Gnose e Islã - II

O ISLÃ, VEÍCULO DA GNOSE

Num livro que teve sua hora de celebridade, intitulado "Carlos Magno e Maomé", Henri Pirenne, historiador belga, mostrou que a expansão do Islã em torno da bacia mediterrânea havia provocado, no plano econômico, um corte radical entre o mundo cristão da Europa e o oriente.

Anteriormente, os dois mundos estavam em relações constantes e numerosas, o comércio do Mediterrâneo era florescente, a navegação ali era fácil e sem riscos, pois a frota bizantina assegurava a segurança e a polícia em todo esse Mar interior.

Depois Henri Pirenne desenvolve em sua obra as consequências dessa ruptura no Ocidente: o desaparecimento dos grandes eixos comerciais, o recolhimento das populações em torno dos castelos fortificados, numa estreita autarquia, e a fragmentação da autoridade política, apesar das tentativas de Carlos Magno de restabelecer um grande Império do Ocidente, que se desfará logo depois de sua morte.

Se Henri Pirenne não se tivesse restringido ao plano econômico, em sua pesquisa tão nova e tão sugestiva, teria descoberto outra causa bem mais fundamental nessa ruptura entre o Ocidente cristão e o mundo muçulmano.

Antes do Islã, todos os povos instalados em torno do Mediterrâneo, federados por Roma, participavam de uma mesma civilização greco-latina. Foram todos cristianizados na mesma época e, embora essa civilização romano-cristã pudesse tomar aspectos diversificados segundo os caracteres particulares de populações de raças e origens muito variadas, nem por isso deixava de ser fundamental que o essencial dos costumes e das crenças comuns era um cimento de unidade notável, apesar das disputas teológicas e das querelas de sucessão ao trono imperial.

Ora, com a chegada do Islã, vão produzir-se no Oriente e na África dois fenômenos simultâneos e complementares. Primeiro, uma fragmentação da autoridade política: os chefes árabes muçulmanizados foram incapazes de criar um grande império unificado. Depois de destruir a notável administração romana, constituíram principados feudais, um pouco como no Ocidente, em perpétuas guerras intestinas. Os califas de Damasco, depois de Bagdá, eram bem incapazes de manter um poder político estável; eles mesmos se massacravam ou se envenenavam mutuamente, e a história desses príncipes muçulmanos não é senão uma longa sucessão de horrores.

Em seguida, uma unidade cultural, devida ao fato de que o Islã se espalhou por todo o mundo muçulmano pela língua árabe, imposta por vezes à força, mas muitas vezes aceita com a nova religião. Essa língua árabe substituiu o latim, o grego, o aramaico, o egípcio, os dialetos berberes. Foi o elo necessário entre populações dispersas em torno do Mediterrâneo e separadas pelas dissensões e pelas guerras perpétuas entre os Califas e os senhores árabes constantemente revoltados.

Mas tanto vale uma língua, tanto vale a cultura que ela veicula. Ora, o papel do árabe foi cortar esse mundo muçulmano da cultura greco-latina e cristã. As populações, outrora cristãs, florescentes e felizes, regrediram prodigiosamente para uma pseudocultura árabe, caracterizada pelo analfabetismo, pelo embrutecimento dos espíritos, pelo desprezo por toda atividade intelectual, pela inaptidão congênita ao progresso moral e espiritual. Daí uma civilização esclerosada, congelada na massa das populações convertidas e o recurso constante a escravos cristãos cada vez que um príncipe muçulmano queria desenvolver à sua volta um pouco de luxo e de arte. O Islã desempenhou sem cessar um papel destruidor, é bem sabido.

Mas a consequência fundamental desses dois fenômenos é não somente uma ruptura entre o Ocidente cristão e o mundo muçulmano, mas também a formação de uma barreira intransponível entre os dois mundos. A diferença de língua provocou uma ignorância, depois uma incompreensão, enfim uma hostilidade declarada e definitiva. A guerra religiosa ininterrupta foi sua manifestação mais impressionante. O mundo cristão armou-se contra os Sarracenos, que, por sua vez, massacravam com encarniçamento e crueldade os restos das antigas comunidades cristãs que não haviam podido islamizar. E desde então nunca foi possível preencher o fosso entre esses dois mundos antagônicos.

