Cadernos Barruel 25 - 1993 Um muçulmano desconhecido: René Guénon Há quase 15 anos, os temas do Esoterismo Cristão têm sido evocados em grande número de artigos deste Boletim, de forma direta ou indireta. Eis a lista: 1 – A propósito da Contra-Igreja e das dificuldades colocadas por seu estudo (retomado no N.º 6). 2 – O candente problema da Tradição – (retomado no N.º 18). 3 – A gnose, tumor no seio da Igreja. 5 – A gnose de ontem a hoje. 6 – A gnose hoje. 9 – A gnose tradicionalista do Prof. Borella. 10 – Um muçulmano desconhecido, René Guénon. 10 – O espiritualismo subversivo. 10 – Correspondência com o Prof. Borella. 11 – René Guénon e o Sagrado Coração. 12 – Gnose e gnosticismo na França no século XX. 12 – Uma ressurgência da gnose no século XX: o borellismo. 13 – Itinerários rumo a um esoterismo cristão. 13 – A subversão da noção de criação na gnose borelliana. 14 – Um "Itinerário" borelliano? 15 – As armadilhas do simbolismo: o caso de Jean Hani. 16 – Desenvolvimentos atuais da gnose. 17 – A Herança de Dom Lefebvre. 17 – Um sacerdote fala. 18/19 – Gnose e Humanismo. 20/21 – Gnose e Romantismo 24 – Gnose e classicismo Os estudos redigidos pelo Sr. Etienne Couvert foram reunidos em duas obras publicadas pelas Éditions de Chiré: "Da Gnose ao Ecumenismo" – "A Gnose contra a Fé", que podem ser encomendadas a: Diffusion de la Pensée Française – Chiré en Montreuil – 86190 Vouillé. Depois do Número Especial sobre a Escola Moderna do Esoterismo Cristão (N.º 22/23, ainda disponível ao preço de 100 francos), pareceu-nos oportuno reproduzir abaixo o artigo dedicado a René Guénon e a seu percurso doutrinal, verdadeiro modelo do gênero. Este estudo, publicado há onze anos no boletim N.º 10, escapou sem dúvida a grande número de nossos atuais assinantes, que poderão assim tomar conhecimento dele com grande proveito e dele extrair um esclarecimento indispensável sobre os desenvolvimentos da penetração gnóstica contemporânea. AS ETAPAS DE SUA VIDA René Guénon, nascido em Blois em 15 de novembro de 1886, foi batizado com os nomes de René, Jean, Marie, Joseph. Seus pais eram originários de Blois, onde o pai era arquiteto. De saúde delicada, René teve uma frequência escolar intermitente: foi, contudo, um aluno brilhante, tendo obtido uma menção honrosa em física no Concurso Geral, bem como um prêmio de uma sociedade científica de Blois; cursou em seguida a classe de Matemática em Blois e, em 1904, foi para Paris preparar uma licenciatura em Matemática no "Collège Rollin". E eis que, dois anos depois, isto é, em 1906, ele renuncia a prosseguir os estudos universitários; a partir de então orientar-se-á para o ensino particular e se tornará professor de escola livre. Por que essa virada: razões de saúde, ou atração por estudos extrauniversitários? É provavelmente esta segunda explicação a correta, pois é a partir dessa época que Guénon passa a frequentar os meios intelectuais apaixonados pelo que se chama "o conhecimento", isto é, os neoespiritualistas, os teósofos, os ocultistas, os espíritas, os orientalistas etc. Até sua partida de Blois, René Guénon havia evoluído sobretudo num meio "católico". Suas biografias não relatam nenhuma hostilidade manifesta do jovem a esse meio e a essa influência "bem-pensante". Registram, contudo, por volta dos 14-15 anos, uma altercação com um de seus professores: após uma longa discussão de várias horas, o jovem René acamou com forte febre, e o pai teve de mudá-lo de escola. Mas, no conjunto, não se encontra revolta contra sua religião materna até a chegada a Paris. Essa ausência de hostilidade, essa ausência de combatividade, ele a conservará sempre, e ela constituirá mesmo um dos pontos essenciais de sua doutrina. Não atacará o catolicismo violentamente; conservá-lo-á em bloco, mediante reservas e adaptações: contentar-se-á em engoli-lo num sistema mais vasto, do qual o catolicismo será apenas um caso particular. Sua grande fórmula tática: sobrepor-se sem opor-se. Em Paris, René Guénon morava num apartamento situado no n.º 51 da rue Saint-Louis-en-l'Île, num belo edifício Luís XV de passado histórico, que havia sido ocupado pelo arcebispado de Paris por volta de 1840 e para onde foi levado Mons. Affre, morto nas barricadas em 1848. Guénon conservaria esse domicílio por bastante tempo, mesmo depois de sua partida da França. Tendo abandonado os estudos universitários, nos quais aliás não parece ter-se saído muito bem, assumira cargos de professor em diversas instituições livres, lecionando ora matemática e física, ora filosofia. Sem nunca ter sido realmente pobre, tampouco levou "vida de luxo"; era de temperamento estudioso e solitário, e essa vida modesta lhe convinha bem. Essa vida solitária não era, porém, isenta de iniciativas e contatos pessoais. Mas, sobretudo, enquanto se beneficiava de seus primeiros contatos pessoais com os mestres contemporâneos da ciência esotérica, alimentava-se de livros. Em 1912, Guénon casa-se com uma moça de Blois, Berthe Loury, originária de Chinon; o casamento realizou-se perto de Chinon, na propriedade da nova esposa, com dispensa dos proclamas concedida pelo arcebispo de Tours em 11 de julho de 1912. Cabe perguntar se o noivo ainda era católico naquele momento, pois esse ano de 1912 é também o de sua iniciação sufi (esoterismo muçulmano); o que parece certo é que jamais revelou à esposa sua pertença ao Islã. O jovem casal foi morar em Paris, na Île Saint-Louis, enquanto Guénon continuava no magistério. Quando sobreveio a guerra de 1914, ele, que fora dispensado na junta de revisão de 1906, foi mantido nessa situação e não foi mobilizado; permaneceu, portanto, no ensino livre, onde ocupou sucessivamente diversos postos. Em 1915-1916, é suplente no Collège de Saint-Germain-en-Laye; no ano seguinte, 1917, está em Blois como professor de Filosofia; depois, em 1918, é enviado a Sétif, na Argélia, e, no fim da guerra, volta a Blois. E por fim a Paris, onde reencontra a Île Saint-Louis: é lá que começará a redigir seus primeiros livros, pois até então só havia escrito artigos. Estamos em 1921. No plano mundial, na Rússia, é a NEP (nova política econômica), que impedirá a debacle dos comunistas e atrairá capitais americanos. Na China, é o momento dos primeiros tumultos comunistas em Cantão, e, aliás, a China está em pleno Kuomintang, portanto em pleno modernismo. O congresso comunista de Baku acaba de decidir a extensão da Revolução proletária aos Impérios coloniais. E em Paris, René Guénon, "muçulmano desconhecido", lança tranquilamente seu primeiro livro, intitulado "Introdução geral ao estudo das doutrinas hindus", enquanto todo um público, composto em parte de ocultistas e em parte de tradicionalistas, reacionários, antimodernistas, contemplativos, começa a ser seduzido por sua atitude, seu balanço e sua vertigem. Entre 1921, 1922 e 1923, Guénon publica as três obras que constituem a fase preliminar, preparatória, de sua manobra doutrinal. Pode-se notar que 1921 é o auge da Sociedade das Nações em Genebra, é a época em que a Alemanha emprega sua diplomacia para adiar o pagamento das reparações de guerra. 1922 é o ano do primeiro tratado germano-soviético de Rapallo, é também o ano do assassinato do ministro alemão Walter Rathenau por nacionalistas alemães. E 1923 foi o ano da ocupação do Ruhr pelas tropas francesas. De 1924 a 1929, Guénon foi professor de Filosofia no "Cours Saint-Louis", onde também dava aulas particulares de outras matérias. Era a instituição em que sua sobrinha estudava. Em 1928, perdeu a esposa, Berthe Loury, e, poucos meses depois, a tia, a Sra. Duru, que havia partilhado por muito tempo a vida do casal; a sobrinha, de quem já não podia ocupar-se, foi confiada a outras pessoas. Por fim, no ano seguinte, deixou de lecionar e voltou-se para outro meio de subsistência. Pois nessa época, em meados de 1929, René Guénon fez um encontro importante para seu futuro: no escritório da Librairie Chacornac, no quai Saint-Michel, em Paris, conheceu uma certa Sra. DINA, americana e viúva de um engenheiro egípcio. A Sra. DINA morava em Bar-sur-Aube no inverno e em Cruseilles, na Alta Saboia, durante o verão. Em setembro de 1929, Guénon e a Sra. DINA partiram para visitar a Alsácia durante dois meses; depois foram repousar em Cruseilles. Foi durante essa viagem que se decidiu o seguinte arranjo: a Sra. DINA compraria dos editores parisienses os diversos livros de Guénon para reeditá-los em seguida numa nova casa, que editaria também os livros posteriores que Guénon pretendia escrever. Procuraram primeiro, em Grenoble, uma casa editora apta a realizar esse entendimento. Por fim, a Sra. DINA cogitou criar uma livraria e uma coleção de tendência "tradicionalista". Em seguida, ambos embarcaram para o Egito a fim de copiar textos do esoterismo sufi destinados a essa livraria e a essa coleção. Guénon dizia a seus amigos de Paris que partia por cerca de três meses, mas, transcorridos esses três meses, a Sra. DINA voltou sozinha a Paris, enquanto Guénon continuava a trabalhar no Egito. Essa separação pôs fim ao projeto de livraria e de editora. Por fim, depois de adiar de mês em mês a viagem de volta à França, renunciou a ela de todo: nunca mais voltaria. Instalou-se no Cairo sob o nome de SHEIK ABDEL WAHED YAHIA. Islamizou-se completamente e acabou por falar árabe sem sotaque. Obteria a nacionalidade egípcia em 1947. Continuou, todavia, a escrever em francês para editores parisienses e a enviar artigos à revista "Le Voile d'Isis", que passou a chamar-se, a partir de 1933, "Les Études Traditionnelles". Guénon conservou seu apartamento da Île Saint-Louis até 1935, e amigos lhe remetiam então seus livros em caixotes para o Cairo. No Egito, hospedou-se primeiro num hotel; depois alugou um apartamento na casa de um confeiteiro, situada perto da Universidade islâmica de Al-Azhar. Em julho de 1934, casou-se com uma jovem muçulmana egípcia e foi morar na casa do sogro; mas a chegada de seus caixotes de livros vindos de Paris o obrigou a mudar-se e a instalar-se em outra casa, na companhia da esposa, do sogro e da cunhada, onde ficou até 1937, ano em que o sogro morreu. Foi a ocasião de um novo começo e de uma instalação definitiva fora do Cairo, num subúrbio tranquilo a oeste da cidade. Foi nessa casa dos arredores do Cairo que Guénon morreu, por sua vez, em 7 de janeiro de 1951, aos sessenta e cinco anos. A FORMAÇÃO LIVRESCA Nomearemos apenas seus quatro principais inspiradores: Mestre ECKHART (Idade Média), Saint-Yves d'ALVEYDRE (Restauração), Fabre d'OLIVET (Restauração), Eliphas Lévi (Segundo Império). – MESTRE ECKHART – Teólogo e filósofo alemão da segunda metade do século XIII. Alma fervorosa e exaltada, erigiu suas ideias num verdadeiro sistema místico. Um capítulo geral dos dominicanos suspendeu-o das funções de prior da província da Alemanha. Seu sistema é um PANTEÍSMO MÍSTICO repleto de intensa religiosidade natural. Há um único SER, que é DEUS. As demais criaturas não são verdadeiramente "seres"; são apenas vãs sombras. Para existirem de verdade, é preciso que as criaturas finitas se despojem de suas formas contingentes e "entrem" em Deus, tornando-se Deus. Até aqui, tudo vai mais ou menos bem, salvo um inegável exagero quanto à vaidade da existência dos seres criados; pois, afinal, se sua existência é precária e transitória e se pede para ser confirmada ao término de uma prova, a existência dessas criaturas tem, ainda assim, um primeiro grau de realidade: foram tiradas do nada, portanto já não são do nada, já não são "vãs sombras". O que vai comprometer tudo definitivamente é que o sistema de Mestre ECKHART é, ao mesmo tempo, panteísta. É preciso então que essas vãs sombras que são as criaturas finitas, para se divinizarem, se percam no GRANDE TODO que é Deus. Vê-se logo o parentesco desse sistema com a metafísica das religiões da Índia. René Guénon ficou extremamente impressionado com o sistema de Mestre ECKHART porque era expresso com o auxílio de uma terminologia plenamente cristã. Ora, sua formação familiar fora cristã. Continuava a frequentar alguns eclesiásticos. Em nenhum momento de sua carreira (e muito menos em seu início) manifestou a ideia de romper com a religião materna. Simplesmente procurará englobá-la numa síntese mais vasta, no seio da qual ela poderia conservar sua homogeneidade. – O orientalista cujos livros exerceram influência sobre René Guénon é FABRE D'OLIVET (1767–1825). Trata-se de um autor dramático, um romancista e, sobretudo, um linguista. O dicionário biográfico observa que Fabre d'OLIVET mistura certa extravagância mística a seus desenvolvimentos sobre os hieróglifos, as línguas orientais e as alegorias bíblicas. Uma de suas principais obras intitula-se "Do Estado Social do Homem", e nela fala em submeter a sociedade humana a uma soberania teocrática. É precisamente uma das ideias que veremos reaparecer em René Guénon. Notaremos, com efeito, uma tendência guenoniana à HEGEMONIA SACERDOTAL; Guénon sempre dará a supremacia à AUTORIDADE ESPIRITUAL sobre o poder temporal. Essa noção, de que teve a primeira ideia em Fabre d'OLIVET, ele a reencontrará no bramanismo. – SAINT-YVES D'ALVEYDRE – é o terceiro inspirador. Suas obras eram muito lidas no tempo da juventude de R. Guénon, que se impregnou da substância contida em: "A Missão da Índia", "O Arqueômetro", "A Missão dos JUDEUS", "A Missão dos Operários", "A Missão dos Reis", "A Missão dos Franceses", nas quais, com extraordinária riqueza e flexibilidade de expressão, Saint-Yves d'Alveydre propõe e até projeta uma remodelação geral das religiões na superfície da Terra. Retoma a ideia antiquíssima, e muito maçônica, de uma superreligião esotérica (isto é, reservada a uma elite) e completada, para a massa do povo, por um sincretismo mais ou menos uniformizado segundo as possibilidades locais. Essa superreligião seria naturalmente a continuação da vasta e imemorial Tradição Universal, que se transmite de era em era de maneira esotérica, como o micélio de um cogumelo. Temos aí os principais elementos do que viria a ser a doutrina guenoniana e, sobretudo, sua distinção entre Esoterismo e Exoterismo. Só que Saint-Yves os expõe com o aparato arqueológico de seu tempo e após contatos com o Oriente que foram sobretudo livrescos. – O quarto inspirador livresco de Guénon foi ELIPHAS LÉVI, cujo verdadeiro nome era Alphonse Louis CONSTANT, conhecido como abade CONSTANT embora não tenha recebido o sacerdócio. Eliphas LÉVI influenciou R. Guénon por duas de suas obras: "A Chave dos Grandes Mistérios" e "Dogma e Ritual da Alta Magia", publicada em 1861; essas obras ainda estavam em voga em 1906, quando Guénon reunia seus materiais. Suas obras desenvolvem também, sob o nome de FILOSOFIA OCULTA, a noção da "UNIDADE ESSENCIAL DE TODAS AS RELIGIÕES". Essa ideia não era nova, mas, havia algumas dezenas de anos, cedera lugar, nos círculos intelectuais que gravitam em torno da Franco-Maçonaria, às NOÇÕES RACIONALISTAS, que excluem toda ideia de Religião. Já não se falava tanto da UNIDADE DAS RELIGIÕES porque já não se tinha necessidade de religião. ELIPHAS LÉVI é um dos que inverteram a maré e voltaram a pôr a ênfase no espiritualismo. Eis um texto extraído de "Dogma e Ritual da Alta Magia": "Através do véu de todas as alegorias hierárquicas e misteriosas espalhadas nos antigos dogmas, através das trevas e das provas bizarras de todas as antigas instituições, sob o selo de todas as escrituras, nas ruínas de Nínive e de Tebas, sob as pedras corroídas dos antigos templos, e sobre a face enegrecida das esfinges da Assíria ou do Egito, nas pinturas monstruosas ou maravilhosas que traduzem as crenças da Índia e as páginas sagradas dos Vedas, nos emblemas estranhos de nossos velhos livros de alquimia, nas cerimônias de recepção praticadas por todas as sociedades misteriosas... encontram-se os vestígios de uma doutrina em toda parte a mesma e em toda parte cuidadosamente oculta. A FILOSOFIA OCULTA parece ter sido a ama de leite ou a madrinha de todas as religiões, a alavanca secreta de todas as forças intelectuais, a chave de todas as obscuridades divinas e a rainha absoluta de todas as eras em que era exclusivamente reservada à educação dos sacerdotes e dos reis." Resumamos os pensadores que forneceram a René Guénon seus primeiros materiais: – MESTRE ECKHART, que o influencia por seu panteísmo místico e por seu método de meditação para atingir o Deus Imanente. – SAINT-YVES D'ALVEYDRE, que lhe traz sua ideia de superreligião esotérica e de vinculação ao Oriente. – FABRE D'OLIVET, com sua ideia de Soberania teocrática e de Supremacia sacerdotal. – ELIPHAS LÉVI, sua ideia de Filosofia oculta e de UNIDADE essencial das religiões. Um dos biógrafos de Guénon, Jean Robin, numa obra que figura entre nossas fontes, "René Guénon, Testemunha da Tradição", põe contudo em dúvida a influência que tais leituras possam ter tido sobre a formação de Guénon. Sustenta, ao longo de todo o seu livro, a ideia da Missão Providencial, missão não humana, de Guénon. Em tal hipótese, as leituras feitas por Guénon só teriam tido por efeito mantê-lo a par do estado atual da questão, mas não lhe terem ensinado, positivamente, o que quer que fosse. O PERCURSO PELAS SEITAS EUROPEIAS Embora muito inclinado ao trabalho solitário, e vimos quais eram suas quatro principais fontes de inspiração livresca, René Guénon não desdenhava os contatos pessoais. E a partir de 1907 estabeleceu numerosos contatos com organizações que o farão percorrer um périplo muito instrutivo. Um dia recebeu em seu apartamento parisiense da Île Saint-Louis a visita de dois senhores enviados por "um grupo" bastante restrito chamado: A ESCOLA HERMÉTICA. Trata-se de um grupo dirigido pelo Doutor Philippe Encausse, dito Papus, que o fundara em 1888. Em 1907, o Movimento já funcionava, portanto, havia cerca de vinte anos. Os dois senhores são os Srs. PHANEG e BARLET, sendo o principal PHANEG, com o qual Guénon permanecerá ligado por longo período. Essa Escola Hermética é um grupo de estudos esotéricos que assumiu a forma de uma Pequena Universidade Livre, cuja sede ficava no n.º 13 da rue Ségur, em Paris, e onde davam cursos Papus, Barlet, Phaneg e Yvon Leloup (dito Sédir), que se ocupa sobretudo do sentido oculto das Escrituras. Mas, sobretudo, essa Escola Hermética é a "antecâmara" de uma ordem mais discreta que se dá o nome de "ORDEM MARTINISTA" e que se diz sucessora regular da ORDEM DOS ELEITOS COENS, fundada no século XVII por Martinez de Pasqually. René Guénon não tardou a entrar nessa Ordem Martinista, na qual recebeu o primeiro, depois o segundo e o terceiro graus, tornando-se assim "SUPERIOR DESCONHECIDO". Nesse embalo, Guénon, tão ávido de conhecer quanto apto a assimilar, faz-se receber ainda em duas lojas maçônicas que sabe estarem em relação de amizade com a Ordem Martinista de Papus. Essas duas lojas são: 1) a "Loja Simbólica" "Humanidad", do "Rito Nacional Espanhol"; 2) o "Capítulo e Templo INRI", do rito original swedenborguiano. Foi nesse capítulo swedenborguiano que recebeu o Cordão Negro de "Cavaleiro Kadosch" (a palavra Kadosch significa Santo). Na mesma época começou a colaborar com a revista "Le Voile d'Isis". Foi ganhando aos poucos cada vez mais importância na redação e permaneceu-lhe extremamente fiel: pode-se mesmo dizer que foi ele quem lhe fixou a linha doutrinal, e continuou a enviar-lhe artigos quando residia no Egito. Foi essa revista que mudou de nome em 1933 para tornar-se "Les Études Traditionnelles". Ora, foi precisamente essa revista "Le Voile d'Isis" que ficou encarregada, em 1908, da parte administrativa do "Congresso Maçônico e Espiritualista" organizado em Paris na "Salle des Sociétés Savantes". René Guénon foi naturalmente designado "Secretário do Congresso" e integrou a Mesa. Assim, foi visto no estrado, condecorado com seu Cordão de Seda Negra de Cavaleiro Kadosch. Mas esse Congresso foi para Guénon a ocasião de uma virada importante, diríamos mesmo determinante, em consequência de um acontecimento imprevisto. Certos conferencistas sustentaram, a respeito da "IDENTIDADE ESPIRITUAL", isto é, sobre um ponto da mística iniciática particularmente delicado e importante, raciocínios que lhe desagradaram muito. Sem que se possa conhecer o detalhe da querela, sabe-se que ele deixou o Congresso muito descontente e que começou a partir de então a manifestar seu desacordo quanto à ORIENTAÇÃO RACIONALISTA DA F.M. ATUAL. Esse desacordo permaneceu desde então um dos elementos fundamentais da Doutrina e da Estratégia guenonianas. A BIFURCAÇÃO "para-maçônica" de Guénon, que constataremos adiante, data desse dia. Foi nesse Congresso de 1908 que Guénon encontrou outro personagem importante do mundo esotérico: FABRE DES ESSARTS, que não se deve confundir com Fabre d'Olivet, e que era muito mais conhecido por seu pseudônimo de SYNESIUS. Era patriarca da Igreja Gnóstica. Guénon pediu, evidentemente, ao Patriarca Synesius para ser admitido nessa Igreja, o que foi feito; tornou-se mesmo, no ano seguinte, em 1909, bispo gnóstico sob o nome de Palingenius (do greco-latim "Palingenius", nascido de novo, ou renascido). É desde então sob esse pseudônimo de Palingenius que escreverá, entre 1909 e 1912, grande número de artigos na revista "La Gnose". Se resumirmos a situação, constatamos que, entre 1906 e 1909, isto é, entre seus vinte e seus vinte e três anos, Guénon avançou a passos de gigante na carreira maçônica e esotérica: ouvinte da Escola Hermética de Papus, membro da Ordem Martinista com o grau de Superior Desconhecido, filiado à loja Humanidad, membro do Capítulo swedenborguiano INRI com o grau de Cavaleiro KADOSCH, redator da revista "Le Voile d'Isis", bispo gnóstico sob o pseudônimo de Palingenius, redator da revista "La Gnose". Resta que podemos perguntar-nos se se sentia à vontade nesses diversos agrupamentos, e a resposta seria que estava pela metade satisfeito, pelas seguintes razões. Constata que todas as doutrinas que lhe expõem são tão dessemelhantes que é impossível coordená-las para delas fazer um edifício único e estável, conforme a ambição comum de todos esses meios. Sua primeira censura é, pois, essa: apresentam-lhe doutrinas espiritualistas dessemelhantes e incapazes de constituir um corpo de doutrina coerente. Mas faz-lhes também uma segunda censura, muito mais grave, mais profunda, e é aí sem dúvida o golpe de gênio que lhe permitiu tornar-se o verdadeiro mestre da subversão espiritualista moderna nesta segunda metade do século XX. Diz-lhes: "É o espírito científico que vocês aplicam aos fenômenos espirituais. Vocês são Observadores de fenômenos e lhes aplicam o método experimental". Sem dúvida, constatou em seus amigos da Escola Hermética, da Ordem Martinista etc. a preocupação de devolver "às forças do Espírito" o seu primado, a preocupação de romper com o racionalismo da época anticlerical. Mas constata também que esse espiritualismo ainda é experimental, científico, empírico, "fenomênico": esses senhores buscam "poderes". Ora, ele tem a intuição de que essa ciência das "forças espirituais", que é de ordem religiosa, não deve partir de baixo para elevar-se depois, por indução, até leis. Tem a intuição de que existe uma antiquíssima ciência espiritual, rica em postulados a priori, uma Tradição arcaica, imutável, infalível, que foi esquecida e que é preciso restaurar. Pode-se dizer que a reação de Guénon diante do espiritualismo em uso naquele momento na França marca a entrada em cena de uma mentalidade e de hábitos de espírito novos e autenticamente originais. Eis, pois, René Guénon em divergência e em discussão com as organizações de que faz parte e, em particular, com o majestoso e pitoresco personagem de Papus. Julgou chegado o momento de reunir em torno de si as individualidades suficientemente livres de espírito para compreender sua nova posição, ao mesmo tempo espiritualista, tradicional, metafísica, contemplativa e intuitiva. Para fazer essa escolha de individualidades, recorrerá sobretudo ao pessoal da Escola Hermética e da Ordem Martinista. O negócio estava em preparação quando, no início de 1908, vários dos personagens interessantes e já pressentidos se reuniram num quarto de hotel no n.º 17 da rue des Canettes, perto de Saint-Sulpice, para discuti-lo. Ora, estando reunidos e cogitando, receberam certas "Comunicações em Escrita Direta", isto é, um deles pôs-se a escrever em escrita automática sob o impulso de uma "Entidade". E essa Entidade, que assim se manifestava, ordenou aos presentes que fundassem uma nova ordem, a Ordem do Templo, para a qual designava nominalmente René Guénon como chefe e Mestre. Note-se, detalhe importante, que Guénon não assistia a essa reunião. A reação de Guénon diante dessa proposta, que lhe foi imediatamente relatada, é totalmente característica de seu modo e até de sua doutrina em formação. Acolheu a proposta com dúvida, mas não soube precisar se suspeitava que os presentes tivessem sido vítimas de seu subconsciente e de seu mediunismo, ou se a entidade pertencia ao que mais tarde chamará as "Forças Intermediárias". O fato é que recusou obedecer à sugestão da Entidade da rue des Canettes e que não quis assumir a chefia dessa Ordem em formação nas condições propostas. De fato, a "Ordem do Templo" teve apenas uma existência efêmera, suficientemente longa, porém, para indispor Guénon com Papus, muito descontente por lhe terem arrebatado seus adeptos; seguiu-se uma verdadeira ruptura entre Guénon e a maioria das organizações que frequentara até então. Somente a revista "Le Voile d'Isis" constituiu exceção a essa ruptura geral, e foi graças aos artigos que passou a escrever nela regularmente que Guénon aderiu a uma terceira loja, a loja Thébah, que dependia da Grande Loja da França. Sem dúvida precisava dessa nova experiência, não estando ainda definitivamente formada sua opinião sobre a F.M., pois é lá, na loja Thébah, que seu juízo sobre o verdadeiro valor iniciático da F.M. tomará forma definitiva. Foi nessa loja que pronunciou, em 1913, uma conferência sobre o tema "O Ensino iniciático", cuja substância retomará depois em vários números da revista "Le Voile d'Isis". Durante a guerra de 14-18, a loja Thébah foi posta em sono e, quando, depois da guerra, foi reanimada, Guénon, absorvido pela redação de seus livros, deixou de frequentá-la, conservando nela, contudo, relações pessoais. A ideia de reunir em torno de si uma equipe de amigos fiéis e de colaboradores o persegue sempre; a tentativa infrutífera da "Ordem do Templo", que seria aliás necessário poder analisar, não o desanimou. E dá um novo passo com a fundação da Revista "La Gnose", órgão oficial da Igreja Gnóstica Universal. Essa revista apareceu de 1909 a 1912, e René Guénon foi de longe seu principal redator; é aí que porá a ponto, sob a forma de artigos avulsos, alguns dos elementos de sua futura doutrina – pois nessa data ainda não publicou nenhum livro, saindo o primeiro somente em 1921. Não se pode terminar este panorama das revistas de que então participava Guénon sem falar da mais curiosa delas, a revista "La France anti-maçonnique", dirigida por Clarin de la Rive. Pois é! Guénon-Palingenius, muçulmano, membro de três lojas, bispo da Igreja gnóstica, ex-membro da Escola Hermética, redator de "Le Voile d'Isis", de "La Gnose" e de outras, colaborava com "La France antimaçonnique" e sob um pseudônimo que deveria ter chamado a atenção, pois assinava "O Esfinge"! De julho de 1913 a julho de 1914, publicou nela uma série de artigos sobre a F.M. em que desenvolvia seus temas familiares. Quem é, pois, esse Clarin de la Rive? É um dos que levaram Léo Taxil a fazer suas famosas confissões. Ao ver-se a orientação de sua revista, dita antimaçônica, tem-se o direito de perguntar de que madeira se aquecia. SUA POSIÇÃO QUANTO À F.M. Essa aventura nos reconduz à nova posição de Guénon a respeito da Franco-Maçonaria, pois, se pôde enganar tanta gente naquela época e depois, é porque seu pensamento era suficientemente original para ser mal compreendido, lendo cada qual, através de seus próprios óculos, o que desejava ler nele, certos antimaçons em primeiro lugar. Antes de nos voltarmos para as influências orientais que acabaram por impor-se a Guénon, examinaremos, portanto, sua opinião sobre a F.M. tal como a encontramos formulada num artigo de "Les Études Traditionnelles" (novo nome da revista "Voile d'Isis" depois de 1935). Nesse artigo, publicado muito tempo depois da guerra de 14-18, em junho de 1937, Guénon desenvolve as grandes linhas de sua conferência de 1913 na loja Thébah. Essa opinião pode resumir-se em duas proposições: 1 – Considera que a F.M. transmite uma iniciação autêntica quanto à regularidade da "cadeia" de que detém a sucessão. 