# Nos livros: "A direita do Pai"

**Éric VATRE, Edição Guy Trédaniel, 1994.**

Eis uma obra que visa relançar os mitos gnósticos em nossos meios tradicionalistas. O editor, Trédaniel, é especialista nesse gênero de publicações. A Direita do Pai? Credes tratar-se do Pai Eterno? Enganai-vos: trata-se do Pai da Gnose, digamos, René Guénon... para não evocar um Outro.

O autor, Éric Vatré, apresenta a seus interlocutores um questionário bem curioso. Depois de perguntar a cada um suas origens familiares, depois suas fontes de inspiração, passa à crise da Igreja, em seus aspectos mais marcantes: o Concílio, a nova missa, o encontro de Assis, o caso de Mons. Lefebvre. Depois inflete suas perguntas na direção da "Tradição", do "sagrado", no neutro, é claro, (τὸ ἱερόν, diríamos em grego), noção vaga aplicável a todo o domínio do criado, para chegar à pergunta essencial, aquela para a qual a obra foi escrita: "Que pensais de René GUÉNON?" e "Pensais que possa existir uma GNOSE CRISTÃ?" C.Q.F.D. Só há um remédio para a crise da Igreja, é o retorno à GNOSE DE SEMPRE; eis o que se chama um interrogatório armadilhado.

Na escolha dos interlocutores, nota-se que 4/5 são gnósticos experimentados, carimbados como tais, cujos nomes entulham nossos meios de direita; encontram-se ali Jean BORELLA, Jean HANI, Jean PHAURE, e outros... cujas respostas são conhecidas de antemão, embora sejam verbosas, longas, enfadonhas e ininteligíveis para a maioria.

Anotei algumas respostas nas quais me senti implicado, sem ser nomeado; a do Sr. MICHEL-MICHEL, por exemplo, um guenoniano da Action Française:

"Devo dizer, enfim, quanto me irritam esses reflexos condicionados em certos meios "tradi"... que consistem em suspeitar sistematicamente de toda busca metafísica sobre o mundo intelectivo da intuição, de ressurgência da eterna Gnose, mãe de todas as heresias, os mesmos que qualificam de "panteísmo" toda tentativa de reconhecer a ordem do mundo e seu "encantamento"... É preciso reconhecer a legitimidade da Escola renana (1), da Teologia apofática (2) e da sucessão de Dionísio, o Areopagita (3) e não mutilar a tradição da Igreja, como o gostariam certos caçadores de gnósticos. Não sou hostil à Inquisição, mas desejo que os inquisidores sejam ao menos qualificados..."

Não, Sr. MICHEL-MICHEL, não se trata de suspeita, mas de acusações francas e nítidas dirigidas a gnósticos que ensinam claramente a Gnose e o panteísmo, que, para não "mutilar", como dizem, a tradição da Igreja, a envenenam com a de Lúcifer e que jamais respondem às objeções que lhes são dirigidas...

Aliás, minhas acusações não são "reflexos condicionados", como dizeis, mas bem o fruto de pesquisas e de estudos a que consagrei toda a minha vida. Enfim, todo verdadeiro cristão, se tem a fé esclarecida e sólida, é "qualificado" para denunciar suas falsificações.

Anotei, ao longo da leitura desta obra, algumas respostas notáveis que destoam em meio ao concerto de louvores dirigidos a René GUÉNON.

Pierre BOUTANG, por exemplo, teve a coragem de mostrar que Charles MAURRAS era totalmente estranho a essa pretensa Tradição:

"MAURRAS não era especialmente orientado para um pensamento como o de Guénon. Tinha a maior desconfiança em relação ao que é gnóstico e provavelmente alguma desconfiança também em relação ao que toca o neoplatonismo e, mais geralmente, o esoterismo."

E Boutang conclui:

"Uma visão gnóstica não é cristã e, se é cristã, não é gnóstica. Que se sabe do Cristianismo gnóstico? Santo Agostinho passou parte de seu tempo combatendo os Gnósticos." (4)

Obrigado, Sr. Boutang! Charles Maurras era demasiado razoável, tinha demasiado bom senso para se deixar atrair pelas elucubrações dos Gnósticos.

Jean-Marie PAUPERT, igualmente, anotou bem suas repugnâncias:

"Tanto por natureza e por instinto quanto por meus estudos, desconfio de tudo o que emana das correntes gnósticas, sincretistas, e de todos os espíritos em busca de não sei que grande e misteriosa Tradição."

Mas a resposta mais esclarecedora é a de Thomas MOLNAR, o único que teve a coragem de definir com precisão e clareza o que é a GNOSE. Eis essa definição:

"Propriamente falando, há contradição entre "gnóstico" e cristão. Este crê que sua alma e seu corpo foram criados por Deus, em sua bondade, que o fiel não "contém nenhuma centelha da divindade, que não se fundirá com Deus à sua morte, mas permanecerá criatura, tendo necessidade da graça toda a vida.