Na época das cruzadas, os senhores francos constituíram em terra do Islã principados cristãos que puderam sobreviver durante um século num meio hostil. Se puderam instaurar provisoriamente uma espécie de "modus vivendi" com as populações que subjugaram, se puderam proteger as comunidades cristãs ainda não completamente massacradas, como os Armênios, toparam com um obstáculo insuperável, a impossibilidade absoluta de converter um muçulmano ao cristianismo, e é a razão principal pela qual não puderam "resistir" no Oriente e acabaram por ser rejeitados ao mar, "vomitados", por assim dizer, pelo Islã.

Tudo isso para chegar a nosso propósito fundamental. Até a colonização europeia do século XIX, o mundo muçulmano escapou totalmente a uma influência ocidental e cristã. Nunca houve o menor começo de osmose no sentido do Ocidente para o Oriente. Mas curiosamente, e logicamente, veremos, é o Oriente muçulmano que penetrou em nossa Europa cristã. Os contatos retomados durante as cruzadas só provocaram um movimento em sentido contrário no plano da cultura. Os cruzados partiram, ferozmente antimuçulmanos, para combater os Sarracenos. Ao mesmo tempo, toda uma literatura em língua árabe foi traduzida para o latim e difundiu no Ocidente cristão temas literários e religiosos vindos do oriente.

Ora, constatamos que essas traduções continham o essencial da Gnose da Ásia e que penetraram entre nós por duas vias privilegiadas, a Sicília e a Espanha. Muitas vezes essas traduções foram feitas por Judeus, que transpuseram assim as obras dos filósofos e dos poetas persas ou sírios e difundiram seu conteúdo na Europa. É o que vamos mostrar.

A FILOSOFIA

Não há filosofia árabe e, apesar de Henry Corbin, tampouco há filosofia islâmica ou muçulmana. Os escritores árabes que se fizeram comentadores dos filósofos gregos eram ou iranianos, como al-Ghazali, al-Kindi, ou berberes, como Ibn Tufail, Ibn Bajja, ou espanhóis, como Ibn Rushd, a quem os ocidentais chamaram Averróis.

Além disso, não exprimem um pensamento pessoal, elaborado segundo concepções originais. Contentam-se em traduzir e comentar os filósofos anteriores. Ora, vamos ver que são prisioneiros do pensamento neoplatônico e da gnose maniqueia, aquela que já se espalhara através do Budismo.

Os Sabeus haviam estabelecido, do século VIII ao X, uma escola de tradutores em Harã, ao sul de Edessa, na fronteira da Síria e da Mesopotâmia. Pretendiam remontar a Hermes Trismegisto e a Agatodaimon (o bom demônio). Ora, sabemos que nos manuscritos da Ásia Central, Hermes é um avatar de Mani, que de lá passou aos árabes, onde foi identificado a Idris e Henoc.

Seu mais célebre doutor, Thabit ibn Qurra (morto em 901), havia escrito e traduzido para o siríaco, depois para o árabe, um livro das "Instituições de Hermes", paráfrase da revelação de Hermes Trismegisto já bem conhecida; havia também traduzido para o árabe obras de matemática e de astronomia.

Os Sabeus haviam inundado o mundo muçulmano de multidões de obras ditas "pseudepígrafes", Pseudo-Platão, Pseudo-Plutarco, Pseudo-Ptolomeu, Pseudo-Pitágoras, etc., que foram a fonte de uma vasta literatura neoplatônica na Ásia. Deve-se-lhes também o Pseudo-Dionísio, atribuído a São Dionísio, o Areopagita.

Citemos dois pseudepígrafes que tiveram influência considerável no Ocidente e que envenenaram as Universidades cristãs. Uma "Teologia dita de Aristóteles", traduzida para o árabe a partir de uma versão siríaca do século VI. É uma paráfrase das três últimas Enéadas de Plotino, que procura mostrar um acordo entre Aristóteles e Platão e que está na base do neoplatonismo no Islã.

O "Livro sobre o Bem Puro", traduzido para o latim no século XII por Gerardo de Cremona, sob o título "Liber de causis" ou "Liber Aristotelis de expositione bonitatis purae". É, na verdade, um extrato da "Elementatio theologica" do neoplatônico Proclo. Fez crer a toda a Idade Média que Aristóteles era platônico.

Os Sabeus retomaram o método dos gnósticos, que consistia em atribuir textos fictícios a autores antigos e célebres para lhes dar forte publicidade.

