# Um muçulmano desconhecido: René Guénon

Há quase 15 anos, os temas do Esoterismo Cristão têm sido evocados em grande número de artigos deste Boletim, de forma direta ou indireta. Eis a lista:

1 – A propósito da Contra-Igreja e das dificuldades colocadas por seu estudo (retomado no N.º 6).
2 – O candente problema da Tradição – (retomado no N.º 18).
3 – A gnose, tumor no seio da Igreja.
5 – A gnose de ontem a hoje.
6 – A gnose hoje.
9 – A gnose tradicionalista do Prof. Borella.
10 – Um muçulmano desconhecido, René Guénon.
10 – O espiritualismo subversivo.
10 – Correspondência com o Prof. Borella.
11 – René Guénon e o Sagrado Coração.
12 – Gnose e gnosticismo na França no século XX.
12 – Uma ressurgência da gnose no século XX: o borellismo.
13 – Itinerários rumo a um esoterismo cristão.
13 – A subversão da noção de criação na gnose borelliana.
14 – Um "Itinerário" borelliano?
15 – As armadilhas do simbolismo: o caso de Jean Hani.
16 – Desenvolvimentos atuais da gnose.
17 – A Herança de Dom Lefebvre.
17 – Um sacerdote fala.
18/19 – Gnose e Humanismo.
20/21 – Gnose e Romantismo
24 – Gnose e classicismo

Os estudos redigidos pelo Sr. Etienne Couvert foram reunidos em duas obras publicadas pelas Éditions de Chiré: "Da Gnose ao Ecumenismo" – "A Gnose contra a Fé", que podem ser encomendadas a: Diffusion de la Pensée Française – Chiré en Montreuil – 86190 Vouillé.

Depois do Número Especial sobre a Escola Moderna do Esoterismo Cristão (N.º 22/23, ainda disponível ao preço de 100 francos), pareceu-nos oportuno reproduzir abaixo o artigo dedicado a René Guénon e a seu percurso doutrinal, verdadeiro modelo do gênero. Este estudo, publicado há onze anos no boletim N.º 10, escapou sem dúvida a grande número de nossos atuais assinantes, que poderão assim tomar conhecimento dele com grande proveito e dele extrair um esclarecimento indispensável sobre os desenvolvimentos da penetração gnóstica contemporânea.

AS ETAPAS DE SUA VIDA

René Guénon, nascido em Blois em 15 de novembro de 1886, foi batizado com os nomes de René, Jean, Marie, Joseph. Seus pais eram originários de Blois, onde o pai era arquiteto. De saúde delicada, René teve uma frequência escolar intermitente: foi, contudo, um aluno brilhante, tendo obtido uma menção honrosa em física no Concurso Geral, bem como um prêmio de uma sociedade científica de Blois; cursou em seguida a classe de Matemática em Blois e, em 1904, foi para Paris preparar uma licenciatura em Matemática no "Collège Rollin".

E eis que, dois anos depois, isto é, em 1906, ele renuncia a prosseguir os estudos universitários; a partir de então orientar-se-á para o ensino particular e se tornará professor de escola livre. Por que essa virada: razões de saúde, ou atração por estudos extrauniversitários?

É provavelmente esta segunda explicação a correta, pois é a partir dessa época que Guénon passa a frequentar os meios intelectuais apaixonados pelo que se chama "o conhecimento", isto é, os neoespiritualistas, os teósofos, os ocultistas, os espíritas, os orientalistas etc.

Até sua partida de Blois, René Guénon havia evoluído sobretudo num meio "católico". Suas biografias não relatam nenhuma hostilidade manifesta do jovem a esse meio e a essa influência "bem-pensante". Registram, contudo, por volta dos 14-15 anos, uma altercação com um de seus professores: após uma longa discussão de várias horas, o jovem René acamou com forte febre, e o pai teve de mudá-lo de escola. Mas, no conjunto, não se encontra revolta contra sua religião materna até a chegada a Paris.

Essa ausência de hostilidade, essa ausência de combatividade, ele a conservará sempre, e ela constituirá mesmo um dos pontos essenciais de sua doutrina. Não atacará o catolicismo violentamente; conservá-lo-á em bloco, mediante reservas e adaptações: contentar-se-á em engoli-lo num sistema mais vasto, do qual o catolicismo será apenas um caso particular. Sua grande fórmula tática: sobrepor-se sem opor-se.

Em Paris, René Guénon morava num apartamento situado no n.º 51 da rue Saint-Louis-en-l'Île, num belo edifício Luís XV de passado histórico, que havia sido ocupado pelo arcebispado de Paris por volta de 1840 e para onde foi levado Mons. Affre, morto nas barricadas em 1848. Guénon conservaria esse domicílio por bastante tempo, mesmo depois de sua partida da França.

Tendo abandonado os estudos universitários, nos quais aliás não parece ter-se saído muito bem, assumira cargos de professor em diversas instituições livres, lecionando ora matemática e física, ora filosofia. Sem nunca ter sido realmente pobre, tampouco levou "vida de luxo"; era de temperamento estudioso e solitário, e essa vida modesta lhe convinha bem.

Essa vida solitária não era, porém, isenta de iniciativas e contatos pessoais. Mas, sobretudo, enquanto se beneficiava de seus primeiros contatos pessoais com os mestres contemporâneos da ciência esotérica, alimentava-se de livros.

Em 1912, Guénon casa-se com uma moça de Blois, Berthe Loury, originária de Chinon; o casamento realizou-se perto de Chinon, na propriedade da nova esposa, com dispensa dos proclamas concedida pelo arcebispo de Tours em 11 de julho de 1912. Cabe perguntar se o noivo ainda era católico naquele momento, pois esse ano de 1912 é também o de sua iniciação sufi (esoterismo muçulmano); o que parece certo é que jamais revelou à esposa sua pertença ao Islã.

O jovem casal foi morar em Paris, na Île Saint-Louis, enquanto Guénon continuava no magistério. Quando sobreveio a guerra de 1914, ele, que fora dispensado na junta de revisão de 1906, foi mantido nessa situação e não foi mobilizado; permaneceu, portanto, no ensino livre, onde ocupou sucessivamente diversos postos.

Em 1915-1916, é suplente no Collège de Saint-Germain-en-Laye; no ano seguinte, 1917, está em Blois como professor de Filosofia; depois, em 1918, é enviado a Sétif, na Argélia, e, no fim da guerra, volta a Blois. E por fim a Paris, onde reencontra a Île Saint-Louis: é lá que começará a redigir seus primeiros livros, pois até então só havia escrito artigos.

Estamos em 1921. No plano mundial, na Rússia, é a NEP (nova política econômica), que impedirá a debacle dos comunistas e atrairá capitais americanos. Na China, é o momento dos primeiros tumultos comunistas em Cantão, e, aliás, a China está em pleno Kuomintang, portanto em pleno modernismo. O congresso comunista de Baku acaba de decidir a extensão da Revolução proletária aos Impérios coloniais.

E em Paris, René Guénon, "muçulmano desconhecido", lança tranquilamente seu primeiro livro, intitulado "Introdução geral ao estudo das doutrinas hindus", enquanto todo um público, composto em parte de ocultistas e em parte de tradicionalistas, reacionários, antimodernistas, contemplativos, começa a ser seduzido por sua atitude, seu balanço e sua vertigem. Entre 1921, 1922 e 1923, Guénon publica as três obras que constituem a fase preliminar, preparatória, de sua manobra doutrinal.

Pode-se notar que 1921 é o auge da Sociedade das Nações em Genebra, é a época em que a Alemanha emprega sua diplomacia para adiar o pagamento das reparações de guerra. 1922 é o ano do primeiro tratado germano-soviético de Rapallo, é também o ano do assassinato do ministro alemão Walter Rathenau por nacionalistas alemães. E 1923 foi o ano da ocupação do Ruhr pelas tropas francesas.

De 1924 a 1929, Guénon foi professor de Filosofia no "Cours Saint-Louis", onde também dava aulas particulares de outras matérias. Era a instituição em que sua sobrinha estudava.

Em 1928, perdeu a esposa, Berthe Loury, e, poucos meses depois, a tia, a Sra. Duru, que havia partilhado por muito tempo a vida do casal; a sobrinha, de quem já não podia ocupar-se, foi confiada a outras pessoas. Por fim, no ano seguinte, deixou de lecionar e voltou-se para outro meio de subsistência.

