Nota sobre a Cabala Correm, em nossas famílias tradicionais, ideias bem estranhas sobre a natureza e a origem da Cabala judaica. São a fiel reprodução de afirmações de escritores do século passado copiadas nos livros dos judeus convertidos dessa época, essencialmente o rabino DRACH e os irmãos LEHMANN. Ora, essas afirmações são totalmente infundadas. Estudos mais aprofundados permitiram formular sobre a Cabala juízos infinitamente mais precisos, que resumimos em nosso estudo sobre a Gnose no Humanismo. É necessário, portanto, voltar ao assunto e anotar as dificuldades que encontramos no curso de nossas pesquisas. Primeira dificuldade, comum a todos os convertidos. Um convertido recebeu toda a sua formação moral e intelectual fora da Fé católica. É justamente porque essa formação lhe aparecia como maculada por certo número de deficiências que se aproximou da Igreja. Mas a conversão não produziu imediatamente todos os efeitos que ele podia esperar. A formação primeira, não cristã, deu um feitio definitivo a sua inteligência, que resiste às verdades da Fé recebida. É-lhe preciso, portanto, procurar entre sua cultura primeira e as novidades adquiridas em decorrência de sua conversão pontos de concordância. Operação difícil, sempre incompleta e inacabada. Não se encontra em seu ensino essa bela harmonia inteligente que corre por toda a obra de São Tomás de Aquino. Os judeus convertidos do século passado não escapam à regra comum. O Rabino DRACH e os padres LEHMANN cometeram certo número de erros sobre a Cabala. Isso não se deve ao fato de serem falsos convertidos, mas ao de que, sendo judeus de nascimento e de formação cultural, conservaram, apesar de sua conversão, ideias falseadas sobre as tradições judaicas, ideias que corriam em seu meio de origem e das quais tiveram dificuldade em se livrar depois da conversão. Basta ler suas obras com um pouco de discernimento para fazer a triagem entre o que adquiriram de verdades por sua conversão e o que essa conversão ainda não pôde modificar em seu espírito. Vejamos o caso da Cabala. Não nos enganamos quanto à palavra: trata-se da Cabala gnóstica e panteísta, essa pretensa "tradição oral" que remontaria ao cativeiro da Babilônia. A palavra mesma aparece somente no século XII de nossa era no vocabulário judaico. Seu ensino aparece pela primeira vez de maneira bem clara no Livro do Zohar, isto é, do Esplendor, redigido por um escritor espanhol do século XIII. O autor do Zohar esforça-se por levar os rabinos de seu tempo à Gnose panteísta. Para isso, traduziu do Grego para a língua hebraica os ensinamentos tomados dos Grandes Gnósticos dos primeiros séculos cristãos. O En Sof é a transcrição do Pleroma dos Gregos, as sefirot, dos Éons e dos Arcontes, etc... etc... Tudo isso envolvido numa mitologia extravagante que tinha por fim desencaminhar os espíritos em meandros complicados dos quais não podiam extrair a substância, sem se revoltar com essa inversão radical da fé judaica segundo o Antigo Testamento. Evidentemente o autor do Livro não podia explicar a seus correligionários que queria ensinar-lhes uma nova religião, o que teria tirado toda autoridade a seu trabalho. Afirmou, portanto, que acabava de encontrar um velho manuscrito escrito outrora por um rabi Simeão ben Iochai (que oportuno achado!), que este ali havia consignado o ensino transmitido a ele pelos Sábios de Israel e recebido por Moisés da boca mesma de Javé no Sinai. Ensino permanecido secreto, descoberto recentemente: o verdadeiro Judaísmo, portanto, ao qual todos os rabinos deviam aderir. Pia mentira, mas diremos abominável impostura. O rabino DRACH e os Irmãos LEHMANN, por sua vez, retransmitiram essa lenda e concederam ao Livro do Zohar um respeito e uma autoridade religiosa obtidos por fraude. Não se pode encontrar nas reprovações que o Cristo e os apóstolos