Gnose e pensamento russo

OS DADOS HISTÓRICOS

O povo russo foi convertido à versão grega oriental do Cristianismo, mas a recebeu numa liturgia em eslavão e numa escrita cirílica (kirilliza), totalmente desconhecidos no resto do mundo cristão. Esse uso de uma língua particular foi um obstáculo essencial à penetração da cultura cristã ocidental na Rússia. Desempenhou um papel análogo ao do árabe na expansão do Islã em torno do Mediterrâneo. Contudo, o obstáculo do eslavão não foi tão radical quanto o do árabe, porque a religião cristã permanecia fundamentalmente a mesma de ambos os lados.

É importante notar também essa catástrofe que foi, para as populações da Rússia, a invasão mongol e a destruição dos centros urbanos, que provocou durante dois séculos uma emigração para as florestas setentrionais e um retorno a uma semisselvageria.

O clero ortodoxo conservou por bastante tempo, durante a Idade Média, o uso do grego. Viram-se então, nos séculos XI e XII, prelados russos, como Cirilo de Turov ou o metropolita de Kiev, Clemente, sustentarem polêmicas com grande aparato de textos gregos sobre questões de exegese bíblica ou de ciências especulativas.

Depois do cisma grego e sobretudo da queda do império bizantino, o uso do grego perdeu-se no clero russo. E como ele ignorava o latim, viu-se completamente isolado do resto da Cristandade. Com efeito, o latim era o veículo da cultura e das ciências em todo o Ocidente; estava na fonte de todo o ensino cristão.

Enquanto na Europa a Igreja latina contribuía para difundir uma cultura notabilíssima por seus mosteiros, suas Universidades, suas ordens religiosas, na Rússia o clero, reduzido à liturgia eslava, desinteressou-se do ensino. Pôs a ênfase na celebração litúrgica com um ritualismo rigoroso e formalista. Negligenciou o dogma e a moral e, com isso, perdeu sua influência profunda sobre as almas.

O povo foi privado de instrução religiosa. Os que sabiam ler o eslavão contentavam-se com a "Tchétia-Minéia", o martirológio dos Santos. Para os outros, a religião popular foi marcada por ignorância, superstição e magia: uma literatura popular, impregnada de maravilhoso, muitas vezes tirada dos apócrifos da Bíblia ou de livros apocalípticos cujas interpretações extravagantes só podiam perturbar as almas ou aterrorizá-las.

Enquanto se desenvolvia no Ocidente latino uma filosofia, uma teologia e ciências religiosas notabilíssimas, designadas pelo nome de "escolástica", a Igreja Russa manteve-se fora dessa corrente de pensamento cristão. O clero só mostrou desdém pelos problemas doutrinais, pelas definições, pelas deduções lógicas, o que recusava sob o nome de "racionalismo latino".

Condenou-se assim à estagnação intelectual e moral.

"Não se pode fazer ideia da fé ortodoxa russa a partir da teologia oficial, escreve Berdiaev em "A Ideia religiosa russa"; a fé ortodoxa russa não conhece doutrina teológica obrigatória e constituída em sistema, quase não teve escolástica. O racionalismo teológico é o que menos convém à consciência religiosa russa. A ideia religiosa russa implica que o mistério da vida divina não pode ser expresso numa concepção racional."

Ao rejeitar a escolástica e recusar o uso natural da razão nos estudos religiosos, a Igreja russa tornou-se inapta a resistir às influências ocidentais que penetraram nela a partir do século XVII. É verdade que, nessa época, a Universidade de Kiev começou a dar seu ensino em latim. Ai de nós! foi o começo de uma verdadeira subversão antirreligiosa.

Quando Pedro, o Grande, começou a abrir a Rússia para o Ocidente, foi o protestantismo que se engolfou em seu vasto império. Ele próprio, Pedro, o Grande, não havia recebido nenhuma formação religiosa sólida, nenhum ensino moral.

Um padre jesuíta, o P. Milan, esclarecia numa carta a seus superiores:

"A menos que haja um milagre de primeira ordem, não há esperança de que o tsar se transforme e se entenda com o Vaticano. Grandes obstáculos demais se opõem a isso. Seria preciso submeter-se à autoridade do Papa e aos rigores da moral, renunciar aos caprichos e aos abusos de poder."

Com efeito, foi um príncipe fantasioso e violento, caprichoso e mimado, de inteligência viva, mas sem rigor nem firmeza. Assim, quando conheceu um homem superiormente dotado, muito persuasivo, ficou-lhe totalmente submetido. Trata-se de Teófanes Prokopovitch.

Antigo aluno do colégio grego de Santo Atanásio, fundado em Roma pelo papa Gregório XIII, este, de volta à Rússia, abjurou a fé católica e lançou-se numa admiração ingênua pela filosofia de Bacon e pela de Descartes. Tirou dela teorias totalmente protestantes em matéria de dogma e de vida social e religiosa. Ensinou ao tsar Pedro a superioridade da moral laica sobre o ensino da Igreja e a concepção inteiramente protestante de um Estado que controla a vida espiritual de um país.

Pedro inclinou-se ao luteranismo, frequentou os templos protestantes, protegeu os Quakers e os estrangeiros, desde que pertencessem à confissão de Augsburgo. Um de seus primeiros favoritos foi um ardente calvinista, o general Lefort. Todos os estrangeiros que atraiu para a Rússia eram protestantes.

Sob o reinado da imperatriz Ana, isto é, sob a tirania de seu favorito, Biren, os protestantes foram os senhores absolutos do Império. "Nessa época, diz Mons. Filareto, a guarda, os colégios (isto é, os ministérios), a Academia de ciências, o exército, a frota estavam em poder dos protestantes." Prokopovitch rastejava diante de Biren, mandava depor, encarcerar, maltratar os bispos russos insuficientemente dóceis. O Sínodo criado pelo tsar Pedro nomeava o episcopado entre sacerdotes já conquistados à reforma protestante. São esses bispos que vão, no século XVIII, acolher de braços abertos as lojas maçônicas e o ensino dos "filósofos" franceses.

O que se chamou na Rússia o partido alemão era, na verdade, o partido protestante, e foi todo-poderoso durante dois séculos.

Os Romanov abriram a Rússia ao mundo ocidental e ao materialismo das cidades europeias. Lançaram a moda dos enciclopedistas franceses e da filosofia alemã.

"Quando a Rússia se abriu às influências de fora, escreve Henri Massis, foi para beber a longos tragos os erros de uma Europa já corrompida, da qual nada em seu próprio fundo poderia guardá-la". Desde o "Contrato Social" e as antinomias de Kant até o materialismo histórico de Karl Marx, os russos acolheram com sombrio ardor todos os sistemas mais perigosos e mais destrutivos da fé cristã. Dois séculos bastaram para entregar o país ao inferno bolchevique.

AS FONTES DA FILOSOFIA RUSSA

A Franco-Maçonaria foi fundada em Londres em 1717. Nos vinte anos seguintes, espalhou-se por toda a Europa pela ação perseverante do governo inglês. Foi introduzida na Rússia muito cedo por ingleses protestantes. Sob o impulso de três homens enérgicos — Novikov, Schwartz e o príncipe N. Troubetskoï — espalhou-se por toda a elite culta russa, de modo que todo o pessoal político e religioso do governo tsarista era filiado às lojas. Multiplicaram-se ao longo do século XVIII em todas as principais cidades da Rússia, notadamente em Moscou e São Petersburgo.

