Cadernos Barruel 26 - 1994
- Morte e ressurreição do Tomismo no século XIX
- Nos livros: "A direita do Pai"
- Gnose e pensamento russo
- O Mundialismo - I
- Gnose e Islã - II
- Nota sobre a Cabala
Morte e ressurreição do Tomismo no século XIX
Todo o pensamento religioso, no início do século XIX, é dominado pela doutrina do Tradicionalismo, que exerceu um domínio quase total sobre o conjunto dos clérigos e dos filósofos cristãos da época. Essa ditadura do pensamento "tradicional" prolongou-se por cerca de cinquenta anos e seduziu as inteligências mais brilhantes do tempo, exercendo um prestígio moral considerável sobre os espíritos mesmo mais ponderados.
Fenômeno desconcertante. Essa teoria nos aparece hoje como marcada por uma cascata de incoerências e de contradições cuja falsidade já não precisa ser demonstrada. (1)
É preciso buscar, antes de tudo, a explicação desse Tradicionalismo na reação violenta que os bons espíritos tiveram de sustentar contra os excessos do racionalismo filosófico do século precedente. A razão humana, exaltada pelos enciclopedistas, travara um combate encarniçado contra a Revelação cristã, batizada de "superstição". Ultrapassando todos os seus direitos, ela se havia deificado e erguido sobre os altares da Revolução em 1793. Pusera a França inteira a ferro e fogo durante anos. Era preciso, portanto, como dizia tão bem Lamennais, "ir direto a ela, apanhá-la em seu trono e forçá-la, sob pena de morte, a prostrar-se diante da razão de Deus" (numa carta de 2 de janeiro de 1821).
Para um filósofo católico, era bem necessário partir em guerra contra essa razão desvirtuada, humilhá-la, derrubá-la de seu pedestal, demonstrar sua incapacidade de descobrir por suas próprias forças as verdades religiosas e morais que constituem o patrimônio indispensável de toda a humanidade. Era preciso recorrer a uma tradição ou Revelação primordial de origem humano-divina, mantida como se pôde através das deformações que o espírito humano pudera introduzir nela ao longo dos séculos.
Pensava-se assim assentar a apologética sobre uma base inabalável. Ai de nós! Como estabelecer a solidez de uma Revelação primitiva transmitida através das eras por homens que nos foram apresentados como afligidos por uma razão impotente e fonte de múltiplos erros? Apelou-se então ao consentimento unânime, à vontade geral da Humanidade. É bem um dos temas principais de Lamennais.
Mas como a totalidade somada das razões individuais falhas poderia chegar a uma verdade certa? Há aí uma incoerência de monta. Resta, enfim, a Tradição católica, transmitida pela Igreja desde Jesus Cristo. Esta, ao menos, é sólida, firme, pois é certamente de origem divina. Ai de nós! Caímos então num círculo vicioso e só podemos provar essa apologética da Verdade cristã por ela mesma, sem o socorro de uma razão natural que pudesse nos conduzir a ela. É a ruína de toda apologética.
O ENSINO RELIGIOSO NO SÉCULO XIX
Os Pais do Tradicionalismo não receberam nenhuma formação filosófica séria. Permaneceram marcados pela filosofia das Luzes do século anterior, contra a qual se esforçam por lutar, e falta-lhes essa base fundamental de uma confiança prudente e generosa na força da razão, que o estudo da escolástica poderia ter-lhes insuflado.
As incertezas e as hesitações do pensamento deles podem resumir-se bem neste diálogo ouvido um dia em La Chesnaie, a propriedade onde Lamennais eletrizava as belas almas de seus discípulos:
"Quereis, disse ele, provar ao vosso século que o Catolicismo é a única religião racional; demonstrar-lhe que, se não aceita o símbolo católico, ele se exila da sociedade dos inteligentes, põe-se fora do senso comum de todos os povos e de todos os séculos; numa palavra, que é louco.
— Mestre, replicou timidamente o padre Gerbet, o futuro bispo, não temeis irritar a razão em vez de curvá-la por um procedimento tão absoluto? Não valeria mais reconciliar a alma humana com a religião, mostrando-lhe as harmonias íntimas que existem entre seus dogmas, seus preceitos e as necessidades mais profundas da humanidade?
— Pois bem, retomou o padre Lamennais, esse ponto de vista completa o meu e não o rejeito."
Diálogo significativo! E que mostra bem as incoerências e as contradições desses bons padres. Lamennais fez-se detrator da razão; mas está impregnado de Descartes e é ainda à razão que apela para assentar sua apologética, à razão impessoal e universal do "senso comum". Em outras palavras: "Fundai vosso pensamento no pensamento universal e alcançareis a Verdade".
Parece-nos que Hegel e Marx disseram praticamente a mesma coisa. Essa "Razão universal" é, portanto, de origem divina, visto que as razões individuais são tão fracas e tão impotentes. Como não ver que Lamennais nos reconduz, apesar de si mesmo, a essa Deusa Razão, posta pelos jacobinos sobre os altares patrióticos em 1793?
Por outro lado, quais são essas "harmonias íntimas" e essas "necessidades profundas" da natureza humana que devem completar o uso da razão, segundo Lamennais? Os dogmas e os preceitos da Igreja estão em harmonia íntima com as necessidades mais profundas do homem, diz o padre Gerbet, e é uma demonstração a fazer para levar a alma rebelde a submeter-se. Como não ver, assim, que as necessidades mais profundas da alma se tornaram o critério da verdade religiosa e que a alma aceitará então submeter-se apenas àquilo que julgar em harmonia com suas necessidades. Ai de nós!
O pensamento cristão do século XIX permaneceu longamente suspenso entre um racionalismo cartesiano, envergonhado de si mesmo mas muito vivaz, e uma exaltação do sentimento religioso comum a toda a geração romântica e responsável por todas as extravagâncias do "Mal do Século".
UM "CARTESIANISMO ATENUADO"
A expressão é de Renan: "O ensino filosófico do seminário, escreve ele, era a escolástica em latim, não a escolástica do século XIII, bárbara e pueril (que desprezo!), mas o que se pode chamar a escolástica cartesiana, isto é, esse cartesianismo atenuado que foi adotado em geral pelo ensino eclesiástico do século XVIII e fixado nos três volumes conhecidos pelo nome de Filosofia de Lyon". ("Souvenirs", p. 245)
Essa "filosofia de Lyon" era obra do oratoriano Valla, autor de uma teologia colocada no índice pelo papa Pio VI em 1792. Fora imposta aos seminários da França pelo padre Emery, que havia reconstituído e dirigido em Paris o Seminário de São Sulpício.
Era um santo sacerdote, mas admirador de Descartes, que havia exaltado em seus "Pensamentos de Descartes sobre a religião e sobre a moral". Participara das negociações da Concordata. Exercia grande autoridade sobre os pensadores de seu tempo. O Sr. de Bonald nos gaba as qualidades do "sábio Sr. Emery, que fizera um estudo particular das obras de Descartes e declarara que a metafísica de Descartes era pura, isto é, isenta de erros... Não cremos, acrescenta ele, que se possa ter mais ciência e melhor juízo do que o Sr. padre Emery."
Lia-se também nos seminários as "Lições de Filosofia" do padre Flottes, que seguia em inúmeros pontos Locke, Condillac e Jean-Jacques Rousseau. Lia-se ainda a Filosofia dita de Bayeux, obra do Sr. Noget-Lacoudre, que louvava tanto Descartes quanto Bacon...
"Quando se sabe como essa filosofia (cartesiana) é refratária a toda adaptação teológica, já não nos espantamos com a decadência profunda em que havia caído a ciência sagrada em nosso país, declara o padre J. Bellamy (2)... Como, com uma filosofia tão defeituosa, a teologia poderia ter alçado voo?"
Renan notou igualmente as grandes decepções que experimentou ao chegar ao seminário de Paris. Impressionou-o o contraste entre o meio bretão que acabava de deixar e esse meio parisiense em que mergulhava:
"Sim, diz ele, um lama budista ou um faquir muçulmano, transportado num piscar de olhos da Ásia para o meio do bulevar, ficaria menos surpreso do que eu ao cair subitamente num meio tão diferente do de meus velhos padres da Bretanha. Minha vinda a Paris foi a passagem de uma religião a outra. Meu cristianismo da Bretanha não se parecia mais com o que encontrei aqui do que uma velha tela, dura como uma tábua, se parece com a percal. Não era a mesma religião. Meus velhos padres, em sua pesada capa românica, apareciam-me como magos que tinham as palavras da eternidade; agora o que me apresentavam era uma religião de chita e de calicô, uma piedade perfumada de almíscar, enfitada, uma devoção de velinhas e de vasinhos de flores, uma teologia de mocinhas, sem solidez, de um estilo indefinível, composta como o frontispício policromo de um livro de Horas de Lebel."
Mais adiante ele esclarece que seus mestres bretões de Tréguier rejeitavam os últimos rebentos da literatura religiosa: "Conhecia-se Chateaubriand, mas, com um instinto mais justo que o dos pretensos neoclássicos, cheios de ingênuas ilusões, esses bons velhos padres desconfiavam dele. Um Tertuliano alegrando sua apologética com Atala e René inspirava-lhes pouca confiança. Lamartine perturbava-os ainda mais; adivinhavam nele uma fé pouco sólida, viam suas fugas ulteriores..."
Renan mostra-se severo e até injusto para com seus mestres do seminário. Mas tem razão em notar as fraquezas do pensamento e as insuficiências da apologética. Seus bons mestres bretões tinham o senso integral da Fé e rejeitavam energicamente as apologéticas do sentimento. Exigiam uma expressão firme e rude da doutrina, sem falsas aparências. Recusavam esse oportunismo sutil que consiste em contornar o enunciado da doutrina, em buscar primeiro um assentimento implícito a uma doutrina deixada na imprecisão, de modo a fazê-la passar mais facilmente e a evitar chocar frontalmente inteligências já pervertidas pela mentalidade ambiente. Expunham a doutrina do "Catecismo de Trento", as provas históricas, sem vãos ornamentos, sem atenuações prudentes.
UMA APOLOGÉTICA DO SENTIMENTO
Ela causou furor durante toda a era romântica. Anunciada pela "Profissão de Fé do vigário saboiano", desenvolvida por Chateaubriand com uma arte sedutora, essa apologética só podia desviar as almas da verdadeira Fé e instalá-las num sentimentalismo autossuficiente, em que adquiriam o hábito de contemplar-se com complacência em sua subjetividade.
O mesmo movimento romântico desenvolvia-se nessa época na Alemanha e o novo clero deixava-se prender pelos atrativos da sensibilidade religiosa. Dois sacerdotes se destacaram nessa tentativa de "despertar" da Fé, os padres Overberg e Stolberg. Ambos foram platônicos entusiastas.
STOLBERG havia traduzido os "diálogos" de Platão para o alemão, acompanhados de notas eruditas. Publicou a "História da religião de Jesus", na qual afeta um profundo desprezo "por essa pobre razão humana, que só pode entrever, comparar, supor, a quem não é dado aprofundar o princípio da menor coisinha". Chega a dizer que "pelo próprio fato de ser humana, a razão humana não pode atingir o conhecimento das verdades divinas e que Deus reserva esse conhecimento à humildade que escuta as palavras, e somente a ela".
Nega até a capacidade que nossa razão tem de provar a verdade: "Deus não quis que nossa Fé dependesse apenas dessas provas, que nem todos os homens poderiam estar em condição de apreender e que, mesmo quando agem apenas sobre o espírito, dão bem a convicção, mas não a força de viver segundo essa convicção". O estudo da vida de Jesus "é antes de tudo uma coisa do coração".
OVERBERG também é platônico. Admira os "diálogos" de Platão e seu método dito "Maiêutico", que leva o discípulo a descobrir por si mesmo o verdadeiro. Interpela o homem natural, dirige-se à religiosidade da criança. As crenças religiosas surgem para satisfazer as necessidades sucessivas dessa religiosidade solicitada. Mas não se vê bem em que a revelação cristã poderia ser o desenvolvimento natural de uma necessidade da sensibilidade, dita religiosa. Se essas verdades saem de nosso coração e são descobertas por ele mesmo, também não se vê bem a necessidade de um ensino: "Consultemos nosso coração e nele veremos Deus". É, pois, Deus que nos revela diretamente seus mistérios. Nossa alma está toda impregnada do divino. Daí a dizer que ela é uma emanação de Deus, vai um passo logo dado, e recaímos no panteísmo e na Gnose.
Faltou aos apologistas do sentimento um conhecimento aprofundado da escolástica, que lhes teria permitido reconhecer o valor fundamental da atividade racional na busca da verdade e em sua demonstração, assim como essa distinção necessária entre a faculdade intelectual e seu exercício, pelas noções metafísicas de ato e potência.
Ai de nós! Nessa época toda a intelligentsia cristã, clérigos e leigos, mostrava profundo desprezo por essa escolástica que fizera a glória da universidade medieval.
O DESPREZO PELA ESCOLÁSTICA
A nova Universidade moderna, criada na França por Napoleão, sob a forma de monopólio de Estado, criada na Alemanha pelos príncipes protestantes, tivera o cuidado, nessa época, de pôr entre parênteses a filosofia medieval.
O mestre da universidade francesa, Victor Cousin, em seu curso de filosofia de 1818, havia declarado que nunca houvera "senão duas épocas verdadeiramente distintas na história da filosofia como na do mundo: a época antiga e a época moderna". Entre as duas, a luz do gênio grego "foi-se extinguindo pouco a pouco na noite da Idade Média... e a segunda época começa em Descartes".
Essa concepção das coisas passara até para os manuais de filosofia dos seminários. Eis o que o Sr. Noget-Lacoudre declara em sua "Filosofia de Bayeux":
"Guardemo-nos, senhores, de crer que todos os autores escolásticos haviam repudiado o uso da razão. Os nomes ilustres e venerados de Santo Anselmo, São Tomás, São Boaventura, Alberto Magno protestariam contra tal injustiça.
Cumpre confessar, no entanto, que nas escolas da Idade Média prevalece o método de autoridade. A doutrina de um filósofo é adotada por decreto da Faculdade. O papel do professor reduz-se a comentar teses que não é permitido pôr em discussão. Não lhes ocorre fazer uma experiência física, nem, no que concerne aos sistemas de metafísica, escrutar-lhes o fundamento racional.
Certamente, em matéria de teologia, o método de autoridade se impõe, pois os dados teológicos vêm de Deus e os dogmas são impenetráveis à razão. Mas em filosofia, é ao raciocínio e à experiência que cabe a última palavra. O método de autoridade foi o defeito fundamental da filosofia escolástica. Aqueles a quem coube assinalá-lo e opor-lhe o remédio foram, para a metafísica, Descartes e, para a física, Bacon, chanceler da Inglaterra."
Eis um lugar-comum de todo o pensamento moderno. O período medieval é atingido pela inércia e pela esterilidade do espírito, um mundo de barbárie e de servidão intelectual do qual Descartes enfim nos libertou.
O autor dessa diatribe marca um respeito de conveniência para com os grandes escolásticos, recomendados pela Igreja, respeito imposto pelo apego aos dogmas da Igreja, mas manifesta um profundo desconhecimento daquilo que julga tão sumariamente e não vê os perigos consideráveis da nova filosofia de Descartes, que exalta além da medida.
* * *
Todos os pensadores cristãos do século XIX, com um conjunto notável e um furor cego, denegriram violentamente a escolástica. (4) Comecemos pelo Sr. de Bonald, o mestre do pensamento religioso tradicional nessa época:
"Espíritos incultos (trata-se de Santo Alberto Magno, de São Tomás de Aquino e tutti quanti) tornaram-se sutis com Aristóteles, antes que teriam sido eloquentes com Platão. Tomou-se por metafísica uma ideologia obscura e litigiosa. Regras mecânicas da arte de raciocinar tomaram o lugar da razão e julgou-se encontrar, nos universais e nas categorias, a universalidade dos conhecimentos humanos. A dialética de Aristóteles fornece um alimento inesgotável às disputas, um arsenal aberto a todos os combates".
Mais adiante, ele cita uma observação de Leibniz que fala do "esterco" da escola.
Ora, o Sr. de Bonald é um verdadeiro cartesiano. Apela frequentemente "às únicas luzes da razão"; mas saltou quatro séculos de filosofia cristã sem ver que, antes dele, se havia buscado e encontrado a verdade pela "luz da razão, iluminada pela fé". Pretende ser o primeiro a ter achado, na revelação da linguagem por Deus, o princípio de todo conhecimento.
É contrário à definição escolástica do homem, animal racional. Indigna-se: "A definição que chama o homem de animal racional já não distingue bastante essa nobre criatura... Ela inverte a ordem de nossas faculdades ao nomear a parte que recebe o movimento antes da que o comunica. Inverte até a ordem eterna dos seres ao colocar a matéria antes do espírito". Sua definição própria é "uma inteligência servida por órgãos".
Retoma, é claro, a doutrina dos platônicos, dizendo, segundo Cícero, que o homem não é senão um espírito tendo por apêndice um corpo ("Aiebant appendicem animi esse corpus"), que a alma está unida ao corpo como o motor ao móvel, o barqueiro ao barco, o cavaleiro à montaria, etc... Não se pode ser mais cartesiano.
Na esteira do Sr. de Bonald, Maine de Biran comenta:
"Certamente, não era por vãs disputas de peripatetismo, por suas questões abstratas e ociosas, tão próprias para desviar ou dissipar o homem interior, que a verdadeira filosofia podia reerguer-se, e concordamos inteiramente com o autor das "Pesquisas" (o Sr. de Bonald), quando deplora essa época de extravio do espírito em que as regras mecânicas da arte de raciocinar tomavam o lugar da razão, em que se julgava encontrar nos universais ou nas categorias a universalidade dos conhecimentos humanos e a onisciência já pronta".
Maine de Biran, como se vê, limita-se a copiar as observações do Sr. de Bonald, sem a menor originalidade.
Na mesma época, o padre Bautain explicava que a filosofia de Aristóteles, ao substituir as ideias por abstrações, empobreceu ainda mais a filosofia de Platão, "doutrina estreita, rígida e mesquinha, filosofia pobremente tradicional que não sabe elevar o olhar para o que a domina, que pretende fazer o homem entrar em si mesmo e o detém em sua razão própria, que, nunca descendo à profundeza do ser humano, ignorará sempre o que é a alma, a consciência, a espontaneidade, a liberdade". O aristotelismo desemboca logicamente no panteísmo da razão impessoal, acrescenta. Aliás, em São Tomás "olhando de perto, as ideias são todas platônicas". Em suma, uma filosofia incapaz de subir ou descer!... E sempre a referência a Platão, o grande "Sedutor"!
O Padre Ventura também fora, desde a juventude, posto em guarda contra a escolástica. Seu professor de física, conta ele, comprazia-se em ridicularizar a profunda doutrina dos escolásticos sobre a forma substancial dos corpos. Fora discípulo entusiasta e admirador do Sr. de Bonald e de Lamennais, cujas obras traduzira para o italiano.
Mas, mais tarde, na época em que se esforçava por ressuscitar na França a escolástica de São Tomás por séries de conferências em Paris, ele notara bem o obstáculo com que esbarrava: "Encontrei o Sr. de Bonald barrando-me o caminho; tive de afastá-lo... Era um adversário temível, justamente por causa de suas qualidades. Era uma imensa pedra de tropeço para os que queriam voltar à verdadeira filosofia do Cristianismo. Citavam-mo a toda ocasião e a todo momento. Tive de combatê-lo e o fiz sem humilhá-lo, porque lhe opus um gênio que lhe é muito superior, São Tomás..." (5)
RAZÃO CARTESIANA E RAZÃO TOMISTA
Nesse desprezo pela escolástica há uma contradição maior. São os mesmos espíritos que, impregnados do pensamento cartesiano e, portanto, imbuídos de racionalismo, denunciam a impotência da razão para atingir a verdade e, simultaneamente, acusam São Tomás de Aquino de ser ele, antes de tudo, um puro racionalista. Claro, e num primeiro momento, podemos notar sua ignorância prodigiosa da filosofia escolástica, que pode explicar essa incoerência em seus juízos. Mas há mais.
Era-lhes difícil restabelecer o bom equilíbrio de seu pensamento, porque a leitura dos enciclopedistas e dos filósofos racionalistas foi sua única abertura para a metafísica e porque não podiam desprender o espírito das catástrofes e das destruições operadas durante a Revolução em nome da Deusa Razão. Estavam mergulhados num impasse prodigioso que os deixava perplexos e desarmados.
Foi então que buscaram, fora do uso natural da razão, um meio de assegurar um conhecimento infalível da verdade. Queriam encontrar uma garantia automática contra o erro. "Se não se supõe a razão humana infalível, explica Lamennais, já não há certeza possível e, para ser consequente, é preciso duvidar de tudo sem exceção". Eis um raciocínio bem cartesiano, mas a conclusão não se segue. Com nossa razão falível, vivemos de certezas muito numerosas que jamais foram objeto da menor dúvida e de incertezas ou opiniões menos seguras que procuramos reduzir depois de muitas hesitações.
Mas compreendemos bem, por Lamennais, que nossa razão só pode ser infalível com a condição de ser de natureza divina. E eis que se apresenta a seu espírito a tradição platônica, na versão "revista e corrigida" por Santo Agostinho: a iluminação divina. As fórmulas de Santo Agostinho são muito explícitas: "As ideias são formas ou razões imutáveis, incriadas e eternas, contidas na inteligência divina, onde a alma racional que é reta, sincera e pura as contempla". Em seu "De vera religione", precisa: "Deus preside às inteligências humanas sem intermediário de nenhuma natureza", o que o leva a rejeitar o uso natural da razão exercendo-se sobre os "dados" da criação. E ainda: "A alma racional só é iluminada pela própria substância de Deus".
Eis o que isso pode dar, retraduzido por Lamennais:
"Toda certeza repousa no conhecimento de Deus"...
"A certeza não é senão uma fé plena e inteira na autoridade infalível"...
"Toda certeza repousa na Fé". (Em seus "Ensaios", passim)
O uso natural da razão é posto entre parênteses. Pensamos pela autoridade de Deus. Todos os conhecimentos são reduzidos a uma fé sobrenatural. Não se poderia confundir melhor os dois domínios.
Depois Lamennais e seus discípulos procuraram onde encontrar essa iluminação divina. Numa revelação divina feita a nossos primeiros pais e transmitida pelo "senso comum", isto é, o conjunto das noções comuns a todos os povos e a todas as gerações. Maine de Biran mostrara então a incoerência e o absurdo de tal pretensão. (6)
Como, com efeito, pode-se atingir uma certeza infalível somando uma multidão de razões falíveis? Eis uma matemática que temos dificuldade em digerir.
A solução mais simples era voltar a Descartes, que os tradicionalistas rejeitavam como abominável racionalista, mas de quem não conseguiam desligar-se. Em vez de ir buscar garantias extrínsecas contra o erro, Descartes faz a verdade sair do Eu pensante. Todo o meu pensamento está contido em minha substância e a razão é a ferramenta que permite exprimi-lo, "fazê-lo sair", "como o fogo do sílex", precisou ele um dia. "No Cogito, explica Blanc de Saint-Bonnet, Descartes toma o Eu ou o pensamento como origem, centro e ponto de partida da filosofia. O mundo e Deus não tardariam a ser considerados simples prolongamentos do Eu". E precisa que o Cogito dá "passagem ao exército inteiro do panteísmo contemporâneo".
Olhando as coisas de perto, não há, aliás, diferença essencial de concepção entre a razão cartesiana, iluminada por um eu divino, as ideias iluminadas por Deus tais como as expõem os tradicionalistas e as harmonias íntimas ou as necessidades profundas da alma tornadas critérios de verdade, segundo os Românticos e os Carismáticos. Tudo isso se sustenta.
Um professor lionês, Francisque Bouillier, em seu Discurso de abertura de 1844 na Faculdade de Letras de Lyon, exclamava com convicção:
"Quando deificamos a razão, não fazemos um Deus do que não o é, não erguemos altares a um ídolo, não deificamos senão o que é divino, não fazemos senão reconhecer Deus onde ele está, Deus presente na consciência como está presente no mundo".
Conclusão toda lógica. Ao procurar em nossa alma o critério da verdade sob a forma de iluminação divina, de necessidade íntima e profunda de nossa sensibilidade, não fazemos senão buscar desajeitadamente deificar-nos, e é o professor lionês quem tem razão e quem não sabia dizer tão bem.
Essa valsa-hesitação contínua entre racionalistas cartesianos, tradicionalistas e românticos mostra bem as incertezas de um pensamento que fora então desmamado da grande filosofia escolástica. Ai de nós! Se esses pensadores cristãos tivessem se dado ao trabalho de abrir a obra de São Tomás, teriam podido enfim formar uma concepção justa do uso natural da razão.
A verdade, segundo a fórmula tomista, é "a adaequatio rei et intellectus", digamos: a conformidade de nosso pensamento com o real. Não possuímos em nós a fonte de nossas ideias, nem mesmo o critério da verdade em nossos juízos. Todos os nossos conhecimentos são recebidos e não produzidos. Nossa razão não é uma faculdade produtora, mas receptora da verdade. A verdade está nas coisas e nosso espírito se contenta em extraí-la delas e apropriar-se dela. São as coisas conhecidas que nos dizem o que são e nosso espírito deve "fazer retorno" sobre o objeto de seus conhecimentos para "confrontar" seu pensamento com a realidade e reconhecer-lhe o fundamento.
Eis o papel natural da razão. Não existe garantia automática contra o erro e, a cada juízo, devemos fazer esse esforço que chamamos de "verificação". É, portanto, bem verdade que nosso espírito, em seu próprio ato de tomar conhecimento, submete-se humildemente ao real. Ao apropriar-se da verdade das coisas conhecidas, recebe uma luz natural que não é outra coisa senão o pensamento criador incluído nos seres naturais que nos cercam.
É um ponto fundamental sobre o qual deveria insistir toda apologética. A humildade de nossa razão deve exercer-se já sobre o mundo da natureza, que é um dado primeiro, uma revelação do pensamento criador. E essa submissão de nosso espírito deve ainda reconhecer e acolher os "mistérios" da natureza. Não podemos penetrar no mais íntimo das coisas, nem percorrer o espaço e o tempo em busca do infinito. Isso também é um mistério do Deus criador, e os cientistas modernos, todos impregnados do pensamento cartesiano, quando ultrapassaram o círculo estreito de seus conhecimentos naturais, instalam-se no imaginário e forjam a seu gosto as hipóteses mais extravagantes, com a certeza de nunca mais serem contraditos por uma realidade que abandonaram.
O Universo criado por Deus é para nosso espírito uma "revelação" do pensamento divino, carregada de "mistérios". Se nosso espírito se dispôs numa atitude humilde de submissão respeitosa à ordem natural, já está predisposto a acolher, na mesma atitude, a Revelação divina transmitida por Jesus Cristo.
São Tomás precisa bem que o ato de Fé é "uma cognitio" aplicada às coisas transcendentes e, como tal, é um prolongamento, um aprofundamento do conhecimento intelectual: "Actus fidei essentialiter consistit in cognitione et ibi est perfectio". A "lumen naturalis rationis", a luz natural da razão, tal como Deus no-la deu, vem em auxílio de nosso espírito para lhe permitir receber igualmente essa Revelação divina. Para São Tomás, crer é "conhecer Deus", e a pura felicidade desfrutada no além será apenas a "perfectio Dei cognitio". A Fé é uma forma superior de conhecimento e a filosofia tomista realiza assim, entre "ratio" e "fides", uma harmonia perfeita, capaz de satisfazer para sempre, como "philosophia perennis", a necessidade natural de conhecer do crente humilde e submisso, o que a escolástica chama seu "apetite racional".
Eis, para concluir esta parte de nossa exposição, uma carta do bispo de La Rochelle, dirigida por volta de meados do século a um professor da Universidade de Lovaina, onde esses problemas eram agitados: (7)
"Não ter medo da razão, mas respeitá-la num justo limite e conduzi-la às verdades cristãs, mostrando-lhe ao mesmo tempo sua grandeza e sua fraqueza. Não conheço homens que tenham tido menos medo da razão do que os doutores da Igreja. É verdade que, em sua escola, a razão é cativa da Fé. Mas entendamo-nos sobre o valor da palavra "cativa". Ela é cativa como o olho é cativo à vista de uma bela coisa, como o ouvido é cativo de um som justo e harmonioso. Ela é cativa, mas cativa voluntária, porque é fácil fazê-la compreender que tem necessidade da Fé, que deve razoavelmente submeter-se à fé e que, à medida que se submete, é feliz, é orgulhosa, sente que essa obediência voluntária a enobrece, a fortalece.
Nada me parece mais belo nos escritos do Doutor angélico do que essas nobres evoluções da razão sob a direção da Fé. É um prazer ver como ele amansa essa bela faculdade que seus excessos haviam tornado quase indomável. Mas também com que respeito a trata, com que cuidados a aborda!... Prova-lhe que a Fé esclarecida tem um efeito certo, o de aperfeiçoar a razão, de fortalecer sua luz vacilante, de comunicar-lhe novas e superiores. "Cum fides rationem ab omnibus erroribus liberet, cumque divinarum rerum cognitione mirifica illustret, confirmet et perficiat." (Pio IX, encícl. 1846)
"Assim preparada, assim tratada com legítimo respeito e convenientemente honrada, a razão experimenta ela mesma a necessidade de exclamar com São Crisóstomo: "Crer é ato de um espírito elevado e de uma grande alma, e não crer é ato desarrazoado: credere et sublimis et magni animi et non credere irrationalis"... A razão não teria descoberto os mistérios do cristianismo e nossos dogmas não são o produto natural do desenvolvimento do espírito humano: verdade fácil e necessária de demonstrar. Mas, sendo os dogmas revelados, a razão se apresenta e, sempre esclarecida pela luz divina, estuda-os, escruta-os e a nuvem que os cobre toma a cada dia tons cada vez mais translúcidos... É, diz São Tomás, um antegosto da visão beatífica, "praelibatio quaedam illius cognitionis quae nos in futuro beatos facit".
Transponhamos essas últimas fórmulas para a ordem do conhecimento natural: a razão também não teria descoberto os mistérios da natureza e suas leis não são o produto natural do desenvolvimento do espírito humano... Mas, sendo essas leis da natureza "reveladas" através de nossas apreensões diretas do real, a razão se apresenta e, sempre esclarecida pelo pensamento criador de que elas são a expressão natural, escruta-as, procura dissipar a nuvem que as cobre e reencontrar sob as aparências sensíveis a ideia divina que realizam.
Eis a submissão de nosso espírito a uma ordem de natureza que não criamos e o humilde respeito dos mistérios que ela contém e que ultrapassam infinitamente as capacidades nativas de nosso espírito. Nossa inteligência está totalmente submetida tanto ao Deus Criador quanto ao Deus Revelador e, nos dois casos, funciona da mesma maneira. É a ela, assim constituída, que Deus apela quando nos pede um ato de Fé. Não pretende substituir uma espécie de razão divina por nosso modo natural de conhecer; pede-lhe apenas que se "abra" a uma Verdade de origem sobrenatural e, como essa "abertura" ultrapassa as forças nativas de nosso espírito, acrescenta-lhe uma "graça" que não destrói nossa natureza racional, de modo que nosso ato seria irracional, mas a aperfeiçoa e a predispõe a acolher sua Revelação.
Se os pensadores tradicionalistas dessa época tivessem se dado ao trabalho de estudar seriamente a filosofia escolástica, não teriam recorrido a um fideísmo privado de razão para explicar e justificar a adesão à Fé, apresentada como um golpe de força divino em nossa atividade espiritual e como uma ruptura no interior de nosso pensamento, quando essa adesão pode e deve produzir-se em continuidade com nossas outras intelecções.
Permaneceram prisioneiros de uma filosofia protestante, inaugurada por Lutero, retomada da tradição platônica e exposta metodicamente por Descartes. Filosofia que nega a unidade substancial do homem atribuindo-lhe uma dupla vida espiritual, uma dita "racional", boa apenas para comandar nossa atividade temporal aqui embaixo, e a outra, dita "intuitiva", reservada à nossa fé religiosa. Reencontra-se essa dicotomia da alma exposta longamente em "As duas fontes da moral e da religião" de Bergson, retomada da tradição jansenista, também ela oriunda do protestantismo e que sobrevive hoje em todos os movimentos de tipo carismático. (8)
AS REAÇÕES DA AUTORIDADE RELIGIOSA
Sabemos que é tradição na Igreja tomar seu tempo, examinar longamente as novas teorias ou doutrinas da moda e só se pronunciar após maduro exame, o que é muito honroso para uma autoridade preocupada em não precipitar nada, em respeitar as pessoas de boa vontade, mas engajadas em doutrinas fluidas e indecisas, em obter retratações honrosas e não demasiado humilhantes. Compreendemos bem esses escrúpulos do comando.