O Gnóstico está convencido, ao contrário, de que não foi criado por Deus, mas pelo princípio oposto, o Demiurgo, o Príncipe das Trevas, que a alma dos "eleitos" contém a centelha divina que os distingue dos seres "materiais" e que, ao fim do drama cósmico/apocalíptico, os eleitos vencerão o demiurgo e restabelecerão o reino de Deus, reintegrando a luz divina, até então privada do aporte de sua própria "centelha luminosa".

Constata-se, a cada etapa desse drama, a incompatibilidade fundamental entre o cristianismo e a Gnose, como se constata em que grau nossas ideologias modernas, inclusive as materialistas, tomam emprestada a armação de sua crença à gnose cristã, à Gnose pura e simples. E percebemos bem as razões do atrativo da gnose para certos cristãos em certas épocas".

Não se poderia dizer melhor. Bravo, Sr. MOLNAR! Todos os estudos sobre a Gnose que distribuí em meus três livros apenas desenvolvem esse esquema tão claro e tão fundamental e que é a resposta exata a esses outros interlocutores embaraçados em seu palavreado e em suas elucubrações. (5)

Lamenta-se também que o autor da obra tenha evitado fazer as perguntas sobre GUÉNON e sobre a GNOSE aos poucos religiosos dominicanos ou beneditinos que se dignou interrogar. Eu teria, no entanto, gostado de ouvir a resposta de um Padre Marie-Dominique PHILIPPE, por exemplo. Depois de ter exaltado a filosofia de Aristóteles e de São Tomás de Aquino, teria provavelmente fulminado com vivacidade e humor esses pobres guenonianos enredados em suas mentiras.

Enfim, senti-me em profunda comunhão de fé e de pensamento cristão com os dois únicos sacerdotes da Fraternidade São Pio X interrogados.

Como o Padre Philippe LAGUÉRIE, tive a sorte de nascer numa família profundamente cristã: Honra a meus pais, como aos de sua família, que souberam transmitir sua fé inteira. É um privilégio raro hoje, tantos pais renunciaram a ensinar a fé a seus filhos e traíram assim seu primeiro dever de estado. Como o Padre Laguérie, tenho a fé "cravada no corpo". É uma expressão que me é cara e que reencontrei com alegria em sua resposta. Como ele também, nunca duvidei. É a resposta de BOSSUET a um moribundo que lhe perguntava: "Senhor, sempre vos tive por homem honesto; mas eis que estou prestes a expirar: falai-me francamente, tenho confiança em vós; que credes da religião? — Que é certa e que nunca tive a menor dúvida..." (6)

Éric Vatré reservou para o fim de sua obra as respostas de Mons. Tissier de Mallerais, e foi bom. Enfim um bispo, e um bispo verdadeiramente católico, aquele que vai dar o verdadeiro pensamento da Igreja sobre a GNOSE:

"Desde o primeiro século, diz ele, a Igreja se opôs à Gnose, essa pretensa "Tradição primordial" que existia antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Gnose, vós o sabeis, (?) consiste na afirmação de uma doutrina superior e mais secreta que a doutrina cristã e na ideia de que a salvação vem pela ciência e não pela virtude ... A Gnose PECA, PORTANTO, CONTRA A FÉ, contra a Tradição autêntica da Igreja... NÃO HÁ, PORTANTO, VISÃO GNÓSTICA POSSÍVEL DO CRISTIANISMO. A Tradição cristã e católica apoia-se, no interior mesmo da vida da Igreja, na teologia católica, a de São Tomás de Aquino".

Ponto final. Conclusão necessária. Eis uma bela palavra de bispo. Deve-se, contudo, lamentar que, por uma última habilidade, o autor da obra tenha acrescentado, em contradição manifesta com essas nobres palavras, uma página de comentários na qual encontrou meio de lembrar ainda o nome de Jean Borella.

E. C.

**Notas**

1. Mestre Eckhart, condenado pela Igreja, Suso, Tauler, Nicolau de Cusa, místicos impregnados de Gnose.
2. apofática, isto é, que afirma que nada se pode dizer sobre Deus... Pobre São Tomás de Aquino, que preencheu páginas sobre Deus...
3. Digamos mais francamente, o Pseudo-Dionísio.
4. Cf. Étienne COUVERT: "A GNOSE CONTRA A FÉ", cap. I "Gnose e Platonismo", onde mostro esse combate de Santo Agostinho contra os Gnósticos de seu tempo.
5. Cf. meus três livros sobre a Gnose, editados por Chiré.
6. Citado por Paul HAZARD: "A crise da consciência europeia", Boivin, p. 206.

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