Novikov fundou então a primeira grande casa editora da Rússia. Difunde toda a literatura iluminada do Ocidente. Publica em 1775 o livro de Claude de Saint-Martin: "Dos erros e da Verdade" traduzido para o russo. Funda igualmente a "Sociedade amical", cenáculo literário por onde passam quase todos os escritores e homens de estado destinados a marcar o reinado do Imperador Alexandre I. Karamzin e Kiréevski faziam parte dela. Esses jovens maçons traduzem e difundem nas escolas as obras de filosofia iluminista.

O grão-duque Paulo, o futuro imperador Paulo I, é iniciado nos mistérios swedenborgianos da maçonaria sueca. Existe dele um retrato em que ostenta as insígnias. Sua esposa, a futura imperatriz Maria Feodorovna, encontrou Saint-Martin em seu principado prussiano de Montbéliard.

Um professor alemão importado, Johann Schwarz, funda o ramo russo da ordem dos Rosa-Cruzes para difundir o saber filosófico, o aperfeiçoamento moral a fim de "tornar-se sem pecado como Adão antes da queda". Seu continuador, Lopoukhine, que foi padrinho de Kiréevski, desenvolve o pensamento gnóstico e iluminista em sua obra: "Alguns traços da Igreja interior", reeditada em francês em 1800.

Encontram-se nela os temas bem conhecidos da queda de Adão criado andrógino, exilado do mundo da luz, da regeneração final, da Igreja interior, da qual a Igreja estabelecida é apenas a figura exotérica, a difusão do monaquismo hesicasta (do grego tranquilidade), forma grega do Quietismo (1).

É Lopoukhine quem fará editar, misturados, Paracelso e Macário do Egito, Molinos, Claude de Saint-Martin e Gregório Palamas, introduzindo certos Padres Gregos em suas coleções maçônicas.

A imperatriz Catarina II, a princípio favorável a todo esse movimento, começou a assustar-se desde os primórdios da Revolução Francesa. Mandou então fechar as lojas, apreender os livros suspeitos e condenar Novikov. Foi então que Mons. Platão, arcebispo de Moscou, escreveu à imperatriz: "Rogo ao céu que se possa encontrar outro cristão como Novikov, não somente no rebanho que Deus nos confiou, a mim e a Ti, mas no mundo inteiro". Um bispo ortodoxo em socorro de um "Irmão"...

Com o advento de Alexandre I, a Franco-Maçonaria instalou-se como senhora no Trono, sobretudo quando Speransky se tornou confidente do imperador. Alexandre convertera-se ao iluminismo com sua egéria, a Sra. de Krüdener. O entusiasmo foi universal. Toda a elite intelectual, toda a nobreza se precipitou nas sociedades bíblicas, nas lojas de martinistas, de rosa-cruzes e de swedenborgianos.

Numa carta à irmã, Alexandre explica-lhe a diferença entre a Igreja interior e a Igreja exterior. (Diríamos em linguagem maçônica esotérica e exotérica). Recomenda-lhe Arnold, Swedenborg, Saint-Martin, a Imitação, Tauler, todos os clássicos da mística iluminativa.

Encontram-se na corte do Tsar Irmãos Morávios, Quakers, Jung Stilling, Baader. A sociedade bíblica de São Petersburgo, estabelecida pelos maçons ingleses, traduz a Bíblia para o russo vernáculo. No Santo Sínodo reinam o príncipe Galitzine e seus amigos, Labzine, um aluno de Schwartz, e Kochelev, amigo de Lavater, de Saint-Martin e de Eckartshausen. A Rússia, desde o início do século XIX, está completamente maçonizada em sua elite intelectual e religiosa.

Na mesma época, a Academia de Kiev, que forma o alto clero da Igreja ortodoxa, está toda conquistada ao ensino da filosofia de Wolf, de Winckler e de Baumeister, que expõem as teorias de Leibniz. Essa academia contava já, sob Pedro, o Grande, até 2000 estudantes. Muitos destinavam-se aos mais altos cargos eclesiásticos e detinham a maioria das cátedras de filosofia nas outras Universidades russas. Compreende-se então a gravidade desse entusiasmo pela filosofia moderna.

Em 1804, publica-se Fichte, a primeira tradução de Kant. Um professor de fisiologia, Daniel Mikhailovitch Vellanskii, antigo aluno de Kiev, prega a filosofia da natureza de Schelling, um panteísta gnóstico. Outro antigo de Kiev, Matvei Mikhailovitch Troiskii, torna-se professor nas Universidades de Kazan, de Varsóvia, de Moscou. Publica obras impregnadas do empirismo inglês, entre elas a "Psicologia alemã", em que pretende que a alma é metafisicamente indemonstrável.

Essa extraordinária onda iluminista e teosófica vai exercer uma influência muito forte sobre a direção geral da cultura russa e sobre a literatura subsequente. Com efeito, todo o pathos do romance russo nasceu dessa invasão do sentimento religioso por um pietismo extravagante. A alma é convidada a dissolver-se na fluidez das emoções, das lágrimas, da angústia, das confissões mútuas, das confidências de todos os instantes. Há mesmo uma dissolução procurada e cultivada da razão e do bom senso. Esse romantismo impregnará toda a literatura do século XIX.

Simultaneamente, a mesma sensibilidade pietista e iluminada desenvolveu-se na Igreja ortodoxa. Por volta do fim do século XVIII, na Moldávia, um monge atonita ucraniano, Paisii Velitchkovski, havia traduzido do grego para o eslavão, depois para o russo, a "Filocalia", florilégio de ascese e de mística, coletânea de preces dos Padres orientais. Essa "Filocalia" foi o manual em uso no monaquismo russo.

No entanto, a literatura religiosa russa foi sobretudo obra de leigos, professores de Universidades. Formados, como dissemos, pela filosofia alemã e pelo iluminismo maçônico, esses escritores foram buscar suas referências religiosas entre os Padres gregos, referências obrigatórias na tradição ortodoxa.

Produziu-se aí um equívoco cuidadosamente mantido para esmaecer a fonte ocidental e maçônica em proveito da fonte mais confessável, a da fé ortodoxa. É um fenômeno bem visto e bem descrito por Alain Besançon.

Depois de construírem seu sistema de pensamento sobre o idealismo alemão, esses pensadores e filósofos russos puseram-se a estudar Isaac, o Sírio, João Clímaco e os outros Padres gregos. Mas leram-nos com óculos "gnósticos", através de Mestre Eckhart, Suso, os místicos alemães, depois Jacob Boehme, Swedenborg e os outros mestres do pensamento da Franco-Maçonaria.

Ora, essa dupla leitura era possível porque o idealismo alemão estava impregnado de neoplatonismo, tal como o pensamento dos Padres gregos, com, porém, uma diferença considerável. Estes últimos esforçavam-se por ensinar a fé cristã em sua integralidade, mas estavam impregnados pelo platonismo que reinava universalmente nessa época sobre os espíritos. Tinham dificuldade em fazer coabitar em si as verdades da Fé às quais se apegavam antes de tudo com tendências gnosticizantes, vindas do platonismo e que rejeitavam energicamente. Nutridos de neoplatonismo, esforçavam-se por endireitar e corrigir o que ele podia carregar de Gnose, muitas vezes com dificuldade.

