Cadernos Barruel 24 - 1993


Gnose e Classicismo

A penetração do Humanismo pagão do Renascimento no Ocidente foi uma prodigiosa invasão de Gnose cabalista na Igreja [1]. Esta se deixou conquistar, sem reagir, por essa nova moda, que lhe pareceu a quintessência da civilização. Maus papas, traidores da fé cristã, lançaram todo o peso de seu prestígio e de sua autoridade espiritual na balança de Satanás para perturbar as inteligências e perverter os costumes. O pior de todos foi Leão X, papa completamente paganizado, que mal conseguia não adorar Júpiter no lugar de Jesus Cristo.

O gesto de Lutero, queimando a bula pontifícia que o condenava, estourou como um trovão num céu sereno e luminoso. Anunciava a tempestade que iria abater-se sobre a Europa por culpa de uma hierarquia inconsciente e profundamente impregnada de naturalismo pagão.

Foi então que papas corajosos, sobretudo monges coroados com a tiara, empreenderam a obra gigantesca do Concílio de Trento para despertar a Igreja de sua letargia e devolver-lhe o verdadeiro sentido de sua missão. Em Trento, os Padres do Concílio estavam reunidos em torno de dois livros que lhes serviam de referência constante em seus trabalhos: a Bíblia e a Suma Teológica de São Tomás de Aquino. Haviam compreendido bem que, para devolver vigor à Fé contestada, era preciso um retorno à escolástica tomista. Nos seminários que pediram aos bispos que abrissem em cada diocese, impuseram aos mestres a obrigação de ensinar a filosofia e a teologia segundo o método de São Tomás.

Infelizmente! Na França, em consequência da atmosfera galicana em que o clero estava mergulhado, as decisões desse Concílio não foram registradas pelo Parlamento. Contudo, os bispos franceses, fiéis às intenções do Vaticano e preocupados em proteger a Fé católica e promovê-la contra as Reformas, introduziram a filosofia e a teologia de São Tomás em seus seminários. De modo que a elite do clero francês, a partir do Grande Século, recebeu uma sólida formação religiosa.

Como então se explica que Paul Hazard, em sua obra essencial, “A Crise da consciência europeia”, afirme que já em 1660, isto é, já em meados do Grande Século, a elite intelectual está impregnada dos modos de pensar e das ideias subversivas que se espalharão durante todo o século XVIII e prepararão a Revolução? Ele enumera uma multidão de obras, em geral impressas em Haia, na Holanda, portanto de origem protestante, que penetram nos meios cultos parisienses e chegam até Versalhes. Mostra Bossuet como uma cidadela sitiada, tentando defender a Fé católica assaltada de todos os lados e reduzido, até a morte, a denunciar com a energia do desespero as empresas de subversão religiosa incessantemente renovadas e triunfantes.

Toda uma elite francesa deixou-se conquistar insensivelmente pelas ideias novas, na moda da época, e isso tanto mais facilmente quanto as regras de decoro e a mundanidade do tempo tornavam os espíritos menos aptos a uma defesa enérgica e firme da Verdade. É um ponto que Hippolyte Taine pôs bem em evidência na primeira parte de suas “Origens da França contemporânea”.

Na nobreza francesa e na burguesia que se esforçava por imitá-la, a preocupação com a elegância da expressão, com a afabilidade das maneiras, o desejo de agradar e de ser bem recebido num mundo requintado em excesso enfraqueceram o vigor do pensamento e a energia do caráter. As ideias novas penetraram num meio “mole”, que praticamente não ofereceu resistência. Bastava que fossem apresentadas ao gosto da época para serem acolhidas nos salões e começarem sua ação dissolvente sobre os espíritos.

Não é nossa intenção expor o magnífico renascimento religioso do Grande Século. A tarefa já foi realizada com grande esmero, e muito recentemente por Jean de Viguerie em sua notável obra: “O Catolicismo dos franceses na Antiga França”.

Aqueles que acompanharam nossos estudos anteriores compreenderam bem que nos esforçamos por perseguir, através dos séculos, uma Gnose que se esconde por trás de movimentos de pensamento aparentemente espontâneos. Vamos, pois, reencontrar essa Gnose em várias doutrinas que penetraram os espíritos religiosos do Grande Século e os prepararam para acolher favoravelmente a Maçonaria no início do século seguinte: primeiro e essencialmente o platonismo, depois o cartesianismo, o jansenismo e o quietismo.

Encerraremos nossa exposição na criação da Maçonaria. A partir desse momento, com efeito, a história dessa penetração gnóstica confunde-se com a das lojas, e existem bons livros em número suficiente que dão o essencial dessa história.

A SOBREVIVÊNCIA DO PLATONISMO

Os Humanistas do Renascimento, como dissemos, relançaram a moda do platonismo, e não era um jogo inocente. Tratava-se essencialmente de voltar a elite intelectual da Europa contra a escolástica, que era a verdadeira filosofia cristã, e de prepará-la para acolher o paganismo inerente à filosofia de Platão.

Obras como as “Cartas dos homens obscuros”, de Ulrich von Hutten, o “Elogio da Loucura”, de Erasmo, a “Utopia”, de Thomas More, o “Gargântua” e o “Pantagruel”, de Rabelais, trabalharam com afinco para a destruição da filosofia cristã, e não se encontraram, naquele século, homens de Fé suficientemente formados em filosofia para corrigir um movimento de desafeição e abandono da escolástica.

Até Bossuet, o Grande Bossuet, permaneceu em parte prisioneiro do pensamento platônico. No esforço que a Igreja empreendeu em sua Contrarreforma, o domínio da filosofia ficou inculto, e isso por culpa daqueles que deveriam ter consagrado todos os seus esforços ao seu desenvolvimento.

Rancé quer reformar La Trappe. Ora, começa por afastar seus monges da filosofia. Aristóteles, diz ele, é o pai dos libertinos: “A religião (isto é, o convento)”, escreve, “não é uma escola de teologia ou de filosofia, mas uma academia santa... Não é para aprender uma doutrina vã e secular que estamos aqui, mas para nos instruirmos na ciência da humildade e da virtude.” Pode-se autorizar os monges a ler autores de ascese espiritual, mas “o estudo altera o espírito de piedade, resseca o coração... Um monge deve chorar muito mais seus pecados do que ler as matérias de Teologia.” Não se poderia ser mais desdenhoso.

Quanto a São Tomás de Aquino, precisa Rancé: “Suas opiniões estando muito distantes das minhas, só quero conhecê-lo para condenar tudo o que não cair no meu sentido.” Em suma, para Rancé, superior de La Trappe, que ele reformou, não convinha que um dia um monge mais instruído ou mais perspicaz que ele se desse o capricho de superá-lo na ciência sagrada...

Mabillon, em seu “Tratado dos Estudos monásticos”, escreve: “Devemos buscar as verdades naturais, para que nos sirvam de degraus que nos levem às sobrenaturais... Nossos espíritos se elevam acostumando-se insensivelmente a desprezar as coisas baixas, meditando em coisas elevadas e desprendidas da matéria... Os antigos Padres da Igreja, diz ele ainda, para tornar seu pensamento mais claro, preferiam Platão a Aristóteles, porque achavam que ele falava de maneira mais digna da Providência divina e da imortalidade da alma do que Aristóteles, cuja Lógica lhes parecia demasiado embaraçada e a moral demasiado humana.” (livro II, 2ª parte, cap. IX).

Os primeiros padres do Oratório haviam formado o projeto de introduzir entre eles a filosofia de Platão, que lhes parecia ter algo de maior e mais sublime, de mais acomodado aos mistérios da Fé do que a de Aristóteles. O abade Fleury, muito lido no clero de seu tempo, precisa em seu “Quinto discurso sobre a história eclesiástica”: “Se algum filósofo merecia a atenção dos cristãos, era antes Platão, cuja moral é mais nobre e mais pura... Assim, ele se aproxima mais do que qualquer outro das máximas do Evangelho.”

Que a verdade seja exata, precisa, minuciosa, isso, afinal, importa pouco ao honnête homme (o homem de bom-tom) do Grande Século. Se for seca, será rejeitada, porque não poderá satisfazer seu desejo de “sentir” a verdade, que deve “cair no seu sentido” para ser acolhida. Ele precisa de uma verdade “sublime, nobre, digna”, aprazível, portanto agradável de ouvir e de transmitir. O honnête homme atribui mais importância ao modo de apresentação do que ao conteúdo real da afirmação. Há nisso como que uma recusa da disciplina do espírito, como que uma exigência exorbitante de uma alma que só aceita submeter-se à verdade quando ela lhe agrada.

Ora, a verdade é firme, rugosa, forte; impõe-se por sua própria evidência interior. Nosso espírito não tem de lhe impor condições. Se buscamos primeiro o agradável, o aprazível, e não a verdade nua e pura, caímos depressa nas armadilhas de Lúcifer, que saberá muito bem dar às suas mentiras não apenas as aparências da verdade, mas uma forma sedutora, atraente, fácil. Julgar-se-á penetrar sem esforço na Verdade. É por isso que tantos espíritos, em todas as épocas, foram seduzidos pelos mitos de Platão e repelidos pelas demonstrações de Aristóteles.

Um grande jesuíta do Grande Século, o P. Petau, “príncipe da Teologia positiva”, completamente esquecido desde então, denunciou muito profundamente essa “sedução” de Platão.

Começa por nos explicar que os Padres gregos e latinos se nutriram de neoplatonismo, que essa formação tornara muito difícil manter seu pensamento na retidão da ortodoxia cristã, porque os expunha a sedições capciosas nas quais seu cristianismo podia prender-se e corromper-se. É verdade que vários deles resvalaram com frequência em uma multidão de erros devidos a essa formação e contra os quais tiveram muita dificuldade em lutar.

Depois o P. Petau chega à seita dos platônicos: “Essa seita nos enganava”, diz ele, “precisamente pelo fato de algumas de suas ideias se aproximarem das nossas. Assim como, em matéria de metais ou pedras preciosas, de aromas ou perfumes, uma substância é tanto melhor para fazer imitação quanto mais próximas são suas qualidades daquela que se quer simular, assim também os fabricantes e mercadores de heresia, para corromper a integridade da fé, misturaram nela de preferência invenções platônicas...

É certo, continua o P. Petau, que, levando mais longe seus raciocínios, Platão e seus discípulos estabeleceram uma doutrina que é um simulacro da Trindade. É a esse título que se fizeram admirar e celebrar além da medida por alguns dos nossos. Mas certamente não foi sem infligir mais dano à verdade do que lhe trazia de proveito que esse ensinamento de sua escola se difundiu. Nada teve efeito mais pernicioso para a fé cristã. Há cristãos que apertam os platônicos contra o coração, sob o pretexto de que a doutrina desse filósofo exprime não sei que fantasma de nossas três pessoas divinas. Para mim, isso vale exatamente os louvores que se poderiam conceder aos poetas e outros heróis das superstições e das escolas pagãs, sob o pretexto de que Júpiter ou Netuno, ou outros deuses de renome ainda mais infame, é o nome da majestade divina que eles celebram.

Tudo o que surgiu de heresias e opiniões falsas nos primeiros tempos da Igreja, e sobretudo o erro profundamente funesto de Ário, tira sua origem dessa invenção dos Platônicos. Ela foi a fonte dos erros sobre esse capítulo, que infectaram não apenas os hereges e os desertores da comunidade cristã, mas também certos escritores piedosos e santos...”

“Essa seita”, diz ele mais adiante, “enganava por uma certa analogia de suas ideias com as nossas... A coisa fala por si mesma: as heresias dos três primeiros séculos, as dos Simonianos, dos Valentinianos, dos Marcionitas, dos Maniqueus e de outros, foram as glosas de Platão que lhes inspiraram suas monstruosas doutrinas, desonra do nome cristão...” Não se poderia dizer melhor. Todas essas heresias enumeradas reduzem-se à Gnose, como já explicamos [2].

Já no século II, Santo Irineu denunciava em Platão, a quem se dava o nome de “divino”, o grande artífice de todos os erros na Igreja: “Doleo Platonem fuisse omnium haereseon condimentorum” (Santo Irineu: “De Haeresibus”).

Em pleno meio do Grande Século, um espírito refletido e preocupado com a verdade ainda podia denunciar Platão, quando este era honrado na boa sociedade religiosa. Mas, infelizmente! essa advertência quase não produziu efeito, e o nome de seu autor permaneceu totalmente ignorado nos séculos seguintes.

Quanto à predição de Tirésias, era fácil de fazer, visto que o próprio Fénelon pertencia a essa seita gnóstica que então se esforçava por reduzir a escolástica a nada, como veremos adiante.

A REVOLUÇÃO CARTESIANA

Num estudo anterior [3], mostramos como a filosofia de Descartes desempenhou um papel de lavagem cerebral sobre as almas cristãs. Resta-nos precisar que essa filosofia foi recebida, em grande número de casos, como uma “iluminação” súbita, uma nova religião, uma sabedoria luminosa e divina.

Que fervor entre os novos convertidos! Pierre Varignon (1654-1722) lê Descartes. Fica impressionado com “essa nova luz que se espalhou por todo o mundo pensante”. Ensinava a escolástica. Será, portanto, matemático.

Tournefort (1656-1702), ao sair do colégio dos Jesuítas de Aix, encontra Descartes na biblioteca de seu pai, lê-o às escondidas, “reconhece de imediato sua doutrina como aquela que procurava”, renuncia à teologia e torna-se botânico.

Louis Carré abandona também a teologia e torna-se secretário de Malebranche; da filosofia escolástica foi de repente transportado à fonte de uma filosofia luminosa e brilhante; ali viu tudo mudar de aspecto e um novo universo lhe foi desvendado.

Pierre Cally era professor na Universidade de Caen, onde se comprometera a ensinar o Aristotelismo. Eis que se lança, como picado por um moscardo, sobre a nova sabedoria e mergulha na controvérsia com os escolásticos.

Seu mais fiel amigo, Daniel Huet, acaba de terminar a filosofia com os Jesuítas. É jovem, rico, inteligente. Põe-se a devorar Descartes: “Que admiração em minha alma juvenil, à vista desses princípios tão claros e tão fáceis, que explicam todos os mistérios do mundo e a própria origem do mundo e da natureza”.

E eis o mais fiel, o mais lógico dos filhos de Descartes. Tinha 26 anos e pertencia ao Oratório. Avistou na casa de um livreiro o “Tratado do Homem” de Descartes. “Impressionado como que por uma luz que dele saía, toda nova a seus olhos”, suspeitando “uma ciência de que não tinha a menor ideia”, comprou o livro, leu-o com sofreguidão e com tal arrebatamento que lhe vinham palpitações do coração, que por vezes o obrigavam a interromper a leitura. Era Malebranche, o mais perigoso dos cartesianos. Foi lendo-o que Bossuet compreenderá mais tarde a malignidade de Descartes. John Locke, aos 27 anos, depois de ler Descartes e Gassendi, renunciou ao estado eclesiástico a que se destinava para fazer-se médico.

Todos encontraram na leitura de Descartes, como uma iluminação divina, uma iniciação a um mundo novo de pensamentos expressos com desenvoltura, em estilo límpido e brilhante, fáceis de apreender, quase sem esforço, e que pareciam dar do mundo uma explicação total e sedutora. Essa leitura provocou em sua alma uma revolução súbita, poderosa e irresistível. Tudo mudava de aspecto. Era o desvendamento de um novo universo. Abaixo a escolástica pesada, lenta, árdua!

Daniel Huet, grande admirador de Descartes, tornou-se bispo de Avranches. Revela-se filho dos grandes humanistas; nele a religião desmorona em humanismo pagão. Havia escrito uma “Demonstração evangélica” na qual se esforçava por mostrar que Moisés é o mesmo personagem que os deuses do paganismo, Apolo, Pã etc. Demonstra com isso que a História Sagrada não passa de um tecido de lendas, e no dia em que lhe demonstrarem que Moisés e seus mistérios judaicos são posteriores às religiões orientais, será apanhado em seu próprio jogo. Recebeu muitos cumprimentos da parte dos protestantes, muito felizes por ver conciliados cristianismo e paganismo. Em 18 de maio de 1689, recebe uma carta de Bossuet que o põe em guarda contra a doutrina de Descartes: “Ela tem coisas que aprovo muito, porque de fato as creio contrárias à religião... Descartes disse outras coisas que creio úteis contra os ateus e os libertinos e, quanto a estas, como as encontrei em Platão e, o que estimo muito mais, em Santo Agostinho, em Santo Anselmo, algumas até em São Tomás e em outros autores ortodoxos, tão bem ou melhor explicadas do que em Descartes, não creio que tenham se tornado más depois que esse filósofo se serviu delas... Quanto às outras opiniões desse autor, que são totalmente indiferentes, como as da física particular e as outras dessa natureza, divirto-me com elas na conversação, mas, para nada lhe dissimular, julgaria um tanto abaixo do caráter de bispo tomar partido seriamente em tais coisas”.

Por fim o senhor bispo de Avranches refletiu. Torna-se resolutamente adversário de Descartes. Eis uma conversão filosófica que mostra que, com reflexão e coragem, ainda se podia resistir à sedução da filosofia nova.

Descartes é condenado por Roma em 1643. Os protestantes da Holanda também condenam a Lógica de Descartes no sínodo de Dordrecht em 1656, inquietos com as consequências que a dúvida metódica podia provocar entre eles, ameaçando o pouco de crenças que ainda restava na Reforma.

É um judeu de Amsterdã, Espinosa, que, em seus “Princípios da filosofia de Descartes”, lança a sapa e a mina contra a estrutura religiosa e moral da sociedade cristã. Aplica ao conceito de Deus as regras do “Discurso do Método”. Descartes declarara que a extensão e o movimento eram a essência dos corpos. Espinosa raciocina muito bem a partir daí.

“Chama-se finita em seu gênero”, diz ele em sua “Ética”, “toda coisa que pode ser limitada por outra da mesma natureza. Por exemplo, um corpo é finito porque sempre concebemos um maior”. Ora, se por uma série de enumerações inteiras percorrermos toda a gama das grandezas, chegamos “a um ser absolutamente infinito, isto é, à substância dotada de uma infinidade de atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita”. É evidente que essa substância é única, pois, “sendo toda determinação uma negação”, se houvesse duas substâncias, elas se “determinariam”, isto é, limitar-se-iam uma à outra e, por conseguinte, negar-se-iam e cairiam no nada. Ora, essa substância única, que só pode existir com a condição de não ser limitada nem no espaço nem no tempo, “é aquilo que é em si e é concebido por si, aquilo cujo conceito não precisa do conceito de outra coisa para ser formado”. Tem, pois, os atributos do divino. O importante é conhecer sua essência. Sigamos sempre o método de Descartes. Ele nos ensina que se conhece clara e distintamente a essência de uma substância desde que se tenha identificado seu atributo principal. Qual é, então, o atributo principal da substância divina? Nosso espírito e nossos sentidos percebem, sem erro possível, que é a extensão. É, portanto, claro que todos os seres deste mundo, do menor ao maior, são, em razão de sua extensão, parte integrante de Deus, sem o que seriam finitos, limitados, determinados, isto é, nadas.

Esse panteísmo derruba, e Espinosa o declara sem rodeios, todas as religiões. O homem e o mundo, estando de toda a eternidade em Deus, não puderam sair d’Ele por um ato criador... Católicos, protestantes, judeus, turcos, chineses imaginam, coitados, que Deus está no céu, quando Ele vive e respira no mais profundo deles mesmos. Há uma verdadeira religião, que consiste em “perseverar em seu ser”, em apreender, num gesto sagrado, todo o eterno, todo o absoluto, todo o infinito, e em fazê-lo render, pelos efeitos de uma vontade sempre tensa, a plenitude da divindade. Isso é Cabala, é gnose. Pode-se legitimamente tirá-la dos princípios de Descartes.

“De modo que”, conclui Bayle em seu “Dicionário”, “as mesmas pessoas que dissiparam em nosso século as trevas da escolástica espalhadas por toda a Europa multiplicaram os Espíritos fortes e abriram a porta ao ateísmo, ao pirronismo ou à descrença da maioria”. (art. Takidin, obs.)

O sr. Victor Cousin, grande mestre oficial da filosofia universitária no início do século XIX, só pode tirar daí as conclusões, bem decepcionantes para um professor de Verdade: “O que saiu do cartesianismo?... Eis aqui, como consequências, se não forçadas, ao menos bastante naturais: 1 – o Espinosismo, 2 – a visão em Deus de Malebranche, 3 – o idealismo de Berkeley, 4 – a harmonia preestabelecida de Leibniz... Tal é a fraqueza do espírito humano. Começa-se pelo método e termina-se por hipóteses”. (em “História da filosofia moderna”)

Mas os admiradores de Descartes triunfam:

“Espírito independente, inovador, gênio ousado de singular poder, Descartes gostava demais de fazer ele próprio suas ideias, de confiar em seu sentimento íntimo, para não reconhecer a autoridade da razão individual e o direito que ela tem de examinar e julgar toda espécie de doutrina. É glória de Descartes ter proclamado e praticado esses princípios e ser o autor dessa reforma intelectual que deu fruto nos séculos XVII e XVIII e que hoje, mais do que nunca, exerce sua influência no mundo filosófico. Hoje, com efeito, graças a Descartes, somos todos protestantes em filosofia, como somos todos, graças a Lutero, filósofos em religião.”