fizeram aos judeus de seu tempo fórmulas que permitissem supor a existência de pensamentos gnósticos ou panteístas. O Cristo lhes reprova essencialmente ratiocinar sobre a Lei de Moisés e impor ritos complicados a seu bel-prazer, com uma aplicação minuciosa à letra da Lei. Isso não é gnóstico. Não lhes reprova erros sobre a natureza metafísica do mundo, sobre a reencarnação ou sobre o Grande Todo Pleroma e outros princípios gnósticos bem conhecidos. No Talmude dessa época, tampouco se encontram tais extravagâncias metafísicas. Os judeus são minuciosos quanto à Lei; os Gnósticos são antinomistas e recusam toda lei. Há aí uma oposição fundamental entre a mentalidade judaica dessa época e o ensino da Gnose. É um ponto que foi bem visto e bem desenvolvido pelo Padre Bonsirven em seu livro: "Sobre as ruínas do Templo". Vê-se aparecer uma primeira forma de Gnose somente entre os judeu-cristãos, entre os primeiros convertidos, na esteira do ensino de Fílon de Alexandria. Ora, esses temas gnósticos são retomados da tradição grega de Platão e não da tradição judaica. Lembremos que a lenda de um Platão inspirado por Moisés é uma impostura inventada pelos neoplatônicos, na qual Santo Agostinho acreditou por um momento. Fílon transmitiu aos judeu-cristãos essa ideia de que o Cristo, portanto o Verbo, era um anjo, isto é, um "demiurgo" ao gosto de Platão, um fabricante do Mundo. Na Epístola aos Hebreus, dirigida pelo Apóstolo aos Ebionitas, reprova-se uma concepção angélica do Verbo e a espera de um duplo Messias. Vê-se mal, também aí, uma penetração importante de Gnose entre os Ebionitas. É a partir de Simão, o Mago, um judeu samaritano convertido, que a Gnose penetra nos meios judeus convertidos ao Cristianismo. Segunda dificuldade Os judeus convertidos do século passado ligaram-se a um cristianismo falseado pelo tradicionalismo e pelo fideísmo próprios dessa época. Demonstramos em nosso estudo sobre a Gnose na "Tradição" (entre aspas) que essa forma de Cristianismo estava infectada pelo Platonismo e pelo Iluminismo maçônico triunfante nos meios católicos tradicionais desse tempo. Ora, sabemos que o rabino DRACH tornou-se discípulo de Lamennais e amigo de Bonnetty, que lhe abria as colunas de sua "Revista de filosofia Cristã". Sabemos que os irmãos LEHMANN foram convertidos por seu professor de Filosofia do Liceu de Lyon, discípulo do padre Noirot, grande platônico, também ele impregnado de Fideísmo. Era a desgraça dos tempos. Ao ler o Livro do Zohar, julgaram reencontrar nele as fórmulas de um misticismo platônico que impregnava seu espírito. Julgaram que esse livro era muito antigo, como afirmava o autor da Idade Média, e recolocaram a redação na época de Cristo. O cônego LEHMANN Augustin, em seu livro sobre o Messianismo, faz frequentemente referência ao livro do Zohar como a um livro judeu, cheio de verdades cristãs. Havia aí uma interferência lamentável entre um misticismo judaico gnóstico e uma mística platônica de pretensão cristã. Compreende-se bem o erro deles, mas é um erro provocado por um conhecimento incompleto e truncado do verdadeiro cristianismo. Ainda aí, o desprezo pela escolástica e pela obra de São Tomás de Aquino manteve os espíritos religiosos em equívocos muito perigosos. Compreende-se, aliás, muito bem por que o rabino DRACH publicou seu livro sobre a Cabala dos Hebreus. Adolphe Franck acabava de explicar a seus correligionários o verdadeiro sentido da cabala. Tratava-se bem de convidá-los a entrar na verdadeira Gnose, a não se enganarem sobre o sentido do Zohar, a considerá-lo um verdadeiro manual de Gnose. Demos o resumo dessa apresentação em nosso estudo sobre a Gnose e o Humanismo. É Adolphe Franck quem tem razão, e é o rabino DRACH que não compreendeu e que quer "vingar" o livro do Zohar "da falsa imputação de panteísmo". Ai de nós! E. C.