Já nossos filósofos russos modernos empreenderam uma releitura gnóstica dos Padres gregos. Construíram uma falsa tradição que jamais existiu tal como a ensinaram. Utilizaram os mais heterodoxos desses Padres, Orígenes, Clemente de Alexandria, o Pseudo-Dionísio, que são as referências habituais dos gnósticos modernos, não para explicitar e desenvolver sua fé cristã, mas para ensinar uma visão cósmica e panteísta do mundo. É o que nos resta demonstrar.

OS GRANDES TEMAS GNÓSTICOS

Os principais filósofos russos do século passado, Kiréevski, Khomiakov, Soloviev, Berdiaev, reatualizaram no mundo moderno o gnosticismo de Orígenes e de Clemente de Alexandria, assim como a filosofia mística iluminada dos alemães Mestre Eckhart, Jacob Boehme e Franz von Baader. Tiraram dos Padres gregos, e notadamente de São Gregório de Nissa, uma Gnose de aparência cristã. Mas é preciso remontar muito mais alto e reconhecer na fonte dessa corrente o platonismo.

Ele é a chave dessa síntese gnóstica. Está fundado numa doutrina do Logos que os escritores russos retomaram acentuando seu caráter cósmico. Para Serge Troubetzkoy (1862-1905), o Logos é a ponte viva entre a filosofia pagã e a Fé. Publicou a "Metafísica da Grécia antiga" em 1890, a "Doutrina do Logos" em 1900. Seu ensino, todo impregnado de Platão, teve um sucesso prodigioso.

Eis as reflexões entusiasmadas de um de seus ouvintes:

"E os círculos de estudo sobre Platão, conduzidos por Serge Nikolaievitch! Horas inesquecíveis em que penetrávamos profundamente no mundo embalsamado dos diálogos do maior dos pensadores, horas durante as quais nosso mestre se revelava em toda a extensão e riqueza de seus talentos. Ora estudava a cultura grega, ora tornava-se o sábio filólogo, interpretando com respeito cada palavra do texto de Platão. Enfim, era o dialético distinto, desembaraçando atentamente os fios enredados do admirável pensamento platônico... Verdadeiramente vivíamos com Platão e participávamos de seu espírito..."

Ainda e sempre a "sedução" de Platão...!

Vejamos sua doutrina. Partimos sempre de Platão. Em seu mito da caverna, bem conhecido, ele ensina que o mundo conhecido em que vivemos não é senão uma sombra, uma aparência de um mundo ideal, o único declarado real. Eis uma entorse bastante considerável ao bom senso natural, que ensina exatamente o contrário.

Nossos filósofos russos, partindo desse ensino, afirmaram, numa linguagem transposta para vocabulário cristão, que o mundo presente é somente a imagem do mundo divino: dizem sua "epifania": Deus manifestou-se no Universo; digamos melhor, o Universo é Deus manifestando-se. A criação é o ato pelo qual Deus "encarnou-se". Saiu de si mesmo para pôr-se num "outro", no extra-divino. Repete-se, por assim dizer; reproduz-se fora de si mesmo, permanecendo idêntico a si mesmo: "Tudo é divino e irradia a beleza não terrestre do mistério sofiânico que é seu mistério" (Zander).

O homem, ele também, é a imagem reproduzida de seu modelo divino. É Deus manifestando-se num "outro". O homem é, portanto, uma encarnação de Deus, para empregar a linguagem cristã a serviço da Gnose. Trata-se de um "panenteísmo" que afirma que tudo está em Deus, um panenteísmo orgiástico que aparece no século XVIII em Skovoroda, uma tensão apaixonada e violenta rumo à transfiguração do mundo, à ressurreição da carne e à sua absorção em Deus.

Daí nossos filósofos russos tiraram seu culto do Povo com maiúscula, sua "Etnolatria". Kiréevski sofreu a influência profunda do panteísmo cósmico de Schelling. Pensa que a filosofia russa deve tirar da alma do povo russo toda a sua substância.

Essa idealização do povo é comum a todos os pensadores russos e prepara os espíritos para o Marxismo. Khomiakov quer atingir Deus através do povo:

"Na consciência russa, diz ele, religião e povo estão tão misturados que é difícil distingui-los. Na ortodoxia russa essa confusão chega a identificar o elemento religioso e o elemento popular".

Vive como imerso na vida do povo:

"Quem ama o povo russo não pode deixar de amar sua igreja, pois esse povo e sua Igreja são um só. E é somente entre os Russos que esses dois elementos são um só".

Essa idolatria do povo não é especificamente russa, impregna todas as ideologias revolucionárias de toda parte há séculos.

Depois de idolatrar o povo, nossos pensadores russos puseram-se a idolatrar a terra russa. Esse culto da Terra Nutriz, dizem eles, é especificamente russo. Absolutamente não! É essencialmente pagão e está na base de todos os cultos da Terra Mãe, em todos os povos da antiguidade.

Mas vão dar a esse culto pagão uma cor abusivamente cristã, segundo uma lenda gnóstica já difundida nos primeiros séculos cristãos, em particular entre os Elcasaítas:

"Quando a gota de sangue derramada por Cristo no Gólgota, escreve Berdiaev em "Espírito e Liberdade", tocou a terra, esta tornou-se outra, renovou-se e, se não o vemos com nossos olhos terrestres, isso provém da limitação de nossas faculdades receptivas. Toda a vida universal, toda a vida humana é já diferente desde a vinda de Cristo, representa uma nova criação".

Pelo contato com o sangue de Cristo, a terra divinizou-se.

Os filósofos russos utilizaram até o culto da Virgem, muito florescente no povo russo, para paganizá-lo. Verdadeira profanação! "A veneração da Virgem, escreve Bulgakov, é a alma da piedade ortodoxa, seu coração, o que aquece e reanima o corpo inteiro."

A Virgem, Mãe de Deus, torna-se aquela que realiza a maternidade divina da Terra, aquela que é chamada a engendrar Deus. Berdiaev desenvolveu essa utilização escandalosa de um culto cristão em vista de um retorno ao paganismo:

"O antigo paganismo russo, diz ele, misturou-se ao cristianismo russo e lhe deu uma fisionomia toda especial. A ortodoxia russa encerra em si certo dionisismo cristão que não se encontra na ortodoxia bizantina. Existe em algum lugar um ponto de contato entre a ortodoxia russa e a extraordinária seita místico-dionisíaca dos flagelantes russos (khlysty), seita no seio da qual o cristianismo se misturou de maneira estranha, até aterradora, a um velho paganismo russo. No culto que os Russos professam à Mãe de Deus, que muitas vezes vela a imagem de seu Filho divino, percebe-se facilmente o culto da Terra Russa. E a imagem dessa Terra Russa, mãe nutriz, e a da Mãe de Deus confundem-se por vezes no espírito do povo. O cristianismo russo é muito mais uma crença de essência feminina do que uma religião de sexo masculino." ("Rousskaia religioznaia idea" — A Ideia religiosa russa).

A literatura russa, como veremos em Dostoiévski, difundiu essa ideia gnóstica de que a Terra é a Mãe por excelência — portanto a Virgem Santa — na Santa Terra da Rússia. Para reconciliar-se com Deus, é preciso abraçar essa Terra, beijá-la, banhá-la de lágrimas, jurar permanecer-lhe fiel (fiel à terra!) e por aí reencontrar Deus.