Pois nessa época, em meados de 1929, René Guénon fez um encontro importante para seu futuro: no escritório da Librairie Chacornac, no quai Saint-Michel, em Paris, conheceu uma certa Sra. DINA, americana e viúva de um engenheiro egípcio. A Sra. DINA morava em Bar-sur-Aube no inverno e em Cruseilles, na Alta Saboia, durante o verão.

Em setembro de 1929, Guénon e a Sra. DINA partiram para visitar a Alsácia durante dois meses; depois foram repousar em Cruseilles. Foi durante essa viagem que se decidiu o seguinte arranjo: a Sra. DINA compraria dos editores parisienses os diversos livros de Guénon para reeditá-los em seguida numa nova casa, que editaria também os livros posteriores que Guénon pretendia escrever.

Procuraram primeiro, em Grenoble, uma casa editora apta a realizar esse entendimento. Por fim, a Sra. DINA cogitou criar uma livraria e uma coleção de tendência "tradicionalista". Em seguida, ambos embarcaram para o Egito a fim de copiar textos do esoterismo sufi destinados a essa livraria e a essa coleção.

Guénon dizia a seus amigos de Paris que partia por cerca de três meses, mas, transcorridos esses três meses, a Sra. DINA voltou sozinha a Paris, enquanto Guénon continuava a trabalhar no Egito. Essa separação pôs fim ao projeto de livraria e de editora. Por fim, depois de adiar de mês em mês a viagem de volta à França, renunciou a ela de todo: nunca mais voltaria. Instalou-se no Cairo sob o nome de SHEIK ABDEL WAHED YAHIA. Islamizou-se completamente e acabou por falar árabe sem sotaque. Obteria a nacionalidade egípcia em 1947.

Continuou, todavia, a escrever em francês para editores parisienses e a enviar artigos à revista "Le Voile d'Isis", que passou a chamar-se, a partir de 1933, "Les Études Traditionnelles".

Guénon conservou seu apartamento da Île Saint-Louis até 1935, e amigos lhe remetiam então seus livros em caixotes para o Cairo. No Egito, hospedou-se primeiro num hotel; depois alugou um apartamento na casa de um confeiteiro, situada perto da Universidade islâmica de Al-Azhar. Em julho de 1934, casou-se com uma jovem muçulmana egípcia e foi morar na casa do sogro; mas a chegada de seus caixotes de livros vindos de Paris o obrigou a mudar-se e a instalar-se em outra casa, na companhia da esposa, do sogro e da cunhada, onde ficou até 1937, ano em que o sogro morreu. Foi a ocasião de um novo começo e de uma instalação definitiva fora do Cairo, num subúrbio tranquilo a oeste da cidade.

Foi nessa casa dos arredores do Cairo que Guénon morreu, por sua vez, em 7 de janeiro de 1951, aos sessenta e cinco anos.

A FORMAÇÃO LIVRESCA

Nomearemos apenas seus quatro principais inspiradores: Mestre ECKHART (Idade Média), Saint-Yves d'ALVEYDRE (Restauração), Fabre d'OLIVET (Restauração), Eliphas Lévi (Segundo Império).

– MESTRE ECKHART – Teólogo e filósofo alemão da segunda metade do século XIII. Alma fervorosa e exaltada, erigiu suas ideias num verdadeiro sistema místico. Um capítulo geral dos dominicanos suspendeu-o das funções de prior da província da Alemanha. Seu sistema é um PANTEÍSMO MÍSTICO repleto de intensa religiosidade natural.

Há um único SER, que é DEUS. As demais criaturas não são verdadeiramente "seres"; são apenas vãs sombras.

Para existirem de verdade, é preciso que as criaturas finitas se despojem de suas formas contingentes e "entrem" em Deus, tornando-se Deus.

Até aqui, tudo vai mais ou menos bem, salvo um inegável exagero quanto à vaidade da existência dos seres criados; pois, afinal, se sua existência é precária e transitória e se pede para ser confirmada ao término de uma prova, a existência dessas criaturas tem, ainda assim, um primeiro grau de realidade: foram tiradas do nada, portanto já não são do nada, já não são "vãs sombras".

O que vai comprometer tudo definitivamente é que o sistema de Mestre ECKHART é, ao mesmo tempo, panteísta. É preciso então que essas vãs sombras que são as criaturas finitas, para se divinizarem, se percam no GRANDE TODO que é Deus. Vê-se logo o parentesco desse sistema com a metafísica das religiões da Índia.

René Guénon ficou extremamente impressionado com o sistema de Mestre ECKHART porque era expresso com o auxílio de uma terminologia plenamente cristã. Ora, sua formação familiar fora cristã. Continuava a frequentar alguns eclesiásticos. Em nenhum momento de sua carreira (e muito menos em seu início) manifestou a ideia de romper com a religião materna.

Simplesmente procurará englobá-la numa síntese mais vasta, no seio da qual ela poderia conservar sua homogeneidade.

– O orientalista cujos livros exerceram influência sobre René Guénon é FABRE D'OLIVET (1767–1825). Trata-se de um autor dramático, um romancista e, sobretudo, um linguista. O dicionário biográfico observa que Fabre d'OLIVET mistura certa extravagância mística a seus desenvolvimentos sobre os hieróglifos, as línguas orientais e as alegorias bíblicas.

Uma de suas principais obras intitula-se "Do Estado Social do Homem", e nela fala em submeter a sociedade humana a uma soberania teocrática. É precisamente uma das ideias que veremos reaparecer em René Guénon. Notaremos, com efeito, uma tendência guenoniana à HEGEMONIA SACERDOTAL; Guénon sempre dará a supremacia à AUTORIDADE ESPIRITUAL sobre o poder temporal. Essa noção, de que teve a primeira ideia em Fabre d'OLIVET, ele a reencontrará no bramanismo.

– SAINT-YVES D'ALVEYDRE – é o terceiro inspirador. Suas obras eram muito lidas no tempo da juventude de R. Guénon, que se impregnou da substância contida em: "A Missão da Índia", "O Arqueômetro", "A Missão dos JUDEUS", "A Missão dos Operários", "A Missão dos Reis", "A Missão dos Franceses", nas quais, com extraordinária riqueza e flexibilidade de expressão, Saint-Yves d'Alveydre propõe e até projeta uma remodelação geral das religiões na superfície da Terra.

Retoma a ideia antiquíssima, e muito maçônica, de uma superreligião esotérica (isto é, reservada a uma elite) e completada, para a massa do povo, por um sincretismo mais ou menos uniformizado segundo as possibilidades locais.

Essa superreligião seria naturalmente a continuação da vasta e imemorial Tradição Universal, que se transmite de era em era de maneira esotérica, como o micélio de um cogumelo. Temos aí os principais elementos do que viria a ser a doutrina guenoniana e, sobretudo, sua distinção entre Esoterismo e Exoterismo. Só que Saint-Yves os expõe com o aparato arqueológico de seu tempo e após contatos com o Oriente que foram sobretudo livrescos.

– O quarto inspirador livresco de Guénon foi ELIPHAS LÉVI, cujo verdadeiro nome era Alphonse Louis CONSTANT, conhecido como abade CONSTANT embora não tenha recebido o sacerdócio. Eliphas LÉVI influenciou R. Guénon por duas de suas obras: "A Chave dos Grandes Mistérios" e "Dogma e Ritual da Alta Magia", publicada em 1861; essas obras ainda estavam em voga em 1906, quando Guénon reunia seus materiais.

Suas obras desenvolvem também, sob o nome de FILOSOFIA OCULTA, a noção da "UNIDADE ESSENCIAL DE TODAS AS RELIGIÕES". Essa ideia não era nova, mas, havia algumas dezenas de anos, cedera lugar, nos círculos intelectuais que gravitam em torno da Franco-Maçonaria, às NOÇÕES RACIONALISTAS, que excluem toda ideia de Religião. Já não se falava tanto da UNIDADE DAS RELIGIÕES porque já não se tinha necessidade de religião.

ELIPHAS LÉVI é um dos que inverteram a maré e voltaram a pôr a ênfase no espiritualismo. Eis um texto extraído de "Dogma e Ritual da Alta Magia":

"Através do véu de todas as alegorias hierárquicas e misteriosas espalhadas nos antigos dogmas, através das trevas e das provas bizarras de todas as antigas instituições, sob o selo de todas as escrituras, nas ruínas de Nínive e de Tebas, sob as pedras corroídas dos antigos templos, e sobre a face enegrecida das esfinges da Assíria ou do Egito, nas pinturas monstruosas ou maravilhosas que traduzem as crenças da Índia e as páginas sagradas dos Vedas, nos emblemas estranhos de nossos velhos livros de alquimia, nas cerimônias de recepção praticadas por todas as sociedades misteriosas... encontram-se os vestígios de uma doutrina em toda parte a mesma e em toda parte cuidadosamente oculta. A FILOSOFIA OCULTA parece ter sido a ama de leite ou a madrinha de todas as religiões, a alavanca secreta de todas as forças intelectuais, a chave de todas as obscuridades divinas e a rainha absoluta de todas as eras em que era exclusivamente reservada à educação dos sacerdotes e dos reis."