No entanto, não podemos deixar de lamentar que Roma tenha levado mais de vinte anos para compreender o perigo do tradicionalismo e do fideísmo, que se haviam tornado o pensamento comum do mundo católico, que não tenha condenado os promotores dessas doutrinas, isto é, Joseph de Maistre e o Sr. de Bonald, e que tenha se contentado, por muito tempo ainda, em pedir a uns e outros a assinatura de formulários.
O papado agiu lenta e timidamente, poder-se-ia dizer "caso a caso", cada vez que se apresentava um caso a julgar. Não deu de início um ensino completo sobre o problema doutrinal posto por esses escritores, mestres do pensamento contrarrevolucionário.
Estes últimos exerceram, pois, uma autoridade moral e intelectual incontestável e todo-poderosa sobre a geração seguinte, e as advertências de Roma chegaram tarde demais a espíritos já instalados no erro, numa idade em que se torna muito difícil corrigir todo o sistema de pensamento. Essas intervenções, aliás, permaneceram sem resultados apreciáveis.
LAMENNAIS
A primeira condenação do sistema menaisiano pela encíclica "Mirari vos", em 1832, denunciara seu liberalismo doutrinal sem atingir suas teorias filosóficas sobre o problema do conhecimento e das relações da Fé com a razão. A encíclica seguinte, "Singulari vos", de 1834, continha de fato fórmulas de condenação do "falacioso sistema de filosofia", difundido pelo "Ensaio" sobre a indiferença, "sistema de invenção recente e que, no lugar das tradições santas e apostólicas, base do ensino cristão, substitui doutrinas vagas, fúteis e incertas", mas essas fórmulas eram totalmente insuficientes para esclarecer os espíritos dos leitores perturbados pelo ensino do "Ensaio".
BAUTAIN
O caso do padre Bautain é totalmente significativo. Formado pela universidade do Estado, inspirado pela filosofia de Kant, Fichte, Hegel e Schelling, ele sofreu o ascendente da Srta. Humann, que o reconduziu à fé de sua infância. Entrou nas ordens e, depois de sua ordenação, recebeu a direção do seminário menor de Estrasburgo, em 2 de outubro de 1830. Formou à sua volta um grupo de discípulos muito notáveis. Encontravam-se ali vários judeus alsacianos convertidos, entre eles Théodore Ratisbonne, fundador dos Padres e Damas de Sião, votados à conversão de Israel, o futuro padre Gratry, professor de filosofia, e o futuro cardeal de Bonnechose. Ora, o padre Bautain estabelecia todo o edifício da Fé sobre o sentimento íntimo e a religiosidade natural.
Roma lhe pediu que assinasse esta fórmula de condenação:
"O homem, em qualquer estado em que se encontre, não possui na realidade senão um princípio de conhecimento para as verdades da religião natural, tais como a existência de Deus, a existência da lei natural, a imortalidade da alma e a existência de outra vida. Esse princípio de conhecimento não é outro senão a revelação divina manifestada ao homem pela tradição. Privada do socorro dessa tradição, a razão, inteiramente abandonada a si mesma, é absolutamente incapaz de descobrir essas verdades".
O padre assinou de boa-fé. Era um santo sacerdote e, mais tarde, num sermão pronunciado em 1855, exclamou:
"Ah! Senhores, quando vos lembro este ponto da doutrina de São Paulo e vos represento toda a sua força (9), podeis crer-me. Pois eu mesmo resisti a esse texto e, durante algum tempo, fiz o que pude para escapar dele.
Para dar um campo mais belo à palavra de Deus, eu era levado a enfraquecer o valor da razão humana e, para sufocar de um só golpe o racionalismo, cujos extravios todos eu conhecera, ameaçava a própria vida da razão, como esses médicos imprudentes que correm o risco de matar o doente ao atacar violentamente a doença. Sim, pequei então por um excesso de Fé. Mas a Igreja, sempre sábia, porque é assistida pelo Espírito divino, não aprova nenhum excesso, nem mesmo os que parecem ser-lhe proveitosos. Reconduz sempre à moderação, que é a via sábia nas coisas deste mundo e, com uma doçura pela qual lhe fiquei profundamente grato, endireitou uma má tendência que poderia tornar-se um desvario".
Retratação notável, até em suas insuficiências. É na medida em que se está impregnado de racionalismo cartesiano que se chega ao denegrimento da razão. São Tomás, ele, tinha bela confiança na razão, bem posta em seu lugar de faculdade natural criada por Deus para nos conduzir à Verdade. Não existe, nesse caso, excesso de Fé que a Igreja devesse moderar, como diz nosso bom padre, mas bel e bem uma deficiência da Fé, enfraquecida por uma inteligência falseada e que sente a necessidade de enrijecer-se para escapar às flutuações e às incertezas da religiosidade sentimental. Exaltam-se tanto mais as formas sensíveis da vida religiosa quanto menos a Fé está enraizada numa base racional. Enfim, como se pode dar "mais campo à palavra de Deus" se se começa por enfraquecer a faculdade humana encarregada de recebê-la?
BONNETTY
Na mesma época, o Sr. Bonnetty era o Diretor dos "Anais de filosofia cristã". Acusava a escolástica de ter favorecido além da medida as especulações mais ousadas e de ter conduzido os espíritos pouco a pouco ao racionalismo puro e simples. O papa Pio IX já havia pedido ao padre Bautain, em 9 de novembro de 1846, que assinasse um formulário de retratações, como assinalamos. Renovou as mesmas condenações contra o Sr. Bonnetty e lhe pediu que subscrevesse o mesmo formulário que o padre Bautain.
Teve de reprovar a seguinte proposição: "O método e os princípios empregados pelos santos doutores escolásticos já não correspondem de modo algum às necessidades de nosso tempo e ao progresso das ciências". Depois teve de subscrever, em 5 de julho de 1855, várias outras proposições, entre elas esta: "O método de que se serviram São Tomás, São Boaventura e os outros escolásticos depois deles não conduz ao racionalismo e não foi causa de que, nas escolas contemporâneas, a filosofia tenha caído no racionalismo e no panteísmo. Em consequência, não é permitido fazer crime a esses doutores e a esses mestres de se terem servido desse método, sobretudo em presença da aprovação ou ao menos do silêncio da Igreja". (Proposição contrária a diversas proposições do Sr. Bonnetty) (10)
Bonnetty assinou essa proposição, guardando para si suas ideias anteriores, e renovou mais tarde as mesmas críticas, por exemplo: "Foi desse comentário de Boécio sobre Porfírio que nasceu mais tarde a escolástica e toda a sua linguagem tão confusa e tão pouco cristã... É o mundo filosófico posto no lugar do mundo real. Jesus Cristo nos havia libertado dessa língua; eis que ela volta".
De fato, nunca se encontrou a menor conexão histórica nem lógica entre a escolástica e as filosofias racionalistas ou panteístas modernas. Melhor ainda: sabemos que todas as filosofias saídas do cartesianismo não cessaram, há três séculos, de vituperar o Tomismo, colando-lhe os rótulos mais maldosos de pensamento obscuro, tenebroso, bárbaro, denunciando as "sutilezas da Escola que só fazem espessar as trevas em torno desse primeiro mistério que é a Revelação", zombando do "tremor de cérebros teológicos", segundo a amável expressão de Montaigne.
E, se se examinam as coisas mais de perto, percebe-se facilmente que é o racionalismo cartesiano que arrastou os filósofos modernos para o panteísmo. Até Victor Cousin o reconhecia mais tarde. Em seu "Curso de filosofia" de 1828 (décima terceira lição), ousava afirmar:
"A filosofia do século dezoito é o desenvolvimento do movimento cartesiano em dois sistemas opostos que o cartesianismo continha em seu seio, sem ter desenvolvido todo o seu poder. Era preciso que essas potências ocultas tomassem todo o seu desenvolvimento para que fossem conhecidas, tanto no que tinham quanto no que não tinham. Daí o idealismo da escola alemã e o sensualismo inglês e francês." (11)
Notas
- Este estudo é o complemento de um trabalho sobre a "Tradição" no século XIX. (Cf. Étienne COUVERT: "A Gnose contra a Fé", cap. III). Por isso não damos aqui uma crítica desenvolvida do Tradicionalismo filosófico.
- Padre J. BELLAMY: "A teologia católica no século XIX" (cf. Bibliografia).
- (Chamada de nota (3) não localizada no texto; nenhuma nota 3 impressa.)
- Com a exceção que havíamos assinalado em "A Gnose contra a Fé", p. 111, de Joseph de Maistre. Seus amigos, os jesuítas de São Petersburgo, haviam-lhe posto nas mãos a "Suma" de São Tomás, que ele começou a ler sem compreender grande coisa.
- R.P. VENTURA DE RAULICA: "Da verdadeira e da falsa filosofia" (Cf. Bibliografia).
- Cf. "A Gnose contra a Fé", p. 117.
- Carta citada, sem outras referências, pelo Sr. DUILHE DE SAINT-PROJET em sua obra sobre "Os Estudos religiosos na França..." (Cf. Bibliografia).
- Tratamos desses problemas em nossos estudos sobre o Platonismo (Cf. "A Gnose contra a Fé", cap. I) e sobre Descartes (Cf. "Da Gnose ao Ecumenismo", cap. III).
- Trata-se da passagem da Epístola aos Romanos relativa aos filósofos pagãos que, tendo conhecido Deus por suas obras, não o glorificaram como Deus (Rm 1,19-26).
- Denzinger: "Enchiridion...", n.º 1508.
- Desenvolvemos este ponto em "Da Gnose ao Ecumenismo", cap. III.
O RETORNO DA ESCOLÁSTICA, OBRA DOS JESUÍTAS
O rápido impulso que a escolástica tomou ao longo do século XIX deveu-se essencialmente à atividade própria da Companhia de Jesus. Com efeito, esses religiosos haviam permanecido fiéis à intenção de seu fundador, Santo Inácio, que estabelecera solidamente sua formação intelectual sobre a filosofia de São Tomás de Aquino, e a "Ratio studiorum", obra de seus sucessores, havia recordado a obrigação de ensinar, nos colégios da Companhia, o pensamento tomista.
Após sua supressão por Clemente XIV, os jesuítas espanhóis e portugueses haviam se refugiado na Itália, nos Estados pontifícios, onde mantiveram como puderam um ensino da escolástica. Os jesuítas franceses haviam se refugiado na Polônia e na Rússia, onde obtiveram do papa Pio VI a permissão de continuar a viver sob a regra de Santo Inácio. Fundaram também colégios nesses países, onde se esforçavam por manter fielmente o ensino tomista. Foi sua expulsão, depois de 1808, pelo tsar Alexandre I, a pedido das sociedades bíblicas protestantes de origem inglesa, que provocou seu retorno a Roma e permitiu, em 1815, ao papa Pio VII restabelecer sua Instituição em toda a Igreja.
A cada senhor, sua honra! Comecemos pelo Padre Jean Rozaven. Era, em 1823, o assistente da França junto ao Geral dos Jesuítas. Foi igualmente o conselheiro teológico dos papas até sua morte em 1848. Era um bretão tenaz, corajoso, de grande inteligência, que acompanhou todo o movimento menaisiano na França e opôs-se a ele energicamente. Começou por redigir uma carta encíclica pela qual o Geral prescrevia a seus religiosos "abster-se de ensinar ou de combater as doutrinas novas (as de Lamennais e de seus discípulos) e manter-se, nos colégios da Companhia, na doutrina de São Tomás e de Santo Agostinho" (12). Deu vários artigos sobre o mesmo assunto ao "Amigo da religião e do rei". Quando Lamennais foi a Roma, em 1824, teve uma longa entrevista com o P. Rozaven, que se esforçou, mas em vão, por fazê-lo renunciar à sua filosofia e à sua doutrina do novo critério da razão geral.
Quando o padre Gerbet publicou, algum tempo depois, uma defesa do "Ensaio" de Lamennais, o P. Rozaven respondeu-lhe, em 1831, com a publicação de seu "Exame de um livro intitulado: Das doutrinas filosóficas sobre a certeza em suas relações com os fundamentos da Teologia, do padre Gerbet" (Paris, 1831). Foi, em 1832 e 1834, o principal autor das duas encíclicas de condenação de Lamennais. Quando o bispo de Estrasburgo, Mons. de Trévern, levou ao conhecimento de Roma a advertência oficial dada ao padre Bautain, redigiu ele mesmo a resposta do magistério, dando total apoio ao bispo. (13)
Honra ao P. Rozaven, que defendeu a filosofia escolástica, contra ventos e marés, numa época em que o conjunto do mundo eclesiástico a desprezava. Era preciso certa coragem. Ai de nós! Os manuais de filosofia ignoram seu nome e se estendem com complacência sobre as teorias dos tradicionalistas.
Outro, o P. Chastel (S.J.), publicou em 1852 um livro: "A Igreja e os sistemas de filosofia moderna", no qual manifestava seu espanto diante da persistência do tradicionalismo menaisiano. Dava uma seleção de proposições tiradas das obras e revistas católicas da época, no "L'Univers" de Louis Veuillot, no "Monde catholique" igualmente, proposições sustentadas com a ingênua boa consciência de ser fiel ao catolicismo autêntico e integral.
O P. Chastel publicou ainda, em 1854, uma segunda obra: "Do valor da razão humana", em que demonstrou a identidade de pontos de vista de Bonald e de Lamennais. Notou as fraquezas e as contradições do sistema bonaldiano, como já havia feito antes o P. Ventura. Mostrou que esse tradicionalismo havia falhado em sua missão, que era um resíduo de um jansenismo inconsciente, notadamente no desprezo repisado pela natureza humana, e que era absolutamente incompatível com o espírito do Tomismo.
Em 1857, os jesuítas fizeram aparecer uma revista que se tornou célebre sob o título: "Estudos de teologia, de filosofia e de história", publicada pelos Padres Charles Daniel e Jean Gagarin. Essa revista esforçava-se por remediar a invasão do pensamento protestante. Punha em guarda os espíritos ponderados contra um entusiasmo pelas filosofias modernas, pela boca do P. Matignon, a propósito das questões levantadas na Alemanha no Congresso de Munique, em junho de 1864, na época em que sacerdotes franceses iam buscar lá suas fontes de pensamento.
Em 1863, com efeito, Renan havia publicado sua "Vida de Jesus", cuja inspiração vinha diretamente da ciência alemã protestante. Um padre Vollet, ainda bem jovem, exclamou: "É preciso colocar-se no terreno em que nossos adversários nos arrastaram e vencê-los com suas próprias armas. Mas o que se fará na França?" (14)
Pobre infeliz! O adversário é senhor do terreno que minou e das armas que escolheu para abatê-lo! O Vigário-Geral de Mons. Darbois, em Paris, o padre Maignan, pediu a vários alunos distintos do Grande Seminário que fossem formar-se nas Universidades alemãs. Designou primeiro o padre Vollet; mas o padre d'Hulst, que ele havia sondado, recusou e foi a Roma seguir os cursos do Colégio Romano. Foi ele quem, mais tarde, na sequência da encíclica de Leão XIII sobre os estudos eclesiásticos, presidiu, como Reitor do Instituto Católico de Paris, à restauração do Tomismo, que chamava de peripatetismo cristão. (15)
Os jesuítas alemães toparam também com uma resistência igualmente considerável no mundo intelectual germânico, mesmo entre os Católicos.
Desde 1852, o programa da revista "Der Katholik", publicada em Mogúncia, era: retorno à escolástica. Era preciso rejeitar "as migalhas da filosofia alemã" de que a época se contentava e voltar "aos tesouros legados pelos ancestrais". Heinrich Hurter declarava então: "A teologia não deve destruir, mas continuar (fortbauen) o edifício da velha teologia". O "Katholik" de Mogúncia seguia com vigilância as manifestações que lhe pareciam pôr a fé em perigo.
Em 1862, exprimia a necessidade de estudar primeiro São Tomás para estudar Aristóteles de modo fecundo e inofensivo. Defendia, na mesma época, contra a ciência alemã, o que essa ciência chama de "escolástica galvanizada e ciência jesuítica". Perseguia as fórmulas indecisas que podiam abrigar em seus vagos contornos um partido tomado hábil de indocilidade; não tolerava nenhuma desenvoltura em relação à escolástica e às congregações romanas. (16)
Um jovem jesuíta alemão, Karl-Wilhelm Kleutgen (1811-1883), estudante em Munique, depois seminarista em Paderborn, veio concluir sua formação em Roma, onde sofreu, em seus começos, a benfazeja influência do P. Rozaven. Publicou primeiro, em 1853, vários volumes intitulados em alemão: "A filosofia antiga defendida pelo R.P. Kleutgen", traduzidos para o francês somente em 1868, sob o título: "A Filosofia escolástica" (4 vol. in-8) (17)
Exalta a solidez da antiga filosofia contra três espécies de adversários: os racionalistas religiosos alemães, os sacerdotes Hermes e Günther, discípulos de Descartes, os tradicionalistas bonaldianos e menaisianos, os ontologistas, cujo ensino desembocava logicamente no panteísmo. Havia publicado em 1867 um folheto contra eles intitulado: "O Ontologismo julgado pela Santa Sé", traduzido por um padre Sierp, professor de teologia no Grande Seminário de Rouen.
Querer constituir uma nova filosofia católica na Alemanha era, assegurava ele, fazer concessões ao Protestantismo. A "velha ciência católica", assim qualificava a escolástica, era a única eficaz, desde que os manuais fossem adaptados, não ao espírito do século, mas às suas necessidades reais. Era preciso voltar a São Tomás e manter-se firmemente em seu pensamento; para curar, na Alemanha, o fideísmo inconsciente das imaginações românticas e o racionalismo muito formalista dos intelectuais.
A casa de Estudos dos Jesuítas de Maria-Laach, perto de Colônia, foi o centro de difusão do pensamento tomista por todos os países de língua alemã. Editou uma coleção de manuais de filosofia, intitulada: "Philosophia Lacensis", publicados pelos P.P. Tilman, Pesch, Meyer, Hontheim, e uma "Bibliotheca scholastica" redigida pelo cardeal Franz Ahrle para pôr as fontes medievais dessa filosofia ao alcance dos eclesiásticos.
A "ciência alemã" partiu em guerra violenta contra essa invasão de Romanidade. Reinskens, professor em Breslau, declarava que o apego dos jesuítas ao Tomismo os desqualificava como professores de universidade; Franz-Xaver Dieringer (1811-1876), professor em Bonn, fazia uma crítica muito violenta ao esforço filosófico de Kleutgen. Declarava, numa "Folha de literatura teológica", entre 1866 e 1870, que a Igreja devia falar em cada época a língua dessa época e elaborar um compromisso definitivo entre a teologia medieval e a do século XIX (18), acusando o Padre Kleutgen, embora muito "superior graças à sua cultura alemã", "de recusar a salvação" fora da escolástica. Acusava-se sua posição de intemperança e de exagero excessivo.
Era corrente zombar: "Doctor Romanus, asinus Germanicus"; um doutor de Roma não passa de um asno na Alemanha, e denunciava-se vilmente o complô jesuítico. Já em 1837, o ministro prussiano Bunsen acusava, num memorial sobre as dificuldades entre a Igreja e a Prússia, os jesuítas de combater a ciência católica alemã.
As "Vozes de Maria-Laach", publicadas pelo P. Florian Riess (1823-1882), difundiam a boa filosofia tomista e recebiam em troca, bem o sabemos, os ataques violentos da "ciência alemã". O núncio em Munique, Mons. Méglia, escrevia a Roma um relatório muito sombrio sobre a situação:
"Quase todos, dizia ele, como também todos os eclesiásticos que gozam de alguma reputação de saber e de doutrina, fazem glória de formar o que chamam o grande partido dos sábios da Alemanha. Suas aspirações consistem em geral em encorajar e seguir, até em suas últimas evoluções, o progresso científico, e isso por uma liberdade, uma independência inteira, mantendo sem dúvida intacto o dogma, mas sacrificando certas doutrinas que a ele se ligam e que não são definidas pela Igreja: deixar de lado os antigos métodos da escolástica, essas velharias da Idade Média, dizem eles, incompatíveis com o progresso moderno; tornar o método científico católico o mais semelhante possível ao método científico protestante, a fim de fazer ressaltar melhor a preeminência da teologia católica sobre a teologia protestante; dar enfim aos estudos bíblicos, filológicos, históricos, um grande lugar para deixar apenas um pequeno à teologia verdadeira e positiva. O que predomina nesse partido é o orgulho. Por isso sofre com dificuldade o freio da autoridade que, segundo ele, entrava o progresso. Eleva às nuvens o sistema universitário da Alemanha sábia e o prefere ao dos seminários do estrangeiro..." (19)
Nada de novo sob o sol. Eis aonde conduz naturalmente a pretensão de bater o inimigo em seu próprio terreno tomando-lhe emprestadas as armas. É uma maneira manifesta de "passar para o inimigo", ai de nós!
Mas o inimigo não se enganou. Em 1870, Bismarck expulsou os jesuítas de Maria-Laach e instalou ali beneditinos, e essa abadia tornou-se, no início do século XX, um covil de modernistas e, depois, um dos focos da revolução litúrgica.
A ENCÍCLICA "AETERNI PATRIS"
Um padre Ackermann escrevia em 1890, nos "Anais de Filosofia cristã", estas observações de bom senso:
"Não se pode dizer, explicava ele, que o pensamento filosófico moderno, depois das ruínas que espalhou à sua volta, depois da desordem lançada nos espíritos, esteja neste momento num período de confiança. A ciência não cumpriu todas as suas promessas. O mundo é mais misterioso do que nunca. Nossas sínteses explicativas não sobrevivem ao dia que as vê nascer. O mecanismo não é para ninguém uma explicação, o evolucionismo parece a todos simples demais para ser satisfatório. Descontente e decepcionado, toma-se desgosto por uma existência que já não tem sentido inteligível, já não tem finalidade".
Desde Descartes, cada filósofo, cada homem de ciência quer dar sua síntese explicativa total do mundo, seu sistema de pensamento. Com uma ingênua presunção, cada um julga poder apresentar a explicação definitiva da origem do mundo, de sua natureza íntima e de sua finalidade. Não se hesita hoje em escrever obras que se pretendem definitivas: "Para acabar com..." E, a cada vez, é preciso moderar-se e retratar-se. A explicação que se queria definitiva fracassou: a evolução, o Big-Bang, a relatividade vieram tomar o lugar do atomismo, da mônada, da síntese hegeliana ou dos três estados de Auguste Comte... etc... etc. E depois de cada fracasso dessas fantasias imaginativas, sempre se achou um "novo filósofo" para exclamar, com ridícula ingenuidade: "Enfim achei a Chave do universo!" E seu livro se torna um best-seller da edição. Todos o disputam. Alguns anos depois, cai no esquecimento e no nada de que jamais deveria ter saído.
Foi Descartes que deu o impulso: "Dai-me a extensão e o movimento e refarei o mundo". Pretensão absurda. Para descobrir o fundo misterioso da natureza íntima das coisas, Descartes as reduz à sua abstração numérica e usa a demonstração matemática. Tudo se explica por A mais B, porque tudo foi reduzido a uma mecânica universal. Mas as demonstrações matemáticas são proposições vazias de todo conteúdo e jamais mostrarão a natureza dos seres. Reduzir a qualidade à quantidade é mutilar o real e tornar-se incapaz de apreendê-lo.
Para penetrar no íntimo da Criação, é preciso ser o próprio Criador. Para observar a Criação em seu conjunto e num único olhar, é preciso estar fora dela. É preciso poder observá-la de longe e colocá-la sob o próprio olhar, o que está totalmente excluído de nossas capacidades intelectuais. E, portanto, todos esses sistemas filosóficos são puramente imaginários, desprovidos de qualquer fundamento real.
Cada pensador se agarra apaixonadamente a seu sistema e o defende com ardor violento, depois de, no fundo, sentir-lhe a fragilidade. Precisa de uma argumentação complicada para se fazer ouvir, e o acúmulo de provas mostra sua ineficácia. Uma só seria decisiva, se fosse verdadeira; mas uma multidão de provas acrescentadas umas às outras mostra apenas a impotência de um espírito desejoso de fazer o leitor aceitar seu sistema, e só pode despertar desconfiança.
É, ai de nós! o que observamos todos os dias ainda hoje.
Em "Çà et là", Louis Veuillot conta a entrevista que teve um dia com o futuro P. Hernsheim. Este último, ainda jovem, dava uma conferência sobre a "mônada" de Leibniz, que fora o tema de sua tese:
"Falastes bem, disse-lhe ele ao final da exposição, mas para quê?
É precisamente, respondeu Hernsheim, o que eu me perguntava ao falar, e no entanto, no momento de começar, eu ainda acreditava que ia dizer-vos coisas úteis. Essa filosofia não passa de um jogo de espírito bom para divertir um pequeno número de iniciados. Ao expor-vos esse sistema, eu via dois ou três outros a construir, totalmente contrários e igualmente bons. Jamais se tirará daí uma prece, um gemido para Deus, ainda menos a conversão de um povo, que é o resultado a que se deve tender. Mas se meu discurso foi tempo perdido para vós, não o foi para mim. Deus abençoou minha intenção. A partir deste momento, apego-me ao sólido." (20)
Alguns anos depois, tornado dominicano, o P. Hernsheim ensinava a doutrina cristã do alto do púlpito de Nancy, depois de Paris.
Jamais São Tomás de Aquino pretendeu expor um sistema universal e uma explicação definitiva do mundo. Sua inteligência era toda iluminada pela Fé cristã. Remetia-se para isso à Revelação divina. O que lhe dava uma grande liberdade para escrutar pela razão natural a forma inteligível dos seres que podemos atingir e perceber por nossos sentidos.
Protegido pelas barreiras da doutrina revelada, o espírito podia mover-se livremente no interior dos dados naturais. Bastava aplicar-lhes algumas regras de bom senso, algumas distinções necessárias, que São Tomás havia retomado de Aristóteles, a matéria e a forma, o ato e a potência, a substância e os acidentes, a essência e a existência, e com as quais nossa razão podia desenvolver indefinidamente argumentações pro e contra, sem jamais sair da ortodoxia religiosa, nem pretender uma explicação exaustiva do mundo. (21)
Em 4 de agosto de 1879, Leão XIII publicava a encíclica "Aeterni Patris", dando enfim ao movimento de renascimento do Tomismo sua consagração oficial. Foi preciso esse ato de autoridade para reconduzir o mundo intelectual e eclesiástico ao verdadeiro pensamento cristão. As expressões empregadas pelo papa são, aliás, muito enérgicas: "Perfeita e íntima conexão das coisas e das causas, ordenação e disposição que lembram um exército em ordem de batalha, definições e distinções lúcidas, firmeza de argumentação e extrema sutileza de discussão, separando a luz das trevas, o verdadeiro do falso e despojando, por assim dizer, de suas vestes enganosas as mentiras da heresia, recobertas de uma infinidade de prestígios e de sofismas".
Leão XIII diz ainda de São Tomás:
"Nele nada falta, nem a abundância das questões, nem a hábil disposição das partes, nem a excelência dos procedimentos, nem a solidez dos princípios, nem a energia dos argumentos, nem a clareza e a propriedade dos termos, nem a facilidade de explicar os assuntos mais inacessíveis".
Todas qualidades que tornam "a teologia escolástica tão temível aos inimigos da verdade..." Declara São Tomás patrono das Universidades, das Academias, dos Liceus e das escolas católicas. Recomenda aos professores de filosofia que não façam "de seus talentos, de sua erudição, bem como das riquezas de suas invenções pessoais... o único ou o principal objeto de sua aplicação..." Recomendação bem necessária para pensadores cristãos mais frequentemente tentados a privilegiar suas pequenas elucubrações pessoais e a desprezar o pensamento do Doutor Comum.
Mons. d'Hulst, em 1886, precisava que era preciso imitar São Tomás e fazer hoje o que ele faria, se estivesse em nosso lugar e dispusesse de todo o patrimônio com que se enriqueceu, ao longo dos séculos, o espírito cristão; e Mons. Fuzet, arcebispo de Rouen, escrevia em sua "Carta pastoral" de 26 de novembro de 1907:
"Não é notável que em toda parte a difusão dos erros modernos tenha sido sempre acompanhada de um desprezo mais ou menos ostensivo pela teologia primeiro, depois por essa filosofia escolástica que está na base de nossas fórmulas doutrinais, a de São Tomás, a que se encontra em muitas definições de nossos concílios, a que formou o espírito da maior parte de nossos gênios católicos desde o século XIII, a que enfim parece ter estabelecido definitivamente as leis essenciais da própria razão e da qual só se assustam aqueles que a ignoram ou que querem minar os dogmas".
Com efeito, todas as filosofias modernas, desde Descartes, constituíram-se em "máquina de guerra" contra a Fé cristã e, para extingui-la mais facilmente, empenharam-se em demolir a inteligência, em falsear o sentido das palavras, em criar toda uma mecânica intelectual construída sobre o imaginário e em rejeitar o realismo do pensamento tomista, porque essa realidade, que São Tomás iluminou com seu belo gênio, era obra de Deus e era preciso levantar contra ela as almas de nossos contemporâneos numa revolta absurda e monstruosa.
E. C.
* * *
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
Um ponto de partida
- Louis FOUCHER: "A Filosofia católica na França no século XIX antes do Renascimento tomista e em sua relação com ele". (1800-1880) (Vrin, 1955)
Livros essenciais:
- Pierre LASSERRE: "A Juventude de Ernest Renan - História da crise religiosa no século XIX" t.I "De Tréguier a São Sulpício" (Garnier, 1925) - t.II "O drama da metafísica cristã" (Garnier, 1925), apaixonante e muito aprofundado. - t.III "A iniciação filosófica de Ernest Renan" (Calmann-Lévy, 1932). O conjunto dessas três obras constitui um estudo penetrante e notável do problema da escolástica.
- J. BELLAMY: "A Teologia católica no século XIX" (Beauchesne, 1904), manual clássico.
- Alfred BAUDRILLART: "O ensino católico na França contemporânea: Apologistas e mestres cristãos". (Blond, 1910, conjunto de artigos e estudos publicados no início do século que apresentam os principais pensadores cristãos do século XIX.
- M.F. DUILHE DE SAINT PROJET: "Dos estudos religiosos na França desde o século dezessete até nossos dias" (Lecoffre-Privat, 1881), obra antiga de valor.
- Georges GOYAU: "A Alemanha religiosa, o Catolicismo", 4 vol. (Libr. acad. Perrin, 1910-1911). O autor interessa-se particularmente pelo combate travado pelos jesuítas alemães pelo retorno à escolástica.
- René FÜLÖP-MILLER: "Os Jesuítas e o segredo de seu poder - História da Companhia de Jesus. Seu papel na história da civilização" traduzido do alemão por Jean Gabriel GUIDAU (2 vol. Plon, 1933)
- Padre H. GOUJON: "Os inimigos da razão, a filosofia da vontade e a apologética da imanência" (Moral, 1904)
- R.P. VENTURA DE RAULICA: "Da verdadeira e da falsa filosofia em resposta a uma carta do Senhor Visconde Victor de Bonald" (Gaume Fr. 1852) e: "Ensaio sobre a origem das ideias e sobre o fundamento da certeza, seguido de novas observações sobre o cartesianismo". (Vaton, 1853)
Algumas monografias úteis
- Paul DUDON: "Lamennais e a Santa Sé (1820-1834) (Libr. acad. Perrin, 1911)
- Padre de REGNY: "O Padre Bautain, sua vida e suas obras" (Bray et Rétaux, 1884)
- Gabriel MATON: "De Joseph de Maistre a Léon Bloy: Blanc de Saint-Bonnet, filósofo da Unidade espiritual (1815-1850) (Vitte, 1961)
- Jean GUIRAUD: "Monsenhor Freppel" (Flammarion, 1933)
Notas
- Cf. CRÉTINEAU-JOLY: "História da Companhia de Jesus", 3ª ed. VI, p. 126-128.
- Cartas inéditas do P. Rozaven publicadas no "Bulletin critique" em 1902 pelo P. INGOLD.
- "Lembranças do padre Vollet" p. 320 (Carta ao padre Laroche, de maio de 1864).
- Prefácio de seus "Mélanges philosophiques" (Conferências dadas no Instituto católico em 1886, p. 276 a 390).
- Sobre tudo isso consultar Georges GOYAU: "A Alemanha religiosa, o Catolicismo" passim (Cf. bibliografia).
- KLEUTGEN: "Ueber die alten und die neuen Schulen", publicado desde 1846 sob o pseudônimo de J.A. Karl.
- Linguagem bem conhecida hoje, ai de nós! Um compromisso, bem o sabemos, nunca é definitivo, mas sempre provisório e destinado a ser substituído por outro compromisso. Até onde... até a capitulação final...
