americanos permanecerão unidos na associação dos « Rhodes Scholars ». O Presidente dos E.U., eleito em 1993, Bill Clinton, é um deles,
- a criação, desde 1884, por Milner, do primeiro Instituto Colonial do mundo, o « Toynbee Hall », do nome de um eminente discípulo de Ruskin. (41)
- a difusão mais geral da doutrina graças ao « Times ». Esse jornal torna-se, pela influência de Stead e por judiciosas infiltrações, um vulgarizador eficaz. A família israelita proprietária, os Astor, os descendentes e colaboradores vão aderir à sociedade.

**O financiamento** das atividades é, desde o início, assegurado por membros da G.L. inglesa e norte-americana. *Os mais* importantes doadores chamam-se Rhodes, depois o Trust Rhodes, os banqueiros Rothschild, Lazard, Morgan e *Milner.*

Com a morte de Rhodes, Milner, governador-geral e Alto Comissário na África do Sul, é designado como Animador.

1899. O Ruskin College (41)

Fundado por dois americanos, discípulos entusiastas de J.R., comanditados pelo banqueiro Jacob Henry Schiff. A ajuda da Fabian Sty, da Royal Sty e de todos os F.M. lhes é *imediatamente* assegurada. A altíssima nobreza inglesa, a G.L., lordes e homens de Estado trazem em seguida *seu apoio.*

O objetivo do Colégio está na linha do *plano* geral. Trata-se de estudar e ensinar:

« como transformar as instituições existentes e tomar metódica e cientificamente a posse do Mundo. »

1903. A Pilgrims Society (41)

A penetração da Royal Sty está, portanto, bem assegurada. Com a morte de Cecil Rhodes, a herança permite a constituição da **Fundação Rhodes** (*Rhodes Trust*) com um capital de 150 milhões de libras esterlinas de 1902 e as contribuições dos associados israelitas.

Todos os administradores do Rhodes Trust, membros das sociedades já citadas, da « gentry », titulares de altíssimos graus maçônicos, todos *protestantes* ou judeus, estão prontos a ir mais longe para assegurar sua dominação *e suas* vistas sobre a organização mundial.

É assim que três personagens:

- Joseph Choate, embaixador dos E.U., vice-presidente do Carnegie Endowment for peace,
- John Hay, *diplomata americano,* jornalista, depois secretário de Estado do Pres. Roosevelt, muito influenciado por um amigo « iluminado »,
- Harry Brittain, formado na Fabian Sty, membro da Oxford Sty e amigo de Stead,

*todos* os três, principais organizadores dos Rhodes scholars, estimulados por Lindsay Russell, diretor do Carnegie End. e simpatizante do Socialist Party of America, preparam uma nova organização desde 1902. *No ano seguinte* nasce **a Pilgrims of America.**

Desde sua origem, a sociedade é dirigida por **um inglês.** Gavin Astor (Daily Express) está no comando *desde 1977.* O ramo americano é confiado ao banqueiro Harold H. Heim (Reader's Digest). É *atualmente* uma das mais importantes organizações mundialistas.

**Origem da denominação**

*A escolha* do termo « Pilgrims » (Peregrinos) é um sinal de fidelidade ao espírito dos puritanos ingleses, primeiros *invasores* da América do Norte. Estes, **cento e dois « Pilgrim Fathers »,** partidos da Inglaterra em setembro de 1620, **a gente comum no « Mayflower », os chefes no « Arbella »,** desembarcam, cerca de um mês mais tarde, na costa do atual Massachusetts e fundam a colônia de New-Plymouth.

É de bom-tom na aristocracia ianque gabar-se de ter como ascendente, *pelo menos,* um desses « Pilgrim Fathers ».

*Existe* em Nova York, desde 1877, **The General Society of Mayflower descendants,** que *conta atualmente* nada menos que 11000 aderentes, entre os quais a Pilgrims coopta frequentemente afiliados.

**Ser os Senhores do Mundo:**

Nesse meio muito particular, mistura *puritano-judaico-anglicana,* espiritualmente conquistada ao Iluminismo, à gnose, à Cabala, recheada de F.M. de todas as *obediências,* forma-se uma ideologia específica, explicando a escolha, pelos grandes financistas israelitas, dos países anglo-saxões como bases de operações com objetivo mundialista.

O escritor Giselher Wirsing confirma:

« Já indiquei em meu livro sobre a política inglesa na Palestina em que curiosa relação a religião inglesa e o puritanismo britânico se encontravam com o Antigo Testamento. **Uma parte importante da classe dirigente já se considerava, durante todo o século XVIII, como a herdeira imediata do « Povo Eleito ».** A ligação do Judaísmo e do Britanismo revelava-se, portanto, como algo muito mais profundo que uma simples aliança ocasional... (e) Max Weber já, em sua Sociologia da Religião, faz ressaltar **o estreito parentesco entre o Puritanismo e a tradição judaica.** »

1919. O « British Israël » (41)

Esse movimento é a concretização de um « amálgama de imperialismo inglês, de socialismo fabiano e de biblismo protestante aliado ao temporalismo judaico ». (6)

Os dirigentes, cujas atividades não é possível separar das da Pilgrims, afirmam em voz alta sua missão em seu órgão oficial:

« **A Grã-Bretanha e seus Domínios autônomos, com a República americana e os Judeus, constituem toda a Raça de Israel... e é ela quem deve instaurar « um Governo mundial, chamado nas Escrituras o reino de Deus ».** »

O símbolo da associação é « o tronco de pirâmide com o olho que tudo vê, ornamento à esquerda da nota de 1 dólar de 1935 ». (6)

Para estabelecer essa nova ordem mundial, em novembro de 1933, o National Messenger, boletim do B.I., reconhece implicitamente o financiamento pelos Israelitas e pelo big Business da revolução bolchevique, com o objetivo de utilizar o sistema soviético para estabelecer a Commonwealth do Mundo, e que, para eles, o comunismo era um meio de abalar as nações europeias... entregando-lhes boa parte à miséria e ao caos.

Por outro lado, deve-se notar o papel importante desempenhado pelo British Israël na criação e no financiamento do novo Estado judeu da Palestina.

1909. The Round Table (42)

Alfred Milner, Governador da África do Sul, cercado de jovens bem escolhidos, diplomados de Oxford ou do Toynbee Hall, é designado por seus pares do Comitê executivo animador da R.S. Sty em 1902.

Sete anos mais tarde, forma « **o círculo exterior** » da sociedade, com seus próximos colaboradores ou amigos. Entre estes destaca-se particularmente Rudyard Kipling (1865-1936), fortemente influenciado por Bulwer Lytton a ponto de fazer da « suástica » seu emblema pessoal, administrador do Rhodes Trust e Prêmio Nobel em 1907.

Assim nasce a Távola redonda. Já em 1915, possui grupos em sete países: Inglaterra, África do Sul, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Índias e Estados Unidos.

À maneira das sociedades de pensamento do século XVIII, esses grupos mantêm-se em ligação estreita por correspondências pessoais e por frequentes visitas de uns aos outros. A coordenação das atitudes e a transmissão das consignas são asseguradas a partir de Londres pela revista « The R.T. », editada até 1961 em Chatham House.

Em seus inícios, o grupo de Nova York conta com um membro muito influente: Walter Lippmann, Rhodes Scholar, Pilgrims, jornalista no importante « Christian Science Monitor », redator no « New-York Herald Tribune », na « Newsweek », logo diretor da revista socializante « The New Republic », em 1932 diretor do C.F.R. e Conselheiro do Pres. Roosevelt.

Os membros e simpatizantes da R.T. lhe asseguram rapidamente o controle das Universidades: Harvard, feudo do banco Morgan; Yale e Columbia, submetidas à mesma influência e, por relações, Princeton.

Nesta última Universidade, a fundação Carnegie e o Comitê de Educação Geral de Rockefeller criam, com a ajuda de um antigo aluno de Oxford, **o Institute for Advanced Study,** com o qual deviam colaborar os refugiados do Nazismo, J. Robert Oppenheimer, John von Neumann e George F. Kennan.

A Távola Redonda, cuja sede continua londrina e cuja direção, sob « controle » inglês, é florescente, tem como « animador » atual, quarto em *posto,* Adam Massie, do *banco* Lazard Brs.

Ela é articulada em dois ramos principais, a European R.T. e a Business R.T. na América. Esta última reúne, entre outros, 170 presidentes das maiores multinacionais sob a autoridade de Irving Shapiro, da « Du Pont de Nemours ». ⁶

\*\*\*\*\*\*\*\*\*\*\*\*\*\*

O CÍRCULO DE INICIADOS

Da primeira parte deste estudo, resulta que os Altos Dignitários das Obediências F.M., B'Nai B'Rith à frente, os Mestres das sociedades gnósticas tais como a Fabian Sty, os Apóstolos da hegemonia anglo-saxônica Pilgrims e Round Table, *constituem* **o Círculo Interior** da muito discreta Sinarquia apátrida que trabalha para a instauração de seu governo Mundial com o apoio incondicional dos Detentores do Dinheiro.

Nesta *segunda* parte, será feita a análise de um conjunto, emanação direta do precedente, na maioria das vezes dirigido por membros deste.

A época de sua criação foi judiciosamente escolhida.