Cumpre notar igualmente duas obras herméticas que foram muito lidas em terra do Islã. O "Livro do Segredo da Criação e técnica da Natureza", atribuído pelo autor anônimo a Apolônio de Tiana (Claro! Andamos em círculo e reencontramos os mesmos nomes ao longo de nossas exposições sobre a Gnose!). Contém a célebre "Tábua de Esmeralda" (Tabula smaragdina), e o "Objetivo do Sábio" (Ghâyat al Hakim), que contém informações sobre a liturgia dos Sabeus e todo um ensino sobre o tema da "Natureza Perfeita". A Natureza Perfeita é a entidade espiritual (rûha-nîyar), o Anjo do filósofo. Sohrawardi comenta essa visão de Hermes: é em sua busca que parte o peregrino das epopeias místicas persas de Attar.

Todos esses textos ensinam o panteísmo e a Gnose. Escutemos Abû Yazid Bastâmî:

"Contemplei meu Senhor com o olho da Certeza depois que ele me desviou de tudo o que é outro que ele e me iluminou da Luz. Fez-me então conhecer as maravilhas de seu segredo, revelando-me sua ipseidade (seu Si). Contemplei meu eu por sua própria ipseidade.

Minha Luz empalideceu sob sua Luz, minha força se esvaiu sob sua Força, meu Poder sob seu Poder. Assim eu via meu eu através de seu Si. A grandeza que eu me atribuía era, na realidade, sua Grandeza, meu progresso era seu progresso... etc."

Poder-se-ia continuar por muito tempo sobre esse tema da identificação com o mundo divino.

* * *

Sohrawardi viveu no século XII. Nasceu em 1155 em Sohraward, cidade do noroeste do Irã, na antiga Média. É discípulo de Hermes, de Platão, de Zoroastro.

"Havia entre os antigos Persas, escreve ele, uma comunidade que era dirigida por Deus. Foi por ele que foram conduzidos eminentes Sábios, totalmente diferentes dos Magusianos! É sua alta doutrina da Luz, doutrina da qual dá testemunho, aliás, a experiência de Platão e de seus predecessores, que ressuscitei em meu livro intitulado "Teosofia oriental" (Hikmat al Ishrâq), e não tive predecessor para um tal projeto."

Foi o "ressuscitador das doutrinas dos Sábios da Pérsia concernentes aos Princípios da Luz e das Trevas". Essa comunidade da Luz, perseguida pelos Magos, adoradores do Fogo, que haviam levantado contra ela o rei sassânida, não é outra senão a Igreja maniqueia.

Sohrawardi havia seguido primeiro a doutrina de Aristóteles, mas teve uma visão de êxtase. Foi, também ele, iluminado. Mostraram-lhe a multidão desses "seres de Luz que contemplaram Hermes e Platão e essas irradiações celestes, fontes da Luz de Glória e da Soberania de Luz de que Zoroastro foi o anunciador..." Retomou a fórmula modificada de Sócrates: "Desperta para ti mesmo!" Ensinava uma iniciação progressiva pelo Conhecimento, uma Iluminação pela qual a alma se conhece a si mesma e conhece todas as coisas por sua luz interior. Tudo isso é perfeitamente gnóstico.

* * *

No século VI, o imperador Justiniano havia fechado as escolas filosóficas de Atenas. O pensamento grego havia emigrado para a Síria, para Edessa. Os filósofos sírios o haviam transmitido aos árabes, que publicaram comentários em Bagdá: Al Farabi no século X, Avicena no século XI, Averróis no século XII em Toledo, na Espanha.

Ora, o pensamento de Aristóteles havia sido transtornado e falseado pela publicação de obras neoplatônicas que lhe atribuíram os Sabeus, de modo que a coesão de seu sistema metafísico estava rompida e que a mistura mal fundida de teses inconciliáveis ia transtornar o ensino das Universidades cristãs.

Em 1085, os cavaleiros cristãos da Espanha, ajudados pelos cruzados francos com vistas à "reconquista", apoderaram-se de Toledo e fizeram dela a capital do reino cristão, de modo que nunca mais os Sarracenos puderam retomá-la.

Foi então que o bispo francês Raimundo de Sauvetat (1126-1151 aproximadamente) estabeleceu em Toledo um colégio de tradutores para difundir nas Universidades do Ocidente o pensamento e a ciência dos árabes. O judeu Ibn Daoud traduzia do árabe para o "romance", a língua espanhola popular, os livros chegados de Bagdá. Ignorava o latim; é Gundissalvi, bom latinista, mas que ignora o árabe, quem assume o revezamento e transcreve o "romance" de Ibn Daoud em latim.