2 – Mas considera também que a F.M. foi palco de uma degenerescência na ordem doutrinal; essa degenerescência doutrinal coincidiu com a transformação da Maçonaria OPERATIVA, isto é, aquela que reunia verdadeiros Arquitetos de ofício na Idade Média, em Maçonaria ESPECULATIVA, isto é, aquela que passou a reunir não mais arquitetos, mas Ideólogos. Ao fim desse período de transformação, que se inicia com o Humanismo e termina em 1717 com as "Constituições de Anderson", a F.M. adotara a FILOSOFIA MODERNA e abandonara, se não a letra, ao menos o espírito da TRADIÇÃO. Não obstante, René Guénon considera que a incompreensão metafísica dos "Maçons especulativos modernos" não altera o valor próprio dos Ritos de que a F.M. ainda é DEPOSITÁRIA; afirma que a Filiação Iniciática não está interrompida e que, por conseguinte, a INICIAÇÃO MAÇÔNICA continua válida e transmite autenticamente a INFLUÊNCIA ESPIRITUAL desejada. Acabamos de dizer que a Degenerescência Doutrinal da F.M. se produziu durante o período compreendido entre a Renascença e as Constituições de Anderson. Tal é, ao menos, a primeira opinião de Guénon, a que exprime em sua famosa conferência na Loja Thébah, em 1913, e que publicou em 1937. Essa opinião revelava já nele uma feição de espírito pré-humanista, antiumanista, para tudo dizer medieval e contemplativa. Ora, essa feição de espírito pré-humanista ele a acentuou ainda muito mais tarde em seu livro "Aperçus sur l'Initiation" ("Considerações sobre a Iniciação"), publicado em 1945, ao declarar que, em sua opinião, a Degenerescência Doutrinal, isto é, a perda do esoterismo tradicional, remontava a uma data mais antiga e que era preciso situá-la no século XIV, à época em que os autênticos Rosa-Cruzes deixaram a Europa, enojados com o racionalismo invasor, para refugiar-se no Oriente. Essa afirmação de Guénon, que não se apoia em nenhuma prova, é interessante porque denota uma feição de espírito fundamentalmente pré-humanista e mostra que o autor não hesitava em encarar uma reformulação radical do pensamento ocidental e em preconizar o retorno à mentalidade da Idade Média. O episódio da loja Thébah foi, portanto, uma experiência complementar e decisiva. Rompe com a Mentalidade de PROGRESSO para voltar-se a uma religiosidade de estilo nitidamente retrógrado, de estilo contemplativo. Naturalmente, ao manifestar suas desilusões e suas críticas ao término de suas "Experiências Maçônicas", Guénon atraiu para si algumas inimizades pessoais. Mas a F.M. nunca lhe manifestou hostilidade sistemática, e essa ausência de hostilidade é compreensível quando se percebe bem que Guénon mantinha, apesar de suas críticas "doutrinais", o essencial, a saber, a regularidade e a autenticidade da transmissão iniciática. Ao término dessa constatação, podemos perguntar-nos, como faz um de seus biógrafos, Jean Robin, o que Guénon fora fazer nas Lojas: foi lá para instruir-se ou para inspecionar? Jean Robin, um dos mais entusiastas discípulos de Guénon, faz a pergunta e responde dizendo que Guénon frequentara as Sociedades Iniciáticas Europeias para inspecioná-las e sondar-lhes a regularidade e a autenticidade iniciática. Acrescenta que, agindo assim, Guénon cumpria uma "Função", melhor, uma "Missão", e até uma missão de origem providencial, movido que era pela Divindade... AS INICIAÇÕES ORIENTAIS Além dos contatos que estabelecia nos meios ocultistas e maçônicos, René Guénon passara, mas com surpreendente discrição, a informar-se sobre as "Doutrinas Orientais". Num primeiro momento, contatou ORIENTALISTAS EUROPEUS e, em seguida, ORIENTAIS AUTÊNTICOS. Entre os ORIENTALISTAS EUROPEUS, os dois principais são: Léon CHAMPRENAUD e Albert de POUVOURVILLE. – Léon CHAMPRENAUD (1870–1925) – Professor assistente na Escola Hermética de Papus quando Guénon o conheceu, era igualmente redator de uma revista intitulada "L'Initiation" e, por fim, secretário-adjunto da Ordem Martinista. Mas o mais importante é que Champrenaud se afastou progressivamente do ocultismo de Papus, que lhe parecia enveredar por um beco sem saída, e voltou-se para as DOUTRINAS ORIENTAIS. Champrenaud escreveu então uma obra, "Matgioi e as Sociedades Chinesas", seguida de um resumo sobre a Metafísica Taoísta. Mas foi finalmente para o Islã que se encaminhou, e acabou por entrar nessa religião sob o nome de ABDUL-HAQQ, nome que significa: servo da Verdade. – Albert de POUVOURVILLE (1862–1939) – Oficial e depois Administrador no Tonquim – De bela presença e comportamento autoritário, deixou o Tonquim para passar à China meridional e começou a frequentar dois iniciados chineses, Tong-Sang N'Guyen e Duc-Luat, personagens importantes do Taoísmo. Tanto fez que recebeu a iniciação taoísta sob o nome de MATGIOI, nome que significa "Olho do Dia". De volta à França, Albert de Pouvourville entrou no movimento ocultista, onde conheceu Champrenaud. Escreveu então, sob o nome de Matgioi, duas obras: "A Via Metafísica" e "A Via Racional", que causaram em René Guénon a mais profunda impressão (daí as reminiscências constantes que se encontram em seus próprios livros). Durante sua formação, Guénon estava, portanto, em relações permanentes com o muçulmano Abdul-Haqq (Léon Champrenaud) e com o taoísta Matgioi (Albert de Pouvourville). Mas Champrenaud e Pouvourville eram ainda apenas ORIENTALISTAS EUROPEUS. A curiosidade de Guénon só ficou satisfeita quando ele entrou em contato com verdadeiros ORIENTAIS. Todos os biógrafos são categóricos quanto à realidade desses contatos orientais, mas tornam-se muito misteriosos quando se trata de dar precisões. O que é certo é que Guénon aprendeu sânscrito e árabe com orientais residentes em Paris, assim como se fez instruir nas Três Religiões — hinduísta, taoísta e islâmica — por "Mestres" dos países correspondentes que praticavam efetivamente essas Religiões, mas moravam em Paris. Para o Hinduísmo, teve um ou, antes, vários mestres hindus e recebeu deles uma iniciação elevada. Foi mesmo essa iniciação (segundo Paul Chacornac) que deixou nele os traços mais profundos e determinou o PLANO de todo o seu sistema, de toda a sua construção doutrinal. Para o Taoísmo, já bem instruído por Matgioi (Pouvourville) no plano teórico, Guénon recebeu também o ensino prático de um mestre chinês residente em Paris; houve ali também uma nova iniciação? Seus biógrafos não são muito claros a esse respeito. Para o Islã, mais exatamente para o Sufismo, que é o esoterismo islâmico, a iniciação de Guénon é mais curiosa, pois foi realizada por um pintor sueco, ele próprio tornado muçulmano ao fim de um périplo pouco comum, que vale a pena relatar. O pintor John Gustaf AGUELI era filho de um veterinário sueco; terminados os estudos secundários em Estocolmo, pôs-se a pintar paisagens suecas, depois expôs em Paris em 1890 e alcançou certa notoriedade sob o pseudônimo de Ivan Aguéli. Sobretudo, frequenta a "Sociedade de Teosofia", os meios anarquistas e a poetisa socialista Marie Huot; é então preso por ter dado asilo a uma anarquista procurada pela polícia e passa assim alguns meses na prisão; aproveita para trabalhar e, graças a um incrível dom para as línguas, aprende hebraico, árabe e malaio; lê também a Bíblia, Fabre d'Olivet e Swedenborg. Ao ser libertado, parte para o Egito, onde faz esboços, depois volta a Paris e matricula-se na "Escola de Línguas Orientais" para aperfeiçoar seus conhecimentos. Em 1897 tornou-se muçulmano; foi em Paris ou na Suécia? Não se sabe. Seus biógrafos confessam não poder esclarecer o mistério. Sua nova religião não o impediu de estudar o Budismo e de ir às Índias e ao Ceilão. Ao cabo de alguns meses voltou à França e em Paris conheceu um médico italiano, Enrico Insabato, animado pelo desejo de aproximar o Oriente e o Ocidente; ambos partem para o Egito a fim de trabalhar na realização desse vasto projeto. Foi durante essa segunda viagem ao Egito que Aguéli encontra e frequenta um alto personagem do Islã, versado tanto na ordem exotérica quanto na ordem esotérica, o Sheikh ELISH. E esse grande personagem iniciou Aguéli, que era muçulmano, no SUFISMO e fez dele até seu representante para a Europa, sob o nome de ABDUL-HÂDI. É, portanto, na qualidade de muçulmano sufi que Abdul-Hâdi tomou novamente o navio para a França: depois de Marselha e Genebra, chegou a Paris, onde conheceu Guénon e sua revista "La Gnose". Estamos em 1910. Imediatamente começou uma estreita colaboração, e Aguéli escreveu em "La Gnose". Tal é, portanto, o personagem que dará, em 1912, a iniciação sufi a René Guénon: transmite-lhe a "Baraka" da parte de seu Mestre, o Sheikh Elish, do Egito, e Guénon tornou-se assim o Sheikh ABDEL WAHED YAHIA. Muito mais que seu iniciador Abdul-Hâdi (Aguéli), Guénon levou a sério seu islamismo e, mesmo vivendo em Paris, fez dele, segundo a expressão de suas biografias, "Sua Via Pessoal": o Islã foi, portanto, a religião exotérica que decidiu praticar de preferência a todas as que conhecera anteriormente, e notadamente ao catolicismo. Pode-se estranhar essa escolha, sobretudo quando se conhece o prestígio de que o hinduísmo gozava a seus olhos; como explicá-la? Talvez por considerações concretas: com efeito, a prática exterior da observância hinduísta é materialmente complicada e normalmente subordinada à pertença a uma casta, na qual só se pode entrar pelo nascimento, o que não era o caso de Guénon; mas talvez tivesse outras razões, mais profundas, ligadas à natureza particular do esoterismo islâmico... Em suma, eis Guénon muçulmano em 1912, e é nessa religião que morrerá no Cairo em 1951. Notemos de passagem que esse ano é também o de seu casamento em Blois com Berthe Loury, casamento católico, como vimos. Guénon era muçulmano em 11 de julho de 1912? Nada sabemos, e, aliás, isso pouco importa, pois um mês antes ou depois sua escolha estava feita in pectore. O que é certo é que nunca revelou sua nova religião à esposa, o que é verdadeiramente o cúmulo do esoterismo e atesta um dom muito apurado para o disfarce. Eis, pois, Guénon casado e de posse de sua bagagem doutrinal. Realizou em pouco tempo, apenas cinco ou seis anos, um vasto périplo através das Sociedades de Pensamento e das Congregações iniciáticas, cuja Regularidade iniciática e Degenerescência doutrinal pôde avaliar. Foi inicialmente impelido a fazer semelhante inspeção? Sem dúvida não, mas o que parece certo é que, ao fim do périplo, foi recuperado por Hinduístas Orientais "Conscientes e Organizados", e desde então é o hinduísmo que vai dominar em seu espírito, e são todos os hábitos mentais do hinduísmo que ele vai repercutir em seu ensino. Qual é exatamente o estatuto dessa Simbiose, quais são os termos do contrato entre Guénon, os Hinduístas e o Hinduísmo? É até hoje impossível sabê-lo; mas o mais importante para nós, e isso é certo, é saber que desde esse momento, por volta de 1910, Guénon se quer não apenas agente de uma ligação entre Oriente e Ocidente, mas sobretudo agente de uma verdadeira penetração do Ocidente pelo Oriente: essa certeza salta aos olhos a cada instante e a cada linha de suas diversas obras. A OBRA ESCRITA DE RENÉ GUÉNON Essa obra se distribui em vários períodos que marcam uma evolução no pensamento e na produção de Guénon: nós a exporemos aqui em ordem cronológica. O primeiro período é o dos Artigos publicados em diversas revistas, como "Le Voile d'Isis", tornada "Les Études Traditionnelles", e "La Gnose", e estende-se de 1907 a 1914. Aí se encontra o estoque que será utilizado mais tarde, seja pelo próprio Guénon, seja por suas obras póstumas. O período parisiense compreende os anos de 1921 a 1929: 1921 "Introdução geral ao estudo das doutrinas hindus", que já citamos várias vezes e que exprimiu a base do sistema. 1922 "O Teosofismo", história de uma falsa religião, sublinha as fraquezas da primeira grande empresa de penetração oriental, nascida em 1875 no meio inglês hinduizante, a "Sociedade Teosófica" da Sra. Blavatsky. 1923 "O Erro Espírita", livro copioso, com muitos documentos; o autor faz nele o processo do Espiritualismo com uma argumentação muito próxima da que um católico poderia ter: os espíritas entram em contato com INFLUÊNCIAS ERRANTES, diríamos nós "os demônios". Não obstante, a diferença das expressões é significativa. Não se deve esquecer que esses dois livros, "O Teosofismo" e "O Erro Espírita", contribuíram poderosamente para fazer Guénon passar por um homem de ordem, um antissubversivo, um tradicionalista, um nacional: era o começo de um longo erro cuidadosamente mantido por todos os que têm interesse em nos fazer tomar gato por lebre. 1924 "Oriente e Ocidente": Estuda as condições de uma aproximação possível e inelutável entre o Oriente e o Ocidente; para isso, o Ocidente deve abandonar as ideologias do século XVII, das quais vieram todos os males: racionalismo, tecnicidade, Revolução. Mais ainda, deve abandonar o "Preconceito clássico", greco-latino, e essa mentalidade do legionário e do jurista romanos que tudo esclerosou. E deve, ao contrário, reencontrar as tradições profundas subjacentes ao Cristianismo e incluídas no Hinduísmo; é preciso que o Ocidente reencontre "os princípios de uma metafísica" autêntica ainda conservada no Oriente. 1925 "O homem e seu devir segundo o Vedanta": é o desenvolvimento da "Introdução" e de "Oriente e Ocidente". 1926 "O Esoterismo de Dante" – Guénon não é o único a ter escrito sobre esse assunto, nem mesmo o primeiro, pois já havia existido um "Dante Herético". Guénon não diz que Dante é herético, ao contrário, e para ele é essencial fazer notar que o Esoterismo se sobrepõe à Religião sem opor-se a ela. E felicita também Dante por ser gibelino, isto é, partidário do Imperador contra o Papa. Desenvolverá logo tudo isso em "Autoridade espiritual e Poder Temporal". 1927 "O Rei do Mundo", reeditado em 1950, trata da famosa questão de AGARTHA, "Centro Espiritual" onde residiria o REI DO MUNDO. Guénon não é o primeiro a falar dessas noções, e Saint-Yves d'Alveydre em sua "Missão da Índia", bem como Ossendowski em "Feras, homens e Deuses", já haviam tratado da questão. Guénon fala dela, por fim, em termos gerais bastante vagos: teoria dos "Centros Espirituais", dos "Centros Maiores", Agartha, Tibete. Parece, contudo, que essa divulgação acarretou um desacordo entre Guénon e seus informantes hindus, e uma interrupção de suas relações. 1927 "A Crise do Mundo Moderno" retoma os temas de "Oriente e Ocidente". Expõe primeiro a Teoria hindu dos "Ciclos Cósmicos" e considera que nossa época pode ser identificada com o "último período do ciclo KALI-YUGA" (Era Sombria); estamos, pois, no fim de um dos grandes ciclos que regem o desenvolvimento da humanidade. Em seguida analisa as características da Civilização Moderna: prioridade da ação sobre o conhecimento, "erro profano" que laiciza a Ciência e a desvia para a Técnica. Indica, por fim, o remédio para esse mal: constituir uma ELITE OCIDENTAL que tenha reencontrado o sentido profundo da Tradição; não se trataria de orientalizar o Ocidente, mas de provocar o "Despertar espontâneo de suas possibilidades latentes". Como se vê, os termos escolhidos são suficientemente gerais para serem suscetíveis de várias interpretações e, portanto, enganar os que devem ser enganados. Pois Guénon acrescenta que a Igreja Católica é uma das Organizações Tradicionais que subsistem no Ocidente e que bastaria devolver à doutrina da Igreja o sentido profundo e oculto que ela contém em si mesma, mas que negligenciou desde o século XVI. Esse trabalho de aprofundamento lhe permitiria, além disso, retomar consciência de sua unidade com "as outras formas tradicionais". Não é preciso ser grande doutor para ver despontar no horizonte o Ecumenismo, não por sincretismo, mas por pluralidade. Não obstante, este livro "A Crise do Mundo Moderno" acaba de fazer Guénon passar por um dos mestres de pensamento da Reação Nacional: não se ia buscar mais longe que a crítica do mundo moderno, e viram-se Léon Daudet, Jacques Bainville e Gonzague Truc fazer-lhe o elogio nos meios da Action Française. Dever-se-ia, contudo, ter visto também a armadilha destinada a desviar-nos para a Tradição pagã, sob pretexto de nos fazer reencontrar um pretenso FUNDO da tradição cristã. Os únicos a não se deixarem enganar foram o jornal "Gringoire" e sobretudo a Revue Internationale des Sociétés Secrètes (RISS), com Charles Nicoullaud. 1929 "Autoridade Espiritual e Poder Temporal" – Inspirado pela condenação da Action Française por Roma em 20 de dezembro de 1926, forma um todo com as obras anteriores. A tese da obra é que no Ocidente e na Igreja esses dois poderes estão separados, ao passo que no Oriente a tendência é a sacralização do Temporal. No início do ano de 1930, René Guénon instalou-se no Cairo para nunca mais voltar à Europa, e sua islamização pôde revelar-se à luz do dia; contudo, a série de livros que então produz não trata do Islã, mas do esoterismo cristão e do hinduísmo. 1931 "O Simbolismo da Cruz", composto no Cairo, mas editado na França, é de fato o desenvolvimento de um artigo publicado em 1911 na revista "La Gnose". A obra é dedicada, em plena primeira página, "à Memória venerada de ES-SEIKH-ABDER-RAHMAN ELISH EL-KEBIR (o servo do Deus Grande), a quem se deve a primeira ideia deste livro. Mísr EL-QAHIRAH 1329–1349 H." Eis, pois, o "Simbolismo da Cruz" posto sob a égide do Crescente, e o crescente pode interpretar-se como: Sem Cruz. O simbolismo católico da Cruz é em toda parte clássico e claro: o braço vertical significando a paternidade divina de NSJC, de cima para baixo, do céu para a terra, enquanto o braço horizontal representa a fraternidade humana de NSJC, o conjunto, o cruzamento, sendo a união hipostática. Por outro lado, a parte visível da cruz é a Igreja e reproduz a forma do corpo físico de NSJC, é a sombra projetada dele, o Corpo Místico, enquanto a parte oculta, que está na terra, é a Igreja dos não batizados que serão salvos pelo "batismo de desejo". 1932 "Os estados múltiplos do Ser" – Este livro forma um conjunto com duas outras obras publicadas anteriormente: "O Homem e seu destino segundo o Vedanta" e "O Simbolismo da Cruz". Guénon nos explica nele que a Tradição Hindu, à qual se refere sem cessar, e sempre com muita imprecisão, é formulada por quatro coletâneas fundamentais, os Vedas, cuja origem seria supraindividual e não humana. 1945 "O Reino da Quantidade" – É a continuação de "A Crise do Mundo Moderno", caracterizada por uma crítica da civilização tecnicista; essa obra confirmou Guénon em sua posição de doutrinador da Reação. 1945 "Considerações sobre a Iniciação" – em que expõe os meios de passar do conhecimento teórico, livresco, ao que chama de REALIZAÇÃO ESPIRITUAL. Diz que a INICIAÇÃO é a transmissão de uma Influência espiritual. O iniciado se encontra assim num estado edênico; depois pode elevar-se aos estados superiores do Ser e chegar a um estado chamado indiferentemente Libertação ou Identidade Suprema. Renova sua afirmação segundo a qual a F.M. é a única organização ocidental que tem uma origem TRADICIONAL autêntica, mas não se deve esquecer que ele diz o mesmo da Igreja Católica. 1945 "Os Princípios do Cálculo Infinitesimal" – É um assunto que lhe é caro havia muito tempo e no qual volta à distinção entre o Infinito e o Indefinido. 1946 "A Grande Tríade" é seu último livro – Refere-se nele à Tradição Chinesa, por reminiscência do Taoísmo em que foi iniciado. A Grande Tríade, Céu, Homem, Terra, é uma cosmologia ternária. É também o nome de uma grandíssima seita chinesa, comparável à F.M. na Europa. A essa lista é preciso acrescentar duas obras póstumas: 1952 "Iniciação e Realização Espiritual" – que resume artigos publicados nas "Études Traditionnelles" e que é a continuação de sua obra "Considerações sobre a Iniciação". 1954 "Considerações sobre o esoterismo cristão" – É igualmente uma coletânea de artigos publicados na mesma revista e constitui a continuação de "O Esoterismo de Dante". ESTRATÉGIA E TÁTICA GUENONIANAS Entre 1910 e 1920, Guénon amadureceu lentamente seu pensamento e tornou-se um verdadeiro chefe de escola. Fez uma rápida inspeção das "congregações iniciáticas" e distinguiu a Iniciação regular, com a qual aceita colaborar mediante fortes reservas no plano doutrinal, das Pseudo e das Contra-Iniciações. Entrou em contato com orientais, converteu-se ao Islã e instruiu-se nos esoterismos hindu e chinês. Por outro lado, desobstruiu o terreno de duas ideologias de tipo orientalista que atrapalhavam a propagação do Orientalismo Autêntico. Instruiu em seguida seus discípulos, e restaria estudar sua doutrina tal como emerge de suas numerosas obras. Mas antes convém tomar contato com a estratégia e a tática guenonianas, pois isso é indispensável para apreender bem o desenvolvimento da doutrina. Essa Estratégia e essa tática se depreendem de duas fontes, os livros e os fatos, tendo cada fonte seus limites e seu interesse próprios: sem coincidir exatamente, recobrem-se, contudo, em grande parte, de modo que, conjugando-as, chega-se a ver com suficiente clareza as intenções guenonianas. ESTRATÉGIA A ESTRATÉGIA guenoniana é amplamente desenvolvida em sua primeira grande obra, "Introdução geral ao estudo das doutrinas hindus", publicada em 1921. Nessa obra, Guénon preconiza a formação de uma ELITE OCIDENTAL que se instruiria nos ensinamentos da TRADIÇÃO ORIENTAL. Com vistas a quê? Com vistas a preparar o RETORNO DO OCIDENTE AO ORIENTE, retorno que não pode deixar de produzir-se um dia. Em que condições se pode imaginar que se produza esse retorno do Ocidente ao Oriente? Guénon faz três hipóteses. 1.ª Hipótese: Desmoronamento do Ocidente por excesso de materialismo. Diz que houve, ao longo da História, civilizações brilhantes que desapareceram. A hipótese de um desmoronamento não deveria, portanto, ser afastada. Ele vê a Barbárie instalar-se no Ocidente, mas não diz por qual mecanismo, excesso de autoridade ou anarquia. Nessa hipótese, o Mal já não estaria sujeito a nenhuma terapêutica. 2.ª Hipótese: os Orientais invadem o Ocidente para salvá-lo da decadência. Singular hipótese no plano histórico e político, que dificilmente se imagina, mas que é preciso admitir em teoria para seguir o autor. Nessa hipótese, Guénon pensa em amortecer o Choque psicológico que representaria essa invasão do Ocidente por orientais e, para isso, prevê e preconiza, desde hoje e em previsão, a constituição de um Núcleo Intelectual, de uma Elite espiritual, "imprimindo uma direção que, aliás, não teria de modo algum necessidade de ser consciente para a massa" (Introdução ao Estudo das Doutrinas Hindus). Será, portanto, uma ELITE ESOTÉRICA, oculta, que se entregará a uma ação ENCOBERTA, discreta, secreta, com o fim de fazer os ocidentais aceitarem a Hegemonia Espiritual das Congregações iniciáticas Orientais quando chegar o momento da invasão. 3.ª Hipótese: O Ocidente organiza espontaneamente seu retorno à Tradição Oriental, retorno que é fatal. Nesse caso, também é necessária uma Elite Espiritual, um núcleo intelectual, para preparar, promover e facilitar essa Orientalização do Ocidente. Ouçam apenas Guénon dizer-nos como vê a coisa: "A Idade Média nos oferece o exemplo de um desenvolvimento tradicional propriamente Ocidental. Se há uma Tradição Ocidental, é aí que ela se encontra; essa Tradição era então concebida em modo religioso, mas não vemos que o Ocidente seja apto a recebê-la de outro modo, hoje menos que nunca. Bastaria que alguns espíritos apenas tivessem consciência da UNIDADE ESSENCIAL de todas as Doutrinas Tradicionais em seu Princípio". (Introdução às Doutrinas Hindus – p. 338) Em claro, isso quer dizer: uma Elite que retome o CRISTIANISMO MEDIEVAL e o trabalhe até fazê-lo exprimir sua quintessência simbólica, esotérica, metafísica, oriental. Pois, para Guénon, não se trata de lançar-se a uma Restauração religiosa pura e simples; com efeito, "É de METAFÍSICA que se trata essencialmente. Para a ELITE de que falamos, a Tradição não foi concebida no modo especificamente religioso. O que deve desempenhar o primeiro papel é a compreensão das questões de princípio. E essa compreensão implica a assimilação dos modos essenciais do pensamento oriental; aquilo de que se trata pode já ser pressentido pelo pouco que dissemos a respeito da Realização Metafísica. Mas indicamos ao mesmo tempo as razões pelas quais não nos era possível insistir mais. É aí que se deve sempre recordar que, segundo a fórmula extremo-oriental, 'aquele que sabe DEZ não deve ouvir senão NOVE'." (Introdução às Doutrinas Hindus – p. 342). Tal será, portanto, na hipótese em que o Ocidente decidisse organizar espontaneamente seu Retorno à Tradição Oriental, o Trabalho da Elite guenoniana. Convém, por fim, perguntar por que Guénon procura aproximar assim o Oriente e o Ocidente. Ele próprio nos dá duas razões: primeiro, para benefício recíproco do Oriente e do Ocidente, mas também "por certas outras razões que não nos é possível abordar e que se prendem sobretudo ao sentido profundo dessas leis cíclicas das quais nos limitamos a mencionar a existência". (Introd. Doutr. Hindus – p. 341). Em sua obra "Introdução geral ao estudo das doutrinas hindus", Guénon nos informa assim sobre sua estratégia doutrinal; sua obra doutrinal é ditada pela ideia de realizar a simbiose "Oriente–Ocidente", mas naturalmente em proveito de uma DIREÇÃO ORIENTAL que se impõe por duas razões: primeiro, em virtude da superioridade dos métodos orientais de meditação, notadamente da superioridade da Via Metafísica sobre a Via Mística; depois, em virtude da maior fidelidade do Oriente à "Grande Tradição Primordial". TÁTICA A TÁTICA, os meandros do pensamento e da ação para realizar a ideia estratégica, é menos evidente à primeira vista, mas somente à primeira vista: para quem uma certa prática tornou familiar a história guenoniana, a linha seguida é, ao contrário, muito certa e, se não é simples, é complexa como a vida, mas sua direção é única e segura. Para além dos livros, cuja conta fizemos num capítulo anterior, é na ação guenoniana que buscaremos doravante essa direção. Previamente, seria preciso poder estabelecer um dos pontos mais controversos, o da inspiração de René Guénon: é tarefa difícil, sobre a qual os próprios discípulos estão em desacordo. Duas teses estão em presença: – Ou Guénon foi formado por iniciadores orientais que lhe ensinaram tudo e, nesse caso, sua obra teria sido apenas uma transmissão adaptada. – Ou, por um trabalho pessoal encarniçado, teria realizado uma compilação magistral que tentou impor ao espírito de seus contemporâneos como doutrina ao mesmo tempo antiga e original. O exame dessa questão exigiria, por si só, um boletim inteiro, e é cedo demais para nos comprometermos nele, o que não significa de modo algum que não tenhamos opinião a respeito. O fato é que o desenvolvimento da ação guenoniana manifesta uma evolução evidente, uma evolução em dentes de serra, com avanços e recuos. Simples aparência, ou realidade? Não nos cabe decidir aqui, e ater-nos-emos à só "manifestação". Essa constatação de evolução não é aliás uma crítica estéril e sublinha o pragmatismo que permitia a Guénon conviver com os meios mais diversos, até os mais opostos. Evidentemente, para ter êxito nisso era preciso certa dose de duplicidade, mas todo esoterista é, por definição, largamente provido dela: com efeito, o relativismo inerente ao esoterismo reconduz todas as posições à unidade e fundamenta de algum modo essa duplicidade de uso externo. Para simplificar as coisas, podem-se distinguir alguns estágios, mais ou menos cronológicos, nessa evolução. A primeira é a de seus anos de formação, grosso modo até a guerra de 1914, em que o vemos misturar-se aos meios ocultistas situados à margem da Franco-Maçonaria e depois entrar em loja. Pode-se dizer que percorre todo o leque subversivo, do espiritualismo ao racionalismo, não hesitando sequer em tornar-se bispo gnóstico. Já nessa fase distinguem-se bem seu olhar crítico e suas hesitações sobre o melhor caminho, o mais eficaz: quando seus amigos, seus primeiros discípulos, quiseram fundar uma nova Ordem do Templo destinada a fazer a síntese de todas as correntes, ele não se entusiasmou muito, sentindo bem que semelhante iniciativa não faria senão acrescentar um grupo a mais à multidão de todos os que haviam surgido nos últimos trinta anos. Sem dúvida — e neste ponto seria interessante ter seu testemunho direto —, compreendeu bastante cedo que esse meio ocultista era, por natureza, um mundo marginal que jamais poderia propagar-se como mancha de óleo no grande público, tanto mais que, naquele tempo, há 70 anos, a descristianização não era tão visível quanto em nossos dias. A segunda etapa: entrou então em relação com o meio católico, e não dos menores, o dos jovens intelectuais do Instituto Católico de Paris, com Maritain, o da primeira fase, antes de sua adesão à Revolução: meio da renovação filosófica e, mais amplamente, da renovação doutrinal. Compreende-se que Guénon, com suas teses de crítica do mundo moderno e de referência constante à Tradição, tenha podido iludir pessoas que ignoravam tudo de suas fontes, a ponto de alguns desses jovens intelectuais católicos terem tido grande dificuldade em se defender dele; pode-se até perguntar se alguns algum dia se desprenderam dele..., mas disso falaremos mais adiante. A terceira etapa, que se sobrepõe cronologicamente à precedente, é a das relações de Guénon com os meios antimaçônicos. Questão difícil de tratar desde que nos dirigimos a leitores não necessariamente esclarecidos sobre essas matérias. Basta dizer que Guénon soube jogar com muita destreza com o duplo rosto maçônico, racionalista e espiritualista, e que, em suas relações com os antimaçons da época, procurou constantemente "embaralhar as pistas", apoiando-se nas divisões de seus interlocutores, divisões ligadas às pessoas e, mais profundamente ainda, às doutrinas. Pois, entre os antimaçons daquele tempo, a oposição era nítida entre os que faziam uma crítica puramente racionalista e política da F.M. e que, por isso, se cegavam quanto à sua realidade profunda, e aqueles que, tendo uma visão muito mais ampla, sabiam distinguir os diversos rostos da Seita e uni-los numa mesma síntese crítica. Também aí faltou pouco para que Guénon conseguisse passar por um verdadeiro antimaçom, e parece mesmo que somente a guerra de 1914 o impediu de tornar-se diretor da revista "La France Antimaçonnique"! Mas as análises implacáveis da RISS bastaram para abrir os olhos dos que quiseram abri-los; que alguns tenham podido ser enganados é outra questão. Afastado dos meios intelectuais católicos, queimado junto aos verdadeiros antimaçons, Guénon dirigira também seus esforços noutra direção, a de certo misticismo cristão. Por mais escandalosa que possa parecer, não se deve surpreender demais com essa manobra, pois a mística, por natureza, presta-se a esses desvios; é aliás por essa razão que a Igreja, mãe previdente e experiente, sempre foi tão prudente, diríamos mesmo desconfiada, diante das manifestações místicas. Com efeito, desenvolveu-se entre as duas guerras, sempre no quadro da renovação católica, toda uma pesquisa mística centrada no tema do Sagrado Coração e muito orientada para o simbolismo. Foi o que permitiu a Guénon infiltrar-se nela a ponto de poder publicar numerosos artigos nas revistas dessa corrente. A Hierarquia teve aliás de intervir para pôr termo a essas iniciativas muito contestáveis. Quando, em 1930, Guénon decide partir para o Egito e acaba por lá ficar, já esgotou as possibilidades de difusão de seu pensamento e deu-se conta de que, fora do meio de seus discípulos diretos, não conseguira penetrar eficazmente. Mantendo-se aberto a outras vias eventuais, decide então tomar um caminho mais direto, o seu havia vinte anos, o do orientalismo prático; dizemos bem prático, pois no plano teórico isso estava realizado havia muito tempo. É interessante notar que não é para as místicas extremo-orientais que se volta e que orienta seus discípulos, como se poderia ter pensado, já que ensinava publicamente o Vedanta e as doutrinas hindus; a via mística recomendada é o Islã — e ele próprio era muçulmano havia vinte anos e partia para estabelecer-se num país muçulmano no seio do qual devia fundir-se. Um de seus discípulos, Frithjof Schuon, jovem alsaciano de 25 anos, partiu para a Argélia para ser iniciado numa confraria mística muçulmana, depois voltou no fim de 1933 e pôs-se a iniciar, por sua vez, por delegação, uma centena de outros guenonianos, fundando filiais em diversas cidades da França e da Suíça. Por sua própria confissão, Guénon via nessa direção a melhor fórmula, mas pretendia bem não fechar outras vias. Assim, outro de seus discípulos, Marcel Clavelle (Jean Reyor), dedicou-se antes a escavar na linha do Esoterismo Cristão, tentando até revivificar uma hipotética Fraternidade do Paráclito; o que não o impedia de fazer-se iniciar também no Islã esotérico, talvez sem acreditar muito nele. Por outro lado, os