Resumamos os pensadores que forneceram a René Guénon seus primeiros materiais:

– MESTRE ECKHART, que o influencia por seu panteísmo místico e por seu método de meditação para atingir o Deus Imanente.

– SAINT-YVES D'ALVEYDRE, que lhe traz sua ideia de superreligião esotérica e de vinculação ao Oriente.

– FABRE D'OLIVET, com sua ideia de Soberania teocrática e de Supremacia sacerdotal.

– ELIPHAS LÉVI, sua ideia de Filosofia oculta e de UNIDADE essencial das religiões.

Um dos biógrafos de Guénon, Jean Robin, numa obra que figura entre nossas fontes, "René Guénon, Testemunha da Tradição", põe contudo em dúvida a influência que tais leituras possam ter tido sobre a formação de Guénon. Sustenta, ao longo de todo o seu livro, a ideia da Missão Providencial, missão não humana, de Guénon. Em tal hipótese, as leituras feitas por Guénon só teriam tido por efeito mantê-lo a par do estado atual da questão, mas não lhe terem ensinado, positivamente, o que quer que fosse.

O PERCURSO PELAS SEITAS EUROPEIAS

Embora muito inclinado ao trabalho solitário, e vimos quais eram suas quatro principais fontes de inspiração livresca, René Guénon não desdenhava os contatos pessoais. E a partir de 1907 estabeleceu numerosos contatos com organizações que o farão percorrer um périplo muito instrutivo.

Um dia recebeu em seu apartamento parisiense da Île Saint-Louis a visita de dois senhores enviados por "um grupo" bastante restrito chamado: A ESCOLA HERMÉTICA. Trata-se de um grupo dirigido pelo Doutor Philippe Encausse, dito Papus, que o fundara em 1888. Em 1907, o Movimento já funcionava, portanto, havia cerca de vinte anos. Os dois senhores são os Srs. PHANEG e BARLET, sendo o principal PHANEG, com o qual Guénon permanecerá ligado por longo período.

Essa Escola Hermética é um grupo de estudos esotéricos que assumiu a forma de uma Pequena Universidade Livre, cuja sede ficava no n.º 13 da rue Ségur, em Paris, e onde davam cursos Papus, Barlet, Phaneg e Yvon Leloup (dito Sédir), que se ocupa sobretudo do sentido oculto das Escrituras.

Mas, sobretudo, essa Escola Hermética é a "antecâmara" de uma ordem mais discreta que se dá o nome de "ORDEM MARTINISTA" e que se diz sucessora regular da ORDEM DOS ELEITOS COENS, fundada no século XVII por Martinez de Pasqually. René Guénon não tardou a entrar nessa Ordem Martinista, na qual recebeu o primeiro, depois o segundo e o terceiro graus, tornando-se assim "SUPERIOR DESCONHECIDO".

Nesse embalo, Guénon, tão ávido de conhecer quanto apto a assimilar, faz-se receber ainda em duas lojas maçônicas que sabe estarem em relação de amizade com a Ordem Martinista de Papus. Essas duas lojas são: 1) a "Loja Simbólica" "Humanidad", do "Rito Nacional Espanhol"; 2) o "Capítulo e Templo INRI", do rito original swedenborguiano. Foi nesse capítulo swedenborguiano que recebeu o Cordão Negro de "Cavaleiro Kadosch" (a palavra Kadosch significa Santo).

Na mesma época começou a colaborar com a revista "Le Voile d'Isis". Foi ganhando aos poucos cada vez mais importância na redação e permaneceu-lhe extremamente fiel: pode-se mesmo dizer que foi ele quem lhe fixou a linha doutrinal, e continuou a enviar-lhe artigos quando residia no Egito. Foi essa revista que mudou de nome em 1933 para tornar-se "Les Études Traditionnelles".

Ora, foi precisamente essa revista "Le Voile d'Isis" que ficou encarregada, em 1908, da parte administrativa do "Congresso Maçônico e Espiritualista" organizado em Paris na "Salle des Sociétés Savantes". René Guénon foi naturalmente designado "Secretário do Congresso" e integrou a Mesa. Assim, foi visto no estrado, condecorado com seu Cordão de Seda Negra de Cavaleiro Kadosch.

Mas esse Congresso foi para Guénon a ocasião de uma virada importante, diríamos mesmo determinante, em consequência de um acontecimento imprevisto. Certos conferencistas sustentaram, a respeito da "IDENTIDADE ESPIRITUAL", isto é, sobre um ponto da mística iniciática particularmente delicado e importante, raciocínios que lhe desagradaram muito. Sem que se possa conhecer o detalhe da querela, sabe-se que ele deixou o Congresso muito descontente e que começou a partir de então a manifestar seu desacordo quanto à ORIENTAÇÃO RACIONALISTA DA F.M. ATUAL.

Esse desacordo permaneceu desde então um dos elementos fundamentais da Doutrina e da Estratégia guenonianas. A BIFURCAÇÃO "para-maçônica" de Guénon, que constataremos adiante, data desse dia.

Foi nesse Congresso de 1908 que Guénon encontrou outro personagem importante do mundo esotérico: FABRE DES ESSARTS, que não se deve confundir com Fabre d'Olivet, e que era muito mais conhecido por seu pseudônimo de SYNESIUS. Era patriarca da Igreja Gnóstica.

Guénon pediu, evidentemente, ao Patriarca Synesius para ser admitido nessa Igreja, o que foi feito; tornou-se mesmo, no ano seguinte, em 1909, bispo gnóstico sob o nome de Palingenius (do greco-latim "Palingenius", nascido de novo, ou renascido). É desde então sob esse pseudônimo de Palingenius que escreverá, entre 1909 e 1912, grande número de artigos na revista "La Gnose".

Se resumirmos a situação, constatamos que, entre 1906 e 1909, isto é, entre seus vinte e seus vinte e três anos, Guénon avançou a passos de gigante na carreira maçônica e esotérica: ouvinte da Escola Hermética de Papus, membro da Ordem Martinista com o grau de Superior Desconhecido, filiado à loja Humanidad, membro do Capítulo swedenborguiano INRI com o grau de Cavaleiro KADOSCH, redator da revista "Le Voile d'Isis", bispo gnóstico sob o pseudônimo de Palingenius, redator da revista "La Gnose".

Resta que podemos perguntar-nos se se sentia à vontade nesses diversos agrupamentos, e a resposta seria que estava pela metade satisfeito, pelas seguintes razões. Constata que todas as doutrinas que lhe expõem são tão dessemelhantes que é impossível coordená-las para delas fazer um edifício único e estável, conforme a ambição comum de todos esses meios.

Sua primeira censura é, pois, essa: apresentam-lhe doutrinas espiritualistas dessemelhantes e incapazes de constituir um corpo de doutrina coerente. Mas faz-lhes também uma segunda censura, muito mais grave, mais profunda, e é aí sem dúvida o golpe de gênio que lhe permitiu tornar-se o verdadeiro mestre da subversão espiritualista moderna nesta segunda metade do século XX.

Diz-lhes: "É o espírito científico que vocês aplicam aos fenômenos espirituais. Vocês são Observadores de fenômenos e lhes aplicam o método experimental".

Sem dúvida, constatou em seus amigos da Escola Hermética, da Ordem Martinista etc. a preocupação de devolver "às forças do Espírito" o seu primado, a preocupação de romper com o racionalismo da época anticlerical. Mas constata também que esse espiritualismo ainda é experimental, científico, empírico, "fenomênico": esses senhores buscam "poderes". Ora, ele tem a intuição de que essa ciência das "forças espirituais", que é de ordem religiosa, não deve partir de baixo para elevar-se depois, por indução, até leis.

Tem a intuição de que existe uma antiquíssima ciência espiritual, rica em postulados a priori, uma Tradição arcaica, imutável, infalível, que foi esquecida e que é preciso restaurar.

Pode-se dizer que a reação de Guénon diante do espiritualismo em uso naquele momento na França marca a entrada em cena de uma mentalidade e de hábitos de espírito novos e autenticamente originais.