Não se poderia dizer melhor. Essas palavras, extraídas do n.º 147 do jornal liberal e maçônico “Le Globe”, que aparecia sob a Restauração, servirão de conclusão a nosso capítulo sobre Descartes.

A CRISE JANSENISTA

Ainda mais grave para os espíritos do Grande Século foi a crise jansenista. Bossuet declarara que o Jansenismo não era outra coisa senão Protestantismo requentado. Encontram-se nele as mesmas deficiências do pensamento, o desprezo da razão, o desprezo do corpo e da matéria, um pessimismo sombrio e desesperador.

Simone Pétrement, em seu livro “O Dualismo em Platão, nos Gnósticos e nos Maniqueus”, teve a feliz ideia de confrontar textos de autores jansenistas dessa época com trechos de hinos maniqueus descobertos recentemente na Ásia Central. O resultado é eloquente. Eis um exemplo:

Para Nicole, um dos mestres de Port-Royal, o mundo é “um quarto escuro, cheio de serpentes adormecidas, sobre as quais repousa o homem. De repente uma janela se abre, uma luz viva cai no quarto, onde as serpentes despertas se lançam sobre o homem, mordem-no e dilaceram-no”. Em outro lugar Nicole acrescenta: “Assim o mundo inteiro é um lugar de suplícios... um vasto lugar, cheio de todos os instrumentos da crueldade dos homens e povoado, de um lado, de carrascos e, de outro, de um número indefinido de criminosos abandonados à sua raiva”.

Comparemos com este hino maniqueu do século III: “Sou um deus, nascido de deuses, brilhante, fulgurante, cintilante, radiante, perfumado e belo, mas agora caí na miséria. Demônios sem conta me agarraram, repugnantes, e me reduziram à impotência. Constrangeram-me, morderam-me, dilaceraram-me, devoraram-me... Sofri por isso aflição e morte. Uivam, atacam, perseguem, erguem-se contra mim”.

A ideia é a mesma, a expressão quase idêntica, e no entanto Nicole não podia conhecer esses hinos maniqueus, descobertos recentemente. Os jansenistas são, portanto, gnósticos que o ignoram.

O homem é “um deus caído que se lembra dos céus”, segundo a expressão que se tornou célebre de Lamartine. É o que nos explica Pascal em seus “Pensamentos”. Ouçamo-lo:

“Mas infelizes que somos, e mais do que se não houvesse nenhuma grandeza em nossa condição. Temos uma ideia da felicidade e não podemos alcançá-la. Sentimos uma imagem da verdade e só possuímos a mentira, incapazes de ignorar absolutamente e de saber com certeza, tão manifesto é que estivemos num grau de perfeição do qual infelizmente decaímos”. E ainda: “Que nos grita, pois, essa avidez e essa impotência, senão que houve outrora no homem uma verdadeira felicidade, da qual só lhe resta agora a marca e o traço todo vazio?”

Antes de mostrar o erro fundamental desses textos de Pascal, precisemos primeiro que não temos uma ideia da felicidade. Ignoramos o que é a felicidade e a procuramos às apalpadelas num futuro sempre adiado. Além disso, não temos de modo algum o sentimento de ter perdido uma felicidade de que teríamos gozado anteriormente. A felicidade, para nós, situa-se sempre no futuro, nunca no passado.

Mas precisemos bem. Adão foi colocado por Deus num paraíso terrestre, e não celeste. Foi na terra que o primeiro homem gozava, desde a sua criação, de uma felicidade natural. Mas nós, longínquos descendentes de Adão, não temos nenhuma lembrança nem nenhuma ideia do que podia ser esse paraíso terrestre. Sabemo-lo pela Tradição que no-lo ensina, mas não por uma reminiscência, e quando tentamos representar o que pôde ser esse paraíso, estamos condenados a imaginá-lo grosseiramente, à maneira de uma ilha de nudistas ou de uma praia do Club Méditerranée.

Tampouco temos o sentimento de trazer em nós as marcas ou os traços de uma perfeição anterior. Quando procuramos, sempre às apalpadelas, os meios de nos aperfeiçoar, voltamos o pensamento para o futuro e nunca para o passado. Essa é a experiência comum da humanidade. Afirmar o contrário não é dar conta da realidade, é mostrar-se prisioneiro de um pensamento neoplatônico.

É o demônio tentador que nos diz: “Eras um ser perfeito e divino, vivias num paraíso celeste, e o criador abominável te lançou por terra neste mundo. Deves reconquistar essa perfeição celeste contra o teu criador, e eu estou ao teu lado para ajudar-te a consegui-lo.” E é bem o pensamento de Pascal; pois como podemos sentir em nós a verdade, se só possuímos a mentira? A verdade sentida, e não adquirida por um ato de conhecimento natural, é, pois, bem uma reminiscência do mundo divino. Decaímos, diz ele, de um grau de perfeição: é a teoria platônica da queda e do esquecimento, contra a qual Santo Irineu se levantara com energia e não sem humor [4].

Por seu jansenismo, Pascal é prisioneiro de um pensamento gnóstico que não diz seu nome e de uma tradição neoplatônica que envenenou todos os seus escritos. Seu desprezo da razão natural vem dessa tradição. Esforça-se por denegrir o homem e suas faculdades naturais, porque no fundo pensa que elas não passam de degradações de faculdades celestes perdidas.

Veja-se sua apologética da aposta, teoria pueril e monstruosa à qual os críticos literários ou religiosos se esforçam por dar uma aparência de explicação sem o conseguir. Se nosso espírito é incapaz de conhecer a Deus, se a natureza não no-Lo mostra, é que o pirronismo está com a razão. Quereis destruir a Sorbonne? Derrubar São Tomás? As provas morais? Ora essa! Nossos princípios vêm do costume, responde ele, e da educação; não têm fundamento natural.

Pascal põe-se a recitar a aposta: “Calai-vos, Paschase”, exclama Alithon (a Verdade). “Perco a paciência ao ouvir-vos tratar da mais alta de todas as matérias e apoiar a mais importante verdade do mundo e o princípio de todas as verdades numa ideia tão baixa e tão pueril, numa comparação com o jogo de cara ou coroa, mais capaz de fazer rir que de persuadir”. É o Abade de Villars que responde a Pascal em seu livro “Da delicadeza”, publicado em 1671. Aconselha Pascal a “embainhar seu livro e suas provas morais”, livro “extravagante” que “confirmará os libertinos e escandalizará as pessoas sensatas”.

Conhece-se agora a origem da aposta. Asín Palacios, em seu estudo sobre “os precedentes muçulmanos da aposta de Pascal” (1920), encontrou seus primeiros lineamentos em Al-Ghazali, onde se acham as mesmas imagens e as mesmas comparações. Pascal plagiário!

A moda de Pascal foi lançada pelos Românticos. Encontraram nele um prefácio ao “Mal do Século”, uma inquietude sombria numa alma atormentada. Ficaram enfeitiçados, intoxicados pela “Pascalina”, doença sempre em voga e transmitida de geração em geração pelo ensino escolar e universitário, doença cultivada com esmero por nossos mestres há muito tempo.

“Vinte vezes retomou-se o exame do que foi destruidor e desmoralizador em nossas classes de filosofia”, declara muito justamente Charles Maurras. “A verdadeira causa é, para mim, mais antiga. Devia datar de quase todas as nossas manias, desde o funesto Pascal, que saturava nossas classes de humanidades e de retórica, como se dizia então”.

E Charles Maurras precisava a Henri Massis: “Blaise Pascal trazia em si o germe das doenças incuráveis que nos desolam... Abria-me a primeira claraboia para a dúvida metódica; convidava-me ao idealismo subjetivo sem que eu pudesse perceber”. “Pascal, herdeiro de Platão, preparou Kant, Bergson, Blondel etc...” O grande mestre, acrescenta Maurras, das piores acrobacias do sofisma modernista e evolucionista.”

O CASO DE BOSSUET

Bossuet recebeu toda a sua formação filosófica segundo o método escolástico, tal como era então ensinado exclusivamente nos seminários, tal como era então defendido pelas censuras da Sorbonne e pelos arestos dos Parlamentos.

Por volta do fim do século XVI, Francesco Patrizi, opondo Platão a Aristóteles, segundo a moda posta em prática pelos Humanistas, propusera ao papa Gregório XIV banir das escolas cristãs a filosofia peripatética, invocando o testemunho de Santo Agostinho, “essa coluna e esse esplendor da teologia, que tem sem cessar na boca os filósofos platônicos, como os mais nobres dos filósofos, e os prefere a todos os outros”.

Essa moda do platonismo desenvolveu-se e difundiu-se nos meios clássicos do Grande Século pela presença do pensamento de Santo Agostinho nos estudos eclesiásticos.

Bossuet foi atraído, infelizmente! por essa moda. Dá suas preferências ao bispo de Hipona, esse “mestre tão inteligente”, diz ele, “e, por assim dizer, tão mestre”, essa “águia dos Padres”, que gosta de consultar, esse “doutor dos doutores” cujas lições se aplica, com ardor infatigável, a entender e praticar. Leva em suas viagens um volume de Santo Agostinho que não o deixa. E foi por ele que recebeu em seu espírito as teorias e as tradições platônicas.

Bossuet ensina a noção de iluminação divina no conhecimento natural, que tomou de empréstimo a Santo Agostinho. Em sua “Lógica”, escreve: “Deus forma as almas nos corpos à sua imagem, no tempo que ordenou, volta-as, quando lhe apraz, para suas ideias eternas, ou põe nelas uma impressão na qual percebemos a própria verdade”.

Poderíamos multiplicar as citações e mostrar o platonismo que as impregna. Quem se julgaria ouvir? Bossuet, Santo Agostinho ou Platão de joelhos diante da Cruz?

Mas imediatamente se colocam duas objeções incontornáveis. Se o objeto do meu conhecimento se encontra em mim mesmo, numa impressão que Deus fixou em minha alma, como explicar o erro? Ele se torna impossível. Ora, é corrente. Além disso, torna-se muito tentador, porque não se pode escapar a essa consequência necessária, afirmar que todo erro é uma falta: é nosso espírito que se recusa a observar a luz que traz em si. Claro, Bossuet não explicita essa conclusão, mas ela se impõe.

Em seguida, Deus volta as almas para suas ideias eternas quando lhe apraz, diz Bossuet. Não há aí algum resquício de predestinação? Se não conheço as ideias eternas, é talvez porque não aprouve a Deus voltar minha alma em sua direção. E eis Deus responsável e como que culpado pela indiferença religiosa do grande número ou mesmo pelas negações do ateísmo.

Também aí Bossuet rejeitou tais conclusões, mas não mostrou, nos princípios que expôs, como se devia responder a elas. Ora, tinha, no ensinamento da escolástica, aqui desprezada, uma resposta muito simples à dificuldade levantada: a distinção necessária entre a faculdade intelectual de conhecer, que pertence à natureza criada de nosso espírito, e seu exercício, que depende de nossa vontade, enfraquecida e deficiente em consequência do pecado original.

Outra dificuldade considerável que envenenou o pensamento religioso do Grande Século foi a das relações entre a graça divina e o livre-arbítrio. Os protestantes a resolveram simplesmente negando a liberdade do homem no exercício de seu julgamento. Os jansenistas retomaram essa conclusão absurda dos protestantes. Estão na lógica da Gnose.

Bossuet quer seguir o pensamento de Santo Agostinho. Ora, este hesitou longamente sobre o assunto e só chegou a um equilíbrio precário e insuficiente perto do fim da vida. Bossuet resume assim o espírito dessa doutrina agostiniana:

“A doutrina da graça, que aterra todo orgulho humano e reduz o homem ao seu nada, terá sempre contraditores (Não serão certamente os Reformados nem os Jansenistas, vimo-lo!) e o que é preciso é que algumas vezes os encontrou até em santos personagens: é a dificuldade de conciliá-la com o livre-arbítrio, cuja crença é tão necessária. Daí resultou que a doutrina de Santo Agostinho foi muitas vezes ocasião de grandes disputas na Igreja, uns a tendo enfraquecido, outros a tendo exagerado, e tudo isso sendo o efeito natural de sua sublimidade.” (“Defesa da Tradição e dos Santos Padres”).

Evidentemente posto segundo a problemática de Santo Agostinho, o problema do livre-arbítrio é um quebra-cabeça chinês, porque está fundado em dados absurdos.

Não é em termos de lógica ou de psicologia que se deve colocá-lo, mas em termos de metafísica. O que funda a liberdade do juízo no homem é a natureza ontológica dos seres e das coisas que nos cercam. Existe em toda coisa uma zona de sombra sobre a qual nosso espírito não tem domínio: é o que a escolástica demonstra por sua distinção entre ato e potência.

Não atualizamos de imediato toda a forma de ser que constitui nossa essência. Há, portanto, sempre em todos os seres alguma deficiência que produz em nosso juízo uma incerteza, uma hesitação, e que liberta assim nosso espírito de uma necessidade constrangedora. Pelo livre-arbítrio, nosso juízo nunca é constrangido pela coisa a julgar; permanece, portanto, em suspenso, e essa consequência vem da natureza das coisas, que passam constantemente da potência ao ato, isto é, de uma indeterminação provisória a determinações sucessivas que se completam e acabam o ser em questão. A graça de Deus exerce-se sobre uma natureza de nossa alma assim constituída, sem modificá-la em sua constituição, mas utilizando essa liberdade para dirigi-la ao seu bem mais profundo, e o homem é livre de corresponder ou não...

Infelizmente! Bossuet negligencia essas demonstrações. Contenta-se em assinalar a dupla necessidade do livre-arbítrio e da ação da graça em nós, contenta-se em unir as duas pontas da corrente, cujos intermediários permanecem invisíveis. Não resolve, pois, a contradição, como aliás Santo Agostinho. Não compreendemos? Exige-se que uma coisa seja para que a compreendamos? Deus permanece justo segundo a sua justiça e a despeito da nossa, chamando ou deixando sua criatura, e esta permanece livre no seio de uma vontade superior...

Haverá ainda “murmuradores”? Será preciso fechar-lhes a boca com esta palavra de Santo Agostinho:

“Deve-se negar o que é certo porque não se pode compreender o que está oculto? Ou seria preciso que o que se vê claramente não fosse, porque não se encontra a razão pela qual é?” Eis uma fórmula retomada por Bossuet e que não passa de uma confissão de ignorância.

O livre-arbítrio é o modo natural de funcionamento de nosso juízo. Tem, portanto, sua explicação natural, acessível à reta razão. É pena que Bossuet não tenha ido até a raiz ontológica do problema. Nisso, sua admiração por Santo Agostinho o reteve no caminho da verdade completa.

E, no entanto, Bossuet conhecia bem São Tomás de Aquino e sempre o defendeu contra seus contraditores, que eram numerosos na época. Por legítima preocupação com a ortodoxia católica, protesta com energia contra os humanistas, mais preocupados com a ciência profana do que com a fidelidade às verdades da fé.

Um Erasmo, por exemplo, atacava a primazia de Pedro num comentário do “Tu es Petrus”, que, diz-nos Bossuet, “não deixava mais na Escritura nenhum vestígio dessa primazia”. Por essa ocasião, fulmina os humanistas:

“Não há ninguém, na verdade, a quem não venha de início a vontade de rir ao ver um Erasmo, um Simon, que, sob pretexto de alguma vantagem que terão nas belas-letras e nas línguas, se metem a pronunciar-se entre São Jerônimo e Santo Agostinho e a adjudicar a quem lhes apraz o prêmio do conhecimento sólido das coisas sagradas. Diríeis que tudo consiste em saber grego e que, para desenganar-se de São Tomás, basta observar que viveu num século bárbaro, como se o estilo dos apóstolos tivesse sido muito polido, ou como se, falando belo latim, se avançasse mais no conhecimento das coisas sagradas...”

Mais adiante Bossuet acrescenta: “Vê-se também pela experiência que aqueles que não começaram pela dialética da Escola e que puseram todos os seus esforços na crítica estão sujeitos a extraviar-se muito quando se lançam às matérias teológicas.”

Opõe-se aos que querem romper com a tradição escolástica. Reproduz, aliás, em sua “Lógica” as grandes definições do pensamento tomista, mostrando com isso que o conhece bem. Em definitivo, permanece suspenso entre duas tradições filosóficas contraditórias, cujas discordâncias se esforça por apagar ou atenuar sem consegui-lo.

Mas é necessário lembrar que Bossuet é um grande clássico e que seu gosto da medida, da ordem nas coisas e nos pensamentos o leva a privilegiar o papel da razão no ensino da fé e na prática das virtudes. O mal, diz ele em seus sermões, é “apenas uma parte da razão e da retidão”; a virtude é “um hábito de viver segundo a razão”. Diante da razão, “os vícios perdem o crédito”, os verdadeiros bens são honrados pela consideração da “ordem necessária”. É nele um leitmotiv fundamental.

Daí vem sua desconfiança em relação aos místicos: “Quase só Santa Teresa”, escreve, “me satisfaz inteiramente”. Quanto aos outros místicos, mostra-se muito severo: “Quem conhece agora Harpius e o próprio Ruysbroeck ou os outros escritores desse caráter? Não que a doutrina deles seja má, pois, como notou o cardeal Belarmino, permaneceu intacta, nem que seus escritos sejam desprezíveis, pois muitos autores doutos os estimaram e tomaram a defesa deles, mas porque nada de preciso se pôde concluir de suas exagerações, de sorte que se preferiu abandoná-los, e eles permanecem quase desconhecidos em cantos de bibliotecas”.

Em outro lugar Bossuet explica: “Elevados a uma oração cujas sutilezas não podiam explicar pela linguagem comum, foram obrigados a inflar seu estilo para nos dar algumas ideias de seus transportes. Mas o santo homem Gerson, que não lhes é de modo algum oposto, pois fez expressamente a apologia deles, não deixa de censurar-lhes que pratiquem tudo o contrário de Jesus Cristo e de seus apóstolos, os quais, tendo de desenvolver mistérios impenetráveis e ocultos a todos os séculos, os propuseram em termos simples e vulgares. Santo Agostinho, São Bernardo, todos os outros santos os imitaram, ao passo que estes, diz o douto e piedoso Gerson, numa elevação menor, parecem pensar apenas em furar as nuvens e fazer-se perder de vista por seus leitores.”

Os místicos, quando querem dar uma expressão traduzível de suas experiências pessoais, esbarram numa verdadeira impotência. Resta-lhes uma espécie de lirismo pessoal e natural, uma abundância e uma novidade perigosa de imagens que só podem provocar confusões no espírito. Bossuet os denuncia como “extravagâncias”.

Poder-se-ia acrescentar que, nessa busca do maravilhoso, do misterioso, há como que uma recusa da disciplina do espírito, como que um desejo de evadir-se de sua condição natural de ser racional, também como que um meio de escapar aos constrangimentos da disciplina eclesiástica e à mediação da Igreja, como que um desejo de alcançar Deus diretamente e de construir com Ele sua “pequena religião” pessoal.

Essas últimas reflexões nos levam a estudar o caso de Fénelon. É justamente porque sentiu no Quietismo um desvio quase fatal da mística que Bossuet elevou a voz, ergueu-se com toda a altura de sua Fé católica contra tal extravagância e levou até o fim o bom combate da ortodoxia.

A GNOSE DE FÉNELON

Não é nossa intenção retraçar as etapas da Querela do Quietismo. A tarefa já foi feita com mão de mestre por historiadores eminentes. Mas desejamos chamar a atenção de nossos leitores para um ponto muito particular dessa querela, seu caráter gnóstico. Pela primeira vez no Grande Século, vê-se aparecer uma verdadeira Gnose que diz seu nome e que se quer ortodoxa, conforme à doutrina católica. Sou gnóstico, diz Fénelon, logo sou um verdadeiro cristão, pois um verdadeiro cristão é necessariamente gnóstico. Veremos se essa pretensão é sustentável e justificável...

Fénelon aceitara submeter a doutrina do Puro Amor da sra. Guyon a uma comissão de teólogos reunidos em Issy. Bossuet fazia parte dela. Para sustentar a doutrina do Quietismo, o senhor bispo de Cambrai compôs vários opúsculos, que permaneceram manuscritos e secretos: “Fiz”, diz ele, “coletâneas de Santo Clemente de Alexandria, de São Gregório Nazianzeno, de Cassiano e do ‘Tesouro ascético’... Dei também coletâneas das palavras de Suso, de Harpius, de Ruysbroeck, de Tauler, de Santa Catarina de Gênova, de Santa Teresa, do B. João da Cruz, de Baltasar Álvarez...” Encontrou-se o primeiro manuscrito, sobre “A Gnose de Santo Clemente de Alexandria”, na biblioteca de Saint-Sulpice, anotado por Bossuet. Foi publicado recentemente. É uma obra eloquente, que explica por que Bossuet se mostrou tão severo e tão rigoroso contra Fénelon. Deu-se conta, ao ler o opúsculo, de que havia consagrado bispo um verdadeiro gnóstico! Infelizmente!