laços maçônicos não estavam rompidos e, no quadro da renovação espiritualista da Franco-Maçonaria do pós-guerra, uma loja especial, "A Grande Tríade", reunindo unicamente guenonianos, foi criada em 1947 no âmbito da Grande Loja da França, com a bênção muito especial do próprio Guénon; essa organização ainda está em atividade atualmente... Essa diversidade, da qual só demos uma imagem tênue, mostra que, depois da partida do Mestre para o Oriente Próximo, os discípulos exploraram paralelamente diversas vias entre as quais não faltavam numerosas pontes. Como interpretar esse pluralismo? De duas maneiras complementares. Essa multiplicidade de formas permite satisfazer temperamentos diferentes, assegurando ao mesmo tempo a unidade de fundo, trate-se do Islã místico, do Cristianismo esotérico ou do Simbolismo maçônico. É, por exemplo, certo que boa parte dos primeiros iniciados de Schuon não conseguiu suportar o Islã por muito tempo e passou a outras vias esotéricas. Esse pluralismo permite sobretudo "trabalhar" meios diversos, até opostos, podendo cada um penetrar onde seus outros irmãos em guenonismo não o poderiam. Foi assim que Jean Reyor pôde levar ao meio clerical suas pesquisas sobre o esoterismo cristão, iniciativa que reencontramos hoje com o padre Stéphane e Jean Borella... Com efeito, é certo que Guénon, e seus discípulos depois dele, nunca renunciaram ao seu triplo empreendimento: orientalizar o Ocidente, revivificar a Franco-Maçonaria e perverter o Cristianismo por dentro sob a aparência de espiritualismo, tudo isso em nome e sob o pretexto da luta contra o materialismo e o racionalismo. Como não ver que, de alguns anos para cá, sob a influência de numerosos fatores e graças a múltiplas cumplicidades eclesiásticas, eles percorreram muito caminho nessa direção? É o que nos restará examinar nos próximos números. J.V. / P.R. A Revolução Sexual - 5 EUTANÁSIA: O fim lógico do Macaco A ÚLTIMA CONSPIRAÇÃO Esse macaco normalizado que os Grandes Sacerdotes da Ciência e do Progresso, deuses da nova religião totalitária, fabricam pouco a pouco, de maneira suave e lúdica, assemelha-se ao Homo Biologicus cuja elaboração Jean Rostand havia previsto. O biólogo, triste mas irônico, fazia falar esse artefato: "Nasci de uma semente selecionada e irradiada por nêutrons; escolheram meu sexo; fui gestado por uma mãe que não era a minha; durante meu desenvolvimento, recebi injeções de hormônios e de A.D.N.; beneficiei-me de um tratamento superativo do córtex; depois de meu nascimento, alguns enxertos de tecido vieram favorecer minha evolução intelectual e, ainda agora, a cada ano, submeto-me a uma cura de manutenção para manter meu espírito em boa forma e meus instintos no tônus ótimo. Não tenho motivo para estar descontente com meu corpo, nem com meu sexo, nem com minha vida, MAS, QUEM SOU EU?" Jean Rostand negara-se o direito de continuar certas experiências em animais e escandalizava-se com a ideia de que o embrião humano pudesse um dia ser objeto delas. Não imaginara o pior. A união daqueles que o Prof. J. Lejeune designa como "os novos doutores das novas leis da vida... (que) amputaram deliberadamente a realidade que observam... deixando na sombra certos fatos concretos cientificamente estabelecidos por medo de que a luz mostre o caminho..." com um poder gnóstico, materialista e libertário, com o objetivo de destruir a natureza do Homem, levou quase a termo a fabricação de sua contrafação humana, que não se colocará, em nenhum momento de sua existência, a questão essencial "Quem sou eu?" Animal dócil, estupidamente feliz, "espantosamente bem castrado", escrevia Saint-Exupéry, submetido desde o berço a uma trituração em profundidade pela educação republicana, acabará por perder até o instinto de conservação. "Delírio de transformação da natureza, o sistema social fará de nós seres novos, prontos a nos imolarmos desde que já não sejamos úteis, mas custemos à coletividade", anunciava a Sra. Suzanne Labin, depois de ler o livro "O Futuro da Vida", obra do muito próximo conselheiro e amigo do Sr. Mitterrand, Jacques Attali. A INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA VIDA Assim como o aborto, dito I.V.G., legalizado e reembolsado, elimina a gravidez-acidente do percurso sexual, o assassinato suave, dito I.V.V., fará desaparecer os acidentados do percurso existencial, os recém-nascidos indesejados, todos os doentes, acidentados, deficientes e idosos julgados traumatizantes, perturbadores, incômodos, irrecuperáveis, improdutivos, inúteis e dilapidadores, por sua sobrevivência, das finanças necessárias à manutenção e ao divertimento dos "trabalhadores". PRECISÕES EM FORMA DE DEFINIÇÕES. É possível distinguir duas formas de eutanásia, a ativa e a passiva. EUTANÁSIA ATIVA. É o ato voluntário pelo qual se põe fim, suavemente, à vida de indivíduos deficientes, de doentes e feridos incuráveis, de idosos..., seja para lhes evitar prosseguir uma existência julgada, pelos outros, sem interesse, seja para lhes poupar os sofrimentos inerentes ao seu estado, seja para lhes evitar as dores da agonia. Aplica-se igualmente a pessoas frequentemente atingidas em sua integridade física, mas que recusam, em nome de uma falsa e orgulhosa concepção da dignidade humana, qualquer diminuição visível de seu aspecto e/ou de suas atividades. O ato é cometido com a intenção primeira de fazer morrer a pessoa visada... É um assassinato ou um suicídio, podendo este ser facilitado por um terceiro. Não há eutanásia quando a morte sobrevém em seguida a uma decisão dos médicos e cirurgiões de não se obstinarem terapeuticamente num paciente cujo estado não apresenta há muito tempo nenhuma melhora; da suspensão dos meios modernos de reanimação nos casos de coma profundo ou ultrapassado, sob certas condições; do uso maciço de substâncias analgésicas destinadas a atenuar os sofrimentos do paciente na fase final de sua afecção. EUTANÁSIA PASSIVA. É a ausência de ato visando diretamente o indivíduo. Há intenção primeira de deixar morrer o indivíduo, mas abstendo-se de lhe prestar os cuidados necessários à sua sobrevivência ou à sua cura. Era, e sem dúvida ainda é, muito praticada nos serviços hospitalares de obstetrícia e de pediatria. O Prof. Michel Salomon, que foi o primeiro responsável pelo Serviço de Pediatria do Hospital da Timone, em Marselha, reconheceu-o com tristeza e lutou com energia contra essa prática. Soube perceber-lhe as principais motivações, aplicáveis também à eutanásia ativa e, em parte, na maioria das vezes, ao aborto: piedade, cansaço, repugnância... desejo de salvaguardar o futuro dos irmãos e irmãs, medo pânico, receio da desonra, egoísmo, orgulho... avareza etc. Sob o pretexto dos Direitos do Homem... sem Deus, essas pobres razões tornaram-se argumentos para os partidários da eutanásia em sua campanha para obter a legalização ou a descriminalização do procedimento. MANOBRAS E PROPAGANDA Para fazer a opinião pública aceitar a ideia, só se fala de Interrupção Voluntária da Vida (I.V.V.), sendo o termo voluntária particularmente tranquilizador para a grande maioria da população, que está com boa saúde. Além disso, a eutanásia só seria aplicada aos indivíduos que a tivessem solicitado explicitamente, seja quando estavam em plena forma, seja no curso da evolução patológica de seu estado físico, psíquico ou intelectual. Infelizmente, a decisão "voluntária", afora o suicídio franco, é e será cada vez mais obra do médico, do enfermeiro, dos pais, do amigo... ou mesmo do representante do Estado por intermédio da Seguridade Social, pois são os outros que pouco a pouco são investidos do direito de julgar o valor e/ou a utilidade da vida do indivíduo em questão, e isso segundo os critérios já mencionados aqui. Desenvolve-se uma verdadeira estratégia para fazer a eutanásia entrar nos costumes e depois na lei. NO PLANO MUNDIAL. A ofensiva é conduzida pelos mesmos grupos que souberam impor à grande maioria dos Estados ditos Cristãos a liberdade sexual, a contracepção, o aborto etc. As recomendações desses organismos inspiram-se nas diretrizes do Clube de Roma, correia de transmissão do Massachusetts Institute of Technology (M.I.T.). O tenor europeu, o holandês Sico Mansholt, foi vice-presidente da Comissão das Comunidades Europeias. Com poucas exceções, os Prêmios Nobel constituem os cérebros pensantes de todas essas organizações. São os Doutores da nova religião...! Assim, o Prof. Minkowski, a seção francesa do Planejamento Familiar, médicos e políticos engajaram-se há muito tempo nessa luta, com o apoio multiplicador da mídia. Eis os pontos fortes da campanha: Em maio, realiza-se em Grenoble o que parece ter sido o primeiro Congresso dos Médicos pela Eutanásia. Em novembro, um seminário reúne no Instituto Pasteur de Paris médicos e juristas. Os participantes declaram-se prontos a fazer morrer as crianças anormais e os idosos por puro altruísmo. O suicídio do orgulhoso Henry de Montherlant induz uma campanha de imprensa em favor do "direito de morrer com dignidade". No fim do ano, o Dr. Peyret, deputado de Vienne, declara-se próximo dos conceitos eugenistas do movimento G.R.E.C.E. (Groupe de Recherche et d'Études pour la Civilisation Européenne), dentre os quais a eliminação dos deficientes, dos inúteis, dos pesos mortos (escória e borra da sociedade). O bom doutor será o relator da lei Veil que instaura o massacre dos inocentes. A mídia faz amplo e favorável eco à declaração do Prof. Louis Rougier, doutrinador da Nova Direita (GRECE), proclamando que "o direito ao eugenismo e à eutanásia estará entre as grandes conquistas do futuro". No mesmo ano realiza-se na Sorbonne um colóquio mundial sobre os novos poderes e os novos deveres da Ciência. Está na origem da constituição, pelo Estado, de um Conselho Nacional de Ética. Eugène Ionesco assinala em "Le Monde" de 19 de outubro seguinte que, na realidade, nesse colóquio "tratava-se do direito dos médicos e dos biólogos de dispor da vida e da morte das pessoas... por razões biológicas, eugênicas... e até por considerações morais e sociais", deixando ao médico, e somente a ele, o poder de apreciar "a chance de sobrevivência e a qualidade da Vida que ele pretende prolongar ou abreviar". No mesmo jornal, a Sra. Simone Veil concedia esse direito aos médicos: "Prolongar uma vida que já não é uma vida é talvez fazer humanismo às avessas". Nova campanha da mídia por ocasião da publicação do livro-confissão do cirurgião escocês George P. Nair, que reconhecia ter praticado a eutanásia ativa. Realizou-se um debate televisionado. O mesmo ocorre na Grã-Bretanha, com a participação da Presidente da Voluntary Euthanasia Society. A decisão da Igreja Anglicana, admitindo que "certas formas de supressão da vida, quando destinadas a abreviar sofrimentos, são moralmente justificadas", recebe ampla difusão. Na Suíça, a suspensão do Prof. Hammerli, de Zurique, por prática de eutanásia ativa, provoca o protesto do Corpo médico. Uma pesquisa popular, consecutiva ao acontecimento, dá 60% de opiniões favoráveis a tal prática. Radical de esquerda e F.M. influente, o Senador Caillavet apresenta um projeto de lei pedindo a legalização de certas formas de eutanásia. Prevenindo os franceses do objetivo último de sua iniciativa, que não vingou, escreve no jornal médico "Tonus", de 4 de maio: "não se trata de eutanásia, trata-se da liberdade de sua morte... Essa etapa é necessária; mais tarde, dentro de dez anos, de quinze anos, 'SE' poderá fazer alguma coisa". As reações da mídia foram favoráveis. O "Nouvel Observateur" de 3 de julho aprova a proposta a pretexto de recusar a decadência humana. Lucien Neuwirth, pai da contracepção na França, proclama que a qualidade da morte é componente importante da qualidade da vida. O GRECE e sua revista "Nouvelle École" são partidários dela com o fim de proteger a saúde das gerações futuras. Num artigo publicado no N.º 29 do Boletim Internacional de Gerontologia, a Srta. Nicole Schwartz faz uma constatação definitiva: "Pouco importam as negativas indignadas, a ideia foi lançada... Todo o problema é saber doravante que formas particulares tomarão as leis sobre a eutanásia." "Grosso modo, 'SE' podem conceber três hipóteses, conforme a eutanásia... seja deixada à só escolha individual, passe a controle médico..., passe a controle estatal. "Mas, qualquer que seja a hipótese adotada... o ponto a reter (é) que a morte do indivíduo se torna completamente socializada." Essa especialista traduz bem a vontade da intelligentsia francesa. Durante a elaboração definitiva da lei IVG–Veil/Pelletier–Roudy, isto é, de 1974 a 1982, essa reivindicação é posta de lado para não atrapalhar a radicalização do aborto, parte importante do programa. Publicação de uma obra intitulada "Suicídio, modo de usar", que fornece todas as informações teóricas e práticas ao leitor desejoso de pôr fim aos seus dias ou de ajudar um eventual candidato. A mídia lhe faz bela publicidade. Famílias cujo membro seguira as instruções do livro processam judicialmente os autores. A emoção toma conta de certo número de deputados. Em junho, uma proposta de lei, adotada pelo Senado, pede que "a incitação e a ajuda ao suicídio sejam reprimidas". O Ministro da Justiça, Robert Badinter, digno filho de 1789, recusa submetê-la ao veredito da Assembleia, julgando o projeto precipitado e liberticida. Fundação da Associação pelo Direito de Morrer com Dignidade (A.D.M.D.). Reúne atualmente pelo menos dez mil membros. Dá-se como vocação oficial "reunir todas as pessoas de mesma convicção para promover o direito legal e social de dispor livremente de sua pessoa, de seu corpo e de sua vida..., de escolher livre e legalmente o momento de terminar sua vida e o meio de consegui-lo". Os membros portam um "Testamento biológico", dito "Declaração pelo direito de morrer dignamente", sem nenhum valor jurídico até hoje. A Associação distribui um folheto de quarenta páginas intitulado "Autolibertação", cujas três quartas partes do preço de venda alimentam um fundo destinado a financiar, em caso de processos movidos pelos familiares de um "libertado", a defesa e as custas judiciais. O folheto apresenta "os meios acessíveis, tão seguros quanto possível, sem sofrimento e sem violência física ou mental", para dar-se a morte e fornece todas as informações úteis. O Congresso mundial pela eutanásia, organizado pela ADMD, realiza-se em Nice, de 20 a 23 de setembro, sobre o tema "Viver sua vida, viver sua morte". Participam dos debates oitocentas pessoas vindas de vinte e sete países. Para multiplicar o impacto político-psicológico do congresso, repetiu-se o "golpe" do Manifesto. Já em abril de 1974, o Prêmio Nobel Monod, hoje livre da existência, e Sicco Mansholt haviam-se associado ruidosamente a um manifesto publicado nos E.U.A. pela influente "Humanist Society", adepta do eugenismo. Da mesma forma, às vésperas do Congresso, estampa-se em "Le Monde" um texto assinado por cinco médicos que reconhecem ter "libertado vários doentes". Paralelamente, o semanário "Tonus", já citado, publica uma pesquisa realizada pelo Institut Indice Médical, segundo a qual 81% dos clínicos gerais praticam eutanásia em doentes terminais. A Associação pela Prevenção da Infância Deficiente (A.P.E.H.) envia a parlamentares um texto que deseja ver transformado em projeto de lei: "Um médico não cometerá crime nem delito ao abster-se de administrar a uma criança de menos de três dias os cuidados necessários à sua vida, quando essa criança apresentar uma enfermidade incurável e tal que 'SE' preveja que jamais poderá ter uma vida digna de ser vivida". Mais dura que o Dr. Crick, essa associação encontrou assim uma solução tanto mais eficaz porque esse "SE", médico, ginecologista, obstetra ou pediatra, informaria sozinho os pais e teria todas as facilidades para influenciá-los... ou mesmo para antecipar-se... H. Caillavet, Presidente de Honra da Associação, achou simplesmente que o pedido era prematuro. Para acalmar a emoção do bom povo, o Secretário de Estado dos Direitos do Homem sem Deus, Sr. Malhuret, e a Ministra da Saúde, Sra. Barzach, rejeitaram a proposta aos gritos. Ela é, contudo, de uma lógica irrefutável para os partidários de uma bioética que abandona os mais deserdados e os mais fracos de seus pacientes. O Dr. Claude Sureau, membro da Academia de Ciências, sublinhou-o ao observar que o fundo do projeto está "inteiramente incluído na lei sobre a I.V.G. Se um direito de vida e de morte sem apelação é reconhecido à mãe até 12 semanas (mesmo 20 semanas), é incoerente recusar-lho mais tarde e até no período neonatal". Os critérios de "desejabilidade" e de "acolhimento", legalizados pela lei Veil–Roudy, tornar-se-ão, com o de "dignidade da vida", aplicado por terceiros — mãe, cônjuge, parentes próximos, membros do Corpo médico e paramédico — a um ser a quem sua situação veda todo direito de defesa, os motivos de uma execução isenta de qualquer responsabilidade penal e civil para seu autor. Em 21 de outubro, um programa de televisão dirigido pelo Sr. Jean-Marie Cavada, no A2, seguido no dia seguinte de um programa de telefone no France Inter, deu destaque ao cancerologista Roger Schwarzenberg, praticante e zeloso partidário da despenalização/legislação da eutanásia. Não contente em reafirmar o direito de cada homem doente, acidentado ou psicologicamente decidido de dispor de sua vida, por ser o único capaz de aferir o sofrimento sentido e invocado como motivo da decisão, não estando o médico ali senão para assisti-lo, o discípulo da Sinagoga apressou-se em estigmatizar a religião católica, única barreira erguida diante dessa evolução que ele considera benéfica para o homem. Pôs muito habilmente em dúvida a existência da Misericórdia de Deus e negou o valor redentor do sofrimento, que considera totalmente inútil. Em novembro, a A.D.M.D. mandou realizar pela SOFRES uma pesquisa para avaliar o estado de espírito dos franceses diante da eutanásia. O Presidente da Associação congratulou-se com os resultados obtidos: 85% dos "pesquisados", a priori com boa saúde, desejam que os doentes incuráveis, afligidos por sofrimentos insuportáveis, sejam "ajudados a morrer". 76% pedem, nesse sentido, uma modificação do Código Penal. Em 3 de maio, um Tribunal do Júri pronunciou a absolvição de um pai de família que havia suprimido seu segundo filho "mongoloide" pouco depois do nascimento. O Procurador, por sua vez, havia pedido uma condenação leve: dois anos de prisão com sursis! O pai, para fazer admitir o fundamento de seu gesto, invocou seu desejo de ter uma família "bela", de evitar ao irmão fisicamente normal, à esposa e a si mesmo as dificuldades de toda sorte que acarreta a presença no lar de um "deficiente"... Os jurados o acompanharam. A absolvição assina sua aprovação a esse ato de "prevenção social"!!! Que desfeita, que injúria são assim desferidas a todos os pais que aceitaram, amaram cada dia mais uma criança deficiente! A sentença fará sem dúvida jurisprudência. A sorte dos próximos recém-nascidos, os que tiverem escapado ao diagnóstico in utero e à aspiração consecutiva, sejam eles portadores de mongolismo ou de outras doenças e malformações, parece claramente traçada. É um bom ponto em favor da ética moderna proposta pelo Prof. Jean Bernard, pelos "Sábios" do C.N.E. e pelo Conselho de Estado, como "meio de enquadrar e regular uma sociedade animal na situação concreta atual"... a cada situação, sua ética! Esse modo de pensar será melhor analisado adiante, mas convém observar que segue fielmente o pensamento de Karl Marx: "Não deixar o real, isto é, a experiência humano-natural. Toda tentativa de escapar dele em direção a um transcendente qualquer, fosse ele apenas moral, não é senão uma expressão ilusória da alienação de meu ser". Jurisprudência, ética que ratifica os fatos, arbitragem utilitarista da Seguridade Social... vão repartir os indivíduos em três categorias: os "úteis", tomados a cargo; os que poderão arcar por si mesmos, ou graças a um terceiro, com as despesas; e os demais, condenados à rejeição e à eutanásia. Um organograma possível Indivíduo nem consentente, nem avisado. – Homem em devir. Em suas propostas de lei, o Conselho de Estado, reduzindo a criança ao estado de "projeto parental de seus pais", entrega-a indefesa ao bel-prazer de seus genitores... ao bel-prazer dos conselheiros médicos. Embriões oficialmente mortos no 14.º dia de sua cultura in vitro ou ao fim do quinto ano de sua conservação por congelamento... mas, dada a evolução ética, amanhã entregues à experimentação. Fetos mortos antes do fim da vigésima semana... e utilizados. Recém-nascidos de menos de dois dias, juridicamente inexistentes, recusados pela genitora e pela sociedade, dando a incurabilidade de sua afecção e/ou a assistência permanente necessária à sua sobrevivência um balanço financeiro negativo demais. Poderão ser utilizados. – Homem cidadão. Doentes incuráveis. A eutanásia oficializada. A prática progride depressa. Há alguns anos, constata uma enfermeira em testemunho relatado pela revista "Permanences", em seu serviço de cancerologia de um hospital parisiense, a eutanásia "aumenta em quantidade... procura honorabilizar-se e, sobretudo, organizar-se socialmente... Em dois anos... vinte e um doentes foram 'picados'... receberam uma perfusão de um coquetel lítico... A ordem de 'picar' sobrevém, em geral, num momento em que o doente ainda está bastante ativo... O único motivo dessa prática é a incurabilidade com morte provável a curto ou médio prazo... O Chefe de Serviço responsável é um homem afável, muito dedicado." Recusando-se a aplicar esse tipo de prescrição apesar das pressões da autoridade médica, que ameaçava demitir os recalcitrantes, constata que o método foi facilmente admitido. Ela demonstrou o processo: "Pensa-se aqui na palavra de Pascal dizendo ao descrente: 'Toma água benta'. A prática concreta sempre tem valor de iniciação. Do mesmo modo, no hospital, nenhum debate sobre o fundo, nenhum exame de consciência. Simplesmente, é pela prática — prescrição do coquetel preto no branco e do modo mais natural do mundo — que 'SE' introduziu nas consciências todo um processo mental que, em claro, significa bem: uma vez que a vida já não oferece chance 'temporal', uma vez que está privada de toda satisfação física, a vida humana já não tem sentido". Acidentados inconscientes. Declarados mortos por aparelhos de medição insuficientes, os mais jovens são reclamados, em nome da solidariedade, pelos cirurgiões para obtenção de órgãos a transplantar. Num futuro próximo, o mesmo destino será, com toda lógica utilitarista, reservado aos acidentados gravemente atingidos demais. A impossibilidade de lhes dar uma vida "normal", o custo dos tratamentos, das próteses e da assistência eventual determinarão a decisão. Idosos. Os cuidados e as operações caros demais lhes serão recusados a partir de certa idade pela Seguridade Social. Assim, na Inglaterra, a diálise renal já não é reembolsada a partir do octogésimo aniversário. As pessoas idosas deverão, portanto, encontrar por si mesmas ou junto às famílias os fundos necessários ao pagamento dos cuidados. Do contrário, será, no mínimo, a eutanásia passiva. As pessoas idosas hospitalizadas continuamente ou atendidas em domicílio e que não necessitam de nenhum cuidado dito pesado já devem arcar por si mesmas com parte das despesas. A S.S., a Caixa de Aposentadoria, uma Mútua, um seguro privado não conseguem pagar a totalidade das despesas para grande parte dessas pessoas. É o cônjuge e/ou os descendentes que são obrigados a pagar. Em caso de cuidados intensivos, de intervenções cirúrgicas autorizadas... quem poderá arcar com a despesa? Inúteis e inutilizáveis, serão eliminadas. Indivíduo consentente, – que pede a intervenção. Portanto avisado, mas podendo não conhecer o momento exato da realização de seu projeto. Na Holanda e na Dinamarca existem clínicas privadas e Serviços hospitalares especializados nesse trabalho. É uma contribuição eficaz para a manutenção da tranquilidade coletiva e para a realização de economias substanciais. Os interessados — doentes incuráveis, pessoas que se recusam a suportar as enfermidades devidas à idade avançada, desesperados — querem morrer com "dignidade". O tempo de reflexão lhes é concedido. A A.D.M.D. abriu em 1984 "uma casa médica para receber as pessoas em fase terminal, em fim de percurso". Na época, o Presidente, Sr. Chauvet, assegurava que o ambiente ali seria familiar. – que age por si mesmo, com ou sem ajuda de outrem. Um pequeno sobressalto dos políticos fez votar, cinco anos após a publicação do livro "Suicídio, modo de usar", uma lei datada de 31 de dezembro de 1987. Destinava-se a reprimir o elogio do suicídio e a condenar a penas pesadas "aqueles que tiverem feito propaganda ou publicidade... em favor dos meios de se dar a morte". Sua eficácia deve ter sido mínima, pois a eutanásia é praticada por baixo do pano! As eleições de 1988 vieram abafar essa tentativa de interferência na liberdade individual. Em junho do mesmo ano, editoras manifestaram seu senso agudo da história... Uma publicou um Caderno intitulado "Montherlant e o Suicídio", outra o livro de Gabriel Matzneff "O Desafio", em que se reproduz seu ensaio sobre "o Suicídio entre os Romanos". Esse texto, publicado em vida de Montherlant, a quem o autor apresenta como "Mestre de vida... e Mestre de morte", deveria, segundo o desejo do Acadêmico, ter por título "A Arte de suicidar-se em dez lições". Não houve nenhuma reação... Os Estados do norte da Europa, frequentemente tomados como modelo, mostram o caminho. Os candidatos ao suicídio são acolhidos em Estabelecimentos especializados para evitar que seu desejo, executado inconsideradamente, lese o bem público. EPÍLOGO PROBLEMAS DE CONSCIÊNCIA Na esteira de numerosos médicos e biotécnicos, os primeiros a serem submetidos ao questionamento de suas consciências na busca da conduta a adotar diante das novas concepções da medicina, um número importante de intelectuais e de homens políticos confessa sua perturbação e seus escrúpulos. Alguns percebem com nitidez a direção tomada por esses "progressos": desrespeito e dessacralização dos corpos, sua utilização normalizada, esquecimento e negação de uma concepção exata da Pessoa humana... e, no limite extremo, "fabricação" de outra coisa que não o Homem. Reclamam uma lei que proíba certas práticas e pesquisas. Outros se assustam sobretudo com a velocidade e a amplitude do fenômeno, sem reprovar nenhum aspecto seu. Temem que a opinião pública não consiga acompanhar e, portanto, aceitar suas realizações e propostas. Desejam o estabelecimento de freios ou barreiras legais, passíveis de serem afrouxados ou levantados à medida da evolução psicológica dos franceses. Muitos, entre os quais cientistas muito ouvidos, não se fazem pergunta alguma e querem sempre ir mais adiante. Solicitam a liberalização, ou mesmo a despenalização, de suas obras. Por fim, entre o público, isto é, o conjunto dos que sofrerão as novas técnicas, uma maioria sente profunda inquietação. Uma parte espera encontrar proteção contra esses métodos numa lei civil... que dará boa consciência, como as leis anteriores, a todos. EM BUSCA DE ÉTICA Várias pessoas interessadas, principalmente cientistas, intelectuais e representantes de todas as religiões ou "correntes de pensamento", reuniram-se, portanto, aqui e ali, seja por iniciativa própria, seja a convite do poder, a fim de "iniciar um diálogo com sua consciência em busca de uma conduta que respeite o melhor possível a ideia que fazem da pessoa humana e de sua dignidade". Certos de ter um conhecimento justo dos fatos considerados, julgando-se intelectualmente capazes de encontrar em si mesmos os elementos razoáveis que induzam decisões tão justas quanto possível no estado atual da Ciência, os "SÁBIOS" puseram-se a trabalhar. Por fim, o Poder, que até então se escondia atrás das recomendações de seu C.N.E. e de outros cientistas para evitar tomar uma decisão formal, decidiu resolver. Depois de ter suscitado a redação de um relatório por uma comissão do Conselho de Estado, presidida pelo Sr. Guy Braibant, aliás autor de um projeto de lei sobre o assunto, o Primeiro-Ministro acaba de confiar, em março de 1991, à Sra. Noëlle Lenoir, Mestre de Requerimentos do referido Conselho, "uma missão para o DIREITO da Bioética e das Ciências da Vida". Perguntando-se se deve impor salvaguardas à deriva dessa parte da Medicina, espera dessa missão o estabelecimento de um esboço legislativo. O MÉTODO INTELECTUAL DOS SÁBIOS Que método de raciocínio emprega o trabalho de reflexão de todos esses grupos? Não há dúvida de que, desde as cogitações publicadas no relatório "Horizonte 85", uma filosofia particular estende seu domínio sobre os homens e a condução dos debates. Como discernir-lhe o teor? A filosofia Moderna. A obra do Sr. Jean Madiran "A Heresia do Século XX", publicada em 1968, traz todas as respostas. Dela são tomados todos os elementos necessários para compreender o mecanismo da manipulação intelectual que arrasta os participantes e, mais precisamente, os cristãos, os católicos de todos os escalões, no movimento para a frente, na mutação permanente, longe das bases da tradição filosófica natural ensinadas pelo Doutor Comum. O Episcopado francês, em sua resposta a uma carta da Santa Sé, datada de 17 de dezembro de 1966, admitia essa evolução: "a aceitação das palavras natureza e pessoa é hoje diferente, para um espírito filosófico, do que era no século V ou no tomismo". Essa rejeição de São Tomás assina "a aquisição do reflexo intelectual fundamental da filosofia moderna, que apareceu na história com o kantismo". Antes dele, as divergências entre os diversos pensamentos filosóficos davam simplesmente lugar a discussões sobre seu valor, sua justeza... "Depois de Kant, as filosofias anteriores já não são criticadas enquanto falsas... mas enquanto pensamentos que já não podem ser levados em consideração por um 'espírito filosófico'". "Um pensamento 'aquém' do kantismo, e a esse título a metafísica inteira, era declarado doravante impensável". "Os filósofos posteriores a Kant... que permaneceram fora do problema crítico só têm um pensamento infantil e uma infrafilosofia". Devem ser desdenhados. Todos os outros tornaram-se os filósofos modernos, as autoridades morais atuais, "geminando-se com as categorias semelhantes do pensamento científico e com o mito do progresso indefinido". Em outras palavras, consideram o aparecimento das teorias de Descartes, de Kant, de Hegel, de Marx e de Teilhard como uma descoberta científica que não pode ser ignorada ou eludida depois. Depois dela, já não se pode pensar da mesma maneira, exatamente como o cientista. Não se "pode pensar 'depois' da descoberta da pressão atmosférica, da circulação do sangue (dos micróbios ou do A.D.N.) como se pensava antes". Esse método, perfeito para a Ciência, foi voluntariamente aplicado ao pensamento filosófico. Assim, pôde-se fazer definitivamente "admitir que um PROBLEMA (o problema crítico segundo Kant) ou um MÉTODO (o cogito de Descartes, a dialética segundo Hegel ou Marx) se impõe a partir de certo momento como sendo doravante 'A' condição prévia e constitutiva de 'O' pensamento... e, portanto, fulmina de nulidade todas as reflexões que permanecem exteriores ao MÉTODO ou ao PROBLEMA...", e rejeitar "ao nada os filósofos que, depois de Descartes, Kant, Marx, se atêm, contudo, às noções de natureza e de pessoa tais como eram no século V ou em São Tomás". Por fim, "a colocação do problema comanda a solução". Todos os participantes, inclusive os cristãos, dos diversos conselhos, comissões e mesas-redondas para "pensar" a ética moderna, deixam-se impor "pelos partidários do pensamento moderno... seus problemas tais como ele os enuncia e seu método tal como o concebeu. Pois seus problemas, tais como os enuncia, já contêm toda a originalidade essencial de seu olhar sobre o mundo; e seu método, tal como o concebeu, já contém toda a originalidade essencial a respeito do mundo tal como o vê". A grande maioria dos Sábios se deixa lograr pela "problemática". Ao problema posto, são intimados a trazer respostas sob pena de não serem "positivos" ou "construtivos". E como "o ponto de vista dos (partidários do pensamento moderno) é um sistema conceitual intrinsecamente antinatural, colocando-se no ponto de vista deles e adotando suas noções, chega-se a perder a si mesmo essa verdade dos dogmas que se queria manifestar-lhes..." CONTRA A TRADIÇÃO CATÓLICA Assim educados, os SÁBIOS estabelecem-se "na aseidade e na autonomia" para admitir que "o direito natural é a expressão da consciência coletiva da humanidade (proposição N.