Deve-se notar, com efeito, que:

« 1919 é um marco na história do Ocidente. Em Versalhes entra em cena e se consolida a presença concreta e dominadora dos Anglo-Americanos. Seus delegados, todos Pilgrims *e/ou* Round Table, com a intenção declarada de evitar novas guerras, concebem Institutos, verdadeiros « Laboratórios de Estudos Científicos » das questões internacionais. Realizam-nos com os capitais dos Rockefeller e dos *Ascot*... » (43)

« Os Institutos Internacionais realizam, em cada país onde se estabelecem, uma grandíssima concentração econômico-cultural. Criam assim, em *nível* nacional, uma acumulação de riquezas e de poder cujas rédeas são entregues aos centros propulsores Pilgrims e Round Table... » (43)

« Os ideólogos e as personagens, irredutíveis aos olhos do homem da rua, resolvem-se no *interior* de semelhantes *instituições* em simples manifestações de um poder proteiforme que, de tempos em tempos, estabelece o curso e o limite dos acontecimentos, sem jamais perder de vista as finalidades essenciais. » (43)

O CORIFEU

*1919. INSTITUTE OF INTERNATIONAL AFFAIRS. (44)*

Só podia ver a luz na Inglaterra. Criado pelo « coronel » Edward Mandell House, F.M. *iluminado* dos Masters of Wisdom, condutor do Pres. Wilson por conta da Alta Finança, com a ajuda de outros F.M. altamente graduados de diversas obediências, de membros da Fabian Sty, da Round Table, de um grão-rabino, é *destinado* ao mundo anglo-saxão.

Muito *influenciado* pelas teorias do economista J.M. Keynes, é oficialmente « destinado a facilitar os estudos científicos e o estudo das questões internacionais. »

Vai muito rapidamente ser dividido *em* dois ramos, um inglês *e* um norte-americano, que vão, com zelo, enxamear pelo mundo.

**O ramo inglês:**

Por concessão, em 1926, do Privilégio real (Jorge V), a nova denominação é R.I.I.A. Sua sede é em Chatham House, assim como *a da* Round Table.

« O R.I.I.A. sempre soube permanecer na sombra. É muito difícil conhecer-lhe os membros. Criou outros institutos nos países da Commonwealth. Mas estes, tornados *independentes,* o Império britânico *aceitando* a descolonização imposta, como à França, pelo « núcleo duro », passaram para o controle do ramo americano, muito mais « progressista... » (43)

« Os poucos membros cuja identidade é conhecida são, além de sua pertença às diversas F.M., aos grupos do 1º círculo, altos dirigentes de Bancos ou de Trusts, homens políticos de alto nível, Chanceler do Tesouro, Secretário de Estado, Ministros, Reitores de Universidades... etc. É natural que os ricos israelitas, do tipo Nathaniel Mayor Victor Rothschild, desempenhem aí um papel importante... » (43)

« Segundo o inquérito conduzido a pedido do Senador Lyndon LaRouche, na época Presidente do Labour Party americano, pelos autores do livro « A Guerra do Ópio », publicado em 1978, o R.I.I.A. controlaria o mercado mundial da droga, em mãos britânicas desde... a guerra do ópio (1839-1842), cujo movimento de negócios beira os 200 bilhões de dólares por ano. » (45)

*OS DIVERSOS I.I.A. » (44)*

**COMMONWEALTH.** 1926 Nova Zelândia, 1938 Canadá, 1933 Austrália, 1934 África Austral, 1936 Índias, 1948 Paquistão..., no Egito, no Sri Lanka, na Guiana, no Níger.

**ORIENTE.** 1973 Irã, sempre em atividade; em 1980, catorze membros deste participavam do I.I. for Strategic Studies; 1949 China Popular (C.P.I.F.A.), criado por Canadenses; 1961 China Nacionalista; 1963 Cingapura... igualmente na Coreia, no Japão, em Israel... etc. Não se sabe o que foi feito do I.I.A. Vietnã.

**PAÍSES DO LESTE.** 1947 Polônia, muito importante, o mais ligado a outras organizações internacionais de estudos estratégicos ou com objetivos políticos e pacifistas; 1947 Iugoslávia; 1956 U.R.S.S., criado graças à intervenção de membros da Pugwash (Cyrus Eaton); 1966 Romênia; 1972 Hungria; 1976 Bulgária... Existia um I.I.A. na R.D.A. e Cuba possui um Instituto de Política internacional.

**EUROPA OCIDENTAL.** 1927 Suíça, 1945 Países Baixos, 1958 Áustria, 1959 Noruega, 1938 Suécia, 1961 Finlândia, 1965 Itália (Agnelli e o I.S.P.I. de 1933), 1947 Bélgica com Privilégio real, 1955 R.F.A. (D.G.A.P.). A reunificação alemã de 1990 vai, sem dúvida, provocar a fusão dos dois I.I.A. A D.G.A.P. havia absorvido o antigo Inst. de Estudos Políticos e Econômicos Europeus de Frankfurt.

**I.I.A. NA FRANÇA.** 1935 **O Centro de Estudos de Política Estrangeira** (C.E.P.E.), financiado no início pelas Fundações Rockefeller e Carnegie, apoiado por Chatham House. Mantém com o R.I.I.A. laços cordiais e estreitos.

Os membros fundadores representavam:

- a Universidade de Paris (Reitor Charléty), a Sorbonne,
- A Biblioteca de Documentação Internacional Contemporânea, ligada à Fundação Carnegie para a Paz,
- o Partido socialista, por Julien Cain, do Instituto, grande amigo de Léon Blum e tio de Lucie Mayer, diretora da NEF e primeira esposa do falecido Edgar Faure.
- O Movimento Europeu, por Henri Bonnet, homem-lígio de Jean Monnet.

Alguns nomes de Presidentes: S. Charléty de 1935 a 1944, Léon Blum de 1947 a 1950, Édouard Herriot 1950-1957, General Catroux 1958-1968 (fez o CEPE ser assumido pela Educação Nacional), o Embaixador R. Massigli 1968-1975, o Embaixador Mancel Manac'h e, por fim, Louis Joxe, que será o primeiro presidente do I.F.R.I.

Alguns nomes de Membros: Marjolin R., Maurice Schumann, H. Wallon e L. Martin-Chauffier, do P.C., A. Siegfried, René Mayer, J. Vernant, Pierre Uri, Jean Lacouture, Georges Buis, Josette Alia, Léo Hamon, M... Couve de Murville, Maurice Duverger... etc.

**1979; Instituto Francês das Relações Internacionais** (I.F.R.I.), resultado da fusão do CEPE com o Grupo de Estudos e de Pesquisas sobre os Problemas Internacionais dos Srs. Raymond Aron e Jean Laloy.

Reconhecido como de utilidade pública, composto no início por 153 membros, o IFRI conta hoje com pelo menos 305, dos quais 33 membros sociétaires financiando o grupo.

No conselho de administração de 26 membros, 14 vêm do CEPE, 5 são Bilderberger, 2 Trilateral e 8 do Clube F.M. Le Siècle.

O Pres. atual é Thierry de Montbrial. Seu adjunto, Contra-Almirante Traub, o Gen. H. de Bordas, J. P. Cot, R. Seydoux, Michel Jobert, da Academia Mundial para a paz... etc.

O IFRI publica todo ano um relatório geral intitulado « Ramsès ».

**O ramo americano ou Council of Foreign Relations** (C.F.R.) data de 1921 (46)

Atualmente, o CFR reúne cerca de 1400 aderentes nos E.U., 700 membros « residentes », habitando num raio de 80 km em torno do Hôtel de Ville de Nova York e os 700 outros repartidos pelo país. Ocupam todos situações de primeiro plano nas altas esferas políticas, no big business, no exército, nas finanças, no ensino, na imprensa escrita, no rádio e na televisão. É muito difícil descobrir-lhes a identidade.

O CFR *contou* entre seus membros 5 Presidentes dos E.U., dos quais 3 republicanos, uns vinte ministros até 1993, numerosíssimos funcionários das *grandes* administrações (70 com Nixon), entre os quais a eminência parda do grupo, Henry Kissinger.

Com o Pres. Reagan (1980-1988), a participação reduziu-se a uns 30 *afiliados,* sobretudo depois da saída do Gen. Haig.

Desde sua nomeação para a vice-presidência, George Bush (Pres. 1988-1992) cessou oficialmente toda participação no CFR e na Trilateral. Contudo, *em* seu governo, o Conselheiro de Comércio exterior Carla Hills é Trilateral, o Conselheiro de Segurança nacional Brent Scowcroft é CFR e Tri... Este último é, além disso, o homem de H. Kissinger.

Com *Bill* Clinton, eleito em 1992, ele próprio do Sistema por ser Rhodes Scholar, a participação é, a priori, mais importante.

*AS FILIAIS do C.F.R.*

Foram criadas diretamente ou por terceiros ideologicamente próximos, depois infiltradas. (46)

**1921. FOREIGN POLICY ASSOCIATION,** formada com o apoio da Round Table, a partir da **Liga das Nações Livres,** fundada em *1918* pelas Esquerdas americanas socialistas, pacifistas e mundialistas.

A FPA é a promotora *de* grupos de mesma ideologia *em* todas as grandes cidades americanas. Em 1960, fundiu-se com os **World Affairs Committees** e dirige-se particularmente ao meio estudantil.

**1925. INSTITUTE OF PACIFIC RELATIONS,** infiltrado de comunistas e de agentes soviéticos, todos membros do CFR e ligados ao governo US.

Em 1945, *dezessete* de seus aderentes deram lugar a inquérito sobre atividades pró-soviéticas, entre os quais R. Bunche, A.H. Dean, o Gen. G.C. Marshall, Dean Rusk.

Finalmente o IPR se dissolve em 1961. Seus membros foram realocados nos diversos I.I.A.

**1933. BUSINESS ADVISORY COUNCIL** (B.A.C.), criado pelo *ministro* do Comércio, desde a chegada ao poder de Franklin D. Roosevelt (Pres. de 1933 a 1945), para apoiar a política do « New Deal ». Propôs soluções socialistas pouco condizentes com as *intenções* do Governo e *perdeu* sua audiência. Desde o início da IIª guerra mundial, as potências econômicas e financeiras da organização conseguiram impor sua política. Fazem parte do BAC todos os representantes dos grandes bancos e dos trusts, *aliás* quase todos afiliados ao CFR.