Eis, pois, René Guénon em divergência e em discussão com as organizações de que faz parte e, em particular, com o majestoso e pitoresco personagem de Papus. Julgou chegado o momento de reunir em torno de si as individualidades suficientemente livres de espírito para compreender sua nova posição, ao mesmo tempo espiritualista, tradicional, metafísica, contemplativa e intuitiva.

Para fazer essa escolha de individualidades, recorrerá sobretudo ao pessoal da Escola Hermética e da Ordem Martinista. O negócio estava em preparação quando, no início de 1908, vários dos personagens interessantes e já pressentidos se reuniram num quarto de hotel no n.º 17 da rue des Canettes, perto de Saint-Sulpice, para discuti-lo. Ora, estando reunidos e cogitando, receberam certas "Comunicações em Escrita Direta", isto é, um deles pôs-se a escrever em escrita automática sob o impulso de uma "Entidade". E essa Entidade, que assim se manifestava, ordenou aos presentes que fundassem uma nova ordem, a Ordem do Templo, para a qual designava nominalmente René Guénon como chefe e Mestre. Note-se, detalhe importante, que Guénon não assistia a essa reunião.

A reação de Guénon diante dessa proposta, que lhe foi imediatamente relatada, é totalmente característica de seu modo e até de sua doutrina em formação. Acolheu a proposta com dúvida, mas não soube precisar se suspeitava que os presentes tivessem sido vítimas de seu subconsciente e de seu mediunismo, ou se a entidade pertencia ao que mais tarde chamará as "Forças Intermediárias".

O fato é que recusou obedecer à sugestão da Entidade da rue des Canettes e que não quis assumir a chefia dessa Ordem em formação nas condições propostas. De fato, a "Ordem do Templo" teve apenas uma existência efêmera, suficientemente longa, porém, para indispor Guénon com Papus, muito descontente por lhe terem arrebatado seus adeptos; seguiu-se uma verdadeira ruptura entre Guénon e a maioria das organizações que frequentara até então.

Somente a revista "Le Voile d'Isis" constituiu exceção a essa ruptura geral, e foi graças aos artigos que passou a escrever nela regularmente que Guénon aderiu a uma terceira loja, a loja Thébah, que dependia da Grande Loja da França. Sem dúvida precisava dessa nova experiência, não estando ainda definitivamente formada sua opinião sobre a F.M., pois é lá, na loja Thébah, que seu juízo sobre o verdadeiro valor iniciático da F.M. tomará forma definitiva. Foi nessa loja que pronunciou, em 1913, uma conferência sobre o tema "O Ensino iniciático", cuja substância retomará depois em vários números da revista "Le Voile d'Isis".

Durante a guerra de 14-18, a loja Thébah foi posta em sono e, quando, depois da guerra, foi reanimada, Guénon, absorvido pela redação de seus livros, deixou de frequentá-la, conservando nela, contudo, relações pessoais.

A ideia de reunir em torno de si uma equipe de amigos fiéis e de colaboradores o persegue sempre; a tentativa infrutífera da "Ordem do Templo", que seria aliás necessário poder analisar, não o desanimou. E dá um novo passo com a fundação da Revista "La Gnose", órgão oficial da Igreja Gnóstica Universal.

Essa revista apareceu de 1909 a 1912, e René Guénon foi de longe seu principal redator; é aí que porá a ponto, sob a forma de artigos avulsos, alguns dos elementos de sua futura doutrina – pois nessa data ainda não publicou nenhum livro, saindo o primeiro somente em 1921.

Não se pode terminar este panorama das revistas de que então participava Guénon sem falar da mais curiosa delas, a revista "La France anti-maçonnique", dirigida por Clarin de la Rive. Pois é! Guénon-Palingenius, muçulmano, membro de três lojas, bispo da Igreja gnóstica, ex-membro da Escola Hermética, redator de "Le Voile d'Isis", de "La Gnose" e de outras, colaborava com "La France antimaçonnique" e sob um pseudônimo que deveria ter chamado a atenção, pois assinava "O Esfinge"!

De julho de 1913 a julho de 1914, publicou nela uma série de artigos sobre a F.M. em que desenvolvia seus temas familiares.

Quem é, pois, esse Clarin de la Rive? É um dos que levaram Léo Taxil a fazer suas famosas confissões. Ao ver-se a orientação de sua revista, dita antimaçônica, tem-se o direito de perguntar de que madeira se aquecia.

SUA POSIÇÃO QUANTO À F.M.

Essa aventura nos reconduz à nova posição de Guénon a respeito da Franco-Maçonaria, pois, se pôde enganar tanta gente naquela época e depois, é porque seu pensamento era suficientemente original para ser mal compreendido, lendo cada qual, através de seus próprios óculos, o que desejava ler nele, certos antimaçons em primeiro lugar.

Antes de nos voltarmos para as influências orientais que acabaram por impor-se a Guénon, examinaremos, portanto, sua opinião sobre a F.M. tal como a encontramos formulada num artigo de "Les Études Traditionnelles" (novo nome da revista "Voile d'Isis" depois de 1935). Nesse artigo, publicado muito tempo depois da guerra de 14-18, em junho de 1937, Guénon desenvolve as grandes linhas de sua conferência de 1913 na loja Thébah.

Essa opinião pode resumir-se em duas proposições:

1 – Considera que a F.M. transmite uma iniciação autêntica quanto à regularidade da "cadeia" de que detém a sucessão.

2 – Mas considera também que a F.M. foi palco de uma degenerescência na ordem doutrinal; essa degenerescência doutrinal coincidiu com a transformação da Maçonaria OPERATIVA, isto é, aquela que reunia verdadeiros Arquitetos de ofício na Idade Média, em Maçonaria ESPECULATIVA, isto é, aquela que passou a reunir não mais arquitetos, mas Ideólogos.

Ao fim desse período de transformação, que se inicia com o Humanismo e termina em 1717 com as "Constituições de Anderson", a F.M. adotara a FILOSOFIA MODERNA e abandonara, se não a letra, ao menos o espírito da TRADIÇÃO.

Não obstante, René Guénon considera que a incompreensão metafísica dos "Maçons especulativos modernos" não altera o valor próprio dos Ritos de que a F.M. ainda é DEPOSITÁRIA; afirma que a Filiação Iniciática não está interrompida e que, por conseguinte, a INICIAÇÃO MAÇÔNICA continua válida e transmite autenticamente a INFLUÊNCIA ESPIRITUAL desejada.

Acabamos de dizer que a Degenerescência Doutrinal da F.M. se produziu durante o período compreendido entre a Renascença e as Constituições de Anderson. Tal é, ao menos, a primeira opinião de Guénon, a que exprime em sua famosa conferência na Loja Thébah, em 1913, e que publicou em 1937.

Essa opinião revelava já nele uma feição de espírito pré-humanista, antiumanista, para tudo dizer medieval e contemplativa. Ora, essa feição de espírito pré-humanista ele a acentuou ainda muito mais tarde em seu livro "Aperçus sur l'Initiation" ("Considerações sobre a Iniciação"), publicado em 1945, ao declarar que, em sua opinião, a Degenerescência Doutrinal, isto é, a perda do esoterismo tradicional, remontava a uma data mais antiga e que era preciso situá-la no século XIV, à época em que os autênticos Rosa-Cruzes deixaram a Europa, enojados com o racionalismo invasor, para refugiar-se no Oriente.

Essa afirmação de Guénon, que não se apoia em nenhuma prova, é interessante porque denota uma feição de espírito fundamentalmente pré-humanista e mostra que o autor não hesitava em encarar uma reformulação radical do pensamento ocidental e em preconizar o retorno à mentalidade da Idade Média.

O episódio da loja Thébah foi, portanto, uma experiência complementar e decisiva. Rompe com a Mentalidade de PROGRESSO para voltar-se a uma religiosidade de estilo nitidamente retrógrado, de estilo contemplativo.

Naturalmente, ao manifestar suas desilusões e suas críticas ao término de suas "Experiências Maçônicas", Guénon atraiu para si algumas inimizades pessoais. Mas a F.M. nunca lhe manifestou hostilidade sistemática, e essa ausência de hostilidade é compreensível quando se percebe bem que Guénon mantinha, apesar de suas críticas "doutrinais", o essencial, a saber, a regularidade e a autenticidade da transmissão iniciática.

Ao término dessa constatação, podemos perguntar-nos, como faz um de seus biógrafos, Jean Robin, o que Guénon fora fazer nas Lojas: foi lá para instruir-se ou para inspecionar?