º 7 de Mons. de Metz, em IV.1968)", cujo corolário inevitável é: "não existe lei (moral) natural objetiva, promulgada por Deus e inscrita na natureza do Homem". É a recusa de obediência à Igreja de N.S. Jesus Cristo, única depositária e guardiã dessa lei moral, dada de novo aos Homens primeiro pelo Decálogo de Moisés, depois pela lei evangélica revelada por seu fundador... e, por isso, única opositora à desnaturação do Homem pela revolução sexual. Essa atitude pode ser ilustrada de duas maneiras. Primeiro, verificando o pensamento dos iniciadores e dos proselitistas da liberalização dos costumes; depois, constatando o que se tornaram os católicos reciclados. Uma opinião característica. A emitida pela Sra. Françoise Giroud, nas ondas da Rádio belga, em 15 de dezembro de 1974: "O que me incomoda um pouco é que se possa confundir a religião e a moral... Quando me aborrecem com a moral, fico nervosa, porque não acho de modo algum que a encarnação, ou a ideia que se faz, em particular na religião cristã, do Cristo, tenha qualquer relação com a moral. A moral são regras de ação adaptadas a uma sociedade". Os Novos Católicos. Suas ideias são muito mais perigosas, pois permanecem no interior da Igreja, dão a impressão de falar em seu nome e trabalham para fazê-la mudar. É na entrevista do Sr. Georges Minois, publicada em "L'Express" de 31 de janeiro de 1991, que se colhe esta parte de sua doutrina. Esse especialista em história das mentalidades, autor de "A Igreja e a Ciência, história de um mal-entendido", defensor de Darwin, Descartes, Freud e Teilhard..., designa de saída o inimigo: "A oposição católica aos progressos da Ciência desloca-se para o lado da moral... onde sustenta posições de outra era." Certamente "a religião católica repousa sobre um corpus de dogmas extremamente estruturado, uma quantidade de Verdades eternas e intocáveis". Astuto, amalgama essas Verdades às da Ciência, já aferidas aqui, citando outros católicos: "Teólogos isolados... na ponta da contestação da Instituição... querendo dizer, como os cientistas... a Verdade não é um tesouro que se procura descobrir, mas algo que está em vias de se construir. Não há uma verdade objetiva e definitiva, mas um conjunto de conhecimentos que se reúnem progressivamente. Para eles, o próprio Deus evolui na Humanidade inteira". Donde conclui que a Igreja está diante de um dilema: "Ser condenada a desaparecer ou sobreviver adotando uma posição totalmente diferente, notadamente a respeito dos pesquisadores". Quanto ao Papa e a suas declarações no campo da moral, "não é certo que seja realmente ouvido pelos fiéis, que agem cada vez mais frequentemente segundo suas convicções pessoais em vez de conformar-se cegamente ao dogma." Deseja que seu trabalho ajude "a construção de uma Igreja um pouco diferente, na qual a Hierarquia pese menos". Voto assim explicitado: "É muito provável que a instituição católica continue a perder peso em proveito de uma crença que se desejaria comum a todas as religiões... O que vai restar é sem dúvida um mínimo, uma fé reduzida a alguns artigos muito simples, ao mesmo tempo que a intuição de um princípio fundamental, de uma força organizada em ação no cosmos." O Sr. Minois e seus semelhantes trabalham pela dissolução da única religião revelada num sincretismo irrisório, mas cúmplice zeloso da mutação do Homem. Graças às obras do Sr. Etienne Couvert, é fácil compreender exatamente o que se esconde por trás das noções de crença comum e de força organizada: "A crença comum" manifesta-se na Igreja pelo ecumenismo: "organização do vazio glacial da liturgia católica para dela afastar os últimos fiéis..., desprezo das devoções populares (procissões, bênçãos do Santíssimo Sacramento, veneração das relíquias etc.), nudez das igrejas, vulgaridade das formas litúrgicas... Desenvolvimento de toda uma para-liturgia em comunidades religiosas informais onde os fiéis encontram o desabrochar de sua sensibilidade religiosa, a exaltação de sua necessidade de Deus por meio de formas aberrantes, simulando uma 'presença real' ilusória, à margem da validade de todos os sacramentos..." "A força organizada em ação no cosmos" é a "da Serpente, chamada pelos Grandes Iniciados da Franco-Maçonaria a desembaraçar o caos de um mundo mal feito por um demiurgo desajeitado, para reconstruí-lo segundo um plano perfeito, o do grande Templo da Humanidade, e assim chegaremos a realizar a última palavra do Progresso, o Homem, sacerdote e rei de si mesmo, que só dependerá de sua vontade e de sua consciência". Está tudo entendido! Preocupando-se muito pouco em cometer de novo o pecado de Adão, pessoal ou coletivamente, os "SÁBIOS", hierarquias designadas da Ética moderna, estão a trabalhar para codificar as iniciativas da imaginação médica e, talvez, impô-las a todos! É interessante buscar em suas próprias palavras como concebem e orientam sua missão. – A ÉTICA IMAGINADA (ou Regras internas dos Biotécnicos da mutação humana). Definição. Interrogada no Figaro de 23 de março de 1991, a Sra. N. Lenoir coloca o problema: "Em todas as sociedades avançadas onde não há ideologia dominante, religião que se confunda com o Estado, a ética emergiu e responde a uma necessidade essencial do público diante dos avanços da Ciência..." "A ética não deve ser uma chapa de chumbo sobre a sociedade. Não é uma ordem moral, mas o meio de todos se expressarem. Seu objetivo é a preservação da pessoa humana como valor inestimável em si". É lógico pensar que, por "pessoa humana", a Sra. Lenoir pensa exclusivamente no homem físico. Como essa encarregada de missão participou dos trabalhos da Comissão do Conselho de Estado, trabalhos conduzidos "num espírito de tolerância (e) reunindo diferentes correntes de pensamento, médicos, cientistas, juristas", é justo tomar emprestada ao relatório sua definição de ética. "Segundo o Presidente do C.N.E., Prof. J. Bernard, o 'termo ética tem duas etimologias: a primeira, ITHOS, que significa o porte da alma: o estilo do Homem, e a segunda, ETHOS, que designa o conjunto das normas — hábitos comuns — nascidas do respeito da medida. "A Ética é a CIÊNCIA que leva em consideração o ithos e o ethos. É a garantia da harmonia que resulta do bom porte de toda coisa, de todo ato, do acordo, em suma, 'entre a alma e o ambiente'. Supõe uma ação racional. É própria do Homem". De origem recente. O Conselho de Estado revela a impregnação mundialista da ideia de Ética, bem como as principais etapas de sua elaboração. A Ética "nasceu da contestação da consciência médica por certos fatos da história ocidental, os crimes contra a Humanidade durante a II Guerra mundial". Encontra suas bases "no Código de Nuremberg de 1947, nas Declarações de Helsinque de 1964 e de 1973 e, desde a reunião de Manila em 1981, nas Diretrizes propostas pelo Conselho das Organizações Internacionais das Ciências Médicas, da O.M.S. e do Conselho da Europa". Condição de uma boa ética. A lei ou a ética legal que será, um dia talvez, promulgada será conforme às orientações dos organismos citados e seguirá as recomendações dos "Sábios". O texto deverá, portanto: levar "suficientemente em conta as considerações morais diversificadas em nossa sociedade, sem fixar demais essa moral comum, que é contingente e deve ser apreciada à luz da evolução social". respeitar "o princípio de solidariedade, o princípio do direito de todos, notadamente das Mulheres, de se realizarem e de concretizarem seus desejos, o princípio do respeito aos progressos da Medicina, do respeito à liberdade da Pesquisa, de uma avaliação atenta dos interesses em presença, por vezes contraditórios: interesse da criança, da mulher, da família, da sociedade, o princípio de um balanço custo–benefício de cada solução." ser o de uma lei evolutiva e flexível "para acompanhar a evolução acelerada das técnicas e as mudanças do estado da opinião". Com todas essas condições, os Mágicos das Ciências da Vida podem continuar pesquisas e experimentações. A lei seguirá o fato científico ou técnico, resultado da desmesura natural do pesquisador. A todos esses homens, Sábios, médicos, técnicos, e aos que os seguem, aplicam-se estas palavras de S.S. Pio XII, colhidas na Encíclica "Summi Pontificatus" (X–1939): "Renunciando à lei infinitamente sábia e paterna de Deus e à doutrina de amor do Cristo, que unifica e eleva, entregaram-se ao arbítrio de uma pobre e mutável sabedoria humana: falaram de progresso quando recuavam; de elevação quando se degradavam; de ascensão rumo à maturidade quando caíam na escravidão; não percebiam a inanidade de todo esforço humano que tende a substituir a lei de Cristo por qualquer outra coisa que a iguale: 'perderam-se na vaidade de seus pensamentos'". A OLHOS HUMANOS, TUDO ESTÁ CONSUMADO. A Revolução sexual animaliza a natureza humana. Essa constatação, estabelecida neste estudo, justifica o prognóstico, pois toda mutação é letal. Mas os que, perturbados, o percebem sentimentalmente ao reclamar a intervenção do Estado desconhecem as causas dessa evolução. Sua anamnese é largamente insuficiente, daí seu erro de diagnóstico. Seus pedidos dirigem-se aos responsáveis pela situação, aos herdeiros — autores do processo iniciado. Como poderiam estes renegar suas crenças e desautorizar o trabalho de seus predecessores? Só podem continuar a ser os cúmplices zelosos "da substituição que opera o Príncipe deste mundo no coração do Homem: erigir-se em duplo a fim de desalojar Deus; colar-se ao ser como parasita e fazer do Homem o cúmplice de sua mentira; substituir Deus pela terrível presença do ídolo humano; excitar o Homem a apaixonar-se por paisagens lunares, construções artificiais, paraísos terrestres fantasmagóricos; vampirizar o Homem dando-lhe a ilusão de que poderá, sem Deus, estabelecer finalmente na terra o reino da prosperidade, da paz mundial e da felicidade universal..." E, prosseguindo, o R.P. Brancolini, O.S.B., sublinha que se trata aí de um aspecto dos objetivos e do trabalho do "Mundialismo" e de sua "Igreja Universal, consciência da Humanidade": "fim de século em que o panteísmo materialista substitui o Deus Único, Trindade Santa, Indivisível e Consubstancial, e em que a apostasia geral coloca o Homem no lugar de Jesus Cristo e faz prostrar-se diante do ídolo dizendo: 'Quem se iguala à Besta e quem pode lutar contra ela?', manifesta-se o poder de uma verdadeira sinarquia, união dessas forças ocultas de todas as ordens e de todas as escolas, unidas para assegurar-se definitivamente o poder". Ele reforça o juízo que decorre dos fatos: "Toda a política moderna, mesmo a dita de direita, está à esquerda desse absoluto que é constituído pelo direito natural, à esquerda da lei moral natural que funda o direito, à esquerda do Decálogo em sua tradição e interpretação católica". Tudo parece inelutavelmente programado. "Os suicídios de jovens em aumento contínuo, o uso desenfreado de diversas drogas, o turismo sexual, o assassinato dos inocentes, a recusa multiforme da criança", associados a um amor do próximo dissoluto que vomita todo sentimento nacional, permite a invasão muçulmana e a ereção de mesquitas no solo privilegiado das intervenções de N.S. Jesus Cristo e de Nossa Senhora, "manifestam a presunção hipócrita, a torpeza e o nada espiritual deste mundo (abortador da sociedade cristã) em marcha para o intrinsecamente perverso". FICAR IMÓVEIS E FIRMES. Nas rajadas do vento da história, nas correntes de uma marcha para a frente organizada por "homens que, qualquer que seja a reputação e a autoridade que adquiriram, com ou sem razão, em suas especialidades, pretendem decidir questões que estão além de suas competências declaradas", é preciso ficar imóveis e amarrar-se solidamente aos Dogmas e aos princípios da Igreja tradicional. Os fiéis íntegros recusam de antemão, ainda que um dia tenham de sofrer-lhes, a contragosto, as consequências, as regras de uma ética moderna, viva, evolutiva, dócil às ideologias políticas e aos desejos dos eleitores. Não se deixar desencaminhar. Os problemas que levantam os "Sábios", as soluções práticas que lhes dão, não devem influenciar nossa fé. Pois Charles Péguy o enunciou muito bem: "O Cristianismo não é de modo algum, não é de forma alguma uma religião de progresso, ou talvez ainda menos, se possível, do progresso. É a religião da Salvação". "Não se trata de aperfeiçoar. Trata-se de manter, de guardar o ponto fixo. E, quando se tentou, descobre-se que isso não é tão fácil assim..." "O Cristianismo é natural e sobrenaturalmente FIXO. Assim os pontos fixos foram dados de uma vez por todas num e noutro mundo, no mundo natural e no mundo sobrenatural, no mundo físico e no mundo místico. E todo o trabalho, todo o esforço consiste, ao contrário, em guardá-los, em mantê-los..." É preciso igualmente dar testemunho deles e fazê-los reconhecer por todos os Homens, que a sociedade ocidental conduz à dúvida e ao desespero. Com efeito, constata Gustave Thibon: "O Homem esvaziou-se de tal modo de seu equilíbrio natural e de suas seguranças terrestres que já só pode ser retido na ladeira do nada pelo contrapeso do absoluto..." O dilema: Deus ou nada, já não se apresenta como tema de dissertação filosófica ou de arroubo oratório. Penetrou até o núcleo de nossa carne e de nosso espírito; coloca-se com a urgência de uma manobra de salvamento a bordo de um navio em perdição". Três razões para combater. A moral cristã é a única fonte transcendental do Bem para o Homem. Deve ser seguida, como a ordem social cristã é a única ordem mundial a construir. Uma primeira razão é dada a contrario pelos partidários da Ética moderna. Primeiro, os Conselheiros de Estado, por um rápido levantamento das legislações existentes no plano internacional a respeito do Amor e da sexualidade humana, constataram que o conjunto não formava senão uma nova Torre de Babel. E, por fim, tiveram de reconhecer que "somente a Igreja Católica, fiel à tradição de seu ensinamento de 'conservar à procriação humana a dignidade que lhe é própria e conatural'", perturba e freia a evolução jurídica desejada, chegando mesmo a "encorajar certo espírito de resistência contra as leis civis moralmente inaceitáveis e as práticas ilegítimas". As outras duas razões, infinitamente mais sólidas, são tomadas às Escrituras. Uma é destacada pelo Sr. Pierre Chaunu: "É preciso lembrar que o massacre dos pequeninos por nascer, prestes a abrir-se à luz do sol de Deus — (o planejamento do massacre feito pelo Faraó, ordenado primeiro às parteiras hebreias, que se recusaram a aplicar o genocídio, depois a todos os cidadãos egípcios (Êxodo I, 15–19) — constitui o detonador do engajamento brusco de Deus — o salvamento espiritual de Moisés no Horeb (Êx II, 11–12) e as condições do fim dos sofrimentos — a saída do Egito (Êx III, 1–6) — que, seja por toques discretos, seja com mão forte e braço estendido, conduz, com a Fé de seu povo e a esperança de seus Profetas, todas as coisas na direção que Ele, uma vez por todas, assinalou à história." O que nos leva à terceira e fundamental razão, ensinada por N.S. Jesus Cristo: "Aconteça o que acontecer, é a Igreja Santa, Una, Católica que sobreviverá: tal é a nossa fé". E: "Essa Igreja e essa religião, ditas antigas, tradicionais e superadas, são aquelas de que vivemos... e sabemos desde sempre que nenhuma obediência aos homens pode pretender fazer-nos ir contra a obediência a Deus e a suas Leis." VIGIAI E ORAI Fracos, facilmente arrastados pela gravidade, não é possível resistir e lutar sem que Deus intervenha. As próprias recomendações de Seu Filho N.S. Jesus Cristo traçam os caminhos para obter as Graças necessárias e suficientes para defender o que cremos. Vigilância contínua. "Se nos esquecemos de vigiar, diz-nos Jean Daujat, se nossa vontade adormece, a tentação introduz-se em nós, os maus pensamentos e os maus desejos, os movimentos de orgulho, de mentira ou de impaciência nos surpreenderão. Vigiar é, pois, projetar sobre toda a nossa vida, a todo instante, a luz de um juízo esclarecido, o domínio de uma vontade movida pela caridade". VIGIAR é, pois, projetar sobre toda a nossa vida, a todo instante, a luz de um juízo esclarecido, o domínio de uma vontade movida pela caridade." No quadro da contrarrevolução sexual, a luz é emitida pelos textos do Magistério supremo, que explicitam os princípios da Moral. É preciso impregnar-se deles. Por fim, é dever sagrado de caridade pública dar a conhecer esses princípios ao maior número. Lembretes elementares: "Toda vida humana, desde a concepção e através de todas as etapas seguintes, é sagrada porque criada à imagem e semelhança de Deus; preciosa porque é Dom de Deus, cujo Amor é infinito; "Para o Homem e o Cristão existe uma lei de integridade e de pureza pessoal, de estima pessoal de si, que proíbe mergulhar tão totalmente no mundo das representações e das tendências sexuais". "Quando o matrimônio é abandonado ao egoísmo humano ou reduzido a um arranjo temporário e condicional que se pode terminar facilmente, o vínculo matrimonial é indissolúvel". Quando a criança é considerada um fardo ou um simples meio de satisfazer uma necessidade emocional (da qual o orgulho, por meio da medicina preditiva, é um componente), afirmar que cada criança (tal como Deus permitiu que fosse) é um dom de Deus único e insubstituível e que tem direito ao acolhimento de sua família; "É preciso respeitar as exigências da moral natural, que proíbem considerar o cadáver de um Homem (Embrião, feto, recém-nascido, jovem ou adulto) como uma coisa ou como o de um animal". "Todo o problema é agir no respeito à pessoa e a seus próximos, trate-se dos doadores de órgãos ou dos beneficiários, jamais transformar o Homem em objeto de experiência." Quando se propõe a organização da autolibertação, saber que "tudo o que se opõe à própria vida... e mesmo o suicídio deliberado... todas essas práticas são, em verdade, infames." "A eutanásia é uma violação de uma lei divina, uma ofensa à dignidade da pessoa humana, um crime contra a vida, um atentado contra a humanidade." Vigilância e Oração contínua. "A vigilância aparece muito melhor como o regime normal da vida cristã, e como algo espontâneo, vivo, alegre, se se compreende que ela forma um só com a oração contínua". "Vigiai orando em todo tempo (Lc XXI, 36)", pede N.S. Jesus Cristo, e São Paulo insiste: "Sede assíduos na oração; que ela vos mantenha vigilantes na ação de graças" (Col IV, 2). "Deus não deixa suas obras inacabadas". Ora, prossegue o Sr. Jean Vaquié, por todas as Profecias da Revelação privada, assegura à nossa França a restauração política, a restauração da Igreja quando "tudo parecer perdido" e quando Ele julgar atingida "nossa maturidade sobrenatural". Será miraculoso! "Eis-nos, pois, em nosso posto, responsáveis por grandes acontecimentos. É preciso que arranquemos um milagre ao Céu, mas um milagre que o Céu tem pressa de nos conceder. Para obtê-lo, é preciso que a soma dos desejos tenha atingido a medida plena..." "É preciso obter, na ordem sobrenatural, um milagre que supere os milagres da Ciência moderna." "A religião da ciência pretende hoje substituir a religião da fé. É preciso agora que a fé prevaleça sobre a ciência..." "É pela ORAÇÃO de nossa fé que deve ser obtido esse milagre. É preciso importunar o Espírito Santo para que desça sobre a França como nos dias de São Remígio e de Clóvis. É preciso importuná-lo por Maria, sua Esposa". Assim, a poucos anos do décimo quinto centenário do batismo da França, no Natal de 496, sustentados pela oração, os Cristãos fiéis caminham em meio às tribulações pela estrada da reconquista, firmemente conduzidos pela mão da "fé que mais amo, diz Deus, "aquela menina esperança que parece não ser nada, "aquela menina esperança". L.D. Gnose e Literatura Contemporânea A MIRAGEM CÓSMICA E O RETORNO À TERRA-MÃE A Terra-Mãe é a mais antiga divindade conhecida dos etnólogos. Dispensa o alimento e a vida aos homens; habita o fundo da terra e das águas. É uma divindade ctônica, isto é, subterrânea e infernal. É a Mãe da Totalidade, do conjunto do Cosmos; deu à luz as grandes serpentes e os monstruosos répteis. Seu culto está sempre associado ao da Serpente. Encontraram-se nos túmulos de Ur, na Caldeia, estatuetas femininas, com cabeça de serpente, que amamentavam um bebê. A deusa é muitas vezes representada em meio a serpentes enroladas e entrelaçadas. Diodoro da Sicília a chama Reia ou Istar e a representa cercada de serpentes de prata de grossura enorme. O papel da serpente na mitologia greco-latina é considerável. Basta percorrer um manual clássico de mitologia para se convencer. Sai-se dessa leitura submerso pelo grande serpentino. O papel da serpente é bem conhecido nos ritos de iniciação dos mistérios de Elêusis. O culto de Delfos foi primeiro um culto da Terra-Mãe, ao qual estava associado o culto de Píton, o familiar de Gaia, a "Mãe". A Pítia, sacudindo-se sobre seu tripé, proferia seus oráculos em nome da Serpente. Foi assim que toda a Grécia esteve enfeitiçada durante séculos por esse réptil satânico. Encontra-se esse culto em toda parte. Na Índia, é o "Naga", a serpente, "personificação das energias profundas da Terra", Deus do torrão natal, desse solo misterioso e profundo de onde subiu até os homens. A Igreja, ao cristianizar o Ocidente, lutou com energia perseverante contra esse culto demoníaco e serpentino. Levou séculos para livrar dele nossos países latinos. Ora, eis que há mais de um século uma nova geração de escritores se esforça por reintroduzir esse culto em nossa literatura. Trata-se ao mesmo tempo de ressuscitar os antigos deuses celestes e de pôr novamente em honra os grandes temas gnósticos da Alma Universal do Mundo, do Retorno à Terra, matriz originária, e da reabsorção de todos os seres no Grande Todo divino. Eis, por exemplo, uma carta de Taine, dirigida em 16 de novembro de 1851 a Prévost-Paradol: "O homem que, percorrendo as leis do espírito e da matéria, percebe que todas elas se reduzem a uma lei única, que é a de que o ser tende a existir, que vê essa necessidade interior, como uma alma universal, organizar as estrelas, impelir o sangue do animal em suas veias, levar o espírito à contemplação do infinito, que vê o mundo sair vivo e magnífico de um único e eterno princípio, sente uma alegria e uma admiração maiores que o devoto ajoelhado diante de um homem engrandecido..." A vida é produto da alma universal, é idêntica no homem, no animal, na planta; o sangue, a seiva, a força atrativa das esferas constituem uma só e mesma animação; tudo se sustenta no cosmos. Taine tirou toda a sua filosofia desse princípio panteísta. Émile Zola não diz outra coisa. Em seu romance "A Obra", expõe seu pensamento pela boca de Sandoz, que apresenta a seu amigo Claude o plano desse belo trabalho: "Ah! como seria belo se se desse a existência inteira a uma obra em que se procurasse pôr as coisas, os bichos, os homens, a arca imensa! E não na ordem dos manuais de filosofia, segundo a hierarquia imbecil com que nosso orgulho se embala; mas em plena corrente da vida universal; um mundo em que seríamos apenas um acidente, em que o cão que passa e até a pedra dos caminhos nos completariam, nos explicariam; e por fim o grande todo, sem alto nem baixo, nem sujo nem limpo, tal como funciona..." Mais tarde, Sandoz — alias Zola — encontrou a ideia geral da síntese buscada: "Ah! Boa Terra! Toma-me, tu que és a Mãe comum, a única fonte da vida! Tu, a Eterna, a Imortal, onde circula a Alma do Mundo, essa seiva espalhada até nas pedras e que faz das árvores nossos grandes irmãos imóveis! Sim, quero perder-me em Ti; é Tu que sinto aí, sob meus membros, abraçando-me e inflamando-me, és Tu só que estarás em minha obra como a força primeira, o meio e o fim, a arca imensa onde todas as coisas se animam com o sopro de todos os seres!" Convém notar igualmente que as fórmulas literárias e as figuras poéticas não são indiferentes em si à expressão desse pensamento gnóstico. A escolha das metáforas, a busca das expressões figuradas não são fruto de um jogo intelectual entregue aos acasos da imaginação. Há, no uso desses procedimentos literários, uma intenção profunda, direções de pensamento sugeridas sem serem explicitadas, que permitem impregnar insensivelmente os espíritos, sem despertar, no curso da leitura, as reações de uma consciência cristã reta. Foi assim que muitos desses escritores, cujo ensinamento gnóstico vamos expor, chegaram a desviar seus leitores da verdadeira fé. Por exemplo, a utilização dos elementos naturais no jogo das metáforas não é inocente. O poeta compraz-se, por exemplo, em comparar a alma ao ar, ao sopro vivificante, a essa formidável potência do vento que permanece invisível. Trata-se do [pneuma] dos gnósticos. O homem quer-se pássaro, capaz de sulcar os ares, de escapar à gravidade, de sair de seus limites, de sua prisão, de vibrar à luz pura do céu. Faltam-lhe, pois, as asas. Podeis ter certeza de que se trata de um apelo ao suicídio. A comparação sugere uma passagem à identificação: "Sou esse pássaro no céu, sou verdadeiramente essa natureza na qual quero mergulhar". Há aí verdadeiramente uma assimilação geral de todas as substâncias umas nas outras. Trata-se de operar uma metamorfose grandiosa, de reencontrar a unidade mágica de todas as coisas. Essa música de imagens, de sensações e de impressões maravilhosas tem por fim operar a dissolução de toda atividade racional e criar um universo que apreende todas as coisas na unidade de uma música das esferas, no Grande Todo Divino. Neste texto evocador, Baudelaire nos mostra com que fervor se dá essa dissolução das almas nas coisas: "Acontece por vezes que a personalidade desaparece e que a objetividade, que é própria dos poetas panteístas, se desenvolve em vós tão anormalmente que a contemplação dos objetos exteriores vos faz esquecer a própria existência e que vos confundis logo com eles. Vosso olho se fixa numa árvore harmoniosa curvada pelo vento; em alguns segundos, o que não seria no cérebro de um poeta senão uma comparação muito natural tornar-se-á no vosso uma realidade. Emprestais primeiro à árvore vossas paixões, vosso desejo ou vossa melancolia, seus gemidos tornam-se os vossos e logo sois a árvore." "A matéria inorgânica", escreve Nietzsche, "é o seio materno. Ser libertado da vida é voltar a ser verdadeiro, é completar-se. Aquele que compreendesse isso consideraria uma festa retornar à poeira insensível". O CULTO DA TERRA E DOS MORTOS SEGUNDO MAURICE BARRÈS Eis outro gnóstico que enganou muito bem seu mundo! Quis ser o cantor da energia nacional. Foi por um tempo o mestre de pensamento da França nacionalista e cristã, o herdeiro da "Tradição", da Ordem, da disciplina social. Infelizmente! Sua influência profunda e prolongada sobre seus leitores exerceu-se numa direção totalmente outra, a de um panteísmo cósmico, como vamos demonstrar. Barrès ligara-se, desde a juventude, a um ocultista bem conhecido, Stanislas de Guaita. "Vivíamos em quarto como estudantes. Guaita vinha tirar-me da cama. Tínhamos nossos poetas. Líamo-los em voz alta", conta-nos ele. Ambos se fartavam na leitura dos românticos, em meio à fumaça dos cigarros. Ocupavam-se de espiritualismo, de necromancia. Foi por ocasião de uma sessão desse gênero que Barrès conheceu uma amiga de Vintras. Por um momento, Barrès deixou-se atrair pelo pensamento de Lamennais. Assim como Sainte-Beuve erguera sua monumental história de "Port-Royal" contra o dogmatismo intransigente de Roma, também ele acariciou a ideia de apresentar o domínio de La Chênaie como um lugar elevado do espírito. Mas foi seu encontro com Renan que o desligou definitivamente da fé cristã. Renan inculcou-lhe a ideia de que todos os cultos são apenas manifestações variadas de uma mesma e eterna aspiração ao divino. Semeou nele uma mística telúrica, da terra profunda: culto das florestas, das fontes e das pedras, fé na Natureza e em suas influências mágicas, sentimento profundo da divindade da Natureza, concepção panteica do Mundo. A partir desse momento, Barrès já não nomeia Deus, mas o divino, conceito neutro aplicável a tudo. "Os mortos", escreve em 1909, em seus "Cadernos", "associam-se aos vivos, sentimento inexplicável e fundamental, o passado e o presente unem-se num mesmo sentimento do divino. É aqui que se cumpre e se propõe o velho mistério da regeneração. O homem natural despoja-se para deixar aparecer, desabrochar, alçar voo o homem espiritual. É aqui que a matéria bruta passa ao estado de obra de arte. Aqui repousam, velam forças que modelam a alma". É, portanto, na matéria bruta que jaz a força criadora das almas. O espírito, aos olhos de Barrès, é uma força misteriosa, esparsa no Universo, captada somente por uma intuição divinizante e incapaz de manifestar-se através de nossa inteligência natural, "pobre coisinha à superfície de nós mesmos", diz ele. "Nossa alma e o universo em nada se distinguem um do outro. Esses dois termos só significam uma mesma coisa, a soma das emoções possíveis". Em seu célebre romance "A Colina Inspirada", Barrès exaltou uma seita gnóstica, a do heresiarca Vintras. Como Mani, como Joaquim de Fiore, Vintras repartiu em três épocas a duração total da história do mundo: a era do Pai, atravessada pelos séculos de Fé e de Temor; a era do Filho, marcada pela graça e pela esperança; a era do Paráclito, toda impregnada de caridade, a sua, a de Vintras. Essa colina de Sion-Vaudémont é "um dos teatros misteriosos da ação divina e uma das antigas moradas do espírito". Foi dela que se ergueram, através da bruma, os deuses antigos. Barrès escuta as vozes que sobem da terra e sopram sobre os outeiros. Reconhece nelas "a efígie dos deuses autóctones", isto é, saídos da profundeza do subsolo. "Há lugares onde sopra o espírito", esse espírito da Colina que anima fortemente Léopold Baillard, o mestre da comunidade. Para Barrès, Léopold é um místico da terra. Apresenta-o como defensor da "Tradição", guardião da alma do país, do solo natal e dos mortos, diante dos inimigos, os "soldados de Roma", isto é, os Oblatos, o bispo de Nancy, esses invasores vindos para suplantar os cultos ancestrais, célticos, das florestas, das fontes e das pedras. Não se pode ser mais panteísta e mais anticristão... Mas eis que, desde 1907, Maurice Barrès refletiu. Toma medo. Vê o indivíduo sublevado contra a ordem social. Toma a defesa da "ordem hierárquica", da "disciplina", da "razão", da própria "ortodoxia". Seus "Cadernos" dão testemunho. Que conversão! De repente a natureza exata desse sopro divino lhe aparece. "Essa colina", escreve, "esse centro da Lorena, onde estavam estabelecidos os Baillard, formava desde toda a eternidade uma acrópole nacional e religiosa, um lugar santo, um lugar todo saturado de potências místicas... Sobre a Santa Colina conspurcada, foi uma ressurreição das forças de outrora. Os dragões do paganismo, vencidos no alto lugar pelo glorioso apóstolo de Toul, São Gerardo, reapareceram... Sobre a alta colina, em torno do velho santuário, foi, durante alguns meses, uma prodigiosa ciranda que só se pode comparar a certas festas pagãs na estação das vindimas. Toda a Lorena olhava com estupor a dança satânica conduzida lá em cima, nas brumas do inverno, pelos três padres e por religiosas desgrenhadas". Credes Barrès convertido, queimando o que havia adorado e exaltado? Pois não... Eis que cai em sua própria armadilha: "Minha razão condena", explica, "o que meu coração às vezes não pode deixar de amar. Ao longo dos séculos, os gênios revoltados não têm direito à nossa inteira veneração; mas como seríamos equitativos se, depois de condená-los, nos recusássemos a sentir, a amar as altas partes de seu ser". Seu coração acompanha com afetuosa solicitude os combates de Léopold, seu herói, até "a tristeza do vencido, comparável a uma pena de amor". A sedução da serpente é singularmente poderosa sobre um espírito que continua a venerar e a adorar em segredo o que sua razão lhe ensina como uma manifestação do Grande Revoltado. Mas o fundo de seu pensamento não variou. Mesmo em seu apelo em favor da "Grande miséria das Igrejas da França", continua a exaltar essa "Terra encerrada numa rede divina, da qual eu não gostaria de romper nenhuma das inúmeras malhas; é a hora de completar a reconciliação dos deuses vencidos e dos santos... Todo o divino em socorro!!!" Decididamente, Barrès permaneceu incorrigível, "um dos exemplos mais grandiosos e mais terríveis de gênio maldito", concluiu André Thérive. Compreende-se por que hoje a Nova Direita neopagã se esforça por repor em honra sua obra em nossa pobre França descristianizada... O TRISMEGISTO SEGUNDO BAUDELAIRE O poeta teve o cuidado de nos prevenir: "Leitor pacato e bucólico, Sóbrio e ingênuo homem de bem, Joga fora este livro saturnino, Orgíaco e melancólico. Se não estudaste tua retórica Com Satã, o astuto decano, Joga fora! Nada entenderás, Ou me julgarás histérico." A retórica de Satã?... A "Gnose", é claro! Baudelaire a estudou na Revelação de Hermes Trismegisto, graças à complacência de seu amigo Louis Ménard. Este último acreditava na transmigração das almas, que vagavam após a morte de astro em astro. Foi seu discípulo na École Normale. Com seu amigo comum Leconte de Lisle, praticavam o panteísmo. Um dia, foram à floresta de Meudon. Cada um se instalou numa árvore para a noite: "Ó Panteísmo, tu me inundas!" De manhã, voltaram, enregelados e gripados... Louis Ménard publicara o "Poimandres" de Hermes Trismegisto, precedido de uma Introdução: "Estudo sobre a Origem dos livros herméticos", na qual afirmava que a doutrina hermética se encontra nos pagãos Plotino, Apuleio, Macróbio, em Orígenes e outros doutores da Igreja. "Há assim, em cada século", diz ele, "uma soma de ideias comuns a todas as seitas, mesmo rivais e inimigas..." O Sr. Paul Arnold encontrou a verdadeira fonte das "Flores do Mal" numa obra do século XVI, publicada em Bordéus em 1579, sob o título "Pimandro de Mercúrio Trismegisto, da filosofia cristã, conhecimento do verbo divino e excelência das obras de Deus, traduzido do exemplar grego, com colaboração de amplíssimos comentários, por François, Senhor de Foix... bispo de Aire...", obra dedicada a Margarida da França, rainha de Navarra. O autor, bispo católico, considera a revelação de Hermes ou Mercúrio Trismegisto como texto revelado, puramente católico. Interpreta essa revelação, palavra por palavra, por um comentário seguido dos mais pitorescos. Mostra a alma humana aprisionada num corpo oriundo, por emanações e degradações sucessivas, do princípio divino e entregue ao poder de demônios destruidores. O homem, diz ele, não tem nenhum poder de escapar à lei do universo: "Verdadeiramente um homem não é sábio de empreender, por qualquer força ou poder de Deus que lhe seja comunicado, romper a necessidade e a ação que o astro ou o fado exerce em sua pessoa. Devemos resolver-nos, tanto quanto possível, a suportar e combater... É que, reinando a vida e a imperfeição na matéria, não pode ser que o que se encontra nessa matéria não apresente sua principal natureza, que é o mal... A terra é a verdadeira pátria do Mal." François de Foix nos explica que "o Verbo de Deus, saído de Deus, 'indo para baixo', produziu 'caindo para baixo' as criaturas de formas. A alma é cativa dos demônios. O 'homem' permanece errante em trevas, sofrendo as dependências da morte"... pois está ligado à matéria "que por sua natureza é cheia de toda malícia e imperfeição". A matéria... "produz e brota imperfeições e vícios como flores e frutos procedentes dela". E eis o título das "Flores do Mal". Seu autor lembra com frequência a equação natureza–Mal, natureza–Ruído, Natureza–Satã. O homem, salvo pelo conhecimento (a Gnose!), concebe desde então sua verdadeira natureza como imortal e contemplativa, como unida a Deus. Tat, ensinado por Mercúrio-Hermes, exclama então: "Ó meu Pai, figuro-me (concebo) não pela vista dos olhos, mas pela eficácia das virtudes inteligíveis? Estou no céu, na terra, na água, nos animais, no ventre, antes do ventre, tudo em toda parte." Depois Mercúrio-Hermes entoa o Hino à Gnose: "Ó Santo Conhecimento (Ó Santa Gnose!), pelo qual devo recobrar a entrada de minha ventura e felicidade e por teu meio entrar na verdadeira comunhão de meu deus e soberano bem, sendo iluminado por Ti em todas as minhas ações e operações, ó Luz inteligível que és esse Santo Conhecimento dando claridade a todos os meus pensamentos e cogitações, que sem Ti seriam obscuros e trevas... a fim de que eu participe de vossa fonte eterna, ó vida e Luz, de vós a nós passou a bênção." Graças à Gnose, a alma foi regenerada e restaurada pela intervenção dos "demônios vingadores". Pode-se dizer que a obra de Baudelaire não é senão um comentário poético da Revelação de Hermes. Ouçamo-lo. Segundo a Gnose, o mundo é o resultado de uma degradação do ser divino na matéria, uma queda catastrófica, um pecado original cósmico. Baudelaire traduz, em prosa: "A Teologia – O que é a queda? – Se é a unidade tornada dualidade, é Deus que caiu. – Em outros termos, a criação não seria queda de Deus?" (em "Meu coração a nu"). Em verso, o mundo é "Uma Ideia, uma Forma, um Ser, Partido do azul e caído Num Estige lodoso e plúmbeo Onde nenhum olho do Céu penetra." Nossa alma, centelha divina, foi encerrada num corpo, como num túmulo. Os gnósticos jogaram com as palavras soma–corpo e sema–túmulo. Baudelaire copia por sua vez, fielmente, no soneto "O mau monge", primitivamente intitulado "O túmulo vivo": "Minha alma é um túmulo que, mau cenobita, Desde a eternidade percorro e habito; Nada embeleza as paredes deste claustro odioso." Tudo na natureza humana é mau: "É preciso sempre", escreve, "voltar a Sade, isto é, ao homem natural, para explicar o mal". – "O homem é naturalmente depravado". – O crime, de que o animal humano haurira o gosto no ventre da mãe, é originalmente natural... e é essa infalível natureza que criou o parricídio e a antropofagia... "Natureza infalível, pois só pode engendrar o mal, por uma fatalidade necessária; o que é o tema repetido das 'Flores do Mal'". Baudelaire está impregnado da doutrina gnóstica da metempsicose. Nascemos com um passado, vidas anteriores, com uma espécie de ficha criminal pré-natal, carregada do peso das faltas acumuladas no curso das encarnações precedentes. Atroz fatalidade, contra a qual o homem não tem nenhum recurso. É, portanto, prisioneiro de uma nova encarnação sofrida; é "um navio preso no Polo", diz o poeta de "O Irremediável". Compreende-se, pois, que se considere "condenado desde o começo e que sua vida o seja para sempre" (numa carta de 4 de dezembro de 1854). Como sair desse ciclo infernal?, pergunta-se o poeta: "– Certamente, eu sairei, quanto a mim, satisfeito De um mundo onde a ação não é irmã do sonho; Possa eu usar a espada e perecer pela espada. São Pedro renegou Jesus... Fez bem." Dois meios, portanto: o sonho e o suicídio. Este mundo não é senão um "oásis de horror num deserto de tédio". É preciso prosseguir um périplo através dos ciclos da existência, das trevas até o mergulho no nada: "Esses viajantes, para os quais está aberto O império familiar das trevas futuras... Vem! Oh! vem viajar nos sonhos, Além do possível, além do conhecido! ...alma de sonhos obscuros, Que o céu sufoca entre suas quatro paredes." Nossa alma está exilada neste mundo hostil; é a Estrangeira. Em marcha! Partamos "para qualquer lugar, contanto que seja fora deste mundo". Baudelaire prefere ao real "os monstros de sua fantasia". Exalta a imaginação, que é "a rainha do verdadeiro", explica; é "a mais científica das faculdades, porque somente ela compreende a analogia universal, ou o que uma religião mística chama a correspondência" (numa carta a Alphonse Toussenel de 21 de janeiro de 1856). "A imaginação é uma faculdade quase divina que percebe antes de tudo, à margem dos métodos filosóficos, as relações íntimas e secretas das coisas, as correspondências e as analogias" (em suas notas sobre Edgar Poe). Qual é, pois, essa religião mística que ensina as analogias e as correspondências entre o macrocosmo e o microcosmo? É a revelação de Hermes Trismegisto, é o ensinamento da Cabala e da Gnose. Satã é um poderoso sedutor. Depois de semear o desespero na alma do iniciado, apresenta-lhe sua estranha Beleza, como isca para lançar a vítima no abismo. Descreve-lhe seu domínio com os atrativos do Céu. O poeta parece hesitar entre um e outro, mas, de fato, já está decidido a mergulhar no abismo. "Derrama-nos teu veneno para que nos reconforte! Queremos, tanto esse fogo nos queima o cérebro, Mergulhar no fundo do abismo, Inferno ou Céu, que importa? No fundo do desconhecido para encontrar o novo!" "Quer venhas do Céu ou do Inferno, que importa, ó Beleza! De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia, Que importa, se tornas... O Universo menos hediondo e os instantes menos pesados?" A repetição do "Que importa" é significativa. A tentação satânica consiste em criar uma incerteza no espírito do iniciado, em apresentar-lhe o céu e a Beleza sob uma luz sombria e tenebrosa, plena de mistérios e de sonho, de modo a provocar nele uma indiferença cansada que prepara a futura capitulação da alma. Em "O Amor da Mentira", Baudelaire precisa: "Mas não basta que sejas a aparência Para alegrar um coração que foge da verdade? Que importa tua tolice ou tua indiferença? Máscara ou cenário, salve! Eu adoro a Beleza." Por fim, o iniciado está possuído e pode exclamar: "Não há uma fibra em todo o meu corpo trêmulo Que não grite: Ó meu caro Belzebu, eu te adoro." Só resta lançar-se no nada. A partir do momento em que o poeta está decidido à morte, as expressões de seu apelo ao suicídio são inúmeras. Citemos algumas: "Ó vermes, negros companheiros sem ouvidos e sem olhos, Vede vir a vós um morto livre e alegre..." É a morte que consola, ai de nós! e que faz viver! É o pórtico aberto sobre lugares desconhecidos! É que a morte, pairando como um sol novo Fará desabrochar as flores de seu cérebro...! Enfim! Ó Morte, vem, capitão, é tempo, levantemos a âncora. Este país me entedia; ó Morte, aparelhemos!... Até no suicídio o iniciado possuído crê encontrar o contrário da morte. Associa a morte à vida, a um pórtico para céus desconhecidos, a um sol novo, à liberdade e à alegria. A confusão é total. Satã, o Trismegisto, tirou dessas "Flores do Mal" de corolas venenosas um perfume mágico e fúnebre e depois, com um sopro poderoso, empurrou a alma do poeta para as profundezas ctônicas onde reina a Serpente. BERGSON, "FLOR DE GNOSE" Numa manhã de abril de 1922, o Sr. Firmin Nicolardot entrava por acaso numa livraria de usados em Nice. Sua pequena exploração ia chegar ao fim quando notou um folheto de filosofia intitulado "O Universo, sua força e sua vida", de um certo A. Laggrond, publicado em 1884. Na introdução, um engenheiro, Édouard Pellis, dizia apresentar nele as reflexões de um amigo oculto sob o pseudônimo de Laggrond, amigo que encontrara "primeiro na Boêmia, depois pelos caminhos do Egito". De volta para casa, o Sr. Nicolardot começou a leitura e, de repente: "Mas isto é Bergson!... Parece que o estou ouvindo ainda!" Com efeito, reencontrava, ao longo das páginas, as mesmas ideias, quase as mesmas expressões, já bem conhecidas do célebre filósofo. O que dizia o livrinho? "Nosso corpo", escreve Laggrond, "é a porção do Universo encarregada de liberar as forças que são as únicas que podem atingir nosso princípio de sensibilidade..." Depois de ter agido sobre a alma, a força pode, portanto, voltar ao mundo material, idêntica em sua quantidade... Mas necessariamente modificada em alguma coisa... Existe, pois, uma força única que age sobre as coisas e sobre o corpo humano, passando de um ser a outro, animação universal. Reconheceu-se a Grande Alma Universal do Mundo. "Minha razão", escreve ainda Laggrond, "não sou eu, é um de meus órgãos, aquele que encarreguei de desempenhar minhas funções intelectuais", ideia bem bergsoniana, à qual opõe "esse ser invisível que se afirma no fundo do organismo humano e que diz: eu". Seu verdadeiro nome é o espírito, o [nous] dos gregos. É o "verdadeiro centro do Homem", pelo qual "se liga ao eterno e ao infinito". Tema já bem conhecido dos pitagóricos e dos gnósticos. O autor prossegue: "Se nosso princípio de sensibilidade é imortal, podemos já ter vivido uma infinidade de existências, e outro infinito nos espera... As lembranças que podemos ter delas limitam-se à nossa coleção de quadros cerebrais. A metempsicose não é de modo algum uma ideia incompatível com o estado atual da ciência..." O autor alude à reminiscência platônica e às reencarnações. Rejeita com horror a ideia da "ressurreição de nosso corpo material e terrestre". "Não se deve considerar nossa inteligência como a parte espiritual e imortal de nosso indivíduo. Todo raciocínio mergulha sua última raiz na pura sensibilidade". É o conhecido desprezo dos gnósticos pelo uso natural de nossa razão. O Sr. Nicolardot, no curso de sua leitura, tivera o cuidado de anotar as similitudes de pensamento, as identidades de expressão entre esta pequena obra e a obra bem conhecida de Bergson. Dispusera em duas colunas as fórmulas similares ou idênticas. Concluíra que esta pequena obra era o primeiro livro de Bergson, publicado sob pseudônimo aos 24 anos. Mas eis que pesquisas posteriores o levaram a Lausanne, na Suíça, onde soube que Laggrond era um dos pseudônimos de um pastor vaudois, Auguste Glardon, escritor fecundo, editado na Suíça, que morrera em 1922. Esse Auguste Glardon fizera várias estadias na Ásia, nas Índias. Percorrera também o Egito em busca de sua antiga religião e estudara o budismo com seu amigo engenheiro, Édouard Pellis. Além disso, era maçom entusiasta, muito antirromano. Nicolardot retomou então sua investigação em novas bases, mas não conseguia desprender o espírito da ideia de que Bergson fora inspirado em sua juventude por Glardon. Fez-lhe a pergunta. Bergson declarou nunca ter ouvido falar de Laggrond. Ora, os dois nomes, Laggrond e Bergson, encontravam-se na época, por volta de 1886, na "Revue de philosophie", e os empréstimos de Bergson ao livrinho sobre "O Universo" são numerosos e incontestáveis. O Sr. Nicolardot completou seu estudo mostrando as grandes afinidades do Bergsonismo com a Gnose oriental e o Budismo. O próprio Bergson reconheceu em "As Duas Fontes" essa inspiração. Refere-se a Buda, a Plotino, a Jesus Cristo. Sabemos que "As Enéadas" de Plotino foram um de seus livros de cabeceira. Aliás, basta enumerar as principais afirmações de Bergson ao longo de toda a sua obra para reconhecer-lhe o caráter fundamentalmente gnóstico. Nas citações que se seguem, sublinhamos os termos diretamente tomados às obras dos ocultistas. Todo o desenvolvimento do mundo é o resultado de uma queda: "A natureza tende a um fim último, compõe-se de uma série de quedas, é um imenso desmoronamento". Sabe-se que Bergson admirava na obra de Lucrécio essa queda incessante dos átomos e os "grandes desmoronamentos" de universos. A gênese do mundo é assimilada por Bergson a uma espécie de degradação da divindade: "Imaginemos, pois, um recipiente cheio de vapor a alta tensão... Assim, de um imenso reservatório de vida devem lançar-se sem cessar jatos, cada um dos quais, ao recair, é um mundo". "Vejo em toda a evolução da vida em nosso planeta uma travessia da matéria pela consciência criadora, um esforço para libertar, à força de engenhosidade e de invenção, algo que permanece aprisionado no animal e que se desprende definitivamente no homem". Pensa-se imediatamente na alma encerrada no túmulo de seu corpo. "Somente a matéria que o fluxo da vida arrasta consigo e em cujos interstícios se insere pode dividi-lo em individualidades distintas. A corrente passa, pois, atravessando as gerações humanas, subdividindo-se em indivíduos. Assim se criam sem cessar almas que, no entanto, em certo sentido, preexistiam. Não são outra coisa senão os regatos em que se reparte o grande rio da vida, correndo através do corpo da humanidade". "Nosso ser", diz ainda Bergson, "formou-se no Oceano da vida" por uma espécie "de solidificação local". "A filosofia não pode ser senão um esforço para fundir-se de novo no Todo; a inteligência, reabsorvendo-se em seu princípio, reviverá às avessas sua própria gênese". Anotaram-se de passagem as fórmulas gnósticas: a queda, a degradação da divindade, o aprisionamento das almas, sua preexistência, a fusão e a reabsorção no Grande Todo. Poderíamos assim continuar por muito tempo as citações de Bergson que apresentam um sabor gnóstico nitidamente caracterizado. Um dos objetos de "A Evolução Criadora" é mostrar "que o Todo é da mesma natureza que o eu e que se o apreende por um aprofundamento cada vez mais completo de si mesmo", declara o boletim da Sociedade Francesa de Filosofia de 25 de novembro de 1909. O Sr. Nicolardot encontrou assim uma fonte pouco conhecida do pensamento de Bergson, que o liga, através do Hinduísmo e do Budismo, à Gnose primitiva e, mais precisamente, à Cabala. "A mais audaciosa tentativa de niilismo intelectual", no dizer de Maritain. Acrescentaríamos "de Nirvana". A CABALA SEGUNDO SIMONE WEIL Antes de expor o pensamento de Simone Weil, queremos reproduzir este protesto indignado do Cônego Moeller: "O entusiasmo dos meios cristãos pelos escritos de Simone Weil é uma manifestação característica do desnorteio dos espíritos no pensamento católico deste século. Estamos obcecados por 'concordismos' fáceis, já o disse a propósito de Huxley. Tentamos batizar in extremis tudo o que, de longe ou de perto, se assemelha ao cristianismo, porque não nos damos ao trabalho de conhecer a mensagem cristã autêntica. Dir-se-ia que é necessário que verdades cristãs nos sejam propostas por pensadores não cristãos para que tomemos consciência das riquezas que possuímos desde sempre, mas que havíamos esquecido. Temos má consciência, envergonhamo-nos de nossa fé. Simone Weil passa por cristã aos olhos de muitos. Quase ninguém viu que era maniqueia. É, pois, possível, em nosso século XX, difundir ideias heréticas que estão nos antípodas dos pontos mais essenciais de nossa fé, sem que ninguém franza o sobrolho. Contanto que não se empreguem as fórmulas que todo cristão sabe serem heréticas, podem-se desenvolver teorias que não só ficam aquém da Revelação, mas a negam, e pode-se ficar tranquilo; será preciso muito tempo antes que alguém se levante para protestar." Fazemos nosso esse protesto e pensamos que poderia aplicar-se a muitos outros escritores indevidamente considerados cristãos. Citemos Lanza del Vasto, Marcel Légaut e outros ainda vivos, que são atualmente os best-sellers da edição religiosa... O primeiro livro de Simone Weil, "A Gravidade e a Graça", entrou na literatura como um "clássico cristão", graças à complacência de Gustave Thibon, que teve o cuidado de eliminar do manuscrito toda a tralha gnóstica que o atulhava para inflectir seu pensamento numa direção aparentemente cristã, sem ver que o próprio título da obra é herético. Para compreender o pensamento de Simone Weil, é preciso reportar-se à Cabala judaica, tal como é exposta no livro do "Zohar", isto é, "O Esplendor". Havíamos escrito em "A Gnose contra a Fé", p. 46: "O Grande Todo Pleroma de nossos Gnósticos chama-se entre eles (os cabalistas) o En-Sof, isto é, o 'não limitado', grande Ser imutável, eterno, infinito, que encerra em si todas as formas. Para explicar o aparecimento do mundo visível e a multiplicidade dos seres que povoam o universo, os cabalistas recorrem à noção de emanação e de contração. O Grande Todo primitivo, espécie de caos, contrai-se para deixar um vazio no interior do qual vão aparecer as formas determinadas e múltiplas das criaturas, que são o reflexo aparente do En-Sof." Essa ideia de contração do mundo divino é digna das elucubrações e ratiocinações de rabinos. Em si, é intangível. Eis como Simone Weil traduz a coisa para os profanos: "A criação é abandono. Ao criar o que é outro que ele, Deus o abandonou necessariamente... Deus abdicou ao dar-nos a existência". Esvaziou-se de sua divindade, de sua substância em favor de uma criação que é "gravidade". A criatura é, portanto, "um pecado"; o bem está "fora do mundo", pois o mundo é abandonado ao mal; a criatura é "não-ser", "ficção de Deus", "brincadeira de Deus", "escravidão". O próprio Deus é o inimigo da criatura viva. "Iahweh, sob um aspecto ao menos, é o diabo" — ousa dizer —, sob o aspecto de criador, naturalmente. Acrescenta: "Se perdoarmos a Deus seu crime contra nós, que é o de nos ter feito criaturas finitas, Ele nos perdoará nosso crime contra Ele, que é o de sermos criaturas finitas. Deus me criou como um não-ser que tem ar de existir, a fim de que, renunciando por amor a essa existência aparente, a plenitude do ser me aniquile". A criação é, pois, no pensamento de Simone Weil, um erro catastrófico de Deus; deve desaparecer. O homem, objeto da maldição divina, deve divinizar-se mergulhando na matéria cósmica e absorvendo-se no Grande Todo, o En-Sof. "Um pensamento humano pode habitar a carne", diz ela, "mas, se um pensamento habita a matéria inerte, só pode ser um pensamento divino. Eis por que, se um homem é transformado em ser perfeito e seu pensamento substituído pelo pensamento divino, sua carne, sob as espécies da carne viva, tornou-se em certo sentido cadáver". A ascese consiste em fazer da carne um cadáver, isto é, uma matéria inerte, a fim de que o pensamento humano possa identificar-se com o de Deus e habitar um mundo não vivo. Compreendemos que se trata de um apelo ao suicídio. Todo esse sistema é uma blasfêmia contra Deus. E isso se intitula: "Intuições pré-cristãs". Teria sido preciso dizer anticristãs e satânicas. Só o demônio pode inspirar ao homem uma atração por perfeição sobre-humana para melhor fazê-lo cair mais baixo que a besta, no ciclo dos mitos, no inferno da necessidade, no aniquilamento de sua personalidade e na identificação com a matéria inerte. Como todos os gnósticos, Simone Weil recita o Pai-Nosso. Quando pronuncia: "Venha a nós o vosso reino", pensa: "que a criação desapareça", pois, diz ela, "a criação e o pecado original não são senão dois aspectos, diferentes para nós, de um único ato de abdicação de Deus". A encarnação de Cristo não é senão um dos numerosos "avatares" do divino; a alma de Cristo é a alma do mundo. A morte na Cruz realiza precisamente essa destruição da carne, que se torna "Carne" inerte. Cristo não ressuscitou, pois sua carne, tornada matéria inerte, constitui a substância da terra cósmica. Sempre em "Intuições pré-cristãs". A atitude de Simone Weil a respeito do amor humano está em continuidade com sua visão gnóstica do mundo. "A energia sexual", diz ela, "não é destinada a um uso natural, mas ao amor de Deus... O desejo carnal é uma corrupção, uma degradação do amor de Deus". Mais adiante: "Sexualidade. Há um mecanismo em nosso corpo que, quando se desencadeia, nos faz ver o bem nas coisas deste mundo. É preciso deixá-lo enferrujar até que seja destruído". Com efeito, para que participar da criação pelo uso natural da sexualidade, já que este mundo é uma maldição e que nosso maior desejo deve ser evadir-se dele? "Minha existência é um diminuição da Glória de Deus", diz ela. "Deus ma dá para que eu deseje perdê-la". Tudo isso dispensa comentários. Se o leitor teve o cuidado de estudar nossos capítulos anteriores, reconheceu logo, através das fórmulas de Simone Weil, os temas clássicos da Gnose marcionita e maniqueia, revista e agravada pela Cabala. NOTA I SOBRE A LITURGIA NOVA Em 1941, Simone Weil publicara um estudo sobre a missão sagrada do homem do campo. Queria transformar "a própria vida cotidiana em metáfora de significação divina". O trigo dará a farinha a transformar em pão para tornar-se o corpo de Cristo; a videira dará o vinho para tornar-se o sangue de Cristo. "O sacerdote", diz ela, "tem o privilégio de fazer surgir sobre o altar a carne e o sangue de Cristo, mas o camponês tem um privilégio não menos sublime. Sua carne e seu sangue, sacrificados no curso de interminárias horas de trabalho, passando através do trigo ou da uva, tornam-se eles próprios a carne e o sangue de Cristo". Assim, o labor do camponês participou da vida cósmica. "Seria preciso encontrar", acrescenta Simone Weil, "e definir para cada aspecto da vida social seu laço específico com Cristo. Esse laço deveria ser a inspiração de cada agrupamento da Ação Católica". Compreendemos bem que o verdadeiro sacrifício é o fruto do trabalho humano, que é da mesma essência que a pessoa de Cristo. Uma vez que a matéria inerte é de essência divina, como Simone Weil repete com frequência, é do seio do cosmos que pode surgir essa força divina capaz de transcender a matéria e de infundir-lhe, sob a forma de trigo ou de videira, uma potência divinatória. O sangue e a carne do homem passam à terra, depois à planta, e tornam-se sangue e carne de Cristo. Há aqui uma assimilação geral de todas as substâncias umas nas outras, todas oriundas da Terra-Mãe divinizada. Disse-se que Paulo VI bem gostaria de canonizar Simone Weil. É, com efeito, muito perturbador encontrar no novo ofertório uma fórmula que lembra estranhamente o ensinamento de Simone Weil: "Este pão, fruto da terra e do trabalho dos homens... este vinho, fruto da videira e do trabalho dos homens, nós vo-los apresentamos, eles se tornarão o pão da vida, o vinho do reino eterno..." Como poderiam tornar-se divinos por si mesmos, se não possuem já em si mesmos essa divindade inscrita na matéria inerte? No verdadeiro ofertório, o sacerdote oferece a Deus "uma vítima santa e imaculada", o próprio Jesus Cristo, e não frutos da terra e do trabalho dos homens. Na consagração, não se produz uma "evolução do pão e do vinho que atualizam uma substância divina já contida em potência na terra e no corpo do trabalhador", como diz Simone Weil, mas uma transubstanciação, isto é, o corpo e o sangue de Cristo "substituem-se" ao pão e ao vinho que desapareceram, não deixando no altar senão suas aparências. Nem os frutos da terra nem o trabalho dos homens possuem em si mesmos a capacidade de tornar-se divinos. NOTAS SOBRE GUSTAVE THIBON Havíamos acompanhado, em seu tempo, com simpatia e até admiração, a obra de Gustave Thibon, sobretudo: "Retorno ao Real", "O que Deus uniu", "Nosso olhar que falta à luz". Infelizmente! Thibon deixou-se enfeitiçar por Simone Weil e caiu em seu rastro na Gnose maniqueia, sobretudo em suas duas últimas obras: "A ignorância estrelada" e "O véu e a máscara". Ele próprio reconhece essa inspiração: "O maniqueísmo sempre foi minha tentação". Quando se sabe, resiste-se, rejeita-se a inspiração satânica. Pois bem, não! As fórmulas gnósticas são inúmeras nessas duas obras citadas. O homem, diz ele, é "um Deus mutilado e conspurcado, uma centelha de eternidade que sufoca a cinza dos dias". Expressão retomada várias vezes. O homem é "um ser que, caído da eternidade, só pode atingir seu fim subindo de volta a seu princípio". "Se sofremos por estar separados de Deus, é porque no fundo de nós mesmos nunca o deixamos, como o exilado que leva consigo a alma do país natal. A ideia platônica de reminiscência testemunha essa presença no âmago da ausência". É necessário lembrar que o homem foi criado na terra e colocado num paraíso terrestre e não celeste? O homem não possui nenhuma reminiscência de um mundo divino do qual teria sido precipitado. Isso é a tese dos gnósticos e, portanto, de Satã. Mais adiante, Thibon rejeita "a concepção aristotélica do composto substancial em proveito da teoria platônica da alma prisioneira do corpo". Também aí a sedução de Platão desempenhou seu papel nefasto, como sempre. Por fim, duas afirmações blasfematórias: "A criação pela qual Deus saiu de si mesmo e se apagou atrás de sua obra". Em referência a Léon Bloy, Thibon acrescenta: "É preciso