Em 1961 torna-se o **BUSINESS COUNCIL.** Este *reúne-se* várias vezes por ano com os membros do Governo. Existe um Comitê de Ligação com cinco dos principais ministérios federais e com a Casa Branca.

O BC conta com cerca de 120 membros ativos e sociétaires, dos quais um terço *é* CFR. Este último serve-se do B.C. para impor suas vontades ao Governo Federal.

**1941. ADVERTISING COUNCIL.** Esse comitê da Publicidade, constituído graças aos fundos Rockefeller, arrogou-se o direito de selecionar as publicidades « de interesse nacional », que podem assim beneficiar-se de uma difusão gratuita nos mass media. Excelente meio de pressão sobre as sociedades e as empresas.

**1944. INSTITUTE FOR AMERICAN DEMOCRACY.** Foi oficialmente provado que esse instituto era uma seção da **Anti-Defamation League,** criada pelos B'Nai B'Rith.

Reapareceu em 1966, com um Comitê nas mãos do CFR.

**1946. AMERICANS FOR DEMOCRATIC ACTION.** É a continuação, com um escritório CFR, da **Union for Democratic Action,** fundada em 1941 por um grupo de comunistas e de simpatizantes.

Entre os membros, cumpre notar os Profs. John K. Galbraith e Arthur M. Schlesinger Jr., de Harvard, H. Humphrey, ex-vice-Pres. dos EUA.

**1954. AMERICAN CIVIL LIBERTIES UNION** (A.C.L.U.), sob a presidência de um CFR. A criação real do grupo remonta a 1917, em filiação direta da **American League to Limit Armaments,** filha de Jane Addams, da Fabian Sty. Oficialmente reconhecida em 1931 e 1943 como correia de transmissão comunista, a associação tinha, no entanto, em 1968, cerca de 130000 aderentes, entre os quais Walter Lippmann e cinco outros CFR; Pearl Buck foi afiliada a ela.

**1970. COMMON CAUSE.** Criada com o dinheiro das Fundações e destinada ao « povo miúdo », às classes pouco afortunadas, aos estudantes e aos jovens dos subúrbios...

Dirigido por um CFR, apoiado por Trusts como Xerox e I.B.M., esse movimento progressista havia reunido, desde 1972, uns 250000 aderentes.

**..?.. CONSELHO ATLÂNTICO DOS E.U.** (A.C.U.S.) (45) Desde quando existe? Pouco importa. Eis o que diz dele o Sr. Pierre de Villemarest:

« Uma das projeções internacionais do C.F.R., mais discreta que a Trilateral, acaba de desempenhar um papel maior nas relações e projetos soviético-americanos para a Europa: o ACUS discutiu isso em fevereiro último (1990) em Moscou e em Leningrado. »

Compreende « um escritório central de 13 membros, com 8 CFR e 3 Trilateral, dos quais um é igualmente Bilderberger. O Presidente é o Gen. A.J. Goodpaster... »

« Um círculo inferior de 99 diretores (48 CFR) que estão presentes nas sociedades Leste-Oeste... Dezessete deles se sentavam em Leningrado com soviéticos importantes, tais como os Conselheiros de Gorbachev, entre os quais o Diretor do Instituto Soviético para a Europa, o Diretor das Notícias de Moscou, dez membros do Instituto Soviético de Economia Mundial e o Gen. Tenente G. Batonin, que acaba de entrar no Comitê Central. »

*OS CORISTAS.*

Criados com objetivo tático, esses grupos parecem distinguir-se dos I.I.A. e do C.F.R. para reunir, tendo em vista o mesmo combate, outras pessoas escolhidas por cooptação. Trata-se ainda de sociedades semissecretas financiadas pelas mesmas mãos.

Se certo número recruta nos meios habituais, outros se dirigem mais precisamente a cientistas de renome.

**A - Gr. de recrutamento clássico.**

**1930. THE BROOKINGS INSTITUTION,** fundada pelo magnata Robert S. Brookings, é considerada o bastião da teoria transnacional. Realmente operante nos anos 1960, forneceu quadros aos governos sucessivos dos E.U. Seus membros provêm em parte dos outros organismos. (43)

**1954. BILDERBERG GROUP** (46). Sua constituição foi imaginada por um israelita de origem polonesa, agente secreto da URSS, grande iniciado da F.M. sueca, Joseph Raztinger. Estudante na Sorbonne, amigo íntimo de Sean MacBride, liga-se a André Gide, depois torna-se amigo e colaborador do Coronel House... !

Muito ativo, trabalha para o governo mexicano, depois vai aconselhar o Gen. Sikorski, G..M.., para sua política pró-anglo-francesa. Isso permitiu ao General ser Chefe do Governo polonês no exílio desde a invasão de 1939 e chegar a Londres em junho de 1940.

A partir de 1946, J. Ratinger mantém relações constantes com o Movimento Europeu (Spaak e Van Zeeland), com a Ass. Intern. pela Unidade Europeia e com o Conselho por uma Europa Unida de Jean Monnet e Robert Schuman.

É o Príncipe consorte dos Países Baixos, Bernhard, grande acionista da Royal Dutch e do Banco Geral da Bélgica, ligado aos irmãos Rothschild, quem organiza em *maio* a reunião *constitutiva.*

As cem personalidades *selecionadas* formaram, sob *sua autoridade,* « uma assembleia destinada a construir a unidade ocidental... contra a expansão soviética ». É um argumento muito empregado no tempo da *guerra* fria para *dissimular* os verdadeiros objetivos.

O Bilderberg Gr. reúne-se cerca de duas *vezes* por ano. *É constituído,* como todos os outros, sobre o modelo dado pelos Iluminados da Baviera:

- um núcleo duro, o *Comitê* Consultivo, compreendendo Americanos e Europeus, todos afiliados ao CFR,
- um círculo interior, o Comitê de *direção,* *composto* de 24 Europeus e de 15 Americanos, todos membros ou antigos membros do CFR,
- um círculo *exterior,* *os* participantes das Conferências, mistura de afiliados e de convidados, estes tendo em vista seu recrutamento ulterior ou para servir de biombo.

As reuniões são muito discretas. É difícil conhecer o local do encontro e os nomes dos presentes.

No entanto, graças a indiscrições, os temas das reuniões são conhecidos. *Assim foram escolhidos* como assuntos de estudo:

- os problemas financeiros internacionais,
- a liberdade de *emigração* e de imigração,
- a livre circulação dos produtos,
- a união econômica internacional,
- a constituição de uma *força* de polícia *internacional,* com supressão dos exércitos nacionais,
- a criação de um Parlamento internacional,
- a limitação *da* soberania dos Estados, delegada à ONU ou a qualquer outro governo supranacional...

É assim que « no encontro realizado em Megève em 1974, foi projetada a eliminação dos Portugueses de Angola e do regime Caetano, *a fim de* *permitir* a criação de um supergoverno econômico sobre toda a África do Sul. » (43)

Em consequência de um caso de « suborno », o príncipe *Bernhard* demite-se da presidência em 1977. É substituído pelo conservador britânico, ex-primeiro-ministro, Lord Alec Douglas-Home, de *74 anos.*

Eis alguns nomes de participantes assíduos:

Afiliados desde a criação: Jean Monnet e Robert Schuman, falecidos, Jacques Duhamel, aliado aos Mendès-France e aos Servan-Schreiber, Sicco Mansholt, Walter Lippmann e **Valéry Giscard d'Estaing** que, durante seus mandatos presidenciais, sempre se fez representar;

*Todos* os Presidentes ou Representantes dos grandes bancos internacionais e do Banco da França;

Os Presidentes de grandes grupos industriais: Fiat, Pirelli, Philips, Unilever, Renault, Française des Pétroles, Charbonnages de France, Cie. Nat. du Rhône, etc.;

Políticos: D. Acheson, Kissinger afiliado desde 1957, Harold *Wilson,* E. Heath, Joseph Luns, Z. Brzezinski, Bruno Kreisky, o Emir Rayçal,... e, desde 1975, Thierry de Montbrial, Jacques Attali, Lionel Stoléru,... a *partir* de 1979, *Michel* Rocard.

Todas as esperanças e os apoios da oligarquia voltaram-se *para* este último, desde o fracasso de Raymond Barre, membro da Trilateral, filial dos B., nas eleições presidenciais.

*O levantamento* das nacionalidades dos participantes na reunião de 1965 (Villa d'Este, na Itália), cujo segredo não foi mantido, dá uma *ideia* exata da *importância* do grupo: 387 presentes vindos de 17 países (Europa, N. Zelândia, E.U., Canadá). Os E.U. tinham 101 representantes, dos quais 59 CFR; a Grã-*Bretanha* 62, a França 37 e a Itália 19.

A reunião realizada no Tirol austríaco *de* 2 a 5 de *junho* de 1988 foi presidida pelo israelita inglês Eric Roll, tornado Lord Roll of Ipsden, barão e Pres. do grupo inglês S.G. Warburg &amp; Co. Participaram *igualmente* Kissinger, David Rockefeller, Giovanni Agnelli, George W. Ball, associado do banco Lehman Brs, T. de Montbrial. (48)

Na sessão de 11 a 13 de maio de 1989, organizada em La Toja, na Espanha, estavam presentes: o Rei e a Rainha da Espanha, a Rainha Beatriz dos Países Baixos, Felipe González, Helmut Kohl, J.A. Fra, Poncet, do clube « Le Siècle », E. Davignon, presidente da Société Générale de Belgique, o francês G. Eskénazi, Pres. do holding Pargesa, Paul A. Volcker, ex-Pres. do Federal Reserve System americano, o Pres. do banco de Bilbao, o francês Diretor e V-Pres. da L'Oréal, Louis Schweitzer, inspetor das Finanças próximo de Laurent Fabius. (48)

A sessão de 10 a 13 de maio de 1990 realizou-se no Estado de Nova York. Além dos fiéis habituais, personalidades francesas participavam, pela primeira vez, dos trabalhos: Jean-Pierre Chevènement, Philippe Séguin, Pierre Morel, representante da França na Conferência do desarmamento de Genebra, e Philippe Villin, Dir. Geral do Figaro e do France-Soir.