Jean Robin, um dos mais entusiastas discípulos de Guénon, faz a pergunta e responde dizendo que Guénon frequentara as Sociedades Iniciáticas Europeias para inspecioná-las e sondar-lhes a regularidade e a autenticidade iniciática. Acrescenta que, agindo assim, Guénon cumpria uma "Função", melhor, uma "Missão", e até uma missão de origem providencial, movido que era pela Divindade...

AS INICIAÇÕES ORIENTAIS

Além dos contatos que estabelecia nos meios ocultistas e maçônicos, René Guénon passara, mas com surpreendente discrição, a informar-se sobre as "Doutrinas Orientais".

Num primeiro momento, contatou ORIENTALISTAS EUROPEUS e, em seguida, ORIENTAIS AUTÊNTICOS.

Entre os ORIENTALISTAS EUROPEUS, os dois principais são: Léon CHAMPRENAUD e Albert de POUVOURVILLE.

– Léon CHAMPRENAUD (1870–1925) – Professor assistente na Escola Hermética de Papus quando Guénon o conheceu, era igualmente redator de uma revista intitulada "L'Initiation" e, por fim, secretário-adjunto da Ordem Martinista. Mas o mais importante é que Champrenaud se afastou progressivamente do ocultismo de Papus, que lhe parecia enveredar por um beco sem saída, e voltou-se para as DOUTRINAS ORIENTAIS.

Champrenaud escreveu então uma obra, "Matgioi e as Sociedades Chinesas", seguida de um resumo sobre a Metafísica Taoísta. Mas foi finalmente para o Islã que se encaminhou, e acabou por entrar nessa religião sob o nome de ABDUL-HAQQ, nome que significa: servo da Verdade.

– Albert de POUVOURVILLE (1862–1939) – Oficial e depois Administrador no Tonquim – De bela presença e comportamento autoritário, deixou o Tonquim para passar à China meridional e começou a frequentar dois iniciados chineses, Tong-Sang N'Guyen e Duc-Luat, personagens importantes do Taoísmo. Tanto fez que recebeu a iniciação taoísta sob o nome de MATGIOI, nome que significa "Olho do Dia". De volta à França, Albert de Pouvourville entrou no movimento ocultista, onde conheceu Champrenaud. Escreveu então, sob o nome de Matgioi, duas obras: "A Via Metafísica" e "A Via Racional", que causaram em René Guénon a mais profunda impressão (daí as reminiscências constantes que se encontram em seus próprios livros).

Durante sua formação, Guénon estava, portanto, em relações permanentes com o muçulmano Abdul-Haqq (Léon Champrenaud) e com o taoísta Matgioi (Albert de Pouvourville).

Mas Champrenaud e Pouvourville eram ainda apenas ORIENTALISTAS EUROPEUS. A curiosidade de Guénon só ficou satisfeita quando ele entrou em contato com verdadeiros ORIENTAIS. Todos os biógrafos são categóricos quanto à realidade desses contatos orientais, mas tornam-se muito misteriosos quando se trata de dar precisões.

O que é certo é que Guénon aprendeu sânscrito e árabe com orientais residentes em Paris, assim como se fez instruir nas Três Religiões — hinduísta, taoísta e islâmica — por "Mestres" dos países correspondentes que praticavam efetivamente essas Religiões, mas moravam em Paris.

Para o Hinduísmo, teve um ou, antes, vários mestres hindus e recebeu deles uma iniciação elevada. Foi mesmo essa iniciação (segundo Paul Chacornac) que deixou nele os traços mais profundos e determinou o PLANO de todo o seu sistema, de toda a sua construção doutrinal.

Para o Taoísmo, já bem instruído por Matgioi (Pouvourville) no plano teórico, Guénon recebeu também o ensino prático de um mestre chinês residente em Paris; houve ali também uma nova iniciação? Seus biógrafos não são muito claros a esse respeito.

Para o Islã, mais exatamente para o Sufismo, que é o esoterismo islâmico, a iniciação de Guénon é mais curiosa, pois foi realizada por um pintor sueco, ele próprio tornado muçulmano ao fim de um périplo pouco comum, que vale a pena relatar.

O pintor John Gustaf AGUELI era filho de um veterinário sueco; terminados os estudos secundários em Estocolmo, pôs-se a pintar paisagens suecas, depois expôs em Paris em 1890 e alcançou certa notoriedade sob o pseudônimo de Ivan Aguéli. Sobretudo, frequenta a "Sociedade de Teosofia", os meios anarquistas e a poetisa socialista Marie Huot; é então preso por ter dado asilo a uma anarquista procurada pela polícia e passa assim alguns meses na prisão; aproveita para trabalhar e, graças a um incrível dom para as línguas, aprende hebraico, árabe e malaio; lê também a Bíblia, Fabre d'Olivet e Swedenborg.

Ao ser libertado, parte para o Egito, onde faz esboços, depois volta a Paris e matricula-se na "Escola de Línguas Orientais" para aperfeiçoar seus conhecimentos. Em 1897 tornou-se muçulmano; foi em Paris ou na Suécia? Não se sabe. Seus biógrafos confessam não poder esclarecer o mistério. Sua nova religião não o impediu de estudar o Budismo e de ir às Índias e ao Ceilão. Ao cabo de alguns meses voltou à França e em Paris conheceu um médico italiano, Enrico Insabato, animado pelo desejo de aproximar o Oriente e o Ocidente; ambos partem para o Egito a fim de trabalhar na realização desse vasto projeto.

Foi durante essa segunda viagem ao Egito que Aguéli encontra e frequenta um alto personagem do Islã, versado tanto na ordem exotérica quanto na ordem esotérica, o Sheikh ELISH. E esse grande personagem iniciou Aguéli, que era muçulmano, no SUFISMO e fez dele até seu representante para a Europa, sob o nome de ABDUL-HÂDI.

É, portanto, na qualidade de muçulmano sufi que Abdul-Hâdi tomou novamente o navio para a França: depois de Marselha e Genebra, chegou a Paris, onde conheceu Guénon e sua revista "La Gnose". Estamos em 1910. Imediatamente começou uma estreita colaboração, e Aguéli escreveu em "La Gnose".

Tal é, portanto, o personagem que dará, em 1912, a iniciação sufi a René Guénon: transmite-lhe a "Baraka" da parte de seu Mestre, o Sheikh Elish, do Egito, e Guénon tornou-se assim o Sheikh ABDEL WAHED YAHIA.

Muito mais que seu iniciador Abdul-Hâdi (Aguéli), Guénon levou a sério seu islamismo e, mesmo vivendo em Paris, fez dele, segundo a expressão de suas biografias, "Sua Via Pessoal": o Islã foi, portanto, a religião exotérica que decidiu praticar de preferência a todas as que conhecera anteriormente, e notadamente ao catolicismo.

Pode-se estranhar essa escolha, sobretudo quando se conhece o prestígio de que o hinduísmo gozava a seus olhos; como explicá-la? Talvez por considerações concretas: com efeito, a prática exterior da observância hinduísta é materialmente complicada e normalmente subordinada à pertença a uma casta, na qual só se pode entrar pelo nascimento, o que não era o caso de Guénon; mas talvez tivesse outras razões, mais profundas, ligadas à natureza particular do esoterismo islâmico...

Em suma, eis Guénon muçulmano em 1912, e é nessa religião que morrerá no Cairo em 1951. Notemos de passagem que esse ano é também o de seu casamento em Blois com Berthe Loury, casamento católico, como vimos. Guénon era muçulmano em 11 de julho de 1912? Nada sabemos, e, aliás, isso pouco importa, pois um mês antes ou depois sua escolha estava feita in pectore. O que é certo é que nunca revelou sua nova religião à esposa, o que é verdadeiramente o cúmulo do esoterismo e atesta um dom muito apurado para o disfarce.

Eis, pois, Guénon casado e de posse de sua bagagem doutrinal. Realizou em pouco tempo, apenas cinco ou seis anos, um vasto périplo através das Sociedades de Pensamento e das Congregações iniciáticas, cuja Regularidade iniciática e Degenerescência doutrinal pôde avaliar.

Foi inicialmente impelido a fazer semelhante inspeção? Sem dúvida não, mas o que parece certo é que, ao fim do périplo, foi recuperado por Hinduístas Orientais "Conscientes e Organizados", e desde então é o hinduísmo que vai dominar em seu espírito, e são todos os hábitos mentais do hinduísmo que ele vai repercutir em seu ensino.