consolar Deus de quê? De ter-se separado de si mesmo ao criar-nos. É de nós que espera o fim de seu exílio". Não é "uma admirável intuição" de Léon Bloy, é o ensinamento corrente de todos os gnósticos, desde sempre. E ainda: "Mal ouso evocar essa loucura: a criação concebida como um suicídio divino por amor. Deus, que, ao tirar o universo do nada, cava o túmulo em que vai deitar-se, inerte e gelado, e correndo a aventura de ser despertado da morte pela fidelidade de sua criatura". É uma loucura, evidentemente, Sr. Thibon! Mas o senhor a evocou. É, pois, o fundo de seu pensamento, mas é uma blasfêmia. "Saber do fundo da alma que Deus, primeiro autor do mal, é também a suprema vítima dele". Como pode um cristão falar assim de Deus? Sobre o amor: "Beatriz, Tristão e Isolda devem desvanecer-se na plenitude de seu amor e não amortecê-lo estabilizando-o pelo casamento. Saber isso e não sucumbir à tentação do Maniqueísmo". Mas, Sr. Thibon, o senhor já sucumbiu à tentação. Essa concepção do amor-suicídio e estéril é bem conhecida no pensamento gnóstico. Parece-nos que o senhor ensinara outrora exatamente o contrário em "O que Deus uniu". Então? Que concluir? A GNOSE DE TEILHARD DE CHARDIN Não é nossa intenção retomar aqui o estudo do pensamento do célebre jesuíta. A coisa já foi feita com mão de mestre. Queremos apenas mostrar a filiação gnóstica desse pensamento. Teilhard foi ao mesmo tempo um iluminado e um iniciado, muito cedo, desde a juventude. Claude Cuénot declara que sua obra é fruto de uma iluminação: "Muitos relâmpagos já sulcaram o céu mental de Teilhard, o último em data sendo o Meio Divino..." O padre de Lubac, por seu lado, fala da "intuição primeira que uma reflexão incessante não consegue esgotar", cuja força ativa vem "de uma primeira centelha que tudo iluminou". O próprio Teilhard confessa sua iniciação gnóstica em sua "Missa sobre o Mundo": "Sob o despertar de iniciação terrível e doce de que me fizestes sucessivamente transpor os círculos, cheguei a não poder mais ver nem respirar fora do meio em que tudo é um". Sua égeria, sua iniciadora na Gnose foi a Sra. Maryse Choisy, diretora-fundadora da revista "Psyché", membro do "Droit Humain". Foi ela quem lhe fez "transpor os círculos" da iniciação maçônica. Pouco antes de morrer, ele ainda lhe escrevia: "Cara amiga, que é feito de você? E em que pé está sua 'evolução'? Faça-me saber, faço questão, porque, apesar da distância e da ausência, continuamos a ter necessidade um do outro; há aí uma força preciosa que não devemos deixar dissipar-se". Em sua última carta a Maryse Choisy, precisa: "Sinto-me cada vez mais preocupado (isto é, apaixonadamente interessado) pela busca do Deus (não somente cristão, mas transcristão) tornado necessário pelas exigências crescentes de nossa adoração". Toda a tralha gnóstica que atulha as milhares de páginas de nosso jesuíta é tirada dos grandes escritores ocultistas e esotéricos: Schuré, Weiss, Benson. "A embriaguez do panteísmo pagão, desviá-la-ei para um uso cristão, reconhecendo a ação criadora e formadora de Deus em todas as carícias e em todos os choques... A alta paixão da luta por saber, por dominar, por organizar, desencadeá-la-ei sobre os objetos naturais, mas com a segunda intenção e o fim último de prosseguir a obra humana... O amor ingênuo ou inquisidor da Terra-Mãe, divinizá-lo-ei, pensando que, desse todo misterioso que é a matéria, algo deve passar, pela ressurreição, ao mundo dos céus... E assim, sem ruptura, levado pela gradação natural do material, do vivo, do social, reencontro, no termo de meus desejos, o Cristo cósmico (se ouso dizer), aquele que ata no centro consciente de sua pessoa e de sua obra todo movimento dos átomos, das células, das almas..." A iniciação gnóstica do P. Teilhard remonta à sua juventude. Seu espírito já era prisioneiro do culto da Terra-Mãe, de um evolucionismo delirante, de uma identificação da alma de Cristo com a matéria e os átomos. É preciso reconhecer aqui o sopro poderoso e devastador do espírito das trevas, que exalta as paixões mais baixas, as da ambição e da dominação. Por fim, numa carta a Maryse Choisy, escrita de Nova York alguns dias antes de sua morte, em 10 de abril de 1955, o Padre Teilhard lhe dirige suas reflexões após a leitura de um texto de Jung, a quem chama seu "ilustre Mestre"... Escreve à irmã, Sra. Teilhard-Chambon: "Li também Schuré, que é evidentemente muito tônico para o espírito. Faz sentir e pensar na ordem das realidades que nos interessam a ambos... Alegria de encontrar um espírito extremamente simpático ao meu — excitação espiritual ao entrar em contato com uma alma apaixonada pelo mundo — prazer de ver que meus ensaios de solução convêm, em suma, perfeitamente às visões dos 'Grandes Iniciados', sem alterar o dogma... Da leitura dessas páginas, tenho consciência de ter tirado até aqui sobretudo um acréscimo veemente de minha convicção na necessidade, para a Igreja, de apresentar o dogma de maneira mais real, mais universal, mais cosmogônica, ouso dizer". Sentimento, paixão, excitação, veemência: todos esses termos mostram bem a alma enfeitiçada por uma atração satânica e uma tomada de posse demoníaca que retiram toda possibilidade de recorrer ao bom senso natural para rejeitar semelhantes futilidades. Aliás, esse pensamento gnóstico assombrava o espírito do Padre Teilhard desde a juventude. Testemunha-o esta carta de 15 de março de 1916 ao Padre Fontoynont: "A propósito da Assunção, Jung sustentaria a tese de que, na mística católica, a ascensão da mariologia seria obra das mulheres, que fazem questão de ver-se bem 'representadas' na estrutura do Reino dos céus. Mas minha convicção, ao contrário, é que essa ascensão tão notável do mariano ao lado do crístico é principalmente obra dos homens, dos homens votados ao celibato sobretudo. Os grandes devotos da Virgem foram homens: São Bernardo, São Francisco de Sales, São Luís Gonzaga, São João Berchmans etc. Ao passo que os grandes devotos do Cristo-homem — não digo do Cristo cósmico — foram mulheres, Santa Teresa etc. O fundo e o interesse da questão mariana, do 'fato mariano', é, a meu ver, trair uma irresistível necessidade cristã de 'feminizar', ainda que por uma atmosfera ou envoltório externo, um Deus, Iahweh, horrivelmente masculinizado, o que é simplesmente uma das faces presentes da sobredescoberta de Deus: Deus ao mesmo tempo 'cosmizado' e 'feminizado' em reação contra um certo 'paternalismo neolítico', demasiadas vezes apresentado como a essência definitiva do Evangelho. Que pensa o senhor? Bom ânimo para sua bela tarefa". Eis, sob uma linguagem complicada e rebuscada, a evocação da "Sofia" dos gnósticos; um Deus feminizado é a forma feminina do Grande Todo Divino. Pela sobredescoberta de Deus, atingimos um Hiperteos, uma divindade–Sabedoria que contém e encerra todos os seres do Universo, do Cosmos. Tudo isso mostra bem a formação maçônica do Padre Teilhard por intermédio de Maryse Choisy. É, pois, perfeitamente lógico encontrar na revista maçônica "Symbolisme" de abril/junho de 1962 esta afirmação significativa: "Não creio que os teólogos reconheçam facilmente o P. Teilhard como um dos seus. Mas é certo que os maçons, conhecendo bem sua arte, o saúdam como seu irmão em espírito e verdade". Infelizmente! quantos teólogos o reconheceram como um dos seus, apesar do que diz a revista maçônica. Era preciso que o mundo eclesiástico estivesse singularmente maçonizado até os cumes da hierarquia para ter reconhecido e magnificado a obra de um "Irmão". Para terminar e reencontrar os princípios que dirigiram nossas pesquisas neste capítulo, pensamos dever citar esta página inédita do célebre jesuíta: "... Fazer surgir, das profundezas juvenis, magmáticas de seu ser, uma força ainda informe, mas poderosa, de aspiração e de esperança ilimitadas. Mugido das vagas sociais... todos os ruídos discordantes que sobem neste momento da massa humana, ressoando na medida de uma nota fundamental única... Somente nele, por bruscos afluxos, em dose maciça, de uma seiva nova, é o espírito religioso que borbulha e se transforma..." Compreendemos bem que esse "Espírito" religioso, que borbulha ao surgir das profundezas magmáticas, com mugidos, vagas e ruídos discordantes, não é outro senão a Serpente gerada pela Terra-Mãe, saída desse mundo subterrâneo e infernal, desse solo misterioso e profundo de onde subiu para atrair por sua vez os homens e fazê-los mergulhar nesse "espelho cósmico", por uma queda no "Nada", no "Nirvana". CONCLUSÃO Constatamos que Satã aperfeiçoou sua estratégia desde as origens da Gnose. Outrora, propunha aos homens livrá-los de seu corpo, carapaça inútil e ganga terrestre, para libertá-los, soltar sua alma e permitir-lhe voar para o mundo da Luz. Hoje, ao contrário, atrai o homem inteiro, corpo e alma, para as profundezas ctônicas de seu mundo subterrâneo. Explica aos homens que sua alma não é outra coisa que um movimento de átomos, um mugido de vagas, um amontoado de células, matéria inerte; que tudo isso deve voltar à sua fonte originária, magmática, ao COSMOS, o mundo de que ele, a Serpente, é o senhor soberano. É o que os Gnósticos de todos os tempos chamaram o Retorno à Unidade Primordial. Nada mais de libertação, de voo no azul, mas uma atroz sujeição à matéria. Chamamos essa atração para baixo uma "Miragem cósmica". Limitamo-nos a expor o pensamento de cinco escritores contemporâneos que gozam, em nosso mundo paganizado, de imenso prestígio. Poderíamos também ter citado uma multidão de outros autores de hoje que continuam a difundir esse pensamento gnóstico e trabalham com encarniçamento diabólico para perder as almas. Para quê? Aqueles que se deram ao trabalho de seguir nossos estudos com toda a atenção necessária não terão dificuldade em reencontrar os temas aqui abordados em suas próximas leituras e serão por si mesmos capazes de reconhecer-lhes a malfeitoria. Dom Marcel LEFEBVRE, na época em que era Superior dos Padres do Espírito Santo, escrevera ao Sr. Alain Tilloy para lhe dizer sua concordância de fundo a respeito de seu estudo sobre Teilhard de Chardin: "Caro Senhor Tilloy, Sua obra é uma tese que mostra as afinidades dessa doutrina de Teilhard de Chardin com ideologias antigas que se perpetuam ao longo de toda a história. A aproximação que o senhor faz é impressionante e faz compreender melhor o perigo das obras de Teilhard de Chardin... Sem ter podido, como o senhor, estudar esses estreitos laços com a Gnose e os autores gnósticos, eu chegava à mesma conclusão que o senhor quanto à contradição profunda, radical, do pensamento de Teilhard com o de Nosso Senhor..." NOTAS BIBLIOGRÁFICAS – Michel CARROUGES: "A mística do Super-homem" (NRF Gallimard, 1948); absolutamente notável, a completar por – Jean CARRÈRE: "Os maus mestres: Rousseau, Chateaubriand, Balzac, Stendhal, George Sand, Musset, Baudelaire, Flaubert, Zola" (Plon, 1922) – Charles Moeller: "Literatura do século XX e cristianismo. I. Silêncio de Deus: Camus, Gide, Huxley, Simone Weil, Graham Greene, Julien Green, Bernanos" (Casterman, 1947) – "Les Cahiers d'Hermès", publicados sob a direção de Roland de RENÉVILLE, N.º 1: "As letras francesas e a Tradição" (La Colombe, 1947) Monografias importantes: – Paul ARNOLD: "Esoterismo de Baudelaire" (Vrin, 1972) – Jean MASSIN: "Baudelaire entre Deus e Satã" (Julliard, 1945) – J. de TONQUÉDEC: "Sobre a filosofia bergsoniana" (Beauchesne, 1936) – Alain TILLOY: "Teilhard de Chardin, pai da Igreja ou pseudoprofeta?" (Éd. St Michel, 1967) – Paul-Bernard GRENET: "Pierre Teilhard de Chardin ou o filósofo a contragosto". Beauchesne, 1960. Gnose e Islã I 1 – Posição do Problema 2 – Os temas gnósticos no Corão 3 – O panteísmo dos sufis 4 – As seitas gnósticas no Islã 5 – O Islã, veículo da Gnose a – pela filosofia b – pela literatura 6 – Conclusão A história crítica das origens do Islã ainda está por escrever. Até estes últimos anos, os islamólogos contentaram-se em dar uma aparência erudita e douta às lendas espalhadas desde as origens pelas autoridades muçulmanas para abrigar durante séculos os infelizes povos do Oriente Próximo. Ao fazê-lo, esses historiadores sem consciência e sem escrúpulo mergulharam as ditas populações em mentiras e imposturas destinadas a mantê-las num estado de embrutecimento moral e intelectual. Riza Tewfik escrevia em 1947, em Beirute: "Constatei que a maioria dos historiadores no Oriente carece de senso crítico e a história — até o começo do século XIX — conservou entre nós seu caráter primitivo: o de ser pateticamente anedótica! Quanto aos comentários, acumularam — em nome de tradições que consideram verdades evidentes por si mesmas — um monte de superstições inventadas pela imaginação popular. Abusaram tanto delas que os comentários estão cheios dessas anedotas estúpidas que, longe de esclarecer a significação do texto, antes a empanam: isso embaraça a inteligência das pessoas simples e abala sua fé." Foi preciso esperar estes últimos vinte anos para encontrar historiadores bastante livres e independentes das modas intelectuais a ponto de abrir brechas eficazes nesse muro do conformismo universitário. O primeiro, o P. Gabriel Théry, denunciou as falsificações da história difundidas pelos islamólogos; mas não ousou fazê-lo em seu próprio nome, que no entanto já era suficientemente autorizado na matéria; contentou-se com o pseudônimo de Hanna Zacharias (o que mostra, entre parênteses, que forte pressão exerce o conformismo intelectual mesmo sobre homens feitos, chegados ao cume das honrarias universitárias). Contudo, a sã crítica histórica não reterá grande coisa de suas hipóteses, apenas esta ideia muito justa de que o Islã, ao difundir-se entre as populações cristãs do Oriente, as reconduziu à prática do judaísmo e à observância da lei de Moisés. Seu discípulo e sucessor, o abade Joseph Bertuel, fez um estudo muito aprofundado sobre as origens do Islã. Permanece prisioneiro de várias das teses de Hanna Zacharias. Contudo, foi o primeiro a ter a coragem de "riscar Maomé do número dos grandes fundadores de religião, de tirar-lhe pura e simplesmente a paternidade do Corão", como ele próprio diz. Poderia ter acrescentado simplesmente que Maomé não existiu e que sua vida é totalmente lendária. Mas então por que conservar essa distinção entre suras mequenses e suras medinenses? É um recorte artificial do Corão, operado a posteriori para atrelar o texto do livro a uma lenda para a qual não fora escrito. Aliás, suas pesquisas históricas são apaixonantes. Pode-se dizer que foi o primeiro a fazer verdadeiramente obra de historiador sério. Por fim, o irmão Bruno Bonnet-Eymard atrelou-se à tarefa esmagadora, mas fundamental, de retraduzir seriamente o Corão. Fica-se sabendo assim que o autor deste livro era um homem douto, até erudito, que possuía a fundo o hebraico, o aramaico, o grego. Foi capaz assim de criar, a partir de uma língua árabe falada, uma língua escrita. Ele próprio forjou o vocabulário religioso necessário para transmitir seu ensinamento e deu a essa língua uma estrutura gramatical suficientemente complexa para exprimir noções religiosas e jurídicas às quais esses nômades estavam pouco habituados. O irmão Bruno já tirou de suas traduções conclusões notáveis que revolvem de alto a baixo toda a história lendária do Islã. Não é nossa intenção retomar esse trabalho de primeira ordem, mas apenas utilizar várias de suas conclusões para dar corpo à intenção que temos de mostrar, através da história dessa falsa religião, sua impregnação pelo pensamento gnóstico desde a origem e o papel que desempenhou ao longo dos séculos na transmissão dessa Gnose ao Ocidente cristão. POSIÇÃO DO PROBLEMA Para compreender as origens do Islã, é preciso ter bem presente ao espírito o pano de fundo histórico sobre o qual se imprimiu a nova religião. Desde o início da era cristã, o Oriente Próximo foi sacudido pela luta secular entre o império romano e o reino persa. Jamais os romanos puderam abater esse império dos sassânidas. A guerra foi endêmica, entrecortada de tréguas e de pazes provisórias, mas sempre retomada com sortes diversas de lado a lado. Vários imperadores romanos perderam nela a vida: Aureliano, Juliano, por exemplo. Foi a necessidade de aproximar-se do teatro das operações que constrangeu o imperador Constantino a instalar sua capital em Bizâncio, tornada Constantinopla. Ora, nessa guerra ininterrupta, os romanos apelaram para os árabes e os incorporaram em suas legiões como auxiliares; os reis sassânidas também. De modo que, desde o início da era cristã, havia tribos árabes instaladas na Síria, na Palestina, no Egito, mais ou menos sedentarizadas. Na Transjordânia, eram os nabateus. Haviam sido ligados por tratado de paz e de assistência ao Império Romano, que os utilizava para proteger os territórios do Império contra as outras tribos árabes que permaneciam nômades e saqueadoras. Durante os primeiros séculos cristãos, esses árabes converteram-se ao Cristianismo. Um deles chegou mesmo a ser imperador em Roma: Filipe, o Árabe, ao mesmo tempo "Imperator" e cristão. O Sr. F. Nau apresentou-nos outrora esses "Árabes cristãos" da Mesopotâmia e da Síria do século VII ao VIII", isto é, na época do nascimento do Islã. Precisa até que o "nome de Alá não pertence aos muçulmanos, mas é propriedade dos árabes cristãos." O que se passou no século VII? Mais ou menos o que se passara dois séculos antes na parte ocidental do império romano. Os germanos — francos, visigodos, burgúndios — instalados no território da Gália desligaram-se do imperador romano tornado impotente e proclamaram-se reis independentes de fato, mantendo uma lealdade teórica ao Império. Não houve invasão, nem massacre de populações, apenas algumas batalhas contra legiões romanas que permaneceram fiéis ao Imperador. No Oriente Próximo, depois da última e mais violenta das guerras contra a Pérsia, o enfraquecimento dos dois beligerantes foi tal que os chefes das tribos árabes cristianizadas e instaladas na Síria, na Palestina, no Egito, na Mesopotâmia tomaram sua independência e atribuíram-se o poder soberano. Fizeram-se abrir as cidades, expulsaram as legiões bizantinas que permaneceram leais ao imperador. A operação fez-se em poucos anos, sem resistência das populações, felizes por escapar aos constrangimentos e às exigências da administração imperial. Não houve, portanto, propriamente falando, invasão, guerra de conquista. Não: uma simples tomada de poder por parte dos chefes de tribos já instaladas no local. Um fenômeno semelhante produziu-se na Pérsia. O último dos sassânidas, Cosroes II, havia organizado uma grande expedição ao Egito, de cuja volta seus exércitos haviam saqueado e destruído Jerusalém, em 614, e levado o lenho da Vera Cruz. Os contingentes árabes formavam o essencial do exército persa. Depois da reconquista dessas regiões pelo imperador Heráclio e da morte de Cosroes II, o reino persa caiu em querela dinástica. Foi por ocasião dessa espécie de intriga tumultuosa e obscura que os chefes dos contingentes árabes tomaram igualmente o poder. A redação do Corão data dessa época. Está ligada a essa tomada de poder pelos árabes cristãos, a quem se dirige o autor do livro. O abade Bertuel se faz esta objeção: "Se esse autor fosse cristão, teria, ao longo de suas narrações como nas lições que delas extraiu, esclarecido o sentido e o alcance espiritual dos textos pela revelação do Novo Testamento." Mas não, Sr. Abade! O Corão não se destinava a converter os árabes ao Cristianismo, pois já eram cristãos, mas a desviá-los da adoração de Jesus Cristo e a reconduzi-los à prática do Judaísmo e à observância da lei de Moisés. O autor do Corão era, pois, de fato um cristão, mas um herege judaizante, que negava a divindade de Jesus Cristo. Não lhe convinha de modo algum recorrer ao Novo Testamento para esclarecer o ensinamento de sua heresia, pois ele próprio rejeitava-lhe o fundamento, que é a divindade de Jesus. Voltaremos a isso. O Abade Bertuel acrescenta esta reflexão: "Pergunta-se por que os árabes não se converteram imediatamente ao Cristianismo, que lhes teria dito as coisas mais claramente e os teria libertado radicalmente da apologética judaica..." Por quê? Ora, porque os árabes já são cristãos e trata-se justamente de reconduzi-los a uma apologética judaizante, a do Antigo Testamento, o único autêntico aos olhos do Corão. Não há Novo Testamento, pois Cristo não é senão um profeta, sucessor de Moisés. O livro do Corão foi escrito na Síria por um cristão judaizante para os árabes da Síria. Não há nada nesse livro que possa referir-se à Arábia. Nem Meca, nem Medina, nem a Caaba são mencionadas. O templo de que se trata só pode ser o de Jerusalém, que seria preciso reconstruir. Ao longo dos séculos seguintes, os cristãos do Ocidente sempre consideraram os muçulmanos como cristãos heréticos. Chamavam-nos ou mouros, habitantes da Mauritânia, a África romana, ou sarracenos, as gentes da Síria, nunca árabes. Mesmo que se aceite a etimologia de Saraceni, os "Árabes escenitas", que vivem sob a tenda, trata-se sempre de gente vinda da Síria, e na literatura da Idade Média as referências remetem sempre à "Syria", nunca à Arábia, quando se trata de muçulmanos. Até Dante, no século XIV, coloca Maomé entre os cristãos heréticos. Este rasga o peito em dois, porque dividiu a Igreja em dois. São João Damasceno (morto em 749) acusa o fundador do Islã "de ter tido colóquios com um certo monge ariano" e classifica a "superstição dos ismaelitas" entre as heresias cristãs. Precisemos ainda que os árabes não conquistaram o resto da bacia mediterrânea. Quando as populações sob seu domínio passaram para sua "superstição", crendo contudo permanecer cristãs, partiram à aventura: os sírios em seus navios, para piratear as costas ocidentais e fornecer escravos aos haréns do Oriente; os mouros sobre a Espanha, para pilhá-la e devastá-la, depois instalar-se em cidades prósperas. Notou-se que, nos contingentes islamizados, os árabes eram ínfima minoria, afogada sob múltiplos aportes estrangeiros. Na Espanha, quase unicamente berberes e tuaregues, eslavos também, antigos escravos da Europa central, que formavam corpos de janízaros e alcançavam as mais altas situações no Islã, muitos cristãos convertidos de bom ou mau grado e, por fim, os moçárabes, nativos que permaneceram cristãos, mas mais ou menos arabizados e quase assimilados. Somente as populações camponesas ou montanhesas resistiram longa e eficazmente à invasão do Islã: os felás do Egito, os cabilas na Argélia, os cristãos nas montanhas do norte da Espanha. Por fim, a existência de Maomé permaneceu, vários séculos após a conversão ao Islã, desconhecida das populações convertidas. Na Espanha, durante todo o século VIII e o início do século IX, nenhuma obra de polêmica entre cristãos e muçulmanos menciona a pessoa de Maomé. Em 857, Eulógio escreve: "Encontrando-me no mosteiro de Leyre (ao norte da Espanha), tomei conhecimento, no desejo de instruir-me, de todos os livros que ali estavam reunidos, lendo os que me eram desconhecidos. De repente, numa pequena obra anônima, descobri uma historieta sobre um profeta nefasto." Era Maomé. Resumiu essa história em sua "Apologética dos mártires" e a enviou a João de Sevilha, que a fez conhecer. Álvaro de Córdoba fala de Maomé em seu "Indiculus luminosus". Um monge de Sens, Gautier, compõe um poema sobre ele. Hildeberto, bispo de Le Mans, compõe outro poema em dezesseis cantos, intitulado "Historia Mahumeti", composto em 1100, no qual Maomé é apresentado como um barão da Idade Média, cercado de vassalos dedicados, o que dá uma ideia da opinião que se fazia de sua pessoa entre os cavaleiros das cruzadas. É, pois, com justiça que o Sr. Abade Bertuel coloca a questão, que permanece ainda hoje sem resposta: "O único mistério que subsiste é puramente de ordem histórica: por que e como, depois de um século e meio de esquecimento do apóstolo árabe, os muçulmanos do século IX fabricaram vidas de Maomé que viriam a ser o pensamento universal dos adeptos do Islã?" OS TEMAS GNÓSTICOS NO CORÃO Em 1874, o professor Ad. v. Harnack, em sua tese de licenciatura, declarava que o maometismo não era senão uma derivação longínqua da Gnose judaico-cristã e não uma religião nova. Manteve constantemente essa visão fundamental. É o que vamos demonstrar. O autor do Corão é um religioso, monge judeu-cristão, pertencente a uma comunidade derivada dos antigos ebionitas, os "Pobres de Jerusalém". Santo Irineu já nos havia explicado, no século II, que esses ebionitas negavam então a divindade de Jesus Cristo e permaneciam muito apegados à prática do Mosaísmo, censurando os cristãos da Grande Igreja por seu abandono da lei de Moisés. O autor do Corão possui um conhecimento minucioso e aprofundado de todo o Antigo Testamento. Para ele, não há Novo Testamento. Jesus Cristo não é senão um profeta na linhagem de Moisés. Suas fontes sobre o Messias são todas tiradas de obras apócrifas, rejeitadas pela Grande Igreja cristã grega ou latina. Sua biblioteca compõe-se de pseudepígrafos de caráter gnóstico: "O Evangelho da Infância", redigido em siríaco, o "Protoevangelho de Tiago o Menor", o "Evangelho de Tomé", obra gnóstica hoje bem conhecida, o "Evangelho do pseudo-Mateus", redigido primeiro em língua hebraica. A maioria desses apócrifos havia sido traduzida para o árabe nessa época. Encontram-se ainda em sua biblioteca apócrifos do Antigo Testamento, o "Livro dos Jubileus", de onde tirou a "história de Satanás o apedrejado" e as repreensões de Abraão a seu pai Taré, como explica Sidersky em suas "Origens das lendas muçulmanas no Corão". Ora, o "Livro dos Jubileus" pertencia à literatura ebionita; foram encontrados trechos dele em Qumran. O autor do Corão tende com todas as forças a arruinar o dogma fundamental do Cristianismo, a divindade do Salvador. Admitiu Jesus como profeta eminente, como o Verbo e o Espírito de Deus, mas na linhagem dos outros profetas, ligando-o diretamente à revelação de Moisés. Para isso afirmou que Maria, mãe de Jesus, era irmã de Aarão e de Moisés: "Ó irmã de Aarão, teu pai não era um pai indigno, nem tua mãe uma prostituta" (como afirmam os judeus). Era virgem, pois Isaías o havia anunciado e os livros apócrifos, como o "Pseudo-Mateus" e o "Protoevangelho de Tiago", também o afirmam. Portanto, Cristo Jesus não é senão sobrinho de Moisés. Era preciso uma singular audácia para telescopar assim os séculos e fazer crer, no século VII, numa lenda tão contrária a toda a história religiosa conhecida havia muito tempo. Hanna Zacharias desenvolveu bem esse ponto capital. Em seguida, Jesus Cristo não é filho de Deus. Como poderia sê-lo? "Ele que formou os céus e a terra, como teria um filho, Ele que não tem companheira!" — "Eles (os cristãos) dizem: Deus tem um filho. Por Sua glória, não. Dizei antes que tudo o que está nos céus e na terra Lhe pertence e Lhe obedece". — "Jesus é aos olhos de Deus o que é Adão. Deus o formou do pó, depois disse: 'Sê, e ele foi'." Jesus é, pois, criado e não gerado. Há um único Deus. Os árabes cristãos professavam o dogma trinitário e empregavam a palavra tathlith para designá-lo; sabiam distinguir as três pessoas pelo termo uqnum, de origem siríaca. O autor do Corão insurge-se com força contra esse dogma: "Ó vós que recebestes as Escrituras, em vossa religião, não ultrapasseis a justa medida, não digais de Deus senão o que é verdade. O Messias, Jesus, filho de Maria, é o apóstolo de Deus e Seu Verbo que Ele lançou em Maria. É um espírito vindo de Deus. Crede, pois, em Deus, em Seus apóstolos e não digais: há Trindade. Cessai de fazê-lo. Isso vos será mais vantajoso, pois Deus é único. Glória a Ele..." "Glória a Deus, que não tomou filho para Si e não tem associado em Seu reino... Magnificai-O grandemente!..." "Os ímpios certamente disseram: Deus é o Messias, filho de Maria. Ora, o Messias disse: Ó Filhos de Israel! Adorai Deus, meu Senhor e o vosso! A quem der Associados a Deus, Deus interdita o Jardim; esse terá o fogo por refúgio..." etc., etc... Para o Corão, os cristãos que adoram Jesus são "mushrikūn", associadores, pois associam Jesus a Deus; politeístas, pois adoram três Deuses; idólatras, pois fazem de Jesus um ídolo; infiéis, pois recusam seguir a lei de Moisés. Em todas essas acusações trata-se sempre dos cristãos e nunca das tribos pagãs da Arábia. Há aí uma vontade deliberada de desligar os árabes cristãos da Síria da adoração de Nosso Senhor. Por fim, Jesus Cristo não foi crucificado. Ao negar sua morte na cruz, o autor do Corão retirou todo motivo de crer em seu sacrifício expiatório pelo gênero humano. Jesus Cristo não é o Salvador. Ora, essa tese é propriamente gnóstica. O Evangelho apócrifo de São Barnabé (o pseudo-Barnabé) diz que Deus permitiu que Judas tivesse a aparência do Salvador e fosse crucificado em seu lugar. Basílides pretende que se substituiu Jesus por Simão de Cirene. Os maniqueus afirmam igualmente que Jesus só morreu em aparência. É o docetismo (do grego dokein, parecer). "Eles (os judeus) dizem: Matamos o Messias, Jesus, filho de Maria, o enviado de Deus. Não, eles não o mataram, não o crucificaram. Um homem que se lhe assemelhava foi posto em seu lugar, e os que disputavam a respeito estiveram eles próprios na dúvida. Não sabiam de ciência certa, apenas seguiam uma opinião. Não o mataram realmente. Deus o elevou a Si, e Deus é poderoso e sábio". O autor do Corão mostra com isso o erro dos judeus, todos orgulhosos de ter crucificado um impostor, e as discussões entre gnósticos que não sabiam quem fora substituído a Cristo na Cruz. Essa "elevação" de Cristo de que fala o texto citado não tem de modo algum o sentido que lhe dão os cristãos. A Bíblia conta a ascensão de Henoc e de Elias num turbilhão de fogo; os apócrifos contam igualmente as de Moisés e de Isaías. Trata-se ainda de uma lenda gnóstica passada aos mitos religiosos do Oriente e, portanto, ao Corão. Essa "ascensão" supõe a existência dos sete céus, ensinada pelos rabinos. No limite do sétimo céu encontra-se "o horizonte superior", onde está "a jujubeira do limite", a árvore que é preciso atravessar para atingir o oitavo céu, o Pleroma dos Gnósticos. Estes falam de uma "crucifixão", isto é, de uma passagem pelo [stauros], a cruz-limite. O Corão, que rejeita toda ideia de cruz, substituiu-a por uma árvore, a jujubeira. Mas a ideia é a mesma. Cristo passou o limite, como Mani e todos os seus sucessores, os Budas. O autor do Corão é, pois, de fato inspirado por toda uma literatura apócrifa de caráter gnóstico, que compõe o essencial de sua documentação sobre Cristo. Mas, se é cristão, é igualmente e sobretudo judeu. Os dons de Deus são sem arrependimento, pensa ele. O Povo Judeu permanece o Povo Eleito, mesmo depois da destruição do Templo. E tem orgulho de pertencer ao Povo Eleito e espera essa reconstrução do Templo, como