- Citado por Georges GOYAU em: "A Alemanha religiosa: o Catolicismo", t.IV p. 298.
- Louis VEUILLOT: "Çà et là", t.I, p. 145.
- Cf. Émile BRÉHIER: "Transformações da filosofia francesa" (Paris, 1950, p. 69).
Nos livros: "A direita do Pai"
Éric VATRE, Edição Guy Trédaniel, 1994.
Eis uma obra que visa relançar os mitos gnósticos em nossos meios tradicionalistas. O editor, Trédaniel, é especialista nesse gênero de publicações. A Direita do Pai? Credes tratar-se do Pai Eterno? Enganai-vos: trata-se do Pai da Gnose, digamos, René Guénon... para não evocar um Outro.
O autor, Éric Vatré, apresenta a seus interlocutores um questionário bem curioso. Depois de perguntar a cada um suas origens familiares, depois suas fontes de inspiração, passa à crise da Igreja, em seus aspectos mais marcantes: o Concílio, a nova missa, o encontro de Assis, o caso de Mons. Lefebvre. Depois inflete suas perguntas na direção da "Tradição", do "sagrado", no neutro, é claro, (τὸ ἱερόν, diríamos em grego), noção vaga aplicável a todo o domínio do criado, para chegar à pergunta essencial, aquela para a qual a obra foi escrita: "Que pensais de René GUÉNON?" e "Pensais que possa existir uma GNOSE CRISTÃ?" C.Q.F.D. Só há um remédio para a crise da Igreja, é o retorno à GNOSE DE SEMPRE; eis o que se chama um interrogatório armadilhado.
Na escolha dos interlocutores, nota-se que 4/5 são gnósticos experimentados, carimbados como tais, cujos nomes entulham nossos meios de direita; encontram-se ali Jean BORELLA, Jean HANI, Jean PHAURE, e outros... cujas respostas são conhecidas de antemão, embora sejam verbosas, longas, enfadonhas e ininteligíveis para a maioria.
Anotei algumas respostas nas quais me senti implicado, sem ser nomeado; a do Sr. MICHEL-MICHEL, por exemplo, um guenoniano da Action Française:
"Devo dizer, enfim, quanto me irritam esses reflexos condicionados em certos meios "tradi"... que consistem em suspeitar sistematicamente de toda busca metafísica sobre o mundo intelectivo da intuição, de ressurgência da eterna Gnose, mãe de todas as heresias, os mesmos que qualificam de "panteísmo" toda tentativa de reconhecer a ordem do mundo e seu "encantamento"... É preciso reconhecer a legitimidade da Escola renana (1), da Teologia apofática (2) e da sucessão de Dionísio, o Areopagita (3) e não mutilar a tradição da Igreja, como o gostariam certos caçadores de gnósticos. Não sou hostil à Inquisição, mas desejo que os inquisidores sejam ao menos qualificados..."
Não, Sr. MICHEL-MICHEL, não se trata de suspeita, mas de acusações francas e nítidas dirigidas a gnósticos que ensinam claramente a Gnose e o panteísmo, que, para não "mutilar", como dizem, a tradição da Igreja, a envenenam com a de Lúcifer e que jamais respondem às objeções que lhes são dirigidas...
Aliás, minhas acusações não são "reflexos condicionados", como dizeis, mas bem o fruto de pesquisas e de estudos a que consagrei toda a minha vida. Enfim, todo verdadeiro cristão, se tem a fé esclarecida e sólida, é "qualificado" para denunciar suas falsificações.
Anotei, ao longo da leitura desta obra, algumas respostas notáveis que destoam em meio ao concerto de louvores dirigidos a René GUÉNON.
Pierre BOUTANG, por exemplo, teve a coragem de mostrar que Charles MAURRAS era totalmente estranho a essa pretensa Tradição:
"MAURRAS não era especialmente orientado para um pensamento como o de Guénon. Tinha a maior desconfiança em relação ao que é gnóstico e provavelmente alguma desconfiança também em relação ao que toca o neoplatonismo e, mais geralmente, o esoterismo."
E Boutang conclui:
"Uma visão gnóstica não é cristã e, se é cristã, não é gnóstica. Que se sabe do Cristianismo gnóstico? Santo Agostinho passou parte de seu tempo combatendo os Gnósticos." (4)
Obrigado, Sr. Boutang! Charles Maurras era demasiado razoável, tinha demasiado bom senso para se deixar atrair pelas elucubrações dos Gnósticos.
Jean-Marie PAUPERT, igualmente, anotou bem suas repugnâncias:
"Tanto por natureza e por instinto quanto por meus estudos, desconfio de tudo o que emana das correntes gnósticas, sincretistas, e de todos os espíritos em busca de não sei que grande e misteriosa Tradição."
Mas a resposta mais esclarecedora é a de Thomas MOLNAR, o único que teve a coragem de definir com precisão e clareza o que é a GNOSE. Eis essa definição:
"Propriamente falando, há contradição entre "gnóstico" e cristão. Este crê que sua alma e seu corpo foram criados por Deus, em sua bondade, que o fiel não "contém nenhuma centelha da divindade, que não se fundirá com Deus à sua morte, mas permanecerá criatura, tendo necessidade da graça toda a vida.
O Gnóstico está convencido, ao contrário, de que não foi criado por Deus, mas pelo princípio oposto, o Demiurgo, o Príncipe das Trevas, que a alma dos "eleitos" contém a centelha divina que os distingue dos seres "materiais" e que, ao fim do drama cósmico/apocalíptico, os eleitos vencerão o demiurgo e restabelecerão o reino de Deus, reintegrando a luz divina, até então privada do aporte de sua própria "centelha luminosa".
Constata-se, a cada etapa desse drama, a incompatibilidade fundamental entre o cristianismo e a Gnose, como se constata em que grau nossas ideologias modernas, inclusive as materialistas, tomam emprestada a armação de sua crença à gnose cristã, à Gnose pura e simples. E percebemos bem as razões do atrativo da gnose para certos cristãos em certas épocas".
Não se poderia dizer melhor. Bravo, Sr. MOLNAR! Todos os estudos sobre a Gnose que distribuí em meus três livros apenas desenvolvem esse esquema tão claro e tão fundamental e que é a resposta exata a esses outros interlocutores embaraçados em seu palavreado e em suas elucubrações. (5)
Lamenta-se também que o autor da obra tenha evitado fazer as perguntas sobre GUÉNON e sobre a GNOSE aos poucos religiosos dominicanos ou beneditinos que se dignou interrogar. Eu teria, no entanto, gostado de ouvir a resposta de um Padre Marie-Dominique PHILIPPE, por exemplo. Depois de ter exaltado a filosofia de Aristóteles e de São Tomás de Aquino, teria provavelmente fulminado com vivacidade e humor esses pobres guenonianos enredados em suas mentiras.
Enfim, senti-me em profunda comunhão de fé e de pensamento cristão com os dois únicos sacerdotes da Fraternidade São Pio X interrogados.
Como o Padre Philippe LAGUÉRIE, tive a sorte de nascer numa família profundamente cristã: Honra a meus pais, como aos de sua família, que souberam transmitir sua fé inteira. É um privilégio raro hoje, tantos pais renunciaram a ensinar a fé a seus filhos e traíram assim seu primeiro dever de estado. Como o Padre Laguérie, tenho a fé "cravada no corpo". É uma expressão que me é cara e que reencontrei com alegria em sua resposta. Como ele também, nunca duvidei. É a resposta de BOSSUET a um moribundo que lhe perguntava: "Senhor, sempre vos tive por homem honesto; mas eis que estou prestes a expirar: falai-me francamente, tenho confiança em vós; que credes da religião? — Que é certa e que nunca tive a menor dúvida..." (6)
Éric Vatré reservou para o fim de sua obra as respostas de Mons. Tissier de Mallerais, e foi bom. Enfim um bispo, e um bispo verdadeiramente católico, aquele que vai dar o verdadeiro pensamento da Igreja sobre a GNOSE:
"Desde o primeiro século, diz ele, a Igreja se opôs à Gnose, essa pretensa "Tradição primordial" que existia antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Gnose, vós o sabeis, (?) consiste na afirmação de uma doutrina superior e mais secreta que a doutrina cristã e na ideia de que a salvação vem pela ciência e não pela virtude ... A Gnose PECA, PORTANTO, CONTRA A FÉ, contra a Tradição autêntica da Igreja... NÃO HÁ, PORTANTO, VISÃO GNÓSTICA POSSÍVEL DO CRISTIANISMO. A Tradição cristã e católica apoia-se, no interior mesmo da vida da Igreja, na teologia católica, a de São Tomás de Aquino".
Ponto final. Conclusão necessária. Eis uma bela palavra de bispo. Deve-se, contudo, lamentar que, por uma última habilidade, o autor da obra tenha acrescentado, em contradição manifesta com essas nobres palavras, uma página de comentários na qual encontrou meio de lembrar ainda o nome de Jean Borella.
E. C.
Notas
- Mestre Eckhart, condenado pela Igreja, Suso, Tauler, Nicolau de Cusa, místicos impregnados de Gnose.
- apofática, isto é, que afirma que nada se pode dizer sobre Deus... Pobre São Tomás de Aquino, que preencheu páginas sobre Deus...
- Digamos mais francamente, o Pseudo-Dionísio.
- Cf. Étienne COUVERT: "A GNOSE CONTRA A FÉ", cap. I "Gnose e Platonismo", onde mostro esse combate de Santo Agostinho contra os Gnósticos de seu tempo.
- Cf. meus três livros sobre a Gnose, editados por Chiré.
- Citado por Paul HAZARD: "A crise da consciência europeia", Boivin, p. 206.
Gnose e pensamento russo
OS DADOS HISTÓRICOS
O povo russo foi convertido à versão grega oriental do Cristianismo, mas a recebeu numa liturgia em eslavão e numa escrita cirílica (kirilliza), totalmente desconhecidos no resto do mundo cristão. Esse uso de uma língua particular foi um obstáculo essencial à penetração da cultura cristã ocidental na Rússia. Desempenhou um papel análogo ao do árabe na expansão do Islã em torno do Mediterrâneo. Contudo, o obstáculo do eslavão não foi tão radical quanto o do árabe, porque a religião cristã permanecia fundamentalmente a mesma de ambos os lados.
É importante notar também essa catástrofe que foi, para as populações da Rússia, a invasão mongol e a destruição dos centros urbanos, que provocou durante dois séculos uma emigração para as florestas setentrionais e um retorno a uma semisselvageria.
O clero ortodoxo conservou por bastante tempo, durante a Idade Média, o uso do grego. Viram-se então, nos séculos XI e XII, prelados russos, como Cirilo de Turov ou o metropolita de Kiev, Clemente, sustentarem polêmicas com grande aparato de textos gregos sobre questões de exegese bíblica ou de ciências especulativas.
Depois do cisma grego e sobretudo da queda do império bizantino, o uso do grego perdeu-se no clero russo. E como ele ignorava o latim, viu-se completamente isolado do resto da Cristandade. Com efeito, o latim era o veículo da cultura e das ciências em todo o Ocidente; estava na fonte de todo o ensino cristão.
Enquanto na Europa a Igreja latina contribuía para difundir uma cultura notabilíssima por seus mosteiros, suas Universidades, suas ordens religiosas, na Rússia o clero, reduzido à liturgia eslava, desinteressou-se do ensino. Pôs a ênfase na celebração litúrgica com um ritualismo rigoroso e formalista. Negligenciou o dogma e a moral e, com isso, perdeu sua influência profunda sobre as almas.
O povo foi privado de instrução religiosa. Os que sabiam ler o eslavão contentavam-se com a "Tchétia-Minéia", o martirológio dos Santos. Para os outros, a religião popular foi marcada por ignorância, superstição e magia: uma literatura popular, impregnada de maravilhoso, muitas vezes tirada dos apócrifos da Bíblia ou de livros apocalípticos cujas interpretações extravagantes só podiam perturbar as almas ou aterrorizá-las.
Enquanto se desenvolvia no Ocidente latino uma filosofia, uma teologia e ciências religiosas notabilíssimas, designadas pelo nome de "escolástica", a Igreja Russa manteve-se fora dessa corrente de pensamento cristão. O clero só mostrou desdém pelos problemas doutrinais, pelas definições, pelas deduções lógicas, o que recusava sob o nome de "racionalismo latino".
Condenou-se assim à estagnação intelectual e moral.
"Não se pode fazer ideia da fé ortodoxa russa a partir da teologia oficial, escreve Berdiaev em "A Ideia religiosa russa"; a fé ortodoxa russa não conhece doutrina teológica obrigatória e constituída em sistema, quase não teve escolástica. O racionalismo teológico é o que menos convém à consciência religiosa russa. A ideia religiosa russa implica que o mistério da vida divina não pode ser expresso numa concepção racional."
Ao rejeitar a escolástica e recusar o uso natural da razão nos estudos religiosos, a Igreja russa tornou-se inapta a resistir às influências ocidentais que penetraram nela a partir do século XVII. É verdade que, nessa época, a Universidade de Kiev começou a dar seu ensino em latim. Ai de nós! foi o começo de uma verdadeira subversão antirreligiosa.
Quando Pedro, o Grande, começou a abrir a Rússia para o Ocidente, foi o protestantismo que se engolfou em seu vasto império. Ele próprio, Pedro, o Grande, não havia recebido nenhuma formação religiosa sólida, nenhum ensino moral.
Um padre jesuíta, o P. Milan, esclarecia numa carta a seus superiores:
"A menos que haja um milagre de primeira ordem, não há esperança de que o tsar se transforme e se entenda com o Vaticano. Grandes obstáculos demais se opõem a isso. Seria preciso submeter-se à autoridade do Papa e aos rigores da moral, renunciar aos caprichos e aos abusos de poder."
Com efeito, foi um príncipe fantasioso e violento, caprichoso e mimado, de inteligência viva, mas sem rigor nem firmeza. Assim, quando conheceu um homem superiormente dotado, muito persuasivo, ficou-lhe totalmente submetido. Trata-se de Teófanes Prokopovitch.
Antigo aluno do colégio grego de Santo Atanásio, fundado em Roma pelo papa Gregório XIII, este, de volta à Rússia, abjurou a fé católica e lançou-se numa admiração ingênua pela filosofia de Bacon e pela de Descartes. Tirou dela teorias totalmente protestantes em matéria de dogma e de vida social e religiosa. Ensinou ao tsar Pedro a superioridade da moral laica sobre o ensino da Igreja e a concepção inteiramente protestante de um Estado que controla a vida espiritual de um país.
Pedro inclinou-se ao luteranismo, frequentou os templos protestantes, protegeu os Quakers e os estrangeiros, desde que pertencessem à confissão de Augsburgo. Um de seus primeiros favoritos foi um ardente calvinista, o general Lefort. Todos os estrangeiros que atraiu para a Rússia eram protestantes.
Sob o reinado da imperatriz Ana, isto é, sob a tirania de seu favorito, Biren, os protestantes foram os senhores absolutos do Império. "Nessa época, diz Mons. Filareto, a guarda, os colégios (isto é, os ministérios), a Academia de ciências, o exército, a frota estavam em poder dos protestantes." Prokopovitch rastejava diante de Biren, mandava depor, encarcerar, maltratar os bispos russos insuficientemente dóceis. O Sínodo criado pelo tsar Pedro nomeava o episcopado entre sacerdotes já conquistados à reforma protestante. São esses bispos que vão, no século XVIII, acolher de braços abertos as lojas maçônicas e o ensino dos "filósofos" franceses.
O que se chamou na Rússia o partido alemão era, na verdade, o partido protestante, e foi todo-poderoso durante dois séculos.
Os Romanov abriram a Rússia ao mundo ocidental e ao materialismo das cidades europeias. Lançaram a moda dos enciclopedistas franceses e da filosofia alemã.
"Quando a Rússia se abriu às influências de fora, escreve Henri Massis, foi para beber a longos tragos os erros de uma Europa já corrompida, da qual nada em seu próprio fundo poderia guardá-la". Desde o "Contrato Social" e as antinomias de Kant até o materialismo histórico de Karl Marx, os russos acolheram com sombrio ardor todos os sistemas mais perigosos e mais destrutivos da fé cristã. Dois séculos bastaram para entregar o país ao inferno bolchevique.
AS FONTES DA FILOSOFIA RUSSA
A Franco-Maçonaria foi fundada em Londres em 1717. Nos vinte anos seguintes, espalhou-se por toda a Europa pela ação perseverante do governo inglês. Foi introduzida na Rússia muito cedo por ingleses protestantes. Sob o impulso de três homens enérgicos — Novikov, Schwartz e o príncipe N. Troubetskoï — espalhou-se por toda a elite culta russa, de modo que todo o pessoal político e religioso do governo tsarista era filiado às lojas. Multiplicaram-se ao longo do século XVIII em todas as principais cidades da Rússia, notadamente em Moscou e São Petersburgo.
Novikov fundou então a primeira grande casa editora da Rússia. Difunde toda a literatura iluminada do Ocidente. Publica em 1775 o livro de Claude de Saint-Martin: "Dos erros e da Verdade" traduzido para o russo. Funda igualmente a "Sociedade amical", cenáculo literário por onde passam quase todos os escritores e homens de estado destinados a marcar o reinado do Imperador Alexandre I. Karamzin e Kiréevski faziam parte dela. Esses jovens maçons traduzem e difundem nas escolas as obras de filosofia iluminista.
O grão-duque Paulo, o futuro imperador Paulo I, é iniciado nos mistérios swedenborgianos da maçonaria sueca. Existe dele um retrato em que ostenta as insígnias. Sua esposa, a futura imperatriz Maria Feodorovna, encontrou Saint-Martin em seu principado prussiano de Montbéliard.
Um professor alemão importado, Johann Schwarz, funda o ramo russo da ordem dos Rosa-Cruzes para difundir o saber filosófico, o aperfeiçoamento moral a fim de "tornar-se sem pecado como Adão antes da queda". Seu continuador, Lopoukhine, que foi padrinho de Kiréevski, desenvolve o pensamento gnóstico e iluminista em sua obra: "Alguns traços da Igreja interior", reeditada em francês em 1800.
Encontram-se nela os temas bem conhecidos da queda de Adão criado andrógino, exilado do mundo da luz, da regeneração final, da Igreja interior, da qual a Igreja estabelecida é apenas a figura exotérica, a difusão do monaquismo hesicasta (do grego tranquilidade), forma grega do Quietismo (1).
É Lopoukhine quem fará editar, misturados, Paracelso e Macário do Egito, Molinos, Claude de Saint-Martin e Gregório Palamas, introduzindo certos Padres Gregos em suas coleções maçônicas.
A imperatriz Catarina II, a princípio favorável a todo esse movimento, começou a assustar-se desde os primórdios da Revolução Francesa. Mandou então fechar as lojas, apreender os livros suspeitos e condenar Novikov. Foi então que Mons. Platão, arcebispo de Moscou, escreveu à imperatriz: "Rogo ao céu que se possa encontrar outro cristão como Novikov, não somente no rebanho que Deus nos confiou, a mim e a Ti, mas no mundo inteiro". Um bispo ortodoxo em socorro de um "Irmão"...
Com o advento de Alexandre I, a Franco-Maçonaria instalou-se como senhora no Trono, sobretudo quando Speransky se tornou confidente do imperador. Alexandre convertera-se ao iluminismo com sua egéria, a Sra. de Krüdener. O entusiasmo foi universal. Toda a elite intelectual, toda a nobreza se precipitou nas sociedades bíblicas, nas lojas de martinistas, de rosa-cruzes e de swedenborgianos.
Numa carta à irmã, Alexandre explica-lhe a diferença entre a Igreja interior e a Igreja exterior. (Diríamos em linguagem maçônica esotérica e exotérica). Recomenda-lhe Arnold, Swedenborg, Saint-Martin, a Imitação, Tauler, todos os clássicos da mística iluminativa.
Encontram-se na corte do Tsar Irmãos Morávios, Quakers, Jung Stilling, Baader. A sociedade bíblica de São Petersburgo, estabelecida pelos maçons ingleses, traduz a Bíblia para o russo vernáculo. No Santo Sínodo reinam o príncipe Galitzine e seus amigos, Labzine, um aluno de Schwartz, e Kochelev, amigo de Lavater, de Saint-Martin e de Eckartshausen. A Rússia, desde o início do século XIX, está completamente maçonizada em sua elite intelectual e religiosa.
Na mesma época, a Academia de Kiev, que forma o alto clero da Igreja ortodoxa, está toda conquistada ao ensino da filosofia de Wolf, de Winckler e de Baumeister, que expõem as teorias de Leibniz. Essa academia contava já, sob Pedro, o Grande, até 2000 estudantes. Muitos destinavam-se aos mais altos cargos eclesiásticos e detinham a maioria das cátedras de filosofia nas outras Universidades russas. Compreende-se então a gravidade desse entusiasmo pela filosofia moderna.
Em 1804, publica-se Fichte, a primeira tradução de Kant. Um professor de fisiologia, Daniel Mikhailovitch Vellanskii, antigo aluno de Kiev, prega a filosofia da natureza de Schelling, um panteísta gnóstico. Outro antigo de Kiev, Matvei Mikhailovitch Troiskii, torna-se professor nas Universidades de Kazan, de Varsóvia, de Moscou. Publica obras impregnadas do empirismo inglês, entre elas a "Psicologia alemã", em que pretende que a alma é metafisicamente indemonstrável.
Essa extraordinária onda iluminista e teosófica vai exercer uma influência muito forte sobre a direção geral da cultura russa e sobre a literatura subsequente. Com efeito, todo o pathos do romance russo nasceu dessa invasão do sentimento religioso por um pietismo extravagante. A alma é convidada a dissolver-se na fluidez das emoções, das lágrimas, da angústia, das confissões mútuas, das confidências de todos os instantes. Há mesmo uma dissolução procurada e cultivada da razão e do bom senso. Esse romantismo impregnará toda a literatura do século XIX.
Simultaneamente, a mesma sensibilidade pietista e iluminada desenvolveu-se na Igreja ortodoxa. Por volta do fim do século XVIII, na Moldávia, um monge atonita ucraniano, Paisii Velitchkovski, havia traduzido do grego para o eslavão, depois para o russo, a "Filocalia", florilégio de ascese e de mística, coletânea de preces dos Padres orientais. Essa "Filocalia" foi o manual em uso no monaquismo russo.
No entanto, a literatura religiosa russa foi sobretudo obra de leigos, professores de Universidades. Formados, como dissemos, pela filosofia alemã e pelo iluminismo maçônico, esses escritores foram buscar suas referências religiosas entre os Padres gregos, referências obrigatórias na tradição ortodoxa.
Produziu-se aí um equívoco cuidadosamente mantido para esmaecer a fonte ocidental e maçônica em proveito da fonte mais confessável, a da fé ortodoxa. É um fenômeno bem visto e bem descrito por Alain Besançon.
Depois de construírem seu sistema de pensamento sobre o idealismo alemão, esses pensadores e filósofos russos puseram-se a estudar Isaac, o Sírio, João Clímaco e os outros Padres gregos. Mas leram-nos com óculos "gnósticos", através de Mestre Eckhart, Suso, os místicos alemães, depois Jacob Boehme, Swedenborg e os outros mestres do pensamento da Franco-Maçonaria.
Ora, essa dupla leitura era possível porque o idealismo alemão estava impregnado de neoplatonismo, tal como o pensamento dos Padres gregos, com, porém, uma diferença considerável. Estes últimos esforçavam-se por ensinar a fé cristã em sua integralidade, mas estavam impregnados pelo platonismo que reinava universalmente nessa época sobre os espíritos. Tinham dificuldade em fazer coabitar em si as verdades da Fé às quais se apegavam antes de tudo com tendências gnosticizantes, vindas do platonismo e que rejeitavam energicamente. Nutridos de neoplatonismo, esforçavam-se por endireitar e corrigir o que ele podia carregar de Gnose, muitas vezes com dificuldade.
Já nossos filósofos russos modernos empreenderam uma releitura gnóstica dos Padres gregos. Construíram uma falsa tradição que jamais existiu tal como a ensinaram. Utilizaram os mais heterodoxos desses Padres, Orígenes, Clemente de Alexandria, o Pseudo-Dionísio, que são as referências habituais dos gnósticos modernos, não para explicitar e desenvolver sua fé cristã, mas para ensinar uma visão cósmica e panteísta do mundo. É o que nos resta demonstrar.
OS GRANDES TEMAS GNÓSTICOS
Os principais filósofos russos do século passado, Kiréevski, Khomiakov, Soloviev, Berdiaev, reatualizaram no mundo moderno o gnosticismo de Orígenes e de Clemente de Alexandria, assim como a filosofia mística iluminada dos alemães Mestre Eckhart, Jacob Boehme e Franz von Baader. Tiraram dos Padres gregos, e notadamente de São Gregório de Nissa, uma Gnose de aparência cristã. Mas é preciso remontar muito mais alto e reconhecer na fonte dessa corrente o platonismo.
Ele é a chave dessa síntese gnóstica. Está fundado numa doutrina do Logos que os escritores russos retomaram acentuando seu caráter cósmico. Para Serge Troubetzkoy (1862-1905), o Logos é a ponte viva entre a filosofia pagã e a Fé. Publicou a "Metafísica da Grécia antiga" em 1890, a "Doutrina do Logos" em 1900. Seu ensino, todo impregnado de Platão, teve um sucesso prodigioso.
Eis as reflexões entusiasmadas de um de seus ouvintes:
"E os círculos de estudo sobre Platão, conduzidos por Serge Nikolaievitch! Horas inesquecíveis em que penetrávamos profundamente no mundo embalsamado dos diálogos do maior dos pensadores, horas durante as quais nosso mestre se revelava em toda a extensão e riqueza de seus talentos. Ora estudava a cultura grega, ora tornava-se o sábio filólogo, interpretando com respeito cada palavra do texto de Platão. Enfim, era o dialético distinto, desembaraçando atentamente os fios enredados do admirável pensamento platônico... Verdadeiramente vivíamos com Platão e participávamos de seu espírito..."
Ainda e sempre a "sedução" de Platão...!
Vejamos sua doutrina. Partimos sempre de Platão. Em seu mito da caverna, bem conhecido, ele ensina que o mundo conhecido em que vivemos não é senão uma sombra, uma aparência de um mundo ideal, o único declarado real. Eis uma entorse bastante considerável ao bom senso natural, que ensina exatamente o contrário.
Nossos filósofos russos, partindo desse ensino, afirmaram, numa linguagem transposta para vocabulário cristão, que o mundo presente é somente a imagem do mundo divino: dizem sua "epifania": Deus manifestou-se no Universo; digamos melhor, o Universo é Deus manifestando-se. A criação é o ato pelo qual Deus "encarnou-se". Saiu de si mesmo para pôr-se num "outro", no extra-divino. Repete-se, por assim dizer; reproduz-se fora de si mesmo, permanecendo idêntico a si mesmo: "Tudo é divino e irradia a beleza não terrestre do mistério sofiânico que é seu mistério" (Zander).
O homem, ele também, é a imagem reproduzida de seu modelo divino. É Deus manifestando-se num "outro". O homem é, portanto, uma encarnação de Deus, para empregar a linguagem cristã a serviço da Gnose. Trata-se de um "panenteísmo" que afirma que tudo está em Deus, um panenteísmo orgiástico que aparece no século XVIII em Skovoroda, uma tensão apaixonada e violenta rumo à transfiguração do mundo, à ressurreição da carne e à sua absorção em Deus.
Daí nossos filósofos russos tiraram seu culto do Povo com maiúscula, sua "Etnolatria". Kiréevski sofreu a influência profunda do panteísmo cósmico de Schelling. Pensa que a filosofia russa deve tirar da alma do povo russo toda a sua substância.
Essa idealização do povo é comum a todos os pensadores russos e prepara os espíritos para o Marxismo. Khomiakov quer atingir Deus através do povo:
"Na consciência russa, diz ele, religião e povo estão tão misturados que é difícil distingui-los. Na ortodoxia russa essa confusão chega a identificar o elemento religioso e o elemento popular".
Vive como imerso na vida do povo:
"Quem ama o povo russo não pode deixar de amar sua igreja, pois esse povo e sua Igreja são um só. E é somente entre os Russos que esses dois elementos são um só".
Essa idolatria do povo não é especificamente russa, impregna todas as ideologias revolucionárias de toda parte há séculos.
Depois de idolatrar o povo, nossos pensadores russos puseram-se a idolatrar a terra russa. Esse culto da Terra Nutriz, dizem eles, é especificamente russo. Absolutamente não! É essencialmente pagão e está na base de todos os cultos da Terra Mãe, em todos os povos da antiguidade.
Mas vão dar a esse culto pagão uma cor abusivamente cristã, segundo uma lenda gnóstica já difundida nos primeiros séculos cristãos, em particular entre os Elcasaítas:
"Quando a gota de sangue derramada por Cristo no Gólgota, escreve Berdiaev em "Espírito e Liberdade", tocou a terra, esta tornou-se outra, renovou-se e, se não o vemos com nossos olhos terrestres, isso provém da limitação de nossas faculdades receptivas. Toda a vida universal, toda a vida humana é já diferente desde a vinda de Cristo, representa uma nova criação".
Pelo contato com o sangue de Cristo, a terra divinizou-se.
Os filósofos russos utilizaram até o culto da Virgem, muito florescente no povo russo, para paganizá-lo. Verdadeira profanação! "A veneração da Virgem, escreve Bulgakov, é a alma da piedade ortodoxa, seu coração, o que aquece e reanima o corpo inteiro."
A Virgem, Mãe de Deus, torna-se aquela que realiza a maternidade divina da Terra, aquela que é chamada a engendrar Deus. Berdiaev desenvolveu essa utilização escandalosa de um culto cristão em vista de um retorno ao paganismo:
"O antigo paganismo russo, diz ele, misturou-se ao cristianismo russo e lhe deu uma fisionomia toda especial. A ortodoxia russa encerra em si certo dionisismo cristão que não se encontra na ortodoxia bizantina. Existe em algum lugar um ponto de contato entre a ortodoxia russa e a extraordinária seita místico-dionisíaca dos flagelantes russos (khlysty), seita no seio da qual o cristianismo se misturou de maneira estranha, até aterradora, a um velho paganismo russo. No culto que os Russos professam à Mãe de Deus, que muitas vezes vela a imagem de seu Filho divino, percebe-se facilmente o culto da Terra Russa. E a imagem dessa Terra Russa, mãe nutriz, e a da Mãe de Deus confundem-se por vezes no espírito do povo. O cristianismo russo é muito mais uma crença de essência feminina do que uma religião de sexo masculino." ("Rousskaia religioznaia idea" — A Ideia religiosa russa).
A literatura russa, como veremos em Dostoiévski, difundiu essa ideia gnóstica de que a Terra é a Mãe por excelência — portanto a Virgem Santa — na Santa Terra da Rússia. Para reconciliar-se com Deus, é preciso abraçar essa Terra, beijá-la, banhá-la de lágrimas, jurar permanecer-lhe fiel (fiel à terra!) e por aí reencontrar Deus.
É verdadeiramente uma utilização fraudulenta do mito pagão de Anteu, que renova suas forças ao contato da terra, mas é um ritual perfeitamente gnóstico, já em uso nas seitas no início da era cristã.
Enfim! A Gnose!... Nossos pensadores russos desenvolveram também sua concepção do conhecimento, que nada tem de original.
Para Khomiakov, o conhecimento é muito semelhante à Fé. Exige o abandono de todo o ser à verdade que a razão, por si só, não pode atingir. É intuição viva. O verdadeiro conhecimento se faz por apreensão interior. Todas as definições lógicas não dão a certeza que se encontra no ato de Fé. O fato concreto não pode ser conhecido pelo pensamento senão numa abstração, ao passo que a verdade se encarna na vida. "É somente na Fé que a razão encontra sua plenitude" — "Sem a Fé, a vida do homem não tem sentido" — "Todo homem é sua Fé... Só a Fé conhece a Verdade."
Todas essas fórmulas e outras inumeráveis da mesma ordem nos reconduzem ao fideísmo dos modernistas e dos tradicionalistas do século passado. A ordem natural é reduzida à ordem sobrenatural. Nega-se a capacidade que nossa razão tem de atingir o verdadeiro. Todo homem é sua fé, diz-se; mas o objeto dessa Fé é Deus, logo todo homem é divino, pois encontra numa intuição, numa visão interior, a verdade divina; é que já a possui em si mesmo. "Intueor" quer dizer: ver no interior. Essa visão supõe a presença do objeto conhecido em si. Esse conhecimento intuitivo é, portanto, bem uma Gnose, isto é, uma identificação de nosso pensamento com seu objeto, que é Deus.