É verdadeiramente uma utilização fraudulenta do mito pagão de Anteu, que renova suas forças ao contato da terra, mas é um ritual perfeitamente gnóstico, já em uso nas seitas no início da era cristã.

Enfim! A Gnose!... Nossos pensadores russos desenvolveram também sua concepção do conhecimento, que nada tem de original.

Para Khomiakov, o conhecimento é muito semelhante à Fé. Exige o abandono de todo o ser à verdade que a razão, por si só, não pode atingir. É intuição viva. O verdadeiro conhecimento se faz por apreensão interior. Todas as definições lógicas não dão a certeza que se encontra no ato de Fé. O fato concreto não pode ser conhecido pelo pensamento senão numa abstração, ao passo que a verdade se encarna na vida. "É somente na Fé que a razão encontra sua plenitude" — "Sem a Fé, a vida do homem não tem sentido" — "Todo homem é sua Fé... Só a Fé conhece a Verdade."

Todas essas fórmulas e outras inumeráveis da mesma ordem nos reconduzem ao fideísmo dos modernistas e dos tradicionalistas do século passado. A ordem natural é reduzida à ordem sobrenatural. Nega-se a capacidade que nossa razão tem de atingir o verdadeiro. Todo homem é sua fé, diz-se; mas o objeto dessa Fé é Deus, logo todo homem é divino, pois encontra numa intuição, numa visão interior, a verdade divina; é que já a possui em si mesmo. "Intueor" quer dizer: ver no interior. Essa visão supõe a presença do objeto conhecido em si. Esse conhecimento intuitivo é, portanto, bem uma Gnose, isto é, uma identificação de nosso pensamento com seu objeto, que é Deus.

A GNOSE DE VLADIMIR SOLOVIEV (1853-1900)

Apresentou-se Vladimir Soloviev como um "Newman russo" e como um grande filósofo cristão. Mons. d'Herbigny sustentara outrora essa tese numa obra que apresentava nosso pensador aos leitores franceses. Mas tivera o cuidado de escamotear sob uma conversa piedosa o essencial do pensamento do filósofo.

Digamos logo, para não voltar ao assunto, que, ao contrário de Newman, que, por sua conversão retumbante, reconduzira ao catolicismo toda uma elite intelectual da Inglaterra, Soloviev, por sua adesão secreta a Roma, não produziu nenhum movimento semelhante na ortodoxia russa e não merece de modo algum o título de "Newman russo".

Mas o que é muito mais importante compreender é que Vladimir usurpou também o título de filósofo cristão. O fundo de seu pensamento é a Gnose de sempre, que teve a habilidade de apresentar sob um vocabulário aparentemente cristão.

Toda a sua formação foi envenenada pelos sofismas alemães injetados em alta dose em seu espírito. Leu, pena na mão, em sua língua original, Platão e Orígenes, Sêneca e Santo Agostinho, Bacon e Stuart Mill, Descartes e de Bonald, Kant e Schopenhauer, Hegel e Schelling...

Durante uma estada em Londres, lançou-se com paixão inquieta e doentia ao espiritismo e à Cabala. Numa carta a seu amigo, o príncipe D.N. Tserteliev, explica que essa nova luz, jorrada "das manifestações espíritas, ajudaria a constituir a metafísica atual; mas, acrescenta, não tenho intenção de dizê-lo em voz alta. Um aviso público não faria avançar em nada o resultado e me valeria uma má reputação."

Havia lido Espinosa aos quinze anos, com paixão. Encontrava nele, diz, a revelação do espiritual e do divino... Participou da redação do Grande Dicionário Enciclopédico Brockhaus-Efron, no qual redigiu pessoalmente em russo os artigos sobre Platão, Plotino, Valentim e os Valentinianos, Maniqueus, Cabala, Duns Escoto, Nicolau de Cusa, Kant, Hegel, Hegelianismo, Swedenborg, Maine de Biran, Joseph de Maistre etc... etc... Não há nada de russo em tudo isso, mas que bela filiação gnóstica!!!

Vladimir Soloviev quer-se e afirma-se "gnóstico". Não lhe fazemos, portanto, um processo de intenção. Basta expor seu ensino para convencer-se. Apresentou-o numa série de obras, a mais explícita das quais intitula-se: "A Rússia e a Igreja Universal".

Na origem, há Deus, Unidade, Ato absoluto e seu complemento necessário, a eterna feminilidade, a "Sofia", que acolheu em si o poder divino, a plenitude do bem e da verdade, e a luz eterna da Beleza. Abandonou-se a Deus (como isso é bem dito!) e, fecundada por Ele, realizou a possibilidade de Tudo, a síntese viva e pessoal de Deus e do Mundo, "corpo e matéria da divindade".

"Se ela está em Deus substancialmente e desde toda a eternidade, escreve Soloviev, realiza-se efetivamente no Mundo, nele se encarna sucessivamente reconduzindo-o a uma unidade cada vez mais perfeita... A feminilidade mesma não é apenas uma imagem inativa no espírito de Deus, mas um ser espiritual vivo e possuidor da plenitude de Força e de Ação. Todo o processo universal e histórico não é senão o processo de sua realização e de sua encarnação na grande multiplicidade das formas."

Esse texto foi citado, com outros, por J. Danzas em seu estudo sobre "As reminiscências gnósticas na filosofia religiosa russa moderna".

Soloviev identificou a "Sofia" com a Virgem Maria, declarada "complemento feminino" de Jesus e da Igreja. Precisa "que a humanidade reunida a Deus na Santa Virgem, no Cristo, na Igreja é a realização da Sabedoria essencial ou da substância absoluta de Deus, sua forma incriada, sua encarnação". (Ainda em "A Rússia e a Igreja universal").

O mundo é, portanto, a encarnação de Deus pela Sofia, a própria substância de Deus. O homem é a atualização de Deus no Cosmos. Deus fez-se carne no homem e o Cosmos, pelo Homem, faz-se Deus. "O Homem só pode receber a divindade em sua verdadeira integridade, em sua união interior com o Todo..."

Soloviev continua: "Cada um de nós, cada ser humano participa essencial e realmente do Homem universal ou absoluto e está enraizado nele". O homem tem, portanto, uma essência idêntica à do Cosmos e de Deus. Emana d'Ele como um reflexo de seu ser primordial e absoluto. É o próprio fundamento da metafísica platônica.

"A nova religião, declara Soloviev, não pode ser uma veneração passiva de Deus, uma θεοσέβεια, ou uma simples adoração, uma θεολατρεία, mas deve ser uma atividade em Deus e com ele, uma θεουργία, uma Teurgia, portanto. E resume seu sistema na palavra "Teandrismo", que quer dizer: Humanidade deificada. É um misticismo panteísta e cósmico.

Seria preciso acrescentar ainda que se encontra nele uma mística do sexo feminino. Soloviev inclina-se com devoção totalmente pagã diante do mistério do sexo, os flancos que portam a vida, o Eterno feminino. Proclama a salvação pelo abraço amoroso e pela exaltação dos sentidos, em seu "Ensaio sobre o Significado do Amor".

Tudo isso, evidentemente, nada tem de cristão. É preciso uma forte dose de ingenuidade para pretender que essa doutrina exprima o fundo da "alma russa" ou da "Terra russa". Trata-se bem disso!!! Toda a história da Sofia é tomada dos gnósticos dos primeiros séculos, desde Simão, o Mago, que Soloviev havia estudado com grande cuidado. É uma zombaria blasfematória em relação ao verdadeiro Deus.