todos os seus confrades em religião, os monges ebionitas. Não se trata, pois, para ele de converter os povos do Oriente ao Judaísmo: não são o Povo Eleito. Trata-se exatamente de prepará-los para viver "more judaico", seguindo a lei de Moisés, mas não de lhes atribuir o verdadeiro culto sacrificial do Templo. Por isso o Corão não comporta ritos propriamente judaicos. Os fiéis de Alá contentam-se em adorar e orar a Deus. Suas mesquitas estão vazias de toda presença da divindade. Não há Santo dos Santos, nem altar para o Sacrifício. O verdadeiro culto de Deus só poderá ser restabelecido após a reconstrução do Templo. O que mostra que os ebionitas, os "Pobres de Iahweh", permaneceram fiéis ao Antigo Testamento. O autor do Corão aproveitou o eclipse que conhecia no século VII o poder da autoridade romana para reconduzir esses árabes cristãos, detentores do poder político, à prática dos "Tementes a Deus", dos prosélitos judeus de outrora. Estes, não sendo judeus, não podiam aproximar-se do culto sacrificial do Templo; ficavam no átrio; eram os "gerîm", de que a palavra [prosélito] é a tradução em grego. Os muçulmanos praticam o Islã, a submissão a Deus; oram-lhe à espera de Seu retorno a Jerusalém. É uma religião de espera, provisória. Os temas gnósticos reconhecidos no Corão não passaram à prática religiosa dos muçulmanos, pois permanecem "esotéricos", reservados aos iniciados. Reencontrá-los-emos entre os sufis. O autor do Corão é muito severo para com os judeus que seguiram os rabinos, perseguidores de Jesus. Com isso romperam a sucessão dos profetas, dividiram o povo eleito. Diz-lho: "Eles (os judeus) não creram em Jesus; inventaram contra Maria uma mentira atroz." Acrescenta: "Encontrarás certamente que as pessoas mais hostis aos que creem são os judeus e os Associadores, e encontrarás que as mais próximas, pela amizade, dos que creem são as que dizem: somos cristãos. É que entre estes há sacerdotes e monges e essas pessoas não se enchem de orgulho". Texto capital, a compreender bem. Os judeus rabínicos e os cristãos "associadores" cortaram em dois a tradição de Moisés, a do Sinai. Somente os judeu-cristãos conservaram intacto o depósito da tradição, completamente, até Jesus Cristo inclusive. Têm sacerdotes e monges, os "Pobres de Iahweh", isto é, os ebionitas. Guardaram a lei de Moisés, completada pelos conselhos evangélicos, que cumprem a Lei. Têm, portanto, a plenitude da Revelação sem fratura. Têm orgulho disso, mas não são orgulhosos (?). Um islamólogo atual, Roger Arnaldez, em seu livro intitulado "Jesus, filho de Maria, profeta do Islã", coloca lado a lado textos do Corão que ora magnificam os monges cristãos, ora os denunciam: "O historiador", diz ele, "teria de fazer, a propósito da diversidade desses textos, literalmente contraditórios, numerosas reflexões e pesquisas sobre as circunstâncias que lhes servem de fundo". Não compreendeu que há duas espécies de cristãos, os "associadores", que adoram Jesus, e os "judeu-cristãos", que o veneram como grande profeta. Como o autor do Corão se dirige a árabes já cristãos, era preciso preveni-los contra os primeiros e convertê-los à religião cristã judaizada dos segundos. O autor do Corão é necessariamente um monge ebionita. Jerônimo já havia explicado outrora que as comunidades ebionitas eram numerosas em todas as cidades do Oriente, que possuíam sinagogas, que declaravam ser "os verdadeiros cristãos", que eram denunciadas pelos rabinos como uma seita de minim. É nessa direção que se deve buscar o autor do Corão, e não entre os nestorianos, verdadeiros cristãos, adoradores de Jesus Cristo e, portanto, incapazes de ter escrito esse livro. Citaram-se nomes: Bahira, Sérgio, Giorgi, Nestur... Cabe aos historiadores prosseguir suas pesquisas... Por fim, outro texto capital do Corão nos mostra em que meio gnóstico viviam os ebionitas: "Aqueles que creem, aqueles que praticam o judaísmo, os Cristãos, os Sabeus — aqueles que creem em Deus e no último dia e realizam obra pia — têm sua retribuição junto a seu Senhor. Sobre eles, nenhum temor, e não serão entristecidos... No dia da ressurreição, Deus distinguirá entre os que tiverem crido — os que tiverem praticado o judaísmo, os Sabeus, os Cristãos e os Zoroastrianos — e os que tiverem sido associadores. Deus de todas as coisas é testemunha." Portanto, para o autor do Corão, os Cristãos (isto é, os ebionitas), os Sabeus e os Zoroastrianos praticam o Judaísmo, são fiéis ao Antigo Testamento, opõem-se radicalmente aos "associadores", os cristãos da Grande Igreja que adoram Jesus Cristo e rejeitaram a lei de Moisés. Os Sabeus chamam-se também caldeus, por vezes nazarenos ou cristãos de São João, porque pretendem ligar-se a São João Batista e praticam um batismo cotidiano por imersão. Chamam-se ainda mandeus, da palavra "manda", que significa "conhecimento", portanto "gnose". Sua entidade divina chama-se "Gnose de Vida". Encontram-se em sua liturgia o bom pastor e a videira. Seus textos foram codificados no século VIII para resistir à penetração do Islã. Chamam seu Homem-Deus Enosch–Uthra. Ora, nos manuscritos maniqueus e budistas da Ásia Central, Enosch é apresentado como um avatar de Mani, o Buda. Seu ensinamento é conforme ao dos Maniqueus. Ainda no século XI, o historiador muçulmano Firdusi designa os monges budistas sob o nome de Sabeus. Os Zoroastrianos também são gnósticos. Não sabemos grande coisa sobre o próprio Zoroastro, chamado Zaroust nos manuscritos maniqueus e budistas. Seu ensinamento está contido no Zend-Avesta, redigido no século III de nossa era, na época em que Mani difundia sua doutrina na Pérsia e na Índia. Era chamado um livro de Abraão. Contém uma história da criação, do dilúvio, a vida de Adão, de José, de Moisés, de Salomão, apresentados conforme o ensinamento da Bíblia. Anuncia-se nele o Messias prometido e sua "estrela". Os nestorianos pretendem que Zoroastro era discípulo de Jeremias e que enviou os Magos a Belém para o nascimento de Cristo. Era sem dúvida judeu ele próprio. Ensinava na cidade dos Medos, em Urmia, perto do lago Urmia, no norte do atual Curdistão. Seu ensinamento, retomado por Mani, é puramente gnóstico, com um culto do Sol, o duplo princípio do Bem e do Mal em conflito eterno etc... Por fim, como qualquer um, o autor do Corão acabou um dia por morrer. Seus discípulos, os Senhores muçulmanos da Síria, livres de seu mestre, pouco embaraçados por escrúpulos religiosos, mas muito ávidos de dominação e de poder político, devem ter utilizado esse Corão como instrumento de sujeição e embrutecimento das populações mal islamizadas, para desviá-las das veleidades que pudessem ter de voltar ao Cristianismo ou, pior ainda, de apelar aos "Rumis" e aos exércitos bizantinos a fim de livrar-se de seus novos tiranos. Aqui, nada mais sabemos... Cabe aos historiadores pesquisar... O PANTEÍSMO DOS SUFIS Pensa-se que a palavra "sufi" vem de "sûf", que quer dizer "lã", porque os sufis usavam o traje dos filósofos neoplatônicos: grande manto de lã branca, lakhirka, bastão e longa barba. Contudo, é mais lógico ver nela uma transcrição do grego ἀσάς [sic] sábio, que se encontra em "faylasuf", do grego φιλόσοφος. Os dervixes e os faquires são também sufis populares. Pretendem-se filósofos; de fato, são místicos e contemplativos. Pretendem-se muçulmanos; de fato, são budistas. Todos, como as gnoses, admitem uma dupla doutrina, a esotérica ou interior (batin), reservada aos iniciados, e a exotérica ou exterior (zahir), para o vulgo. Empregam todos os seus esforços em fazer concordar um a um seus princípios com os dogmas maometanos, a fim de estabelecer-lhes a ortodoxia aos olhos das autoridades muçulmanas. Mas é um concordismo artificial que não engana ninguém. Um erudito do século passado, especialista na literatura sânscrita e hindustâni, o Sr. Garcin de Tassy, resumiu em 9 proposições todo o ensinamento dos sufis: Só Deus existe, está em tudo e tudo está nele e tudo é ele mesmo. Todos os seres, visíveis e invisíveis, são uma emanação dele, "divinae particula aurae", e não são realmente distintos dele. Os sufis não estão sujeitos à lei exterior. O paraíso e o inferno, enfim todos os dogmas das religiões positivas não são para o sufi senão alegorias, cujo espírito só ele conhece. Assim as religiões são indiferentes. Servem, contudo, de meio para chegar à realidade. Algumas podem ser mais vantajosas que as outras para atingir esse fim, entre outras a religião muçulmana, da qual a doutrina dos sufis é a filosofia. Não existe realmente diferença entre o bem e o mal, pois tudo se reduz à unidade e, assim, Deus é, em realidade, o autor das ações do homem. É Deus quem determina a vontade do homem e, assim, este não é livre em suas ações. A alma preexiste ao corpo e nele está encerrada como numa gaiola ou numa prisão. A morte deve, portanto, ser objeto dos votos dos sufis, pois é então que ele retorna ao seio da divindade de que emana e obtém o que os budistas chamam nirvana, isto é, o aniquilamento em Deus. É pela metempsicose que as almas que não cumpriram seu destino aqui embaixo são purificadas e tornam-se dignas de ser reunidas a Deus. A principal ocupação dos sufis deve ser meditar sobre a unidade e avançar progressivamente pelos diversos graus da perfeição espiritual a fim de morrer em Deus e alcançar, desde este mundo, a unificação com Deus." Basta comparar essas nove proposições com as que desenvolvemos em nosso primeiro estudo sobre "A Gnose, tumor no seio da Igreja". Ensinam a desprezar tudo o que é terrestre, a dirigir a alma para o que só permanece, o Ser divino, a despojar-se, a desprender-se da aparência da existência pessoal para associar-se à existência divina, a única real, a "embriagar-se com a bebida entorpecente da beleza da luz divina". O sufi deve absorver-se em Deus. Os poetas árabes sufis escrevem: "Purifica-te de todo atributo do eu, a fim de perceber tua essência brilhante" – "Deixai-me tornar inexistente, pois a não-existência me cria com os acentos de um órgão: é a ela que retornamos." – "Percebe em teu coração o conhecimento do Profeta, sem livro, sem mestre, sem instrutor." Poder-se-iam multiplicar as fórmulas desse gênero. Para quê! Estamos em plena Gnose búdica. Essa doutrina esotérica do Islã não é senão o panteísmo indiano. Encontram-se nela os erros do Vedanta, que ensina, segundo Vyasa, a unidade de todos os seres, os do Sankhya, que ensina, segundo Kapila, o nada das coisas visíveis. Constituiu-se nos confins do mundo muçulmano e do mundo budista uma zona intermediária, uma espécie de interland, onde seitas mistas, meio budistas, meio muçulmanas, aproximaram os elementos opostos das duas religiões, por exemplo os Kabir-panthis e os Sikhs. Os muçulmanos da Índia prestam culto igual a seus santos Muinuddin e Marçud Gâzi e aos santos hindus, Kabir e Ramananda. Um sufi indiano, Sadjâni, fazia com igual fervor o puja (adoração) e o dandavat (prostração) no pagode e as orações muçulmanas nas mesquitas. Os sufis retomaram a posição de cócoras dos monges budistas para meditar: "Fica de cócoras como a criança no seio da mãe", diz o autor do "Mantiq ut-Tair", um persa. É a posição que prepara para o retorno à terra-matriz originária da vida dos gnósticos. Para os sufis muçulmanos, todos os seres são da mesma natureza. A metempsicose permite passar de um corpo humano a um corpo animal, a uma planta etc... Apraz-nos citar, a esse propósito, uma sessão de dervixes uivantes e giradores que Théophile Gautier nos descreveu ao voltar de viagem ao Oriente. Ele fora, como muitos românticos, em busca da Religião primitiva. Sua viagem era uma "Peregrinação às Fontes". A cena passa-se em Constantinopla. Mostra-nos primeiro os dervixes, dispostos em torno do Imã, balançando a cabeça para trás e para a frente e vice-versa, depois acelerando o movimento, tirando do peito um uivo rouco e prolongado que já não parece pertencer à voz humana: "A inspiração chega pouco a pouco, os olhos brilham como pupilas de feras no fundo de uma caverna, uma espuma epiléptica borbulha nos cantos dos lábios, os rostos se descompõem e luzem lividamente sob o suor; toda a fila se deita e se levanta sob um sopro invisível como espigas sob um vento de tempestade, e sempre, a cada arranque, o terrível grito: 'Allah! Hu!' repete-se com energia crescente..." Esse arrebatamento que se pretende místico é, de fato, bestial, um retorno à animalidade antes de voltar a ser nada e podridão na terra. Nesse momento, Gautier avista entre os espectadores dois religiosos capuchinhos que riam na barba. Sua cólera explode então: "Oh! esse riso!... Não pensavam", diz, "que eles próprios eram dervixes católicos, mortificando-se de outra maneira para se aproximar de um deus diferente... "Eu compreendo o sacerdote de Átis, o faquir hindu, o trapista e o dervixe contorcendo-se sob a imensa pressão da eternidade e do infinito e procurando aplacar o deus desconhecido pela imolação de sua carne e as libações de seu sangue. Esse dervixe que fazia rir os capuchinhos parecia-me a mim também belo, com seu rosto alucinado, como o monge de Zurbarán, lívido de êxtase e fazendo brilhar em sua sombra apenas uma boca que reza e duas mãos eternamente juntas". Théophile é incapaz de distinguir um retorno à animalidade mais grosseira e mais violenta de uma espiritualização do corpo pela oração e pela meditação. Há aí uma confusão absurda entre a verdadeira mística, que eleva a Deus, e sua contrafação diabólica, que rebaixa ao nível da besta. É preciso forte miopia intelectual e espiritual para não perceber a diferença. AS SEITAS GNÓSTICAS NO ISLÃ Além dos sufis, que são os verdadeiros gnósticos do Islã, deve-se notar ainda a presença em terra muçulmana de comunidades gnósticas antigas, já florescentes antes do nascimento e da expansão do Maometismo e que sobreviveram penosamente recolhendo-se sobre si mesmas: são os drusos, os ansarianos, os iazidis. Hoje essas comunidades perderam o sentido de sua antiga doutrina. A maioria desses sectários vive miseravelmente, procurando passar por muçulmanos aos olhos das autoridades, tomando ao Islã algumas práticas exteriores que não os incomodam. Mas estão cheios de desprezo pelos muçulmanos, odeiam-se mutuamente e só se unem em seu ódio comum contra os cristãos. Os iazidis são os últimos herdeiros dos mandeus. Eram numerosos na Babilônia. Encontram-se na Síria. Sua doutrina é a de Mani. Declaram seguir o ensinamento de Addo, que foi seu fundador e discípulo predileto de Mani. Praticam um batismo por imersão, tiram os sapatos e beijam o chão quando entram numa igreja cristã, fazem o sinal da cruz. Em sua liturgia, conservaram a ceia eucarística, creem que o vinho contém o sangue de Cristo. Adoram um Deus supremo, respeitam Jesus Cristo como Salvador. Prostram-se diante do sol ao nascer, como símbolo de Jesus. Acusam-nos de prestar culto ao diabo. Respondem que têm grande respeito por Satanás, a quem chamam o "Senhor da Tarde" ou o "Príncipe das Trevas", por vezes também Sheik Maazen. Dizem que a Serpente é um anjo decaído, contra o qual rebentou a cólera de Deus, mas que, no fim dos tempos, será restabelecida no favor divino. Sua noção do Mal deriva de Ariman, dos antigos magos, e da divindade secundária dos Maniqueus. Falam entre si o curdo. São, pois, de fato Gnósticos maniqueus, mas permaneceram muito próximos do Cristianismo por seu culto e suas tradições litúrgicas. Poder-se-ia considerá-los os últimos cristãos ofitas ou naassenos. Os drusos também conservaram uma tradição gnóstica. Dizem-se discípulos de um califa do Egito, Hakim (996–1020), monstro de crueldade, que consideram uma divindade e que deve voltar no fim dos tempos. Professam a metempsicose, adoram o bezerro, dividem-se entre os iniciados, os "akkal", os que sabem, e os que ignoram, os "djahel". Estão cheios de ódio contra os cristãos e sempre estiveram na origem dos massacres de cristãos na Síria ao longo dos séculos. Gérard de Nerval, que queria casar-se com a filha de um xeque druso durante sua viagem ao Oriente, só pôde obter a mão da moça mostrando ao pai que era filiado à Franco-Maçonaria, e essa filiação apagava, portanto, nele o recebimento do batismo cristão. Os ansarianos, chamados ainda nusairis ou pequenos cristãos, habitam a Síria do norte, nas montanhas em torno do golfo de Alexandreta. São louros de olhos azuis, parecem vindos das Índias. São indo-europeus e não semitas. Submetem-se em aparência às práticas exteriores do Islã, mas seu culto verdadeiro é uma iniciação "gnóstica", que começa pela revelação do "Mistério dos dois"; adoram uma divindade em cinco pessoas; prostram-se também diante das árvores, do sol, da lua. Veneram os animais, particularmente o cão. Professam a metempsicose. São um resíduo de comunidades maniqueias e budistas em meio muçulmano. Numa segunda parte deste estudo sobre o Islã e a Gnose, veremos como o Islã se tornou o vetor da penetração gnóstica no Ocidente Cristão desde a Idade Média. E.C. Crétineau-Joly, o amigo dos papas e da verdade Jacques Augustin Marie CRÉTINEAU-JOLY nasceu em Fontenay-le-Comte, na Vendeia, em 23 de setembro de 1803, numa família de honestos comerciantes, profundamente religiosa. Fez os estudos secundários no colégio religioso de Luçon, depois ingressou no Seminário de Saint-Sulpice, em Paris, que abandonou ao cabo de dois anos. Em 1822, voltou ao colégio de Fontenay como professor de filosofia. Em 1823, é nomeado secretário do duque de Laval, embaixador em Roma, onde assiste à eleição do papa Leão XII. A partir desse momento começa sua iniciação na vida romana e na corte do Vaticano. Conheceu o Cardeal Bernetti, que lhe confiou os papéis de seu amigo, o cardeal Consalvi. Tornou-se amigo quase íntimo do papa Gregório XVI. Pôs-se a compor poemas bastante medíocres e por vezes bastante picantes. Em 1828, voltava à Vendeia, onde se casou, em 11 de agosto de 1830, com a Senhorita Clémence Labrousse. Depois lançou-se ao jornalismo. Participou da aventura da duquesa de Berry contra Luís Filipe, aventura que despertava os ardores guerreiros da chouannerie. Depois foi para Paris redigir sua "Vendeia militar". Em 1839, era redator de "L'Europe monarchique". Intervém com energia e habilidade para obter a libertação dos chuãs enviados às galés após o fracasso da tentativa da duquesa de Berry. Mostrava-se contrarrevolucionário decidido, afirmando que fazer bem aos maus é fazer mal aos bons. Detestava particularmente as formas bastardas da revolução, o bonapartismo e o orleanismo. Censurava-os por terem querido batizar a Revolução, isto é, por tê-la tornado enganosa e permanente. Crétineau-Joly só entende o trabalho do historiador como instrumento para o combate da verdade, para a defesa da fé cristã e da Igreja. Escreve com muita verve e humor. Gosta do tom familiar, do movimento e da vida. Faz-se ler com interesse e até paixão. A Vendeia foi seu primeiro assunto. Em 1834, publica seus "Episódios da guerra da Vendeia". Trata-se da revolta contra a monarquia de Julho pela duquesa de Berry. Em 1838 aparece a "História dos generais e chefes vendeanos", com uma introdução contra "A Ingratidão dos Bourbons". Para estudar a Vendeia, tornou-se amigo de antigos revolucionários, sobretudo Boursault, que lhe revelou os bastidores dessa guerra. A "Vendeia militar" saiu em 1840–1841, em 4 volumes. Crétineau-Joly mostra-se muito severo com os príncipes Bourbons, que deixaram os vendeanos ser afastados sem se fazerem matar entre eles. Censuraram-no vivamente por ter "engrossado as faltas da realeza exilada". A bolsa do conde de Chambord fechou-se, mas Crétineau-Joly obteve a ajuda financeira do Barão Dudon, antigo ministro da Restauração. Recusou sempre candidatar-se à Academia Francesa, embora seus amigos e até Montalembert o instassem a isso. Queria conservar sua independência. Chamava-se a si mesmo "o velho javali", para marcar bem seu desejo de vida livre e simples. Depois, de 1844 a 1846, a pedido do Geral dos Jesuítas, o P. Roothaan, encontrado em Roma, Crétineau-Joly atrelou-se à tarefa esmagadora de contar a história da célebre companhia, numa época em que o grito de todos os revolucionários através da Europa era: "Morte aos Jesuítas". Na França, chamavam-se Quinet, Michelet, Thiers; na Itália, Gioberti, Azeglio... Ajudado pelo P. de Montézon, Crétineau-Joly pôde concluir em 1845 os primeiros volumes da "História religiosa, política e literária da Companhia de Jesus". O 6.º volume saiu mais tarde. Tratava da situação muito recente dos Jesuítas no mundo. O elogio da imprensa católica foi universal e a imprensa anticristã teve de calar-se. Por ocasião dessa obra, o autor teve comunicação das cumplicidades mantidas por cardeais e embaixadores no conclave que elegeu em 1769 Lorenzo Ganganelli papa sob o nome de Clemente XIV. Tirou dela uma obra intitulada "Clemente XIV e os Jesuítas", publicada em 1847, apesar das súplicas do P. Roothaan para que não o fizesse; "mas", diz ele, "eu tinha diante dos olhos todas as correspondências oficiais e inéditas, todas as relações íntimas que contavam em minúcia essa vergonhosa conspiração dos reis, de seus ministros, de seus embaixadores e de alguns altos dignitários da Igreja contra os filhos de Santo Inácio". O livro causou escândalo e foi proibido em Roma, pois o autor denunciava com firmeza a covardia do papa Clemente XIV, que suprimira os Jesuítas, e insinuava que o novo papa, Pio IX, poderia ter alguma veleidade de imitar seu predecessor. Um abade italiano, Gioberti, escreveu então 5 volumes contra os Jesuítas: "O Jesuíta moderno". Em 1852 aparece um livro "História do pontificado de Clemente XIV", por um religioso romano, o P. Theiner, livro muito malévolo para com os Jesuítas, que se esforçava por justificar sua condenação pelo papa Clemente XIV. Crétineau-Joly respondeu com "Duas cartas ao P. Theiner". Restabelece nelas a verdadeira história do conclave de 1769, mostrou a soberana injustiça do breve "Dominus ac Redemptor", de condenação dos Jesuítas, e sua heroica obediência. O P. de Ravignan interveio em 1854 com seu livro "Clemente XIII e Clemente XIV", no qual se esforçava por acalmar a polêmica. Em 23 de maio de 1846, Crétineau-Joly foi convocado pelo papa Gregório XVI, que lhe confiou o encargo de escrever uma história das Sociedades Secretas e lhe fez abrir os arquivos secretos do Vaticano. Depois foi recebido pelo Príncipe de Metternich, que lhe abriu os arquivos secretos da chancelaria da Áustria. O P. Beckx, futuro geral dos Jesuítas, ajudou-o a reunir documentos em Viena, Veneza e Milão. Mas esbarrou no Príncipe Carlos Alberto de Saboia, o afiliado das Sociedades Secretas, que lhe pediu, numa entrevista secreta, que não revelasse sua filiação às Lojas. Depois, diante das revelações que lhe permitiam incriminar homens políticos poderosos, o papa Pio IX pediu-lhe que renunciasse à publicação dessa História das Sociedades Secretas, ao menos provisoriamente. Não queria que se pudesse denunciar a antiga pertença às lojas maçônicas de príncipes e prelados, convertidos após a revolução de 1848 e arrependidos, a quem ele próprio havia perdoado seus antigos procedimentos. Num gesto de despeito, Crétineau-Joly destruiu os 4 volumes de revelações já redigidos e em parte impressos. "Eu queria dilacerar todos esses rostos ignóbeis, príncipes, generais, embaixadores ou prelados. Temeu-se o escândalo. Fez-se moderação e prudência. Isso conduz suavemente a Gaeta. As Sociedades Secretas reinam hoje"... "Farejo bastante bem os covardes, os traidores e os revolucionários. Só sei isso e começo a não o saber muito mal." (21 de novembro de 1860) Em agosto de 1849, o P. Roothaan propõe-lhe a "História do Sonderbund", que saiu em 1850. Essa guerra do Sonderbund, conduzida na Suíça pelos revolucionários contra os cantões católicos, não foi senão um prefácio e uma preparação da Revolução de 1848, que devastou toda a Europa em poucos meses. Foi dirigida de Londres por Lord Palmerston. Crétineau-Joly assinalou a fraqueza e a indecisão do papa Pio IX, que deixou esmagar os católicos sem intervir. Em 1852, o cardeal Bernetti legou por testamento seus arquivos pessoais a Crétineau-Joly, que os utilizou em sua última obra, "A Igreja romana e a Revolução". Em 1857, seu filho Henri entrou no noviciado dos Jesuítas. Obteve uma entrevista de reconciliação, arranjada pelos bons padres, com o papa Pio IX, diante do qual se comprometeu a nada mais publicar sem submeter o texto a Sua Santidade. Foi então que se projetou a redação de sua última e mais célebre obra. Em 1858, leu diante do papa seu primeiro manuscrito: "Consegui bastante bem", disse a seu filho, "pôr surdinas nas presas do javali." O livro saiu em Paris, na Plon, e teve um êxito prodigioso. O P. Geral dos Jesuítas escreveu-lhe para agradecer: "Vejo com prazer que o senhor teve muitos cuidados e moderação para com certas pessoas bem situadas... Graças a Deus, soube vencer-se." O javali havia recolhido as presas. Mas Pio IX, elevado ao pontificado pela Revolução, compreendeu mais tarde a catástrofe que imprudentemente suspendera sobre a Igreja e revelou-se então um grande papa contrarrevolucionário, o papa do "Syllabus". Crétineau-Joly morreu em Vincennes, em 1.º de janeiro de 1875. Em seu túmulo, o monograma de Cristo e uma flor-de-lis: dois símbolos, Deus e o Rei. E.C. Bibliografia: Um único livro: Abade U. Maynard: "Jacques Crétineau-Joly, sua vida política, religiosa e literária segundo suas Memórias, sua correspondência e outros documentos inéditos" (Paris, Firmin-Didot, 1875). O abade Maynard era cônego de Poitiers, tornado grande amigo e confidente do escritor nos últimos 25 anos de sua vida. A revista "L'Ordre Français" publicou em janeiro de 1967 um resumo de sua vida por Dominique Ancelle e, em março de 1967, uma apresentação desenvolvida de seu livro sobre "A Igreja romana e a Revolução", sob a mesma assinatura. Louis Daménie, em sua "Revolução, fenômeno divino, mecanismo social ou complô diabólico" (Cahiers de l'Ordre Français, 1970), dedicou várias páginas bem-vindas à obra de Crétineau-Joly. Alguns livros "DA GNOSE AO ECUMENISMO" Vol. 13,5 × 21 – Éd. de Chiré – 95 F. O autor dá em poucas páginas uma visão de conjunto dos assaltos da subversão anticristã ao longo da história. Mostra que esses assaltos têm por princípios alguns erros, sempre os mesmos, apresentados sob disfarces variados, e que o ponto de partida, o reservatório de todas as subversões, é a Gnose dos primeiros séculos cristãos. Em seguida expõe os grandes temas desse pensamento gnóstico, seus métodos de penetração na sociedade cristã. Precisa que a Franco-Maçonaria é a congregação militante da Gnose, de modo que a Sociedade de hoje está quase inteiramente impregnada dos ideais maçônicos. A cultura moderna banha-se num pensamento gnóstico difuso que o autor se esforça por descobrir sob seus sucessivos revestimentos. Completa sua exposição com um estudo penetrante sobre a filosofia de Descartes, sobre as relações da razão e da Fé no modernismo, sobre o movimento de Oxford. "É fascinante ir, em tão poucas páginas de escrita tão límpida, dos gnósticos de Nag Hammadi aos padres conciliares via Lutero, Descartes, Freud e Marx." (D. MASSON em "Itinéraires") O autor tem o cuidado de esclarecer noções complexas e aprofundadas. "Étienne Couvert tem o dom raríssimo de tornar como que fácil uma exegese no entanto árdua... Um livrinho de leitura fácil..." (André FIGUERAS em "Monde et Vie"). Num ponto mais particular, o autor mostra o caráter cristão dos manuscritos do Mar Morto; o que foi confirmado pela descoberta recente de fragmentos gregos cristãos em Qumran... "A GNOSE CONTRA A FÉ" Vol. 13,5 × 21 – Éd. de Chiré – 115 F. Neste segundo volume, o autor mostra a permanência desse pensamento gnóstico através dos séculos e sua ressurgência nas grandes correntes do pensamento subversivo anticristão. Precisa os estragos intelectuais e religiosos dessa Gnose que, sob nomes diversos e intercambiáveis, fez longa carreira e espalhou pelo mundo a tentação permanente do panteísmo e da autodivinização do Homem, todas formas aberrantes do sentimento religioso. Os capítulos sobre o neoplatonismo, sobre o Humanismo da Renascença, sobre o tradicionalismo do século passado, sobre o Romantismo permitem-lhe opor a essas elucubrações a pura luz da doutrina católica, em sua formulação tomista. "Uma obra que vai direto ao essencial" (Michel FROMENTOUX em "Aspects de la France") – "Um livro interessante que tem o mérito de alertar os católicos sobre um perigo ainda mais premente do que imaginava seu autor" (Pierre DEBRAY em seu "Courrier Hebdomadaire") Por fim, Étienne COUVERT compôs um terceiro volume intitulado "A Gnose Universal", que deve sair em breve pelas Éd. de Chiré, no qual mostra os estragos do pensamento gnóstico no Budismo, no Islã, na literatura clássica e contemporânea, no pensamento russo também. CROMBETTE E O "CROMBETTISMO" "Crombette e o crombettismo", pelo Frei Pierre-Marie O.P., Dominique Viain e Georges Salet. Um volume 21 × 29,7, 118 páginas. Preço 95 F (franco de porte 110 F, sob pedido a: Fraternité Saint Dominique, Couvent de la Haye aux Bonshommes, 49240 Avrillé). Crombette pretende ter conseguido de maneira nova e sólida o que ninguém conseguira antes dele: reconciliar a ciência e a fé. Em volumosas obras (43 volumes, 16 000 páginas, dois atlas), expõe uma geografia, uma história, uma ciência física (astronômica especialmente) em perfeito acordo, diz ele, com a Bíblia. Chega de dificuldades com as cronologias das diversas civilizações, em particular com a do Egito; o evolucionismo definitivamente esmagado; a Igreja lavada da acusação injuriosa de ter condenado Galileu injustamente... eis, de fato, o que pode atrair mais de um católico preocupado em defender sua fé contra os ataques que lhe apresentam em nome da "ciência". Mas Crombette não se detém aí; não se contenta em harmonizar as ciências com a fé e, se necessário, reconstruí-las. Eis que avança no domínio da própria religião. Não descobriu, estudando a história do Egito, o verdadeiro meio de decifrar o hebraico com o auxílio do copta? Vai, portanto, descobrir no texto da Bíblia muitas verdades novas... "Crombette e o crombettismo" (publicado pelas Éditions scientifiques Saint-Edme) é um estudo aprofundado do pensamento desse autor original, realizado por três autores: o Frei Pierre-Marie O.P. examina o aspecto religioso e notadamente a questão das relações entre a razão e a fé; Dominique Viain (agrégé da universidade) realiza o estudo filológico e linguístico, no qual mostra a inanidade do "método" de Crombette para decifrar a Bíblia a partir do copta; e Georges Salet (politécnico) trata da questão científica, mostrando o absurdo do sistema geocêntrico e, o que é menos conhecido, o caráter realista da teoria da relatividade, conforme à filosofia tomista. Um livro a não perder para os que se interessam pela questão das relações entre a ciência e a fé. Na Imprensa: In Memoriam Jean Vaquié ADEUS A JEAN VAQUIÉ A notícia nos atingiu na véspera de São Silvestre. Jean Vaquié apagou-se em sua casa, rezando o terço em companhia de seus filhos e netos. Estava em seu octogésimo segundo ano. Durante a última guerra, Jean Vaquié fizera parte da rede Roy do padre Lapouge. Chamavam-no "O Grande". Dessa época da Resistência data uma longa e fiel amizade com certos companheiros de luta que as mesmas convicções políticas e religiosas uniam. Em 1953, deixava as margens de seu Garona natal para morar numa antiga abadia, no meio do Saône, um pouco fora de Lyon, nessa Île Barbe que não mais deixaria. Com o passar dos anos, embora sempre discreto, Jean Vaquié se afirma como um dos mais sólidos defensores da Tradição. Providencialista, à margem de todo ativismo, conduz, nem por isso, em toda a humildade, por seus escritos e por suas conferências, um combate de todos os instantes. Homem de grande rigor intelectual e de alta espiritualidade, não tinha igual para decifrar um texto ou um discurso, para desentocar-lhe os erros. Indo sempre ao essencial, exprimia-se numa língua clara e precisa, lapidar como seu pensamento, toda penetrada da verdade das Escrituras, do ensinamento dos Padres da Igreja, dos místicos, dos profetas. Tinha o dom da fórmula e esses toques de humor que tocam tanto mais quanto são fruto da inocência visionária, a das crianças e dos santos. O combate de Jean Vaquié pela Igreja será duplo: ao mesmo tempo contra o vírus modernista — denuncia muito cedo a reforma litúrgica, os malefícios da colegialidade, do pluralismo, do ecumenismo — e contra o "ácido esotérico" que "vem corroer os dogmas". Num caso como no outro, constata e desvela a demissão ou os silêncios da Igreja oficial, tornada "uma casca vazia", "arregimentada" pela maçonaria. Apesar dessa terrível constatação, Jean Vaquié nem por isso deixa de transmitir uma mensagem de fé e de esperança, lembrando a palavra evangélica: "Esta doença não é para a morte, mas para a glória de Deus" (Jo XI, 4), de Deus "que prova a divindade de suas obras por milagres de ressurreição". E de proclamar sua inabalável confiança nos "formidáveis dogmas católicos que fazem estremecer Lúcifer e os luciferianos". Jean Vaquié não dizia: "Ajuda-te, e o céu te ajudará", mas "É preciso ajudar o céu", o que fez durante toda a vida e por seus escritos: modelos que no-lo tornam mais presente do que nunca. Entre eles, citemos "A revolução litúrgica", "Bênçãos e maldições", coletânea de textos proféticos da revelação privada, seu "Compêndio de demonologia" e seus estudos sobre a gnose publicados em "Lecture et Tradition" ou nos "Cahiers d'Augustin Barruel", de que era ativo colaborador. Ver também seus artigos de "Monde et Vie", notadamente "A maré gnóstica" (n.os 398 e 399, de junho e julho de 1984) e "O romantismo indelével" (n.