Fénelon começa por celebrar a personagem e a doutrina de Clemente de Alexandria, esse Padre “tão sábio, tão esclarecido, tão douto, tão próximo dos tempos apostólicos...”. Depois cita com elogio numerosos textos tirados dos “Nomes divinos” e da “Hierarquia celeste” do Pseudo-Dionísio, atribuídos fraudulentamente a São Dionísio Areopagita. Sabemos hoje que esses textos, mais próximos do palavrório que da verdadeira filosofia, são neoplatônicos. Trata-se de um pseudepígrafo; mas para Fénelon esse velho autor é “sublime em sua metafísica do ser universal” e, além disso, é “uma grande testemunha da tradição”...

Em seguida retoma a tese dos primeiros gnósticos, segundo a qual Jesus Cristo pôs à parte quatro de seus discípulos: Pedro, Tiago, João e Paulo, os “agión apostolôn”, aos quais reservou um ensinamento secreto que seriam encarregados de transmitir progressivamente aos outros apóstolos.

Para Clemente de Alexandria, retomado por Fénelon, é claro que a verdade cristã é um “segredo” do Senhor, que só pode transmitir-se inteiramente por um canal subterrâneo ligado a um sistema de iniciações limitadas. Bossuet insurgiu-se com força contra tal pretensão [5]. “Há na Gnose”, escreve Fénelon, “um fundo oculto, um profundo mistério, que não é permitido desvendar e que exige a mesma economia que os mistérios fundamentais do Cristianismo”.

“O Gnóstico”, prossegue Fénelon, “é bem-aventurado, suficiente a si mesmo, deiforme ou Deus na terra, vivendo na carne como sem carne, chegado à idade de homem perfeito e fora da peregrinação”. Sua contemplação é apresentada sob o nome de “epopteia”, termo que Clemente tomou de empréstimo a Pitágoras e aos mistérios de Elêusis. Fénelon precisa em seus “Stromata” que, depois das purificações e do acesso aos pequenos mistérios, o iniciado de Elêusis era admitido aos grandes mistérios, que nada mais são do que contemplar e compreender a natureza.

Deus, segundo Fénelon, está presente na Natureza a ponto de ser “como a alma do mundo inteiro”; habita cada um dos homens a ponto de constituir o “fundo íntimo deles mesmos”. Se é “o Sol dos espíritos”, o “Mestre interior e universal”, nós o alcançamos direta e imediatamente. Que necessidade há de ciência e de doutores?

Além do “Gnóstico”, Fénelon entregara aos comissários de Issy uma memória em que fala dessa “tradição secreta”. Ela não deve ser aberta nem popular, visto que não se trata de uma via comum que se deva pregar sobre os telhados. Trata-se da Sabedoria mais profunda, que só é anunciada entre Perfeitos. Estamos na Gnose. Trata-se dessa “Sophia” reservada aos “Cátaros”, os Perfeitos, os Puros...

Bossuet anotou à margem: “Esses senhores (os comissários) não ficaram menos impressionados do que eu ao ver esse gnóstico, homem mortal, ignorante e necessariamente pecador, segundo a Fé católica, que não só não tem nenhum ato passageiro e interrompido... Mas ainda adquiriu um estado do qual não decai mais...” Mas se Bossuet tivesse conhecido outros textos mais secretos de Fénelon, ter-se-ia horrorizado e pensamos que teria recusado dar-lhe a consagração episcopal.

O Abade Fénelon havia constituído uma confraria secreta, a dos “Michelinos”, em que ensinava, como em voz baixa, a almas escolhidas e selecionadas com cuidado, no círculo do duque de Borgonha, os segredos do puro amor. Compusera para eles um “catecismo secreto” que Bossuet não conheceu, reservado aos discípulos do Pequeno-Mestre (Jesus, para os íntimos).

Eis um trecho eloquente: “Primeiro faz-se penitência, renunciando a tudo o que está fora. O Pequeno-Mestre dá a absolvição, desligando-nos de tudo o que nos mantinha errantes e vagabundos entre as criaturas. Depois nos dá a extrema-unção para nos preparar para a morte interior. Após a morte, ressuscita-nos para uma vida nova pelo batismo do Espírito Santo. Logo, confirma-nos pelo bofetão de amor. Depois tornamo-nos hóstias puras, transformadas em sua essência, em que nada resta senão as aparências da humanidade. Essa transformação nos torna suas castas esposas. As núpcias espirituais se consumam. Por fim, tornamo-nos os próximos do Altíssimo e entramos na vida apostólica”.

Nota-se a inversão na ordem dos sacramentos. O Batismo em nome do Espírito Santo tomou o lugar do batismo em nome da Trindade. É o sinal de uma passagem da humanidade à divindade. Corresponde ao “consolamentum” dos Cátaros, que se recebia na expectativa da morte. A confissão a Jesus não consiste em rejeitar as faltas pessoais, mas em rejeitar o mundo das criaturas, visto que o gnóstico nunca é culpado. Por fim, o novo batizado no Espírito tornou-se hóstia pura, tendo apenas as aparências da humanidade. Logo, tornou-se a própria substância de Deus... Que Blasfêmia!

Isso não lhe evoca nada? Basta observar os movimentos carismáticos de hoje para reencontrar uma semelhante progressão na divinização do Eu.

Aproximemo-nos ainda mais do problema! Em 1699, em plena crise do Quietismo, apareceu na França uma obra intitulada: “A Apologia dos Dominicanos missionários da China”. O autor revela um conhecimento profundo do Budismo. Na China, o Buda chama-se Fo.

“A doutrina secreta dos ministros do deus Fo”, escreve o autor anônimo da obra, “é um ateísmo puro. O vazio que reconhecem como princípio de todas as coisas é, dizem eles, soberanamente perfeito e tranquilo, sem começo e sem fim, sem movimento, sem conhecimento, sem desejo. É por isso que aqueles que querem ser felizes devem fazer todos os esforços para tornar-se semelhantes a esse princípio, domando e suprimindo todas as paixões, de modo que fiquem insensíveis a tudo e, abismados na mais alta contemplação, sem nenhuma reflexão, sem nenhum uso da razão, gozem desse divino repouso que faz toda a felicidade do homem. Quando chegaram a ele, podem ensinar aos outros a doutrina e a maneira comum de viver e praticá-la exteriormente, aplicando-se interiormente apenas a gozar dessa tranquilidade secreta que é o caráter de uma vida celeste. Esse é o mistério dessa seita, que no fundo não faz nenhuma diferença entre o bem e o mal, que faz consistir a virtude em não pensar nem trabalhar para ser virtuoso, que não conhece recompensa nem pena depois da morte, que não crê na Providência nem na imortalidade da alma, que reduz todas as coisas a um vazio confuso e a um simples nada, como a seu princípio e a seu fim, e que põe a perfeição numa perfeita indiferença, numa apatia e numa quietude soberana.” (“Apologia dos Dominicanos missionários da China”, sem nome de autor, 1700, p. 11, 12).

Conhecia-se, pois, bem o Budismo no século XVII, e os missionários haviam compreendido muito bem o seu significado. Não lhes era possível deixar de notar a identidade dessa doutrina com o Quietismo de Fénelon. Por isso se anotou à margem do texto: “Quietismo dos Idólatras da China”. Ora, se tivessem sabido, naquela época, que o Budismo não era outra coisa senão a gnose maniqueia, não teriam estranhado em nada reencontrar as mesmas concepções no Ocidente, visto que os inspiradores de Fénelon são os filósofos neoplatônicos e gnósticos dos primeiros séculos.

RUMO AO ILUMINISMO MAÇÔNICO

Fénelon foi um grande senhor feudal. Adorava a clandestinidade, as correspondências cifradas, os nomes de guerra, os pequenos bandos. Esse arcebispo teve sua “Pequena Igreja”, que só se entreabria aos Puros. Praticava a disciplina do segredo. Opunha às autoridades a espontaneidade da boa natureza, a excelência da liberdade, as “ações feitas por graça”. Foi um maçom avant la lettre, como era um budista sem o saber. E isso é uma consequência necessária do que ainda temos a revelar.

Entre os discípulos mais ativos do Mestre, é preciso citar André-Michel Ramsay. Era um protestante convertido pelo senhor bispo de Cambrai, em cujas mãos abjurou. “O senhor de Cambrai”, conta ele, “fez-me sentir que não se pode ser sensatamente deísta sem tornar-se cristão, nem filósofo cristão sem tornar-se católico”. Mas essa conversão não passava de um mal-entendido, pois, diz-nos Ramsay, “o senhor de Cambrai é um prelado que procurou tornar os homens cristãos tornando-os filósofos”.

Ora, André-Michel Ramsay, comensal, admirador, editor, biógrafo e propagandista de Fénelon e da sra. Guyon, foi um dos primeiros introdutores na França da Maçonaria escocesa. Aquela que se propunha precisamente, desde seus inícios, unir todos os homens numa religiosidade acomodatícia. E é assim que as obras de Fénelon foram os primeiros textos de base da Maçonaria.

Ramsay não teve dificuldade em casar as teorias do Puro Amor de seu mestre com os temas religiosos que se tornaram, desde então, o jargão habitual das lojas. Começa por traduzir Fénelon, e eis o resultado:

Fénelon havia escrito: “Deus é verdadeiramente em si mesmo tudo o que há de real e de positivo nos corpos, tudo o que há de real e de positivo nas essências de todas as coisas, mas retendo o limite que as restringe.” “Deus, diz ainda, é todo grau de ser. Todas as diferenças chamadas essenciais não são senão graus do ser, que são indivisíveis na unidade soberana e que ela pode dividir fora de si ao infinito na produção dos seres limitados e subalternos”.

Eis o que isso pode dar, repensado e transcrito por Ramsay: “Todas as coisas do mundo formam um único todo, e essa coisa única se reencontra em todas as coisas, e essa coisa a que chamamos o todo em tudo é Deus, esse ser eterno, incompreensível, de uma sabedoria perfeita.” Deformação quase imperceptível de um texto de Fénelon, sem dúvida, mas a ideia que o inspira é a mesma e conduz necessariamente à confusão de Deus e das criaturas, portanto ao Panteísmo.

Ramsay não se contenta em publicar as obras de Fénelon. Completa-as com estudos pessoais e as associa a suas teorias mais caras. Formula o sentido alegórico de todas as religiões. No fundo das religiões pagãs encontram-se os dogmas essenciais do Cristianismo, que só aparecem aos olhos dos sábios, dos iniciados, enquanto a multidão se contenta com as mitologias em que estão envolvidos. Uma ideia cara aos maçons, que reencontraremos nos escritos de Joseph de Maistre.

“Trismegisto”, precisa Ramsay, “escondia os mistérios da religião sob hieróglifos e alegorias e só deixava ver ao comum dos homens a beleza de sua moral. Foi assim que procederam os sábios de todos os tempos e os legisladores de todos os países. Sabiam esses homens divinos que os espíritos corrompidos não podiam saborear as verdades celestes enquanto seu coração não estivesse purgado das paixões; por isso estenderam sobre a religião um véu sagrado, que se entreabre e desaparece quando os olhos do espírito podem suportar-lhe o brilho”.

E Ramsay, grande leitor de Clemente de Alexandria, na esteira de Fénelon, vira nos “Stromata” o elogio dos símbolos e das alegorias. Todos os povos, diz Clemente, tiveram símbolos: símbolos da lei judaica, símbolos egípcios cujo conhecimento era reservado aos reis e aos sacerdotes mais dignos... etc... Deus não pode ser ensinado nem traduzido em fórmulas humanas; só podemos conhecê-lo pelo poder que dele emana...

Todo o palavrório maçônico e revolucionário já está em Ramsay. Grão-Mestre da Maçonaria escocesa, mas as ideias são bem de Fénelon, que sustentara que os poetas da antiguidade eram os “teólogos” do paganismo, e que permanecia convencido de que os pagãos haviam tido a noção do puro amor, do qual fazia o fundamento do Cristianismo.

Nos primeiros textos maçônicos veem-se aparecer os mistérios do Egito, o ensinamento de Pitágoras, todo o amontoado gnóstico que estabelece a primeira forma do ecumenismo. A ponto de as declarações maçônicas parecerem fenelonianas e de o Cardeal de Fleury ver nas lojas que mandava fechar “assembleias de quietistas”.

Em 1837, De Potter escrevera: “Sabemos que o arcebispo de Cambrai se fizera receber cavaleiro do Templo”, isto é, maçom. A sra. de Staël declarava mais tarde que “a religião de Fénelon reúne o que há de bom no catolicismo e no protestantismo... As diversidades de comunhões cristãs”, acrescenta, “não podem ser sentidas a essa altura. Subamos mais alto, de um golpe de asa! Perde-se no desabrochar do vazio, e é o Nirvana.”

CONCLUSÃO

A Maçonaria nasceu na filiação direta da Gnose fenelonia­na, lançada pelo maior discípulo do senhor de Cambrai, o ilustre “cavaleiro” de Ramsay. Ora, a nova religião maçônica está impregnada de ecumenismo. Parece respeitar todas as religiões apenas para melhor destruí-las em conjunto e substituir-se a elas.

Vê-se em que ilusão profunda mergulharam todos esses senhores, todos esses religiosos que aderiram em massa às lojas maçônicas ao longo do século XVIII, até Joseph de Maistre inclusive. Só se pode ser muito severo com esses historiadores que continuam a nos apresentar as lojas sob um aspecto tão favorável ao cristianismo, e sente-se subir em si a cólera contra esses prelados e esses sacerdotes traidores de sua fé que querem, dizem eles, reconciliar a Igreja e a Maçonaria.

E.C.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

GNOSE E CLASSICISMO

– Paul HAZARD: “La crise de la conscience européenne, 1680–1715” (Boivin, 1935)

Sobre o pensamento religioso no Grande Século

– Jean de VIGUERIE: “Le Catholicisme des Français dans l’ancienne France” (Nouv. Ed. Lat., 1988). Absolutamente notável; a ser complementado por,

– Jean de VIGUERIE: “L’institution des enfants; l’Éducation en France aux XVIe–XVIIIe siècles” (Calmann–Lévy, 1978).

– Henri BUSSON: “La religion des Classiques, 1660–1685” (Press. Univ. de Fr., 1948). Trabalho minucioso e apaixonante.

– M. F. DUILE de SAINT–PROJET: “Des études religieuses en France depuis le XVIIe siècle jusqu’à nos jours” (Lecoffre–Privat, 1861).

Sobre Bossuet e Fénelon

– Emile BAUMANN: “Bossuet” (Grasset, 1929).

– Gonzague TRUC: “Bossuet et le Classicisme religieux” (Denoël et Steele, 1934). Contém reflexões penetrantes sobre as insuficiências do pensamento religioso do Grande Século.

– J. B. BOSSUET: “Platon et Aristote: Notes et lectures transcrites et publiées par Thérèse GOYET” (Klincksieck, 1964).

– “Le Gnostique de Saint Clément d’Alexandrie”, opúsculo inédito de Fénelon publicado com uma introdução e notas pelo Padre Paul DUDON (Beauchesne, 1930).

– Albert CHEREL: “Un aventurier religieux au XVIIIe siècle: André–Michel Ramsay” (Lib. Acad. Perrin, 1926).



1 – Cf. “La Gnose contre la Foi”, cap. II, e Boletim n.º 18 e 19

2 – “De la gnose à l’œcuménisme”, cap. I, Boletim n.º 3

3 – idem, cap. III, e Boletim n.º 9/10

4 – “La Gnose contre la Foi”, cap. I, p. 25

5 – “La Gnose contre la Foi”, p. 183

A Revolução Sexual - 4

A PROCRIAÇÃO MEDICAMENTE ASSISTIDA (P.M.A.)

A luta contra a esterilidade das Mulheres e dos Homens assumiu, nesta época de contracepção variada, uma importância midiática que permite ocultar a queda da natalidade e subtender a busca de novas técnicas, nas quais a fantasia dos pioneiros pode dar-se livre curso.

No caso de esterilidade de um casal, o Homem é responsável em 20 a 50 % dos casos (oligo, astheno, teratospermia etc.). A Mulher é responsável em 50 a 80 % dos casos. 90 % dos casos de esterilidade feminina decorrem de infecções contraídas durante o turismo sexual (D.S.T., às quais o Homem não escapa melhor) ou provocadas pelas sequelas do uso de certos meios contraceptivos ou do recurso ao aborto. Trata-se, na maioria das vezes, de oclusão das trompas uterinas. Mas é preciso relativizar a noção de esterilidade, pois a porcentagem de casais estéreis (5 %) é praticamente constante.

MÉTODOS Transferência de Esperma.

Existem métodos muito sofisticados. Os mais comuns são a I.A., inseminação com o esperma do cônjuge, e a I.A.D., que emprega o esperma de um doador.

A ideia de “Banco de Esperma” deve-se ao geneticista americano H.J. Muller, que queria assim lutar contra a esterilização dos “doentes mentais”, ou supostos como tais, praticada em seu país. Já em 1959, Muller afirmava que a Ciência devia deixar “o amor” aos indivíduos e “controlar” a procriação mediante o uso de esperma de qualidade.

Foi o bilionário R.K. Graham que concretizou essa ideia, conseguindo que “Prêmios Nobel” se tornassem doadores. Queria “melhorar” a inteligência dos bebês, o que ainda não foi provado!

Essa técnica foi, como todas as seguintes, aplicada aos animais antes de servir aos Homens!

É utilizada na França desde 1963. A primeira criança assim concebida, graças ao banco de esperma do Hospital Necker, nasceu em novembro desse mesmo ano.

O número de estabelecimentos “conservadores” de sêmen masculino aumentou muito. Existe uma quinzena de bancos públicos.

Os dois mais conhecidos são os C.E.C.O.S. (Prof. Georges David) e o F.R.H. Em Marselha funciona um centro privado muito ativo e audacioso, o C.E.F.R., dos Drs. Dajoux e Geller.

Os CECOS dotaram-se de regras deontológicas que garantem uma doação gratuita e anônima da parte de um homem casado e já pai de família. Procuram-se semelhanças tão precisas quanto possível quanto às características físicas do doador e do marido substituído. Há 20 CECOS agrupados em Federação.

A proporção de crianças concebidas dessa maneira era de 2,3 % do número de nascimentos. Desde 1973, contam-se cerca de 20 000 bebês I.A.D., e 1 900 em 1989. Realizada, nesse caso, com esperma congelado, a operação é inteiramente coberta pela Previdência Social. A tentativa custava perto de 10 000 francos e o sucesso definitivo entre 20 e 40 000 francos.

A I.A. é praticada entre os dois membros de um casal. Pode desembocar em situações pouco banais, que testemunham o estado de espírito atual.

Há alguns anos, o Tribunal de Créteil, desconsiderando o artigo 315 do Código civil, que estabelece que “a presunção de paternidade não é aplicável à criança nascida mais de 300 dias após a dissolução do casamento”, autorizou a I.A. de uma viúva com o sêmen do marido conservado num centro.

O Dr. Dessertenne, do Hospital Foch (Suresnes), apreciou a importância, e paradoxalmente a leviandade, de tal decisão nestes termos:

“Os interesses discutidos praticamente nunca foram os bons... Poucas pessoas se preocupam primeiro com a felicidade da criança... Não são a Ciência e o Amor que triunfam da morte, são o comércio e o egoísmo que a exploram mais uma vez.”

O método é igualmente utilizado por mulheres solteiras que não desejam encumbrar-se de um parceiro, por pouco tempo que seja. Essa escolha pode ocultar motivações especiais. Nas extremidades do leque encontram-se, de um lado, as lésbicas que, por exemplo nos E.U.A., se fazem inseminar exclusivamente com sêmen de homossexuais obtido na Cryobank. É, dizem essas senhoras, “uma alternativa definitiva ao casamento... A arma absoluta para livrar-se do outro sexo.” Do outro lado estão as mulheres “Mensa”, superdotadas que desejam “cruzar-se” com um Prêmio Nobel.

Transferência de Esperma e de Óvulos (Gamete Intra Fallopian Transfer), lançada em 1984. Transferência de Ovo fecundado (Zigoto Intra F.T.), iniciada em 1986. Esses dois métodos destinam-se a pacientes cujo aparelho genital está intacto.

Transferência de Embrião ou, mais exatamente, Fecundação in vitro. A F.I.V.E.T.E. destina-se em particular às mulheres cujas trompas não podem desempenhar seu papel.

A primeira criança assim concebida nasceu em Londres em 1978. Quatro anos depois, Amandine vinha à luz no Hospital Antoine–Béclère de Clamart.

Esse sucesso foi o resultado dos esforços perseverantes do biólogo Jacques Testart. Esse ex-militante trotskista havia trabalhado vários anos no I.N.R.A., no campo da transferência de embriões em bovinos. Entrado em 1979 no Hospital de Clamart para realizar pesquisas sobre o ovário humano, lançou-se, com o apoio do Chefe de Clínica René Frydman, ex-maoísta, em experiências relativas à fecundação externa do óvulo e à cultura in vitro. É em seu livro “L’Oeuf transparent” e numa obra coletiva, “Le Magasin des Enfants”, publicada sob sua direção, que se colhem informações e reflexões sobre o método.