A GNOSE DE VLADIMIR SOLOVIEV (1853-1900)
Apresentou-se Vladimir Soloviev como um "Newman russo" e como um grande filósofo cristão. Mons. d'Herbigny sustentara outrora essa tese numa obra que apresentava nosso pensador aos leitores franceses. Mas tivera o cuidado de escamotear sob uma conversa piedosa o essencial do pensamento do filósofo.
Digamos logo, para não voltar ao assunto, que, ao contrário de Newman, que, por sua conversão retumbante, reconduzira ao catolicismo toda uma elite intelectual da Inglaterra, Soloviev, por sua adesão secreta a Roma, não produziu nenhum movimento semelhante na ortodoxia russa e não merece de modo algum o título de "Newman russo".
Mas o que é muito mais importante compreender é que Vladimir usurpou também o título de filósofo cristão. O fundo de seu pensamento é a Gnose de sempre, que teve a habilidade de apresentar sob um vocabulário aparentemente cristão.
Toda a sua formação foi envenenada pelos sofismas alemães injetados em alta dose em seu espírito. Leu, pena na mão, em sua língua original, Platão e Orígenes, Sêneca e Santo Agostinho, Bacon e Stuart Mill, Descartes e de Bonald, Kant e Schopenhauer, Hegel e Schelling...
Durante uma estada em Londres, lançou-se com paixão inquieta e doentia ao espiritismo e à Cabala. Numa carta a seu amigo, o príncipe D.N. Tserteliev, explica que essa nova luz, jorrada "das manifestações espíritas, ajudaria a constituir a metafísica atual; mas, acrescenta, não tenho intenção de dizê-lo em voz alta. Um aviso público não faria avançar em nada o resultado e me valeria uma má reputação."
Havia lido Espinosa aos quinze anos, com paixão. Encontrava nele, diz, a revelação do espiritual e do divino... Participou da redação do Grande Dicionário Enciclopédico Brockhaus-Efron, no qual redigiu pessoalmente em russo os artigos sobre Platão, Plotino, Valentim e os Valentinianos, Maniqueus, Cabala, Duns Escoto, Nicolau de Cusa, Kant, Hegel, Hegelianismo, Swedenborg, Maine de Biran, Joseph de Maistre etc... etc... Não há nada de russo em tudo isso, mas que bela filiação gnóstica!!!
Vladimir Soloviev quer-se e afirma-se "gnóstico". Não lhe fazemos, portanto, um processo de intenção. Basta expor seu ensino para convencer-se. Apresentou-o numa série de obras, a mais explícita das quais intitula-se: "A Rússia e a Igreja Universal".
Na origem, há Deus, Unidade, Ato absoluto e seu complemento necessário, a eterna feminilidade, a "Sofia", que acolheu em si o poder divino, a plenitude do bem e da verdade, e a luz eterna da Beleza. Abandonou-se a Deus (como isso é bem dito!) e, fecundada por Ele, realizou a possibilidade de Tudo, a síntese viva e pessoal de Deus e do Mundo, "corpo e matéria da divindade".
"Se ela está em Deus substancialmente e desde toda a eternidade, escreve Soloviev, realiza-se efetivamente no Mundo, nele se encarna sucessivamente reconduzindo-o a uma unidade cada vez mais perfeita... A feminilidade mesma não é apenas uma imagem inativa no espírito de Deus, mas um ser espiritual vivo e possuidor da plenitude de Força e de Ação. Todo o processo universal e histórico não é senão o processo de sua realização e de sua encarnação na grande multiplicidade das formas."
Esse texto foi citado, com outros, por J. Danzas em seu estudo sobre "As reminiscências gnósticas na filosofia religiosa russa moderna".
Soloviev identificou a "Sofia" com a Virgem Maria, declarada "complemento feminino" de Jesus e da Igreja. Precisa "que a humanidade reunida a Deus na Santa Virgem, no Cristo, na Igreja é a realização da Sabedoria essencial ou da substância absoluta de Deus, sua forma incriada, sua encarnação". (Ainda em "A Rússia e a Igreja universal").
O mundo é, portanto, a encarnação de Deus pela Sofia, a própria substância de Deus. O homem é a atualização de Deus no Cosmos. Deus fez-se carne no homem e o Cosmos, pelo Homem, faz-se Deus. "O Homem só pode receber a divindade em sua verdadeira integridade, em sua união interior com o Todo..."
Soloviev continua: "Cada um de nós, cada ser humano participa essencial e realmente do Homem universal ou absoluto e está enraizado nele". O homem tem, portanto, uma essência idêntica à do Cosmos e de Deus. Emana d'Ele como um reflexo de seu ser primordial e absoluto. É o próprio fundamento da metafísica platônica.
"A nova religião, declara Soloviev, não pode ser uma veneração passiva de Deus, uma θεοσέβεια, ou uma simples adoração, uma θεολατρεία, mas deve ser uma atividade em Deus e com ele, uma θεουργία, uma Teurgia, portanto. E resume seu sistema na palavra "Teandrismo", que quer dizer: Humanidade deificada. É um misticismo panteísta e cósmico.
Seria preciso acrescentar ainda que se encontra nele uma mística do sexo feminino. Soloviev inclina-se com devoção totalmente pagã diante do mistério do sexo, os flancos que portam a vida, o Eterno feminino. Proclama a salvação pelo abraço amoroso e pela exaltação dos sentidos, em seu "Ensaio sobre o Significado do Amor".
Tudo isso, evidentemente, nada tem de cristão. É preciso uma forte dose de ingenuidade para pretender que essa doutrina exprima o fundo da "alma russa" ou da "Terra russa". Trata-se bem disso!!! Toda a história da Sofia é tomada dos gnósticos dos primeiros séculos, desde Simão, o Mago, que Soloviev havia estudado com grande cuidado. É uma zombaria blasfematória em relação ao verdadeiro Deus.
A Igreja oriental chama esse gênero de excitação místico-erótica uma "sedução espiritual". Reencontra-se em toda uma geração formada pelo pensamento de Soloviev.
Por volta de 1908, alguns anos após sua morte, formou-se em Moscou uma "Sociedade de filosofia religiosa em memória de Vladimir Soloviev", verdadeiro centro de filosofia neoplatônica. As reuniões realizavam-se no palacete da Sra. Margarida Morozov, mulher de grande encanto pessoal. No curso dessas sessões religiosas e orgíacas, misturava-se no mesmo cadinho êxtases sensuais de um naturalismo todo pagão aos dogmas e aos mistérios cristãos. Nessas conversas e discussões exaltavam-se Dante, Goethe, os românticos franceses, Verlaine, Baudelaire, os românticos alemães, Novalis, os místicos do século XVIII, Paracelso, Jacob Boehme, o antroposofista Rudolf Steiner...
Havia-se juntado a essa sociedade uma casa editora, "O Caminho (Put)", que publicava tudo o que pudesse difundir essas ideias místico-panteístas. Citemos entre os frequentadores desses encontros:
1º — Nicolau Berdiaev, nascido em 1874 em Kiev. Recebeu toda a sua formação intelectual de Marx, Nietzsche, Ibsen, Kant, Carlyle, Boehme, Schelling, formação especificamente alemã que não podia prepará-lo seriamente para apreender a alma russa. Também ele ensinou a "Gnose" sob aparência cristã:
"A filosofia, diz ele, é uma arte do conhecimento por meio da criação de ideias que se opõem ao mundo dado e à necessidade e que penetram na vida espiritual transcendente do mundo. Esse meio de conhecimento é (claro!) a intuição, que sozinha atinge o mundo espiritual e não o pensamento discursivo..."
Exalta a Liberdade como anterior à Criação; Liberdade meônica, diz, porque pertence ao não-ser: "A liberdade é o destino trágico do homem e do mundo, o destino do próprio Deus, reside no centro mesmo do ser como um mistério original". Todas essas elucubrações sobre a Deusa Liberdade são tomadas de Boehme e de Schelling em seu "Tratado sobre a essência da liberdade humana".
2º — Serge Bulgakov, autor do sistema sofiológico, tomado da Sofia de Soloviev, com uma exaltação da Terra Mãe e toda uma Gnose que se quer ortodoxa.
3º — O Padre Paul Florensky, erudito sutil e engenhoso, de fato também ele impregnado de influências gnósticas.
Pode-se dizer que, na véspera da revolução bolchevique, toda a elite culta russa estava impregnada de ideologia panteísta, cósmica e pagã. Recebera sua formação intelectual dos filósofos alemães, sobretudo Schelling, Marx e Hegel. Estava, portanto, completamente desarmada diante de uma subversão revolucionária. Soloviev foi um prodigioso demolidor da Fé cristã e um péssimo mestre.
UMA LITERATURA PANTEÍSTA: DOSTOIÉVSKI E TOLSTÓI
Em seu célebre livro sobre "O Romance Russo", Eugène-Melchior de Vogüé tentou encontrar a fonte profunda e longínqua do niilismo. Julgou encontrá-la no Budismo e nas alegrias do aniquilamento, o "nirvana", a abdicação desencorajada do homem primitivo diante da potência da matéria e da obscuridade do mundo moral.
"A verdadeira pátria desse renunciamento, escreve ele, é a Ásia, a própria fonte é a Índia e sua doutrina. Elas revivem, pouco modificadas, no frenesi que precipita uma parte da Rússia rumo a essa abnegação intelectual e moral... Esse espírito do Budismo, diz ele mais adiante, penetrou o gênio russo de uma ternura desvairada pelas mais humildes criaturas, pelos deserdados e pelos que sofrem; dita o renunciamento da razão diante do bruto e a comiseração infinita do coração".
Sem dúvida os paralelos que estabelece ao longo de sua obra são impressionantes. No entanto, o Sr. de Vogüé não nos dá nenhuma filiação direta entre os escritores russos e o budismo da Ásia, ao passo que nos mostra muito bem os numerosos empréstimos que esses escritores "surrupiaram" da literatura ocidental. Por isso nos limitaremos a esse verdadeiro aspecto das coisas e, quando encontrarmos ideias e fórmulas gnósticas em uns ou outros, não teremos dificuldade em descobrir-lhes as fontes.
Dostoiévski foi primeiro mordido pela tentação nietzschiana. Esboçou uma apologia de Satanás. Impregnado igualmente de misticismo de origem alemã, apresentou o Cristo como uma emanação divina. Seu cristianismo é tingido de Gnose. Leu e bebeu a obra de Swedenborg.
Para ele, como para os gnósticos, o mal constitui uma entidade autônoma e positiva. Recusa toda lei e quer-se antinomista. Condena toda forma viável de civilização, o que o leva ao anarquismo. Declara que a matéria é má e a carne condenável. Rejeita o uso da sexualidade no casamento. Prega a continência, mas a tempera pelo estupro. Perguntou-se se a distinção entre o bem e o mal não poderia ser transcendida num ser que integrasse ambos no próprio ser da divindade, revestido de poder e de beleza. Julga descobrir em Deus um abismo de obscuridade.
Que divindade é essa que ele intitula "A mais alta síntese da vida"? Que Deus da Alegria é esse, para quem faz subir um hino da vida "desde as entranhas da Terra"?
A resposta está dispersa em seus romances. Eis, em "Os Possessos", o testemunho dessa velha mulher que pergunta a Maria Timofeievna:
"A mãe de Deus, que é, a teu ver? — A grande mãe, responde-lhe ela, a esperança do gênero humano. — Sim, retomou a velha, a mãe de Deus é a Grande Mãe, a Terra úmida, e nisso reside uma grande alegria para os homens... Quando me prostro, ao fazer minha oração, adquiri o hábito de beijar a terra. Beijo-a e choro. Sou eu que te digo, Chatouchka, não há nada de mal nisso e, mesmo quando se tem tristeza, derramam-se lágrimas de alegria..."
Maria estava predisposta a receber essa confidência. Dissera um dia às religiosas do convento: "Deus e a natureza, parece-me que é a mesma coisa!" Todos os presentes haviam exclamado: "Vejam só!", mas a madre superiora sorrira.
Essa equivocidade entre Deus e a natureza reencontra-se na atitude de Aliocha em "Os Irmãos Karamázov". Sabemos, porque ele mesmo o disse, que no pensamento de Dostoiévski Aliocha é o pseudônimo do próprio Soloviev. Vede seu culto divino da Terra-Mãe:
"Aliocha, imóvel, olhava. De repente, como que ceifado, prostrou-se. Ignorava por que abraçava a terra. Não compreendia por que queria irresistivelmente beijá-la logo. Mas beijava-a soluçando, inundando-a de lágrimas, e prometia-se com exaltação amá-la, amá-la sempre. "Rega a terra com lágrimas de alegria e ama-a!" Essas palavras ressoavam em sua alma. Por que chorava? Oh! em seu êxtase, chorava até sobre aquelas estrelas que cintilavam no infinito e não tinham vergonha de sua exaltação. Dir-se-ia que os fios desse mundo inumerável convergiam em sua alma e que esta estremecia toda em contato com os outros mundos... E nunca mais, depois, Aliocha pôde esquecer aquele instante." "Minha alma foi visitada naquela hora", dizia ele mais tarde, crendo firmemente na verdade dessas palavras". No coração de Aliocha, "todo o universo palpitava".
Que divindade é essa, pintada sob o aspecto da Vida, da Terra, da Nação? Que força imanente é essa, que sobe das profundezas de nosso ser de carne e que nos convida a voltar a algum paraíso perdido, a um estado de infância e de inocência infra-humana? Respondemos, por tudo o que já expusemos, que se trata da Serpente...
E lembramos que o rito do beijo à terra é retomado dos gnósticos dos primeiros séculos, em particular dos Elcasaítas.
Leão Tolstói é o Rousseau eslavo: "Li todo Rousseau, escrevia ele, e aos quinze anos trazia sua medalha sobre o peito. Rousseau e o Evangelho foram as duas grandes e benfazejas influências de minha vida... Muitas de suas páginas me são tão familiares que julgaria tê-las escrito eu mesmo..."
Tolstói também foi iniciado nas lojas. Em seu romance "Guerra e Paz" conta-nos com muitas minúcias a iniciação maçônica de seu herói, Pierre Bezukhov.
Acrescentai a isso o culto de Schopenhauer, cujo retrato ornava seu quarto, e compreendereis por que Tolstói é um budista. A resposta para o sentido da vida, procurou-a nos Vedas, no Corão, nos Padres, em Confúcio, Lao-Tsé, em Fichte, Feuerbach. Expôs seu pensamento religioso numa série de obras, publicadas de 1883 a 1886: "Qual é a minha Fé? Razão e Religião, razão e moralidade" — "Como ler os Evangelhos?" — "Que é a minha Religião?" — "A salvação está em vós".
A religião, explica ele, é uma relação entre nossa personalidade e o universo infinito. Deus não é exterior ao mundo. Manifesta-se em cada homem, nos animais, nas plantas, em tudo o que nos cerca. É o princípio da vida universal. Tolstói queria "expor uma filosofia inteligível a um cocheiro de fiacre". Mas seu panteísmo de pretensão espiritualista é bem obscuro. A vida é considerada um todo indivisível, uma alma do mundo da qual somos efêmeras parcelas.
"Procuramos nosso ideal à nossa frente, ao passo que ele está atrás de nós. O desenvolvimento do homem não é o meio de realizar esse ideal de harmonia que trazemos em nós, é, ao contrário, um obstáculo à sua realização. Uma criança saudável que vem ao mundo satisfaz perfeitamente esse ideal de verdade, de beleza e de bondade do qual se afastará a cada dia; está mais perto das criaturas não pensantes, do animal, da planta, da natureza, que é o tipo eterno de verdade, de beleza, de bondade..."
Para realizar sua harmonia, o homem não deve pensar, mas esforçar-se por reencontrar uma vida vegetativa, como o bebê saído do seio da mãe. Melhor ainda, deve voltar ao útero, fundir-se na natureza cósmica e nela absorver-se. Como essa natureza é a substância de Deus, reunir-se-á assim a seu princípio. O ideal do yogi é a imobilidade absoluta na contemplação do umbigo, o retorno à natureza bruta.
Essa nova apresentação do Evangelho, lido com os óculos do Buda, estava longe demais do original para não despertar desconfiança. No entanto, Tolstói permaneceu soberbamente confiante em si:
"Tudo me confirmava a veracidade do sentido que eu encontrava na doutrina do Cristo. Mas, por muito tempo, não pude habituar-me a essa ideia estranha de que, depois de dezoito séculos durante os quais a fé cristã foi confessada por bilhões de homens, depois que milhões de homens consagraram sua vida ao estudo dessa fé, me fosse dado descobrir a lei do Cristo como coisa nova. Mas, por mais estranho que fosse, era assim".
Numa tese do Sr. Siu-Tchoan-Pao sobre "O direito das gentes e a China antiga", o ensino de Lao-Tsé é aproximado do de Tolstói: mesmo subjetivismo idealista, mesma moral do não-agir e desaparecimento de toda autoridade...
Em 20 de fevereiro de 1901, o Santo Sínodo de Moscou proclamou a excomunhão de Leão Tolstói. O chefe do Santo Sínodo, Pobiedonostsev, denunciava o capítulo de "Ressurreição" em que Tolstói tratava da missa e da Eucaristia. Eis o texto dessa excomunhão:
"O célebre escritor conhecido do mundo inteiro, o conde Tolstói, embora russo de nascimento e ortodoxo por educação e pelo batismo, deixou-se arrastar pelo orgulho de seu espírito a insurgir-se audaciosamente contra Deus, contra o Cristo e contra a sua santa Obra.
Depois de renegar publicamente a Igreja ortodoxa, mãe que o instruíra e nutrira, consagrou sua atividade literária e o talento de que Deus o dotara à destruição da Fé de nossos Pais pela propaganda, no país, de doutrinas hostis ao Cristo e à sua Igreja. Essa fé ortodoxa havia, contudo, convertido o mundo e nossos antepassados a professaram e fizeram dela sua salvação. Por ela, desde sempre, a Santa Rússia foi mantida forte.
No entanto, é essa fé que Tolstói atacou em sua própria substância. Em suas numerosas cartas e composições literárias, que ele e seus discípulos espalham em todos os países e muito particularmente em nossa cara pátria, prega com zelo fanático a destruição dos dogmas mais sagrados. Nega a personalidade do Deus vivo, glorificado em sua Santa Trindade. Rejeita a criação e a Providência divina exercendo-se sobre o Universo... etc... etc. E é por isso que a Igreja declara solenemente que não o contará mais entre seus filhos, enquanto não tiver restabelecido sua união com ela por um sincero arrependimento".
Essas linhas são a expressão da mais pura indignação da alma cristã ofendida em seus sentimentos mais elevados.
No entanto, é preciso crer que o estado dos espíritos já estava consideravelmente podre na Igreja ortodoxa. No dia seguinte a essa excomunhão, os seminaristas de Kazan e de Irkutsk entraram em greve. Sacerdotes deixaram a Igreja. Os estudantes de São Petersburgo enviaram ao metropolita Pobiedonostsev um protesto indignado declarando que eles também podiam então ser excomungados. Uma comuna do Cáucaso, considerando Tolstói um mártir, enviou-lhe uma coroa de espinhos...
Os revolucionários russos, anarquistas e fanáticos de irreligião, zombavam do pretenso anarquismo cristão do Conde Tolstói. Mas viam nele um auxiliar precioso: "O velho delira, diziam, mas nos é útil, demole a sociedade".
Os textos de Tolstói, graças a seu prestígio, produziam grande efeito sobre as almas simples e semeavam abundantemente a semente da revolta. Nos primeiros meses do Governo provisório em 1917, os panfletos de Tolstói foram espalhados à profusão. A ditadura bolchevique consagrou milhões de rublos à difusão de sua obra e Máximo Górki foi encarregado de promover seu pensamento. Tolstói foi promovido a profeta da Revolução. Esse apóstolo da paz e do amor tornara-se o auxiliar dos carrascos que massacravam e derramavam em jorros o sangue do povo russo. Conclusão lógica de toda uma vida consagrada à falsificação do Evangelho pela Gnose panteísta.
DA GNOSE À REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE
"Parece-me evidente, escrevia Donoso Cortés, que o comunismo procede das heresias panteístas e das que lhes são aparentadas. Quando tudo é Deus e Deus é tudo, Deus é sobretudo democracia e multidão. Os indivíduos, átomos divinos e nada mais, saem do todo que perpetuamente os engendra para voltar ao todo que perpetuamente os absorve."
Eis a chave do Comunismo. Ele é o último avatar e o ponto de chegada de todo o pensamento gnóstico. É também sua mais perfeita realização. A Serpente é o Grande Revoltado. Quando arrastou todo um país em seu rastro numa grande Revolução, este tornou-se necessariamente um Inferno.
Na época em que Lênin preparava sua revolução, outros pensadores esforçavam-se por dar à doutrina marxista uma base filosófico-religiosa. Górki e Lunatcharski ensinavam uma religião sem Deus: "Deus, dizia Lunatcharski, é tudo o que há de humano na suprema potência... Adoremos as energias da Humanidade". Ao homem que procura Deus, é preciso responder: "Deus é a humanidade de amanhã. Constrói-a com a humanidade de hoje unindo-te a seus elementos de vanguarda". Intitulavam-se "Os Construtores de Deus".
Os chefes revolucionários viviam no pensamento de que, à sua morte, retornariam ao Grande Todo. Moribundo e vendo as lágrimas da esposa, Plekhanov repreendeu-a: "Vós e eu somos velhos revolucionários; devemos ser firmes. E que é a morte? Vedes, pela janela, aquela bétula que se inclina ternamente contra aquele abeto? Eu também, talvez, serei um dia transformado em bétula toda semelhante. Que há de mal nisso?" A morte é, portanto, bem o retorno à terra nutriz, ao magma primitivo de onde surgem incessantemente novos seres vivos dos quais não somos senão manifestações provisórias.
Alain Besançon publicou há pouco um estudo muito notável sobre "As origens intelectuais do Leninismo". Quando quis procurar no passado analogias capazes de explicar a nova ideologia marxista, deu com a Gnose.
Ai de nós! começa por declarar, em contradição, aliás, com todo o resto de sua exposição, que "a ideologia moderna (a do Marxismo) não se inscreve na tradição gnóstica. Não é, aliás, certo, acrescenta, que esta exista; antes a retomada de atitudes intelectuais do mesmo tipo em circunstâncias históricas diferentes, sem que haja nem memória, nem consciência de uma continuidade..."
É bem lamentável que o Sr. Besançon tenha posto em dúvida a existência de uma tradição gnóstica através dos séculos. Todos os nossos estudos precedentes estabeleceram, com um luxo de provas decisivas, a existência dessa tradição. No entanto, Alain Besançon estudou com cuidado a Gnose antiga em sua forma maniqueia e remete a esse respeito às obras notáveis de Henri-Charles Puech.
Ao apresentar um romance de Tchernichevski, intitulado "Que fazer?", mostrou que seu herói, Rakhmetov, é o modelo do "perfeito" revolucionário. Intitulou esse romance o "catecismo do revolucionário" e não pôde deixar de ver que a doutrina desse catecismo não é o avesso de um cristianismo, mas bem o direito de um maniqueísmo, em sua estrutura fundamental.
Vamos reproduzir uma página essencial desse livro. Introduziremos algumas observações entre parênteses ao longo do caminho e faremos seguir o conjunto de um comentário destinado a precisar e completar o pensamento do autor, onde ele é provisoriamente deficiente.
"A Gnose tchernichevskiana manifesta sua estrutura típica. O mundo apresenta-se como uma mistura de elementos bons e maus, em que o mau mantém aprisionado o bom. (Cf. a alma prisioneira do corpo e da matéria). A salvação é trazida pelo saber (digamos a Gnose!). Esse saber é de natureza racional (Não, certamente não!); é completo, poderoso, absolutamente certo. Dá o plano verdadeiro do mundo, a chave de seu destino. Mostra que o mundo é salvável, que basta dispô-lo de outro modo (portanto mudar-lhe a estrutura e a natureza!), separar os bons elementos — que representam o futuro, o progresso, a vida — dos maus, que pertencem ao passado, à reação, à morte. Como em Mani, há dois princípios (do Bem e do Mal) e três tempos (o passado a destruir, o presente para agir e o futuro a construir).
Os agentes dessa separação são os Homens Novos (Os "perfeitos" cátaros!). Despertados pelo saber (a Gnose!), têm acesso a uma vida nova (a deificação!).
Rakhmetov é o tipo moderno — portanto "científico" — do "perfeito" maniqueu. Despertado pela iniciação gnóstica (aqui a iniciação maçônica!), entrou na parte salva e salvífica da humanidade. (Pertence, portanto, ao mundo da "Luz"). Tendo operado em si a separação (entre os bons e os maus), leva a vida ascética dos eleitos. É casto. É sustentado pela comunidade, que o alimenta, o veste, em troca de sua ação militante permanente (assim como o monge maniqueu ou budista, para quem o corpo já não conta, recebe seu alimento dos "ouvintes" ou catecúmenos e se contenta em meditar na contemplação... do umbigo!)
Pratica uma moral que não é a moral comum, mas que é interna à própria Gnose e que somente os gnósticos que a compreenderam praticam entre si. (Os gnósticos sempre foram antinomistas e colocaram-se fora da distinção do bem e do mal!). Os outros são irresponsáveis, agidos pelo exterior (como não receberam a iniciação, não são senhores de seus atos. Os gnósticos sempre negaram o livre-arbítrio e o domínio da razão sobre os impulsos instintivos, de modo que o não-iniciado é prisioneiro de um Mal que o enlaça numa fatalidade à qual não pode escapar). Seu trabalho consiste em propor a Gnose, em resolver os problemas na aplicação estrita da doutrina, em dar o exemplo, em içar até o cume onde ele se encontra os despertos, os conscientes.
Por um traço, contudo, difere do "perfeito". É sem rito, sem transcendência. A mistura cósmica da Gnose clássica remetia a uma metafísica geradora de atos religiosos. A cosmologia materialista torna bem o homem solidário do Universo, mas de um universo imanente, mecânico, tal como o mostra a ciência, fora do qual não há evasão...
O revolucionário, no fundo de seu ser, não somente em palavras mas em atos, rompeu todo laço com a ordem pública e com todo o mundo civilizado, com todas as leis, conveniências, convenções sociais e regras morais desse mundo. (É o antinomismo fundamental dos gnósticos!). O revolucionário é dele inimigo implacável e só continua a viver nele para destruí-lo com segurança... Como o "perfeito", o revolucionário opera uma triagem na mistura impura, contribui para a destruição das partes más, de modo a deixar escapar as parcelas luminosas que elas mantêm aprisionadas... (as "almas", portanto!)".
Fim da citação.
Nesse texto, totalmente digno de atenção, o autor, Alain Besançon, diz todo o essencial; mas detém-se a meio caminho das conclusões que dele cumpre tirar. Constatou uma "retomada de atitudes intelectuais do mesmo tipo em circunstâncias históricas diferentes". Mas, para que essas atitudes intelectuais pudessem permanecer do mesmo tipo ao longo dos séculos, quaisquer que fossem as circunstâncias históricas, é preciso que fossem comandadas por uma concepção da vida, uma doutrina fundamental, idênticas.
O revolucionário marxista, como o perfeito maniqueu ou budista, pode muito bem não ter noção explícita dela; essa doutrina fundamental comanda, no entanto, apesar de sua ignorância, todo o seu pensamento e sua atitude diante do mundo e da vida. Sem dúvida, Alain Besançon notou pontos comuns de doutrina de parte a parte: o antinomismo, o despertar para a luz, a iniciação, as parcelas luminosas aprisionadas, etc...
Qual é, pois, essa inteligência sobre-humana capaz de pôr sob um mesmo chaveiro a razão de ser de duas atitudes análogas, a do perfeito maniqueu e a do revolucionário marxista? Não vejo senão uma, a de Lúcifer.
E é uma necessidade lógica, pois a identidade das atitudes, a analogia dos pensamentos não encontram aliás explicação adequada. Atingimos aí um combate sobrenatural. Procuremos representá-lo.
O monge budista ou maniqueu (é o mesmo) não conhece a razão de ser última de sua atitude. É vítima de uma ruse satânica. O marxista revolucionário tampouco conhece a finalidade de seu combate, senão num sonho irrealizável. Também ele é vítima do demônio.
"Quos vult perdere, Jupiter dementat". Àqueles que quer perder, Lúcifer tira a razão. Em seu ódio contra a ordem do Criador, o demônio empenhou-se contra o homem para fazer dele seu escravo e atraí-lo a seu domínio, o Inferno. Para isso o ataca em sua faculdade mestra, a da razão, "imagem de Deus no homem".
Murmura ao ouvido do gnóstico: "Meu pobre amigo, se és infeliz, é culpa do criador, que te lançou do céu para mergulhar-te num mundo de desgraça. Reconquista, pois, teu domínio divino. O melhor é livrar-te de teu corpo inútil, evadir-te desse mundo hostil e invivível e fundir-te no Cosmos." Em último recurso, o gnóstico só pode desejar o suicídio.
Murmura igualmente ao ouvido do revolucionário: "Meu pobre amigo, se és infeliz (... etc ... mesmo refrão de há pouco)... O melhor é destruir esse mundo de desgraça para reconstruí-lo segundo um plano maravilhoso. Coragem! Põe a teu país a ferro e fogo e eu te ajudarei..." Quando o revolucionário terminou sua tarefa, só lhe resta contemplar a extensão do desastre; mas é bem incapaz de reconstruir o que quer que seja sobre essa terra senão um inferno.
Tais são "os murmúrios de Satanás". Ora, Lúcifer é um abominável mentiroso. Sabe muito bem que a Criação é uma obra-prima de Deus, que as desgraças dos homens vêm do mau uso que dela fazem. Sabe muito bem também que o homem, mesmo com sua ajuda, não possui em si mesmo nenhum meio de divinizar-se. Esse não é, aliás, o objetivo de sua manobra, pois, ao contrário, esforça-se por rebaixar o homem ao estado de bruto: o gnóstico, mergulhando seu espírito no vazio; o revolucionário, reduzindo-o ao estado de fera sanguinária.
Num ponto importante, Alain Besançon notou bem uma diferença entre o gnóstico, que conservou alguma ilusão de ideal religioso, e o revolucionário, completamente imerso num universo de matéria inerte. É verdade, como mostramos em outro lugar (2), que a Serpente aperfeiçoou sua estratégia. Esforçava-se por fazer cintilar aos olhos do gnóstico de outrora a esperança de uma subida ao mundo da Luz, de um voo no azul. Hoje é um "miragem" que propõe: uma queda no mundo da matéria, um mergulho no nada cósmico, um retorno ao estado mineral, à matéria bruta...
CONCLUSÃO
A Franco-Maçonaria, dissemos, é "a Congregação militante da Gnose". Transmitiu o veneno de sua doutrina à França ao longo do século XVIII e preparou assim o grande cataclismo da Revolução. Transmitiu o mesmo veneno à Rússia no século XIX e provocou, segundo o mesmo processo, a revolução bolchevique.
Nesses dois casos, o mecanismo revolucionário funcionou da mesma maneira. Num primeiro tempo, as lojas investem a elite intelectual do país e preparam uma geração de espíritos para beber a longos tragos os princípios revolucionários apresentados como um licor inebriante, capaz de estabelecer o reino da Felicidade perfeita e da Paz Universal. Toda essa elite, assim iluminada, lança-se com prazer e paixão em todas as novidades que lhe são apresentadas com uma arte diabólica da equivocidade e da mentira.
Num segundo tempo, uma nova geração, nutrida desde o berço nesse palavreado humanitário, lança-se com violência na ação para realizar enfim o Paraíso tão esperado na Terra. Nesse momento os revolucionários começam o "Grande Obra" ou preparam "O Grande Dia", com a certeza de que não encontrarão mais resistência por parte dessa elite que desarmaram.
Quando a operação termina, uma parte dessa elite, a menos pervertida, começa a abrir os olhos e a compreender que foi enganada. Mas perdeu o poder real e esforça-se por retomá-lo nas piores condições possíveis, com uma alternância de sobressaltos de coragem e de crises de abatimento. São os exércitos dos emigrados em 1792, os exércitos brancos em 1920. Tentativas fadadas necessariamente ao fracasso. Não se retoma por arroubos uma autoridade que se havia perdido porque não se tivera a coragem nem a energia de resistir à penetração insidiosa dos venenos mortais difundidos pela Franco-Maçonaria. O fracasso de tais tentativas é bem merecido. Há aí uma justiça imanente e Deus não tem a obrigação de subtrair os homens que abandonaram seu dever de estado, entregando a cidade cristã cuja guarda Ele lhes confiara, às consequências naturais de sua covardia ou de sua estupidez. Só se pode deplorar a desgraça dos povos que foram mergulhados no fogo e no sangue por culpa daqueles que tinham o encargo de protegê-los e de promover o bem comum da civilização cristã.