º 437, de 24 de outubro de 1986). P. de P. EXTRATO DE LECTURES FRANÇAISES N.º 430 – Fevereiro de 1993 JEAN VAQUIÉ Acabamos de perder um amigo muito caro na pessoa de Jean Vaquié, falecido em Lyon, em 30 de dezembro último, aos 81 anos de idade. Nascera em Bordéus, em 1911, e muito cedo (desde os anos 30) interessou-se pelas questões que tratou depois com a maior desenvoltura e um conhecimento praticamente sem falhas: a revolução, a gnose, a reforma litúrgica, a subversão na Igreja. Uma amizade de sempre, concepções idênticas e convergências de ideias o ligaram a Léon de Poncins até a morte deste em 1975. Em 1947, no período dito da depuração, publicara, sob o pseudônimo de Jean Gonthier, justificado pelas circunstâncias turvas da época, uma coletânea de textos proféticos e místicos sob o título "Malédictions et Bénédictions", reeditada em seguida duas vezes. Desde a nova constituição litúrgica em 1963, J. Vaquié foi um dos primeiros a insurgir-se, com argumentação coerente, contra as inovações litúrgicas. E depois da implantação da nova liturgia da missa segundo o Ordo Missae de 3 de abril de 1969, reuniu suas reflexões num livro que fez grande barulho quando de sua publicação em 1971: "A revolução litúrgica" (Éd. de Chiré). Desde então não cessou de prosseguir seus trabalhos para denunciar essa nova liturgia e os perigos que ela faz correr à fé católica. Amigo de longa data e muito fiel de nosso centro de Chiré, Jean Vaquié era colaborador regular de Lecture et Tradition, que publicou vários de seus textos notáveis; fazia também parte do Comitê de redação da Contre-Encyclopédie, para a qual tinha várias notícias em preparação. Salvo caso de força maior, estava muito fielmente presente nas anuais "Jornadas chuãs", nas quais tomara a palavra algumas vezes. Era também um dos principais animadores e redatores da Sociedade Augustin Barruel (em Lyon), que efetua com assiduidade e qualidade excelentes estudos e pesquisas sobre a penetração e o desenvolvimento da revolução no cristianismo. A direção e a redação de Lectures Françaises apresentam a seus filhos e netos a expressão de suas condolências comovidas e a certeza de sua viva simpatia. Títulos das principais obras e opúsculos escritos por Jean Vaquié – Bênçãos e maldições. As profecias da revelação privada (3.ª edição, Dominique Martin Morin, 1987) – A revolução litúrgica (Éd. de Chiré, 1971) – Compêndio de demonologia (Éd. Sainte Jeanne d'Arc, 1988) – A escola moderna do esoterismo cristão (Cahiers Augustin Barruel, 1992) – Ocultismo e fé católica: os principais temas gnósticos (Action Familiale et Scolaire, 1991) – Institutions liturgiques, de Dom Guéranger. Extratos escolhidos e apresentados por Jean Vaquié (Éd. de Chiré, 1977) – Números especiais de Lecture et Tradition . O retorno ofensivo da gnose (n.º 110, 1984) . Reflexões sobre os inimigos e a manobra (n.º 126, 1987) . O candente problema da Tradição (n.º 167, 1991) Todos esses títulos (com exceção de "A revolução litúrgica", que está esgotado) podem ser encomendados à D.P.F., BP 1, 86190 Chiré en Montreuil EXTRATO DO CATÁLOGO N.º 185 de 9 de fevereiro de 1993 da D.P.F. Falecimento de Jean Vaquié Jean Vaquié faleceu em 30 de dezembro de 1992. Amigo muito fiel de Chiré, foi colaborador regular de Lecture et Tradition. Desde a nova constituição litúrgica de 1963, foi um dos primeiros a insurgir-se, com argumentação coerente, contra as inovações litúrgicas. Desde então não cessou de prosseguir seus trabalhos para denunciar essa nova liturgia e os perigos que ela faz correr à fé católica. A Escola Moderna do Esoterismo Cristão (162 p.) 100 F. O autor chama a atenção para o problema do esoterismo cristão, que até agora parece não ser bem percebido pelos tradicionalistas. Esses trabalhos põem às claras o desenvolvimento de uma doutrina e de uma escola do esoterismo cristão, que impregnam o próprio seio dos meios católicos. Lecture et Tradition n.º 110 O Retorno ofensivo da Gnose (56 p.) ..... 25 F. Exposição dos marcos mais característicos da gnose, que ele chama "teologia da contra-Igreja". Lecture et Tradition n.º 126 Reflexões sobre os inimigos e a manobra (56 p.) 25 F. Reflexões políticas e espirituais que denunciam quais são os inimigos da França tradicional. Lecture et Tradition n.º 167 O candente problema da Tradição. 42 p. 25 F. Trabalho de esclarecimento em torno do sentido real da palavra Tradição. Ocultismo e fé católica: Os principais temas gnósticos (46 p.). 26 F. Definição dos principais temas gnósticos desenvolvidos na literatura ocultista, esotérica e gnóstica contemporânea. Compêndio de demonologia (122 p.) ......... 100 F. Aplicação da demonologia cristã à crise da sociedade contemporânea. Resumo acessível a todos dessa ciência que trata da natureza e da influência dos demônios. Bênção e Maldição (262 p.) .... 140 F. Profecias da revelação privada. O objetivo é dar-nos a conhecer as advertências e as profecias que o Céu nos dirige há tanto tempo e das quais fazemos pouco caso. Dom Guéranger: Institutions liturgiques (298 p.) 82 F. Extratos estabelecidos por Jean Vaquié e tirados dos três primeiros tomos da segunda edição de 1878. Um trabalho de síntese notável. EXTRATO DA GAZETTE ROYALE Março–Abril de 1993 Órgão da União dos Círculos Legitimistas da França Chanteloup des Mays – Cours – 58200 Cosne sur Loire Temos a dor de anunciar o falecimento de Jean Vaquié, morto em sua casa rezando o terço em companhia de seus filhos e netos. Tinha 81 anos. Grande cristão, foi sólido e dedicado defensor da Tradição. Lutou sem cessar, por suas conferências e seus escritos, contra as reformas oriundas do Vaticano II, colegialidade, pluralismo, ocultismo, contra o esoterismo e sobretudo contra a gnose e "a maré gnóstica". Todos os que assistiram às suas conferências não poderão esquecer o valor desse grande soldado que previra essa maré gnóstica que invade atualmente nossos grupos, nossos círculos, nossas capelas e nossas igrejas. EXTRATO DE SOUS LA BANNIÈRE N.º 45 Janeiro–Fevereiro de 1993 "Les Guillots" – Villegenon 18260 Vailly sur Sauldre IN MEMORIAM JEAN VAQUIÉ "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a FÉ" 2.ª epístola de São Paulo a Timóteo 4, 7 A Contrarrevolução católica acaba de perder um mestre: Jean Vaquié apagou-se em seu 82.º ano! Morreu piedosamente, cercado de seus filhos e netos, rezando o terço, lúcido até o último instante. Jean Vaquié travou durante toda a vida o "bom combate" do campo da verdade e forjou para seus amigos armas preciosas, muito úteis num momento em que o poder das Forças da Revolução está em seu ponto culminante. Seus escritos constituem guias seguros para resistir à influência irresistível da Contra-Igreja, que arrasta, como torrente devastadora, os povos e as religiões para a funesta unidade de Babel! Ao término da segunda guerra mundial, Jean Vaquié, que fizera parte de uma rede de resistência, testemunhou no processo de Léon de Poncins e evitou-lhe assim o pelotão de fuzilamento, pois os ódios eram vivos contra o escritor que tão bem denunciara a Conjuração Judaico-maçônico-bolchevique. O testemunho de Jean Vaquié sobre a pertença de Léon de Poncins a uma rede anglo-francesa de resistência reduziu a nada toda a acusação do adversário, que ignorava esse fato. Uma amizade de sempre e concepções idênticas sobre os problemas revolucionários ligavam os dois homens. O Inimigo ficou provisoriamente no prejuízo, pois soube vingar-se provocando, nos anos sessenta, um acidente que deixou o Conde de Poncins dolorosamente enfermo até o fim de seus dias... A primeira obra de Jean Vaquié apareceu no período dito da "Depuração", em 1947. Por prudência, o autor escolheu o pseudônimo de Jean Gonthier. A obra intitulava-se "Malédictions et Bénédictions" (Éditions Mazarine, em Paris) e tratava das profecias da revelação privada. As circunstâncias turvas justificavam o emprego de um pseudônimo e a publicação de uma coletânea de textos proféticos e místicos, pois não existia mais nas livrarias, naquela época, compilação dessa ordem. Por outro lado, os acontecimentos permitiam compreender coisas que pareciam inimagináveis algumas décadas antes. Isso se tornou ainda mais claro depois do "Concílio Vaticano II"... O livro, que se baseava em grande número de obras revestidas do Imprimatur, foi reeditado em 1963 pelas Éditions du Carmel. Em 1987 reapareceu na Dominique Martin Morin, revisto e aumentado, sob o título "Bénédictions et Malédictions. Profecias da Revelação privada". Desde 1947 esse livro circulou longamente em surdina entre os fiéis inquietos com a sequência dos acontecimentos. Sua influência foi certa. Jean Vaquié foi um dos primeiros a insurgir-se, com argumentação coerente, contra as inovações litúrgicas que apareceram já antes do Concílio. Em 1956 publicou na "Pensée Catholique" (n.º 45-46) um artigo intitulado: "Reflexões de um leigo sobre a Missa voltada para os fiéis e a liturgia em língua vulgar". Depois do concílio, saiu pela "Diffusion de la Pensée Française" (em 1971, exatamente) uma obra que fez barulho e rapidamente se esgotou: "A Revolução Litúrgica". Era prefaciada por seu velho amigo Léon de Poncins. Esse livro, que incomodava o conformismo ambiente, desmontava o mecanismo dos diversos subterfúgios empregados pela Subversão Eclesiástica para nos levar progressivamente a práticas a que jamais teríamos querido subscrever se nos tivessem sido anunciadas de saída! Desvelava as armadilhas de grande sutileza que encerram os documentos mais solenes e analisava o processo, ao mesmo tempo audacioso e prudente, seguido pela intelligentsia progressista com vistas a chegar a essa reforma litúrgica. A "Nova constituição Litúrgica de 4 de dezembro de 1963" e a "Nova liturgia do Novus Ordo Missae de 3 de abril de 1969" eram assim passadas pelo crivo! Em 1977, nosso autor publicou pelas Éditions de Chiré uma obra de extratos das "Institutions liturgiques de dom Guéranger". Dom Guéranger, restaurador da Ordem Beneditina na França e fundador da abadia de Solesmes, é conhecido sobretudo por seu "Ano Litúrgico". Em contrapartida, suas "Institutions liturgiques" o são muito menos, por sua raridade. Ora, essa obra capital, que operou o retorno das dioceses da França aos autênticos livros romanos do Ofício e da Missa, merecia ser tirada do esquecimento. Na falta de reedição (a obra conta quatro enormes volumes), os extratos estabelecidos por Jean Vaquié constituem um importante instrumento de trabalho no estudo das instituições litúrgicas. Era preciso um bom espírito de síntese para entregar o essencial dessa obra sem modificar-lhe a demonstração, permanecer fiel ao texto primitivo e conservar os escritos em que se desenham com força e clareza o raciocínio histórico e litúrgico. Nesse meio tempo, Jean Vaquié iniciou uma colaboração com a revista "Lecture et Tradition", revista fundada por Jean Auguy, o editor de seus dois últimos livros acima citados. Publicou nela artigos e resenhas de livros, notáveis de análise. O "perigo hinduísta", a "Metafísica de René Guénon", a "Impostura guenoniana" (...) esclareceram mais de um leitor! É no quadro dessa revista que Jean Vaquié fez publicar números especiais, essenciais, como o n.º 110, intitulado "O retorno ofensivo da gnose", no qual descrevia os marcos mais característicos da gnose, "Teologia da contra-Igreja". Evocava nele as primeiras correntes de pensamento gnóstico (ou "gnose histórica"), desde Simão o Mago, Valentim, a Escola de Alexandria, o Maniqueísmo, os Maometanos, para chegar à análise da letra G dos escudos maçônicos do século XVIII e depois ao exame dos pensadores gnósticos contemporâneos, como René Guénon, Raymond Ruyer e a Gnose de Princeton, Raymond Abellio e o G.R.A.C. de Perpignan. Esse N.º especial 126 constitui sem dúvida um dos documentos mais preciosos que escreveu Jean Vaquié. Esse texto circulou desde 1962-63 em forma mimeografada nos meios contrarrevolucionários, após a perda da Argélia francesa. A versão atual foi revista e intitula-se "Reflexões sobre os Inimigos e a Manobra". Esse guia é uma análise notável da situação atual, das forças em presença, das táticas empregadas pelos Inimigos da França tradicional. Previne contra a manobra insidiosa que esses sequazes de Satã põem em prática para desviar de seu objetivo todas as tentativas de sã reação a seu plano diabólico. É uma obra a consultar com frequência e a meditar! No N.º 134 de "Lecture et Tradition", Jean Vaquié precisou a Christian Lagrave suas concepções sobre os "Inimigos e a Manobra". Um complemento útil, repleto de análises pertinentes, assim como o "meio número especial" intitulado "A batalha preliminar" (N.º 155), análise que sublinha a necessidade de uma dupla tática e chama a atenção para os erros a não cometer enquanto o inimigo é todo-poderoso... Pensando no combate cotidiano, Jean Vaquié fez publicar pela "Action familiale et scolaire" um folheto de cerca de cinquenta páginas sobre "os principais temas gnósticos: Ocultismo e Fé Católica", temas que se desenvolveram com incrível volubilidade na literatura ocultista, esotérica e gnóstica contemporânea. Essa obra facilita a identificação dos grandes temas gnósticos nos documentos que a vida moderna nos põe diante dos olhos. Foi igualmente por preocupação de esclarecimento que Jean Vaquié publicou "o candente problema da tradição" (L. et T. N.º 167), para que os católicos tradicionalistas saibam a que se ater quanto à Tradição da Igreja e à Tradição da Contra-Igreja. Num tempo em que reina a confusão em torno do sentido real da palavra "Tradição", Jean Vaquié quis esclarecer e depois prevenir contra uma anti-tradição compósita, tão antiga quanto a autêntica e que ousa espalhar-se hoje, como um dilúvio, sobre o mundo inteiro. São de fato os "Dois estandartes" das "Duas cidades"! Esse texto apareceu primeiro, em primeira edição, nos cadernos da "Revue Barruel", de que falaremos um pouco mais adiante. Com seu "Compêndio de Demonologia" (nas E.S.J.A.), Jean Vaquié fez uma aplicação da Demonologia cristã à crise da sociedade contemporânea. Num tempo em que a demonologia já não é ensinada nos seminários, em que os bons livros sobre a questão se tornaram muito raros, Jean Vaquié escreveu um livro salutar! Com esse título, já não será possível ignorar essa ciência! A natureza e a influência dos demônios nele são magistralmente expostas. Precisemos que essa obra, editada pelas E.S.J.A., está em sua segunda edição, inteiramente refundida e aumentada. Além desses escritos de grande qualidade, Jean Vaquié participou, com Paul Raynal e Étienne Couvert, em 1979–1980, da fundação de uma revista única no mundo. Trata-se igualmente de uma obra de salvação pública, para a defesa da Igreja Católica e o combate contra a Sinagoga de Satã. Refiro-me à "Sociedade Augustin Barruel" de Lyon. A Sociedade, cuja revista leva o mesmo nome, apresenta-se como um "Centro de Estudos e de Pesquisas sobre a Penetração e o desenvolvimento da revolução no cristianismo". A revista sai duas vezes por ano e está em seu 23.º número. Os estudos publicados nesses 23 números são notáveis; constituem uma mina de informações e de formação, centrada no "Combate das duas cidades". É no quadro dessa revista que Jean Vaquié publicou o que se pode considerar seu último livro: "A Escola moderna do esoterismo cristão" (N.os 22 e 23 – 162 páginas). Essa edição é o resumo de uma grande obra em 3 tomos, reservada aos especialistas. Livro solidamente argumentado, cujo objetivo é esclarecer os católicos sobre uma corrente de pensamento, "o Esoterismo dito cristão", que se pode considerar um verdadeiro câncer, um ácido que corrói os dogmas, uma peste que impregna hoje os próprios meios tradicionalistas! É um dos perigos da hora presente! Jean Vaquié desvela-nos nesse trabalho os homens e as doutrinas dessa corrente que ousa agora exibir-se publicamente, tão cegante é a decrepitude da Igreja conciliar. O que René Guénon não pôde realizar em vida, a geração de esoteristas ditos cristãos formada pelos discípulos do "Mestre" está em vias de realizar, o que Deus não permita! Agora que o dogma católico se fez em pedaços, a teologia da contra-igreja abre para si uma via régia para tudo subverter! Voltamos sempre ao Solve et Coagula caro aos sectários da "Viúva"! Este último trabalho de Jean Vaquié é, pois, um serviço assinalado a todos os contrarrevolucionários que conhecem sua religião e não querem deixar-se enganar a nenhum preço! Dispõem aí de uma arma preciosa contra a subversão Esotérico-Ocultista! Devemos reconhecer que Jean Vaquié realizou bela obra apologética. Soube defender a doutrina, mas também chamar a atenção para as armadilhas do Inimigo. Sua ação exerceu-se ainda por uma colaboração em diversas revistas da tradição. Pensamos notadamente em "De Rome et d'Ailleurs", "Montjoie Saint-Denis", "Monde et Vie", "Les Cahiers de Chiré", "Sous la Bannière". Seria muito oportuno reunir em volume os artigos publicados nessas revistas; citemos, entre outros, "O Concílio dos Maus me cercou", "As finalidades revolucionárias da Nova Era", "Os manifestos rosacrucianos" (colaboração em obra coletiva), "O pastor ferido e as ovelhas dispersas", "Os documentos da Alta Venda", "Um corpo ao mesmo tempo morto e divino", "Léon de Poncins é discípulo de René Guénon e de Julius Evola?", "Os precursores da Era de Aquário" etc... Jean Vaquié escreveu, pois, bastante; lamentamos que não o tenha feito mais... mas também trabalhou bem por meio de conferências apaixonantes, muito apreciadas por seus ouvintes. Monarquista providencialista, grande defensor da tradição, Jean Vaquié sempre se guardou de todo ativismo despropositado, mas soube travar um combate de todos os instantes, servido por sólida formação haurida na Escritura, nos Padres da Igreja, nos doutores, nos místicos, nos grandes doutrinadores católicos e nos contrarrevolucionários. Homem ele próprio muito místico, Jean Vaquié era de alta probidade intelectual. Seus dons de análise eram notáveis e sabia apresentar de maneira muito clara as doutrinas (...) das "duas tradições", cuja exposição nem sempre é fácil. Tinha, aliás, um faro incomparável para detectar os perigos do momento. Ir direto ao essencial e depois expô-lo numa língua clara e agradável não é dado a todos! Jean Vaquié possuía esse dom da clareza. Embora a situação pudesse parecer desesperada aos olhos do comum, Jean Vaquié tinha a certeza inabalável da vitória final. Seus escritos o atestam; demonstram mesmo que, ao mesmo tempo que se afirmava "providencialista", é possível, apesar da estreita margem de manobra que ainda nos é deixada, trabalhar para a glória de Deus e a Edificação "dos restos que iam perecer"... Jean Vaquié foi para nossa época um apoio precioso! Sim, a Tradição acaba de perder um grande homem! Possa ele sustentar-nos agora de lá do alto, já que não dispomos mais de suas luzes aqui embaixo! Que nossas orações subam por ele ao Deus das misericórdias, para que lhe devolva lá em cima os frutos de seu labor aqui embaixo. "As forças da revolução podem ocupar todo o terreno. Deus não permitirá que todos os seus servidores desapareçam. Deus precisa de 'pequenos nadas' para tudo reconstruir" (Jean Vaquié). Neste 21 de janeiro de 1993. Bicentenário do Martírio de Luís XVI e origem de todos os nossos males! Félix Causas EXTRATO DE LE SEL DE LA TERRE N.º 4 Primavera de 1993 Convento da Haye-aux-Bonshommes 49240 Avrillé A ESCOLA DO ESOTERISMO CRISTÃO Um número especial do boletim de estudos da Sociedade Augustin Barruel é consagrado a um assunto muito importante e bastante desconhecido: o do "Esoterismo cristão". Por essa expressão deve-se entender uma corrente de pensamento que se ligou, em boa parte, a René Guénon. Aqui o autor não estuda diretamente o pensamento do mestre, cuja tentativa de infiltração do cristianismo foi um fracasso: consagra sua obra ao exame do pensamento dos discípulos de Guénon que se dizem católicos ou que exercem grande influência junto a católicos. Entre estes, distingue três que são mais importantes: o padre Stéphane, François Chenique e Jean Borella. O caso do "padre Stéphane" (André, Henri, Stéphane Gircours, nascido em 1906) é bastante perturbador. Eis um sacerdote que se deixou ganhar completamente pelas teorias gnósticas de Guénon e de seu discípulo Frithjof Schuon. Seu bispo se preocupou e o expulsou de sua diocese. Refugiou-se na escola Sainte-Geneviève, em Versalhes, onde ensinou matemática até 1973. Morreu em 1984, depois de sofrer de distúrbios psíquicos que exigiram cuidados em estabelecimento psiquiátrico. Esse padre reagiu contra os desvios modernistas na Igreja em nome de certa "Tradição". Mas é preciso saber que os guenonianos não designam com esse nome a Tradição apostólica e romana que Le sel de la terre defende na esteira de Dom Lefebvre. Para eles, a Tradição é um conhecimento "sagrado" confiado a uma "elite" e a "iniciados". No vocabulário desses gnósticos, é preciso distinguir o exoterismo (onde se situa, por exemplo, nossa revista) e o esoterismo (onde eles se situam). Essa distinção encontra-se em cada forma religiosa "autêntica": islã, hinduísmo, judaísmo... e também cristianismo. No nível do exoterismo, há conflito entre as diferentes formas religiosas, mas no nível do esoterismo há uma "unidade transcendental das religiões". O ensinamento do padre Stéphane foi recolhido por discípulos, dos quais dois são atualmente particularmente ativos: François Chenique e Jean Borella. Este último é especialmente perigoso, pois conseguiu, por uma prática muito exata do "exoterismo", fazer certa penetração no meio católico tradicionalista. Contudo, não esconde sua admiração por René Guénon, e Jean Vaquié não tem dificuldade em encontrar em seus escritos os principais temas do gnosticismo. Temos em mãos as atas de um colóquio organizado de 31 de agosto a 2 de setembro de 1991 para o 40.º aniversário da morte de René Guénon. Jean Borella ali participava ao lado de franco-maçons como Jean Tourniac, de muçulmanos como 'Abd Al Wahid Pallavicini e 'Abd Al Haqq Ismail Guiderdoni, e de outros esoteristas favoráveis ao budismo, ao hinduísmo e ao "cristianismo" (por exemplo Jean Hani e um padre beneditino, Michel Van Parys). Notemos o "Propósito inaugural" de Roland Goffin: "Estas jornadas deveriam ser vividas, faço o voto, num espírito análogo ao de Assis (onde não se tratava de elevar ao Céu uma oração comum a todas as tradições, nem talvez sequer de orar juntos), mas de estar juntos para elevar nossos pensamentos e reflexões, certamente conforme à natureza de cada uma das tradições aqui representadas, mas todas orientadas para seu princípio divino comum, idêntico e transconfessional (...), enunciar verdades que, em si mesmas, estão além de cada um dos pontos de vista adotados: 'no centro', do qual todas as tradições providencialmente saídas e instituídas pela Vontade divina são para nós vias e raios convergentes". A revista que publica essas atas, Vers la Tradition, exprime que "sua preocupação é publicar apenas trabalhos compatíveis com o princípio da unidade essencial das diversas tradições, princípio que é o fundamento do verdadeiro ecumenismo, o do Espírito, concebido e vivido fora de todo sincretismo". Deixamos a nossos leitores o cuidado de descobrir de qual "Espírito" pode tratar-se. Estamos diante de uma doutrina saída diretamente dos antros do inferno, insuflada a iniciados que se exercitam em práticas esotéricas, e que pretende ser uma justificação teórica do ecumenismo de João Paulo II. É incrível que católicos que se pretendem tradicionalistas participem de tal empreendimento. Mas ficaremos menos espantados se lermos a intervenção de um dos participantes desse colóquio, 'Abd Al Wahid Pallavicini: "Não há organização esotérica nem esoterismo fora de um exoterismo ao qual já se pertence, ainda que seja apenas 'com vistas' a tal iniciação (...) Para nós, ocidentais, hoje, nosso exoterismo é necessariamente uma 'religião'". Na lógica dessa doutrina gnóstica, para desenvolver todas as "virtualidades" contidas na "influência espiritual" dada pela iniciação, é preciso praticar também um exoterismo, isto é, uma religião. Alguns terão repugnância em imitar o Sr. Pallavicini, que sem dúvida recebeu no batismo um prenome menos bárbaro que o que nos recusamos a escrever uma terceira vez, em sua prática do islã. Resta-lhes então a possibilidade de praticar a religião católica. Evidentemente, para esses senhores que se pretendem esoteristas "ortodoxos", diferenciando-se bem dos vulgares ocultistas da New Age, preferem praticar o exoterismo "ortodoxo" da Tradição católica. Aí têm certeza de que os sacramentos são válidos e transmitem a "influência espiritual", e encontrarão uma liturgia que conservou o sentido do sagrado e concorda com o que procuram encontrar na pseudomística (para não dizer a contramística) da iniciação. Toda essa longa digressão não terá feito conhecer tanto assim a Escola do esoterismo cristão aos cristãos de Le Sel de la terre. Mas, em vez de resumir essa obra, aconselhamos a nossos leitores obtê-la. Terão compreendido, à luz das poucas considerações que acabamos de fazer, o perigo dessa Escola. Encontrarão na obra de Jean Vaquié uma boa descrição dos "líderes" da Escola e de sua doutrina. Podemos lamentar um pouco que esse estudo se atenha sobretudo ao aspecto descritivo dessa escola. Uma boa análise, à luz da filosofia e da teologia tomistas, das principais noções do guenonismo (tradição primordial, influência espiritual, simbolismo, "realização" pelo conhecimento, Princípio indiferenciado etc.) seria bem-vinda e mostraria o vazio desse pensamento diante das riquezas da Tradição católica. O autor deste estudo talvez tenha carecido de um conhecimento aprofundado do tomismo. É o que explicaria também que aprove, paradoxalmente, a crítica injustificada de Borella ao hipotomismo, que não é outra coisa senão o tomismo contemporâneo. Resta, pois, fazer um estudo mais doutrinal do pensamento de René Guénon. Que saibamos, esse estudo ainda não foi feito. Houve, sim, alguns estudos logo após a morte de Guénon, mas hoje são impossíveis de encontrar e nem sempre mediram a nocividade contida em germe nesse pensamento, a qual é muito mais visível hoje. O estudo de Noëlle Maurice-Denis Boulet, publicado em La Pensée Catholique (N.os 77, 78–79, 80), que goza de certa reputação, era favorável demais ao "mestre", a quem não hesitava em fazer um grande metafísico. Alguns puderam também assinalar alguns erros de fato nesse estudo. Ninguém é infalível aqui embaixo, exceto o papa em certas condições, e também os guenonianos, e o autor, trabalhando um pouco como pioneiro nesta matéria, bem pode ter cometido algumas inexatidões ou negligenciado algumas informações. Isso certamente não põe em causa a conclusão deste trabalho: sob a influência de René Guénon está em vias de constituir-se uma corrente de pensamento que se pode qualificar de esoterismo cristão, corrente de pensamento que reúne pessoas cuja influência está longe de ser desprezível. Compreende-se, pois, que o autor tenha recebido este encorajamento substancial de Dom Lefebvre, a quem enviara as provas deste estudo: "S. Exa. Dom Marcel Lefebvre exprime suas vivas felicitações e seu profundo reconhecimento ao Sr. Jean Vaquié pela notável obra que redigiu sobre a Escola do esoterismo cristão. Ao fazê-lo, realiza o desejo de Leão XIII e de São Pio X, que diziam ser preciso arrancar a máscara dessas pessoas que se disfarçam de católicos para fazer passar melhor suas doutrinas perversas. Que Deus o abençoe!" Tendo o Sr. Jean Vaquié falecido após a publicação desta obra, esperemos que receba sem demora essa bênção desejada por Dom Lefebvre, assim como a justa recompensa por seus numerosos e interessantes trabalhos, dos quais este constitui o último. Antoine de Motreff Jean Vaquié, L'École de l'Ésotérisme Chrétien, Société Augustin Barruel (62 rue Sala, 69002 Lyon), 1992 – 21 × 29,7 – 168 páginas – 100 F.