Qual é exatamente o estatuto dessa Simbiose, quais são os termos do contrato entre Guénon, os Hinduístas e o Hinduísmo? É até hoje impossível sabê-lo; mas o mais importante para nós, e isso é certo, é saber que desde esse momento, por volta de 1910, Guénon se quer não apenas agente de uma ligação entre Oriente e Ocidente, mas sobretudo agente de uma verdadeira penetração do Ocidente pelo Oriente: essa certeza salta aos olhos a cada instante e a cada linha de suas diversas obras.

A OBRA ESCRITA DE RENÉ GUÉNON

Essa obra se distribui em vários períodos que marcam uma evolução no pensamento e na produção de Guénon: nós a exporemos aqui em ordem cronológica.

O primeiro período é o dos Artigos publicados em diversas revistas, como "Le Voile d'Isis", tornada "Les Études Traditionnelles", e "La Gnose", e estende-se de 1907 a 1914. Aí se encontra o estoque que será utilizado mais tarde, seja pelo próprio Guénon, seja por suas obras póstumas.

O período parisiense compreende os anos de 1921 a 1929:

1921 "Introdução geral ao estudo das doutrinas hindus", que já citamos várias vezes e que exprimiu a base do sistema.

1922 "O Teosofismo", história de uma falsa religião, sublinha as fraquezas da primeira grande empresa de penetração oriental, nascida em 1875 no meio inglês hinduizante, a "Sociedade Teosófica" da Sra. Blavatsky.

1923 "O Erro Espírita", livro copioso, com muitos documentos; o autor faz nele o processo do Espiritualismo com uma argumentação muito próxima da que um católico poderia ter: os espíritas entram em contato com INFLUÊNCIAS ERRANTES, diríamos nós "os demônios". Não obstante, a diferença das expressões é significativa.

Não se deve esquecer que esses dois livros, "O Teosofismo" e "O Erro Espírita", contribuíram poderosamente para fazer Guénon passar por um homem de ordem, um antissubversivo, um tradicionalista, um nacional: era o começo de um longo erro cuidadosamente mantido por todos os que têm interesse em nos fazer tomar gato por lebre.

1924 "Oriente e Ocidente": Estuda as condições de uma aproximação possível e inelutável entre o Oriente e o Ocidente; para isso, o Ocidente deve abandonar as ideologias do século XVII, das quais vieram todos os males: racionalismo, tecnicidade, Revolução. Mais ainda, deve abandonar o "Preconceito clássico", greco-latino, e essa mentalidade do legionário e do jurista romanos que tudo esclerosou.

E deve, ao contrário, reencontrar as tradições profundas subjacentes ao Cristianismo e incluídas no Hinduísmo; é preciso que o Ocidente reencontre "os princípios de uma metafísica" autêntica ainda conservada no Oriente.

1925 "O homem e seu devir segundo o Vedanta": é o desenvolvimento da "Introdução" e de "Oriente e Ocidente".

1926 "O Esoterismo de Dante" – Guénon não é o único a ter escrito sobre esse assunto, nem mesmo o primeiro, pois já havia existido um "Dante Herético". Guénon não diz que Dante é herético, ao contrário, e para ele é essencial fazer notar que o Esoterismo se sobrepõe à Religião sem opor-se a ela. E felicita também Dante por ser gibelino, isto é, partidário do Imperador contra o Papa. Desenvolverá logo tudo isso em "Autoridade espiritual e Poder Temporal".

1927 "O Rei do Mundo", reeditado em 1950, trata da famosa questão de AGARTHA, "Centro Espiritual" onde residiria o REI DO MUNDO. Guénon não é o primeiro a falar dessas noções, e Saint-Yves d'Alveydre em sua "Missão da Índia", bem como Ossendowski em "Feras, homens e Deuses", já haviam tratado da questão.

Guénon fala dela, por fim, em termos gerais bastante vagos: teoria dos "Centros Espirituais", dos "Centros Maiores", Agartha, Tibete. Parece, contudo, que essa divulgação acarretou um desacordo entre Guénon e seus informantes hindus, e uma interrupção de suas relações.

1927 "A Crise do Mundo Moderno" retoma os temas de "Oriente e Ocidente". Expõe primeiro a Teoria hindu dos "Ciclos Cósmicos" e considera que nossa época pode ser identificada com o "último período do ciclo KALI-YUGA" (Era Sombria); estamos, pois, no fim de um dos grandes ciclos que regem o desenvolvimento da humanidade.

Em seguida analisa as características da Civilização Moderna: prioridade da ação sobre o conhecimento, "erro profano" que laiciza a Ciência e a desvia para a Técnica.

Indica, por fim, o remédio para esse mal: constituir uma ELITE OCIDENTAL que tenha reencontrado o sentido profundo da Tradição; não se trataria de orientalizar o Ocidente, mas de provocar o "Despertar espontâneo de suas possibilidades latentes". Como se vê, os termos escolhidos são suficientemente gerais para serem suscetíveis de várias interpretações e, portanto, enganar os que devem ser enganados.

Pois Guénon acrescenta que a Igreja Católica é uma das Organizações Tradicionais que subsistem no Ocidente e que bastaria devolver à doutrina da Igreja o sentido profundo e oculto que ela contém em si mesma, mas que negligenciou desde o século XVI. Esse trabalho de aprofundamento lhe permitiria, além disso, retomar consciência de sua unidade com "as outras formas tradicionais".

Não é preciso ser grande doutor para ver despontar no horizonte o Ecumenismo, não por sincretismo, mas por pluralidade. Não obstante, este livro "A Crise do Mundo Moderno" acaba de fazer Guénon passar por um dos mestres de pensamento da Reação Nacional: não se ia buscar mais longe que a crítica do mundo moderno, e viram-se Léon Daudet, Jacques Bainville e Gonzague Truc fazer-lhe o elogio nos meios da Action Française.

Dever-se-ia, contudo, ter visto também a armadilha destinada a desviar-nos para a Tradição pagã, sob pretexto de nos fazer reencontrar um pretenso FUNDO da tradição cristã. Os únicos a não se deixarem enganar foram o jornal "Gringoire" e sobretudo a Revue Internationale des Sociétés Secrètes (RISS), com Charles Nicoullaud.

1929 "Autoridade Espiritual e Poder Temporal" – Inspirado pela condenação da Action Française por Roma em 20 de dezembro de 1926, forma um todo com as obras anteriores. A tese da obra é que no Ocidente e na Igreja esses dois poderes estão separados, ao passo que no Oriente a tendência é a sacralização do Temporal.

No início do ano de 1930, René Guénon instalou-se no Cairo para nunca mais voltar à Europa, e sua islamização pôde revelar-se à luz do dia; contudo, a série de livros que então produz não trata do Islã, mas do esoterismo cristão e do hinduísmo.

1931 "O Simbolismo da Cruz", composto no Cairo, mas editado na França, é de fato o desenvolvimento de um artigo publicado em 1911 na revista "La Gnose". A obra é dedicada, em plena primeira página, "à Memória venerada de ES-SEIKH-ABDER-RAHMAN ELISH EL-KEBIR (o servo do Deus Grande), a quem se deve a primeira ideia deste livro. Mísr EL-QAHIRAH 1329–1349 H."

Eis, pois, o "Simbolismo da Cruz" posto sob a égide do Crescente, e o crescente pode interpretar-se como: Sem Cruz. O simbolismo católico da Cruz é em toda parte clássico e claro: o braço vertical significando a paternidade divina de NSJC, de cima para baixo, do céu para a terra, enquanto o braço horizontal representa a fraternidade humana de NSJC, o conjunto, o cruzamento, sendo a união hipostática. Por outro lado, a parte visível da cruz é a Igreja e reproduz a forma do corpo físico de NSJC, é a sombra projetada dele, o Corpo Místico, enquanto a parte oculta, que está na terra, é a Igreja dos não batizados que serão salvos pelo "batismo de desejo".

1932 "Os estados múltiplos do Ser" – Este livro forma um conjunto com duas outras obras publicadas anteriormente: "O Homem e seu destino segundo o Vedanta" e "O Simbolismo da Cruz". Guénon nos explica nele que a Tradição Hindu, à qual se refere sem cessar, e sempre com muita imprecisão, é formulada por quatro coletâneas fundamentais, os Vedas, cuja origem seria supraindividual e não humana.

1945 "O Reino da Quantidade" – É a continuação de "A Crise do Mundo Moderno", caracterizada por uma crítica da civilização tecnicista; essa obra confirmou Guénon em sua posição de doutrinador da Reação.