PRECISÕES TÉCNICAS

No início dos trabalhos, os óvulos maduros eram colhidos de mulheres hospitalizadas para ligadura de trompas (esterilização) e voluntárias para submeter-se, antes da intervenção, ao tratamento hormonal necessário. Os gametas masculinos provinham dos próprios pesquisadores. Após diversas modificações do protocolo experimental, duas gravidezes se desenvolveram, mas não foram a termo. A terceira foi coroada de sucesso: Amandine nascia no início de 1982.

Atualmente, após tratamento químico e hormonal da candidata selecionada pelo médico-ginecologista, colhem-se de 6 a 12 óvulos maduros.

Cada óvulo é depositado num tubo contendo o meio adequado...

De uma a 6 horas depois, acrescenta-se-lhe um número definido de espermatozoides igualmente selecionados.

O casamento dos gametas produz-se nas horas seguintes.

Dá o ovo de dois núcleos que, após várias manipulações, é colocado em outro meio nutritivo.

Os dois patrimônios genéticos unem-se em um só.

A primeira divisão do embrião em duas células ocorre entre vinte e cinco e trinta e cinco horas após a fecundação.

Por volta da quadragésima hora, o embrião tem de duas a seis células. É suscetível de estar na origem de uma gravidez.

Se vários embriões são obtidos para uma mesma paciente, de um a três deles serão transferidos para o útero. A transferência de um número maior, uma dezena por exemplo, decorre do ato médico “desvirtuado”!

Os embriões não utilizados são, desde 1985, conservados pelo frio (criopreservação). Não existe limite biológico conhecido para a duração da conservação de um embrião pelo frio.

A transferência um a um dos embriões ao longo de ciclos sucessivos melhora os resultados do método. Consegue-se obter uma criança pelo menos uma vez em duas, o que faz da FIVETE um método de reprodução muito mais eficiente que a fecundação normal...

RENTABILIDADE?

J. Testart julga severamente os ginecologistas que têm nas mãos os pedidos de Fivete. Estima que a escolha das candidatas não se faz mais apenas por critérios médicos.

Seja como for, de 1982 ao início de 1991, foram assim concebidas mais de 10 816 crianças.

Em 1986, seis mil intervenções deram in vitro mais de onze mil embriões e, depois, oitocentas gravidezes clínicas. Em 1988, houve 23 000 tentativas para obter 2 239 nascimentos. Por esses números, é fácil constatar que um número enorme de embriões é posto no “congelador”!!

Cada tentativa custava cerca de 15 000 francos. Para cada nascimento, que muitas vezes requer várias tentativas, chega-se a um montante de 15 a 45 000 francos. Atualmente, nos E.U.A., cerca de 5 a 6 000 dólares. É certo que o aperfeiçoamento da técnica reduz o número de tentativas e diminui o custo total.

Na França realiza-se atualmente um quarto das FIVETE executadas no mundo inteiro. A Previdência Social reembolsa a 100 % os atos médicos com finalidade diagnóstica e terapêutica: o médico-ginecologista é o único senhor da prescrição.

Teoricamente, a atividade de P.M.A. é regulamentada desde abril de 1988, mas a autorização de exercício foi concedida a 74 equipes geograficamente distribuídas em nosso país. É um número enorme. Por fim, para o credenciamento desses centros, nenhum critério de competência, de qualidade da equipe técnica, de respeito às regras éticas foi levado em consideração, e nenhum controle é exercido.

As equipes estão a postos, é preciso que operem!

Seu desejo faz eco à demanda premente dos casais, das mulheres. Estas, cada vez mais numerosas em esperar, por múltiplas razões egoístas (liberdade, sucesso profissional etc.), ter atingido a idade de 35 a 40 anos para cogitar uma maternidade, julgam ter “o direito” de beneficiar-se do método. Querem estar grávidas no momento de sua escolha e, além disso, querem uma criança saudável...!

As equipes, sobrecarregadas de trabalho, inscrevem-nas em suas listas de espera sem fazer muitas perguntas sobre a indicação de tal intervenção.

Assim, a Fivete só é aplicada uma vez em cinco conforme seu destino original. Afirmação confirmada pelo fato de um número importante de mulheres, inscritas nas listas, “fazerem” bebês “normalmente”.

O Ministro competente faria bem em frear essa utilização intempestiva. Poderia igualmente favorecer o emprego de técnicas que eliminem qualquer “mexida” em embriões. Entre elas, manifestação de um progresso verdadeiro, porque em harmonia com a verdadeira natureza do Homem, deve-se citar a posta a ponto no fim de 1988 por uma equipe médico-cirúrgica do Hospital Beaujon. Ela permite “desobstruir as trompas uterinas, repará-las se for o caso, soltar as aderências” muito rapidamente, graças ao primeiro laser de CO2 equipado com uma fibra flexível”.

AS DÚVIDAS DO BIOLOGISTA.

J. Testart não se reconhece culpado por ter sido, na França, o primeiro a pôr a ponto esse método. Outros biólogos, em outros laboratórios, teriam chegado ao mesmo resultado.

Compreendeu o poder inquietante que adquirem os médicos de hoje, especialistas cada vez mais frios e calculistas, sobre a Vida humana.

Percebeu que a grande missa político-midiática suscitada pela aparição pública (nascimento de Amandine) da Fivete não foi o reconhecimento do trabalho obscuro de todos os pesquisadores, mas a celebração de um acontecimento social, “que diz respeito à vida cotidiana”, “que recoloca em questão valores simples, mas fundamentais”.

A Fivete, posta a ponto para satisfazer uma pequena minoria de mulheres estéreis, é de fato uma revolução, pois: – desemboca numa nova maneira de considerar a espécie, – instaura um plano “fora do sexo” de fabricação de crianças, – coloca no mercado um novo objeto de consumo, o “produto bebê”, que, como todos os outros, deve ser incessantemente aperfeiçoado e adaptado aos gostos dos clientes.

Esses “novos pais”, constata o Prof. Mattei, de Marselha, aproveitam os progressos realizados para exigir ainda mais: “saber de que madeira genética seu filho será feito”!

Tendo pressentido os desvios de “sua” técnica, J. Testart voltou a trabalhar com animais, não querendo participar “do começo do canibalismo do humano pelo Homem civilizado”.

CONSEQUÊNCIAS

Múltiplas, estão potencialmente contidas no fato de que esses métodos permitem “a abordagem utilitarista da Identificação do Humano no futuro cidadão”. J. Testart o compreendeu bem, ao reconhecer que:

“a procriação artificial (especificamente a Fivete)... não é senão o esboço de novas práticas que não deixarão de desenhar as margens de uma nova moral, de uma nova definição da humanidade...

O que está em jogo é saber, mas também prever, quanto de artifícios, colagens, decodificações o humano pode suportar sem que sua identidade seja alienada.”

A questão fundamental: em que estágio do desenvolvimento a Pessoa humana, entidade inviolável, aparece? coloca-se ao homem e ao biólogo.

Se, para o Católico, a resposta é inequívoca — a nova Pessoa existe desde a fecundação —, a técnica Fivete, desvendando um processo outrora misterioso, leva a colocar a questão de modo mais preciso.

O descrente J. Testart e, com ele, a grande maioria dos pesquisadores, fiéis ao que veem na prática, a dividem assim:

– em que estágio do desenvolvimento do ovo fecundado deve ser concedida a qualificação de Homem em potência, assegurando-lhe teoricamente a intangibilidade em nome... dos Direitos do Homem? – em que estágio de seu desenvolvimento esse Homem (do ovo fecundado... à criança) pode ser qualificado de Humano?

A resposta dada pelo Pai da Fivete francesa vai desvendar a perversa manobra que abre a porta a todas as aventuras.

J. Testart vê o ovo de dois núcleos (pronúcleos), contendo cada um os cromossomos de cada genitor, e o ovo de um só núcleo resultante do casamento dos gametas. Reconhece que: “nessa coisa transparente há a aptidão para o desenvolvimento único de uma pessoa humana.” Admite, nesse estágio inicial, a existência de um Ser “essencial” em potência, de um Homem em devir, que adquirirá caracteres “acidentais” segundo sua programação genética.

Para o Católico, não é preciso ir mais longe: o respeito total é devido a esse Ser.

O Biólogo recusa-se a levar em conta sua própria constatação. Considera-o apenas no futuro, sob um aspecto particular, enquanto Ser acidental.

Precisa o caráter exigido: “A Humanidade só sobrevém quando a gravidez está estabelecida, quando a mãe sozinha alimenta o jovem embrião, isto é, por volta do sétimo dia, momento em que ele se terá implantado no útero.”

AS MÃES DE ALUGUEL

O termo é inexato. Pretende designar as mulheres que emprestam ou alugam seu útero para satisfazer o desejo de filho de uma mulher a priori estéril, quando abrange todas as futuras mamães que “carregam” seus filhos.

A natureza não é fácil de vencer. Além de uma esterilidade mecânica, uma mulher que deseja a todo custo ser mãe pode, por outros motivos orgânicos, estar impossibilitada de levar uma gravidez a termo.

Desde 1980, em Louisville, os ginecologistas americanos encontraram a solução: o empréstimo de útero. Outra mulher, próxima ou não da interessada, aceita, por interesse ou por generosidade, ser inseminada com o sêmen do cônjuge ou de um doador e carregar a criança, que entregará — por força do contrato — à outra mulher logo após o nascimento.

No caso de inseminação da “portadora”, a criança será herdeira desta no plano genético.

O uso da Fivete preservaria a herança genética do bebê e reduziria o empréstimo de útero à simples criação de um embrião e depois de um feto.

Alguns trabalham para realizar essa criação in vitro. É, segundo seu amigo Paul Milliez, o desejo do Prof. Jean Bernard: “desenvolver as crianças em proveta até o nono mês, até o seu termo”.

O Presidente do C.N.E. gostaria assim de libertar todas as mulheres do “handicap” da gestação, que “prejudica” seu físico (?) e atrapalha suas carreiras profissionais.

Pesquisadores consideram outras soluções.

Na França cria-se em 1983 a Associação Nacional da Inseminação Artificial por Substituição (A.N.I.A.S.), para servir de intermediária entre as mulheres estéreis e as candidatas portadoras.

Em Marselha, o Dr. Geller, do C.E.F.E.R., fundou, há alguns anos, a associação “Mères d’Accueil” (“Mães de Acolhida”) para facilitar as relações entre as mulheres envolvidas.

O último caso noticiado na Imprensa registrou na França uma locação-indenização fixada em 60 000 francos, o que corresponde às tarifas americanas.

Belo imbróglio jurídico em perspectiva, se a “Portadora” se recusar a honrar o contrato apropriando-se dos 50 % da criança. Para quando a chantagem do aborto (I.V.G.)?

Os Tribunais americanos decidiram. Uma mãe de aluguel, inseminada e portanto genitora a 50 %, e outra que sofrera a transferência de embrião, recusaram-se a devolver a criança. Foram condenadas à restituição: “um contrato é um contrato”.

O Comitê Nacional de Ética opôs-se à prática do “empréstimo de útero” e, no fim de 1987, o Ministro da Saúde dissolveu a organização marroquina. A moral católica é descartada por princípio. O motivo de tal decisão pode, no limite, apoiar-se nos trabalhos do Prof. Montagnier, que demonstraram que o útero humano tinha, durante a gestação, um papel muito mais importante que o de simples máquina incubadora.

A Corte de Cassação declarou, em 1991, o método fora da lei.

OS TRABALHOS DOS “MAGOS” DA VIDA

Trabalhos, escreve J. Testart, que fazem “com que o Homem se torne intolerável ao Homem... que operam uma mudança radical da Pessoa Humana... que cheiram a enxofre e que, “espécies de máquinas infernais, desenvolvem em espirais suas próprias justificações”, encontradas seja na satisfação de desejos particulares, seja na utilidade social.

SOBRE O ÓVULO

Criopreservação. Muito poucos bons resultados. O método deve ser aperfeiçoado. É sedutor, pois evitaria conservar o embrião.

Doação de Óvulo. Realizada na maioria das vezes a partir de uma paciente hospitalizada para Fivete, já que a coleta é um ato cirúrgico. O anonimato é de rigor.

Injeção direta de um Gameta masculino para suprir uma deficiência grave do esperma. Reconhece-se que a verdadeira dificuldade se situa no nível da escolha do Gameta. O C.N.E. pediu que se prosseguisse a experimentação em animais antes de intervir no Homem.

Fecundação do óvulo pelo óvulo. Por exemplo, para satisfazer o desejo de filho de um casal de lésbicas. A experiência, que segue o protocolo Fivete, foi realizada no camundongo em 1977. Muitas dificuldades já foram superadas, mas por enquanto nenhum nascimento pôde ser obtido.

Autoprocriação feminina. Uma mulher que deseja ter sua própria filha. É obrigatório passar pela ação estimuladora de um espermatozoide anônimo, cujo núcleo é em seguida eliminado. A experiência teria tido êxito no camundongo.

SOBRE O EMBRIÃO

Criopreservação. O método francês é o mais eficaz. Necessário para aumentar as chances de sucesso da Fivete. Não há limite biológico conhecido para a duração da conservação de um embrião. A quem pertencem os embriões excedentes? O que se deve fazer com eles? Os biólogos desejam um estatuto jurídico do embrião.

Doação de Embrião. Em benefício de um casal totalmente estéril. O que J. Testart chama de ATOU, Adoção por Transferência do Ovo para o útero. Parecer favorável do C.N.E. em 1989. No caso do uso de uma “mãe de aluguel”, a transferência do embrião de um casal garantiria a integralidade do patrimônio genético e facilitaria o respeito ao contrato.

Quatro dos “acidentes” ou atributos enumerados pela doutrina tomista referem-se muito precisamente ao devir da “coisa transparente”: a ação e a relação, depois a qualidade e a quantidade.

Para Testart, o embrião terá conquistado o caráter humano quando se tiver implantado e conseguido estabelecer uma relação com a mãe.

Logicamente, só concede essa oportunidade aos embriões reintroduzidos no útero, que considera então portadores de um projeto de filho!

Há outras respostas: Para alguns, entre eles o Prof. Minkowski, um feto só adquire o rótulo humano a partir do momento em que é viável, capaz de uma autonomia vital, aliás muito assistida. Essa idade de vinte e quatro semanas (in utero) é a da viabilidade legal, que dá ao feto o status de Pessoa. Outros estimam que a etiqueta humano — a conservar — só pode ser dada no nascimento (aceitação pela mãe, pelos genitores, pelo médico-obstetra etc.) ou mesmo muito mais tarde, quando a criança for reconhecida apta a integrar-se à sociedade.

Assim é que o prêmio Nobel Francis Crick, “descobridor” do A.D.N., sugeria instituir uma data de nascimento legal, dois dias após o nascimento real. Durante esse prazo, “ELES” poderiam decidir com toda impunidade sobre a sorte do bebê.

Com as técnicas modernas de exame in utero do feto e o estudo do cariótipo, dois atributos suplementares intervêm muito precocemente: a qualidade e a quantidade. Nesses casos, apenas o técnico médico e os pais poderão conhecer o diagnóstico e julgar se o objeto do exame, candidato impotente e involuntário, merece ser aceito e fazer parte assim da humanidade que confere a proteção dos Direitos do Homem sem Deus!

Essa recusa da inviolabilidade do Ser essencial e seu exame crítico nos “acidentes” de sua evolução levaram, com razão, o Prof. Jérôme Lejeune a dizer:

“conforme as funções que são testadas nesse ser que se desenvolve, conforme o tipo de desempenho que será exigido para convencer, “ELES” podem esperar cada vez mais tarde para reconhecer que é um pequeno Homem.”

É assim que essa falsa teoria do humano torna lícitas e justifica todas as técnicas que visam à eliminação do ovo fecundado (RU 486), de um embrião ou de um feto não desejados ou recusados por deficiência qualitativa (I.V.G. — Eutanásia neonatal) e dá aos cientistas a possibilidade de utilizar esses materiais muito particulares.

ESTUDO DO CARIÓTIPO

Teoria. É o exame mais preciso possível das 23 pares de Cromossomos resultantes do casamento dos cromossomos dos dois genitores. Trata-se de verificar-lhes o estado e de fixar os pontos de localização dos Genes em cada cromossomo.

Os progressos técnicos são muito rápidos. 1990 conheceu avanços muito espetaculares em matéria de localização e identificação dos genes.

Nos E.U.A., o programa “Projeto Genoma Humano”, de amplitude comparável à do programa Apollo, está em andamento. A ele são dedicados 120 milhões de dólares por ano. Visa a recensear os 50 000 genes constitutivos dos cromossomos. Até hoje, cerca de 3 000 são conhecidos.

Os pesquisadores americanos dividem-se em duas categorias:

Os N.I.H. (Institutos Nacionais de Saúde) estão na ponta da pesquisa, com o Human Genome Center do laboratório Berkeley da Universidade da Califórnia.

Quando se sabe que, em sua grande maioria, as Universidades e os Laboratórios científicos americanos são “controlados” pelas Fundações dos bilionários do Mundialismo, a criação seletiva do Macaco do Homem parece bem encaminhada.

O Japão e a Grã-Bretanha iniciaram as pesquisas.

Na França, desde novembro de 1990, o programa “Genoma Humano” está oficialmente em andamento e subvencionado pelo Estado. Reúne cerca de 500 pesquisadores. O grande promotor desses trabalhos é o Prof. Dausset, Prêmio Nobel de Medicina 1980.

O primeiro Simpósio sobre o Genoma Humano realizou-se em 1990 na UNESCO. Foi um confronto mundial de 300 cientistas vindos de uns trinta países. Entre eles, 7 Prêmios Nobel.

É com base nos resultados obtidos no Mundo, no estado dos trabalhos em curso e em suas orientações, que o Ministério da Pesquisa e da Tecnologia, por meio da Direção de seu Centro de Prospectiva e de Estudos, descreveu na obra coletiva “2 100, Récit du prochain siècle” (“2100, Relato do próximo século”) as evoluções e os transtornos hoje programados que se terão tornado realidade.

Os Objetivos anunciados pelos pesquisadores são a detecção e o tratamento das doenças genéticas e hereditárias... até mesmo, em seguida, de patologias mais comuns como o Câncer (o gene das metástases do Câncer de mama acaba de ser descoberto por uma equipe de Estrasburgo), os distúrbios cardiovasculares, as doenças mentais... etc.

Os meios apresentados dependem da “Engenharia genética”. Todos os obstáculos éticos parecem ter desaparecido. A Administração americana “Food and Drug” deu, no fim de 1990, sinal verde a todos os trabalhos possíveis dos N.I.H.

Na França, o C.N.E. autoriza pesquisas e experimentações, recomendando não intervir diretamente no patrimônio genético dos gametas femininos e masculinos. Essa limitação é combatida por muitos precursores muito conhecidos. A esse respeito, cumpre precisar que o projeto de lei Braibant sobre a Bioética, nas gavetas do Ministério da Saúde há três anos, admite como lícito o diagnóstico genético no embrião quando permite evitar uma doença ou uma anomalia graves, o que parece uma posição mais ampla que a do C.N.E.

Uma evocação muito incompleta das doenças detectadas por esse exame, o estudo, para algumas, da relação entre seu número e o dos nascimentos, ajudarão a compreender, com o exame dos métodos utilizados, as dificuldades de execução e de interpretação dos resultados. Será possível, então, evocar as boas (pouco numerosas e difíceis de pôr a ponto) e as más utilizações dessa técnica.

A documentação citada provém do livro de J. Testart, do Dr. Jean de Grouchy, “Les Nouveaux Pygmalions”, e de entrevistas com o Dr. Delpech, do Hospital Cochin, e com o Prof. Mattei, de La Timone, em Marselha.

ANOMALIAS CROMOSSÔMICAS

40 % dos ovos fecundados (zigotos) naturalmente são portadores de anomalias cromossômicas (A.C.), mas apenas 1 a 2 % das crianças nascem portadoras. Os outros são eliminados por aborto espontâneo, muitas vezes muito precoce e não notado como tal.

Dois tipos de anomalias são detectáveis antes do nascimento: – As A.C. hereditárias, resultados de modificações herdadas de um dos pais, em geral equilibradas e sem consequência para a sobrevivência do recém-nascido, – as A.C. que se produzem DE NOVO, no momento do casamento dos gametas.

Alguns exemplos:

As Trissomias (um cromossomo excedente em um par)

– TRI 13 e TRI 18 produzem síndromes graves que acarretam fortes malformações e a morte nas primeiras semanas de vida. – TRI 21, o Mongolismo. 1 caso para 650 nascimentos, ou seja, entre 1 100 e 1 200 crianças afetadas nascidas por ano na França. A idade da mãe desempenha um papel importante: aos 20 anos a probabilidade é de 1 em 2 000, mas aos 40–45 anos chega a 1 a 2 por cento. Para fazer o diagnóstico precoce: em 96 % dos casos o cromossomo 21 é livre. Nos 4 % restantes, está fixado em outro. Metade (2 %) dos casos é hereditária, e o cariótipo dos pais pode revelá-lo. Os outros 2 % produzem-se de novo.