E. C.
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
- E. DENISSOFF: "A Igreja russa diante do Tomismo" (Vrin, 1936). O autor mostra bem as consequências desastrosas devidas à ausência de uma escolástica na Igreja russa.
Sobre a vida religiosa e intelectual:
- N. BRIAN-CHANINOV: "A Igreja russa" (Grasset, 1928)
- Nicolas ARSENIEV: "A Santa Moscou: Quadro da vida religiosa e intelectual russa no século XIX" (Col. Rússia e Cristandade, Ed. du Cerf, 1948) muito interessante.
- Eugène PORRET: "A filosofia cristã na Rússia: Nicolas Berdiaeff" (Ed. de la Baconnière, 1944)
- Divo BARSOTTI: "O Cristianismo russo" (Casterman, 1963)
- Mons. d'HERBIGNY: "Um Newman russo: Vladimir Soloviev - 1853-1900" (Beauchesne, 1934)
Sobre a literatura russa moderna:
- E.M. de VOGÜÉ: "O romance russo" (Plon, 1910)
- Henri de LUBAC: "O drama do Humanismo ateu" (Spes, 1944) especialmente a terceira parte intitulada: "Dostoiévski profeta".
- Jean BOURDEAU: "Tolstói, Lênin e a Revolução russa" (F. Alcan, 1921)
Sobre a revolução bolchevique:
- Alain BESANÇON: "As origens intelectuais do Leninismo" (Calmann-Lévy, 1977) totalmente notável, a ler atentamente e a completar por...
- Maurice PALÉOLOGUE: "Os precursores de Lênin" (Plon, 1938)
Notas
- Certos monges gregos, em particular no Monte Atos, haviam praticado um singular método de oração: permanecer imóveis, sentados num canto da cela, os olhos semicerrados e fixos no umbigo. Pretendiam que, prolongando essa atitude, acabavam por ver uma viva luz que os envolvia por todos os lados e que os penetrava e que eles sopravam pelo nariz. Não hesitavam em dar-lhe o nome de "divindade". Como essas luzes eram múltiplas, pretendiam que fossem divindades de ordem inferior, embora todas incriadas, difundidas na natureza... Já a meditação do umbigo!
- Cf. "Gnose e Literatura".
O Mundialismo - I
IDEOLOGIA E ESTRUTURA
"Rumo à República dos Estados Unidos da Civilização... o advento do MESSIAS HUMANIDADE". (1)
A maior parte deste estudo deve sua realização às obras dos Srs. Jacques Bordiot, Yann Moncomble, Henry Coston, Pierre de Villemarest e Pierre Virion, à revista "Lectures Françaises" e a um trabalho inédito na França do Sr. Prof. Paolo Taufer.
Todos os seus trabalhos concorrem para demonstrar com sucesso que existe uma política secreta, a da Plutocracia internacional e das sociedades ocultas, implicando, a termo, o desaparecimento da Nação francesa "num grande supermercado mundial, última etapa antes da república universal, dominada pelos Mestres secretos da Plutocracia". (2)
Nada pode substituir a leitura atenta dos autores e da revista citados. Assim, este resumo sinóptico procura apenas fornecer elementos suficientes para perturbar o leitor e incitá-lo a documentar-se mais para compreender melhor o que são essa "política secreta" e a atividade proteiforme de seus partidários.
A definição esquemática da tropa e de sua manobra pode enunciar-se assim: o conluio pragmático e oculto, realizado entre as seitas, a Franco-Maçonaria, a fortuna apátrida, os defensores do Liberalismo, do Socialismo e suas variantes, do comunismo "gorbachevizado", espalha nos espíritos uma espécie de "AIDS" socioeconômica enfeitada de princípios humanitários, para levar a termo o enfraquecimento completo da Religião Católica dissolvida no ecumenismo e, simultaneamente, conseguir fazer desaparecer as Nações com seu gênio próprio e sua soberania num "melting-pot" planificado.
ORGANIZAÇÃO DA LUTA CONTRA N.S.J.C. E SUA IGREJA
HISTÓRICO
"Existiam seitas bem antes de Cristo, e todas as sociedades antigas tiveram seus grupos de iniciados. Existia até um esoterismo judaico... O Catolicismo, pela amplitude mesma de seu desenvolvimento e, mais ainda, por sua proclamação de uma verdade exclusiva, realizou praticamente a frente das seitas contra ele". (3) A invasão das trevas numa alma ou num povo é a ocupação contínua de Satanás... Ele se faz instigador das doutrinas funestas, dos escritos perversos. O demônio levou cinco séculos para preparar o povo judeu ao desconhecimento e à rejeição de Cristo sofredor." (4)
É ele, "o adversário", que faz agora que "o gnosticismo, síntese tumultuosa dos cultos dos mistérios gregos, asiáticos, romanos e egípcios, tenha sido (e seja ainda) um concorrente temível (desde) vários séculos para o Cristianismo." (3)
Eis, designado por um mestre na matéria, o ex-irmão F.M. Marquès-Rivière, um dos mais ativos e hábeis falsários votados à guerra contra Roma.
As diferentes espécies de Gnose misturaram-se à doutrina de Maniqueu. Segundo o mesmo autor, "apareceram em plena luz, em todo o Ocidente cristão, ao longo do século XII, provocando lutas políticas, levantes populares..." "Pode-se distinguir nessa época uma corrente maniqueia e gnóstica, uma corrente de pobreza voluntária acrescida de anticlericalismo e dirigida contra o poder temporal da Igreja e uma corrente de judeu-cristianismo... que trará um judaísmo cabalístico misturado ao cristianismo." (3)
Esse fenômeno encontra uma formulação muito mais clara no Sr. Étienne Couvert: "Os gnósticos, desde os primeiros séculos, esforçaram-se por penetrar no Judaísmo da Diáspora de modo a levar os Rabinos, fiéis à revelação do Antigo Testamento, a renegar o verdadeiro Deus, Javé." (5) E "A Gnose nasceu em meio judeu-cristão; alimentou-se de um pensamento especificamente judeu... (Alimenta-se) do cristianismo para tirar dele certo número de elementos que desviará de seu sentido natural para lhes dar uma significação nova totalmente oposta ao ensino da Igreja. (5)
Mas, para a maioria dos Doutores, dos Letrados hebreus, o mal estava feito havia muito tempo. "Satanás conseguira circunvir uma grande parte da elite judaica." (4) Por sua vez essa elite, Sinédrio, Escribas e fariseus, com conhecimento de causa, "enganou e desencaminhou as tribos de Israel" para as engajar na "falta mais grave em seu gênero... o Deicídio." (4)
Os Rabinos eram, portanto, presa fácil para os Gnósticos. "O resultado dessa penetração foi, ao longo da Idade Média, o aparecimento da Cabala... Sua forma definitiva exprimiu-se no livro do "Zohar", isto é, do "Esplendor". (5)
Na mesma época, a Gnose realiza a infiltração e a corrupção das Corporações profissionais, das quais uma das mais poderosas, "favorecida de numerosos privilégios, isenções e franquias, justamente denominada "Franco-Maçonaria", possuía graus e símbolos relativos à qualificação dos membros e às principais ferramentas empregadas".
Começa igualmente a penetração na Ordem do Templo. Atinge seu ponto culminante no início do século XIV. Diante das condenações sofridas pelos Templários em toda a Europa, a organização torna-se oculta para transmitir segredo e ensino esotérico.
"Esse século é o dos primeiros sinais da decadência doutrinal, do Grande Cisma, do enfraquecimento dos Clérigos, de sua prática da simonia e do casamento de grande número deles, do reforço do pensamento judaico, notadamente da Cabala, sobre o espírito de numerosos personagens eminentes." (3)
Durante esse período proliferam "os adeptos das ciências ocultas; hermetistas, cabalistas, pesquisadores da quintessência, astrólogos e sobretudo alquimistas" (3), usando todos os mesmos símbolos, a rosa e a cruz.
Reúnem-se numa ou várias sociedades secretas que pregam "uma doutrina misteriosa, superior a todas as decisões da Igreja, formando um Cristianismo mais simples, ou mesmo independente de toda adesão à divindade de Jesus Cristo, pois aberto a homens de todas as crenças." (3)
O século XV vê "o erro, constrangido até então a esconder-se, encontrar na Alemanha e na Inglaterra, com o apoio de instituições políticas e sociais, a estabilidade de pátrias onde poderia afirmar-se doravante e desenvolver-se sem temor, ao mesmo tempo que preparar mais poderosamente novas conquistas." (3) Somente a Espanha, de onde os Judeus haviam sido expulsos, evita o contágio.
O século XVI testemunha, pela Reforma, um primeiro e importante êxito das manobras subversivas. É, parece, no início do século que se formam as primeiras fraternidades Rosa-Cruz, cujos membros assinam, com outros inimigos da Igreja, a Carta de Colônia em 1535.
"A mistura Reforma - Talmude - Cabala - Ocultismo num meio hussita está perfeitamente ajustada na Alemanha, em torno do diácono luterano Johann Valentin Andreae (1586-1654). Este é o verdadeiro motor do movimento de caráter iniciático dito da Rosa-Cruz". "Sucintamente, trata-se de uma recusa do dogma cristão a fim de realizar o sincretismo necessário no qual o próprio homem se põe como Deus." "Desde 1633, o movimento passa à Inglaterra, infiltra todos os ritos maçônicos e permanece neles em posição dominante, como o 18º grau do Rito Escocês Antigo e Aceito." "A seita encarrega Comenius (Amos Komensky 1592-1670) de redigir em 1644 uma obra contendo as linhas essenciais do atual mundialismo sinárquico." (6)
Graças ao zelo de seus chefes, os R.C. espalham-se igualmente na Holanda, que, com a Inglaterra, vai desempenhar um papel primordial na difusão das ideias revolucionárias e gnósticas na França e na Alemanha.
A FRANCO-MAÇONARIA
Ainda segundo Marquès-Rivière, sua doutrina geral visa "a destruição da Roma Católica" pelo aporte "de uma gnose que faltava aos ensinamentos religiosos de então... Será pelas lojas maçônicas que as ideias rosa-cruzes poderão germinar na França e suscitar a explosão das ideias do século XVIII." (3)
As Obediências Ordinárias. É em 1717 que se organizou oficialmente o conjunto dessas diversas correntes gnósticas, misturadas ao protestantismo, com porta aberta para a rua.
No mês de fevereiro é criada em Londres a Grande Loja da Inglaterra, futura mãe de todas as outras obediências.
Seguem-se, em 1771, a Grande Loja da França 1776, a Ordem dos Iluminados da Baviera 1877, o Grande Oriente da França 1889, a Ordem Cabalística da R.C. 1893, a Ordem Mista Francesa e Internacional do Direito Humano 1909, o Antiquus Mysticus Ordo Rosae Crucis (AMORC) 1952, a Grande Loja Feminina da França 1958, a Grande Loja Nacional.
França. Os F.M. franceses agrupam-se, fora de suas obediências e de suas lojas próprias, em "Fraternais". (7)
Para os políticos: A Fraternal Parlamentar, hoje interparlamentar. Muito importante, criada em 1924 pelo F.M. senegalês Blaise Diagne, 33º grau do GODF. Depois da última guerra, teve como Presidente Henri Caillavet. Reúne F.M. de todos os partidos políticos. O deputado Alain Vivien, que foi o relator-investigador sobre as Seitas em 1984, era um afiliado!!
O Círculo Paul Ramadier reúne os eleitos de esquerda e o Comitê dos amigos de 25 de março, os R.P.R.
Para os profissionais: Frat. das H.L.M. para arquitetos e gestores de imóveis, O Carrefour de l'Amitié reúne o pequeno mundo dos decisores da política, da mídia e dos negócios. O Clube dos 50 reúne a nata dos negócios e das finanças. Os dois importantes clubes Rotary e Lion's, fundados por F.M., têm cada um sua Fraternal. Essa lista não é, ai de nós, de modo algum exaustiva.
Inglaterra. A F.M. (8) está muito bem implantada em seu berço de origem, onde os mais altos dignitários da Grande Loja Unida são Príncipes de sangue. O G.M. Eduardo, duque de Kent, presidiu em 10 de junho de 1992 uma assembleia geral internacional. Doze mil F.M. representando as 91 Grandes Lojas das cinco partes do mundo estavam presentes.
Estados Unidos. É bom insistir sobre o domínio da F.M. nesse Estado, atualmente o mais poderoso do mundo. (9) Os começos são de inspiração inglesa. Foi Benjamin Franklin, iniciado em 1731, na loja da Pensilvânia, que foi um de seus melhores difusores. A Guerra de Independência das 13 colônias da Inglaterra começa em abril de 1775. O F.M. Franklin vai pedir a ajuda da França do Rei Luís XVI. Seu sucesso deve-se principalmente ao apoio dos afiliados franceses, os F.M. La Fayette, Rochambeau, Lauzun, Fersen, Broglie, Almirante d'Estaing, Montbazon... que vão juntar-se aos insurgentes. Reencontram o general em chefe George Washington, iniciado desde 1752. Em seu exército há afiliados de pelo menos 12 lojas diferentes; La Fayette só obtém um grande comando depois de sua iniciação numa loja regimental. Assegurada a independência pelo Tratado de Versalhes (1783), Franklin, cujos princípios filosóficos se haviam afinado ao contato das lojas francesas, continua sua ação. Utilizou, entre outros, os talentos de orador do F.M. Honoré de Riquetti, conde de Mirabeau...
Com os excessos da revolução francesa, a F.M. americana, no pináculo de 1789 a 1797 graças ao primeiro Presidente dos E.U., o F.M. George Washington, deve fazer-se mais discreta. É preciso chegar a 1817 para que o quinto Pres. seja o F.M. James Monroe. Atualmente, a seita é florescente e conta mais de três milhões de membros.
Os maçons dos graus simbólicos: aprendiz (1º), companheiro (2º), mestre (3º) pertencem a uma loja azul, base do sistema piramidal maçônico.
Os do 4º ao 14º grau tornam-se, além disso, membros das oficinas superiores: lojas de perfeição.
Os F.M. do 15º ao 18º grau fazem parte do Capítulo, do 19º ao 30º do Conselho, do 31º do Tribunal, do 32º do Consistório e os do 33º do Conselho Supremo.
Não se deve confundir este último grupo com o Supremo Conselho, que reúne todos os F.M. que ultrapassaram o 4º grau sem deixar de pertencer à sua loja azul.
O S.C. US foi criado em 1801 em Charleston (Carolina do Sul). É o primeiro dos S.C. do mundo. Sua sede é em Washington para a jurisdição sul.
O S.C. Jurisdição norte foi fundado em 1813. Está instalado em Lexington, em Massachusetts.
Dada a enorme influência dos F.M. nos organismos dirigentes políticos, econômicos e sociais americanos, é preciso afirmar com o Sr. Jacques Bordiot que "os Estados Unidos são um apanágio maçônico".
Prova disso é dada pela simbólica do Grande Selo oficial dos E.U. tal como impresso desde 1935 no verso da nota de banco de 1 dólar, por ordem do F.M. Franklin Delano Roosevelt. (9)
"No anverso, a nota traz o retrato de George Washington. No verso, duas vinhetas, separadas pela frase: "In God we trust" (Confiamos em Deus), representam cada uma uma das faces do Grande Selo.
A vinheta da esquerda representa: uma pirâmide encimada pelo Olho Onividente; sobre a base a data 1776, em algarismos romanos; em torno da pirâmide, a inscrição: "Annuit Coeptis Novus Ordo Seclorum" (tradução aproximada: A Nova Ordem dos Séculos é favorável aos que a empreenderam).
Ora, essa pirâmide com o Olho Onívoro é o emblema da Ordem dos Iluminados da Baviera, de Weishaupt. Encontra-se na coluna de Alexandre, praça do Palácio de Inverno, em Petrogrado, e no Grande Memorial Americano de Saint-Laurent-des-Eaux (Calvados).
A vinheta da direita, reverso do Grande Selo, é um festival de Cabala maçônica, sobre a base do número 13, que representa, diz-se, as treze etapas da evolução da energia, a via iniciática rumo ao infinito espiritual.
No centro, uma águia, encimada por treze pentáculos maçônicos flamejantes, dispostos em Estrela de Davi (seis pontas). A águia segura no bico o "timbre" sinárquico: E PLURIBUS UNUM (De vários, um só), de 13 letras.
Além disso, tem: na garra direita, um ramo de oliveira maçônico, com 13 folhas e 13 frutos; na garra esquerda, um feixe de 13 flechas.
A águia sustenta um escudo de chefe azul, e leva 13 pales, dos quais 7 de prata e 6 de goles, que representam os 13 primeiros Estados da União.
Essa mesma vinheta da direita serve de selo ao Departamento de Estado (Ministério das Relações Exteriores)."
Cooperação entre lojas. Seja o que for que se diga sobre as rivalidades entre obediências, nem por isso deixa de ser verdade que organismos servem de centro de reflexão e de decisão comum. Foi assinalada acima a existência de tal estrutura para a Grande Loja Unida da Inglaterra e as lojas dela derivadas.
As obediências ditas liberais, isto é, independentes da G.L.U.A. e das Grandes Lojas americanas, têm seu Centro de Ligação e Informação... (CLIPSAS). O Presidente é o francês Jean Robert Ragache, ex-G.M. do GODF, membro do Clube Democracia 2000 de Laurent Fabius. Estão afiliadas cerca de 35 lojas diversas de vinte e seis nacionalidades. (10)
Os Supremos Conselhos são também um meio de controlar e unificar a ação dos F.M. Segundo a revista confidencial do S.C. de Washington, existiam no mundo em 1988 mais de quarenta S.C. O da França tinha, na época, como Soberano Grande Comendador Henri Béranger e como Grande Secretário René Desprats. A sede é em Paris, avenida de Villiers. (10)
Ação. Além de sua influência política, social e cultural exercida em todos os Estados e particularmente na França, onde são os inspiradores das leis da "Revolução sexual" e da Bioética (assim Roger Leray, ex-G.M. do GODF, tem assento no Conselho Econômico e Social, no Comitê Consultivo Nacional de Ética), os F.M. de todas as obediências trabalham em todo o mundo pela instauração da Nova Ordem Internacional e de seu governo.
Milhares de citações, de discursos e textos maçônicos abundam nesse sentido. Uma só bastará: na revista "La Chaîne d'Union", publicada pelo Grande Oriente, podia-se ler:
"Uma das preocupações primeiras da F.M. inteira é, sem contradita, a questão da paz no mundo, que só se saberá resolvida de maneira duradoura pela abolição das fronteiras. Numerosos Maçons estão na primeira fileira dos homens de boa vontade que trabalham em favor da criação de um governo mundial e da criação dos Estados Unidos do Mundo..." (12)
Esse programa e essa ativa vontade mergulham suas raízes na verdadeira origem da F.M.
A impregnação judaica. "A maçonaria acolhe todas as seitas esotéricas, ocultistas, cabalísticas. A loja é livre, só repele o dogma cristão. Como se confessasse implicitamente que tudo o que pode servir para destruí-lo nos espíritos serve, por isso mesmo, a sua finalidade." (13)
A homenagem que as obediências prestam à Sinagoga testemunha sua filiação. Assim, em 1926, a revista "Le Symbolisme" escreve que o primeiro dever dos Irmãos "é glorificar a raça judaica, que guardou inalterável o depósito divino da ciência". Acrescenta, reconhecendo a importância da ajuda judaica na realização de sua meta final: "Então, apoiar-se-ão nela para apagar as fronteiras." (3)
E o célebre rabino Dr. Isaac Wise afirma:
"A maçonaria é uma instituição judaica cuja história, graus, cargos, senhas e explicações são judaicos do começo ao fim... A maçonaria é baseada no judaísmo..." (3)
O que o Sr. padre Emmanuel Barbier, especialista na matéria, confirma e desenvolve:
"Tudo é judeu na F.M. O infeliz europeu, americano, asiático ou africano que o judeu faz entrar na loja só ouve falar dos judeus... Os títulos mesmos, quando têm significação precisa, só lembram a pátria (dos) judeus...
Se o F.M. examina os símbolos, as cerimônias, as vestes, as disposições mesmas da loja, tudo lhe falará dos Judeus, seus mestres, como a um pobre escravo na casa de seu tirano...
E o objetivo da maçonaria não é absolutamente judeu?
O objetivo religioso da seita: a destruição do Cristianismo e de toda religião outra que a magia, não é ordenado ao povo pelos Rabinos na Cabala?
O objetivo político da seita é destruir os imperadores, os reis, as fronteiras a fim de estabelecer sobre as ruínas dos impérios um governo absoluto, único, universal. Mas esse é o próprio objetivo de Israel há três mil anos...
É, pois, com seu exército nacional e seus regimentos de mercenários, os franco-maçons, que Israel avança, há seiscentos anos, desde que conquistou a Ordem do Templo, ao assalto de nossas pátrias. Suas colônias não vêm reparar, mas destruir. Em toda parte suscitou perseguições religiosas, guerras civis e bom número de guerras estrangeiras. O Grande Sinédrio não ignora que, para ser Senhor do Mundo, é preciso lançar a discórdia." (14)
A Casta Sacerdotal. Continuando a agir nas lojas, a aristocracia judaica vai criar sua própria F.M. para conduzir melhor seu combate pessoal e, ao mesmo tempo, opor-se a toda assimilação de seus correligionários pelo país onde residem.
Advertência em forma de constatação. Nessa ótica da vontade de manter o "apartheid", é obrigatório ultrapassar a religião, que pode ser abandonada, para privilegiar a raça, donde esta observação em duas partes:
"É preciso distinguir bem os papéis dos personagens judeus, que são postos em causa pela lógica da história e dos documentos, por sua implicação nos planos mundialistas, e o do povo judeu, do mesmo povo que, no Domingo, cantava "hosana" em honra do Senhor, e que somente poucos dias depois "ficava ali, olhando. (Lc 23,35)"
"Os aristocratas sionistas não (devem) ser confundidos com o povo judeu. Pelo mesmo motivo pelo qual não se condena uma nação pelos crimes cometidos por seus cidadãos mais loucos, não se pode condenar o povo judeu inteiro pelos crimes cometidos pela aristocracia sionista no curso dos séculos."
"Os membros dessa aristocracia têm um único tipo de relação com os judeus: são seus perseguidores e atormentadores... Um dos maiores benefícios que a aristocracia sionista tirou de sua cumplicidade com Hitler no genocídio das populações da Europa oriental foi que, desde então, conseguiu esconder-se atrás da lembrança do monstruoso destino de milhões de Judeus para conduzir as operações mais sórdidas... Cada vez que alguém procura tornar públicos esses crimes, é imediatamente qualificado de "nazista", de "fascista" ou de "antissemita". (15)
A ORDEM INDEPENDENTE DOS B'NAI B'RITH (16)
Histórico. É numa comunidade israelita de cerca de 25 000 almas, originárias da Alemanha, da Áustria e da Boêmia, agrupadas no Lower East Side de Nova York, que nasceu, em 13 de outubro de 1843, fundada por uma dúzia de homens dirigidos pelo Sr. Henry Jones.
Em sua maioria judeus alemães, os criadores lhe dão o nome de "Bundes-Brueder" (Liga dos Irmãos). Rapidamente encontra-se uma denominação menos acessível ao profano: The Independent Order of B'Nai B'Rith (Ordem Independente dos Filhos da Aliança). Como todos os membros são afiliados a lojas maçônicas, o ritual escolhido para a Ordem é uma mistura de Rito de York e do rito americano dos Odd Fellows.
Os Judeus, felizes por poder "obrar" no seio de oficinas compostas unicamente de correligionários, afiliam-se em massa. Entre 13 de outubro e 12 de novembro de 1843, doze lojas são fundadas, uma delas pelo F.M. Jones. Em 1855, a organização compreende nos E.U. 20 lojas e 2218 membros. Em 1882, é fundada a primeira loja alemã. Os B'B' tornam-se ali muito populares e a primeira Grande Loja é criada três anos depois.
A Ordem enxameia na Áustria, na Romênia, na Hungria... etc e cria lojas e grandes lojas. Depois da Primeira Guerra Mundial, as lojas palestinas, suficientemente numerosas, têm seu próprio distrito, o XIV. A mais antiga foi criada em 1888 em Jerusalém por Siegmund Bergel, pai do hebraico moderno. Hoje há mais de 200 lojas em Israel. Em 1882, dois israelitas tendo também a nacionalidade francesa, F. e S. Vatine, de Nice, fundam uma loja de língua francesa.
Em 1990, segundo "Tribune Juive", a Ordem contava 500 000 afiliados, repartidos em 1800 lojas, com 1450 capítulos femininos, repartidos em 46 estados. O fim da URSS permite aos B'B', como às outras obediências, criar ou reativar antigas lojas, através dos novos estados enfim livres. Desde 1989, uma loja é criada em Moscou. (18) Em 1990, "Tribune Juive" n.º 1108 anuncia que o Pres. para a Europa continental, Maurice Honigbaum, instalou em Budapeste a primeira loja húngara de todos os tempos. (18)
Na França, a primeira loja (França n.º 1151) é criada em Paris, em 1932, pelo advogado Sliosberg, F.M. de uma loja de Rito Escocês, refugiado desde 1917.
Nos anos que seguem a libertação, a loja é dirigida pelo F.M. Pierre-Jean Bloch, ligado ao Gabinete particular do Gal de Gaulle, que lhe confiará a depuração e a liquidação da imprensa "colaboracionista".
A loja 1151 enxameou muito, a ponto de tornar necessária a criação de uma União das Associações Francesas B'B'. O Grão-Mestre atual é o Sr. Marc Aron. Este, que dirige a Comissão de luta contra o Antissemitismo do C.R.I.F., foi reeleito à frente dos B'B' da França em 18 de março de 1990, em Marselha. Mons. Coffy, arcebispo, participou como "visitante" da reunião (19)
Missão e Objetivos. Os B'B', escreve um de seus antigos presidentes para o Monde, "destinam-se a preservar nosso precioso patrimônio judaico..." e "o reforço de nossas fileiras através do mundo dará mais peso à nossa voz".
O historiador judeu inglês Paul Goodman constata: "Esse agrupamento de Judeus profundamente engajados do Novo e do Antigo Mundo... representa a maior força organizada dos tempos modernos lutando pela promoção dos interesses do Judaísmo" e, isso é evidente, por sua defesa em todas as direções.
É possível considerar a Ordem como o "poder executivo do Grande Sinédrio de hoje. É, aliás, a Ordem Suprema à qual estão subordinadas todas as outras associações judaicas visíveis e ocultas, tais como a Aliança Israelita Universal, o Conselho Mundial Judaico, o Fundo Social Judaico, o British Israel, a Aliança França-Israel, a Aliança Itália-Israel, a LICRA etc" (6)
Os "Filhos da Aliança" querem-se ao mesmo tempo ponta de lança do povo judeu e poderoso chefe de fila das obediências maçônicas na luta contra a Religião Católica e na criação e organização dos diversos grupos que trabalham pelo desaparecimento das nações e dos povos para chegar a instaurar um poder Supremo mundial que será, in fine, entregue em suas mãos.
Essa incessante atividade não é, segundo o Sr. Élie Barbelin em "Os Judeus de hoje", senão a demonstração de que Israel cumpre incansavelmente "sua missão histórica de redenção da liberdade dos povos, de messias coletivo dos direitos do homem". (17)
Apresentados como os salvadores da humanidade, como os libertadores do homem, todos predestinados por Deus a essas tarefas, o trabalho dos Judeus membros da elite não pode senão ser acolhido com gratidão pelos GOYM.
O Católico não esquece, no entanto, que sua busca do poder terrestre, mesmo enfeitada de filantropia, está há séculos marcada pelo selo do orgulho e do erro.
"Ao fazer os Doutores da Sinagoga adotarem sua maneira de interpretar a Escritura, Satanás contribuiu para estabelecer no seio do povo judeu o erro do Messias conquistador.
Ele espera sempre um Salvador poderoso cuja missão deverá consistir em devolver não somente todo o seu brilho a Jerusalém e nela estabelecer o trono de Davi, mas ainda em renovar... o poder de Israel." (4)
Nessa louca expectativa, a aristocracia judaica, B'B' à frente, trabalha para assumir a direção do mundo, para estabelecer essa Jerusalém nova, destinada, por eles, a eliminar Roma, sede de sua inimiga fundamental, a Igreja que, segundo o Talmude, foi instaurada pelo "Nazareno que ensinava uma doutrina contrária às palavras do Deus vivo." (4)
Poder da Ordem. Sua influência é considerável. Uma só referência basta. É dada num artigo de "Tribune Juive" de 23 de dezembro de 1985: "Sua influência leva os candidatos à presidência dos Estados Unidos da América a apresentar-se diante dela antes de cada eleição"; pode-se ler. E o jornal menciona que os B'B' estão representados na maioria das organizações internacionais, tais como a ONU e a UNESCO, na qualidade de organização não governamental. "Tribune Juive" confirma que a Ordem "tem até entrada no Vaticano".
Seu poder é reforçado por seu conluio com as diversas obediências maçônicas.
Com efeito, o que quer que digam — segredo obriga — todas as Grandes Lojas, a da Inglaterra à frente, desde 1874 os B'Nai B'Rith concluíram com a alta F.M. internacional uma concordata de "reconhecimento mútuo". O documento foi assinado, pela Ordem, por Armand Lévy e, pela F.M. Universal, por Albert Pike, chefe Supremo do Diretório Dogmático do Rito Escocês e membro de honra da maioria dos S.C. do mundo, entre eles o da França.
Filiais conhecidas. 1913: Para proteger contra as sevícias de toda natureza seus correligionários residentes na Europa central e na Rússia, é criada a Anti-Defamation League of B'B' (A.D.L.). Torna-se muito rapidamente um meio de luta contra a direita americana.
A esse respeito, é preciso assinalar que a seção francesa dos B'B' presidida pelo Dr. Aron patrocinou a obra "Inquérito sobre a Direita extrema" (Edição Monde) publicada no início de 1992. O dossiê não omite nenhum boletim regional ou departamental dessas direitas: "Présent", "National-Hebdo", etc. Os dirigentes são devidamente catalogados. O objetivo do trabalho é mostrar a extensão do perigo que representam as Direitas. Trata-se de velar com vigilância. As publicações "Celsius" e "Article 31", prolongamentos da rede Curiel, são igualmente utilizadas. (20)
Invadindo o terreno de ação do Congresso Judaico Mundial, a A.D.L. abre em 1980 um escritório em Paris. Sua tarefa facilitada pelas leis francesas, a organização vai processar perante os tribunais toda pessoa física ou jurídica que julgue antissemita.
1923: para proteger a pureza da raça hebraica, a Ordem cria: as Fundações Hillel, do nome de um Rabino que viveu no século I antes de J.C., e a organização da Juventude dos B'B', que se reserva a educação dos jovens para preservá-los da dúvida e/ou da indiferença religiosa.
Recusando a assimilação por miscigenação, que poderia conduzir ao abandono da religião judaica, os B'B' organizam encontros de jovens judeus de ambos os sexos, originários de diversos países europeus, para incitar à endogamia e facilitá-la. Jovens vindos da África ou da Ásia participam de tais reuniões. Sob a égide da Loja B'B' Golda Meir, em Nice, houve uma aproximação desse gênero em 1990.
Além disso, a revista "Actualité Juive" participa desde alguns anos da "Cruzada contra os casamentos mistos", importante fator destruidor do particularismo judaico. (19)
Exemplos de Intervenções bem-sucedidas
1851-1853. Modificação em favor dos Israelitas de um tratado helvético-americano. 1867-1872. Mobilização de todos os Estados em defesa dos Judeus da Romênia. 1902-1917. Intervenção contra o Tsar com o apoio de Theodore Roosevelt. A derrota russa diante do Japão favorece a ação subversiva dos B'B', cujo G.M. Krauss se imiscui nas negociações de paz.
Os banqueiros judeus Jacob Schiff, Warburg, Guggenheim... todos B'B', fornecem os fundos necessários ao sucesso da revolução bolchevique e da economia stalinista, com a ajuda eficaz dos F.M. ingleses Lord Milner e Sir George Buchanan. Note-se que, nesse negócio, os B'B' souberam fazer dobrar o Pres. dos E.U., W.H. Taft, G.M. de outra obediência.
Os membros dos B'B' e da Pilgrims Society, Sir Alfred Mond à frente, com as grandes famílias judias Astor, Baring, Rothschild... etc, são os promotores da Declaração Balfour.
- O tratado de Versalhes é em grande parte obra deles. (11) Segundo o escritor inglês E.J. Dillon, um número considerável de delegados à Conferência da Paz estimam que "a partir de agora, o mundo será governado pelos povos anglo-saxões, eles próprios dominados por seus elementos judeus".