A partir do século XIII, a filosofia de Aristóteles, revista e corrigida pelos árabes, "engolfa-se" nas Universidades. Aristóteles, como diz tão bem o P. Gabriel Théry, chega a nós "não vestido de peplo e de toga, mas coberto de um albornoz e coroado com o fez árabe." Foi uma verdadeira conquista espiritual do Islã, precisa ele.

Foi também uma verdadeira revolução nas Universidades. A Idade Média vivia até então da filosofia de Platão. Esta só vê na natureza sinais cuja significação se encontra no mundo ideal, que seria o único real, o mundo das ideias puras. Conduz, pois, a um simbolismo sistemático e delirante. Tudo é símbolo, nada deste mundo baixo é real. É o "mito da caverna", bem conhecido. Fica-se estupefato diante do sucesso de um pensamento tão absurdo e tão contrário ao bom senso natural.

Mas Aristóteles, ao contrário, naturalista, considera que a natureza é bem real e contém em si sua inteligibilidade. Descobria-se enfim a natureza que o século XII se contentava em interpretar simbolicamente. Aristóteles usava a demonstração, procedimento próprio da razão. A superioridade dessa metafísica racional sobre os mitos platônicos era tão grande que devia necessariamente prevalecer. Aristóteles tornou-se o "Filósofo" por excelência.

Ai de nós! Aristóteles havia sido "revisto e corrigido" por Averróis. Este lhe havia atribuído a ideia de um intelecto agente único para todos os homens:

"Há, escreve Étienne Gilson em sua "Filosofia da Idade Média", um só e único intelecto agente para toda a espécie humana e é por sua ação em nós que pensamos... A imortalidade só pertence a esse intelecto agente comum a toda a espécie humana, isto é, a imortalidade desaparece e o indivíduo enquanto tal se esvai no momento da morte."

Esse intelecto agente único não é outra coisa, em linguagem escolástica, que a alma universal do mundo ensinada por nossos gnósticos. Não penso por mim mesmo, mas por uma alma divina alojada em mim. Minhas ideias não são obra elaborada por minha faculdade intelectual, são recebidas de uma inteligência divina que age em mim. São, portanto, necessariamente verdadeiras. O erro é impossível. Nossa alma é um Espírito Santo. Nosso corpo não é senão uma carapaça de matéria unida temporariamente a uma alma universal. No momento da morte, nossa individualidade desaparece. É o retorno ao nada, o "Nirvana" dos budistas, seguido do mergulho no Grande Todo. Não se pode ser mais gnóstico!

Prossigamos nas consequências: se o homem não pensa por si mesmo, não é senhor de seus atos. É a alma universal ou intelecto agente que é o único responsável. Não há livre-arbítrio (1). Apliquemos isso ao Islã. É Allah que intervém constantemente na vida humana, segundo seu bel-prazer: "Atamos, diz o Profeta, ao pescoço de cada homem sua ave (seu destino)." — "Allah, explica-nos Louis Gardet, é o único ser e o único agente. O criado não poderia ter real valor ontológico. O bem e o mal não existem nas coisas, mas pelo mandamento do Senhor. E Allah guia no bem quem lhe apraz e abandona no mal quem lhe apraz.

Como não há atividade espiritual própria a cada um, é a comunidade, a "umma", que pensa, que recebeu o Livro. Não há tampouco magistério dogmático no Islã, pois todos pensam pelo mesmo texto perpetuamente recitado. Além disso, não há conhecimento "natural" do mundo. Allah não deu aos homens uma natureza inteligível das coisas que cada um deve "decifrar", que deve "ler" nas criaturas (é o sentido da palavra "intellegere"). Não há realidade permanente, coerente e significativa no mundo criado. Só Deus pode ensinar. Toda ciência da natureza se reduz a uma fé e é aceita sem ato de compreensão natural.

* * *

Compreende-se então muito bem que as autoridades eclesiásticas se tenham inquietado com tal invasão, tão contrária às verdades naturais e à fé cristã. Averróis, o panteísta! Averróis, "o Anticristo"! As condenações multiplicaram-se contra a filosofia de Aristóteles. O bispo de Paris publicou sentenças de condenação, mesmo contra São Tomás de Aquino no início de seu ensino.

Será a glória de São Tomás compreender que era preciso primeiro restabelecer o pensamento verdadeiro de Aristóteles e, para isso, reencontrar o texto inicial. Ignorava o grego. Obteve a tradução direta do grego para o latim feita por Guilherme de Moerbeke. Submeteu o texto a uma exegese rigorosa, literal. Que diferença com a de Averróis! Este último apareceu então, não como o comentador eleito de Aristóteles, mas como seu "depravador". Foi preciso um gênio e um santo para "exorcizar", no sentido próprio, Aristóteles e "libertar" o Ocidente dessa invasão gnóstica sob etiqueta muçulmana.

A LITERATURA

Os críticos literários que se debruçaram seriamente sobre o problema das origens da literatura medieval notaram com precisão o aparecimento súbito, no século XII, de uma epopeia cortês e de romances de cavalaria, cuja fonte não puderam encontrar nas canções de gesta e nas epopeias carolíngias do século precedente. Notaram a esse respeito novidades notáveis na escolha dos temas e nos modos de expressão. Assinalaram a oposição fundamental de inspiração entre as epopeias francas e os romances bretões da Távola Redonda.

Louis Clédat, em sua "Epopeia cortês", define assim os dois gêneros:

"A epopeia cortês, ligeira, brilhante, comprazendo-se na pintura das festas de corte, dos torneios, das expedições aventurosas, gostando de multiplicar as surpresas de um maravilhoso conto de fadas, dá ao amor um lugar preponderante: a epopeia nacional, grave, grandiosa, consagrada às lutas nacionais, feudais ou religiosas, toma da religião os recursos de seu maravilhoso austero, profundamente desdenhoso das paixões e das delicadezas do coração."

Notam-se, nesses romances do ciclo bretão, pinturas vivas, bastante livres, situações arriscadas, uma complacência para com o vício. Em Tristão, por exemplo, nenhuma censura a Isolda e a seu cúmplice; ao contrário, ambos são louvados por sua beleza e seu espírito. Somente o rei Marc é ridicularizado. Encontra-se nesses romances uma espécie de naturalismo todo pagão, uma finura e uma polidez refinada no desprezo mais descarado das leis morais e do ensino da Igreja.

Nota-se igualmente que não se encontra nesses romances vestígio do entusiasmo que suscitavam então entre os cavaleiros francos as lutas contra os Sarracenos e que era a alma dos poemas carolíngios, e a coisa deveria fazer "aguçar o ouvido". É na época em que a cavalaria do Ocidente trava os mais enérgicos combates contra os Sarracenos que uma literatura nova se esforça por desviar os espíritos da nobreza franca para a vida refinada e efeminada das cortes de amor. Trata-se, portanto, de uma operação de desarmamento dos espíritos, bem conduzida desde o Oriente muçulmano e que coincidia com a invasão da nova filosofia em nossas Universidades cristãs.

Ora, o estudo minucioso das fontes mostra-nos que essa literatura cortês é toda tirada dos escritores muçulmanos dos séculos X e XI, que penetrou no Ocidente pela Espanha, como a filosofia na mesma época.

Notou-se, por exemplo, que o tipo do cavaleiro errante, endireitador de erros, é tirado do poema de Antar, coletânea de lendas que remontam a Harun al-Rashid, reunidas em forma de romance por Erous Moyyed, médico e poeta, dedicado ao vizir de Zangui em 1145. Antar, montado em seu cavalo Abjer, está sempre pronto a desembainhar sua espada Dhamy exclamando: "Eu sou aquele que ama Abla". Em recompensa por suas proezas, o rei Zoheir dá-lhe o apelido de Aboulfauris, o pai dos cavaleiros. Encontram-se temas corteses no livro dos Reis (Shah-nameh) de Firdusi, publicado em 1010 e, portanto, anterior às primeiras epopeias cavaleirescas.

O amor cortês ou "o Eterno Feminino"

Na história dos Gnósticos, veem-se aparecer desde o começo mulheres deificadas: Simão, o Mago, vivia com a famosa Helena de Tiro, que personificava, dizia ele, a Ennoia, emanação direta de Deus, e a fé em Helena e nele era a primeira condição da salvação. Montano tinha as profetisas Priscila e Maximila, porta-vozes do Espírito Santo. Os cátaros admiravam sua deusa, Esclarmonde de Foix. Petrarca vê aparecer no Templo de Clara, em Avinhão, sua amiga Laura, Boccaccio recebe sua bem-amada Fiammetta (pequena chama) no Templo de Santa Clara em Nápoles, Dante encontra também sua Beatriz num "lugar onde se cantam os louvores da rainha da glória". Essa Beatriz é uma espécie de deusa que o conduz através do mundo da noite e dos eleitos. Uma certa Guilhermina era considerada, na época de Dante, uma encarnação do Espírito Santo. Frei Dolcino juntara a si uma mulher chamada Margarida, que chamava sua irmã espiritual... Poder-se-ia assim prosseguir o culto da mulher divinizada em toda a tradição gnóstica através dos séculos.

Ora, esse mito gnóstico nos voltou através do Islã, sob a forma do amor cortês cantado em língua d'oc pelos trovadores. Procurou-se muito tempo de onde poderia vir esse tema ao mesmo tempo erótico e religioso, desconhecido antes do século XII em nossa literatura feudal. Dois eruditos debruçaram-se sobre o problema, Eugène Aroux, no século passado, e A.R. Nykl, mais recentemente. Ambos reconheceram nessa nova moda literária uma invasão de pensamento muçulmano.

Encontra-se por toda parte entre os poetas sufis uma mistura extraordinária, um amálgama singular entre o amor espiritual e a exaltação erótica. Os anais dessa poesia que invoca sob o nome de uma mulher a própria divindade, da qual essa mulher é o símbolo visível, abrem-se no Ocidente com Platão, que explicou no "Banquete" que o amor físico dos seres criados é o símbolo e o primeiro grau do amor de Deus.

Remonta-se, nessa busca do amor cortês, a Ibn Daoud, que escrevia em Bagdá em 910 um tratado sobre o Amor, o "Kitab-az-Zahra". O amor humano, diz ele, é um mal que é preciso dominar. É uma fatalidade física, uma força natural, inelutável e cega, sem razão e sem finalidade. É possível reduzir-lhe os malefícios. O ato carnal é repreensível, o desejo dominado é obra meritória:

"Mesmo que a castidade dos amantes, seu afastamento da imundície e o cuidado de sua pureza não fossem protegidos pelos preceitos das leis religiosas e pelo preconceito dos costumes, certamente seria ainda o dever de cada um permanecer casto, a fim de eternizar o desejo que o possui com o desejo que inspira".

Relata-se igualmente um diálogo sobre o amor tirado dos "Prados de Ouro" de Mas'udi, escrito no século VIII. O amor emana da beleza divina, do princípio sutil da substância. Aquele que ama é iluminado por uma chama interior, todo o seu ser resplandece, suas qualidades o colocam acima dos outros homens. O amor só é vivificante por sua derrota, só se realiza na morte.

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A partir do século XI, essa literatura amorosa passa à Espanha. Ibn Hazm (994-1065) publica em Córdoba o "Livro das religiões e das seitas". Em 1022, aos vinte e oito anos, redige o "Colar da Pomba", onde se descobre toda a linguagem dos "Fiéis do Amor" do Languedoc: o mensageiro, a submissão à dama, o "Lauzangier", a fidelidade, a doença e a morte do amante. Essa submissão do amante à sua dama é uma homenagem platônica à Beleza, uma exaltação da dama divinizada. "O amante deve submeter-se aos desejos de sua amada, como o escravo e o doméstico a seu senhor".

Seu contemporâneo Ibn Zaydun compõe unicamente poemas à poetisa Wallada, filha de um califa, que era "a primeira mulher de seu tempo". No século XII, Abu Bakr Mohammed ibn Guzman celebra o amor cortês em língua árabe popular, o "zajal", em que mistura muitas palavras e expressões em língua d'oc, o que supõe um público meio árabe, meio cristão.

Enfim, essa literatura aparece na França, em Poitiers primeiro, trazida pelos cavaleiros do conde Guilherme. Em 1120, ele havia conduzido 600 cavaleiros a Afonso, o Batalhador, que havia percorrido num relâmpago toda a Espanha até Valência e Granada. O conde Guilherme havia desposado uma aragonesa, a viúva de Sancho de Aragão. Na tomada de Barbastro, os autores árabes contam que os senhores francos se haviam conduzido de maneira escandalosa. No curso dessas guerras contínuas, as duas civilizações, a árabe e a cristã, compenetraram-se, sobretudo pelos prisioneiros e transfugas, pelos judeus também.

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Para o platonismo dos sufis, como para os fiéis do amor, produz-se uma verdadeira transmutação do amor humano, que aparece como uma emergência divina.

Escutemos este texto significativo de Ahmed Ghazali (morto em 1126 no Irã):

"Quando o amor existe realmente, o amante torna-se o alimento do Amado: não é o Amado que é o alimento do Amante, pois o Amado não pode ser contido na capacidade do amante... A mariposa que se tornou amante da chama tem por alimento, enquanto ainda está à distância, a luz dessa aurora. É o sinal precursor da iluminação matutina que a chama e a acolhe. Mas ela deve continuar a voar até alcançá-la. Quando chegou, já não cabe a ela progredir rumo à chama, é a chama que progride nela. Não é a chama que lhe é alimento, é ela que é o alimento da chama. E é aí um grande mistério. Um instante fugaz, torna-se seu próprio amado (pois é a chama). E sua perfeição é isso".

Praticar o amor é divinizar-se. Não se trata de um amor puramente espiritual, mas bem carnal. Os textos dos poetas sufis e dos trovadores são formais. As descrições sensuais e eróticas ali abundam. O abraço amoroso provoca em todo o corpo uma exaltação da sensibilidade geral que dá ao amante a impressão de elevar-se acima de sua condição simplesmente humana e de participar de um ato divino. É por isso também que procura encontrar a morte no próprio ato do amor para eternizar essa intuição divinizante.

É fato que, ao contrário do que afirmam os fiéis do amor, a união carnal tem uma finalidade natural, que é a procriação, isto é, uma participação na ação criadora de Deus. Em certo sentido esse ato é divino, em todo caso é sagrado. A Igreja o santificou pelo sacramento do matrimônio, mas ele não diviniza.

Ora, os "Fiéis do Amor", como os poetas sufis, querem retirar do amor sua finalidade. Dizem-no puro e casto, isto é, estéril. Falam de um amor "de longe", diríamos hoje um abraço reservado. Era a forma de contracepção da época. Uni-vos no ato carnal, mas não deis a vida, procurai antes a morte. Além disso, esse amor é sempre adúltero e praticado fora do casamento. É a exata inversão dele. Não se pode opor-se mais eficazmente ao plano do Criador do que recusando transmitir a vida que se recebeu dos pais. Só Lúcifer, "homicida e mentiroso", pode interessar-se por tal arremedo do verdadeiro amor tal como Deus o quis.

A Linguagem das Aves

Em seu desejo de divinizar-se, o homem procura meios de subir ao azul e de confundir-se com a Luz para voltar a seu lugar de origem, o céu, de onde caiu por uma queda catastrófica. Eis um tema gnóstico bem conhecido.

O homem gostaria de ser ave: seu voo no ar parece subtraí-lo ao peso, no azul e sob os fogos do sol aparece nimbado de ouro e de luz. Acaba por confundir-se com o próprio céu. Eis um símbolo da alma, encerrada em sua carapaça corporal, que, "emplumada" à maneira de Ícaro, procura reencontrar o mundo divino de onde foi lançada.

Conhece-se o texto célebre de Chateaubriand, em René:

"Muitas vezes segui com os olhos as aves de passagem que voavam acima de minha cabeça. Imaginava as margens ignoradas, os climas longínquos aonde vão. Teria querido estar em suas asas. Um secreto instinto me atormentava. Sentia que eu mesmo não era senão um viajante, mas uma voz do céu parecia dizer-me: Homem, a estação de tua migração ainda não chegou, espera que o vento da morte se levante, então desdobrarás teu voo rumo a essas regiões desconhecidas que teu coração pede. Levantai-vos depressa, tempestades desejadas, que deveis levar René aos espaços de outra vida."

Esse texto ilustra bem o de al-Ghazali, citado acima, que nos mostra a mariposa que, por seu voo, alcança a luz da manhã para confundir-se com a chama que a acolhe e na qual se perde.

Ora, os poetas muçulmanos jogaram nesse registro com muita virtuosidade. O poeta persa Farid al-Din Attar escreveu um poema intitulado "O Colóquio das Aves" (Mantiq al-Tayr). Sob a condução da poupa, as aves põem-se à procura de Simurgh, que escolheram como Rei. Todas perecem no curso da busca, exceto trinta delas. (Si quer dizer trinta e murgh, em persa, significa aves). Esses sobreviventes acabam por reconhecer a divindade em si mesmos e são absorvidos no Simurgh divino por aniquilamento (fanâ) de sua individualidade material.

Esse poema tem grandes analogias com outra obra persa, "A Rosa de Bakawali". A rosa misteriosa proposta à conquista do homem é o próprio Deus. Encontra-se nela a doutrina dos sufis:

"Deus existia só no começo dos séculos, diz-se ali. Estava concentrado em si mesmo. O sol de sua substância permanecia escondido atrás do véu do mistério. Comprazia-se em seu amor. Mas sentiu o desejo de manifestar-se para fora. Quis mostrar sua beleza, fazer conhecer o vinho de seu amor e pôr em evidência o tesouro sagrado de sua natureza. Para isso criou o universo. Foi assim que a unidade de Deus foi refletir-se no espelho do nada".