As Deleções (perda de um fragmento de cromossomo).

– no braço curto do CHR 5: debilidade mental, – no braço curto do CHR 7: a Mucoviscidose, a mais frequente das doenças genéticas. 400 casos por ano na França e 3 milhões de franceses portadores, – no braço curto do CHR 16: a Policistose renal, responsável por 10 % dos tratamentos por diálise, – no braço curto do CHR 18: debilidade mental, – no braço curto do CHR X: a Miopatia de Duchenne. O diagnóstico pré-natal no feto de sexo masculino e a detecção das mulheres transmissoras da doença são realizáveis.

As Translocações (parte de um cromossomo destacada e fixada em outro). As anomalias referentes ao número e à estrutura dos CHR X e Y acarretam distúrbios graves do desenvolvimento sexual, mas não necessariamente uma degradação das funções intelectuais e, no conjunto, são compatíveis com uma longevidade normal. Cite-se a duplicação do CHR Y, bem conhecida. 10 % desses indivíduos têm problemas com a justiça por delitos mais ou menos graves.

Doenças Metabólicas devidas a bloqueios enzimáticos.

As mais frequentes são a Fenilcetonúria e a Galactosemia. É possível detectar mais de uma vintena dessas afecções por Análise do líquido amniótico. Atualmente, a Galactosemia é curável. Para as crianças afetadas por Fenilcetonúria, se tratadas desde o nascimento, a existência será muito próxima da normal, em vez de se tornarem débeis mentais.

TÉCNICA DOS DIAGNÓSTICOS PRÉ-NATAIS.

Ecografia Praticada várias vezes durante a gravidez, permite detectar a maioria das doenças, malformações cardíacas e renais, a “espinha bífida” e a ausência de cérebro etc. Informa igualmente sobre malformações menores, lábio leporino, dedo supranumerário etc., facilmente identificáveis. Conforme a maneira como a revelação precoce é feita à mãe pelo ambiente médico, ela pode muito bem aceitar, ou preferir, como solução fácil e definitiva, a IVG.

São os aperfeiçoamentos trazidos à Ecografia que permitiram a colocação a ponto dos métodos seguintes:

Amniocentese Punção do útero para obter o material necessário. A placenta não deve ser lesada. Não pode ser realizada antes do quarto mês de gravidez, após localização da zona de implantação placentária por sonicação. O método está longe de ser inofensivo para o feto (risco de anomalias) e a porcentagem de erros nos resultados é importante.

Coleta de trofoblasto (futura placenta) praticada desde 1984. Efetuada entre a 8ª e a 10ª semana de gravidez.

É realizada — sem anestesia — em dois a cinco minutos, por uma sonda introduzida pelas vias naturais sob controle ecográfico. A mulher é em seguida submetida a tratamento antibiótico. Uma nova ecografia, uma semana depois, permite apreciar as reações do feto.

Há cerca de 2,5 % de mulheres nas quais é impossível praticar a intervenção. A taxa de abortos espontâneos consecutivos chega a 3 %.

Punção do sangue fetal (no cordão umbilical) serve em particular para o diagnóstico da Talassemia, anomalia da hemoglobina.

Os exames dessas coletas exigem laboratórios muito bem equipados e pessoal muito competente. É preciso, em certos casos, examinar os cromossomos do pai, da mãe e de um primeiro filho afetado pela anomalia a detectar. Há assim quatro exames complexos e muito caros.

A P.C.R. (Polymerase Chain Reaction) é um novo método de exame das coletas, posto a ponto desde 1986 nos E.U.A. Proporciona facilidade e rapidez. Os exames são literalmente “banalizados” e a resposta é fornecida em 48 horas. Em 1988, o método estreou, sem dúvida, nos hospitais franceses.

Um exemplo: para cada embrião, a P.C.R. permite detectar a presença de um gene particular defeituoso em um cromossomo X ou Y (doença ligada ao sexo). Não parece que toda a precisão requerida tenha sido atingida. Por enquanto, realiza-se o diagnóstico do sexo. A eliminação do embrião suspeito é sistematicamente efetuada... etc.

Em julho de 1990, o C.N.E. recomendou aos pesquisadores franceses que não fizessem seleção genética... Mas o projeto de lei já mencionado não é dessa opinião!

INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS

É evidentemente o ponto essencial. Eis alguns elementos de reflexão.

No caso do Mongolismo (TRI 21), apenas 2 % dos casos decorrem de uma forma familiar hereditária. “ELES” obrigarão as famílias de risco a submeter-se aos exames. Em definitivo, cerca de 24 casos/ano seriam detectados. Todos os outros, ou seja, 100 casos/ano, só serão descobertos no nascimento, salvo vulgarização ou obrigatoriedade do exame.

Para as doenças ligadas a um sexo e presentes na família, nenhuma dificuldade. O diagnóstico precoce do sexo, seguido de eliminação, será a solução simples... à espera dos progressos da terapia gênica.

Por outro lado, nascem na França, a cada ano, cerca de 25 000 crianças portadoras de uma anomalia congênita que constitui um handicap grave. É preciso acrescentar os surdos, os mudos, os cegos, os débeis mentais ditos idiopáticos (não cromossômicos), as doenças com malformações viscerais ou dos membros.

Podem acrescentar-se os deficientes mentais com Q.I. inferior a 80, que alguns mongoloides atingem, e que representam cerca de 5 % da população.

Diante desses casos múltiplos e multiformes, qual será a atitude do Estado, gestor da Previdência Social, dos Médicos, Cirurgiões e Pesquisadores, da Mãe, do círculo próximo e da Sociedade?

Não se trata da atitude diante dos doentes, mas da atitude diante dos resultados fornecidos, cada vez mais numerosos, pelos diversos exames incessantemente aperfeiçoados.

A Terapia gênica Será a boa atitude. Ainda está em seus balbucios. Trata-se de introduzir num doente células “manipuladas”, contendo um novo gene capaz de deter a doença genética.

A primeira mundial dessa técnica foi realizada em setembro de 1990 pela equipe do Dr. Anderson, da clínica dos N.I.H. de Bethesda (Maryland, E.U.A.).

Visava a uma anomalia hereditária que acarreta a paralisia completa do sistema imunitário da criança pela não fabricação da enzima indispensável. Um único gene é responsável por essa afecção (Síndrome dos Linfócitos desnudos), que obriga a criança a viver numa “bolha” asséptica. Foi descrita pela primeira vez em 1974. Desde então, cerca de sessenta casos foram registrados no mundo, dos quais uns trinta na França. Desse total, apenas três ou quatro crianças teriam sobrevivido. A equipe lionesa do Prof. Jean-Louis Touraine realizou progressos importantes em seu tratamento por métodos muito diferentes, que serão considerados mais adiante.

A equipe médica dos N.I.H. fez um retrovírus devidamente preparado, portador do gene sadio capaz de fabricar a enzima, entrar no interior dos linfócitos colhidos do doente e intensamente cultivados. Bilhões desses linfócitos são transfundidos ao paciente, de mês em mês, durante um semestre.

Numerosas equipes médicas, no mundo, avançam no mesmo sentido.

As doenças suscetíveis de serem tratadas dessa maneira são, primeiro, as doenças do sangue: talassemia, anemia falciforme... depois a miopatia (afecções das células musculares) e talvez até o diabetes.

Essa terapia parece dever beneficiar rapidamente doentes totalmente diferentes, como certos cancerosos, doenças cardiovasculares... e até a aids etc...

O caminho ainda é longo...!

Rumo ao Eugenismo Essa “ciência” nasceu nos E.U.A. em 1870, sob a égide de um primo de Darwin. Visa, por um lado, a impedir a multiplicação dos “inaptos” a uma vida correta e útil à sociedade e, por outro, a melhorar a espécie humana!

O refinamento das técnicas, seu desenvolvimento incontrolável, o acolhimento entusiasmado que lhes fazem a mídia e o bom povo condicionado, o ambiente materialista e hedonista da sociedade, a força da pressão latente de grande parte do Corpo médico conduzem inexoravelmente, em termos humanos, à Seleção eugênica oficiosa.

É a solução de facilidade, cuja execução, breve e sem imprevistos, é esquecida tanto mais depressa quanto as motivações sentimentais são fugazes.

Dificuldades de realização: está assente que as aberrações cromossômicas se devem, em sua maioria, a acidentes ocorridos de novo. Suprimir por IVG os embriões afetados reduziria muito pouco (1 a 2 por mil) a frequência dos casos.

Nas doenças hereditárias, o exame do cariótipo só detecta as formas dominantes: “ELES” deverão suprimir os doentes e proibir a procriação aos portadores (esterilização obrigatória e gratuita, como praticada nos E.U.A. e na Suécia na década de 1930).

Isso não serviria de nada. A maior parte das doenças dominantes é imputável a mutações novas, assim 8 em cada 10 dos anões acondroplásicos, por exemplo.

Nas formas recessivas, é impossível realizar a detecção a partir dos genitores. Apenas os embriões portadores seriam eliminados, e as mutações de novo compensariam.

Para tornar o método eficaz, – “ELES” deverão tornar obrigatório o exame do cariótipo embrionário para todas as grávidas. Levando em conta o aperfeiçoamento das técnicas e os desejos parentais, a medida será fácil de fazer passar para os costumes.

– “ELES” serão obrigados a elaborar a lista das anomalias e doenças detectáveis in utero, classificá-las por ordem de gravidade intrínseca ou extrínseca, isto é, em relação ao “vivido” possível da criança por nascer, ao encargo imposto aos pais e à sociedade, às necessidades da pesquisa médica e às despesas assumíveis pela Previdência Social... etc.

– “ELES” deverão em seguida fixar o nível acima ou abaixo do qual a “eliminação” será obrigatória.

Prosélitos recentes, os “Novos Pais”, por outro lado, misturam desejo dos pais e interesse comercial; o exame do cariótipo poderia, num primeiro momento, limitar-se ao conhecimento do sexo. Assim seria possível a eliminação dos possíveis portadores de certas doenças ligadas ao sexo. Enfim, como 80 % dos casais desejam como primogênito um menino, sem se preocupar com o equilíbrio demográfico, o método lhes daria satisfação. Infelizmente, as fantasias do casal moderno não se limitam a isso. Para eles, o exame total do cariótipo vai tornar-se necessidade absoluta e direito.

É o que confirma o Prof. J.F. Mattei, catedrático de Pediatria e de Genética médica, Diretor do Centro de diagnóstico pré-natal do hospital de La Timone, numa entrevista publicada pelo Fig. Mag. de 7 de outubro de 1990:

“A contracepção havia permitido a escolha dos pais nos limites de ‘ser ou não ser’. Com a ecografia, a escolha passa a ser ‘ser normal e conforme ao desejo dos pais, ou não ser’. O desenvolvimento da medicina preditiva, que permite conhecer de antemão as doenças de que tal indivíduo será, ou corre o risco de ser, vítima aos vinte anos, aos quarenta anos... até a morte, permite completar a fórmula: ‘ser normal, conforme aos desejos dos pais, ter bom funcionamento... ou não ser’.”

Nesse nível, o desejo parental participa, com toda a boa consciência, da evolução eugênica e junta-se à preocupação econômica do Estado.

O Prof. Mattei evoca o processo de extensão da escolha:

“Ao diagnóstico pré-natal de doenças ou handicaps graves virá somar-se o da predisposição à agressividade (duplo CHR X), o das miopatias, cujo diagnóstico é funesto por volta dos vinte anos, depois, muito em breve, o de uma doença grave (Coreia de Huntington) que acarreta decadência física e moral a partir dos quarenta anos e, num tempo um pouco mais distante, o diagnóstico da doença de Alzheimer, que se declara entre os cinquenta e os sessenta anos”.

Católico praticante, o médico conclui:

“Não está na natureza do Homem conhecer seu destino... e corre-se o risco de assistir a desvios catastróficos... (É preciso) redescobrir também que a criança não é nem um presente, nem um prazer, nem um direito. É um dom que se recebe. Redescobrir também que o Homem moderno se esforça em vão por fugir do sofrimento e da morte, quando um e outra dão sentido à nossa vida.”

Julgamento que confirma a profunda transformação da natureza humana já realizada. Infelizmente, além da satisfação de ter analisado com justeza o processo, a realidade obriga a pensar que a inversão de tendência desejada está muito distante e, é preciso repeti-lo, em termos humanos impossível!

E o cenário catastrófico prevê-se facilmente. Tudo caminha no sentido do desenvolvimento das técnicas bioeugênicas. “ELES” tornarão obrigatória, para toda mulher que deseje ser mãe, com custeio administrativo, a passagem pela FIVETE, e a eutanásia neonatal suprirá os fracassos.

Amanhã, a reprodução natural se tornará intolerável, por ser sinal de uma patente falta de “solidariedade”. Poderá até ser proibida, suavemente, pela adição de substâncias adequadas nas águas de bebida e nos alimentos básicos. Essa solução foi proposta, há alguns anos, para o Terceiro Mundo, pelo muito sério Dr. Marshall Balfour, do Protestant Population Council.

A química moderna saberá evitar a supressão do prazer sexual. A ética republicana será satisfeita: todos os meios contraceptivos, cujo uso faz aparecer “desigualdade” e “ignorância”, cairão em desuso!

Arrebatados por essa onda de filantropia, os pesquisadores poderão desenvolver as técnicas de manipulação do cariótipo, o que a ciência chama de Engenharia Genética. É muito difícil conhecer os trabalhos e seus resultados nessa especialidade que, como as precedentes, deve quase tudo à “Veterinária”. As pesquisas se efetuam na sombra. Os progressos são, contudo, sensíveis e tanto mais inquietantes.

A Correção. O ovo fecundado ou o embrião obtidos e vigiados pelos operadores da Fivete tornam-se o alvo ideal dos bons apóstolos humanitários, desejosos de: – corrigir uma doença genética, – erradicar essa doença da descendência do indivíduo assim modificado, – melhorar o crescimento do sujeito tanto no plano físico quanto no intelectual, ou até torná-lo mais apto a certos trabalhos, – brincar de aprendizes de feiticeiro, como esse britânico que procura desenvolver no Homem o senso de cooperação social pela adição de genes de gibão. Chega a cogitar modificar-lhe a anatomia fazendo-o adquirir braços maiores e... uma cauda preênsil!

É interessante assinalar duas formas de Engenharia genética que não interessam diretamente ao genoma humano.

Trabalhos benéficos para o Homem A obtenção de linhagens de animais “transgênicos”, isto é, diferentes de seus congêneres, foi conseguida pelo enxerto de um ou vários genes em seus cromossomos, seguido de integração. Pelo mundo, criam-se certo número desses animais em uma dúzia de espécies, entre as quais o camundongo, os peixes, os coelhos, as cabras, os carneiros e até bovinos.

O objetivo inicial é a obtenção de certos medicamentos ou a melhora da produção animal.

Um laboratório privado dos E.U.A. cria uma família de camundongos que possuem o gene humano do ativador tecidual do plasminogênio (TPA) e o produzem em seu leite.

A produção — camundongo, alguns gramas de TPA por litro de leite — é quase mil vezes superior à quantidade obtida pelas técnicas atuais de cultura de células. Os pesquisadores também operaram em cabras. Estas deviam estar operacionais em 1991 e fornecerão quantidades maiores. Com 100 a 200 cabras transgênicas, pensam cobrir as necessidades anuais de TPA dos E.U.A. a preços muito inferiores aos praticados atualmente.

Cerca de quinhentos laboratórios privados americanos trabalham nessas direções.

Na França, o INRA, o CNRS e o Instituto Pasteur fazem o mesmo. Uns procuram obter vacas cuja composição do leite seria modificada para fins médicos, e outros, porcos para uma utilização idêntica da gordura.

Do ponto de vista da produtividade animal, desde 1982 o peso dos camundongos foi dobrado. Numerosos ensaios estão em curso. Os japoneses procuram obter trutas grandes como salmões e os australianos tentam aumentar a produção de lã dos carneiros...

O I. Pasteur também sabe dobrar o tamanho dos camundongos. Em Nogent-sur-Marne realizam-se correntemente quimeras codorna–galinha por transplante de tecidos no embrião, como em outros lugares também se obtiveram quimeras cabra–carneiro.

Armas de Guerra Cientistas manipulam micróbios para criar germes mais virulentos para o Homem. Desde 1982, “ELES” mexem com colibacilos para fazê-los sintetizar a toxina botulínica, veneno mortal.

A Duplicação Produz-se naturalmente em 4 por mil dos nascimentos humanos e resulta nos gêmeos verdadeiros.

Em laboratório, é praticada em embriões muito jovens, compostos de 2 a 100 células. É perfeitamente dominada nos bovinos, onde a eficácia chega a 90 %. É razoável pensar que seria o mesmo no Homem, pois a técnica é simples. O Dr. Edwards, pioneiro da FIVETE, é seu ardente defensor.

A Clonagem Quer ir muito mais longe que a duplicação. Trata-se de tentar obter, em número ilimitado, cópias conformes de um sujeito dado.

A experiência teve êxito nos Batráquios.

Pesquisadores suíços (Genebra) e americanos (Estado do Maine) teriam levado a bom termo o empreendimento no camundongo, mas há controvérsia.

O Sr. S.M. Willadsen progrediu notavelmente na obtenção de bezerros idênticos. Em 1988, havia, a priori, ganho a partida.

Em 1990, no INRA de Jouy-en-Josas, obteve-se uma ninhada de seis coelhinhos machos idênticos. A partir de embriões congelados e de ovócitos devidamente “micromanipulados”, os pesquisadores reconstituíram ovos que, após certo tempo de cultura in vitro, foram reimplantados numa fêmea portadora.

É certo que ensaios são praticados no Homem.

Certas autoridades se inquietam com isso. Assim, o Presidente do Departamento de Biologia celular da Universidade de Harvard (Massachusetts) pronunciou-se pela proibição da duplicação do ovo humano, medida que, a posteriori, mostra a amplitude dos resultados obtidos.

Banco de Tecido Trata-se, a partir da duplicação artificial do ovo fecundado, de cultivar o embrião gêmeo obtido até pelo menos três semanas. Nesse estágio, os esboços de órgãos constituídos podem ser isolados, dissecados e congelados. O outro hemiembrião, tornado criança, teria à sua disposição uma reserva de tecidos que poderiam, em caso de necessidade, ser-lhe enxertados sem risco de rejeição.

O problema essencial é o da cultura in vitro do embrião. “ELES” trabalham com afinco e os progressos são sensíveis.

Conscientes do perigo, nos E.U.A. e na Grã-Bretanha, as Comissões de Ética limitaram a cultura do embrião humano a duas semanas, estágio em que se constitui o esboço do sistema nervoso.

Na França, o projeto de lei Braibant prevê uma regulamentação da utilização dos tecidos fetais.

Gravidez masculina Fantasias, trotes de cientistas, de que a mídia, carente de sensacionalismo, se apodera regularmente, ou balão de ensaio psicológico, a questão está posta. O futuro trará a resposta.

Certamente, crianças foram trazidas ao mundo por cesariana depois de se terem desenvolvido no abdome de suas mães, mas o risco mortal de tal gravidez é enorme.

Fêmeas animais “Portadoras” Cumpre constatar que a hibridação se faz naturalmente entre o jumento e a égua, de um lado, e o cavalo e a jumenta, de outro, para dar a mula e o bardoto, ambos estéreis. O mesmo vale para a combinação coelha–lebre. Em 1984, em Cambridge, veio à luz um híbrido carneiro–cabra...

É quase certo que, desde 1987, pesquisadores americanos conseguiram a fecundação, por inseminação artificial, de uma fêmea de chimpanzé com esperma humano. O desenvolvimento do embrião fez-se normalmente. O aborto foi voluntariamente provocado ao cabo de alguns meses.

Geneticamente falando, a diferença entre o número de cromossomos do Homem (46) e o dos chimpanzés (48) é a mesma que entre os do jumento e os do cavalo, mas suas estruturas são muito mais próximas.

Esses inovadores estimam que o híbrido chimpanzé–Homem seria viável. O estado de seus trabalhos não é divulgado. Preveem utilizar os sujeitos obtidos, seja como banco de órgãos e de tecidos, seja para a realização de trabalhos pesados.

MELHOR AINDA: por volta de 1984-85, jumentos e zebras nasceram depois de se desenvolverem no útero de éguas.

Para isso, além da FIVETE obrigatória, duas manipulações foram praticadas: uma operação sobre a placenta e/ou uma ação imunológica anti-rejeição.

Com uma técnica análoga, nada se oporia à utilização de fêmeas de chimpanzé como “mães de aluguel”...

SOBRE O FETO

A distinção feita entre Embrião e Feto nesta exposição o foi em relação às possibilidades de intervenção dos inovadores. Para alcançar e dissecar com facilidade o cérebro e os demais órgãos, é preciso que o embrião tenha cerca de três meses... Só pode ser encontrado num mercado muito particular, à espera dos progressos da cultura in vitro.

Utilizações Industriais Em meados do século, um grande número de Estados autoriza o aborto. O mercado internacional ia assim encontrar novas matérias comerciais: órgãos ou proteínas humanas, conforme o nível de desmembramento dos fetos.