1945 "Considerações sobre a Iniciação" – em que expõe os meios de passar do conhecimento teórico, livresco, ao que chama de REALIZAÇÃO ESPIRITUAL. Diz que a INICIAÇÃO é a transmissão de uma Influência espiritual. O iniciado se encontra assim num estado edênico; depois pode elevar-se aos estados superiores do Ser e chegar a um estado chamado indiferentemente Libertação ou Identidade Suprema. Renova sua afirmação segundo a qual a F.M. é a única organização ocidental que tem uma origem TRADICIONAL autêntica, mas não se deve esquecer que ele diz o mesmo da Igreja Católica.

1945 "Os Princípios do Cálculo Infinitesimal" – É um assunto que lhe é caro havia muito tempo e no qual volta à distinção entre o Infinito e o Indefinido.

1946 "A Grande Tríade" é seu último livro – Refere-se nele à Tradição Chinesa, por reminiscência do Taoísmo em que foi iniciado. A Grande Tríade, Céu, Homem, Terra, é uma cosmologia ternária. É também o nome de uma grandíssima seita chinesa, comparável à F.M. na Europa.

A essa lista é preciso acrescentar duas obras póstumas:

1952 "Iniciação e Realização Espiritual" – que resume artigos publicados nas "Études Traditionnelles" e que é a continuação de sua obra "Considerações sobre a Iniciação".

1954 "Considerações sobre o esoterismo cristão" – É igualmente uma coletânea de artigos publicados na mesma revista e constitui a continuação de "O Esoterismo de Dante".

ESTRATÉGIA E TÁTICA GUENONIANAS

Entre 1910 e 1920, Guénon amadureceu lentamente seu pensamento e tornou-se um verdadeiro chefe de escola.

Fez uma rápida inspeção das "congregações iniciáticas" e distinguiu a Iniciação regular, com a qual aceita colaborar mediante fortes reservas no plano doutrinal, das Pseudo e das Contra-Iniciações.

Entrou em contato com orientais, converteu-se ao Islã e instruiu-se nos esoterismos hindu e chinês.

Por outro lado, desobstruiu o terreno de duas ideologias de tipo orientalista que atrapalhavam a propagação do Orientalismo Autêntico.

Instruiu em seguida seus discípulos, e restaria estudar sua doutrina tal como emerge de suas numerosas obras. Mas antes convém tomar contato com a estratégia e a tática guenonianas, pois isso é indispensável para apreender bem o desenvolvimento da doutrina.

Essa Estratégia e essa tática se depreendem de duas fontes, os livros e os fatos, tendo cada fonte seus limites e seu interesse próprios: sem coincidir exatamente, recobrem-se, contudo, em grande parte, de modo que, conjugando-as, chega-se a ver com suficiente clareza as intenções guenonianas.

ESTRATÉGIA
A ESTRATÉGIA guenoniana é amplamente desenvolvida em sua primeira grande obra, "Introdução geral ao estudo das doutrinas hindus", publicada em 1921.

Nessa obra, Guénon preconiza a formação de uma ELITE OCIDENTAL que se instruiria nos ensinamentos da TRADIÇÃO ORIENTAL. Com vistas a quê?

Com vistas a preparar o RETORNO DO OCIDENTE AO ORIENTE, retorno que não pode deixar de produzir-se um dia. Em que condições se pode imaginar que se produza esse retorno do Ocidente ao Oriente? Guénon faz três hipóteses.

1.ª Hipótese: Desmoronamento do Ocidente por excesso de materialismo. Diz que houve, ao longo da História, civilizações brilhantes que desapareceram. A hipótese de um desmoronamento não deveria, portanto, ser afastada. Ele vê a Barbárie instalar-se no Ocidente, mas não diz por qual mecanismo, excesso de autoridade ou anarquia. Nessa hipótese, o Mal já não estaria sujeito a nenhuma terapêutica.

2.ª Hipótese: os Orientais invadem o Ocidente para salvá-lo da decadência. Singular hipótese no plano histórico e político, que dificilmente se imagina, mas que é preciso admitir em teoria para seguir o autor. Nessa hipótese, Guénon pensa em amortecer o Choque psicológico que representaria essa invasão do Ocidente por orientais e, para isso, prevê e preconiza, desde hoje e em previsão, a constituição de um Núcleo Intelectual, de uma Elite espiritual, "imprimindo uma direção que, aliás, não teria de modo algum necessidade de ser consciente para a massa" (Introdução ao Estudo das Doutrinas Hindus).

Será, portanto, uma ELITE ESOTÉRICA, oculta, que se entregará a uma ação ENCOBERTA, discreta, secreta, com o fim de fazer os ocidentais aceitarem a Hegemonia Espiritual das Congregações iniciáticas Orientais quando chegar o momento da invasão.

3.ª Hipótese: O Ocidente organiza espontaneamente seu retorno à Tradição Oriental, retorno que é fatal. Nesse caso, também é necessária uma Elite Espiritual, um núcleo intelectual, para preparar, promover e facilitar essa Orientalização do Ocidente.

Ouçam apenas Guénon dizer-nos como vê a coisa:

"A Idade Média nos oferece o exemplo de um desenvolvimento tradicional propriamente Ocidental. Se há uma Tradição Ocidental, é aí que ela se encontra; essa Tradição era então concebida em modo religioso, mas não vemos que o Ocidente seja apto a recebê-la de outro modo, hoje menos que nunca. Bastaria que alguns espíritos apenas tivessem consciência da UNIDADE ESSENCIAL de todas as Doutrinas Tradicionais em seu Princípio". (Introdução às Doutrinas Hindus – p. 338)

Em claro, isso quer dizer: uma Elite que retome o CRISTIANISMO MEDIEVAL e o trabalhe até fazê-lo exprimir sua quintessência simbólica, esotérica, metafísica, oriental. Pois, para Guénon, não se trata de lançar-se a uma Restauração religiosa pura e simples; com efeito, "É de METAFÍSICA que se trata essencialmente. Para a ELITE de que falamos, a Tradição não foi concebida no modo especificamente religioso. O que deve desempenhar o primeiro papel é a compreensão das questões de princípio. E essa compreensão implica a assimilação dos modos essenciais do pensamento oriental; aquilo de que se trata pode já ser pressentido pelo pouco que dissemos a respeito da Realização Metafísica. Mas indicamos ao mesmo tempo as razões pelas quais não nos era possível insistir mais. É aí que se deve sempre recordar que, segundo a fórmula extremo-oriental, 'aquele que sabe DEZ não deve ouvir senão NOVE'." (Introdução às Doutrinas Hindus – p. 342).

Tal será, portanto, na hipótese em que o Ocidente decidisse organizar espontaneamente seu Retorno à Tradição Oriental, o Trabalho da Elite guenoniana.

Convém, por fim, perguntar por que Guénon procura aproximar assim o Oriente e o Ocidente. Ele próprio nos dá duas razões: primeiro, para benefício recíproco do Oriente e do Ocidente, mas também "por certas outras razões que não nos é possível abordar e que se prendem sobretudo ao sentido profundo dessas leis cíclicas das quais nos limitamos a mencionar a existência". (Introd. Doutr. Hindus – p. 341).

Em sua obra "Introdução geral ao estudo das doutrinas hindus", Guénon nos informa assim sobre sua estratégia doutrinal; sua obra doutrinal é ditada pela ideia de realizar a simbiose "Oriente–Ocidente", mas naturalmente em proveito de uma DIREÇÃO ORIENTAL que se impõe por duas razões: primeiro, em virtude da superioridade dos métodos orientais de meditação, notadamente da superioridade da Via Metafísica sobre a Via Mística; depois, em virtude da maior fidelidade do Oriente à "Grande Tradição Primordial".

TÁTICA
A TÁTICA, os meandros do pensamento e da ação para realizar a ideia estratégica, é menos evidente à primeira vista, mas somente à primeira vista: para quem uma certa prática tornou familiar a história guenoniana, a linha seguida é, ao contrário, muito certa e, se não é simples, é complexa como a vida, mas sua direção é única e segura.

Para além dos livros, cuja conta fizemos num capítulo anterior, é na ação guenoniana que buscaremos doravante essa direção.

Previamente, seria preciso poder estabelecer um dos pontos mais controversos, o da inspiração de René Guénon: é tarefa difícil, sobre a qual os próprios discípulos estão em desacordo.

Duas teses estão em presença:

– Ou Guénon foi formado por iniciadores orientais que lhe ensinaram tudo e, nesse caso, sua obra teria sido apenas uma transmissão adaptada.

– Ou, por um trabalho pessoal encarniçado, teria realizado uma compilação magistral que tentou impor ao espírito de seus contemporâneos como doutrina ao mesmo tempo antiga e original.