A proporção particularmente elevada de Ministros da Defesa, das Relações Exteriores, do Comércio internacional, assim como de negociadores Leste-Oeste de alto nível, era notável. (47) O que permite pensar que a implosão da URSS e a evolução dos Estados a priori independentes que daí decorrem estavam na ordem do dia.

**1958. INTERNATIONAL INSTITUTE FOR STRATEGIC STUDIES (I.I.S.S.)** (49). Oficiosamente estabelecido por um Bilderberger, amigo de J. Ratzinger, graças a uma contribuição (150000 $) da Fundação Ford.

Oficialmente criado por « um grupo de analistas britânicos compreendendo acadêmicos, políticos, jornalistas e Homens de Igreja a fim de estudar os problemas complexos que a era nuclear coloca. »

Todos esses personagens são, com algumas exceções, todos membros do R.I.I.A. O Diretor de Chatham House é membro fundador.

O fato primordial é a participação no Instituto de mais de 180 jornalistas representando mais de 103 diários, rádios, televisões, revistas e publicações diversas. **Isso forma uma enorme rede impondo ao mundo inteiro uma visão uniforme dos problemas e propondo-lhe a mesma solução.**

Assim, o Instituto dispõe de 20 publicações nos E.U., 2 no Canadá, 20 na Grã-Bretanha, 36 para toda a Europa, entre as quais, na França, « Le Monde », « Le Figaro » e 1 « L'Express », uma para o mundo árabe, para a Palestina, o Líbano, o Egito, Cingapura, a Coreia, o Brasil, 5 no Japão e 6 nas Índias.

De 500 membros em sua criação, o IISS atinge em 1980 o número de 2142 aderentes, dos quais 301 são afiliados ao CFR, à Trilateral, à Pugwash ou ao I.A. O Comitê diretor de 15 membros está nas mãos do CFR e do RIIA.

Todos os Estados do Mundo, exceto a URSS e a China Popular, estavam, antes de 1989, associados em mais alto nível político e militar ao Instituto. O Irã teve até 14 participantes nas reuniões.

Globalmente, o orçamento do IISS é fechado pelas subvenções dos membros associados e pelas doações das Fundações americanas, alemãs, italianas... etc.

Alguns membros franceses: Raymond Aron, ex-Pres., falecido, Gen. Buis, J.C. Casanova, Jacques Chevallier, Pierre Dabézies, Cel. R. David, Gen. Gallois, Pierre Lellouche, Jules Moch (falecido), Th. de Montbrial, François de Rose, Marc Ullmann, Jacques Lanxade, então oficial superior da Marinha Nacional, Joël Le Theule, ministro, Jacques Pelletier? etc.

**1961. INSTITUTO ATLÂNTICO. (I.A.)** (49). É a concretização de uma ideia de H.G. Wells, socialista mundializante, afiliado à Fabian Sty, membro desde sua criação da **Society for Cultural Relations between the People of the British Commonwealth and the Union of Socialist Soviet Republics** (1924), considerada uma oficina de propaganda comunista.

Com efeito, ele escrevia em 1928, a respeito do Mundo Atlântico:

« É somente nesse mundo que uma classe, uma amplitude suficiente de pensamento e de discussão são possíveis **para um adequado desenvolvimento da CONSPIRAÇÃO ABERTA.** »

J.M. Keynes e R.H. Tawney, membros da Round Table e fundadores do RIIA e do CFR, dão-lhe seu apoio.

Pouco tempo antes do início da IIª Guerra Mundial, alguns iniciados criam **The Federal Union,** « prelúdio à instalação de um governo socialista mundial », com vistas a *traçar as grandes linhas de uma futura* « Atlantic Union ».

Os quatro principais fundadores e animadores desta são:

R.W.G. Mackay, Comitê diretor da Fabian Sty; *Clarence* Streit, *Rhodes* Scholar, Round Table, CFR; Herbert Agar, Comitê executivo da Fabian Sty; e George Catlin, Conselho executivo da Fabian Sty, Pilgrims Sty, IISS, Pugwash, próximo de Wells, de Clarence Streit, de Walter Lippmann, depois associado de Jean Monnet.

Desde 1938, uma seção inglesa é criada por um membro da Fabian Sty, do Comitê Parlamentar Internacional por um Governo mundial e Diretor da London School of Economics, Lord William Beveridge.

Depois da guerra, o movimento Federal Union ganha amplitude. *Criam-se* seções um pouco por toda a Europa, onde se encontram homens como:

Garry Davis, Pres. do Movimento Mundial por uma Confederação Mundial,

Abade Groués-Pierre \[Abbé Pierre\], chefe e vice-presidente do Movimento Mundial para a instauração de um Governo Mundial,

Thomas Mann, Albert Camus, A. Breton, etc.

Depois da assinatura do Tratado do Atlântico (1949), Streit funda um Comitê da União Atlântica, depois aparece, em 1954, a Associação do Tratado do Atlântico.

Finalmente, em 1º de janeiro de 1961, *Cabot* Lodge, CFR e Pilgrims, assume, em Paris, a direção do *Instituto* Atlântico que, em 1972, se torna:

**ATLANTIC INSTITUTE FOR INTERNATIONAL AFFAIRS (A.I.I.A.)**

O criador oficial é Jacques Rueff. *Entre* os fundadores, cumpre citar Paul-Henri Spaak, amigo *e discípulo* do Conde Coudenhove-Kalergi, pai da União Pan-Europeia.

*O recrutamento* obedece ao princípio habitual: em 1982, dos 43 membros do Conselho dos Governadores, havia 18 Bilderberger e 4 CFR. Aliás, na lista dos Governadores encontram-se os nomes do Gen. Béthouart, de Gaston Defferre, Maurice Faure e Antoine Pinay.

Em 1979, o AIIA contava 109 membros, dos quais 23 CFR, 41 Bilderberger e 32 Trilateral.

Entre os afiliados franceses, cumpre citar Jacques Delors (Conselho dos Governadores), Antoine Riboud, Gabriel Ventejol, François de Rose, B. de Margerie, R. Marjolin, A. Danzin, etc.

« Suas tarefas institucionais implicam a manutenção de laços muito estreitos com os outros Institutos, com o CFR, com a OTAN, a CEE, a OCDE, cujos Secretários-Gerais são automaticamente membros deles. »

« O financiamento é assegurado pelas doações das *Fundações já citadas às quais é preciso* acrescentar as de Thyssen, Volkswagen, Agnelli e Sumitomo. » (43)

Convém deter-se um instante sobre um contribuinte importante, **a Banca Nazionale del Lavoro.** É verdadeiramente um Banco do « *Sistema* ». No *Conselho político* do estabelecimento sentam-se, entre outros:

desde 1984, Raymond Barre (Trilateral), desde 1985, Henry Kissinger (Tril. e CFR), Edmond de Rothschild (Tril., Bilderberg), proprietário de 18 % do capital do Banco, por *intermédio da* SOGERED, *sociedade* especializada no comércio com os Países do Leste, que lhe pertence, David Rockefeller, patrão do ramo norte-americano da Trilateral.

Eis uma operação muito especial desse Banco: desde 1988, *desde a cessação dos* combates contra o Irã, emprestou ao Iraque 3 *bilhões de $.* Ora, esse país devia uns 80 bilhões de dólares a diversos credores. Tratava-se, em suma, de um empréstimo a fundo perdido... (50) para que Saddam Hussein reconstituísse seu potencial militar, o que conduziu, assim, à Guerra do Golfo.

**1973. A COMISSÃO TRILATERAL** (49). A elaboração de sua criação se dá desde novembro de 1972 entre três personagens: o bilionário D. Rockefeller, Max Kohnstamm, ex-presidente do Comitê Jean Monnet, e George Franklin, seu futuro secretário-geral.

No ano seguinte, em março, o Movimento Europeu organiza, de maneira bastante misteriosa, **a Conferência Europa-América.** As personalidades anglo-saxônicas participantes, todas afiliadas aos primeiros grupos, são mais numerosas que os convidados europeus.

Para a França, se o Bilderberger Gaston Defferre manifestou sua recusa, estão presentes Habib-Deloncle, Gabriel Péronnet, Olivier Giscard d'Estaing e Pierre-Christian Taittinger.

Em julho, a Trilateral Commission é oficialmente fundada. Constituída por um período de três anos, o comitê executivo renovou, em 1975, suas atividades por um novo período que dura ainda... ! A eminência parda da Comissão é Zbigniew Brzezinski, seu atual diretor.

Antes de definir, infelizmente muito imperfeitamente, os objetivos dessa sociedade, cumpre ter em mente esta declaração de Winston Lord, Pres. do CFR e membro da Tri., feita em agosto de 1978, que confirma, contudo, a importância desta: « não é a Comissão Trilateral que dirige o mundo, mas o CFR. »

**Os objetivos:**

Ela se diz oficialmente « fundada por simples civis (!) da Europa Ocidental, do Japão e da América do Norte

- para propagar a ideia de uma cooperação mais estreita entre essas três regiões do mundo sobre os problemas comuns...
- para criar o hábito e a experiência do trabalho em comum. »

No entanto, o concebedor quer que ela se torne « o grupo de potências intelectuais e financeiras mais forte que o mundo jamais conheceu. »

A Comissão faz publicar em 1975 uma obra « **The Crisis of Democracy** » que se torna sua Bíblia. Os redatores são em número de três: um membro da Fundação Rockefeller e dois professores de Harvard, um americano CFR e o francês Michel Crozier.