Nos Estados industrialmente avançados, a moral cristã, considerada obsoleta e esclerosada, é substituída por éticas vivas, portanto mutáveis segundo as necessidades ou os desejos de uns e de outros.

Estabelece-se um comércio importante: de 1970 a 1977, entre a Coreia do Sul e os Laboratórios americanos (Estado do Maine em particular). Os fetos, extraídos na maioria das vezes por cesariana, são retalhados no local. Os compradores pagam os rins entre 25 e 30 dólares americanos o par. Os destinos desses órgãos transitam por avião... Em 1981, os Serviços da Alfândega franceses constatam a importação de fetos procedentes da Europa Central. Destinados à fabricação de produtos de beleza, seu valor terapêutico superior os põe em concorrência com os embriões de frango correntemente utilizados. O tráfico, revelado por jornalistas, a priori pouco “evoluídos”, desaparece na clandestinidade...

Utilizações Médico-Cirúrgicas. Fontes de matéria-prima.

Criação in vitro Os problemas ligados a essa criação são objeto de pesquisas intensivas desde 1950. O inglês Edwards e o sueco Lindenberg conseguiram “cultivar” um embrião até 12 dias... Por enquanto, as pesquisas prosseguem em embriões de ratos e camundongos. Em Baltimore, em Yale, os progressos seriam rápidos.

Quanto ao embrião–feto humano, os trabalhos, muito discretos, prosseguem. O italiano Data é um dos especialistas...

As Grávidas Numerosas gravidezes podem sofrer uma interrupção não premeditada. Desde 20 a 22 semanas, o feto, muitas vezes extraído por cesariana, é viável, graças aos aperfeiçoamentos trazidos às incubadoras e às técnicas de alimentação. Se são desejados por seus genitores, tornam-se “prematuros” e beneficiam-se então de toda a tecnologia hospitalar para conservar-lhes a vida.

Caso contrário, juntam-se à massa das vítimas da aplicação da lei Veil–Roudy.

A lei autoriza o aborto para uma primeira categoria de mulheres que se dizem agredidas pelo bebê que carregam ou se julgam em situação de angústia, ou que, em muitos casos, usam a IVG como simples meio contraceptivo. Na imensa maioria dos casos, submetem-se a uma “aspiração”, e o feto, muito jovem, extraído fragmentado, triturado, só é utilizável em cosmetologia.

Uma segunda categoria compreende as mulheres cuja gravidez foi, no início, voluntária ou aceita. Depois, recorrem ao aborto por diversas razões: – o desenvolvimento fetal põe em grave perigo sua saúde física ou seu equilíbrio psicológico, – uma ecografia, um exame do cariótipo embrionário revela uma doença ou uma anomalia particularmente graves, reconhecidas como incuráveis no momento do diagnóstico ou, ao menos, com forte probabilidade de sê-lo, com atestado fornecido por dois médicos.

Para essa categoria, as dificuldades do diagnóstico deixam o feto atingir um tempo de desenvolvimento que muitas vezes pode levar à cesariana. Esses sacrifícios juntam-se aos “prematuros” que seus genitores já não querem, tendo, segundo a bela fórmula empregada, “esgotado seu projeto procriativo”, e a um certo número de outros, dos quais a portadora aceita não sofrer aspiração e ser “liberada” pelo bisturi por volta de 15 a 18 semanas, segundo condições de um contrato mantido em segredo.

Enxertos de Tecidos e de órgãos São as intervenções “nobres”, glorificadas pela mídia e que deixam o público boquiaberto de admiração. Escondem e facilitam todas as outras.

Alguns exemplos: uma equipe americano–finlandesa decepa fetos de 12 a 21 semanas. Suas cabeças, isoladas e perfundidas, servem ao estudo do metabolismo dos glicídios...

Em Londres existe um banco de tecidos fetais que abastece igualmente os hospitais franceses...

Os Enxertos: o laboratório de Embriologia de Bordeaux recolhe, desde o início da década de 80, os fetos de 9 a 10 semanas “intactos”, com vistas a retirar-lhes os pâncreas para enxertar células, ou o órgão inteiro, num doente acometido de diabetes...

Em Lyon, há vários anos, o Prof. Jean–Louis Touraine e sua equipe recolhem os fetos mais velhos para retirar-lhes o fígado, a fim de enxertá-lo numa criança sem defesa imunitária (criança–bolha).

Desde 1988, a equipe lionesa realizou a injeção, numa veia do cordão umbilical de um feto de vinte e oito semanas acometido dessa afecção, de uma grande quantidade de células hepáticas e tímicas retiradas de dois embriões de sete ou oito semanas. O nascimento ocorreu e tudo parece evoluir favoravelmente.

É certo que, do ponto de vista econômico, esse método é, a priori, muito menos oneroso para a sociedade do que a terapia anteriormente evocada.

Na Cidade do México, recentemente, cirurgiões enxertaram nos cérebros de duas pessoas acometidas da Doença de Parkinson, de um lado a glândula medulossuprarrenal, de outro células cerebrais especializadas (substância negra), dissecadas e retiradas de um feto de treze semanas obtido por cesariana. Essa técnica substituiria vantajosamente, segundo seus promotores, os autoenxertos já realizados dezenas de vezes por equipes mexicanas e suecas.

Se todas essas intervenções testemunham a destreza dos cirurgiões, o que é o mínimo desejável, e sua vontade de curar os pacientes... nada muda no problema fundamental colocado pelo assassinato e pela utilização de um Homem em devir.

O Julgamento do C.N.E.S.V.E. Nenhuma autoridade qualificada pelo Código de Autoridade moral levantou-se contra essas práticas, exceto a Igreja Católica Romana...

Entrevistado no Figaro de 2–12–1983, o antigo Presidente da Ordem dos Médicos, Prof. Raymond Villey, reconhecia estar a par e não condenava esses procedimentos. Afirmava a necessidade de efetuar a retirada num feto não viável e não vivo. A não viabilidade, considerada como impossibilidade de passar à incubadora, é um argumento falacioso, já que se trata de fetos condenados por suas mães e/ou pela Ciência. Quanto ao qualificativo de não vivo, decorre da própria situação!

Em nome da solidariedade republicana, um lionês, o Prof. François, esboçava o sentido de uma lei futura:

“É preciso poder permitir que a morte de uma criança permita a outra sobreviver... Não temos o direito de deixar sem emprego um material que pode permitir salvar uma criança.”

Finalmente, o C.N.E. deu seu parecer em 21 e 23 de maio de 1984. Fica doravante permitido obter por cesariana, antes de 20 semanas de gravidez, fetos vivos e sadios. É proibido, em princípio, utilizá-los para outros fins que não terapêuticos... Os produtos e os órgãos provenientes de embriões ou fetos humanos só poderão ser retirados de organismos mortos... para evitar qualquer sofrimento. (A Vida, portanto a sensibilidade, existem desde a fecundação. Logo, um feto de várias semanas, arrancado à força de seu meio fisiológico natural, morre por si mesmo. Sua agonia só pode ser penosa e dolorosa... A lei não lhe concede nenhuma proteção). A opinião da mãe, subentenda-se sua aceitação, não será pedida. Bastará que ela não tenha expressado espontaneamente uma recusa... com a condição, evidentemente, de que “ELES” tenham se dignado informá-la.

SOBRE O HOMEM “LEGAL”

Isto é, do Feto com mais de 20 semanas de vida intrauterina ao adulto.

Motivo das Experimentações A pesquisa farmacêutica, médica e cirúrgica sempre exigiu “cobaias”. A intervenção em animais, obrigatória para a colocação a ponto de produtos novos, permite aperfeiçoar técnicas cirúrgicas novas, operando por exemplo no cão, antes de transpô-las com o máximo de chances de sucesso ao Homem.

A sentimentalidade desviada manifestada pelo público, a influência eleitoral dos proprietários de animais e das sociedades protetoras destes tornam esses trabalhos cada vez mais impopulares. É de desejar que a demagogia não faça proibir essas práticas.

Entretanto, é patente que os resultados assim obtidos são imperfeitos. É preciso, portanto, recorrer ao Homem, sadio ou não, para “experimentar”, tendo consciência de que não é possível eliminar todo perigo para o sujeito.

O Estado aceita a experimentação no Homem se praticada no interesse da Ciência, da comunidade humana e dos doentes visados. Pressupõe-se que se trata de pesquisas sérias e honestas, destinadas a fazer progredir a Medicina em geral. Os textos de lei a ela referentes são raros, como o Conselho de Estado sublinhou. O parecer do C.N.E. deverá ser solicitado.

Fundamentalmente, trata-se de subordinar o Bem de uma Pessoa ao Bem público, ao Progresso, até um possível sacrifício, tanto mais que, em circunstâncias precisas, a “cobaia” pode tornar-se reservatório de “material”.

QUE HOMENS UTILIZAR?

Os Voluntários Recorre-se a eles apenas para os ensaios relativos a novos medicamentos ou para a obtenção de certos soros. Serviços hospitalares muito sérios empregam voluntários, mediante o pagamento de uma pequena indenização e segundo um protocolo estrito. O número de candidatos é pequeno, portanto insuficiente.

Nas prisões americanas, detentos trocam, por esse serviço, sua participação por reduções de pena.

“Cobaias” designadas de ofício Depois de pedir o parecer de seu C.N.E., o poder pode legislar. Os “Sábios” são assim habilitados a definir e fixar o nível abaixo do qual um Homem Legal — feto, recém-nascido, jovem ou adulto — é considerado um “pedaço de natureza”, assimilado a material orgânico, e torna-se ou pode tornar-se “instrumento e objeto” nas mãos dos Pesquisadores e Cirurgiões, sem que estes tenham de se preocupar com as consequências sofridas pelo “objeto”.

Para os Fetos de mais de vinte semanas de gestação, ou mesmo para a criança a termo, mas condenada pelo Corpo médico e/ou recusada pela mãe, tanto mais traumatizada quanto o ambiente a ajuda cada vez menos a admitir e suportar esse gênero de imprevisto, seu destino está todo indicado. A total discrição dos atores facilita a manipulação.

Para o Homem dotado de um estatuto jurídico sólido, isto é, o Ser humano desde o nascimento aceito e declarado até o óbito certificado, a passagem para essa categoria é muito mais difícil de realizar.

Para todo esse material existe uma importante demanda, que cresce tanto mais depressa quanto o laxismo materialista e a evolução dirigida dos costumes favorecem o abandono dos mais fracos.

Empurram no mesmo sentido o conjunto do Corpo médico–cirúrgico e os biólogos, movidos pelo desejo de fazer progredir conhecimentos e terapêuticas, mas também sensíveis aos encantos da ambição e das honrarias, e o conjunto dos Doentes, oh quão desculpáveis!, que, para tentar recuperar a saúde, não se colocam outra questão senão a de aproveitar a melhor técnica.

Um escândalo bem explorado Foi preciso, no início do ano de 1988, o processo movido contra os Médicos–anestesistas do CHU de Poitiers para que o problema das “cobaias humanas” fosse posto sob os holofotes da atualidade.

Um perito, citado pela Corte, mencionou uma experiência realizada num Homem em estado de “coma dépassé” pelo Prof. Milhaud, Chefe do Serviço de reanimação do CHR de Amiens. Conhecido há muito tempo como pioneiro, inovador, seus trabalhos nunca receberam publicidade. Foi, com alguns colegas, na origem da criação dos Centros de Acolhida dos Doentes em coma dépassé...

A Lei São esses doentes e/ou acidentados que podem constituir uma fonte de coletas utilizáveis. É preciso, para isso, que a “morte cerebral” tenha sido certificada pelo médico.

“A morte cerebral” é definida pelo coma profundo com “arreflexia” total, ausência de respiração espontânea, eletroencefalograma plano traçado durante meia hora. (Portaria de J.M. Jeanneney de 24-IV-1968).

Entende-se que esse hospitalizado está sob total assistência. Além disso, a lei Caillavet de 22 de dezembro de 1976 institui uma presunção de consentimento para a retirada de órgãos:

Art. 2: “retiradas podem ser efetuadas... no cadáver de uma pessoa que não tenha manifestado em vida sua recusa a uma retirada.”

Esse texto ratifica um fato estatístico consignado pelo Conselho de Estado: 75 % dos franceses sadios aceitam doar seus órgãos quando estiverem em estado de “morte cerebral”.

Para uma parte do Corpo médico, as curas ocorridas e registradas após um coma, então simplesmente qualificado de “prolongado”, mas que pode durar muito tempo, encerram um processo totalmente diferente do considerado pela lei.

Certos reanimadores estimam que, para afirmar a irreversibilidade do estado vegetativo, seria razoável que o prazo de espera se aproximasse de um ano.

Coma prolongado, Estado vegetativo crônico, Coma dépassé... morte cerebral: estágios difíceis de definir. A questão que resume os problemas postos pelo processo pode ser assim formulada:

Diante de um hospitalizado, assistido por inteiro em reanimação, com as diversas funções controladas e medidas, em que momento deixa ele de ser um Homem legalmente protegido, para passar ao estágio de “intermediário entre o animal e o Homem”, tornar-se uma imitação de Homem utilizável para a experimentação e as retiradas?

Medidas e Verdade Trata-se, mais uma vez, de emitir um juízo de valor sobre a qualidade da vida de um Homem. Diante da gravidade do problema e das consequências irreversíveis que a sentença acarretará, não se poderia perguntar:

Há adequação entre os dados fornecidos pelos aparelhos de investigação e de medida utilizados pelos cientistas e, mais precisamente, pelos praticantes das ciências da Vida e da saúde, e a Verdade objetiva que é o estado real do paciente?

Eis a resposta de duas personalidades muito diferentes uma da outra. Em primeiro lugar, o Prof. Marcel de Corte, em sua obra “L’Intelligence en péril de mort”:

“O cientista, recusando implícita ou explicitamente a competência da metafísica, ignorando a embriaguez que lhe comunicam suas descobertas, resvala pouco a pouco na desmesura...”

“Diante dos fenômenos sensíveis, o cientista moderno só se interessará pelo único aspecto que se oferece, por assim dizer, às garras da razão arquitetônica e conquistadora: a quantidade...”

“Todas as determinações quantitativas da fluente fugacidade das coisas — número, grandeza, volume, peso, densidade, velocidade, frequência, proporção etc. — são mensuráveis...”

“A razão elaborará a medida, que será pura obra do espírito, o resultado de uma convenção arbitrariamente estabelecida por ele...”

“A descrição dos fenômenos, dos acontecimentos, faz-se em termos físicos, na linguagem lógico-matemática própria da física e nas formas simbólicas que a física manipula.”

“Ora, esses símbolos são, com toda evidência, sinais artificiais, inventados para designar um conjunto de fatores cuja unidade depende da única razão que a faz.”

“A verdade que o cientista descobre não consiste em conhecer de uma maneira conforme ao que é, mas em produzir um modelo, uma obra, que responda às regras que governam as mensurações que ele opera nos fenômenos sensíveis...”

“A verdade aqui é apenas verdade prática ou poética.”

Depois, eis o astrofísico Hubert Reeves, no curso de uma entrevista (L’Express de 1–XI–1990):

“Os cientistas devem recusar-se a tornar-se Gurus...”

“O discurso científico não é um discurso de verdade, mas um processo em curso de elaboração, sempre passível de mudanças...

“As ideias, os conceitos utilizados para descrever a realidade são criações do espírito humano...”

Esse raciocínio pragmático, aliado a um interesse utilitário, leva a decretar peremptoriamente: Esse Homem está morto, “ELES” podem utilizá-lo.

O que é a Morte? Cumpre lembrar a resposta dada por Roma a essa questão, no contexto do Coma:

“Se a alma intelectual, sob o efeito da doença ou do acidente, suspende a espiritualização do Ser, nem por isso deixa de continuar a assegurar as funções da alma sensitiva e/ou da alma vegetativa.”

“A vida humana dura tanto quanto suas funções vitais, diferentemente da simples vida dos órgãos, se manifestem espontaneamente ou mesmo com o auxílio de procedimentos artificiais.”

“A morte é a ruptura da unidade substancial da alma e do corpo, no início do processo de divisão, de ‘decomposição’ dos elementos materiais constitutivos do corpo.”

Esse constante ensinamento romano, que o bom senso admite com facilidade, atesta que o doente ou acidentado em estado de coma prolongado ou dépassé é sempre um Homem que merece respeito absoluto.

É, a priori, a opinião do conjunto médico marselhês do primeiro “Centro de Despertar” europeu. Em funcionamento há cerca de dois anos, essa clínica, o CRI. Saint-Martin, única em seu gênero, conseguiu o retorno à vida de numerosos comatosos profundos inteiramente assistidos, na proporção de 95 % de seus doentes.

O Estado apoia o movimento Assim, em nome do Progresso e da lógica científica, infelizes podem ser utilizados para melhorar o estado de outros doentes. É bem o que subentendia a Ministra da Saúde da época, a sra. Barzach, ao censurar o Prof. Milhaud apenas por ter experimentado com fim privado.

Aliás, em união de pensamento com seu colega, o Sindicato Nacional dos Professores Hospitalares Universitários, pela boca de seu Secretário-geral, deu seu inteiro apoio. Estimava que o objeto da experimentação já não era um Homem e que seu par apenas cumprira o dever, trabalhar pelo progresso da medicina e da Ciência.

O antigo senador Caillavet deve ser encorajado nos combates que trava para despenalizar ou legalizar a Eutanásia. Propõe assim que o Homem–Cidadão tenha o direito de fazer seu “Testamento–Biológico” nestes termos:

“Se eu me tornar, por doença, acidente ou qualquer outra causa, um legume vegetativo, aceito, ao fim de um ano nesse estado, servir à experimentação.”

Como por encanto, a mídia perdeu o interesse pelo caso. Mas o poder velava.

Sob o manto da filantropia, desde o fim de 1987, a Assistência Pública lança um programa de coordenação das retiradas de órgãos. Trata-se de aumentar fortemente o número de transplantes, sendo a França, a esse respeito, considerada pelo Prof. Benoît, do Kremlin–Bicêtre, um país subdesenvolvido.

Além disso, prevê-se facilitar o trabalho do organismo France–Transplant, reforçar as possibilidades do Laboratório de exame de St Louis, aumentar os postos e os créditos nos Hospitais “transplantadores”.

Por fim, indo além do que pedia o C.N.E., a Assembleia votou, em 12 de dezembro de 1988, uma lei que autoriza a experimentação em doentes e acidentados em estado de coma dépassé, experimentação com vistas ao progresso médico–cirúrgico geral.

Em caso de situação de urgência, que impeça colher o consentimento prévio da “cobaia”, o que, evidentemente, é o caso do acidentado, será solicitado apenas o de seus próximos... se estiverem presentes. Sendo a urgência a do candidato ao transplante.

Assim, o Estado, insidiosamente, em nome da Fraternidade–Solidariedade, apropria-se dos corpos, “nacionalizados”, para uma utilização racional, o que implica o desrespeito ao Corpo vivo ou morto, outro passo rumo ao Eugenismo.

L.D.


Notas Sobre as Origens do Budismo

Em nosso estudo sobre a Gnose e o Budismo (Bol. n.º 21, p. 56 e ss.), mostramos que o Budismo não era outra coisa senão a Gnose maniqueia difundida na Ásia, que o verdadeiro Buda não era outro senão o próprio Mani e que a doutrina budista não passa de um desenvolvimento do ensinamento de Mani, ao qual se misturaram ao longo dos séculos múltiplas lendas populares que, no entanto, não puderam desfigurar o essencial da doutrina.

Para isso, mostramos que as mais antigas pinturas murais dos mais antigos mosteiros budistas em ruínas da Ásia Central são pinturas maniqueias, que os mais antigos manuscritos descobertos nesses mesmos mosteiros são tratados maniqueus, copiados pelos monges budistas ao longo dos séculos VII e VIII de nossa era. Essas descobertas foram conhecidas no Ocidente nos anos de 1920–1930, mas permaneceram ignoradas, porque sistematicamente “ocultadas” pelos historiadores da Ásia. Com efeito, convidavam-nos a rejeitar todas as construções cronológicas arbitrárias do século XIX e a reconhecer a má-fé desses historiadores, que não haviam hesitado em fabricar história com lendas e em fazer malabarismos sem pudor com os séculos.

Mostramos igualmente que a doutrina budista é inteiramente tirada do ensinamento de Mani e que os ritos dos monges budistas são a reprodução exata dos rituais maniqueus descobertos nesses mesmos mosteiros. Ora, não inventamos essas demonstrações: foram sustentadas outrora por observadores perspicazes e não subservientes às modas intelectuais de seu tempo. Citamos o P. Giorgi, que no século XVIII mostrou que o Budismo não era senão uma deformação do cristianismo devida à ação perversa dos Maniqueus. Era então informado por missionários instalados no Tibete.

Um deles, um português, o P. Antônio de Andrade, instalado em Tsaparang, em 1624, havia anotado a fórmula mágica pela qual os tibetanos rezavam a seu Buda: “Om mani padme hum”, que os monges traduziam por: “Meu Deus, salva-nos”. Mas esse Deus Salvador, continuam a chamá-lo, ainda hoje, Mani. Essa fórmula está inscrita em suas grandes bandeirolas que flutuam ao vento, em seus sinos e em seus moinhos de oração.