1920-1938. O banco judeu financia a ascensão ao poder de Adolf Hitler e a criação da indústria alemã. A emigração dos judeus para a Palestina é organizada. (21)
1940-1945. Muito influentes junto ao Pres. Roosevelt, os B'B' trabalham na montagem dos meios necessários para "fazer estritamente prestar contas aos Nazistas de seus crimes depois da vitória", esquecendo alguns correligionários muito importantes.
- Jules Isaac, fundador em 1948 da Amizade Judeu-Cristã, morto recentemente, é em Roma o líder do assalto contra o ensino tradicional da Igreja.
Na época do Vaticano II, o Papa João XXIII, favorável às ideias de Jules Isaac, cria o Secretariado para a Unidade dos Cristãos. O Cardeal Bea, jesuíta alemão em contato com o G.M. das Lojas Unidas da Alemanha e amigo do pastor Willem Visser't Hooft, fundador do C.O.E., assegura sua direção com a ajuda de dois prelados judeus convertidos.
No início dos anos 1980, o escritor judeu Rabi declarará que o livro de Jules Isaac "Jesus e Israel" era "a arma de guerra mais específica contra um ensino cristão particularmente nocivo".
Mons. Bea e os dirigentes B'B' têm numerosas entrevistas em Nova York. Finalmente, as organizações judaicas e os progressistas encontram uma ampla maioria de Padres conciliares para literalmente "judaizar" a Igreja Romana pelo voto de 20-XI-1964. 1651 Padres estimam que a versão da Paixão segundo Jules Isaac é preferível à de São João e de São Mateus. O novo Papa Paulo VI recusa-se a ratificar a decisão. Graças à ação dos Padres fiéis à Tradição, MMGrs Carli e Lefebvre entre outros, o voto definitivo de outubro de 1965 corrige um pouco a situação. Desde então, seduzidos, numerosos bispos participam de reuniões ou sessões B'B'.
-
A Federação Europeia da A.D.L. intervém na política interna francesa. Obtém, contra a Frente Nacional, a assinatura de um acordo com a U.D.F. e o R.P.R.
-
Obtém-se a suspensão do processo de beatificação de Isabel, a Católica, heroína, com seu esposo Fernando de Aragão, da reconquista de seu país sobre os Mouros, terminada pela tomada de Granada em 1492. As organizações judaicas intervenientes condenavam formalmente a beatificação de uma soberana que expulsara 150 000 delas de seu território. O anúncio da capitulação de Roma foi feito em 28 de março pelo Cardeal Felici. (22)
A Ordem dos B'B' agradece ao Cardeal Decourtray, Primaz das Gálias, por sua ação no caso Touvier, entregando-lhe, na presença de duas crianças portando "Luzes", do Dr. Aron, presidente da seção francesa, do Gr. Rabino Sirat, seu Prêmio da ação humanitária, em 16 de novembro.
O discurso do Dr. Aron manifesta seu poder:
"Os B'B' são os Filhos da Aliança, testemunham ao mesmo tempo da perenidade da Aliança de Deus com seu Povo Israel e da vitalidade do judaísmo contemporâneo..."
..."Os comitês judeus (onde figuram numerosos B'B') e cristãos para as relações inter-religiosas reuniram-se de novo em Praga... para dizer qual cristianismo é incompatível com o antissemitismo e fazer seguir as consignas de revisão da catequese (católica) desde a hierarquia até a base..." (23)
- Consagração nacional à Ordem, que, em 2 de dezembro, representada por seu Centro Europeu, é oficialmente recebida no Hôtel de Lassay pelo Pres. da Assembleia Nacional. (24)
NO CORAÇÃO DO SISTEMA
ALGUNS PRECURSORES. Desde o início do século XVIII, na mesma corrente de ideias que a dos "filósofos" pré-revolucionários Helvétius, Voltaire, J.J. Rousseau, Diderot, d'Alembert, Cabanis etc... revelam-se algumas obras significativas.
- "A Nova Jerusalém", obra redigida por Emanuel Swedenborg, protestante sueco, franco-maçom, criador de um Rito que leva seu nome. Anuncia o nascimento de uma era nova... a condenação das formas passadas... enuncia "as leis novas que devem substituir as formas caducas..." "a humanidade é conduzida por uma potência invisível a realizar essa união conforme às leis da forma humana aplicada à organização social."
Põe a questão fundamental: "Não é isso o próprio desfecho do socialismo mundial?" e constata "hoje, é ainda em Jerusalém, o lugar predestinado, que está o "Ponto de Encontro da Paz", é a única base possível da paz mundial..." (25)
- "Investigação sobre a natureza e as causas da Riqueza das Nações", publicada pelo economista inglês Adam Smith (1723-1790), no momento mesmo em que os revolucionários americanos e franceses proclamavam os direitos do homem!
Por essa obra, influenciará a formação do socialismo moderno e tornar-se-á, por quase cento e cinquenta anos, o verdadeiro inspirador da economia política moderna. (26)
- "A República Universal" de 1792. O autor Anacharsis Cloots, membro zeloso de sociedades secretas, barão alemão, fixado em Paris em 1779, participa ativamente da preparação da revolução. É recompensado, na saída de seu livro, pela Assembleia legislativa, que o faz cidadão francês.
Sua doutrina é simples: "o gênero humano viverá em paz quando formar um só corpo, a nação única... (e) encontraremos poderosos auxiliares, fervorosos apóstolos nas tribos judaicas que consideram a França uma segunda Palestina..." (26)
- Os escritos de David Ricardo, rico judeu convertido à religião reformada, economista inglês. Partidário do Livre-Câmbio, sua influência sobre as escolas liberais francesas e inglesas é decisiva. Tem ligações com J.B. Say, Malthus e o federalista Sismondi.
Seus argumentos são utilizados pelos socialistas agrários partidários da nacionalização do solo e da mais-valia da renda, Karl Marx, o americano Henry George, John Stuart Mill e John Ruskin. (26)
É durante esse longo período que aparecem na França, na Inglaterra, na Alemanha e nos Estados Unidos uma multidão de ligas, de associações de sociedades, de movimentos, de revistas... empunhando as palavras Internacionalismo, Estados Unidos da Europa, Paz, Democracia, Bem Público, Liberdade e Justiça!
OS VERDADEIROS PROMOTORES
A - O homem premonitório. John Ruskin (1819-1900), de família rica, titular de uma cátedra de ensino de Belas-Artes em Oxford, mas entusiasta de Sociologia. Arrasta seus alunos, logo tornados discípulos, para experiências comunitárias sob a cobertura de uma "Confraria de São Jorge", para a instauração de um clima socialista na agricultura e na indústria... Seus adeptos permanecerão por toda a vida fiéis a suas concepções. (27)
Discípulo do Rosa-Cruz Bulwer Lytton, John Ruskin exerce imensa influência, formadora de Prosélitos zelosos, sobre os jovens diplomados de Oxford, de Cambridge... pertencentes à alta sociedade inglesa e destinados a ocupar, por hereditariedade ou cooptação, postos importantes na administração, nas sociedades industriais, nos bancos na Grã-Bretanha e em seu Império.
É necessário lembrar brevemente as bases de sua doutrina-programa:
"Suas concepções inspiravam-se em grande parte de "A República" de Platão.
"Sabe-se que, para o filósofo grego, a "sociedade ideal" compõe-se de homens e mulheres iguais em direitos e obrigações, até o ofício das armas. Nem casamento, nem família, acasalamentos aleatórios ao capricho de um dos parceiros, ao qual o outro deve submeter-se. Desde o desmame, as crianças nascidas desses enlaces são tomadas a cargo pela sociedade e criadas anonimamente com seleção eugênica implicando a eliminação dos sujeitos malformados ou de espírito deficiente.
"A sociedade é autoritariamente dividida em três classes, uma classe dirigente, sustentada por uma importante classe armada e exercendo seu absolutismo sobre todas as atividades de uma classe laboriosa, verdadeiros servos. A repartição dos indivíduos nas duas classes inferiores é submetida sem apelo ao arbítrio da classe dirigente.
"O sistema comporta a abolição do direito de propriedade e a estatização dos meios de produção e distribuição, o que não é para desvantajar os dirigentes, pois estes se beneficiam de todas as vantagens do sistema.
"Sistemático e exclusivo, como bom ideólogo, Platão recomenda fazer desaparecer, se necessário pela força, todas as estruturas políticas e sociais existentes no mundo para que, num terreno inteiramente desobstruído, a classe dirigente possa edificar sua sociedade nova..." (27)
A estrutura dos futuros Estados socialistas, nacionalistas, marxistas ou ditos "populares" corresponderá perfeitamente, em sua brutalidade, a essa tese. Os socialistas e os social-democratas modernos inspiram-se nos mesmos princípios, adaptados à evolução social — ensino superior mais aberto, multinacionais desempenhando o mesmo papel despótico que o Estado proprietário... etc — e astuciosamente envolvidos em unção humanitária.
A astúcia de John Ruskin, pregando aos filhos da "gentry" "que o Estado devia apoderar-se de todos os meios de produção e de distribuição com vistas a assegurar autoritariamente o bem da comunidade — e pouco lhe importavam as ideias de democracia e de liberdade — (foi) deixar-lhes entender que constituiriam a classe privilegiada... e (lhes) fazer admitir... como única justificação de suas vantagens, a partilha de suas tradições aristocráticas com as classes inferiores, não somente da Grã-Bretanha, mas do mundo inteiro..." (27)
Os mais ardentes dos discípulos de John Ruskin vão consagrar sua vida à realização desse programa pensando primeiro na extensão do poder britânico... Será o assunto de um próximo capítulo.
B - Os Detentores do dinheiro. "O bezerro de ouro continua de pé"!
Breve retrospecto histórico. (28) A origem dos "manejadores" de dinheiro perde-se na noite dos tempos. Sua maneira de agir, aperfeiçoada ao longo dos séculos, adaptada às circunstâncias, não variou em seu princípio.
Os Israelitas penetram na Gália na esteira dos Romanos. Praticam o câmbio de moedas e o empréstimo ao consumo. Apesar de numerosos reveses, tomam pouco a pouco um lugar preponderante na sociedade e esgueiram-se bem perto do poder.
A Igreja Romana proíbe o empréstimo a juros. A maioria dos Soberanos trata duramente esses adeptos de métodos que suscitam as queixas de seus súditos. A memória coletiva da Alta Finança não esquecerá esses constrangimentos!
Os Templários também fazem ofício de banqueiros. São bem considerados pela Igreja e por sua clientela, até sua perversão e sua condenação generalizada.
Os Lombardos concorrem, desde 1212, com os Israelitas praticando o empréstimo a particulares a taxas entre 23 e 100 % por vezes. Roma lhes faz recolher os fundos do Dinheiro de São Pedro.
Filipe, o Belo, põe fim à atividade financeira dos Israelitas expulsando-os, e aos templários e lombardos mandando prendê-los. Todos os seus bens são confiscados: "seu nome é, em nossos dias, ainda votado às gemônias em certas cerimônias maçônicas".
No século XV, os grandes financistas chamam-se, na França, Jacques Coeur, na Itália, Médicis, no Império, Fugger. Estes mantêm-se até 1557, ano em que, por decreto, o Rei Filipe II da Espanha assina sua ruína.
Se os reis e imperadores, até o fim do século XVI, utilizaram com frequência os "manejadores de dinheiro", sempre se afirmaram os mais fortes e a "Banca" nunca pôde impor suas diretrizes à autoridade pública pela simples razão de que a posição de um Príncipe reinante não depende nem de manobras políticas nem de competições eleitorais.
Com o século XVII aparecem, estranha coincidência, no coração dos Estados Reformados, dois centros financeiros muito importantes: 1609, Amsterdã e o Banco Neerlandês; 1694, Londres, a "City" e o Banco da Inglaterra.
Nessa época não existe sistema fiscal organizado, o que assegura aos Soberanos um crédito muito baixo. Só podem encontrar dinheiro por intermédio de um banqueiro conhecido e reputado.
Na França católica, Luís XIV utiliza os serviços do israelita Samuel Bernard. À sua morte, a família Orléans, muito ligada à alta finança e, a priori, já penetrada pelas ideias maçônicas, prepara o terreno para John Law. Seu banco privado torna-se banco real em 1718. A circulação financeira (as notas) atinge um número fabuloso. Em outubro de 1720, Luís XV intervém. O "papel" é proibido nas transações e perde todo valor. Isso põe, por muito tempo, um ponto final às manipulações.
O Dinheiro trabalha então, muito sorrateiramente, para a derrubada do "trono de São Luís (para estabelecer) sobre as ruínas da Velha França, uma dominação tanto mais ignominiosa quanto era exercida, em nome do povo francês, por homens na maioria das vezes estranhos às suas tradições, a seus costumes e à sua fé..."
- Luís XVI, que quer restaurar as finanças do Reino, não se curva diante das manobras e do ultimato do Grande Tesoureiro Necker, suíço e protestante, apoiado por muitíssimos membros do Terceiro Estado a seu soldo e por todos os "agiotas".
A jornada de 14 de julho, organizada, financiada e perpetrada pela F.M. e pela Banca, fez desta última a privilegiada do novo sistema político.
Ela enriquece enormemente durante as guerras do Diretório. A ajuda prestada ao sucesso do golpe de Estado lhe assegura o reconhecimento de Bonaparte.
O Primeiro Cônsul ratifica em 1800 a criação do Banco da França, banco privado nas mãos de estrangeiros, o neuchâtelois Perrégaux, ex-súdito prussiano, e o genebrino Mallet, entre outros... Dá-lhe em 1803 o monopólio da emissão de notas...
A chegada dos membros da família israelita Amschel Rothe Schild não tardará. O reinado cada vez mais opressor da Alta Finança internacional sobre a política e a economia começa.
Os Banqueiros Cosmopolitas. (29) "Desde o fim do século XVIII existe um sindicato internacional agrupando os mais importantes bancos de negócios de Londres, Amsterdã, Hamburgo, Frankfurt... e os do império Rothschild.
Esses banqueiros "distinguem-se dos outros por serem cosmopolitas e internacionais, tinham ligações com os governos e interessavam-se particularmente pelos empréstimos de Estado, ocupavam-se quase exclusivamente de manipulação de dinheiro, observavam uma estrita política do segredo, atinham-se à influência oculta da finança sobre a vida política internacional."
O Dr. Carroll Quigley, membro da pequena elite dos "iniciados", afirma que o objetivo de longo prazo do sindicato seria "nada menos que a criação de um Sistema mundial de hegemonia financeira nas mãos de algumas personalidades capazes de dominar a política de cada país e a economia mundial inteira."
Movido pelo "interesse e unicamente o interesse da organização, com desprezo de todo sentimento afetivo, de toda moral, de toda tradição", o Sistema desenvolve seu domínio econômico-político sobre os governos e as Nações, graças a seu pessoal próprio frequentemente chamado à chefia de ministérios, a seus amigos bem situados nas Forças Armadas ou na Indústria, a seus empregados tornados conselheiros ouvidos do poder vigente, aos políticos de todas as tendências que ajudou no sucesso de suas carreiras, a seus próprios trustes e holdings.
A Dominação direta, para estabelecer-se, retomou por sua conta, modificando-a um pouco, uma passagem do manifesto do Partido Comunista, escrito em 1848 por Marx e Engels, que pedia "a centralização do crédito nas mãos do Estado, por meio de um banco nacional, cujo capital pertencerá ao Estado e que gozará de um monopólio exclusivo." (30)
Para a Alta Finança, um Banco Central ou Nacional é um instrumento de caráter oficial, com privilégios exclusivos, MAS, de capitais e direção privados; o que permite obter o controle absoluto das finanças, da economia de um país e da política conduzida pelo governo. (30)
Principais Bancos (31):
-
O Banco da Inglaterra. Estabelecimento privado até sua nacionalização em 1946. Isso nada mudou, pois os 18 membros do Conselho são em grande parte representantes do Sistema. Esse Banco fixa sozinho e a cada dia o preço do ouro!
-
O Banco da França. A revolução, tendo dado o poder aos agiotas, acuou o Diretório à bancarrota. Em 18 de janeiro, o Primeiro Cônsul aprova a criação do Banco, cujos duzentos acionistas são banqueiros ou industriais. Onze deles, eleitos por seus pares, formam o Conselho de Regência. A nacionalização nada mudou.
-
Federal Reserve U.S.A. Os dirigentes dos E.U. resistiram à pressão da Banca (Rothschild em particular), que não seria alheia ao assassinato de Abraham Lincoln, até a eleição de Thomas Woodrow Wilson à presidência em 1913. Eleito graças à Távola Redonda e ao Sistema, controlado pelo célebre Coronel E.M. House, o Presidente deixa fazer. Em 22 de dezembro, o Federal Reserve Act, redigido pelo banqueiro Paul Warburg, é adotado... e a reeleição de Wilson em 1916 é assegurada.
Cria-se assim uma "organização de doze bancos nacionais, encimados pelo de Nova York e totalmente independente do poder executivo. O Conselho dos Governadores era presidido por P. Warburg, o Banco de Nova York por B. Strong, homens de J. Pierpont Morgan e de Kuhn, Loeb and Co."
Para terminar com o simbolismo da nota de 1 $ (1935) já estudado anteriormente, cumpre sublinhar o texto do lema inscrito: "Novus Ordo Seclorum". A evidente falta de ortografia deve-se a um sentido simbólico preciso: 17 letras, o número 17 significando "a privação da perfeição celeste", a saber, o reino terrestre da Sinarquia", da qual fazem parte os Banqueiros cosmopolitas da "Nova Ordem Mundial".
-
Sob o impulso do futuro ministro das finanças do III Reich, H.H.G. Schacht (1877-1970), é criado em Basileia o Banco de Compensações Internacionais para manter os laços entre os bancos centrais e coordenar suas atividades.
-
Esse mesmo Dr. Schacht, que escapou do Tribunal de Nuremberg, salvador do marco alemão-ocidental, participa em julho da criação do Banco internacional para a reconstrução e o desenvolvimento (B.I.R.D.), ligado à O.N.U.
-
Criação do Fundo Monetário Internacional (F.M.I.), com conselho constituído de um Governador por Estado membro.
Principais Estabelecimentos (32)
Trata-se sobretudo de grupos que, na maioria das vezes, deram seus primeiros passos na Europa.
Bancos Protestantes
- Neuflize, Schlumberger e Cia, o mais antigo, pois data de 1667. Os Neuflize são aparentados aos Mallet.
- Mallet Irmãos. O poderoso, mas também o mais regular. O fundador da família nasceu em Rouen em 1580 e foi estabelecer-se em Genebra. Seus descendentes, banqueiros, instalam-se em Paris, no início do século XVIII, com a proteção do Chanceler de Maupeou e de Necker.
- União Parisiense. Banco dirigido por um Vernes e um Hottinger, muito ligado à Royal Dutch e a Lazard Brs.
- Vernes e Cia., fundado por um huguenote do Vivarais refugiado em Genebra após a revogação do Édito de Nantes.
- Hottinger e Cia. Família vinda de Zurique no século XVIII. O chefe da casa é um dos fundadores do Banco da França.
Membros de todas essas famílias banqueiras tiveram assento, em diferentes épocas, no conselho de regência do B.d.F.
Bancos israelitas
- Fould e Oppenheim. Achille Fould foi o conselheiro financeiro e o comanditário das empresas do Príncipe Luís Napoleão, Pres. da República depois Imperador. Criou, em particular, com a aprovação de Napoleão III, o banco "Le Crédit Mobilier", do qual detinha mais de um quarto das ações... Uma conjuração na qual os Rothschild tiveram parte levou à liquidação desse novo banco.
- Worms e Cia. Fundado no início do século XIX por um israelita. Na época de Vichy, seu neto é batizado e depois se casa com uma inglesa cristã. Seu associado Goudchaux e a comanditária, Sra. Labbé, nascida Goudchaux, também o eram. Seus descendentes são ainda hoje os colaboradores do banco, que tem ligações com Lazard Brs. e a City.
- Selingman e Cia. Muito próximo de Lazard Brs., pois um Selingman (Roger) era casado com uma filha de David David-Weill do banco Lazard, e do banco Kuhn, Loeb and Co, pelo casamento de Isaac Selingman com uma filha Loeb.
- Louis Dreyfus e Cia. Fundado em 1851 por Léopold, que começou no comércio de grãos. Louis financiou a sociedade editora de "L'Humanité". Em recompensa, Jaurès o faz eleger deputado radical da Lozère em 1905. Era afiliado ao GODF desde 1896.
O banco era especializado no comércio e no transporte de cereais. Possuía sua própria frota. Foi requisitado em 1939 após o armistício, metade trabalhando para os Aliados e a outra para Vichy. Além disso, o banco controla o grupo de imprensa L'Intransigeant - Match - Pour Vous.
- Kuhn, Loeb and Co, concorrente de Morgan.
- Lehman and Co, Herbert foi conselheiro de um Pres. dos E.U.
- Warburg and Co, um Warburg casa com uma filha Loeb.
Os três bancos fundiram-se. O primeiro contou entre seus dirigentes Jacob Schiff. Desde 1890, esse homem se pusera de acordo com os teóricos da revolução marxista. Foi o financiador de Lênin e de Trótski, seus correligionários, para levar a bom termo a insurreição de 1917, com o apoio dos B'nai B'rith. Os Warburg eram associados e parentes de Schiff. Seu banco financiou o primeiro plano quinquenal soviético com a ajuda de Selingman.
Em 1941, Lehman servia de correia de transmissão entre Stálin e Roosevelt para preparar as conferências de Teerã e de Yalta.
- Lazard Brothers and Co. Fundado nos E.U. em 1843 por um emigrante, Alexandre Lazard, descendente de uma família judia vinda da Boêmia para a Alsácia-Lorena.
Sucursais em Paris (1858) e em Londres. Tinha o monopólio do transporte de ouro entre Paris e Nova York, por conta do Banco da França. Foi praticamente senhor do mercado de câmbio, na França, até a última guerra.
Com seu aliado, o Banco da Indochina, trabalhou, a partir dos anos 50, pela eliminação das influências católicas no Banco de Paris e dos Países-Baixos para pô-lo sob o domínio anglo-saxão.
- Rothschild Irmãos. Os ancestrais viviam no gueto de Frankfurt. Meyer Amschel, nascido em 1744, está na origem da fortuna.
Em 1810, é fundada a casa Meyer Amschel Rothschild e Filhos.
Em 1812, à morte do patriarca, os cinco herdeiros varões repartiram os postos e as funções: Salomon em Paris, Nathan em Londres, Amschel e Charles em Frankfurt e James em Gravelines como agente de ligação.
São o tipo perfeito do banqueiro cosmopolita que só busca o enriquecimento pessoal e a estima amigável de seus correligionários por todos os meios possíveis.
É em grande parte graças à sua participação ativa nas desgraças da França que os Rothschild estabeleceram seu poder. Assim:
- Facilitam a vitória da City sobre Napoleão I, utilizando em seu proveito o bloqueio continental;
- Depois de 1830, gerem sem escrúpulos a Companhia das Estradas de Ferro do Norte, põem a mão na produção europeia de mercúrio e fazem o papel de intermediários no casamento de Napoleão III;
- Depois de 1848, a República, por seus amigos Crémieux e Goudchaux, lhes confia a lucrativa colocação dos empréstimos russos;
- Em 1875, Alphonse, filho de James, iniciado por ser Regente do Banco da França, previne seu correligionário Disraeli e empresta à Grã-Bretanha o dinheiro necessário para a compra das ações, cerca de 50 %, detidas na Companhia de Suez pelo Quediva, que as havia proposto ao Governo francês;
- Durante a guerra de 1914-18, a sociedade em nome coletivo Rothschild Frères, criada em 1908, vende o níquel da Nova Caledônia à Alemanha, por intermédio de uma sociedade americana que representa uma firma de Frankfurt.
Até 1930, o banco permanece o primeiro do mundo. Desde a chegada do marechal Pétain, Édouard e Robert vão para os E.U. Em 1944, Guy e James-Henry voltam à França. Precedem o barão Édouard. Em 1949, em seguida a falecimentos e remanejamentos internos, a sociedade só compreendia mais Guy, Alain e Élie.
Com, na época, um capital de 500 milhões de francos, um balanço de alguns bilhões, controlava várias centenas de empresas na França e no exterior, inclusive em Israel. Sócios, representantes têm assento em diversos Conselhos de administração. Em breve, entrarão na política!
- Aschberg, Goldschmidt, Oppenheim Irmãos, Pferdmenges, E. von Schroeder, Stein... etc (33) ou o grupo de banqueiros israelitas que trabalharam com o III Reich. O primeiro operava no Nya Banken de Estocolmo. Participa do financiamento da revolução bolchevique e encontra-se associado ao truste americano A. Harriman para participar do renascimento econômico alemão entre as duas grandes guerras.
Adolf Hitler soube habilmente proteger os israelitas alemães que detinham altas responsabilidades e enormes recursos financeiros. Fez deles 340 "Arianos honorários", entre eles os Oppenheim, associados de Pferdmenges.
"O primogênito dos Oppenheim tinha a assinatura para todos os saques eventuais sobre uma conta misteriosa... Foi nessa conta especial que eram depositados, depois de 1937, o dinheiro e as joias confiscados aos judeus", assinala o Sr. Pierre de Villemarest em "As Fontes financeiras do Nazismo".
Foi o banqueiro Goldschmidt que, em 1923, introduziu o Dr. H.H. Greeley Schacht, amigo de Richard Coudenhove-Kalergi, de Morgan e de Rockefeller, no Reichsbank, do qual tornou-se presidente. Ministro das Finanças, o apoio da alta-finança permite-lhe sair indene do processo de Nuremberg. Tinha ainda serviços a prestar ao Sistema (33)
Os governantes dos Estados Europeus, mais ou menos abertamente discípulos da revolução de 1789 ou simpatizantes da F.M., sempre honraram os dirigentes desses bancos. Colocaram-nos à frente de seus bancos nacionais, condecoraram-nos e até enobreceram-nos... em agradecimento por serviços pessoais, esquecidos dos imensos prejuízos causados a suas nações e a seus povos. Um belo exemplo, ai de nós, é a atitude do governo da França em relação à dinastia dos Rothschild.
Os Homens do "Big Business" (32)
Só se tratará dos magnatas americanos. Se alguns outros existem no mundo, os grandes patrões do Novo Mundo são parte interessada nos organismos aqui estudados, na qualidade de instigadores e primeiros financiadores.
Seu aparecimento remonta à guerra de Secessão (1861-1865). Sob pretexto de impor a abolição da escravidão, os Estados do Norte, adeptos da economia capitalista, comercial e industrial, ocuparam militarmente, depois de três anos de duros combates, os Estados do Sul, defensores da economia agrária e do livre-câmbio.
Antes de ser assassinado, o Pres. Lincoln havia pressentido os resultados do conflito:
"A dominação das potências do dinheiro e a concentração da riqueza num pequeno número de mãos... a pequena manufatura cedendo lugar à usina gigante... a concentração da poupança nas mãos dos banqueiros, o que lhes permite controlar a indústria, a era dos monopólios sucedendo à era do liberalismo econômico."
Os primeiros homens audazes e sem escrúpulos revelaram-se, pois, graças à guerra:
Cornelius Vanderbilt, o mais velho (68 anos em 1862). Recrutado como técnico de navegação pelo Norte, forneceu-lhe, a preço exorbitante, uma frota de navios inutilizáveis!
John Pierpont Morgan, menos de 25 anos em 1861. Vende ao Norte, por sete vezes o preço de compra, vários milhares de velhas carabinas enferrujadas! Tornado rei do aço com a United States Steel Corp., controla a General Electric. Seu banco "mantém" Estradas de Ferro, Serviços públicos (I.T.T.) e o cobre.
Andrew Carnegie é funcionário em Washington, no Ministério da Guerra, serviço de transportes. Bem informado, lança-se na fabricação de trilhos para via férrea... encomenda-os exclusivamente e os compra para si!
John D. Rockefeller. Esse antigo sacristão de uma igreja presbiteriana afirma ter "Deus consigo". Desde o início da guerra, especula com o petróleo, rouba seus sócios... Em 1882, tem o monopólio do petróleo. Dono do Chase Manhattan Bank e da Standard Oil, sempre zombou do Estado e das condenações sofridas. Desde a presidência de Taft, o Governo dos E.U. parece ser o representante e o defensor da Standard... A Guerra do Golfo, a intervenção em Angola (Cabinda) são provas disso.
Outros norte-americanos juntaram-se a essa aristocracia bem especial.
W. Averell Harriman, tornado rei da Ferrovia, com o apoio do banqueiro J. Schiff e a bancarrota provocada de 400 pequenas Companhias.
Ford. A sociedade é fundada em 1903 por Henry. Um dos mais íntegros. Pacifista ferrenho, um tanto utópico. Em conflito com a banca e os Israelitas desde 1920, capitula diante do American Jewish Committee em 1927. Comerciou com os Bolcheviques desde 1922. Soube manter sua independência em relação à General Motors, sua concorrente.
Du Pont de Nemours. Grupo fundado por um antigo membro do Terceiro Estado francês. Domina desde a Iª guerra mundial os produtos químicos (explosivos), a borracha, a produção de armas leves e o automóvel. A sociedade General Motors, criada em 1908, é uma das raras sobreviventes da crise de 1920.
Armand Hammer. Rei do comércio com os Soviéticos, muito próximo de David Rockefeller. Dono da Occidental Petroleum, da OXY. e da Bechtel Cy.
Cyrus S. Eaton. Proprietário de firmas americanas e canadenses.
Cumpre assinalar que os trustes Morgan, Rockefeller e o banco Kuhn, Loeb and Co são os três supergrandes da economia norte-americana: "The Big Three".
Nenhum nome francês é citado.
"Se há, evidentemente, grupos muito importantes, é preciso saber que já em 1965, segundo o Prof. Bertin, a parte dos capitais estrangeiros em certos ramos da indústria francesa atingia proporções consideráveis de 40 a 95 %..." (34)
Desde então a situação agravou-se consideravelmente. O dinheiro nipônico e os petrodólares tomaram participações por vezes totais. A unidade da Europa, teórica desde 1992, não está realizada. As nações latinas e os pobres Estados libertados pela explosão da URSS vão estar, mais ainda, à mercê da Fortuna anônima e cosmopolita.
Com efeito, está na natureza das coisas que os patrões mais ou menos discretos dos Bancos, dos Trustes e Holdings, de vontade de potência bem refletida, se reúnam num mesmo combate para estabelecer definitivamente sua dominação.
Querem obter:
"O temível e exorbitante privilégio de conduzir (a humanidade) a um novo paraíso terrestre, a amanhãs que cantam, a um ponto ômega, a uma fraternidade planetária, a um (socialismo) universal, a uma democracia mundial, a uma fusão ecumênica de todos os teísmos, ateísmos, monoteísmos e politeísmos, enfim à utopia" (35) sem demasiadas brutalidades, por evolução programada dos comportamentos.
Os detentores do dinheiro, quase todos afiliados a uma F.M. ou, no mínimo, simpatizantes, vão criar organismos de formação destinados a fornecer-lhes os "managers", os tecnocratas, aliás diplomados de Grandes Écoles ou de universidades, muitas vezes subordinados ao "Sistema", que destinam a dirigir, a controlar no sentido anglo-saxão do termo, os grupos existentes e invadir assim a totalidade do tecido econômico, político e social das Nações e fazer-se senhores dele!
Mas, no início de sua ofensiva, o dinheiro e, mais precisamente, os magnatas da indústria não tinham boa reputação em seu país. Além disso, deviam, por vezes, prestar contas à administração e, sempre, pagar pesados impostos. John D. Rockefeller ia fornecer-lhes a receita para atrair os favores da opinião, diminuir a conta a pagar e, assim, agir tranquilamente.
J.D. Rockefeller, tornado certamente o homem mais impopular dos E.U., decidido a melhorar sua reputação, evitar a ingerência do governo em seus negócios, funda oficialmente fundações filantrópicas tais como centros de pesquisa, hospitais, museus, colégios, universidades... concede numerosíssimas bolsas de estudo e facilita as férias das crianças e a assistência aos deserdados...!
As fundações (35). O exemplo faz mancha de óleo. Em 1910, contavam-se cerca de vinte fundações. Depois de 1916, como escapavam ao imposto de renda das pessoas físicas e aos direitos de sucessão, seu número se multiplica...
Em 1969, é próximo de 10 000, dos quais somente 7000 faziam declaração fiscal anual, o que não as impedia de serem todas isentas de imposto.
Nessa época, as mais importantes eram constituídas por:
o grupo Carnegie: Carnegie Corporation of N.Y.C., Endowment for International Peace, Foundations for the Advancement of Teaching (a primeira estabelecida em 1905) e o C. Institute of Washington, por um total de cerca de 390 milhões de $.
o grupo Rockefeller: R. Foundation (1906) e R. Brothers Found, por um total de mais de 700 milhões de $.
o grupo Ford: Ford Foundation e Ford for the Republic, com um montante de quase 3 bilhões e meio de $.
Cumpre acrescentar que, em 1969, as 7000 declarações fiscais confessavam um patrimônio global de mais de 18 bilhões de $. Seu poder é enorme. Apoiam, por ocasião das eleições, os candidatos de sua escolha e compram os opositores. Subvencionaram e subvencionam todos os grupos mundialistas, suas conferências, seus simpósios... etc.
C - O ILUMINISMO E A GNOSE
Além disso, esse socialismo vai pervertir-se ainda mais sob a influência de grandes "iniciados". Exportado para a Alemanha, misturar-se-á às religiões nórdicas para produzir o Nacional-Socialismo. As íntimas conexões entre as Seitas e Sociedades anglo-saxônicas, de um lado, e os grupos alemães, de outro, explicam em parte as complacências e as hesitações dos Estados Unidos manifestadas durante a primeira metade do século XX em relação ao Império e depois ao III Reich alemão.
AS SEITAS
- A Sociedade Rosa-Cruz. Por ocasião da morte de Lord Palmerston, G.M. da G.L. da Inglaterra, o mago Westcott cria em Londres essa sociedade... de iniciados.
Um de seus membros particularmente influentes é Lytton Edward George, conde Bulwer Lytton (1803-1873), chefe dos Rosa-Cruzes e 18º grau do Rito Escocês. Este, por sua obra sobre "a raça futura", "o Vril" descrito como "uma força serpentina e o nervo de nossa possível divindade", é considerado o pai "ante litteram" do Nazismo. O conde tinha como símbolo pessoal a cruz de garras (suástica). Entre seus discípulos encontram-se John Ruskin, Rudyard Kipling e Madame Blavatsky. (6)
- A Sociedade de Teosofia. "A fundadora, a Sra. Helena Petrovna Hahn, esposa Blavatsky, fugida para o Egito pouco depois de seu casamento, leva uma vida itinerante. É impossível resumir seu périplo religioso, tanto quanto seu périplo geográfico. Inumeráveis viagens a levaram a Paris, a Londres, aos Estados Unidos, à Índia, a Jerusalém...
Introduz-se em toda espécie de seitas, fazendo-se iniciar em todas as práticas e em todas as doutrinas, do Vodu ao budismo, passando pelo judaísmo, o islã e a franco-maçonaria. Em 1874, encontra na Índia o coronel inglês Olcott e funda, em Adyar, a sociedade de Teosofia. Uma sucursal é aberta nos E.U. no ano seguinte.
Duas de suas numerosas obras merecem atenção: "A doutrina secreta", exposição caótica de tudo o que havia colhido um pouco por toda parte em matéria de ocultismo, de espiritismo, de hinduísmo, de maçonaria, de gnose, de judaísmo... e "Ísis sem véu", que teve repercussão mundial. (36)
Em 1887, a Sra. H.P.B. funda em Londres a revista "Lúcifer", em que afirma:
"Satanás é o Deus, o único Deus de nosso planeta... Não é senão uma só coisa com o Logos..., (por conseguinte) a Igreja, ao amaldiçoar Satanás, amaldiçoa Deus... ou a Sabedoria que se revelou como Luz e Sombra, Bem e Mal na Natureza. Nosso objetivo não é a restauração do Hinduísmo, mas varrer o Cristianismo da face da terra."
Ativo e bom organizador, o coronel Olcott funda no Oriente, na Europa e na América numerosas filiais. Faz reinar nelas as concepções mundialistas humanitárias e feministas tomadas da F.M.
S. Annie Besant torna-se membro da Sociedade em 1889. Entra quase imediatamente no Comitê diretor. Dois anos depois, à morte da fundadora, torna-se a diretora dessa empresa gnóstica. A seção berlinense da Sociedade leva seu secretário Rudolf Steiner a encontrar Annie Besant.
O ensino ministrado por Steiner exprimia-se sob a dupla invocação de Lúcifer e da Gnose... Suas visões filosóficas (tática de subversão da doutrina católica) iam divergir. A ruptura consuma-se em 1913, quando A. Besant apresenta oficialmente o jovem hindu Krishnamurti como o novo Buda.
Steiner torna-se o mestre da Antroposofia. (36)
- A Sociedade Fabiana (37). Sua denominação faz referência à tática prudente, circunspecta e eficaz do ditador romano Fábio Cunctator ou o Contemporizador, diante dos exércitos de Aníbal. Criada na Inglaterra por William Morris, discípulo de J. Ruskin, é um templo do Socialismo.
Entre os membros fundadores destacam-se:
Sydney Webb, partidário de "grandes nações administrativas, governadas por repartições onde a ordem é mantida por gendarmes."
G. Bernard Shaw, redator do Manifesto da Sociedade: "Somos socialistas, o Partido russo é o nosso", afirma ele abertamente.
Annie Besant escreveu, entre outras obras, "O Manual do Livre-Pensador" e ensaios, entre os quais "O Evangelho do Ateísmo" e "Por que sou socialista".
Um recruta célebre do ano de 1903 é H.G. Wells. Torna-se um dirigente ouvido. Autor de "A New World Order", é por isso considerado o inventor dessa expressão, que substitui pouco a pouco o termo "internacionalismo", empregado até então. "Iluminado" ativo, Wells funda em 1916 "The League of Free Nations Association", da qual um membro, G. Murray, tornar-se-á o primeiro presidente da S.D.N.
Miss Jane Addams, já membro do "American Fabian Socialist Movement", é um recruta de valor, pois muito ligada ao coronel E.M. House, homem de confiança dos banqueiros Lazard, Warburg, Rothschild..., "iluminados" notórios. Fundadora da seção americana da Sociedade Fabiana, essa senhorita, socialista, feminista, pacifista e zelosa gnóstica, cria numerosas associações:
- A liga para a limitação dos armamentos
- O Comitê Internacional das Mulheres pela paz permanente e a liberdade (W.I.C.P.P.)
- A American Neutral Conference.
Depois da Grande Guerra, ocupa assento no Comitê diretor da American Civil Liberties Union (A.C.L.U.), uma das mais importantes organizações pacifista-sovietófilas do momento.
Muito naturalmente, essa atividade transbordante é recompensada, em 1931, com o Prêmio Nobel da paz.
- A London School of Economics é aberta pela Sociedade Fabiana, após uma sábia infiltração das Universidades de Oxford e de Cambridge. A escola é destinada a "formar" os jovens diplomados do Ensino superior. O financiador é um israelita, Sir Ernest Cassel, amigo íntimo de Eduardo VII. Sua neta, Edwina, casará com Lord Louis Mountbatten.
Em 1929, um dos dirigentes da escola afirmava: "Nosso objetivo é fazer dessa instituição uma plataforma giratória para treinar e formar os quadros do futuro Estado socialista."
A Escola está atualmente ligada à universidade de Londres. Seu diretor, muito marxizante, é um bilderberger... Grande parte dos quadros dirigentes ingleses passa por ela. Ela é o modelo das Universidades socialistas americanas da Round Table: Harvard, M.I.T., Columbia, J. Hopkins... etc.
Sociedade Teosófica e Sociedade Fabiana continuam ativas. O leitor desejoso de conhecer nomes de aderentes importantes deve reportar-se às obras citadas.
É preciso guardar sempre na memória estas palavras de Annie Besant:
"Se virdes um de nós trabalhar por um movimento particular no mundo, sabereis que é uma parte do plano mundial, e esse grande plano é: um novo céu e uma nova terra construída sobre as ruínas da antiga civilização." (38)
Essa afirmação vale para todos os afiliados dos diversos organismos que são objeto deste estudo, mesmo que apareça entre eles uma rivalidade ou uma oposição, ardil tanto mais eficaz quanto mais marcadas forem.
- The Hermetic Brotherhood of the Golden Dawn in the Outer. (33) Sociedade inglesa cuja denominação pode ser aproximadamente traduzida: A Fraternidade discípula de Hermes Trismegisto para o advento de uma nova idade de ouro.
É uma emanação direta da virulentíssima Sociedade Rosa-Cruz, que criou, com alguns anos de intervalo, dois grupos análogos, na França a Ordem Cabalística da Rosa-Cruz e, na Alemanha, a Ordo Templi Orientis.
Parece que essas três filiais eram reservadas aos dignitários rosa-cruzes de alto escalão. Somente a Golden Dawn e a O.T.O. retêm aqui a atenção, pois estão na base da evolução do socialismo gnóstico para o nacional-socialismo.
A Golden Dawn é também muito próxima da Sociedade de Teosofia e da Sociedade Fabiana.
Seu primeiro presidente, membro fundador, é S.L. Mathers, cunhado de Henri Bergson e futuro afiliado à O.T.O.
O mago satânico Aleister Crowley, membro do Rito ecumênico de Memphis-Misraïm, definindo-se a si mesmo como "a Grande Besta" e assinando "666", número da Besta do Apocalipse, será seu sucessor e o historiador da seita. (6)
Seu lema retomava o de Pantagruel: "Faze o que queres!" "satisfaz todos os teus instintos (5) e anuncia a revolução sexual, a utilização das drogas mais ou menos despenalizada, a desordem e a insegurança."
Alguns afiliados importantes:
Herbert G. Wells, Fabiano, membro da Fundação Rockefeller, amigo e associado de W. Stead no Ministério inglês da Propaganda durante a Iª guerra mundial, agente de ligação com a Alta Finança.
Aldous Huxley, Fabiano e irmão de Julian.
Arthur Machen, escritor que parece estar na origem da escatologia gnóstica que divide a humanidade em duas classes: os iniciados, os Puros (Santos ou feiticeiros) e os "desprezíveis"...
Dois poetas Prêmio Nobel, W.B. Yeats em 1923 e T.S. Eliot em 1948, bem como Bram Stoker, o criador de Drácula.
Karl Haushofer (1869-1945), recruta influente. General de Artilharia, professor de Geopolítica na Universidade de Munique, iniciado sem dúvida no Martinismo, homem de ligação da F.M. mundial, membro da Sociedade do Vril ou "Loja Luminosa" ligada à Sociedade de Teosofia, esteve muito próximo de Rudolf Hess e dos oficiais da Thule Gesellschaft, entre os quais se encontram todos os chefes históricos do Nazismo. É considerado o verdadeiro autor de "Mein Kampf".
Sua esposa judia e seus dois filhos foram feitos "arianos honorários" pelo Führer. (33)
- A Ordo Templi Orientis (33) "O veio mais específico das seitas alemãs desenvolve-se ao longo de todo o Século das Luzes, com a proteção dos Hohenzollern. Entre as mais importantes, cumpre citar a Ordem templária da Estrita Observância, intermediária entre os Rosa-Cruzes e os Iluminados da Baviera, a Ordem Joanita Prussiana e a Sociedade dos Perfectíveis.
"Duas tendências se manifestam até por volta de 1922. De um lado, as lojas humanitárias iluministas e, de outro, as Lojas pangermanistas e racistas (Lojas Velho-Prussianas)".
"A martelagem no "Volk" (Povo) das ideias dessas últimas, durante todo o século XIX, inculca o culto da pureza alquímica da raça e desencadeia o processo de degenerescência moral que levou um povo de antiga civilização à abominação do genocídio científico".
"A ideologia transformou o "Volk Deutsch", pelo "martelo de Thor" das lendas nórdicas, em instrumento para "consagrar os novos céus e as novas terras" aos desígnios da Sinarquia mundialista." (39)
A O.T.O., sociedade análoga à Golden Dawn, representa essa corrente. Entre seus militantes célebres encontram-se:
Theodor Reuss, membro fundador, agente secreto da Reichswehr, F.M. do Rito de Memphis-Misraïm, centro mundial maçônico que trabalha ainda hoje pela unidade doutrinal das diferentes concepções "místicas" das diversas seitas.
Aleister Crowley, o mago da G.D., diretor da OTO a partir de 1921.
Sean MacBride, Round Table e fundador da Anistia Internacional (1961) e, entre outros cargos, membro do Comitê executivo da União Pan-Europeia ao lado de Haushofer.
Trebitsch Lincoln e Rudolf Steiner.
Rudolf Hess (1894-1988), assistente do Gal Haushofer, representante da Thule Gesellschaft.
Sua chegada à Inglaterra (1941) para negociar, com o consentimento de Hitler, as condições de uma paz eventual, marca o fim das reuniões das sociedades secretas alemãs e britânicas criadas por Bulwer Lytton. Foi internado até sua morte, sob controle inglês, em total isolamento para evitar quaisquer revelações intempestivas.
- Germanen Order (33). Criada em Leipzig como sociedade secreta racista, de hereditariedade nórdica, pangermanista e antissemita, em oposição ao desenvolvimento das Lojas B'nai B'rith. Conhece uma rápida expansão, pois, por exemplo, em 1918, somente na Baviera contavam-se 100 lojas com 1000 aderentes.
A concorrência ou a oposição das duas obediências eram fictícias, pois o "Sistema" e os financistas anglo-saxões iam colaborar na edificação do regime e do poder nazista, como o farão para o Bolchevismo.
Durante a Iª guerra mundial, cujo objetivo principal era o desaparecimento do Império católico dos Habsburgos e sua substituição por Estados, na maioria das vezes dominados pela F.M., a ordem não se manifesta.
Em 1917, é recolocada em atividade por um alemão de volta ao país com "muito dinheiro de origem desconhecida". Trata-se do barão Rudolf von Sebottendorf, rosa-cruz, iniciado da F.M. turca, impregnado de islã e astrólogo.
1917 é o ano da rejeição pelo "Sistema" e pela F.M. da proposta de paz de S.S. o papa Bento XV e da dos Habsburgos...
-
Em Paris realiza-se o Congresso das Obediências Maçônicas. O barão von Sebottendorf apresenta ali um documento da Grande Loja mãe de Berlim, fixando um programa com as diretrizes de ação para a criação de um partido "Sozialist-Völkisch" (nacional-socialista)...
-
Thule Gesellschaft (33) A sociedade de Thule é constituída como G.L. da Germanen Order. Liga-se a um ramo dos mais fechados da tradição rosa-cruz, o de Bulwer Lytton. À sua frente R. von Sebottendorf.
No processo de Nuremberg, antes de ser condenado à morte por enforcamento, Alfred Rosenberg reconheceu o papel primordial desempenhado pela T.G. na ascensão dos Nazistas ao poder: "tudo partiu dali!"
Oficialmente, a loja pretende ser o despertar da consciência popular contra os excessos revolucionários dos comunistas. É dividida em Irmãos Visitantes e Membros efetivos. Sua correia de transmissão junto às massas populares é o Deutsche Arbeiter Partei, confiado a Anton Drexler. O D.A.P. torna-se em 1920 o N.S.D.A.P., dirigido por Adolf Hitler desde 29 de julho do ano seguinte.
Em 1924, sob a égide do G.O., aparece um opúsculo desenvolvendo a ideia da constituição de uma "Ordem religiosa e militar racista", reunida em torno de um Guia divinizado sobre o modelo do Velho da Montanha dos Ismaelitas, para dominar, em nome da pureza racial, os inferiores, os não-puros, os sub-homens.
Na lista dos afiliados publicada em 1933 pelo barão von Sebottendorf encontram-se os nomes de todos os chefes históricos do Nazismo:
Rudolf Hess, G.D. e G.O., pôs Hitler em contato com seu mestre da universidade de Munique, Haushofer, teórico do "espaço vital" e membro da T.G.
Timothy Ignatz Trebitsch, vulgo Trebitsch Lincoln, judeu húngaro, aparentado, ao que parece, aos Rothschild de Frankfurt, ex-parlamentar inglês, discípulo do mago Gurdjieff no Tibete, íntimo de Ludendorff, depois eminência parda de Hitler até o putsch de Munique, pois depois desaparece.
Alfred Rosenberg, doutrinário e turiferário da superioridade da raça nórdica.
Dietrich Eckart, G.O., conheceu Rosenberg na casa de Richard Wagner em Bayreuth. Figura de primeiro plano na progressão da ação antissemita do NSDAP, foi também o intermediário de Henry Ford nos financiamentos concedidos ao regime.
Anton Drexler, Irmão Visitante, Hans Frank, futuro governador da Polônia, o ás da aviação Hermann Göring e
Adolf Hitler, Irmão Visitante, cooptado pelo Estado-Maior da Reichswehr como agitador anticomunista e provocador por conta das Altas Lojas. Deve sua formação doutrinal a Eckart e Haushofer.
O Nazismo
É possível, graças aos trabalhos dos Srs. Paolo Taufer e Carlo Alberto Agnoli, precisar, na ótica deste estudo, a grande linha de sua origem e do papel que lhe foi atribuído.
"Sociedade secreta forjada pela Alta Maçonaria graças à reorganização das 433 Lojas alemãs com vistas à futura ordem europeia, emergindo sobre suas concorrentes, possuindo uma gnose racista própria, carregando-se esotericamente de conteúdos antissemitas, ocultistas, de vontade de potência desembocando todos no culto gnóstico da morte, das diferentes "Orden" e "Bunde" e, em seguida, das S.A. de von Salomon e das S.S. da Ordem Negra de Himmler..."
"Sociedade secreta expressão de um plano orgânico centrado nos dois polos: a Maçonaria e a Alta Finança, que cumpre a tarefa que lhe foi confiada através das etapas da formação do N.S.D.A.P., do incêndio do Reichstag, da reconstituição do exército, da tomada do poder e da guerra..."
"um momento, uma etapa avançada do projeto rosa-cruz de destino planetário, traçado desde o século XVII por Amos Komensky (Comenius) em seu livro "Lux in tenebris", e precisamente uma fase do "solve" com vistas ao "coagula"..." (33)
A SIMBÓLICA
De Bulwer Lytton a Adolf Hitler, a simbólica das diversas Ordens ou Sociedades marca a continuidade gnóstica e estratégica dos "iniciados" fundadores:
A cruz de garras (Suástica) (33) é o seu elemento primordial como sinal "religioso", isto é, ligando entre si os homens e os diversos grupos.
Símbolo pessoal de um Bulwer Lytton (Soc. Rosa-Cruz), de um Aleister Crowley (Golden Dawn), adotada por Rudyard Kipling, essa antiga figura sânscrita do Hinduísmo e do Budismo vai afirmar-se no centro do "sol radiante" ou invicto, emblema do Nacional-socialismo hitleriano.
A Sociedade de Teosofia utiliza a Suástica, mas num símbolo mais complexo e conforme a suas origens:
"um grande círculo, encimado por uma coroa, constituído pela "serpente que morde a cauda", representação gráfica da doutrina da dupla verdade Deus-Satanás, Bem-Mal, Verdadeiro-Falso...
A serpente é, para a Sra. Blavatsky, "a serpente da Eternidade da Teosofia; esse símbolo de Sabedoria, de imortalidade e de conhecimento secreto é Satanás."
Um historiador da F.M., S. Hutin, membro da AMORC, precisa: "Uma tradição afirma que, quando a cabeça da Serpente se reunir à cauda, isto é, quando os Judeus expulsos da Palestina no tempo da Diáspora se restabelecerem na Palestina, o mundo entrará no último período do ciclo terrestre atual, o que corresponde aos eventos anunciados no Apocalipse de S. João."
Essa tradição ou Cabala tem sua forma definitiva expressa no livro do Zohar:
"A Serpente, inspiradora de toda essa mitologia mentirosa, não se esqueceu de si mesma. Explicou aos Cabalistas que não é de modo algum a inimiga do gênero humano, mas, ao contrário, seu protetor e seu patrono..." (5)
(33) No centro do círculo, a estrela de seis pontas de Davi, talismã de origem cabalística e, segundo a fundadora: (33)
"a copenetração dos dois triângulos significando, um, com a ponta para baixo, a descida do Espírito na matéria, o outro, com a ponta para cima, o renascimento e a subida rumo à deificação do homem segundo a promessa da Serpente do Gênesis."
Acima da ponta superior da estrela, num círculo (sol?), a suástica, na qual o autor de "A Doutrina Secreta" reconhece:
"o martelo de Thor, Deus nórdico do Trovão, instrumento da destruição do velho mundo para suscitar uma ordem nova."
A Suástica (cruz gamada) significa o advento de um período involutivo de morte e de destruição, condição necessária da regeneração, na ótica dos ciclos, para uma nova idade de ouro. Está inscrita no sol radiante. Sobre ela, bem centrada, a espada resplandecente, ponta para baixo, punho e guarda sobre o diâmetro do círculo solar. (33)
Os Nazistas conservaram apenas a Suástica no círculo solar.
A cruz representa, a priori, para esses homens muito impregnados de religiões nórdicas: "As garras de Wotan (Odin), senhor da possessão demoníaca,... deus dos mortos, da feitiçaria e dos sacrifícios humanos." (33)
O círculo solar, sol radiante, inspira-se também da obra de Wagner. É "o anel, o Ring",... o círculo de ouro que estrangula a humanidade: é preciso quebrá-lo..." (5).
(Continua)
L.D.
A segunda parte deste estudo, que sairá no número 27, comportará o conjunto das notas bibliográficas relativas às duas partes.
Gnose e Islã - II
O ISLÃ, VEÍCULO DA GNOSE
Num livro que teve sua hora de celebridade, intitulado "Carlos Magno e Maomé", Henri Pirenne, historiador belga, mostrou que a expansão do Islã em torno da bacia mediterrânea havia provocado, no plano econômico, um corte radical entre o mundo cristão da Europa e o oriente.
Anteriormente, os dois mundos estavam em relações constantes e numerosas, o comércio do Mediterrâneo era florescente, a navegação ali era fácil e sem riscos, pois a frota bizantina assegurava a segurança e a polícia em todo esse Mar interior.
Depois Henri Pirenne desenvolve em sua obra as consequências dessa ruptura no Ocidente: o desaparecimento dos grandes eixos comerciais, o recolhimento das populações em torno dos castelos fortificados, numa estreita autarquia, e a fragmentação da autoridade política, apesar das tentativas de Carlos Magno de restabelecer um grande Império do Ocidente, que se desfará logo depois de sua morte.
Se Henri Pirenne não se tivesse restringido ao plano econômico, em sua pesquisa tão nova e tão sugestiva, teria descoberto outra causa bem mais fundamental nessa ruptura entre o Ocidente cristão e o mundo muçulmano.
Antes do Islã, todos os povos instalados em torno do Mediterrâneo, federados por Roma, participavam de uma mesma civilização greco-latina. Foram todos cristianizados na mesma época e, embora essa civilização romano-cristã pudesse tomar aspectos diversificados segundo os caracteres particulares de populações de raças e origens muito variadas, nem por isso deixava de ser fundamental que o essencial dos costumes e das crenças comuns era um cimento de unidade notável, apesar das disputas teológicas e das querelas de sucessão ao trono imperial.
Ora, com a chegada do Islã, vão produzir-se no Oriente e na África dois fenômenos simultâneos e complementares. Primeiro, uma fragmentação da autoridade política: os chefes árabes muçulmanizados foram incapazes de criar um grande império unificado. Depois de destruir a notável administração romana, constituíram principados feudais, um pouco como no Ocidente, em perpétuas guerras intestinas. Os califas de Damasco, depois de Bagdá, eram bem incapazes de manter um poder político estável; eles mesmos se massacravam ou se envenenavam mutuamente, e a história desses príncipes muçulmanos não é senão uma longa sucessão de horrores.
Em seguida, uma unidade cultural, devida ao fato de que o Islã se espalhou por todo o mundo muçulmano pela língua árabe, imposta por vezes à força, mas muitas vezes aceita com a nova religião. Essa língua árabe substituiu o latim, o grego, o aramaico, o egípcio, os dialetos berberes. Foi o elo necessário entre populações dispersas em torno do Mediterrâneo e separadas pelas dissensões e pelas guerras perpétuas entre os Califas e os senhores árabes constantemente revoltados.
Mas tanto vale uma língua, tanto vale a cultura que ela veicula. Ora, o papel do árabe foi cortar esse mundo muçulmano da cultura greco-latina e cristã. As populações, outrora cristãs, florescentes e felizes, regrediram prodigiosamente para uma pseudocultura árabe, caracterizada pelo analfabetismo, pelo embrutecimento dos espíritos, pelo desprezo por toda atividade intelectual, pela inaptidão congênita ao progresso moral e espiritual. Daí uma civilização esclerosada, congelada na massa das populações convertidas e o recurso constante a escravos cristãos cada vez que um príncipe muçulmano queria desenvolver à sua volta um pouco de luxo e de arte. O Islã desempenhou sem cessar um papel destruidor, é bem sabido.
Mas a consequência fundamental desses dois fenômenos é não somente uma ruptura entre o Ocidente cristão e o mundo muçulmano, mas também a formação de uma barreira intransponível entre os dois mundos. A diferença de língua provocou uma ignorância, depois uma incompreensão, enfim uma hostilidade declarada e definitiva. A guerra religiosa ininterrupta foi sua manifestação mais impressionante. O mundo cristão armou-se contra os Sarracenos, que, por sua vez, massacravam com encarniçamento e crueldade os restos das antigas comunidades cristãs que não haviam podido islamizar. E desde então nunca foi possível preencher o fosso entre esses dois mundos antagônicos.
Na época das cruzadas, os senhores francos constituíram em terra do Islã principados cristãos que puderam sobreviver durante um século num meio hostil. Se puderam instaurar provisoriamente uma espécie de "modus vivendi" com as populações que subjugaram, se puderam proteger as comunidades cristãs ainda não completamente massacradas, como os Armênios, toparam com um obstáculo insuperável, a impossibilidade absoluta de converter um muçulmano ao cristianismo, e é a razão principal pela qual não puderam "resistir" no Oriente e acabaram por ser rejeitados ao mar, "vomitados", por assim dizer, pelo Islã.
Tudo isso para chegar a nosso propósito fundamental. Até a colonização europeia do século XIX, o mundo muçulmano escapou totalmente a uma influência ocidental e cristã. Nunca houve o menor começo de osmose no sentido do Ocidente para o Oriente. Mas curiosamente, e logicamente, veremos, é o Oriente muçulmano que penetrou em nossa Europa cristã. Os contatos retomados durante as cruzadas só provocaram um movimento em sentido contrário no plano da cultura. Os cruzados partiram, ferozmente antimuçulmanos, para combater os Sarracenos. Ao mesmo tempo, toda uma literatura em língua árabe foi traduzida para o latim e difundiu no Ocidente cristão temas literários e religiosos vindos do oriente.
Ora, constatamos que essas traduções continham o essencial da Gnose da Ásia e que penetraram entre nós por duas vias privilegiadas, a Sicília e a Espanha. Muitas vezes essas traduções foram feitas por Judeus, que transpuseram assim as obras dos filósofos e dos poetas persas ou sírios e difundiram seu conteúdo na Europa. É o que vamos mostrar.
A FILOSOFIA
Não há filosofia árabe e, apesar de Henry Corbin, tampouco há filosofia islâmica ou muçulmana. Os escritores árabes que se fizeram comentadores dos filósofos gregos eram ou iranianos, como al-Ghazali, al-Kindi, ou berberes, como Ibn Tufail, Ibn Bajja, ou espanhóis, como Ibn Rushd, a quem os ocidentais chamaram Averróis.
Além disso, não exprimem um pensamento pessoal, elaborado segundo concepções originais. Contentam-se em traduzir e comentar os filósofos anteriores. Ora, vamos ver que são prisioneiros do pensamento neoplatônico e da gnose maniqueia, aquela que já se espalhara através do Budismo.
Os Sabeus haviam estabelecido, do século VIII ao X, uma escola de tradutores em Harã, ao sul de Edessa, na fronteira da Síria e da Mesopotâmia. Pretendiam remontar a Hermes Trismegisto e a Agatodaimon (o bom demônio). Ora, sabemos que nos manuscritos da Ásia Central, Hermes é um avatar de Mani, que de lá passou aos árabes, onde foi identificado a Idris e Henoc.
Seu mais célebre doutor, Thabit ibn Qurra (morto em 901), havia escrito e traduzido para o siríaco, depois para o árabe, um livro das "Instituições de Hermes", paráfrase da revelação de Hermes Trismegisto já bem conhecida; havia também traduzido para o árabe obras de matemática e de astronomia.
Os Sabeus haviam inundado o mundo muçulmano de multidões de obras ditas "pseudepígrafes", Pseudo-Platão, Pseudo-Plutarco, Pseudo-Ptolomeu, Pseudo-Pitágoras, etc., que foram a fonte de uma vasta literatura neoplatônica na Ásia. Deve-se-lhes também o Pseudo-Dionísio, atribuído a São Dionísio, o Areopagita.
Citemos dois pseudepígrafes que tiveram influência considerável no Ocidente e que envenenaram as Universidades cristãs. Uma "Teologia dita de Aristóteles", traduzida para o árabe a partir de uma versão siríaca do século VI. É uma paráfrase das três últimas Enéadas de Plotino, que procura mostrar um acordo entre Aristóteles e Platão e que está na base do neoplatonismo no Islã.
O "Livro sobre o Bem Puro", traduzido para o latim no século XII por Gerardo de Cremona, sob o título "Liber de causis" ou "Liber Aristotelis de expositione bonitatis purae". É, na verdade, um extrato da "Elementatio theologica" do neoplatônico Proclo. Fez crer a toda a Idade Média que Aristóteles era platônico.
Os Sabeus retomaram o método dos gnósticos, que consistia em atribuir textos fictícios a autores antigos e célebres para lhes dar forte publicidade.
Cumpre notar igualmente duas obras herméticas que foram muito lidas em terra do Islã. O "Livro do Segredo da Criação e técnica da Natureza", atribuído pelo autor anônimo a Apolônio de Tiana (Claro! Andamos em círculo e reencontramos os mesmos nomes ao longo de nossas exposições sobre a Gnose!). Contém a célebre "Tábua de Esmeralda" (Tabula smaragdina), e o "Objetivo do Sábio" (Ghâyat al Hakim), que contém informações sobre a liturgia dos Sabeus e todo um ensino sobre o tema da "Natureza Perfeita". A Natureza Perfeita é a entidade espiritual (rûha-nîyar), o Anjo do filósofo. Sohrawardi comenta essa visão de Hermes: é em sua busca que parte o peregrino das epopeias místicas persas de Attar.
Todos esses textos ensinam o panteísmo e a Gnose. Escutemos Abû Yazid Bastâmî:
"Contemplei meu Senhor com o olho da Certeza depois que ele me desviou de tudo o que é outro que ele e me iluminou da Luz. Fez-me então conhecer as maravilhas de seu segredo, revelando-me sua ipseidade (seu Si). Contemplei meu eu por sua própria ipseidade.
Minha Luz empalideceu sob sua Luz, minha força se esvaiu sob sua Força, meu Poder sob seu Poder. Assim eu via meu eu através de seu Si. A grandeza que eu me atribuía era, na realidade, sua Grandeza, meu progresso era seu progresso... etc."
Poder-se-ia continuar por muito tempo sobre esse tema da identificação com o mundo divino.
* * *
Sohrawardi viveu no século XII. Nasceu em 1155 em Sohraward, cidade do noroeste do Irã, na antiga Média. É discípulo de Hermes, de Platão, de Zoroastro.
"Havia entre os antigos Persas, escreve ele, uma comunidade que era dirigida por Deus. Foi por ele que foram conduzidos eminentes Sábios, totalmente diferentes dos Magusianos! É sua alta doutrina da Luz, doutrina da qual dá testemunho, aliás, a experiência de Platão e de seus predecessores, que ressuscitei em meu livro intitulado "Teosofia oriental" (Hikmat al Ishrâq), e não tive predecessor para um tal projeto."
Foi o "ressuscitador das doutrinas dos Sábios da Pérsia concernentes aos Princípios da Luz e das Trevas". Essa comunidade da Luz, perseguida pelos Magos, adoradores do Fogo, que haviam levantado contra ela o rei sassânida, não é outra senão a Igreja maniqueia.
Sohrawardi havia seguido primeiro a doutrina de Aristóteles, mas teve uma visão de êxtase. Foi, também ele, iluminado. Mostraram-lhe a multidão desses "seres de Luz que contemplaram Hermes e Platão e essas irradiações celestes, fontes da Luz de Glória e da Soberania de Luz de que Zoroastro foi o anunciador..." Retomou a fórmula modificada de Sócrates: "Desperta para ti mesmo!" Ensinava uma iniciação progressiva pelo Conhecimento, uma Iluminação pela qual a alma se conhece a si mesma e conhece todas as coisas por sua luz interior. Tudo isso é perfeitamente gnóstico.
* * *
No século VI, o imperador Justiniano havia fechado as escolas filosóficas de Atenas. O pensamento grego havia emigrado para a Síria, para Edessa. Os filósofos sírios o haviam transmitido aos árabes, que publicaram comentários em Bagdá: Al Farabi no século X, Avicena no século XI, Averróis no século XII em Toledo, na Espanha.