Eis algumas citações que traem a orientação autoritária do movimento, de que a Com. Tri. é elemento ativo, **da obra de base:**

« quanto mais um sistema é democrático, mais está exposto a ameaças intrínsecas... »

« o funcionamento da democracia parece incontestavelmente ter provocado um colapso dos meios tradicionais de controle social, uma deslegitimação da autoridade pública e uma sobrecarga de exigências dirigidas ao governo que excedem sua capacidade de satisfazê-las. »

Daí a obrigação de reforçar o domínio dos Estados sobre as Nações e o ascendente dos Organismos mundialistas sobre os Governos, incitando-os, por exemplo, « a conservar o direito e a possibilidade prática de **reter a informação na fonte,** de fixar os limites potencialmente desejáveis à extensão indefinida da democracia política. »

**Relatórios N.º 13 e 15:** esses extratos confirmam o acordo ideológico existente entre a Com. Tri. e os grupos de mesma origem e o Socialismo, até mesmo um Comunismo « reformado »:

« Relatório de 1977, a respeito de uma cooperação construtiva Trilateral - Comunismo em matéria de problemas mundiais... »

Exame geral das relações Leste-Oeste: « A entrada eventual de comunistas franceses ou italianos em governos de coalizão tem menos chances de pôr em perigo o regime democrático de governo do que se pensava outrora. »

Portanto, nem pressões, nem ameaças do exterior (recusa de créditos, evasão de capitais... etc.) para impedir a participação do P.C. no poder. O que um responsável da sociedade enuncia claramente: « **a Trilateral não deve em caso algum ser anticomunista.** » O que explica o apelo do Bilderberger Michel Rocard em fevereiro de 1993 e deixa augurar a amplificação da guerra econômica se o governo oriundo das eleições de março seguinte não for suficientemente flexível.

Por conseguinte, os membros só são recrutados se julgados capazes de compreender o grande desígnio da organização e de trabalhar utilmente para sua realização. São obrigatoriamente social-democratas, ex-comunistas do Império esfacelado, partidários de ajudas financeiras e de trocas econômicas com os novos Estados arruinados, com o objetivo último, segundo J.P. Warburg, de instaurar nos países europeus « **um governo mundial pelo consentimento *ou* pela força.** »

Entre os aderentes: americanos: *todos os nomes* dos representantes do Banco e dos Trusts... O Pres. Jimmy Carter e quase a totalidade dos membros de seu Governo, George *Bush* que, eleito, demitiu-se oficialmente, H. Kissinger, Walter F. Mondale, Cyrus Vance, John D. Rockefeller, Andrew Young, etc. O Rhodes *Scholar* Bill Clinton, novo Pres., não deve estar longe. Franceses: igualmente os representantes *dos bancos e das* grandes sociedades nacionalizadas, depois Michel Crépeau, J. de Fouchier, R. Marjolin, Robert Seydoux e numerosos membros do *discreto clube* « Le Siècle », fundado pelo F. Bernard Quelin, Marcel Boiteux, J. Cl. Casanova, Michel Debatisse, Jean Dromer, J. Ph. Lecat, Roger *Martin,* Th. de Montbrial, Georges Berthoin, Chairman. Europa: Raymond Barre, etc.

**1981. A COMISSÃO QUADRILATERAL** (51), criada por ocasião da cúpula de Ottawa que reunia Ronald Reagan, Margaret Thatcher, Helmut *Schmidt,* François Mitterrand e algumas personalidades, entre as quais Gaston Thorn, Claude Cheysson, Jacques Delors e Pierre Bérégovoy.

Com objetivo a priori similar ao dos grupos precedentes, reúne exclusivamente representantes oficiais dos E.U., do Canadá, do Japão e da CEE.

A quarta sessão realizou-se em *Bruxelas,* em *abril de 1983,* por iniciativa do americano William Brock, Pres. do Partido Republicano, membro do CFR e da Com. Tri.

**B - Gr. de recrutamento científico,** em nome da universalidade da Ciência.

**1955. A PUGWASH** (49). Já existiam organizações reunindo cientistas. Assim, a Federation of American Scientists (F.A.S.), a Atomic Scientists Association (A.S.A.) e a World Federation of Scientific Workers (W.F.S.W.), presidida pelo francês *Joliot*-Curie.

Em 1954, a ideia de tal agrupamento é lançada pelas americanas FAS e ASA, apoiadas pela *Associação* dos Parlamentares por um Governo Mundial. *Sediados* em Londres, os promotores deixam a iniciativa da operação a Bertrand Russell (1872-1970), judeu por parte de mãe, importante afiliado da Fabian *Sty.*

A primeira realiza-se em Londres, em agosto. A delegação soviética é a mais importante. *Os* participantes adotam um manifesto redigido por B. Russell e Albert Einstein.

**Albert Einstein** *(1879-1955),* judeu da Suábia, ligou-se muito cedo ao meio revolucionário de esquerda. Em 1918, saúda com alegria a formação dos « Sovietes » na Alemanha. Em 1923, *foi* membro fundador da Sociedade dos Amigos da Rússia Bolchevique; em 1927, com H. Barbusse, é Pres. honorário da **Liga contra o Imperialismo.** Antimilitarista hostil, é igualmente um militante sionista ardente. Após a derrota do Eixo, torna-se um pacifista *enraivecido.* 1945 *vê-lo* tomar a frente de uma cruzada pela criação de um governo Mundial, dirigido pela URSS, os E.U. e a Grã-Bretanha.

Os outros signatários do Manifesto são em número de oito: 7 Prêmios Nobel, 1 Prêmio Stálin da Paz (Joliot-Curie 1951), *1 Prêmio* Internacional *Lênin* da Paz (Linus Pauling 1971).

*Todos* esses cientistas *lecionam* em *universidades* renomadas como Princeton, Harvard, Kyoto, Cambridge, Oxford, Berlim e alguns são membros de Academias soviéticas.

O bilionário americano de origem canadense Cyrus Eaton, que seus amigos Khruschev, Mikoyan e *Kossiguin* fizeram laureado do Prêmio Lênin da Paz, oferece a esse grupo de cientistas a hospitalidade em sua propriedade de Pugwash, na Nova Escócia.

A primeira reunião tem lugar em 1957: **The Pugwash Conference on Disarmament and World Security** é oficialmente nascida. Estavam presentes 22 cientistas, dos quais o francês A.M.B. Lacassagne. O primeiro Presidente é B. Russell.

Em 1980, é a Prêmio Nobel de Química, Prof.ª Dorothy Hodgkin, quem preside, cercada de eminentes confrades membros do M.I.T., do CFR, do IISS e de numerosos soviéticos.

Eis alguns nomes de *franceses* que foram ou são afiliados: Pierre Victor Auger, do CNRS, da UNESCO, Étienne Bauer, especialista nuclear, ligado ao Ministério da Educação Nacional, Pierre-Léon Dubarle, eclesiástico, professor no Instituto Católico de Paris, André Lwoff, presidente desde 1970 do Planejamento Familiar, Perrin Francis, atomista e amigo da URSS, Étienne Roth, atomista, etc.

Os três objetivos principais são: formar uma cadeia sólida entre os cientistas (so cialo-marxista) do mundo, de influenciar assim os Governos e de formar (sic) a opinião pública. É assim que, em seguida à reunião realizada em Moscou em dezembro de 1960, o Pres. E.U. John F. Kennedy detinha, quatro meses depois, o desenvolvimento da força ofensiva americana.

A partir de 1967 (XVIIª Conferência) é introduzido um novo tipo de ação: pequenas reuniões de uns trinta membros trabalhando sobre um programa muito preciso e transmissão do resultado às organizações supranacionais interessadas.

Para ajudá-la a tecer sua teia de aranha erudita, a Pugwash possui três satélites:

- Inter. Peace Research Ass. (1964), fundada por Joseph Rotblat, Comitê Permanente e secretário-geral da P...
- Stockholm Inter. Peace Research Inst. (1966), criado pelo Parlamento sueco sob a presidência de Gunnar Myrdal, pacifista pró-soviético.

**O Grupo Bellerive,** muito discreto, reunindo cientistas interessados no Plutônio, escritores, filósofos, juristas e religiosos, evidentemente escolhidos segundo os critérios habituais.

As reuniões realizam-se perto de Genebra, em Collonge-Bellerive, no castelo do Presidente, o príncipe ismaelita Sadruddin Aga Khan, da ONU.

O financiamento da Pugwash, assegurado no início por C. Eaton, é atualmente garantido por fundações aparentadas ao CFR, por academias, pela UNESCO, pela Ford e por sociétaires.

**1966. SCIENCE POLICY RESEARCH UNIT (S.P.R.U.)** (52). Centro de investigação sobre os problemas relativos à ciência e à tecnologia, fundado pelo economista inglês C. Freeman. Desde 1982, o Diretor é um geofísico, membro da Pugwash, Oldham.

Os aderentes são afiliados do IA, do IISS, do I. para a Paz de Estocolmo e do M.I.T. Participou igualmente Marie Jahoda, colega de Freud.

Os trabalhos versam sobre a tecnologia militar, a limitação dos armamentos, a evolução dos modos de vida, os mecanismos de apoio à inovação, etc. O dinheiro provém das grandes fundações, dos Trusts (Shell, Unilever...) e da CEE.

O Pres. Oldham criou recentemente uma filial: **o Instituto de Estudos sobre o Desenvolvimento (I.D.S.),** que envia cientistas a percorrer o mundo para criar equipes locais operacionais de desenvolvimento.

**1972. INSTITUTO INTER. DE ANÁLISE DE SISTEMAS APLICADOS** (49). Instalado pelo ex-Chanceler austríaco B. Kreisky, no Castelo de Laxenburg, perto de **Viena,** reúne uns 103 cientistas: 36 da URSS e satélites, 16 dos E.U., 5 do Japão, 2 da Austrália, 2 do Canadá, 1 para o México, o Paquistão, a Argentina e o Egito, depois 38 Europeus, dos quais 9 Austríacos e 2 Finlandeses.

Tendo o apoio de seus respectivos governos, os membros intervêm com força nos assuntos internacionais para instalar « A Nova Ordem Mundial ».

O mérito da ideia inicial de tal criação cabe a:

- Aurelio Peccei, um dos fundadores do Clube de Roma, Bilderberger e AIIA
- Jermen Gvishiani, da Academia de ciências de Moscou e genro de A. Kossiguin
- Pierre Algrain, conselheiro do Governo francês, membro do Carnegie Inst. de Pittsburgh
- Philip Handler, Pres. da Academia de Ciências dos E.U.

Foram necessários cinco anos para que a criação fosse decidida, por ocasião da viagem a Moscou do Pres. Nixon em maio de 1972, acompanhado do inevitável H. Kissinger.

A 4 de outubro seguinte, a carta do Instituto é rubricada em Londres pelos representantes das Academias nacionais ou de Associações científicas de 12 Estados, dos quais 5 de trás da « cortina de ferro ». Em seguida, cinco outros países vão aderir. Os verdadeiros fundadores são o Prof. Gvishiani, atual Pres., e Mc George Bundy, CFR, Bilderberger, IISS e ex-conselheiro do Pres. Johnson.

Dois franceses desempenharam um papel importante:

- Jacques Lesourne, do Clube « Le Siècle ». *Pres.* do Conselho do *Instituto* de 1974 a 1978.
- André Danzin, Clube de Roma, IA e sucessor.

Outros franceses são membros dele. Assim, Michel Grenon (CNRS, CEA, EURATOM), cooptado em 1974, Jacques *Ledent,* admitido em 1977, e Françoise Katsonis Emard, que entrou em 1978.

O diretor-geral é, desde 1974, o americano Roger Levien. Seus adjuntos eram os representantes da RFA e da URSS.

É evidente que grande número de cientistas *sentados* nas Comissões são Prêmios Nobel.

A implosão da URSS, o esboço de uma « casa Comum » europeia... *revalorizam* uma declaração *feita* em outubro de 1975 pelo Dr. Levien:

« As diferenças entre o Ocidente e o Oriente não são tão grandes quanto se crê quando se trata das grandes organizações. Nada se parece mais com uma *burocracia* que outra burocracia... »

Constatação que parece fútil, mas que implica, segundo o espírito do « Sistema », o reinado futuro dos funcionários associados.

No mesmo sentido, um dirigente do instituto esboça a estratégia empregada:

« Era preciso primeiro que as pessoas do Leste e do Oeste (cientistas *selecionados)* aprendessem a trabalhar juntas, que *se* compreendessem bem. *Para* isso, evitamos *introduzir* cedo demais as Ciências humanas em Laxenburg; prestam-se a discussões subjetivas que poderiam ter degenerado. Mas isso é para breve... Depois, será mais delicado. Os verdadeiros problemas começarão com os homens políticos, no nível dos governos... por volta de 1982. »

« Em 1982, o IIASA estará solidamente implantado no mundo inteiro... Os pesquisadores nunca ficam mais de dois anos em Laxenburg. Muitas vezes de três a seis meses. O que lhes permite assimilar « o espírito IIASA ».

*Continuam* (em seguida) a ser agentes ativos do Instituto. Um pouco por toda parte... **os grandes centros de pesquisa adquirem o hábito de trabalhar com o IIASA (ligado permanentemente a todas as grandes redes de computadores do mundo)...**

« Pouco a pouco, uma ideia faz seu caminho em Laxenburg e em Nova York, do lado das Nações Unidas: **e se, por acaso, A BOA SOLUÇÃO fosse dar ao IIASA certo poder *executivo* em certos domínios precisos, criar « altas autoridades mundiais » da energia, por exemplo, ou da alimentação, sob o controle da ONU?**

O IIASA reconhece-se, num primeiro momento, escola da Quinta coluna do Mundialismo, depois Escola *dos* Quadros do Governo mundial... !

**1972. INTER. CONFERENCE ON THE UNITY OF THE SCIENCES**(I.C.U.S.) (53). Seu objetivo oficial: reunir

« *professores* e cientistas eminentes do mundo inteiro e de todas as disciplinas, com vistas a procurar soluções significativas e adequadas para problemas de interesse mundial ».

« Os *temas* da Conferência *desenvolveram-se* a partir da busca de um padrão de valores comuns para resolver a crise do compartimentamento das ciências diante dos problemas urgentes do mundo. »

O ICUS é patrocinado pela **Fundação Cultural Internacional**(I.C.F.), organização sem fins lucrativos, dedicada a promover intercâmbios acadêmicos, científicos, religiosos e culturais entre as nações do mundo.

Fundada *em* 1968 pelo **Reverendo SUN MYUNG MOON,** a ICF possui ramos por todo o mundo. Além disso, o Reverendo criou em 1954 **a Associação para a Unificação do Cristianismo Mundial** (A.U.C.M.), que dispõe das enormes receitas de um truste industrial cuja produção vai da agulha de costura aos engenhos militares mais sofisticados, passando pelos produtos químicos e farmacêuticos.

Qualquer que seja o conteúdo dos inquéritos, dos artigos de jornais ou dos livros relativos às atividades de « MOON » e da AUCM, as conferências do ICUS são seguidas com zelo e entusiasmo. Da primeira, em 1972, realizada em Nova York sobre o tema « Orientação moral das Ciências », à de Miami Beach, no fim de 1980, atraem centenas de pessoas vindas de dezenas de nações.

As conferências têm todas objetivos ditos « éticos », « valores absolutos », « posição central da Ciência e dos valores absolutos », « Ciência moderna e valores morais »... etc. Os participantes são todos pessoas desejosas de acessar o poder e, o mais das vezes, já engajadas na ação mundialista. Aliás, os dirigentes dos comitês e dos Grupos são quase todos afiliados ao CFR, à Pugwash, ao Bilderberger ou ao AIIA, etc.

Entre os aderentes franceses: Georges Berthoin, Com. Tri. e CEE, Claude Geffré, do Inst. Católico de Paris, Robert Gibrat, Jules Guéron, Pugwash e Euratom, Marc Alexandre, do Comitê diretor do Instituto de Estudos Mundialistas, e P. Piganiol.

**1971-72. ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DOS FUTURÍVEIS** (54), cujo presidente é justamente P. Piganiol. A A.I.F. é a denominação tomada nesse ano pelo grupo **FUTURIBLES,** criado em 1960 por Bertrand de Jouvenel, muito próximo da Sté. de Estudos e de Documentações Econômicas, Industriais e Sociais. Os financiadores são a Fundação Ford e o Twentieth Century Fund, ambos nas mãos do CFR.

Desde sua criação, a AIF absorve:

- **O Centro de Estudos Prospectivos Gaston Berger,** fundado em 1957. Este último, filósofo, enciclopedista, « místico impregnado de hinduísmo », é o pai de Maurice, dito Béjart, coreógrafo « inspirado » e muçulmano. O centro tinha aderentes de destaque: Louis Armand, François Bloch-Lainé, Paul Delouvrier, J. Parisot, ex-pres. da OMS, o Frei Pregador Dominique Dubarle, perito no Vaticano II, Maurice Lévy, do IAS de Princeton, o Decano Georges Vedel, dos Clubes Jean Moulin e « Le Siècle », atualmente (1993) presidente da comissão de reforma da Constituição Francesa, e Piganiol.
- **O Centro de pesquisas sobre a Evolução das empresas,** criado em 1963 por F. Bloch-Lainé.

Os Futuribles ou a AIF dependem da **S.E.D.E.I.S., presidida, após a saída de Bertrand e Hugues de Jouvenel, por Jacques Plassard, um homem do grupo Rothschild.**

Desde 1969, a AIF havia fundado a **Maison des Futuribles,** graças à DATAR, presidida em seu início por Pierre Massé.

Em 1973, a AIF cria **a Federação Mundial dos Estudos sobre o Futuro,** por incitação do « Continuing Committee » de Kyoto.

O atual Pres. da AIF é Philippe de Seynes, secretário-adjunto para Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, zelador do clube de Roma e da « Nova Ordem Mundial ».

Entre os membros, cumpre ainda citar Clément Decouflé, Simon Nora, Robert Lattès (ENA e Clube do Século), Serge Antoine (Pres. do Centro Inter. do Futuro de Arc-et-Senans) e a família Saint-Geours.

Os **Saint-Geours** são muito próximos do poder socialista. O pai, Jean, membro do Clube de Roma e do Clube « Le Siècle », vice-Pres. dos Futuribles, era Diretor da Missão Nacional de Luta pelo Emprego criada pelo Governo Mauroy; o filho Jean-Philippe era encarregado de missão junto ao mesmo; o segundo filho, François, era ligado ao gabinete de Louis Mermaz.

**1980. A FUNDAÇÃO DO FUTURO** (55), ou Centro de Estudos e de prospectivas Internacionais.

Tem por objetivos:

- « estudar e analisar os grandes problemas do mundo nos domínios políticos, diplomáticos, econômicos, sociais, culturais, científicos, *estratégicos* e religiosos...
- *encarar* as consequências de seu *impacto* nas próximas décadas. »

O mínimo que se pode dizer é que tal programa reflete o orgulho e a suficiência de seus aderentes!

As atividades consistem em organizar *colóquios,* mesas-redondas, *conferências* sobre grandes temas de atualidade, reuniões de peritos com os *melhores* especialistas internacionais e franceses no quadro de « conversas privadas ». A publicação dos resultados dos trabalhos é assegurada por « Os cadernos da Fundação ».

Desde o início, a Presidência pertence a Jacques Baumel (RPR e Bilderberger). No *conselho* de administração sentam-se:

Hélène Carrère d'Encausse (IFRI), Michel Crozier (Com. Tri., Jean Moulin, Le Siècle, AIF), Pierre Dabézies (IISS, IFRI, Federação dos republicanos de Progresso aparentada ao PS, Prof. em Sciences Po, ENA e Paris I), François Dalle (PDG da L'Oréal, CNPF, AIF, fundador, com Jacques Delors e outras personalidades *ditas* de esquerda, do Clube « Échanges *et* Projets »), o General Gallois *(IISS,* Bilderberger, Dir. da Dassault-Aviation, membro do Comitê de patrocínio do Instituto de Geopolítica de Marie-France Garaud), Léo Hamon (LICRA, Clube dos Jacobinos, Comitê de apoio da FMVJ, do Movimento da Paz), o banqueiro Georges Hervet, Jacques Huntzinger (IISS, e Comissão de Defesa do PS), Jacques Lesourne (AIF, *IIASA,* Com. Tri., Clube de Dacar *e* Le Siècle), Pierre de Margerie, do Grupo Drouot, Jérôme Monod (ex-Pres. *da* DATAR, Clube de Roma e Le Siècle), René Rémond (Pres. do Centro Católico dos intelectuais Franceses, Clube Le Siècle), Charles Zorgbibe (Prof. em Paris XI, Academia Mundial para a Paz, colaborador da revista « Défense Nationale »).

Participaram de *reuniões:* François de Rose (Com. *Tri.),* Ben Shahar, de Tel Aviv, Pierre Messmer, J.C. Casanova (Com. Tri., Bilderberger, IISS, Le Siècle), Alain Cotta (Com. Tri.), irmão de Michèle, P. Lattès (Clube de Roma, Dacar, Le Siècle), J.F. Poncet (IFRI) e A. Sauvy, hoje falecido.

**1982; INSTITUTO INTERNACIONAL DE GEOPOLÍTICA,** criado *em* junho por Marie-France Garaud, *com o objetivo* de « analisar a amplitude das ameaças (militares, políticas, sociológicas) que pesam sobre a liberdade das democracias, especialmente das Europeias ».

Além dos membros fundadores, as cotizações dos aderentes comportam duas classes: os membros ativos (1000 Frs por ano) e os membros benfeitores (5000 Frs).

Os resultados dos trabalhos são publicados numa luxuosa revista « Géopolitique », cujo diretor é o vice-presidente do Instituto, Sr. Déodat du Puy-Montbrun.

Embora sua Presidente se tenha afirmado « politicamente livre e independente », no momento de sua candidatura às eleições presidenciais, encerrada com um fracasso estrondoso, o Instituto parece bem ser um avatar do Mundialismo, um grupo que se apresenta como antissocialista-marxista, respeitoso da ideia nacional... e, portanto, muito crível para grande parte de « A Direita », onde a Sra. Garaud fez sua carreira política. Aliás, soube atrair *algumas* personalidades militares *independentes,* entre as quais o muito conhecido general belga Robert Close, para reforçar essa impressão.

Já por ocasião de sua candidatura, era possível encontrar, em seu Comitê de apoio, os nomes de Pierre Arpaillange e Louis Joxe, mas, além disso, os fundos necessários à sua campanha teriam sido reunidos graças à habilidade do Conde de Granard. Este, *ex*-Comodoro da RAF, é filho de banqueiro. Sua mãe, nascida Mills, pertence a uma poderosa família americana associada aos Rockefeller, Carnegie e J.P. Morgan. É assim que os Trusts americanos Texaco e National Biscuit Cie, por sua filial suíça Nabisco, deram, com o Grupo Gardinier (Adubos euro-americano), sua contribuição.

Além *disso,* a mão-baixa do « Sistema » manifesta-se pela presença, no seio do Instituto, de numerosíssimos aderentes, todos afiliados aos diversos organismos já citados, controlados pela Alta Finança internacional e cujos grandes patrões se encontram na COM. Tri.

É assim que, mais *precisamente,* encontram-se entre *os* anglo-saxões membros fundadores: F. Bolkestein, secretário de Estado e RIIA, Zbigniew Brzezinski, fundador-diretor da Com. Tri., CFR, Bilderberger, IISS, IAI, etc. William F. Buckley, patrão da « National Review », CFR, Bilderberger, Sir Neil Cameron, Pilgrims, IISS, Conselho de Direção do RIIA, Lord Chalfont, Fabian Sty, RIIA, Comitê executivo da Pilgrims, Barão Robert de Rothschild, Conselho dos Governadores do IA, Sir John Russell, RIIA, James Schlesinger, ex-secretário de Defesa E.U., ex-chefe da CIA, CFR,

Do mesmo modo, entre os 20 membros do Conselho de Administração, todos franceses, sentam-se, entre outros:

Pierre Emmanuel, alias Noël Mathieu, Pres. da Ass. Internacional pela liberdade da cultura (AILC), assiduamente frequentada pelos Mundialistas e membro do Clube « Le Siècle », Jean-Daniel Jurgensen, Clube « Le Siècle », Dominique Lecat (UAP, Hachette, Banque de Paris et des P.B., Clube « Le Siècle »,

**Jacques Lesourne,** clubes « Le Siècle » e « Dacar », Futuribles, Fundação do Futuro, Dir. do projeto Interfuturs na OCDE,

**Pierre Massé,** ex-pres. da Maison Inter. dos futuribles (S.A. Peugeot, Cr. Foncier de F., B. Louis Dreyfus), membro do júri da Fundação da Vocação, criada por Marcel Bleustein-Blanchet, sogro de Robert Badinter,

Jean Stoetzel, universitário, CNRS, Comitê diretor do Centro de Viena,

Pierre Gallois, Gen., IISS, Bilderberger, C.A. da Fundação do Futuro,

**François de Rose,** OTAN, IFRI, IISS, C. dos Governadores do I.A., Com. Tri.

Em conclusão, cumpre perguntar-se se a Sra. M.F. Garaud não foi, desde sua malsucedida candidatura, recrutada « no sentido da história »... !

L. D.

BIBLIOGRAFIA

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2. J. Ploncard d'Assac, *Lectures Françaises*, XII - 1989
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9. Jacques Bordiot, *Lectures Françaises* maio de 1984
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25. Yann Moncomble, *Les vrais responsables de la IIIème Guerre Mondiale* \[Os verdadeiros responsáveis pela IIIª Guerra Mundial\] p. 30.31
26. Yann Moncomble, *L'Irrésistible Expansion du Mondialisme* \[A Irresistível Expansão do Mundialismo\] p. 18.19
27. Jacques Bordiot op. cit. p. 11.15
28. Jacques Bordiot op. cit. p. 19
29. Jacques Bordiot op. cit. p. 20.25
30. Henry Coston op. cit. N.º 28
31. Paolo Taufer e C.A. Agnoli op. cit. N.º 15
32. Jacques Bordiot op. cit. p. 153.141
33. Marcel de Corte, *L'Intelligence en péril de mort* \[A Inteligência em perigo de morte\]
34. Jean Vaquié: *Rudolf Steiner*, Revista da Sté. Barruel N.º 14
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36. Yann Moncomble, *La Trilatérale et les Secrets du Mondialisme* \[A Trilateral e os Segredos do Mundialismo\]
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38. Paolo Taufer e C.A. Agnoli op. cit. N.º 15
39. Yann Moncomble op. cit. N.º 25
40. Jacques Bordiot op. cit. p. 87.96
41. Paolo Taufer op. cit. N.º 6
42. Yann Moncomble op. cit. N.º 38
43. K. Kalimtgis, D. Goldman e S. Steinberg, *La Guerra dell'Oppio* in Paolo Taufer op. cit. N.º 6
44. Jacques Bordiot op. cit.
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49. *Lectures Françaises* N.º 323
50. *Lectures Françaises* N.º 318
51. Yann Moncomble op. cit. N.º 26
52. Yann Moncomble op. cit. N.º 25
53. Yann Moncomble op. cit. N.º : *Lectures Françaises* N.º 319
54. Yann Moncomble op. cit. N.º 1984

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# A Gnose nos diz respeito!

*O gnosticismo se liga ao movimento geral de sincretismo que quer fundir os diversos sistemas filosóficos ou religiosos; de inspiração neoplatônica, a Gnose desenvolveu-se ao mesmo tempo que o Cristianismo, desde o primeiro século: é uma doutrina de libertação pelo conhecimento e, portanto, reservada aos únicos iniciados. De modo geral, o mundo espiritual emana de um princípio primeiro por uma série de degradações; o mundo material, obra de um mau demiurgo, é identificado ao mal. Os adeptos aspiram a uma iluminação interior que libertaria da matéria a parte divina de seu ser e permitiria seu retorno à unidade do ser absoluto. Partindo da fé na Revelação, transformam-na num « conhecimento » filosófico capaz de unir realmente o homem a Deus. Essa gnose, que toma os textos do cristianismo para esvaziá-los de seu conteúdo, permanece essencialmente distinta do cristianismo, no qual a Revelação não é privilégio de alguns, mas se oferece a todos, onde a salvação não consiste somente no conhecimento, mas no esforço moral sob o impulso da graça; sem falar de numerosas incompatibilidades dogmáticas a respeito da Encarnação, da Ressurreição, da união da alma e do corpo... Ora, um dia, o Sr. Vaquié descobre A Caridade Profanada, de Jean Borella, e, sob o disfarce místico, sob as numerosas referências tomistas, reconhece a Gnose... Funda então, com o Sr. Étienne Couvert, a Sociedade Augustin Barruel para lutar contra essa desfiguração do Catolicismo tal como a Igreja sempre o ensinou, aquele que defendemos. Interrogamos para vós o Sr. Couvert, pois... « a Gnose nos diz respeito ».*

**A gnose aparece frequentemente como pertencendo exclusivamente ao século II: por que se é gnóstico em nossos dias?**

Tenho ao meu redor exemplos significativos. Amigos, antigos colegas de estudo, membros de minha família chegaram aos cinquenta ou sessenta anos. Durante toda a vida trabalharam em empresa, como quadros; trabalho absorvente, extenuante, noite e dia, durante trinta ou quarenta anos. Sua vida intelectual ficou em pousio; falta de tempo, de liberdade de espírito. Eis que se aposentam ou se pré-aposentam: enfim desocupados e com o espírito vazio, entram na primeira livraria que encontram. Que veem logo? Livros esotérico-ocultistas na vitrine, nas primeiras prateleiras à direita depois da porta. Quilômetros de uma literatura abominável e atraente: os mistérios da grande Pirâmide, da ilha de Páscoa, da Atlântida, depois o Graal, o simbolismo... Lançam-se sobre essas obras, leem-nas avidamente, apaixonam-se. É um jogo intelectual, como outros jogam bridge ou xadrez. Mas o demônio está presente; a fé cristã, enfraquecida pela falta de prática e de estudo, não pode resistir por muito tempo a essas leituras enfeitiçantes.