Recuemos alguns séculos. Em 1246, São Luís envia ao grande Khan da Tartária um religioso dominicano, Fr. Guilherme de Rubruck. Este empreende várias grandes controvérsias com um monge chinês, a quem chama de tuyan, isto é, um taoísta (sendo o Tao a Gnose dos chineses). Trata da multiplicidade dos deuses, da natureza e da causa do mal etc... Opõe ao chinês a verdadeira doutrina cristã e lhe mostra que conhece muito bem a doutrina daqueles a quem chama de idólatras, adoradores de seus budas. Ora, precisa em sua “Relação”: “Todos, com efeito, são dessa heresia dos Maniqueus, segundo a qual a metade das coisas é má e a outra boa e há pelo menos dois princípios; quanto às almas, todos pensam que passam de corpo em corpo”. O tradutor, A. T’Serstevens, acrescenta em nota: “Bem entendido, o chinês não é de forma alguma maniqueu, mas budista, e suas primeiras proposições se ligam a essa religião. Rubruck, que o vimos visitar templos budistas, não parece ter nenhuma ideia do Budismo. Será preciso esperar Marco Polo para ter as primeiras noções dele”. O “Bem entendido” é admirável. T’Serstevens julga-se mais hábil teólogo e filósofo que o religioso dominicano e manifesta para com ele um desprezo que mostra seu desconhecimento da verdadeira natureza gnóstica do Budismo.

A esse respeito, julgamos útil lembrar esta definição do Budismo, devida a um erudito do século passado, Philarète Chasles: “Esses dogmas budistas aproximam-se de maneira estranha dos símbolos e dos dogmas cristãos. Encontram-se neles, sob outras formas, o fruto do mal e do bem, que já não é uma maçã, mas um figo, Eva sucumbindo à tentação, a serpente tentadora, a virgem dando o seio ao Redentor — tudo o que a crença cristã contém de fundamental, ou de simbólico e de misterioso... A ideia da encarnação divina num ser humano constitui o próprio fundo e a essência dele. O budismo vai mais longe: multiplica-a como outrora os gnósticos e estabelece a possibilidade de o homem tornar-se deus e reunir-se à substância eterna. A ortodoxia cristã aceitaria a maior parte dos preceitos inculcados pela moral budista (?). Julga-se, ao percorrer seus tratados ascéticos, ler Gerson ou o místico Tauler...” Eis uma boa definição do Budismo: um Cristianismo desfigurado pela Gnose.

A essas demonstrações, que nos parecem definitivas, só se puderam opor cronologias estabelecidas por historiadores da Ásia. Temos absolutamente de rejeitar essas cronologias. É impossível fazer fundamento nas declarações dos próprios budistas. O valor das tradições indianas é praticamente nulo nesse domínio. James Ferguson escreve a esse respeito: “Quem quer que tenha viajado pela Índia sabe que informações pode obter, mesmo da parte dos brâmanes melhores e mais inteligentes, sobre a data dos templos nos quais eles e seus antepassados sempre serviram desde a sua construção. Mil ou dois mil anos é uma idade moderada para templos que sabemos perfeitamente não terem mais de dois ou três séculos de existência”.

Apliquemos esse princípio aos manuscritos budistas. Os mais antigos atualmente conhecidos datam apenas da Idade Média, precisemos mesmo da baixa Idade Média, séculos XIII ou XIV. Se remontarmos mais além, só se encontram os manuscritos maniqueus de que falamos. O mais antigo poema sânscrito sobre a vida do Buda, intitulado “Buda-Charita”, é atestado pela primeira vez na Índia em 673 d.C. O “Lalita Vistara” é conhecido por uma versão chinesa do século VI de nossa era, e não antes.

Numa carta a W. S. Lilly, o cardeal Newman havia outrora protestado energicamente contra as fantasias dos historiadores indianistas: “Para provar a autenticidade e a data de nossos Evangelhos, temos uma massa de manuscritos de data e de famílias diferentes, uma multidão de testemunhos e de citações, quer dos Padres, quer de outros autores; depois, para satisfazer às exigências de nossa crítica, deve haver coincidência perfeita entre os textos dos diversos manuscritos. Se uma passagem não se encontra em todos os manuscritos descobertos, está condenada... Por que não exigir tais garantias antes de admitir como verdadeira a história do Buda?”

Pode-se, com efeito, estranhar a extrema facilidade com que os indianistas aceitaram todas as lendas budistas, sem o menor espírito crítico, numa época em que a exegese modernista cavilava com acrimônia contra as pretensas contradições dos manuscritos do Novo Testamento. As lendas do Buda, como as dos relatos muçulmanos sobre a vida de Maomé, beneficiaram-se de uma indulgência inadmissível e culpável da parte de escritores, aliás muito severos para com as fontes manuscritas do cristianismo. Há aí dois pesos e duas medidas que deixam céticos quanto à boa-fé desses autores...

Vejamos as coisas mais de perto.

  1. O “Diálogo de Milinda” nos é conhecido por uma versão chinesa do século VI de nossa era. Conta a conversão de um rei indiano, Milinda, por um monge budista. Saltando de pés juntos sobre vários séculos, historiadores pretenderam identificar Milinda com o rei grego Menandro, que viveu no século I a.C., identificação contestada por vários. Mas possuímos uma vida de Menandro escrita por Plutarco no século II de nossa era, na qual não se fala de modo algum de Buda nem de Budismo.

  2. Existe uma moeda de Kanishka que representa Boddo, de pé, com a mão direita erguida no gesto de um mestre que ensina seus discípulos e trazendo no braço esquerdo o manípulo dos sacerdotes cristãos. Pretendeu-se que o rei Kanishka havia vivido no primeiro século de nossa era, sem precisar que houve vários reis desse nome que reinaram durante os primeiros séculos cristãos.

  3. A lenda de Açoka (o “rei piedoso”, isto é, aquele que dava generosamente para a construção dos mosteiros) está contida no “Mahavamsa”, cuja redação não remonta além do século V de nossa era. James Prinsep, erudito inglês, decifrou várias inscrições em rochedos, nas quais Açoka, “o amigo dos deuses e das leis”, enumera os povos que converteu ao Budismo. Entre eles cita reis de Yavanas (isto é, Gregos) chamados Ptolomeu, Antígono etc. Imediatamente quis-se identificar esses reis com os descendentes dos generais de Alexandre e, valsando com os séculos, pretendeu-se que Açoka havia reinado no século III a.C. Chamou-se-lhe até “o Imperador das Índias”, por um anacronismo totalmente injustificado, sendo a cidade de Taxila, de que teria sido rei, uma cidadezinha minúscula do Gandhara.

Ora, é certo que o Budismo jamais penetrou nem na Babilônia, nem na Síria, nem no Egito, onde nunca encontramos o menor vestígio que permita supor sequer uma passagem momentânea dessa religião. A estela de Açoka precisa até o nome de uma cidade, Alexandria, que se quis identificar com a capital do Egito. Tudo isso é pura impostura. Sabemos hoje que pequenos reinos gregos se perpetuaram nas montanhas da Ásia Central, na Bactriana e na Sogdiana, até a conquista muçulmana, isto é, até o século VII de nossa era. Seus reis tinham nomes gregos. Existiam também, nessa época, várias cidadezinhas gregas com o nome de Alexandria, em particular no Cáucaso. Como a estela de Açoka enumera, ao lado dos reis gregos, reis dos Hunos, vemos bem que designa assim os chefes desses pequenos estados da Ásia Central.

Mas se nos dispusermos a reexaminar atentamente a história do Budismo à luz dessas datações retificadas, percebemos que ela corresponde bem à expansão do Maniqueísmo na Ásia. Mani ensinou na Índia e na Ásia no século III de nossa era. Os mosteiros maniqueus–budistas se difundiram nessas regiões durante os séculos V e VI. É nessa época que aparecem as lendas de Milinda, de Açoka, do próprio Buda. São traduzidas para o chinês por volta do século VI, seguindo a rota da seda. Nos séculos VIII e X, reencontram-se os manuscritos maniqueus nas ruínas desses mosteiros, copiados pelos monges budistas dessa época. Tudo isso se sustenta. Há aí uma sucessão natural e lógica de fatos que se inscrevem num quadro histórico conhecido por outras fontes.

Por fim, convém precisar que essa história falsificada do Budismo, que acabou por impor-se por toda parte, não é o resultado de um jogo inocente. Tudo isso foi habilmente manipulado com a intenção, mal disfarçada, de demolir a fé nas almas cristãs. Vejamos o caso, no século passado, do maior indianista, Eugène Burnouf. Em sua “Introdução à História do Budismo”, publicada em 1844, insinuava: “Há poucas crenças que repousam sobre tão pequeno número de dogmas e até impõem ao senso comum menos sacrifícios. Falo aqui em particular do Budismo que me parece o mais antigo, o budismo humano, se ouso chamá-lo assim, que está quase inteiro em regras muito simples de moral...” Equivale a dizer que o budismo é a religião primitiva da humanidade, que se encontra na fonte de todas as religiões. Burnouf insinuava igualmente que o Budismo poderia ter agido sobre o Cristianismo por intermédio dos Essênios, que teriam transmitido a Jesus Cristo a tradição monástica. Tudo isso, claro, sem a menor prova... Havia ali uma cascata de contraverdades sugeridas, deixadas à livre interpretação de seus discípulos. Seus ouvintes entusiasmados lhe pediam que mostrasse “que a Pérsia zoroastriana e a Índia búdica haviam em muitos pontos antecipado e inspirado o Evangelho”. “Concluí, pois!”, diziam-lhe, e o pressionavam a fornecer aos pensadores “o ponto de partida para o impulso do mundo novo”. Mas, mais hábil e mais prudente, Burnouf contentava-se em sorrir...

Diante desse ensino tão perturbador, os católicos permaneciam de uma timidez doentia. Um certo abade Deschamps ousou manifestar uma espécie de “respeitosa reserva” a respeito de Prinsep e de Burnouf. Contentou-se em fazer notar pela primeira vez certas analogias entre a lenda de Cakyamuni e os apócrifos cristãos, em particular no “Lalita Vistara”...

Quanto aos estragos religiosos que essa apresentação do Budismo pôde provocar em almas sinceras, temos o testemunho de um crítico literário, Ferdinand Brunetière, que, no início deste século, confessou, em suas “Dificuldades de crer”, ter sido retido durante quinze anos no caminho da adesão à fé cristã. Foi, entre muitos outros, vítima de uma monumental impostura.

E.C.


A Revolução Surrealista - 3

O PÓS-GUERRA

Agosto de 1944, Paris é libertada da presença alemã, mas a guerra não terminou, longe disso, e Breton permanece na América.

Está muito bem introduzido na alta sociedade americana e, em dezembro de 1945, ele e a esposa são encarregados de uma missão oficial pela Direção de Assuntos Culturais de Nova York. Vão ao Haiti e às Antilhas francesas fazer uma série de conferências para estabelecer relações com os meios intelectuais dessas ilhas.

De fato, Breton foi acolhido por todo um mundo de jovens intelectuais já muito abertos às suas concepções, e sua presença coincidiu com a revolução, talvez tenha sido mesmo seu catalisador indireto.

Com efeito, em 1.º de janeiro de 1946, o jornal “La Ruche”, órgão da nova geração, como se intitulava, fez uma apresentação incendiária de Breton e de suas palestras. O governo de então, um vago ditador a soldo de Trujillo, assustou-se e proibiu o jornal, daí a greve dos estudantes em 7 de fevereiro e a dos operários no dia seguinte. Convém notar o tema da conferência de Breton que teve de ser cancelada naquele dia: “As fontes ocultas e estrangeiras do Romantismo Francês: Victor Hugo desconhecido”...!

Após quatro dias de revolta, o presidente da República haitiana fugiu para os Estados Unidos, enquanto Breton retomou suas conferências, às quais acorria grande número de estudantes, e por volta do fim de fevereiro de 1946 voltou também ele aos Estados Unidos.

Algumas semanas mais tarde regressou à França, no decorrer da primavera de 1946. Sua primeira aparição pública deu-se na noite organizada em benefício de Antonin Artaud, que acabava de sair do asilo psiquiátrico de Rodez. Naquele 7 de junho de 1946, todo o Tout-Paris das Artes e das Letras acorreu ao Teatro Sarah Bernhardt para ver Artaud e ouvir Breton recordar os princípios surrealistas nestes termos:

“O lugar de resolução do que se buscou e, espero, se busca ainda autenticamente sob o nome de surrealismo, não nos enganemos, não poderia ser em 1946 a praça pública. As condições de pensamento e de atividade estão a tal ponto maleficiadas em escala universal, uma tal ameaça de aniquilamento pesa sobre o mundo que só se pode ter pena daqueles que persistem em mendigar sufrágios ou em valer-se de pretensos títulos de glória retrospectivos. Em função dos próprios acontecimentos dos últimos anos, acrescento que me parece atingida de irrisão toda forma de ‘engajamento’ que se mantenha aquém deste objetivo triplo e individual: transformar o mundo, mudar a vida, refazer inteiramente o entendimento humano.”

Breton fez seu retorno, mas não se pode dizer que tenha realmente retomado uma atividade; para isso precisa reatar o fio das relações e recomeçar a fazer trabalhar juntos uma multidão de homens que se dispersaram pelos quatro cantos do mundo e evoluíram para posições diversas.

Vimo-lo: muitos antigos surrealistas passaram ao P.C. e assumem sua disciplina de ferro; não se cogita, portanto, que voltem para Breton; muito pelo contrário, serão eles que conduzirão o ataque contra ele.

Por outro lado, vários surrealistas haviam extravasado a fogosidade antes da guerra de 39–45 e, ajudados pelo vazio da guerra, voltaram-se para outros horizontes e ocupam-se doravante da própria carreira, literária ou não. Esse ponto frequentemente se cruza com o precedente, pois nesses tempos de libertação, em que os intelectuais stalinistas dominam o cenário, é prudente dar-lhes garantias e, se se quer prosperar, é preciso ser “engajado”.

Entre as correntes então dominantes não se deve omitir o existencialismo: muitos jovens intelectuais são discípulos de Jean-Paul Sartre, com esse gosto do desespero que não surpreende depois do que se acabava de viver em poucos anos, e, para os mais lúcidos, as reviravoltas da dialética marxista são um poderoso fator suplementar de desespero.

A estrutura surrealista jaz por terra; Breton vai empenhar-se em recolocá-la de pé a partir dos elementos que subsistem naquele momento; quais são eles?

O grupo de “La main à plume” desapareceu; um caderno mimeografado intitulado “Le clair de terre” faz breve aparição, afirmando que “nenhum movimento mais emancipador que o surrealismo ainda se manifestou”. Mais sólida, de maior fundo intelectual, aparece a revista “Les 4 Vents”, dedicada à poesia. Desde fevereiro de 1946, “Les 4 Vents” consagram um número especial à EVIDÊNCIA SURREALISTA, do qual participam umas trinta pessoas, surrealistas ou assimilados: Arp, Artaud, Brunius, Carrington, Césaire, de Mandiargues, Péret e um recém-chegado, Julien Gracq.

Nos meses seguintes são editados alguns livros de certos membros da equipe: Arp, Césaire, Péret; Breton faz publicar sua “Ode a Charles Fourier”, e no fim de 1947 Artaud dará seu estudo sobre “Van Gogh ou o suicidado da Sociedade”.

Nesse ínterim, tendo acabado de estourar a guerra na Indochina, Breton reencontra seus velhos ardores e lança, com seus amigos, antigos e novos, um manifesto pró–Viet–Minh intitulado “Liberdade é uma palavra vietnamita”. Quarenta e cinco anos depois, isso deixa pensativo...

Os comunistas, sempre realistas à sua maneira, não se deixam comover por esse manifesto e lançam seu primeiro grande ataque. É Tristan Tzara, tornado membro do Partido, que fala na Sorbonne em 11 de abril de 1947 sobre o tema “O Surrealismo e o pós-guerra”. Em resumo, o ex-fundador do Dadaísmo afirma ali que o Surrealismo está condenado a viver fora deste mundo e que, portanto, não pode mais ter influência, nem mesmo no plano das ideias. Breton estava presente; a contradição foi violentíssima, tumulto, alguns empurrões, e os surrealistas deixaram a sala levando consigo metade dos ouvintes.

Um ano mais tarde, Roger Vailland retomava o ataque num libelo, “O Surrealismo contra a Revolução”, apoiado em citações falsas ou fortemente forçadas, notadamente aquela em que Breton teria dito “que era preciso reinvestir o artista em suas funções religiosas”. Vê-se aonde tendia o processo, e conhecemos suficientemente a realidade sobre esse ponto vital, mas os pés grandes do P.C. não têm o hábito de se preocupar com esses matizes.

Muito astutamente, Breton deixa os marxistas se agitarem e, por seu lado, retoma o trabalho: prepara uma grande manifestação e, em 12 de janeiro de 1947, envia ao mundo inteiro uma carta convidando para a próxima Exposição Internacional do Surrealismo, que terá lugar em junho de 1947; define nela o duplo objetivo dessa reunião: mostrar de novo as obras surrealistas (a última vez fora em Paris, em 1938) e esboçar as linhas do trabalho futuro, nestes termos:

“Se é de toda necessidade reunir em Paris (onde a maioria delas é desconhecida, mesmo por reprodução) uma seleção das obras plásticas surrealistas mais típicas dos últimos anos, pensamos que essa pura e simples reunião seria menos do que nunca suficiente. Importa, além disso, reafirmar uma coesão verdadeira e, em relação às manifestações anteriores do grupo, marcar uma certa superação. As aspirações surrealistas, tanto poéticas quanto plásticas, devem, na exposição de 1947, poder exprimir-se simultaneamente, sendo sua comum medida buscada do lado de um MITO NOVO a traduzir, do qual aliás se pode considerar que existe hoje em estado embrionário ou latente. A estrutura geral da exposição responderá à preocupação primordial de retraçar as etapas sucessivas de uma INICIAÇÃO, cuja passagem de uma sala a outra subentenderá a graduação.”

Além do trabalho de preparação, do qual participam notadamente o arquiteto Frederick Kiesler e o pintor Marcel Duchamp, os membros do grupo (cerca de cinquenta), sob a direção de Henri Pastoureau, redigem um manifesto que precisa a ruptura já antiga com o P.C., bem como os limites das alianças com os diversos partidos revolucionários:

“Fique bem entendido que jamais nos ligaremos em união duradoura à ação política de um partido, a não ser na medida em que essa ação não se deixe encerrar no dilema que se encontra em demasiadas esquinas de nosso tempo, o da ineficácia ou da conivência. O surrealismo, cujo destino específico é ter de reivindicar inúmeras reformas no domínio do espírito e em particular reformas éticas, recusará sua participação em toda ação política que devesse ser imoral para parecer eficaz. Recusá-la-á igualmente, para não ter de renunciar à libertação do homem como fim último, a ação política que se tolerasse ineficaz para não ter de transgredir princípios ultrapassados.”

Mito novo, iniciação, revolução do espírito: reencontramos aí os temas clássicos do entreguerras, decantados das ilusões politiqueiras. Breton sabe doravante, já não apenas a título de intuição, mas como fruto da experiência, o que é preciso fazer e o que é possível: atrelar-se ao nascimento e à promoção de uma nova sensibilidade coletiva.

Aliás, uma tal iniciativa corresponde doravante a uma necessidade sentida por todos. Certamente, quando trinta anos antes Breton lançava seu projeto surrealista, dirigia-se já a uma juventude em ruptura intelectual e sensível com a civilização ocidental e, sobretudo, com seu avatar do século XIX, a burguesia capitalista.

Mas se essa juventude sabia mais ou menos o que já não queria, não tinha nenhuma ideia do que poria no lugar, e foi precisamente o mérito (do ponto de vista subversivo, bem entendido!) do Surrealismo propor-lhe temas mobilizadores. Entretanto, essa juventude se via então dilacerada entre cem solicitações diversas, mais ou menos políticas, mais ou menos artísticas, mais ou menos religiosas ou mesmo ocultistas, de modo que não chegava realmente a fazer uma escolha.

Depois da guerra, por volta de 1947, em compensação, muitas coisas se esclareceram, e o stalinismo desferiu um duro golpe nas ilusões marxistas de grande número de pessoas. Com isso, é empurrada para a esquerda a velha questão do político primeiro: não apenas essa juventude revolucionária já não crê no P.C., como tem daqui por diante fortes dúvidas quanto à primazia da ação política, e encontra-se assim permeável, melhor do que jamais foi, à mensagem surrealista.

A partir desse momento multiplicam-se os contatos, cartas, comunicações, pedidos de adesão, que afluem da França e do exterior. O movimento deve, pois, reorganizar-se e, para esse fim, é criado um escritório de ligação e de informação, “Cause”, cuja secretaria francesa é assegurada por Sarane Alexandrian. No alto do prospecto inaugural é colocada a seguinte epígrafe: “O homem que anda é uma causa livre”, com a sobreimpressão vermelha “O Surrealismo”.