Ora, o pensamento de Aristóteles havia sido transtornado e falseado pela publicação de obras neoplatônicas que lhe atribuíram os Sabeus, de modo que a coesão de seu sistema metafísico estava rompida e que a mistura mal fundida de teses inconciliáveis ia transtornar o ensino das Universidades cristãs.
Em 1085, os cavaleiros cristãos da Espanha, ajudados pelos cruzados francos com vistas à "reconquista", apoderaram-se de Toledo e fizeram dela a capital do reino cristão, de modo que nunca mais os Sarracenos puderam retomá-la.
Foi então que o bispo francês Raimundo de Sauvetat (1126-1151 aproximadamente) estabeleceu em Toledo um colégio de tradutores para difundir nas Universidades do Ocidente o pensamento e a ciência dos árabes. O judeu Ibn Daoud traduzia do árabe para o "romance", a língua espanhola popular, os livros chegados de Bagdá. Ignorava o latim; é Gundissalvi, bom latinista, mas que ignora o árabe, quem assume o revezamento e transcreve o "romance" de Ibn Daoud em latim.
A partir do século XIII, a filosofia de Aristóteles, revista e corrigida pelos árabes, "engolfa-se" nas Universidades. Aristóteles, como diz tão bem o P. Gabriel Théry, chega a nós "não vestido de peplo e de toga, mas coberto de um albornoz e coroado com o fez árabe." Foi uma verdadeira conquista espiritual do Islã, precisa ele.
Foi também uma verdadeira revolução nas Universidades. A Idade Média vivia até então da filosofia de Platão. Esta só vê na natureza sinais cuja significação se encontra no mundo ideal, que seria o único real, o mundo das ideias puras. Conduz, pois, a um simbolismo sistemático e delirante. Tudo é símbolo, nada deste mundo baixo é real. É o "mito da caverna", bem conhecido. Fica-se estupefato diante do sucesso de um pensamento tão absurdo e tão contrário ao bom senso natural.
Mas Aristóteles, ao contrário, naturalista, considera que a natureza é bem real e contém em si sua inteligibilidade. Descobria-se enfim a natureza que o século XII se contentava em interpretar simbolicamente. Aristóteles usava a demonstração, procedimento próprio da razão. A superioridade dessa metafísica racional sobre os mitos platônicos era tão grande que devia necessariamente prevalecer. Aristóteles tornou-se o "Filósofo" por excelência.
Ai de nós! Aristóteles havia sido "revisto e corrigido" por Averróis. Este lhe havia atribuído a ideia de um intelecto agente único para todos os homens:
"Há, escreve Étienne Gilson em sua "Filosofia da Idade Média", um só e único intelecto agente para toda a espécie humana e é por sua ação em nós que pensamos... A imortalidade só pertence a esse intelecto agente comum a toda a espécie humana, isto é, a imortalidade desaparece e o indivíduo enquanto tal se esvai no momento da morte."
Esse intelecto agente único não é outra coisa, em linguagem escolástica, que a alma universal do mundo ensinada por nossos gnósticos. Não penso por mim mesmo, mas por uma alma divina alojada em mim. Minhas ideias não são obra elaborada por minha faculdade intelectual, são recebidas de uma inteligência divina que age em mim. São, portanto, necessariamente verdadeiras. O erro é impossível. Nossa alma é um Espírito Santo. Nosso corpo não é senão uma carapaça de matéria unida temporariamente a uma alma universal. No momento da morte, nossa individualidade desaparece. É o retorno ao nada, o "Nirvana" dos budistas, seguido do mergulho no Grande Todo. Não se pode ser mais gnóstico!
Prossigamos nas consequências: se o homem não pensa por si mesmo, não é senhor de seus atos. É a alma universal ou intelecto agente que é o único responsável. Não há livre-arbítrio (1). Apliquemos isso ao Islã. É Allah que intervém constantemente na vida humana, segundo seu bel-prazer: "Atamos, diz o Profeta, ao pescoço de cada homem sua ave (seu destino)." — "Allah, explica-nos Louis Gardet, é o único ser e o único agente. O criado não poderia ter real valor ontológico. O bem e o mal não existem nas coisas, mas pelo mandamento do Senhor. E Allah guia no bem quem lhe apraz e abandona no mal quem lhe apraz.
Como não há atividade espiritual própria a cada um, é a comunidade, a "umma", que pensa, que recebeu o Livro. Não há tampouco magistério dogmático no Islã, pois todos pensam pelo mesmo texto perpetuamente recitado. Além disso, não há conhecimento "natural" do mundo. Allah não deu aos homens uma natureza inteligível das coisas que cada um deve "decifrar", que deve "ler" nas criaturas (é o sentido da palavra "intellegere"). Não há realidade permanente, coerente e significativa no mundo criado. Só Deus pode ensinar. Toda ciência da natureza se reduz a uma fé e é aceita sem ato de compreensão natural.
* * *
Compreende-se então muito bem que as autoridades eclesiásticas se tenham inquietado com tal invasão, tão contrária às verdades naturais e à fé cristã. Averróis, o panteísta! Averróis, "o Anticristo"! As condenações multiplicaram-se contra a filosofia de Aristóteles. O bispo de Paris publicou sentenças de condenação, mesmo contra São Tomás de Aquino no início de seu ensino.
Será a glória de São Tomás compreender que era preciso primeiro restabelecer o pensamento verdadeiro de Aristóteles e, para isso, reencontrar o texto inicial. Ignorava o grego. Obteve a tradução direta do grego para o latim feita por Guilherme de Moerbeke. Submeteu o texto a uma exegese rigorosa, literal. Que diferença com a de Averróis! Este último apareceu então, não como o comentador eleito de Aristóteles, mas como seu "depravador". Foi preciso um gênio e um santo para "exorcizar", no sentido próprio, Aristóteles e "libertar" o Ocidente dessa invasão gnóstica sob etiqueta muçulmana.
A LITERATURA
Os críticos literários que se debruçaram seriamente sobre o problema das origens da literatura medieval notaram com precisão o aparecimento súbito, no século XII, de uma epopeia cortês e de romances de cavalaria, cuja fonte não puderam encontrar nas canções de gesta e nas epopeias carolíngias do século precedente. Notaram a esse respeito novidades notáveis na escolha dos temas e nos modos de expressão. Assinalaram a oposição fundamental de inspiração entre as epopeias francas e os romances bretões da Távola Redonda.
Louis Clédat, em sua "Epopeia cortês", define assim os dois gêneros:
"A epopeia cortês, ligeira, brilhante, comprazendo-se na pintura das festas de corte, dos torneios, das expedições aventurosas, gostando de multiplicar as surpresas de um maravilhoso conto de fadas, dá ao amor um lugar preponderante: a epopeia nacional, grave, grandiosa, consagrada às lutas nacionais, feudais ou religiosas, toma da religião os recursos de seu maravilhoso austero, profundamente desdenhoso das paixões e das delicadezas do coração."
Notam-se, nesses romances do ciclo bretão, pinturas vivas, bastante livres, situações arriscadas, uma complacência para com o vício. Em Tristão, por exemplo, nenhuma censura a Isolda e a seu cúmplice; ao contrário, ambos são louvados por sua beleza e seu espírito. Somente o rei Marc é ridicularizado. Encontra-se nesses romances uma espécie de naturalismo todo pagão, uma finura e uma polidez refinada no desprezo mais descarado das leis morais e do ensino da Igreja.
Nota-se igualmente que não se encontra nesses romances vestígio do entusiasmo que suscitavam então entre os cavaleiros francos as lutas contra os Sarracenos e que era a alma dos poemas carolíngios, e a coisa deveria fazer "aguçar o ouvido". É na época em que a cavalaria do Ocidente trava os mais enérgicos combates contra os Sarracenos que uma literatura nova se esforça por desviar os espíritos da nobreza franca para a vida refinada e efeminada das cortes de amor. Trata-se, portanto, de uma operação de desarmamento dos espíritos, bem conduzida desde o Oriente muçulmano e que coincidia com a invasão da nova filosofia em nossas Universidades cristãs.
Ora, o estudo minucioso das fontes mostra-nos que essa literatura cortês é toda tirada dos escritores muçulmanos dos séculos X e XI, que penetrou no Ocidente pela Espanha, como a filosofia na mesma época.
Notou-se, por exemplo, que o tipo do cavaleiro errante, endireitador de erros, é tirado do poema de Antar, coletânea de lendas que remontam a Harun al-Rashid, reunidas em forma de romance por Erous Moyyed, médico e poeta, dedicado ao vizir de Zangui em 1145. Antar, montado em seu cavalo Abjer, está sempre pronto a desembainhar sua espada Dhamy exclamando: "Eu sou aquele que ama Abla". Em recompensa por suas proezas, o rei Zoheir dá-lhe o apelido de Aboulfauris, o pai dos cavaleiros. Encontram-se temas corteses no livro dos Reis (Shah-nameh) de Firdusi, publicado em 1010 e, portanto, anterior às primeiras epopeias cavaleirescas.
O amor cortês ou "o Eterno Feminino"
Na história dos Gnósticos, veem-se aparecer desde o começo mulheres deificadas: Simão, o Mago, vivia com a famosa Helena de Tiro, que personificava, dizia ele, a Ennoia, emanação direta de Deus, e a fé em Helena e nele era a primeira condição da salvação. Montano tinha as profetisas Priscila e Maximila, porta-vozes do Espírito Santo. Os cátaros admiravam sua deusa, Esclarmonde de Foix. Petrarca vê aparecer no Templo de Clara, em Avinhão, sua amiga Laura, Boccaccio recebe sua bem-amada Fiammetta (pequena chama) no Templo de Santa Clara em Nápoles, Dante encontra também sua Beatriz num "lugar onde se cantam os louvores da rainha da glória". Essa Beatriz é uma espécie de deusa que o conduz através do mundo da noite e dos eleitos. Uma certa Guilhermina era considerada, na época de Dante, uma encarnação do Espírito Santo. Frei Dolcino juntara a si uma mulher chamada Margarida, que chamava sua irmã espiritual... Poder-se-ia assim prosseguir o culto da mulher divinizada em toda a tradição gnóstica através dos séculos.
Ora, esse mito gnóstico nos voltou através do Islã, sob a forma do amor cortês cantado em língua d'oc pelos trovadores. Procurou-se muito tempo de onde poderia vir esse tema ao mesmo tempo erótico e religioso, desconhecido antes do século XII em nossa literatura feudal. Dois eruditos debruçaram-se sobre o problema, Eugène Aroux, no século passado, e A.R. Nykl, mais recentemente. Ambos reconheceram nessa nova moda literária uma invasão de pensamento muçulmano.
Encontra-se por toda parte entre os poetas sufis uma mistura extraordinária, um amálgama singular entre o amor espiritual e a exaltação erótica. Os anais dessa poesia que invoca sob o nome de uma mulher a própria divindade, da qual essa mulher é o símbolo visível, abrem-se no Ocidente com Platão, que explicou no "Banquete" que o amor físico dos seres criados é o símbolo e o primeiro grau do amor de Deus.
Remonta-se, nessa busca do amor cortês, a Ibn Daoud, que escrevia em Bagdá em 910 um tratado sobre o Amor, o "Kitab-az-Zahra". O amor humano, diz ele, é um mal que é preciso dominar. É uma fatalidade física, uma força natural, inelutável e cega, sem razão e sem finalidade. É possível reduzir-lhe os malefícios. O ato carnal é repreensível, o desejo dominado é obra meritória:
"Mesmo que a castidade dos amantes, seu afastamento da imundície e o cuidado de sua pureza não fossem protegidos pelos preceitos das leis religiosas e pelo preconceito dos costumes, certamente seria ainda o dever de cada um permanecer casto, a fim de eternizar o desejo que o possui com o desejo que inspira".
Relata-se igualmente um diálogo sobre o amor tirado dos "Prados de Ouro" de Mas'udi, escrito no século VIII. O amor emana da beleza divina, do princípio sutil da substância. Aquele que ama é iluminado por uma chama interior, todo o seu ser resplandece, suas qualidades o colocam acima dos outros homens. O amor só é vivificante por sua derrota, só se realiza na morte.
■ ■ ■
A partir do século XI, essa literatura amorosa passa à Espanha. Ibn Hazm (994-1065) publica em Córdoba o "Livro das religiões e das seitas". Em 1022, aos vinte e oito anos, redige o "Colar da Pomba", onde se descobre toda a linguagem dos "Fiéis do Amor" do Languedoc: o mensageiro, a submissão à dama, o "Lauzangier", a fidelidade, a doença e a morte do amante. Essa submissão do amante à sua dama é uma homenagem platônica à Beleza, uma exaltação da dama divinizada. "O amante deve submeter-se aos desejos de sua amada, como o escravo e o doméstico a seu senhor".
Seu contemporâneo Ibn Zaydun compõe unicamente poemas à poetisa Wallada, filha de um califa, que era "a primeira mulher de seu tempo". No século XII, Abu Bakr Mohammed ibn Guzman celebra o amor cortês em língua árabe popular, o "zajal", em que mistura muitas palavras e expressões em língua d'oc, o que supõe um público meio árabe, meio cristão.
Enfim, essa literatura aparece na França, em Poitiers primeiro, trazida pelos cavaleiros do conde Guilherme. Em 1120, ele havia conduzido 600 cavaleiros a Afonso, o Batalhador, que havia percorrido num relâmpago toda a Espanha até Valência e Granada. O conde Guilherme havia desposado uma aragonesa, a viúva de Sancho de Aragão. Na tomada de Barbastro, os autores árabes contam que os senhores francos se haviam conduzido de maneira escandalosa. No curso dessas guerras contínuas, as duas civilizações, a árabe e a cristã, compenetraram-se, sobretudo pelos prisioneiros e transfugas, pelos judeus também.
* * *
Para o platonismo dos sufis, como para os fiéis do amor, produz-se uma verdadeira transmutação do amor humano, que aparece como uma emergência divina.
Escutemos este texto significativo de Ahmed Ghazali (morto em 1126 no Irã):
"Quando o amor existe realmente, o amante torna-se o alimento do Amado: não é o Amado que é o alimento do Amante, pois o Amado não pode ser contido na capacidade do amante... A mariposa que se tornou amante da chama tem por alimento, enquanto ainda está à distância, a luz dessa aurora. É o sinal precursor da iluminação matutina que a chama e a acolhe. Mas ela deve continuar a voar até alcançá-la. Quando chegou, já não cabe a ela progredir rumo à chama, é a chama que progride nela. Não é a chama que lhe é alimento, é ela que é o alimento da chama. E é aí um grande mistério. Um instante fugaz, torna-se seu próprio amado (pois é a chama). E sua perfeição é isso".
Praticar o amor é divinizar-se. Não se trata de um amor puramente espiritual, mas bem carnal. Os textos dos poetas sufis e dos trovadores são formais. As descrições sensuais e eróticas ali abundam. O abraço amoroso provoca em todo o corpo uma exaltação da sensibilidade geral que dá ao amante a impressão de elevar-se acima de sua condição simplesmente humana e de participar de um ato divino. É por isso também que procura encontrar a morte no próprio ato do amor para eternizar essa intuição divinizante.
É fato que, ao contrário do que afirmam os fiéis do amor, a união carnal tem uma finalidade natural, que é a procriação, isto é, uma participação na ação criadora de Deus. Em certo sentido esse ato é divino, em todo caso é sagrado. A Igreja o santificou pelo sacramento do matrimônio, mas ele não diviniza.
Ora, os "Fiéis do Amor", como os poetas sufis, querem retirar do amor sua finalidade. Dizem-no puro e casto, isto é, estéril. Falam de um amor "de longe", diríamos hoje um abraço reservado. Era a forma de contracepção da época. Uni-vos no ato carnal, mas não deis a vida, procurai antes a morte. Além disso, esse amor é sempre adúltero e praticado fora do casamento. É a exata inversão dele. Não se pode opor-se mais eficazmente ao plano do Criador do que recusando transmitir a vida que se recebeu dos pais. Só Lúcifer, "homicida e mentiroso", pode interessar-se por tal arremedo do verdadeiro amor tal como Deus o quis.
A Linguagem das Aves
Em seu desejo de divinizar-se, o homem procura meios de subir ao azul e de confundir-se com a Luz para voltar a seu lugar de origem, o céu, de onde caiu por uma queda catastrófica. Eis um tema gnóstico bem conhecido.
O homem gostaria de ser ave: seu voo no ar parece subtraí-lo ao peso, no azul e sob os fogos do sol aparece nimbado de ouro e de luz. Acaba por confundir-se com o próprio céu. Eis um símbolo da alma, encerrada em sua carapaça corporal, que, "emplumada" à maneira de Ícaro, procura reencontrar o mundo divino de onde foi lançada.
Conhece-se o texto célebre de Chateaubriand, em René:
"Muitas vezes segui com os olhos as aves de passagem que voavam acima de minha cabeça. Imaginava as margens ignoradas, os climas longínquos aonde vão. Teria querido estar em suas asas. Um secreto instinto me atormentava. Sentia que eu mesmo não era senão um viajante, mas uma voz do céu parecia dizer-me: Homem, a estação de tua migração ainda não chegou, espera que o vento da morte se levante, então desdobrarás teu voo rumo a essas regiões desconhecidas que teu coração pede. Levantai-vos depressa, tempestades desejadas, que deveis levar René aos espaços de outra vida."
Esse texto ilustra bem o de al-Ghazali, citado acima, que nos mostra a mariposa que, por seu voo, alcança a luz da manhã para confundir-se com a chama que a acolhe e na qual se perde.
Ora, os poetas muçulmanos jogaram nesse registro com muita virtuosidade. O poeta persa Farid al-Din Attar escreveu um poema intitulado "O Colóquio das Aves" (Mantiq al-Tayr). Sob a condução da poupa, as aves põem-se à procura de Simurgh, que escolheram como Rei. Todas perecem no curso da busca, exceto trinta delas. (Si quer dizer trinta e murgh, em persa, significa aves). Esses sobreviventes acabam por reconhecer a divindade em si mesmos e são absorvidos no Simurgh divino por aniquilamento (fanâ) de sua individualidade material.
Esse poema tem grandes analogias com outra obra persa, "A Rosa de Bakawali". A rosa misteriosa proposta à conquista do homem é o próprio Deus. Encontra-se nela a doutrina dos sufis:
"Deus existia só no começo dos séculos, diz-se ali. Estava concentrado em si mesmo. O sol de sua substância permanecia escondido atrás do véu do mistério. Comprazia-se em seu amor. Mas sentiu o desejo de manifestar-se para fora. Quis mostrar sua beleza, fazer conhecer o vinho de seu amor e pôr em evidência o tesouro sagrado de sua natureza. Para isso criou o universo. Foi assim que a unidade de Deus foi refletir-se no espelho do nada".
O mundo não é senão o espelho de Deus; é puro nada, é Deus refletindo-se sobre si mesmo. Não se pode ser mais panteísta.
Pois bem! essa "Rosa de Bakawali" é a inspiradora do célebre "Romance da Rosa". Essa Rosa divina está posta no centro de um belo jardim que percorre Déduit, que "da terra dos Sarracenos fez ali essas árvores trazer". Precisemos que as aves, cantoras de amor, ali gorjeavam à porfia, procurando superar-se umas às outras: "Cantavam um canto tal como se fossem espirituais". Compreender a linguagem das aves é, portanto, preparar-se para juntar-se ao reino da Luz, o "Wonderland" que Michel Carrouges nos descreveu com tanta precisão minuciosa em sua "Mística do Super-homem".
CONCLUSÃO
A religião muçulmana foi marcada desde seu aparecimento por uma importante série de deficiências fundamentais. Enumeremo-las:
No Islã, não há culto sacrificial, portanto nem sacerdócio, nem sacrifício, nem sacramento, digamos nada de especificamente "sagrado".
No Islã, não há doutrina, portanto nem magistério, portanto nem ensino. A recitação cadenciada e balançada do Corão, os comentários sobre os "hadiths" do Profeta não podem decentemente chamar-se um ensino.
No Islã, não há a distinção fundamental entre o domínio temporal e o domínio espiritual. Um dos dois reduz-se ao outro e constatamos que o espiritual é dominado e esmagado pelo temporal. Em consequência, não existe tampouco no Islã distinção entre o foro externo dos atos humanos e o foro interno das consciências. A moralidade reduz-se à observância das regras jurídicas e, como o livre-arbítrio é negado, o domínio da consciência pessoal é reduzido a nada. Eis um handicap prodigioso para a educação da retidão de intenção na vida moral.
De tal modo que o Islã só pode ser chamado de "religião" num sentido bem restrito e quase usurpado. De fato, "faz as vezes" de religião para milhões de homens há séculos. Compreende-se que, com tal deficiência de quase tudo o que poderia constituir, em sentido próprio, uma "religião", os povos submetidos ao Islã tenham voltado a uma semibarbárie, a um embrutecimento geral dos espíritos e a uma longa esclerose da civilização.
Nessas condições, o Islã não podia espalhar-se pelas cristandades da Europa, que o rejeitavam com horror.
Os escritores muçulmanos tiveram de buscar seu alimento intelectual em outro lugar. Os filósofos foram encontrar no pensamento grego com que nutrir suas meditações. Transmitiram ao Ocidente a filosofia neoplatônica que lhes era dada de pasto pelos Sabeus. Os poetas e os místicos foram encontrar no Budismo com que alimentar seus sonhos. Transmitiram ao Ocidente o panteísmo que lhes insuflaram os sufis.
E desde então o Ocidente cristão absorveu em parte esses dois venenos. A filosofia realista de Aristóteles e de São Tomás não pôde impor-se definitivamente e, desde Descartes, vivemos na mais completa confusão das doutrinas. A literatura permanece ainda hoje envenenada por uma noção do amor tão contrária à ordem natural, como demonstrou Denis de Rougemont em sua notável obra: "O Amor e o Ocidente".
Enfim, quando o Ocidente pôde retomar o domínio político e militar sobre o mundo árabe, o Islã foi capaz de assimilar os progressos técnicos, o poder material, o luxo e o conforto de suas classes dirigentes, mas rejeitou com instinto infalível o cristianismo que lhe era apresentado simultaneamente. A "religião" muçulmana permanecerá sempre o obstáculo mais radical à expansão da fé cristã.
E. C.
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
- Michel d'HERBIGNY: "O Islã nascente. Notas psicológicas" (Orientalia christiana, n.º 51, março-abril de 1929) mostra bem a origem judeu-cristã do Corão.
A obra do P. Gabriel Théry é resumida em:
- Hanna ZACHARIAS: "Eis o verdadeiro Maomé e o falso Corão" (Nouv.Éd.Lat. 1960)
- Joseph BERTUEL: "O Islã, suas verdadeiras origens. Ensaio de análise e de síntese". 3 vol. (Nouv.Éd.Lat. 1981 a 1984)
- Joseph BERTUEL: "O verdadeiro rosto do P. Théry. Sua obra liberta o Islã da impostura árabe" (Itinéraires, maio de 1964)
- Frei Bruno BONNET-EYMARD: "O Corão, tradução e comentário sistemático" 2 vol. (La Contre Réforme Catholique)
Sobre a filosofia no Islã:
- Henry CORBIN: "História da filosofia islâmica" 2 vol. (Gallimard 1964) escrito por um gnóstico.
Sobre o Amor cortês e os trovadores:
A obra de Eugène Aroux é introuvável. Um resumo de seu ensino em:
- Olivier de MONTÉGUT: "O drama albigense. Desfecho trágico da história secreta da Idade Média" (Nouv.Éd.Lat. 1962)
- Denis de ROUGEMONT: "O Amor e o Ocidente" (Plon 1939), especialmente o livro II "as origens religiosas do mito, os místicos árabes".
- Pierre BELPERRON: "A Alegria de Amor. Contribuição ao estudo dos trovadores e do Amor cortês". (Plon 1948)
Para uma visão de conjunto do mundo muçulmano, reler:
- Jérôme e Jean THARAUD: "As mil e uma noites do Islã" 4 vol. (Plon 1935 a 1950). Totalmente notáveis: Os cavaleiros de Allah - Os grãos da Romã - O raio verde - A cadeia de ouro.
Algumas monografias importantes:
- Henri PIRENNE: "Maomé e Carlos Magno" (Presses Univ. de France 1970)
- Ignacio OLAGÜE: "Os árabes nunca invadiram a Espanha" (Flammarion 1969)
- GARCIN DE TASSY: "A poesia filosófica e religiosa entre os Persas" extratos, em separata.
Nota
- É o que havia compreendido muito bem um bravo cavaleiro do tempo de São Luís, em Paris, onde esses problemas eram levantados. A seu confessor, que lhe pedia que expiasse suas faltas, respondeu: "Se a alma do bem-aventurado apóstolo Pedro está salva, eu também o estarei, pois, se não temos senão uma única inteligência para conhecer, nosso fim será o mesmo."
Nota sobre a Cabala
Correm, em nossas famílias tradicionais, ideias bem estranhas sobre a natureza e a origem da Cabala judaica. São a fiel reprodução de afirmações de escritores do século passado copiadas nos livros dos judeus convertidos dessa época, essencialmente o rabino DRACH e os irmãos LEHMANN.
Ora, essas afirmações são totalmente infundadas. Estudos mais aprofundados permitiram formular sobre a Cabala juízos infinitamente mais precisos, que resumimos em nosso estudo sobre a Gnose no Humanismo. É necessário, portanto, voltar ao assunto e anotar as dificuldades que encontramos no curso de nossas pesquisas.
Primeira dificuldade, comum a todos os convertidos.
Um convertido recebeu toda a sua formação moral e intelectual fora da Fé católica. É justamente porque essa formação lhe aparecia como maculada por certo número de deficiências que se aproximou da Igreja. Mas a conversão não produziu imediatamente todos os efeitos que ele podia esperar. A formação primeira, não cristã, deu um feitio definitivo a sua inteligência, que resiste às verdades da Fé recebida. É-lhe preciso, portanto, procurar entre sua cultura primeira e as novidades adquiridas em decorrência de sua conversão pontos de concordância. Operação difícil, sempre incompleta e inacabada. Não se encontra em seu ensino essa bela harmonia inteligente que corre por toda a obra de São Tomás de Aquino.
Os judeus convertidos do século passado não escapam à regra comum. O Rabino DRACH e os padres LEHMANN cometeram certo número de erros sobre a Cabala. Isso não se deve ao fato de serem falsos convertidos, mas ao de que, sendo judeus de nascimento e de formação cultural, conservaram, apesar de sua conversão, ideias falseadas sobre as tradições judaicas, ideias que corriam em seu meio de origem e das quais tiveram dificuldade em se livrar depois da conversão. Basta ler suas obras com um pouco de discernimento para fazer a triagem entre o que adquiriram de verdades por sua conversão e o que essa conversão ainda não pôde modificar em seu espírito.
Vejamos o caso da Cabala. Não nos enganamos quanto à palavra: trata-se da Cabala gnóstica e panteísta, essa pretensa "tradição oral" que remontaria ao cativeiro da Babilônia.
A palavra mesma aparece somente no século XII de nossa era no vocabulário judaico. Seu ensino aparece pela primeira vez de maneira bem clara no Livro do Zohar, isto é, do Esplendor, redigido por um escritor espanhol do século XIII.
O autor do Zohar esforça-se por levar os rabinos de seu tempo à Gnose panteísta. Para isso, traduziu do Grego para a língua hebraica os ensinamentos tomados dos Grandes Gnósticos dos primeiros séculos cristãos. O En Sof é a transcrição do Pleroma dos Gregos, as sefirot, dos Éons e dos Arcontes, etc... etc... Tudo isso envolvido numa mitologia extravagante que tinha por fim desencaminhar os espíritos em meandros complicados dos quais não podiam extrair a substância, sem se revoltar com essa inversão radical da fé judaica segundo o Antigo Testamento.
Evidentemente o autor do Livro não podia explicar a seus correligionários que queria ensinar-lhes uma nova religião, o que teria tirado toda autoridade a seu trabalho. Afirmou, portanto, que acabava de encontrar um velho manuscrito escrito outrora por um rabi Simeão ben Iochai (que oportuno achado!), que este ali havia consignado o ensino transmitido a ele pelos Sábios de Israel e recebido por Moisés da boca mesma de Javé no Sinai. Ensino permanecido secreto, descoberto recentemente: o verdadeiro Judaísmo, portanto, ao qual todos os rabinos deviam aderir. Pia mentira, mas diremos abominável impostura. O rabino DRACH e os Irmãos LEHMANN, por sua vez, retransmitiram essa lenda e concederam ao Livro do Zohar um respeito e uma autoridade religiosa obtidos por fraude.
Não se pode encontrar nas reprovações que o Cristo e os apóstolos fizeram aos judeus de seu tempo fórmulas que permitissem supor a existência de pensamentos gnósticos ou panteístas. O Cristo lhes reprova essencialmente ratiocinar sobre a Lei de Moisés e impor ritos complicados a seu bel-prazer, com uma aplicação minuciosa à letra da Lei. Isso não é gnóstico. Não lhes reprova erros sobre a natureza metafísica do mundo, sobre a reencarnação ou sobre o Grande Todo Pleroma e outros princípios gnósticos bem conhecidos. No Talmude dessa época, tampouco se encontram tais extravagâncias metafísicas. Os judeus são minuciosos quanto à Lei; os Gnósticos são antinomistas e recusam toda lei. Há aí uma oposição fundamental entre a mentalidade judaica dessa época e o ensino da Gnose. É um ponto que foi bem visto e bem desenvolvido pelo Padre Bonsirven em seu livro: "Sobre as ruínas do Templo".
Vê-se aparecer uma primeira forma de Gnose somente entre os judeu-cristãos, entre os primeiros convertidos, na esteira do ensino de Fílon de Alexandria. Ora, esses temas gnósticos são retomados da tradição grega de Platão e não da tradição judaica. Lembremos que a lenda de um Platão inspirado por Moisés é uma impostura inventada pelos neoplatônicos, na qual Santo Agostinho acreditou por um momento. Fílon transmitiu aos judeu-cristãos essa ideia de que o Cristo, portanto o Verbo, era um anjo, isto é, um "demiurgo" ao gosto de Platão, um fabricante do Mundo.
Na Epístola aos Hebreus, dirigida pelo Apóstolo aos Ebionitas, reprova-se uma concepção angélica do Verbo e a espera de um duplo Messias. Vê-se mal, também aí, uma penetração importante de Gnose entre os Ebionitas. É a partir de Simão, o Mago, um judeu samaritano convertido, que a Gnose penetra nos meios judeus convertidos ao Cristianismo.
Segunda dificuldade
Os judeus convertidos do século passado ligaram-se a um cristianismo falseado pelo tradicionalismo e pelo fideísmo próprios dessa época. Demonstramos em nosso estudo sobre a Gnose na "Tradição" (entre aspas) que essa forma de Cristianismo estava infectada pelo Platonismo e pelo Iluminismo maçônico triunfante nos meios católicos tradicionais desse tempo.
Ora, sabemos que o rabino DRACH tornou-se discípulo de Lamennais e amigo de Bonnetty, que lhe abria as colunas de sua "Revista de filosofia Cristã". Sabemos que os irmãos LEHMANN foram convertidos por seu professor de Filosofia do Liceu de Lyon, discípulo do padre Noirot, grande platônico, também ele impregnado de Fideísmo. Era a desgraça dos tempos.
Ao ler o Livro do Zohar, julgaram reencontrar nele as fórmulas de um misticismo platônico que impregnava seu espírito. Julgaram que esse livro era muito antigo, como afirmava o autor da Idade Média, e recolocaram a redação na época de Cristo. O cônego LEHMANN Augustin, em seu livro sobre o Messianismo, faz frequentemente referência ao livro do Zohar como a um livro judeu, cheio de verdades cristãs. Havia aí uma interferência lamentável entre um misticismo judaico gnóstico e uma mística platônica de pretensão cristã. Compreende-se bem o erro deles, mas é um erro provocado por um conhecimento incompleto e truncado do verdadeiro cristianismo. Ainda aí, o desprezo pela escolástica e pela obra de São Tomás de Aquino manteve os espíritos religiosos em equívocos muito perigosos.
Compreende-se, aliás, muito bem por que o rabino DRACH publicou seu livro sobre a Cabala dos Hebreus. Adolphe Franck acabava de explicar a seus correligionários o verdadeiro sentido da cabala. Tratava-se bem de convidá-los a entrar na verdadeira Gnose, a não se enganarem sobre o sentido do Zohar, a considerá-lo um verdadeiro manual de Gnose. Demos o resumo dessa apresentação em nosso estudo sobre a Gnose e o Humanismo. É Adolphe Franck quem tem razão, e é o rabino DRACH que não compreendeu e que quer "vingar" o livro do Zohar "da falsa imputação de panteísmo". Ai de nós!
E. C.