O exame dessa questão exigiria, por si só, um boletim inteiro, e é cedo demais para nos comprometermos nele, o que não significa de modo algum que não tenhamos opinião a respeito.

O fato é que o desenvolvimento da ação guenoniana manifesta uma evolução evidente, uma evolução em dentes de serra, com avanços e recuos. Simples aparência, ou realidade? Não nos cabe decidir aqui, e ater-nos-emos à só "manifestação".

Essa constatação de evolução não é aliás uma crítica estéril e sublinha o pragmatismo que permitia a Guénon conviver com os meios mais diversos, até os mais opostos. Evidentemente, para ter êxito nisso era preciso certa dose de duplicidade, mas todo esoterista é, por definição, largamente provido dela: com efeito, o relativismo inerente ao esoterismo reconduz todas as posições à unidade e fundamenta de algum modo essa duplicidade de uso externo.

Para simplificar as coisas, podem-se distinguir alguns estágios, mais ou menos cronológicos, nessa evolução.

* A primeira é a de seus anos de formação, grosso modo até a guerra de 1914, em que o vemos misturar-se aos meios ocultistas situados à margem da Franco-Maçonaria e depois entrar em loja. Pode-se dizer que percorre todo o leque subversivo, do espiritualismo ao racionalismo, não hesitando sequer em tornar-se bispo gnóstico.

Já nessa fase distinguem-se bem seu olhar crítico e suas hesitações sobre o melhor caminho, o mais eficaz: quando seus amigos, seus primeiros discípulos, quiseram fundar uma nova Ordem do Templo destinada a fazer a síntese de todas as correntes, ele não se entusiasmou muito, sentindo bem que semelhante iniciativa não faria senão acrescentar um grupo a mais à multidão de todos os que haviam surgido nos últimos trinta anos.

Sem dúvida — e neste ponto seria interessante ter seu testemunho direto —, compreendeu bastante cedo que esse meio ocultista era, por natureza, um mundo marginal que jamais poderia propagar-se como mancha de óleo no grande público, tanto mais que, naquele tempo, há 70 anos, a descristianização não era tão visível quanto em nossos dias.

* A segunda etapa: entrou então em relação com o meio católico, e não dos menores, o dos jovens intelectuais do Instituto Católico de Paris, com Maritain, o da primeira fase, antes de sua adesão à Revolução: meio da renovação filosófica e, mais amplamente, da renovação doutrinal.

Compreende-se que Guénon, com suas teses de crítica do mundo moderno e de referência constante à Tradição, tenha podido iludir pessoas que ignoravam tudo de suas fontes, a ponto de alguns desses jovens intelectuais católicos terem tido grande dificuldade em se defender dele; pode-se até perguntar se alguns algum dia se desprenderam dele..., mas disso falaremos mais adiante.

* A terceira etapa, que se sobrepõe cronologicamente à precedente, é a das relações de Guénon com os meios antimaçônicos. Questão difícil de tratar desde que nos dirigimos a leitores não necessariamente esclarecidos sobre essas matérias.

Basta dizer que Guénon soube jogar com muita destreza com o duplo rosto maçônico, racionalista e espiritualista, e que, em suas relações com os antimaçons da época, procurou constantemente "embaralhar as pistas", apoiando-se nas divisões de seus interlocutores, divisões ligadas às pessoas e, mais profundamente ainda, às doutrinas.

Pois, entre os antimaçons daquele tempo, a oposição era nítida entre os que faziam uma crítica puramente racionalista e política da F.M. e que, por isso, se cegavam quanto à sua realidade profunda, e aqueles que, tendo uma visão muito mais ampla, sabiam distinguir os diversos rostos da Seita e uni-los numa mesma síntese crítica.

Também aí faltou pouco para que Guénon conseguisse passar por um verdadeiro antimaçom, e parece mesmo que somente a guerra de 1914 o impediu de tornar-se diretor da revista "La France Antimaçonnique"! Mas as análises implacáveis da RISS bastaram para abrir os olhos dos que quiseram abri-los; que alguns tenham podido ser enganados é outra questão.

* Afastado dos meios intelectuais católicos, queimado junto aos verdadeiros antimaçons, Guénon dirigira também seus esforços noutra direção, a de certo misticismo cristão.

Por mais escandalosa que possa parecer, não se deve surpreender demais com essa manobra, pois a mística, por natureza, presta-se a esses desvios; é aliás por essa razão que a Igreja, mãe previdente e experiente, sempre foi tão prudente, diríamos mesmo desconfiada, diante das manifestações místicas.

Com efeito, desenvolveu-se entre as duas guerras, sempre no quadro da renovação católica, toda uma pesquisa mística centrada no tema do Sagrado Coração e muito orientada para o simbolismo. Foi o que permitiu a Guénon infiltrar-se nela a ponto de poder publicar numerosos artigos nas revistas dessa corrente. A Hierarquia teve aliás de intervir para pôr termo a essas iniciativas muito contestáveis.

* Quando, em 1930, Guénon decide partir para o Egito e acaba por lá ficar, já esgotou as possibilidades de difusão de seu pensamento e deu-se conta de que, fora do meio de seus discípulos diretos, não conseguira penetrar eficazmente.

Mantendo-se aberto a outras vias eventuais, decide então tomar um caminho mais direto, o seu havia vinte anos, o do orientalismo prático; dizemos bem prático, pois no plano teórico isso estava realizado havia muito tempo.

É interessante notar que não é para as místicas extremo-orientais que se volta e que orienta seus discípulos, como se poderia ter pensado, já que ensinava publicamente o Vedanta e as doutrinas hindus; a via mística recomendada é o Islã — e ele próprio era muçulmano havia vinte anos e partia para estabelecer-se num país muçulmano no seio do qual devia fundir-se.

Um de seus discípulos, Frithjof Schuon, jovem alsaciano de 25 anos, partiu para a Argélia para ser iniciado numa confraria mística muçulmana, depois voltou no fim de 1933 e pôs-se a iniciar, por sua vez, por delegação, uma centena de outros guenonianos, fundando filiais em diversas cidades da França e da Suíça. Por sua própria confissão, Guénon via nessa direção a melhor fórmula, mas pretendia bem não fechar outras vias.

Assim, outro de seus discípulos, Marcel Clavelle (Jean Reyor), dedicou-se antes a escavar na linha do Esoterismo Cristão, tentando até revivificar uma hipotética Fraternidade do Paráclito; o que não o impedia de fazer-se iniciar também no Islã esotérico, talvez sem acreditar muito nele.

Por outro lado, os laços maçônicos não estavam rompidos e, no quadro da renovação espiritualista da Franco-Maçonaria do pós-guerra, uma loja especial, "A Grande Tríade", reunindo unicamente guenonianos, foi criada em 1947 no âmbito da Grande Loja da França, com a bênção muito especial do próprio Guénon; essa organização ainda está em atividade atualmente...

Essa diversidade, da qual só demos uma imagem tênue, mostra que, depois da partida do Mestre para o Oriente Próximo, os discípulos exploraram paralelamente diversas vias entre as quais não faltavam numerosas pontes.

Como interpretar esse pluralismo? De duas maneiras complementares.

1) Essa multiplicidade de formas permite satisfazer temperamentos diferentes, assegurando ao mesmo tempo a unidade de fundo, trate-se do Islã místico, do Cristianismo esotérico ou do Simbolismo maçônico. É, por exemplo, certo que boa parte dos primeiros iniciados de Schuon não conseguiu suportar o Islã por muito tempo e passou a outras vias esotéricas.

2) Esse pluralismo permite sobretudo "trabalhar" meios diversos, até opostos, podendo cada um penetrar onde seus outros irmãos em guenonismo não o poderiam. Foi assim que Jean Reyor pôde levar ao meio clerical suas pesquisas sobre o esoterismo cristão, iniciativa que reencontramos hoje com o padre Stéphane e Jean Borella...

Com efeito, é certo que Guénon, e seus discípulos depois dele, nunca renunciaram ao seu triplo empreendimento: orientalizar o Ocidente, revivificar a Franco-Maçonaria e perverter o Cristianismo por dentro sob a aparência de espiritualismo, tudo isso em nome e sob o pretexto da luta contra o materialismo e o racionalismo.

Como não ver que, de alguns anos para cá, sob a influência de numerosos fatores e graças a múltiplas cumplicidades eclesiásticas, eles percorreram muito caminho nessa direção? É o que nos restará examinar nos próximos números.

J.V. / P.R.

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