O mundo não é senão o espelho de Deus; é puro nada, é Deus refletindo-se sobre si mesmo. Não se pode ser mais panteísta.

Pois bem! essa "Rosa de Bakawali" é a inspiradora do célebre "Romance da Rosa". Essa Rosa divina está posta no centro de um belo jardim que percorre Déduit, que "da terra dos Sarracenos fez ali essas árvores trazer". Precisemos que as aves, cantoras de amor, ali gorjeavam à porfia, procurando superar-se umas às outras: "Cantavam um canto tal como se fossem espirituais". Compreender a linguagem das aves é, portanto, preparar-se para juntar-se ao reino da Luz, o "Wonderland" que Michel Carrouges nos descreveu com tanta precisão minuciosa em sua "Mística do Super-homem".

CONCLUSÃO

A religião muçulmana foi marcada desde seu aparecimento por uma importante série de deficiências fundamentais. Enumeremo-las:

No Islã, não há culto sacrificial, portanto nem sacerdócio, nem sacrifício, nem sacramento, digamos nada de especificamente "sagrado".

No Islã, não há doutrina, portanto nem magistério, portanto nem ensino. A recitação cadenciada e balançada do Corão, os comentários sobre os "hadiths" do Profeta não podem decentemente chamar-se um ensino.

No Islã, não há a distinção fundamental entre o domínio temporal e o domínio espiritual. Um dos dois reduz-se ao outro e constatamos que o espiritual é dominado e esmagado pelo temporal. Em consequência, não existe tampouco no Islã distinção entre o foro externo dos atos humanos e o foro interno das consciências. A moralidade reduz-se à observância das regras jurídicas e, como o livre-arbítrio é negado, o domínio da consciência pessoal é reduzido a nada. Eis um handicap prodigioso para a educação da retidão de intenção na vida moral.

De tal modo que o Islã só pode ser chamado de "religião" num sentido bem restrito e quase usurpado. De fato, "faz as vezes" de religião para milhões de homens há séculos. Compreende-se que, com tal deficiência de quase tudo o que poderia constituir, em sentido próprio, uma "religião", os povos submetidos ao Islã tenham voltado a uma semibarbárie, a um embrutecimento geral dos espíritos e a uma longa esclerose da civilização.

Nessas condições, o Islã não podia espalhar-se pelas cristandades da Europa, que o rejeitavam com horror.

Os escritores muçulmanos tiveram de buscar seu alimento intelectual em outro lugar. Os filósofos foram encontrar no pensamento grego com que nutrir suas meditações. Transmitiram ao Ocidente a filosofia neoplatônica que lhes era dada de pasto pelos Sabeus. Os poetas e os místicos foram encontrar no Budismo com que alimentar seus sonhos. Transmitiram ao Ocidente o panteísmo que lhes insuflaram os sufis.

E desde então o Ocidente cristão absorveu em parte esses dois venenos. A filosofia realista de Aristóteles e de São Tomás não pôde impor-se definitivamente e, desde Descartes, vivemos na mais completa confusão das doutrinas. A literatura permanece ainda hoje envenenada por uma noção do amor tão contrária à ordem natural, como demonstrou Denis de Rougemont em sua notável obra: "O Amor e o Ocidente".

Enfim, quando o Ocidente pôde retomar o domínio político e militar sobre o mundo árabe, o Islã foi capaz de assimilar os progressos técnicos, o poder material, o luxo e o conforto de suas classes dirigentes, mas rejeitou com instinto infalível o cristianismo que lhe era apresentado simultaneamente. A "religião" muçulmana permanecerá sempre o obstáculo mais radical à expansão da fé cristã.

E. C.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

A obra do P. Gabriel Théry é resumida em:

Sobre a filosofia no Islã:

Sobre o Amor cortês e os trovadores:

A obra de Eugène Aroux é introuvável. Um resumo de seu ensino em:

Para uma visão de conjunto do mundo muçulmano, reler:

Algumas monografias importantes:

Nota

  1. É o que havia compreendido muito bem um bravo cavaleiro do tempo de São Luís, em Paris, onde esses problemas eram levantados. A seu confessor, que lhe pedia que expiasse suas faltas, respondeu: "Se a alma do bem-aventurado apóstolo Pedro está salva, eu também o estarei, pois, se não temos senão uma única inteligência para conhecer, nosso fim será o mesmo."


Revision #1
Created 24 October 2026 18:37:20 by Admin
Updated 24 October 2026 18:37:20 by Admin