A Igreja oriental chama esse gênero de excitação místico-erótica uma "sedução espiritual". Reencontra-se em toda uma geração formada pelo pensamento de Soloviev.

Por volta de 1908, alguns anos após sua morte, formou-se em Moscou uma "Sociedade de filosofia religiosa em memória de Vladimir Soloviev", verdadeiro centro de filosofia neoplatônica. As reuniões realizavam-se no palacete da Sra. Margarida Morozov, mulher de grande encanto pessoal. No curso dessas sessões religiosas e orgíacas, misturava-se no mesmo cadinho êxtases sensuais de um naturalismo todo pagão aos dogmas e aos mistérios cristãos. Nessas conversas e discussões exaltavam-se Dante, Goethe, os românticos franceses, Verlaine, Baudelaire, os românticos alemães, Novalis, os místicos do século XVIII, Paracelso, Jacob Boehme, o antroposofista Rudolf Steiner...

Havia-se juntado a essa sociedade uma casa editora, "O Caminho (Put)", que publicava tudo o que pudesse difundir essas ideias místico-panteístas. Citemos entre os frequentadores desses encontros:

1º — Nicolau Berdiaev, nascido em 1874 em Kiev. Recebeu toda a sua formação intelectual de Marx, Nietzsche, Ibsen, Kant, Carlyle, Boehme, Schelling, formação especificamente alemã que não podia prepará-lo seriamente para apreender a alma russa. Também ele ensinou a "Gnose" sob aparência cristã:

"A filosofia, diz ele, é uma arte do conhecimento por meio da criação de ideias que se opõem ao mundo dado e à necessidade e que penetram na vida espiritual transcendente do mundo. Esse meio de conhecimento é (claro!) a intuição, que sozinha atinge o mundo espiritual e não o pensamento discursivo..."

Exalta a Liberdade como anterior à Criação; Liberdade meônica, diz, porque pertence ao não-ser: "A liberdade é o destino trágico do homem e do mundo, o destino do próprio Deus, reside no centro mesmo do ser como um mistério original". Todas essas elucubrações sobre a Deusa Liberdade são tomadas de Boehme e de Schelling em seu "Tratado sobre a essência da liberdade humana".

2º — Serge Bulgakov, autor do sistema sofiológico, tomado da Sofia de Soloviev, com uma exaltação da Terra Mãe e toda uma Gnose que se quer ortodoxa.

3º — O Padre Paul Florensky, erudito sutil e engenhoso, de fato também ele impregnado de influências gnósticas.

Pode-se dizer que, na véspera da revolução bolchevique, toda a elite culta russa estava impregnada de ideologia panteísta, cósmica e pagã. Recebera sua formação intelectual dos filósofos alemães, sobretudo Schelling, Marx e Hegel. Estava, portanto, completamente desarmada diante de uma subversão revolucionária. Soloviev foi um prodigioso demolidor da Fé cristã e um péssimo mestre.

UMA LITERATURA PANTEÍSTA: DOSTOIÉVSKI E TOLSTÓI

Em seu célebre livro sobre "O Romance Russo", Eugène-Melchior de Vogüé tentou encontrar a fonte profunda e longínqua do niilismo. Julgou encontrá-la no Budismo e nas alegrias do aniquilamento, o "nirvana", a abdicação desencorajada do homem primitivo diante da potência da matéria e da obscuridade do mundo moral.

"A verdadeira pátria desse renunciamento, escreve ele, é a Ásia, a própria fonte é a Índia e sua doutrina. Elas revivem, pouco modificadas, no frenesi que precipita uma parte da Rússia rumo a essa abnegação intelectual e moral... Esse espírito do Budismo, diz ele mais adiante, penetrou o gênio russo de uma ternura desvairada pelas mais humildes criaturas, pelos deserdados e pelos que sofrem; dita o renunciamento da razão diante do bruto e a comiseração infinita do coração".

Sem dúvida os paralelos que estabelece ao longo de sua obra são impressionantes. No entanto, o Sr. de Vogüé não nos dá nenhuma filiação direta entre os escritores russos e o budismo da Ásia, ao passo que nos mostra muito bem os numerosos empréstimos que esses escritores "surrupiaram" da literatura ocidental. Por isso nos limitaremos a esse verdadeiro aspecto das coisas e, quando encontrarmos ideias e fórmulas gnósticas em uns ou outros, não teremos dificuldade em descobrir-lhes as fontes.

Dostoiévski foi primeiro mordido pela tentação nietzschiana. Esboçou uma apologia de Satanás. Impregnado igualmente de misticismo de origem alemã, apresentou o Cristo como uma emanação divina. Seu cristianismo é tingido de Gnose. Leu e bebeu a obra de Swedenborg.

Para ele, como para os gnósticos, o mal constitui uma entidade autônoma e positiva. Recusa toda lei e quer-se antinomista. Condena toda forma viável de civilização, o que o leva ao anarquismo. Declara que a matéria é má e a carne condenável. Rejeita o uso da sexualidade no casamento. Prega a continência, mas a tempera pelo estupro. Perguntou-se se a distinção entre o bem e o mal não poderia ser transcendida num ser que integrasse ambos no próprio ser da divindade, revestido de poder e de beleza. Julga descobrir em Deus um abismo de obscuridade.

Que divindade é essa que ele intitula "A mais alta síntese da vida"? Que Deus da Alegria é esse, para quem faz subir um hino da vida "desde as entranhas da Terra"?

A resposta está dispersa em seus romances. Eis, em "Os Possessos", o testemunho dessa velha mulher que pergunta a Maria Timofeievna:

"A mãe de Deus, que é, a teu ver? — A grande mãe, responde-lhe ela, a esperança do gênero humano. — Sim, retomou a velha, a mãe de Deus é a Grande Mãe, a Terra úmida, e nisso reside uma grande alegria para os homens... Quando me prostro, ao fazer minha oração, adquiri o hábito de beijar a terra. Beijo-a e choro. Sou eu que te digo, Chatouchka, não há nada de mal nisso e, mesmo quando se tem tristeza, derramam-se lágrimas de alegria..."

Maria estava predisposta a receber essa confidência. Dissera um dia às religiosas do convento: "Deus e a natureza, parece-me que é a mesma coisa!" Todos os presentes haviam exclamado: "Vejam só!", mas a madre superiora sorrira.

Essa equivocidade entre Deus e a natureza reencontra-se na atitude de Aliocha em "Os Irmãos Karamázov". Sabemos, porque ele mesmo o disse, que no pensamento de Dostoiévski Aliocha é o pseudônimo do próprio Soloviev. Vede seu culto divino da Terra-Mãe:

"Aliocha, imóvel, olhava. De repente, como que ceifado, prostrou-se. Ignorava por que abraçava a terra. Não compreendia por que queria irresistivelmente beijá-la logo. Mas beijava-a soluçando, inundando-a de lágrimas, e prometia-se com exaltação amá-la, amá-la sempre. "Rega a terra com lágrimas de alegria e ama-a!" Essas palavras ressoavam em sua alma. Por que chorava? Oh! em seu êxtase, chorava até sobre aquelas estrelas que cintilavam no infinito e não tinham vergonha de sua exaltação. Dir-se-ia que os fios desse mundo inumerável convergiam em sua alma e que esta estremecia toda em contato com os outros mundos... E nunca mais, depois, Aliocha pôde esquecer aquele instante." "Minha alma foi visitada naquela hora", dizia ele mais tarde, crendo firmemente na verdade dessas palavras". No coração de Aliocha, "todo o universo palpitava".

Que divindade é essa, pintada sob o aspecto da Vida, da Terra, da Nação? Que força imanente é essa, que sobe das profundezas de nosso ser de carne e que nos convida a voltar a algum paraíso perdido, a um estado de infância e de inocência infra-humana? Respondemos, por tudo o que já expusemos, que se trata da Serpente...

E lembramos que o rito do beijo à terra é retomado dos gnósticos dos primeiros séculos, em particular dos Elcasaítas.

Leão Tolstói é o Rousseau eslavo: "Li todo Rousseau, escrevia ele, e aos quinze anos trazia sua medalha sobre o peito. Rousseau e o Evangelho foram as duas grandes e benfazejas influências de minha vida... Muitas de suas páginas me são tão familiares que julgaria tê-las escrito eu mesmo..."

Tolstói também foi iniciado nas lojas. Em seu romance "Guerra e Paz" conta-nos com muitas minúcias a iniciação maçônica de seu herói, Pierre Bezukhov.

Acrescentai a isso o culto de Schopenhauer, cujo retrato ornava seu quarto, e compreendereis por que Tolstói é um budista. A resposta para o sentido da vida, procurou-a nos Vedas, no Corão, nos Padres, em Confúcio, Lao-Tsé, em Fichte, Feuerbach. Expôs seu pensamento religioso numa série de obras, publicadas de 1883 a 1886: "Qual é a minha Fé? Razão e Religião, razão e moralidade" — "Como ler os Evangelhos?" — "Que é a minha Religião?" — "A salvação está em vós".

A religião, explica ele, é uma relação entre nossa personalidade e o universo infinito. Deus não é exterior ao mundo. Manifesta-se em cada homem, nos animais, nas plantas, em tudo o que nos cerca. É o princípio da vida universal. Tolstói queria "expor uma filosofia inteligível a um cocheiro de fiacre". Mas seu panteísmo de pretensão espiritualista é bem obscuro. A vida é considerada um todo indivisível, uma alma do mundo da qual somos efêmeras parcelas.

"Procuramos nosso ideal à nossa frente, ao passo que ele está atrás de nós. O desenvolvimento do homem não é o meio de realizar esse ideal de harmonia que trazemos em nós, é, ao contrário, um obstáculo à sua realização. Uma criança saudável que vem ao mundo satisfaz perfeitamente esse ideal de verdade, de beleza e de bondade do qual se afastará a cada dia; está mais perto das criaturas não pensantes, do animal, da planta, da natureza, que é o tipo eterno de verdade, de beleza, de bondade..."

Para realizar sua harmonia, o homem não deve pensar, mas esforçar-se por reencontrar uma vida vegetativa, como o bebê saído do seio da mãe. Melhor ainda, deve voltar ao útero, fundir-se na natureza cósmica e nela absorver-se. Como essa natureza é a substância de Deus, reunir-se-á assim a seu princípio. O ideal do yogi é a imobilidade absoluta na contemplação do umbigo, o retorno à natureza bruta.

Essa nova apresentação do Evangelho, lido com os óculos do Buda, estava longe demais do original para não despertar desconfiança. No entanto, Tolstói permaneceu soberbamente confiante em si:

"Tudo me confirmava a veracidade do sentido que eu encontrava na doutrina do Cristo. Mas, por muito tempo, não pude habituar-me a essa ideia estranha de que, depois de dezoito séculos durante os quais a fé cristã foi confessada por bilhões de homens, depois que milhões de homens consagraram sua vida ao estudo dessa fé, me fosse dado descobrir a lei do Cristo como coisa nova. Mas, por mais estranho que fosse, era assim".

Todo o socialismo de Tolstói deriva desse princípio panteísta: nada mais de tribunais, nada mais de exército, nada mais de prisões, nada mais de guerras, nada mais de julgamentos. Já ouvimos proclamar um tal sonho pelos Cátaros na Idade Média. Praticavam a não resistência ao mal, ao menos em teoria. Punham tudo em comum, não comiam a carne dos animais, condenavam as relações sexuais, opunham-se às artes e ao comércio. Se tivessem vencido, teriam feito da Europa um deserto tibetano.

Numa tese do Sr. Siu-Tchoan-Pao sobre "O direito das gentes e a China antiga", o ensino de Lao-Tsé é aproximado do de Tolstói: mesmo subjetivismo idealista, mesma moral do não-agir e desaparecimento de toda autoridade...

Em 20 de fevereiro de 1901, o Santo Sínodo de Moscou proclamou a excomunhão de Leão Tolstói. O chefe do Santo Sínodo, Pobiedonostsev, denunciava o capítulo de "Ressurreição" em que Tolstói tratava da missa e da Eucaristia. Eis o texto dessa excomunhão:

"O célebre escritor conhecido do mundo inteiro, o conde Tolstói, embora russo de nascimento e ortodoxo por educação e pelo batismo, deixou-se arrastar pelo orgulho de seu espírito a insurgir-se audaciosamente contra Deus, contra o Cristo e contra a sua santa Obra.

Depois de renegar publicamente a Igreja ortodoxa, mãe que o instruíra e nutrira, consagrou sua atividade literária e o talento de que Deus o dotara à destruição da Fé de nossos Pais pela propaganda, no país, de doutrinas hostis ao Cristo e à sua Igreja. Essa fé ortodoxa havia, contudo, convertido o mundo e nossos antepassados a professaram e fizeram dela sua salvação. Por ela, desde sempre, a Santa Rússia foi mantida forte.

No entanto, é essa fé que Tolstói atacou em sua própria substância. Em suas numerosas cartas e composições literárias, que ele e seus discípulos espalham em todos os países e muito particularmente em nossa cara pátria, prega com zelo fanático a destruição dos dogmas mais sagrados. Nega a personalidade do Deus vivo, glorificado em sua Santa Trindade. Rejeita a criação e a Providência divina exercendo-se sobre o Universo... etc... etc. E é por isso que a Igreja declara solenemente que não o contará mais entre seus filhos, enquanto não tiver restabelecido sua união com ela por um sincero arrependimento".

Essas linhas são a expressão da mais pura indignação da alma cristã ofendida em seus sentimentos mais elevados.

No entanto, é preciso crer que o estado dos espíritos já estava consideravelmente podre na Igreja ortodoxa. No dia seguinte a essa excomunhão, os seminaristas de Kazan e de Irkutsk entraram em greve. Sacerdotes deixaram a Igreja. Os estudantes de São Petersburgo enviaram ao metropolita Pobiedonostsev um protesto indignado declarando que eles também podiam então ser excomungados. Uma comuna do Cáucaso, considerando Tolstói um mártir, enviou-lhe uma coroa de espinhos...

Os revolucionários russos, anarquistas e fanáticos de irreligião, zombavam do pretenso anarquismo cristão do Conde Tolstói. Mas viam nele um auxiliar precioso: "O velho delira, diziam, mas nos é útil, demole a sociedade".