Existem grupos, mais ou menos importantes, na Inglaterra, Brasil, Canadá, Chile, Dinamarca, Egito, EUA, Guatemala, Haiti, Hungria, Iraque, Japão, México, Portugal, Romênia; um exame, mesmo rápido, da vida interna desses grupos seria muito longo e, afinal, fastidioso por repetitivo, mas pode-se notar que os focos mais vivos situavam-se na Europa central e no Japão, bem como na América Latina.

Em 7 de julho de 1947 abre-se na Galeria Maeght, em Paris, a Exposição Internacional do Surrealismo, reunindo 90 participantes de 24 nações. Um luxuoso catálogo de cento e trinta páginas apresenta as obras expostas e contém também grande número de declarações teóricas complementares da Exposição. Na capa via-se a reprodução de um objeto surrealista de Marcel Duchamp: um seio feminino de borracha sobre fundo de veludo negro, com a menção “favor tocar”.

A afluência de visitantes foi considerável, e o número de artigos de jornal, muito importante, sentindo-se toda a imprensa obrigada a falar do assunto, mesmo os jornais que eram contra.

Em cada um dos vinte e um degraus da escada de acesso estava inscrito o nome de um dos pais espirituais do movimento: Rousseau, Baudelaire, Hölderlin, Mestre Eckhart, Kafka, Apollinaire, Jarry, o pai de Ubu, Lautréamont etc. Seguia-se uma primeira sala concebida pelo arquiteto Frederick Kiesler para exprimir a realidade de uma arquitetura mágica que se enraíza na totalidade do ser humano; depois vinha uma grande sala de assoalho de ripas, que queria evocar o refrescamento devido à libertação das superstições; contornando uma mesa de bilhar e suas três bolas (será preciso ver nisso o símbolo maçônico?), penetrava-se num grande labirinto iniciático concebido pelo próprio Breton, integralmente pintado de azul-noite e cercado por uma multidão de alvéolos que continham, cada um, um altar guarnecido de um objeto mítico.

O sucesso foi muito grande e o objetivo perfeitamente atingido: o surrealismo era de novo conhecido na praça pública.

Entretanto, é certo que continua a chocar seriamente a maioria dos quadros sociais de então, tanto os de esquerda quanto os de direita, que só concebem a vida social em termos políticos e ainda não apreenderam a importância do cultural, sobretudo concebido dessa maneira.

De modo que não encontrará, de forma habitual, grande audiência junto às massas–mídia, imprensa, edição, rádio, cinema, ao menos não o nível de audiência que se poderia ter previsto, tendo em vista os meios intelectuais e humanos empregados. Certamente o surrealismo não será proscrito, longe disso; simplesmente não será empurrado de maneira ultrajante, como é costume fazer em outros casos, e deverá contentar-se com algumas entrevistas na imprensa, alguns programas de rádio e uma ligeira penetração no cinema com o filme Los Olvidados, graças a Buñuel.

Mais uma vez a aventura da revista surrealista vai ser tentada, e o ano de 1948 será marcado pela fundação de um Jornal cujo título “Néon” esconde, na verdade, um acróstico: N’être rien – Être tout – Ouvrir l’être [Nada ser – Ser tudo – Abrir o ser], que se tornou depois Naviguer, Éveiller, Occulter [Navegar, Despertar, Ocultar], quando a equipe se modificou e mudou de linha. O novo órgão publica sobretudo Poesia, sem polêmica ou quase, e nele se encontram referências ao Zohar, a Charles Fourier, a Baudelaire e a um recém-chegado, um solitário da ilha Maurício, Malcolm de Chazal.

Como é lógico, os últimos a chegar ao Surrealismo queriam-se apolíticos, ainda mais que o próprio Breton e os outros antigos do movimento. Essa diferença era fonte de tensões e dificuldades futuras, que viriam à luz aos poucos, notadamente sob a influência dominante de um pintor, Brauner, que leva ao extremo essa posição e confina com o dandismo.

Antes dessa crise, que ocupará o inverno de 48–49, o grupo lança um manifesto coletivo intitulado “A la niche les glapisseurs de Dieu” [“Para o canil os ganidores de Deus”], pelo qual voltava à tona o velho problema da religião ateia; com efeito, nos meios cristãos progressistas então muito virulentos, havia uma tendência a tentar recuperar o ateísmo, o ateísmo violento, blasfemador, no qual se queria ver como que um reconhecimento de Deus; isso era efetivamente serrar pela base a noção surrealista, daí a reação compreensível.

Diante do afluxo de novos contatos e sem dúvida também para encobrir uma reorganização destinada a conjurar o perigo de fragmentação, um novo centro de coordenação é criado no outono de 1948 sob o nome de “Solução Surrealista” e instalado numa galeria de pintura da rua du Dragon. Ali, no quadro de uma Exposição permanente, dois membros do grupo ficavam todas as quartas-feiras à disposição das pessoas interessadas; um caderno dos contatos feitos nessa ocasião foi estabelecido e permite ver aparecer grande número de recém-chegados que colaborarão com o movimento em seguida.

No plano internacional a atividade coletiva continua e duas Exposições Internacionais Surrealistas têm lugar em 1948, uma em Santiago do Chile, outra em Praga, cujo organizador, Karel Teige, haveria de suicidar-se dois anos mais tarde, quando, em 1950, a polícia política comunista veio prendê-lo.

Finalmente, a crise que fermentava havia vários meses estourou durante o inverno de 48–49; um membro do grupo, Matta, é excluído por forte maioria, depois o pintor Brauner, tendo tomado partido por ele, foi excluído por sua vez e deixou o grupo com os de sua “facção”. Para o movimento surrealista foi antes uma boa coisa, pois essa tendência afastava demais o grupo de sua linha central.

Aliás, Breton, por seu lado, lançou-se numa nova ação política, ou, mais exatamente, associa-se a uma ação que lhe parece rica de possibilidades revolucionárias, não no plano das estruturas políticas, mas no, que lhe é caro, das mentalidades coletivas e do espírito público.

Robert Sarrazac criara logo após a guerra o movimento Front Humain pour une citoyenneté mondiale [Frente Humana por uma cidadania mundial], no seio do qual devia desenvolver-se a ação de Garry Davis. Breton está, portanto, ao lado de Garry Davis quando este interrompe a sessão da assembleia geral da O.N.U., em 20 de novembro de 1948, e também na reunião organizada pelo RDR na Salle Pleyel em dezembro de 1948. Breton aparece na tribuna ao lado de Georges Altman, Simone de Beauvoir, J.-P. Sartre, Claude Bourdet, Albert Camus etc.

No plano coletivo, Breton participa igualmente em 1948 de um empreendimento do qual espera muito, mas que finalmente naufragará: a Compagnie de l’Art Brut, codirigida por Breton, Dubuffet, Paul Budry e alguns outros, e assim apresentada por Dubuffet: “essa companhia se propõe fazer conhecer obras em que as faculdades de invenção e de criação que existem, segundo nós, em todo homem se manifestam de modo muito imediato, sem medida e sem constrangimento”.

Entre 1948 e 1951 essa sociedade reúne numerosas coleções e realiza múltiplas exposições, mas Dubuffet, que na verdade assume sozinho a direção, acaba por dissolver a companhia em 1951 e transfere todas as coleções para os Estados Unidos, para grande cólera de Breton.

Um dos sinais suplementares da penetração do Surrealismo reside no número crescente de estudos a ele consagrados ao longo desses anos:

Na primavera de 1949, uma grande retrospectiva da obra de Francis Picabia recorda os numerosos laços entre esse pintor e os Surrealistas; é também a ocasião de sublinhar a diferença que existe entre a arte abstrata e a arte surrealista. A arte surrealista pode ser abstrata ou figurativa, a forma exterior importa pouco; o que conta é que o pintor exprima, por meio do modelo exterior, figurativo ou abstrato, seu próprio modelo interior; essa posição do subjetivismo puro não deixava de valer ao Surrealismo violentas críticas da parte dos abstratos, que o acusavam de traição à Arte Moderna; reencontra-se finalmente aqui o mesmo tipo de dificuldade que em matéria política com os marxistas.

Breton o lembrava em 1941 em seu livro “Genèse et perspectives artistiques du Surréalisme”: para ele, o que conta, além da forma exterior, é que a obra artística, gráfica ou verbal, seja oriunda do único automatismo:

“Sustento que o automatismo gráfico, tanto quanto o verbal, é o único modo de expressão que satisfaz plenamente o olho ou o ouvido ao realizar a unidade rítmica (tão apreciável no desenho automático, no texto automático quanto na melodia ou no ninho), a única estrutura que responde à não-distinção, cada vez melhor estabelecida, das funções sensitivas e das funções intelectuais (e é por aí que ele é o único a satisfazer igualmente o espírito). Que o automatismo possa entrar em composição, na pintura como na poesia, com certas intenções premeditadas, seja, mas corre-se grande risco de sair do surrealismo se o automatismo deixar de caminhar ao menos por baixo da rocha.”

E, de fato, pintores muito diferentes puderam reclamar-se do automatismo surrealista: Picabia, Chirico durante a primeira guerra, Max Ernst com suas colagens, Domínguez, inventor da decalcomania, Dalí e seu maneirismo esotérico, Marcel Duchamp e muitos outros.

De modo geral, a pintura era favorecida em relação à escrita, em razão das condições financeiras asseguradas pelos mecenas, marchands e clientes.

As revistas do movimento, em contrapartida, estavam constantemente em perigo, e em 1949 desaparecem uma após outra NÉON, após cinco números, e SOLUÇÃO SURREALISTA. O trabalho e o pensamento surrealistas dessa época devem, portanto, ser buscados em alguns livros, bem como na imprensa, por ocasião de uma enquete extremamente interessante lançada por François Mauriac no Figaro Littéraire em junho de 1949:

“Crê o senhor que o recurso sistemático, nas Letras, às forças instintivas e à demência, e a exploração do erotismo que ele favoreceu, constituem um perigo para o indivíduo, para a nação, para a própria literatura, e que certos homens, certas doutrinas são responsáveis por isso?”

Tratava-se evidentemente de uma acusação, sob forma interrogativa, às atividades surrealistas, e os homens do movimento não deixaram de responder muito vivamente; assim Adrien Dax:

“Confesso, de minha parte, jamais ter duvidado do perigo que representa para a nação e para a literatura o que o senhor chama de recurso às forças instintivas. Mas a noção de responsabilidade parece-me mal abordada se não se levar em conta que se trata menos de uma atividade literária do que do aspecto de um conflito em que o indivíduo se opõe às estruturas morais de uma sociedade suficientemente desonrada, a meus olhos, pela escravização do homem e pelo massacre periódico. É nesse terreno, que ultrapassa sensivelmente a horta das Belas-Letras, que os Surrealistas sempre se situaram, e isso com plena consciência de sua eficácia.”

Por seu lado, Maurice Blanchot, autor aliás de um ensaio sobre Lautréamont e Sade, exprime da melhor maneira essa noção de revolução total em seu livro “La Part du Feu”, também de 1949:

“O Surrealismo é uma dessas tentativas pelas quais o homem pretende descobrir-se como totalidade: totalidade inacabada e, no entanto, capaz, num instante privilegiado (ou pelo simples fato de ver-se inacabada), de apreender-se como totalidade. Como é ao mesmo tempo movimento inspirado e movimento crítico, agita todo tipo de pontos de vista, de postulados, de pesquisas conscientes e confusas, mas a intenção principal é indiscutível: o Surrealismo está à procura de um tipo de existência que não seja o do dado, do já feito... E, por outro lado, está à procura de um acontecimento absoluto, em que o homem se manifeste com todas as suas possibilidades, isto é, como um conjunto que as ultrapassa.”

Nesse mesmo ano de 1949, Michel Carrouges escreve nos Cahiers d’Hermès “Le Surréalisme et l’occultisme”, para tentar demonstrar que esse absoluto buscado pelos surrealistas corresponde ao que a Tradição esotérica chama de “Totalidade do real”.

Em outra obra desse mesmo ano de 1949, “Essais et Témoignages sur André Breton”, reunidos por Marc Eigeldinger, Julien Gracq faz o balanço sobre o automatismo: lembra a esperança que esse procedimento faz nascer, que devia pôr a poesia ao alcance de todos, uma poesia ininterrupta, mas que exige grande ascese, a ponto de não ter preocupação de autor... e Gracq evoca a Torre de Babel, esforçando-se cada um, na realidade, por tirar o seu da reta. Pode-se notar de passagem que Gracq recusará o prêmio Goncourt por “Le Rivage des Syrtes” em 1951.

Para suprir essa ausência de órgão de expressão e para reunir a equipe num trabalho comum, Breton tem a ideia de um Almanaque surrealista do meio século. Tomando por pretexto o ano de 1950, os Surrealistas passam mais uma vez em revista suas referências, suas amizades e seus métodos: assim, um capítulo dá definições de objetos, à primeira vista estapafúrdias, mas que levam a uma poesia oculta e significativa. Por outro lado, esse gênero de obra, o almanaque, apresentava o grande interesse de uma difusão fácil, podendo estourar para fora dos meios intelectuais habituais e atingir, por isso, uma clientela mais ampla e nova, como os objetos surrealistas do pré-guerra.

A VIRADA DO MEIO SÉCULO

Nesse ano do meio século termina um primeiro período do pós-guerra; o número 1950 introduz um corte fácil, mas o que o justifica sobretudo é a modificação do clima político, ao mesmo tempo no plano interno e no externo: por um lado, os stalinistas da Europa Central mostraram a todos o que podiam fazer e, por outro, na França o Partido Comunista perdeu seu grande peso político.

Doravante os Surrealistas ficarão muito menos sujeitos ao bloqueio dos intelectuais marxistas e poderão ter acesso às mass–media, jornais, rádio, cinema.

Uma grande enquete de Francis Dumont no jornal Combat, em maio de 1950, “Os intelectuais franceses diante do comunismo”, permite avaliar o quanto Breton está decepcionado com a ação política; vê-se também que ele reencontra, e até acentua, o apelo à via esotérica, o que lhe ocasionará não poucas dificuldades diversas:

“Que se pode ainda esperar, em 1950, do comunismo? Por causa de sua identificação presente com o stalinismo, nada mais espero dele senão o execrável. Nessas condições, é bem evidente que as duas necessidades que o surrealismo sonhara fazer uma só, ‘transformar o mundo’, segundo Marx, e ‘mudar a vida’, segundo Rimbaud, foram, ao longo dos últimos quinze anos, cada vez mais separadas e opostas. E, no entanto, não desespero de que se reencontrem. Para isso seria preciso restabelecer a ponte que, no tempo de Saint-Simon, de Fourier, do Abade Constant, de Enfantin, de Flora Tristan, fazia comunicar livremente e tornava indiscerníveis uns dos outros aqueles que trabalhavam pela libertação do homem e da mulher, aqueles que tinham em vista a emancipação do espírito.”

Por outro lado, no mesmo momento certos meios cristãos se esforçam por extrair do Surrealismo uma versão cristã ou ao menos religiosa, o que exige sérias contorções, como já dissemos.

Em 1950 sai uma obra muito importante de Michel Carrouges, “André Breton et les données fondamentales du Surréalisme”. No capítulo intitulado “Surréalisme et Ésotérisme”, joga muito habilmente com a linguagem (o que é, aliás, uma das características do esoterismo) para atribuir ao Surrealismo visões religiosas; que haja nisso uma parte de verdade, que o surrealismo tenda ao panteísmo, é bem exato, mas não se deve jogar com as palavras, e o “cristão” Carrouges devia sabê-lo e abster-se.

Uma ocasião, bela demais, oferece-se a Breton para prová-lo, com o caso Michel Mourre, jovem dominicano renegado que aproveitara a grande missa solene da Páscoa de 1950 para lançar do púlpito de Notre-Dame de Paris um violentíssimo ataque anticristão. O jornal Combat abrira uma enquete sobre o assunto junto aos intelectuais, a maioria dos quais desaprovava esse escândalo, e Breton respondeu com uma carta aberta:

“Um escândalo em Notre-Dame? A sorte está lançada e não haverá cerimônia de purificação que o impeça. É bem ali, no próprio coração do polvo que ainda estreita o universo, que o golpe no vivo é desferido. É aliás ali que, por vezes, na juventude, sonharam, como eu, desferi-lo homens com quem fiz ou continuo a fazer caminho: Artaud, Crevel, Éluard, Péret, Prévert, Char, muitos outros. Em favor de Michel Mourre, penso que nenhum dos que vivem se furtaria, quando se trata de lembrar e de testemunhar essa profunda comunidade de intenção.”

Vê-se que Breton realmente não é religioso, e no entanto essa questão das posições pretensamente espiritualistas de Breton levará o grupo à beira da explosão no decorrer do ano de 1951; sem dúvida trata-se aí de um pretexto, ou antes de um fator de cristalização que provoca a solidificação de toda uma série de tensões antigas, mas inaparentes, ao menos para nós.

Carrouges faz uma conferência no Centro dos Intelectuais Católicos Franceses sobre o tema “Em que pé está o Surrealismo?” – Henri Pastoureau, um dos pilares do movimento surrealista, vai fazer obstrução e lê o panfleto intitulado “A la niche les glapisseurs de Dieu”. Vendo em seguida que os membros do grupo não ficaram muito contentes com sua iniciativa, lança contra eles um manifesto batizado “Aide-mémoire”, no qual lhes censura as relações com Carrouges e sobretudo os acusa de tibieza ateísta. Benjamin Péret e André Breton respondem com aspereza e fazem os membros do grupo subscrever seu texto, de modo que Pastoureau se vê sozinho com Patrick Waldberg; ambos são então dispensados, enquanto as pontes são cortadas com Carrouges.

Tendo o Figaro em seguida anunciado a dissolução do grupo surrealista, Breton responde numa retificação precisando a natureza do surrealismo, mais movimento aberto do que grupo fechado e, embora deplorando que as circunstâncias presentes não tenham permitido uma maior exteriorização de sua posição revolucionária, lembra que esta jamais foi abandonada e que continua um dos pilares fundamentais do movimento.

Esse gênero de acusação, ser religioso e não ser mais revolucionário, era particularmente grave no meio intelectual; o grupo publica uma declaração coletiva datada de 24 de maio de 1951, intitulada “Haute Fréquence”. O título, por si só, é evocador de firmeza, de paixão mesmo, e não de amolecimento. O conteúdo insiste particularmente na primazia da liberdade e da revolta, na hostilidade visceral, total, à moral judaico-cristã e no interesse do esoterismo bem compreendido, isto é, não como uma vaga religiosidade deísta, sucedâneo do cristianismo, mas como o meio de devolver ao homem os poderes de que foi espoliado (e que lhe permitirão fazer-se deus no lugar de Deus...).

Essa declaração foi subscrita por trinta e dois membros do grupo, dos quais a maioria é muito jovem e metade acabava de aderir nos últimos três anos, alguns mesmo recentemente; é notadamente o caso de uma nova leva que vai dar ao grupo nova atividade, com três arquitetos, Guy Doumayrou, Claude Rochin e Bernard Roger, e três especialistas em cinema, Ado Kyrou, Robert Benayoun e Georges Goldfayn, animadores de uma revista, L’Âge du Cinéma, que querem combater o “realismo lamaçal” para defender o “Onirismo cinematográfico”.

O cinema é, com efeito, um meio revolucionário importantíssimo (sobre cujas origens deveremos debruçar-nos um dia), de eficácia temível, como exprime Benjamin Péret num artigo intitulado “Contra o cinema comercial”: “Jamais nenhum meio de expressão engendrou tanta esperança quanto o cinema. Por ele, não somente tudo é possível, mas o maravilhoso é posto ao alcance da mão.” “O cinema deveria ser a primeira arma contra os semeadores de calma e de quietude da alma.”

Kyrou vê no cinema “o herdeiro do frenesi romântico que, de Apuleio a Sade, de Sade a Lautréamont e de Lautréamont ao Surrealismo, ilumina a literatura com suas cores ofuscantes.”

Goldfayn precisa, por sua vez, que “o cinema é um empreendimento de transmutação da vida e, portanto, a grande aventura mental da vida moderna. Deve escapar a toda redução à mera estética ou técnica para tornar-se o veículo de um poder extremo de transtorno poético.”

A revista “L’Âge du Cinéma” analisa a obra de grande número de realizadores para ressaltar a parte surrealista de seus filmes, mas sobretudo recorda a parte própria dos próprios surrealistas:

– depois de 1920, Hans Richter, Picabia (em colaboração com René Clair), Marcel Duchamp e Man Ray, e sobretudo Buñuel e Dalí, com “Um cão andaluz” em 1928 e “A Idade de Ouro” em 1930. Este último filme sempre foi considerado a obra-prima surrealista e, embora proibido pela censura, é aquele que as cinematecas mais projetam e com mais sucesso.

– depois de 1945, certos surrealistas escrevem roteiros: Artaud, Péret, Soupault e sobretudo Brunius, que consagrou desde então toda a sua atividade ao cinema. Nos Estados Unidos, Richter trabalhou com Marcel Duchamp, Max Ernst, Man Ray, Calder e Fernand Léger num filme projetado na França em 1953. Na própria França, em 1951, