Crétineau-Joly, o amigo dos papas e da verdade
Jacques Augustin Marie CRÉTINEAU-JOLY nasceu em Fontenay-le-Comte, na Vendeia, em 23 de setembro de 1803, numa família de honestos comerciantes, profundamente religiosa. Fez os estudos secundários no colégio religioso de Luçon, depois ingressou no Seminário de Saint-Sulpice, em Paris, que abandonou ao cabo de dois anos. Em 1822, voltou ao colégio de Fontenay como professor de filosofia. Em 1823, é nomeado secretário do duque de Laval, embaixador em Roma, onde assiste à eleição do papa Leão XII. A partir desse momento começa sua iniciação na vida romana e na corte do Vaticano. Conheceu o Cardeal Bernetti, que lhe confiou os papéis de seu amigo, o cardeal Consalvi. Tornou-se amigo quase íntimo do papa Gregório XVI. Pôs-se a compor poemas bastante medíocres e por vezes bastante picantes. Em 1828, voltava à Vendeia, onde se casou, em 11 de agosto de 1830, com a Senhorita Clémence Labrousse. Depois lançou-se ao jornalismo. Participou da aventura da duquesa de Berry contra Luís Filipe, aventura que despertava os ardores guerreiros da chouannerie.
Depois foi para Paris redigir sua "Vendeia militar". Em 1839, era redator de "L'Europe monarchique". Intervém com energia e habilidade para obter a libertação dos chuãs enviados às galés após o fracasso da tentativa da duquesa de Berry. Mostrava-se contrarrevolucionário decidido, afirmando que fazer bem aos maus é fazer mal aos bons. Detestava particularmente as formas bastardas da revolução, o bonapartismo e o orleanismo. Censurava-os por terem querido batizar a Revolução, isto é, por tê-la tornado enganosa e permanente.
Crétineau-Joly só entende o trabalho do historiador como instrumento para o combate da verdade, para a defesa da fé cristã e da Igreja. Escreve com muita verve e humor. Gosta do tom familiar, do movimento e da vida. Faz-se ler com interesse e até paixão. A Vendeia foi seu primeiro assunto. Em 1834, publica seus "Episódios da guerra da Vendeia". Trata-se da revolta contra a monarquia de Julho pela duquesa de Berry. Em 1838 aparece a "História dos generais e chefes vendeanos", com uma introdução contra "A Ingratidão dos Bourbons". Para estudar a Vendeia, tornou-se amigo de antigos revolucionários, sobretudo Boursault, que lhe revelou os bastidores dessa guerra. A "Vendeia militar" saiu em 1840–1841, em 4 volumes. Crétineau-Joly mostra-se muito severo com os príncipes Bourbons, que deixaram os vendeanos ser afastados sem se fazerem matar entre eles. Censuraram-no vivamente por ter "engrossado as faltas da realeza exilada". A bolsa do conde de Chambord fechou-se, mas Crétineau-Joly obteve a ajuda financeira do Barão Dudon, antigo ministro da Restauração. Recusou sempre candidatar-se à Academia Francesa, embora seus amigos e até Montalembert o instassem a isso. Queria conservar sua independência. Chamava-se a si mesmo "o velho javali", para marcar bem seu desejo de vida livre e simples.
Depois, de 1844 a 1846, a pedido do Geral dos Jesuítas, o P. Roothaan, encontrado em Roma, Crétineau-Joly atrelou-se à tarefa esmagadora de contar a história da célebre companhia, numa época em que o grito de todos os revolucionários através da Europa era: "Morte aos Jesuítas". Na França, chamavam-se Quinet, Michelet, Thiers; na Itália, Gioberti, Azeglio... Ajudado pelo P. de Montézon, Crétineau-Joly pôde concluir em 1845 os primeiros volumes da "História religiosa, política e literária da Companhia de Jesus". O 6.º volume saiu mais tarde. Tratava da situação muito recente dos Jesuítas no mundo. O elogio da imprensa católica foi universal e a imprensa anticristã teve de calar-se.
Por ocasião dessa obra, o autor teve comunicação das cumplicidades mantidas por cardeais e embaixadores no conclave que elegeu em 1769 Lorenzo Ganganelli papa sob o nome de Clemente XIV. Tirou dela uma obra intitulada "Clemente XIV e os Jesuítas", publicada em 1847, apesar das súplicas do P. Roothaan para que não o fizesse; "mas", diz ele, "eu tinha diante dos olhos todas as correspondências oficiais e inéditas, todas as relações íntimas que contavam em minúcia essa vergonhosa conspiração dos reis, de seus ministros, de seus embaixadores e de alguns altos dignitários da Igreja contra os filhos de Santo Inácio". O livro causou escândalo e foi proibido em Roma, pois o autor denunciava com firmeza a covardia do papa Clemente XIV, que suprimira os Jesuítas, e insinuava que o novo papa, Pio IX, poderia ter alguma veleidade de imitar seu predecessor. Um abade italiano, Gioberti, escreveu então 5 volumes contra os Jesuítas: "O Jesuíta moderno".
Em 1852 aparece um livro "História do pontificado de Clemente XIV", por um religioso romano, o P. Theiner, livro muito malévolo para com os Jesuítas, que se esforçava por justificar sua condenação pelo papa Clemente XIV. Crétineau-Joly respondeu com "Duas cartas ao P. Theiner". Restabelece nelas a verdadeira história do conclave de 1769, mostrou a soberana injustiça do breve "Dominus ac Redemptor", de condenação dos Jesuítas, e sua heroica obediência. O P. de Ravignan interveio em 1854 com seu livro "Clemente XIII e Clemente XIV", no qual se esforçava por acalmar a polêmica.
Em 23 de maio de 1846, Crétineau-Joly foi convocado pelo papa Gregório XVI, que lhe confiou o encargo de escrever uma história das Sociedades Secretas e lhe fez abrir os arquivos secretos do Vaticano. Depois foi recebido pelo Príncipe de Metternich, que lhe abriu os arquivos secretos da chancelaria da Áustria. O P. Beckx, futuro geral dos Jesuítas, ajudou-o a reunir documentos em Viena, Veneza e Milão. Mas esbarrou no Príncipe Carlos Alberto de Saboia, o afiliado das Sociedades Secretas, que lhe pediu, numa entrevista secreta, que não revelasse sua filiação às Lojas. Depois, diante das revelações que lhe permitiam incriminar homens políticos poderosos, o papa Pio IX pediu-lhe que renunciasse à publicação dessa História das Sociedades Secretas, ao menos provisoriamente. Não queria que se pudesse denunciar a antiga pertença às lojas maçônicas de príncipes e prelados, convertidos após a revolução de 1848 e arrependidos, a quem ele próprio havia perdoado seus antigos procedimentos. Num gesto de despeito, Crétineau-Joly destruiu os 4 volumes de revelações já redigidos e em parte impressos. "Eu queria dilacerar todos esses rostos ignóbeis, príncipes, generais, embaixadores ou prelados. Temeu-se o escândalo. Fez-se moderação e prudência. Isso conduz suavemente a Gaeta. As Sociedades Secretas reinam hoje"... "Farejo bastante bem os covardes, os traidores e os revolucionários. Só sei isso e começo a não o saber muito mal." (21 de novembro de 1860)
Em agosto de 1849, o P. Roothaan propõe-lhe a "História do Sonderbund", que saiu em 1850. Essa guerra do Sonderbund, conduzida na Suíça pelos revolucionários contra os cantões católicos, não foi senão um prefácio e uma preparação da Revolução de 1848, que devastou toda a Europa em poucos meses. Foi dirigida de Londres por Lord Palmerston. Crétineau-Joly assinalou a fraqueza e a indecisão do papa Pio IX, que deixou esmagar os católicos sem intervir.
Em 1852, o cardeal Bernetti legou por testamento seus arquivos pessoais a Crétineau-Joly, que os utilizou em sua última obra, "A Igreja romana e a Revolução". Em 1857, seu filho Henri entrou no noviciado dos Jesuítas. Obteve uma entrevista de reconciliação, arranjada pelos bons padres, com o papa Pio IX, diante do qual se comprometeu a nada mais publicar sem submeter o texto a Sua Santidade. Foi então que se projetou a redação de sua última e mais célebre obra. Em 1858, leu diante do papa seu primeiro manuscrito: "Consegui bastante bem", disse a seu filho, "pôr surdinas nas presas do javali." O livro saiu em Paris, na Plon, e teve um êxito prodigioso. O P. Geral dos Jesuítas escreveu-lhe para agradecer: "Vejo com prazer que o senhor teve muitos cuidados e moderação para com certas pessoas bem situadas... Graças a Deus, soube vencer-se." O javali havia recolhido as presas. Mas Pio IX, elevado ao pontificado pela Revolução, compreendeu mais tarde a catástrofe que imprudentemente suspendera sobre a Igreja e revelou-se então um grande papa contrarrevolucionário, o papa do "Syllabus".
Crétineau-Joly morreu em Vincennes, em 1.º de janeiro de 1875. Em seu túmulo, o monograma de Cristo e uma flor-de-lis: dois símbolos, Deus e o Rei.
E.C.
Bibliografia: Um único livro: Abade U. Maynard: "Jacques Crétineau-Joly, sua vida política, religiosa e literária segundo suas Memórias, sua correspondência e outros documentos inéditos" (Paris, Firmin-Didot, 1875). O abade Maynard era cônego de Poitiers, tornado grande amigo e confidente do escritor nos últimos 25 anos de sua vida.
A revista "L'Ordre Français" publicou em janeiro de 1967 um resumo de sua vida por Dominique Ancelle e, em março de 1967, uma apresentação desenvolvida de seu livro sobre "A Igreja romana e a Revolução", sob a mesma assinatura. Louis Daménie, em sua "Revolução, fenômeno divino, mecanismo social ou complô diabólico" (Cahiers de l'Ordre Français, 1970), dedicou várias páginas bem-vindas à obra de Crétineau-Joly.