Os textos de Tolstói, graças a seu prestígio, produziam grande efeito sobre as almas simples e semeavam abundantemente a semente da revolta. Nos primeiros meses do Governo provisório em 1917, os panfletos de Tolstói foram espalhados à profusão. A ditadura bolchevique consagrou milhões de rublos à difusão de sua obra e Máximo Górki foi encarregado de promover seu pensamento. Tolstói foi promovido a profeta da Revolução. Esse apóstolo da paz e do amor tornara-se o auxiliar dos carrascos que massacravam e derramavam em jorros o sangue do povo russo. Conclusão lógica de toda uma vida consagrada à falsificação do Evangelho pela Gnose panteísta.

DA GNOSE À REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE

"Parece-me evidente, escrevia Donoso Cortés, que o comunismo procede das heresias panteístas e das que lhes são aparentadas. Quando tudo é Deus e Deus é tudo, Deus é sobretudo democracia e multidão. Os indivíduos, átomos divinos e nada mais, saem do todo que perpetuamente os engendra para voltar ao todo que perpetuamente os absorve."

Eis a chave do Comunismo. Ele é o último avatar e o ponto de chegada de todo o pensamento gnóstico. É também sua mais perfeita realização. A Serpente é o Grande Revoltado. Quando arrastou todo um país em seu rastro numa grande Revolução, este tornou-se necessariamente um Inferno.

Na época em que Lênin preparava sua revolução, outros pensadores esforçavam-se por dar à doutrina marxista uma base filosófico-religiosa. Górki e Lunatcharski ensinavam uma religião sem Deus: "Deus, dizia Lunatcharski, é tudo o que há de humano na suprema potência... Adoremos as energias da Humanidade". Ao homem que procura Deus, é preciso responder: "Deus é a humanidade de amanhã. Constrói-a com a humanidade de hoje unindo-te a seus elementos de vanguarda". Intitulavam-se "Os Construtores de Deus".

Os chefes revolucionários viviam no pensamento de que, à sua morte, retornariam ao Grande Todo. Moribundo e vendo as lágrimas da esposa, Plekhanov repreendeu-a: "Vós e eu somos velhos revolucionários; devemos ser firmes. E que é a morte? Vedes, pela janela, aquela bétula que se inclina ternamente contra aquele abeto? Eu também, talvez, serei um dia transformado em bétula toda semelhante. Que há de mal nisso?" A morte é, portanto, bem o retorno à terra nutriz, ao magma primitivo de onde surgem incessantemente novos seres vivos dos quais não somos senão manifestações provisórias.

Alain Besançon publicou há pouco um estudo muito notável sobre "As origens intelectuais do Leninismo". Quando quis procurar no passado analogias capazes de explicar a nova ideologia marxista, deu com a Gnose.

Ai de nós! começa por declarar, em contradição, aliás, com todo o resto de sua exposição, que "a ideologia moderna (a do Marxismo) não se inscreve na tradição gnóstica. Não é, aliás, certo, acrescenta, que esta exista; antes a retomada de atitudes intelectuais do mesmo tipo em circunstâncias históricas diferentes, sem que haja nem memória, nem consciência de uma continuidade..."

É bem lamentável que o Sr. Besançon tenha posto em dúvida a existência de uma tradição gnóstica através dos séculos. Todos os nossos estudos precedentes estabeleceram, com um luxo de provas decisivas, a existência dessa tradição. No entanto, Alain Besançon estudou com cuidado a Gnose antiga em sua forma maniqueia e remete a esse respeito às obras notáveis de Henri-Charles Puech.

Ao apresentar um romance de Tchernichevski, intitulado "Que fazer?", mostrou que seu herói, Rakhmetov, é o modelo do "perfeito" revolucionário. Intitulou esse romance o "catecismo do revolucionário" e não pôde deixar de ver que a doutrina desse catecismo não é o avesso de um cristianismo, mas bem o direito de um maniqueísmo, em sua estrutura fundamental.

Vamos reproduzir uma página essencial desse livro. Introduziremos algumas observações entre parênteses ao longo do caminho e faremos seguir o conjunto de um comentário destinado a precisar e completar o pensamento do autor, onde ele é provisoriamente deficiente.

"A Gnose tchernichevskiana manifesta sua estrutura típica. O mundo apresenta-se como uma mistura de elementos bons e maus, em que o mau mantém aprisionado o bom. (Cf. a alma prisioneira do corpo e da matéria). A salvação é trazida pelo saber (digamos a Gnose!). Esse saber é de natureza racional (Não, certamente não!); é completo, poderoso, absolutamente certo. Dá o plano verdadeiro do mundo, a chave de seu destino. Mostra que o mundo é salvável, que basta dispô-lo de outro modo (portanto mudar-lhe a estrutura e a natureza!), separar os bons elementos — que representam o futuro, o progresso, a vida — dos maus, que pertencem ao passado, à reação, à morte. Como em Mani, há dois princípios (do Bem e do Mal) e três tempos (o passado a destruir, o presente para agir e o futuro a construir).

Os agentes dessa separação são os Homens Novos (Os "perfeitos" cátaros!). Despertados pelo saber (a Gnose!), têm acesso a uma vida nova (a deificação!).

Rakhmetov é o tipo moderno — portanto "científico" — do "perfeito" maniqueu. Despertado pela iniciação gnóstica (aqui a iniciação maçônica!), entrou na parte salva e salvífica da humanidade. (Pertence, portanto, ao mundo da "Luz"). Tendo operado em si a separação (entre os bons e os maus), leva a vida ascética dos eleitos. É casto. É sustentado pela comunidade, que o alimenta, o veste, em troca de sua ação militante permanente (assim como o monge maniqueu ou budista, para quem o corpo já não conta, recebe seu alimento dos "ouvintes" ou catecúmenos e se contenta em meditar na contemplação... do umbigo!)

Pratica uma moral que não é a moral comum, mas que é interna à própria Gnose e que somente os gnósticos que a compreenderam praticam entre si. (Os gnósticos sempre foram antinomistas e colocaram-se fora da distinção do bem e do mal!). Os outros são irresponsáveis, agidos pelo exterior (como não receberam a iniciação, não são senhores de seus atos. Os gnósticos sempre negaram o livre-arbítrio e o domínio da razão sobre os impulsos instintivos, de modo que o não-iniciado é prisioneiro de um Mal que o enlaça numa fatalidade à qual não pode escapar). Seu trabalho consiste em propor a Gnose, em resolver os problemas na aplicação estrita da doutrina, em dar o exemplo, em içar até o cume onde ele se encontra os despertos, os conscientes.

Por um traço, contudo, difere do "perfeito". É sem rito, sem transcendência. A mistura cósmica da Gnose clássica remetia a uma metafísica geradora de atos religiosos. A cosmologia materialista torna bem o homem solidário do Universo, mas de um universo imanente, mecânico, tal como o mostra a ciência, fora do qual não há evasão...

O revolucionário, no fundo de seu ser, não somente em palavras mas em atos, rompeu todo laço com a ordem pública e com todo o mundo civilizado, com todas as leis, conveniências, convenções sociais e regras morais desse mundo. (É o antinomismo fundamental dos gnósticos!). O revolucionário é dele inimigo implacável e só continua a viver nele para destruí-lo com segurança... Como o "perfeito", o revolucionário opera uma triagem na mistura impura, contribui para a destruição das partes más, de modo a deixar escapar as parcelas luminosas que elas mantêm aprisionadas... (as "almas", portanto!)".

Fim da citação.

Nesse texto, totalmente digno de atenção, o autor, Alain Besançon, diz todo o essencial; mas detém-se a meio caminho das conclusões que dele cumpre tirar. Constatou uma "retomada de atitudes intelectuais do mesmo tipo em circunstâncias históricas diferentes". Mas, para que essas atitudes intelectuais pudessem permanecer do mesmo tipo ao longo dos séculos, quaisquer que fossem as circunstâncias históricas, é preciso que fossem comandadas por uma concepção da vida, uma doutrina fundamental, idênticas.

O revolucionário marxista, como o perfeito maniqueu ou budista, pode muito bem não ter noção explícita dela; essa doutrina fundamental comanda, no entanto, apesar de sua ignorância, todo o seu pensamento e sua atitude diante do mundo e da vida. Sem dúvida, Alain Besançon notou pontos comuns de doutrina de parte a parte: o antinomismo, o despertar para a luz, a iniciação, as parcelas luminosas aprisionadas, etc...

Qual é, pois, essa inteligência sobre-humana capaz de pôr sob um mesmo chaveiro a razão de ser de duas atitudes análogas, a do perfeito maniqueu e a do revolucionário marxista? Não vejo senão uma, a de Lúcifer.

E é uma necessidade lógica, pois a identidade das atitudes, a analogia dos pensamentos não encontram aliás explicação adequada. Atingimos aí um combate sobrenatural. Procuremos representá-lo.

O monge budista ou maniqueu (é o mesmo) não conhece a razão de ser última de sua atitude. É vítima de uma ruse satânica. O marxista revolucionário tampouco conhece a finalidade de seu combate, senão num sonho irrealizável. Também ele é vítima do demônio.

"Quos vult perdere, Jupiter dementat". Àqueles que quer perder, Lúcifer tira a razão. Em seu ódio contra a ordem do Criador, o demônio empenhou-se contra o homem para fazer dele seu escravo e atraí-lo a seu domínio, o Inferno. Para isso o ataca em sua faculdade mestra, a da razão, "imagem de Deus no homem".

Murmura ao ouvido do gnóstico: "Meu pobre amigo, se és infeliz, é culpa do criador, que te lançou do céu para mergulhar-te num mundo de desgraça. Reconquista, pois, teu domínio divino. O melhor é livrar-te de teu corpo inútil, evadir-te desse mundo hostil e invivível e fundir-te no Cosmos." Em último recurso, o gnóstico só pode desejar o suicídio.

Murmura igualmente ao ouvido do revolucionário: "Meu pobre amigo, se és infeliz (... etc ... mesmo refrão de há pouco)... O melhor é destruir esse mundo de desgraça para reconstruí-lo segundo um plano maravilhoso. Coragem! Põe a teu país a ferro e fogo e eu te ajudarei..." Quando o revolucionário terminou sua tarefa, só lhe resta contemplar a extensão do desastre; mas é bem incapaz de reconstruir o que quer que seja sobre essa terra senão um inferno.

Tais são "os murmúrios de Satanás". Ora, Lúcifer é um abominável mentiroso. Sabe muito bem que a Criação é uma obra-prima de Deus, que as desgraças dos homens vêm do mau uso que dela fazem. Sabe muito bem também que o homem, mesmo com sua ajuda, não possui em si mesmo nenhum meio de divinizar-se. Esse não é, aliás, o objetivo de sua manobra, pois, ao contrário, esforça-se por rebaixar o homem ao estado de bruto: o gnóstico, mergulhando seu espírito no vazio; o revolucionário, reduzindo-o ao estado de fera sanguinária.

Num ponto importante, Alain Besançon notou bem uma diferença entre o gnóstico, que conservou alguma ilusão de ideal religioso, e o revolucionário, completamente imerso num universo de matéria inerte. É verdade, como mostramos em outro lugar (2), que a Serpente aperfeiçoou sua estratégia. Esforçava-se por fazer cintilar aos olhos do gnóstico de outrora a esperança de uma subida ao mundo da Luz, de um voo no azul. Hoje é um "miragem" que propõe: uma queda no mundo da matéria, um mergulho no nada cósmico, um retorno ao estado mineral, à matéria bruta...

CONCLUSÃO

A Franco-Maçonaria, dissemos, é "a Congregação militante da Gnose". Transmitiu o veneno de sua doutrina à França ao longo do século XVIII e preparou assim o grande cataclismo da Revolução. Transmitiu o mesmo veneno à Rússia no século XIX e provocou, segundo o mesmo processo, a revolução bolchevique.

Nesses dois casos, o mecanismo revolucionário funcionou da mesma maneira. Num primeiro tempo, as lojas investem a elite intelectual do país e preparam uma geração de espíritos para beber a longos tragos os princípios revolucionários apresentados como um licor inebriante, capaz de estabelecer o reino da Felicidade perfeita e da Paz Universal. Toda essa elite, assim iluminada, lança-se com prazer e paixão em todas as novidades que lhe são apresentadas com uma arte diabólica da equivocidade e da mentira.

Num segundo tempo, uma nova geração, nutrida desde o berço nesse palavreado humanitário, lança-se com violência na ação para realizar enfim o Paraíso tão esperado na Terra. Nesse momento os revolucionários começam o "Grande Obra" ou preparam "O Grande Dia", com a certeza de que não encontrarão mais resistência por parte dessa elite que desarmaram.

Quando a operação termina, uma parte dessa elite, a menos pervertida, começa a abrir os olhos e a compreender que foi enganada. Mas perdeu o poder real e esforça-se por retomá-lo nas piores condições possíveis, com uma alternância de sobressaltos de coragem e de crises de abatimento. São os exércitos dos emigrados em 1792, os exércitos brancos em 1920. Tentativas fadadas necessariamente ao fracasso. Não se retoma por arroubos uma autoridade que se havia perdido porque não se tivera a coragem nem a energia de resistir à penetração insidiosa dos venenos mortais difundidos pela Franco-Maçonaria. O fracasso de tais tentativas é bem merecido. Há aí uma justiça imanente e Deus não tem a obrigação de subtrair os homens que abandonaram seu dever de estado, entregando a cidade cristã cuja guarda Ele lhes confiara, às consequências naturais de sua covardia ou de sua estupidez. Só se pode deplorar a desgraça dos povos que foram mergulhados no fogo e no sangue por culpa daqueles que tinham o encargo de protegê-los e de promover o bem comum da civilização cristã.

E. C.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

Sobre a vida religiosa e intelectual:

Sobre a literatura russa moderna:

Sobre a revolução bolchevique:

Notas

  1. Certos monges gregos, em particular no Monte Atos, haviam praticado um singular método de oração: permanecer imóveis, sentados num canto da cela, os olhos semicerrados e fixos no umbigo. Pretendiam que, prolongando essa atitude, acabavam por ver uma viva luz que os envolvia por todos os lados e que os penetrava e que eles sopravam pelo nariz. Não hesitavam em dar-lhe o nome de "divindade". Como essas luzes eram múltiplas, pretendiam que fossem divindades de ordem inferior, embora todas incriadas, difundidas na natureza... Já a meditação do umbigo!
  2. Cf. "Gnose e Literatura".

Revision #1
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Updated 24 October 2026 18:37:17 by Admin