**Mas é claro que a gnose declarada é satânica; *no entanto* a Sociedade Augustin Barruel, que o senhor dirige agora, se deu por tarefa lutar contra sua infiltração em nossos meios. Um católico *tradicionalista* é, então, permeável a esse gênero de fantasmagoria?**

Há primeiro uma confusão entre a Tradição *católica* e a « grande tradição » esotérica reservada aos « iniciados » de todas as religiões. Jogando com a palavra, os neognósticos de pretensão cristã « *trabalharam* » com perseverança o meio tradicionalista, com um sucesso certo, é o mínimo que se pode dizer. Sua penetração encontrou resistências, é claro, e eles reconheceram esse *fracasso;* por exemplo, o Sel de la Terre ¹ citou recentemente um texto de Jean Hani, totalmente explícito: « Os meios que deveriam ser os mais atentos à mensagem de *Guénon* são justamente os que lhe são mais fechados e, quando o conhecem, os mais hostis... À medida que a obra de Guénon ganha audiência, é *alvo* de críticas cada vez mais violentas desses meios. Violentas e, digamo-lo claramente, injustas e por vezes odiosas... o que lemos desse gênero é ao mesmo tempo aflitivo e revoltante... » Esse texto é interessante porque o senhor nota que o Sr. Jean Hani nem sequer se pergunta se essa revolta contra os neognósticos não é a reação de uma fé cristã, refratária por natureza a tal penetração e totalmente legítima. É por isso que o Sr. Vaquié e eu lutamos com todas as nossas forças contra essa invasão, e a confissão do Sr. Hani soa a nossos ouvidos como um canto de vitória; vitória toda relativa, aliás; veja o sucesso do livro de Éric Vatré nos meios parisienses: sua « Droite du Père » ² era, no entanto, uma tentativa renovada de instilar nos espíritos uma retomada dos temas gnósticos, infelizmente! Quanto a nós, evidentemente, « não havíamos compreendido nada », e o Sr. Hani continua: « Os autores parecem bem não ter compreendido nada da obra de Guénon e fazer continuamente contrassensos na interpretação do que ele escreve. » Eu mesmo examinei com lupa a obra de Jean Borella e dissequei um pensamento obscuro, fugidio, verboso (esse estilo é muito característico), destinado a fazer passar sub-repticiamente as teses gnósticas deixando crer que se permanece na fé católica. Meu livro é, portanto, « um libelo infamante e fanático », segundo a expressão de Jean Hani, mas ele mesmo e seu amigo tiveram o cuidado de não rebater meus argumentos em A Gnose entre nós, de meu segundo livro ³.

**No Boletim « Esoterismo Cristão », vê-se que a adaptação cristã do esoterismo contemporâneo é sobretudo obra de um sacerdote, o Abade Stéphane. Como é possível que um sacerdote se deixe assim fascinar pela gnose?**

O caso dos eclesiásticos é mais grave, é claro. Há aí um orgulho insensato. O demônio se encarniça sobre os sacerdotes mais que sobre os leigos. Procura desencaminhá-los, o que vemos muito bem quando estudamos as origens das seitas gnósticas: sempre sacerdotes. Durante o Renascimento, foi o Abade Trithemius quem insuflou a Cabala (esoterismo judaico) entre os humanistas do norte. No século XIX, foi o cônego Rocca; que há de espantoso em que, para os gnósticos guenonianos, seja o Abade Stéphane, um professor de matemática, diga-se de passagem. Soube recentemente que as elucubrações do Sr. Crombette foram introduzidas na França por um Abade Heyraud, da diocese de Valence. Ele havia anunciado o fim do mundo em 1984, aliás, e teve a boa ideia de morrer a tempo.

Oh! poder-se-ia dizer outro tanto dos visionários, do tipo Maria de Ágreda ou Catherine Emmerich, que pretendem ter visto o Cristo partir em viagem para a ilha de Chipre, para a Caldeia, para junto dos Magos etc. etc. E há boas almas para ler essas imposturas... e receber uma excelente pré-formação ao esoterismo! (Primeiro, o senhor « sabe coisas » que os simples leitores do Evangelho ignoram; depois, se lhe afirmam que existe lá longe uma tradição cristã desconhecida...)

**A expressão « Esoterismo Cristão » soa estranha; mas em que ela é uma contradição nos termos?**

Há entre o ensinamento cristão e o ensinamento gnóstico uma antítese fundamental. O primeiro ensinamento visa transmitir a vida; o segundo, transmitir a morte. Jesus Cristo nos chama à ressurreição e à vida (sobrenatural), numa plenitude de perfeição. Os gnósticos nos chamam ao aniquilamento, à absorção no grande Todo, ao Nirvana, à queda no abismo, à fusão no Cosmos, todas formas de uma atitude suicida e mórbida. A sociedade moderna, impregnada de esoterismo maçônico, difunde, como se diz, « uma cultura de morte ».

**A oposição radical « gnose-catolicismo » se assemelha muito à oposição « Platão-Aristóteles », e o senhor assinala, num capítulo intitulado *Gnose e Platonismo,* que os ressurgimentos platônicos coincidem com os renovos gnósticos. Pode-se dizer que Platão era « gnóstico »?**

Todos os gnósticos, ao longo dos séculos, sempre fizeram referência a Platão; o que não quer dizer que Platão fosse gnóstico, mas que se podiam encontrar em seu sistema de pensamento elementos capazes de ser reinterpretados e incluídos numa cosmologia panteísta: o Mito da Caverna, a reencarnação, o demiurgo, a reminiscência etc. Os gnósticos fizeram, portanto, uma releitura de Platão.

**No fim da vida, em suas Retratações, Santo Agostinho afirma de Platão e dos neoplatônicos que « eram homens ímpios, que não se devia louvar tanto por causa dos grandes erros em que caíram ». Que pensa o senhor disso?**

Não era possível fazer uma leitura cristã de Platão. Os Padres da Igreja *tentaram-no* e foi um *fracasso* completo. O pensamento de Platão está em manifesta contradição com a fé cristã. Digamos que esses Padres da Igreja justapuseram o ensinamento *da* fé e o pensamento neoplatônico, justaposição cheia de incoerências, o que se percebe bem na leitura do pseudo-Dionísio, por exemplo. E essa justaposição *indevida* está na origem de todas as heresias na Igreja, desde sempre. O senhor constatará que as referências neoplatônicas são a base de *todos os* desenvolvimentos entre *os* neognósticos de hoje, como os Senhores Borella, Jean Hani e os outros. Conhecem bem os bons *autores* e esforçam-se por *dar-lhes* uma coloração pseudocristã para enganar os ingênuos.

**Para *nós,* que somos estudantes de Filosofia tomista, poderia dizer-nos o que distingue radicalmente o *verdadeiro* gnóstico do verdadeiro *tomista?***

Sempre afirmei que o antídoto *fundamental* ao pensamento *gnóstico* era a filosofia de São Tomás de Aquino, essencialmente porque ela é uma atitude do espírito que se submete *humildemente* ao real; o *realismo* de São Tomás é uma forma de humildade, pois nossas ideias são recebidas e não produzidas por nós mesmos. E essa *recepção* dos conhecimentos *em* nosso espírito é um dom de Deus, que nos aperfeiçoa pela observação do mundo criado, sua obra. O homem não tem de construir *as* coisas, mas de agradecer a Deus por no-las ter posto à disposição para fazermos bom uso delas. Ao contrário, o gnóstico esforça-se por *magnificar* o orgulho humano: *eu faço* a verdade, sou senhor de mim, não devo nada a ninguém; difunde um ceticismo divinizante. E, a partir daí, não é mais possível guardar a fé *cristã.* Devo dizer que a filosofia tomista exige reflexão, um esforço difícil de estudo. Mas exige sobretudo um domínio da *sensibilidade* e um freio às *fantasias* imaginativas, virtudes todas adquiridas por uma verdadeira ascese intelectual à qual nossos contemporâneos repugnam.

L.D.

Artigo extraído de:

***Enthousiasmes*** — *Jornal trimestral do ateliê Léon de Corte do Instituto Universitário São Pio X, 21, rue du Cherche-Midi - 75006 Paris*

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¹ — Estudo notável *Qui a inspiré René Guénon ?* \[Quem inspirou René Guénon?\], por Antoine de Motreff, publicado no *Sel de la Terre* n.º 13, p. 33.

² — Vatré, Éric, *La Droite du Père, enquête sur la Tradition catholique d'aujourd'hui* \[A Direita do Pai, inquérito sobre a Tradição católica de hoje\], amálgama de gnósticos notórios (Jean Borella, Jean Hani etc., e de personalidades da Tradição como o Sr. Abade Laguérie ou Mons. Tissier de Mallerais...

³ — A Gnose Contra a Fé, pelas Edições Chiré, onde se encontra uma recensão atenta da obra *La Charité Profanée* \[A Caridade Profanada\], do Sr. Borella, no capítulo *A Gnose entre nós.* Se o senhor só devesse ler um único livro do Sr. Étienne Couvert, e, desse livro, só esse capítulo, é o mais urgente!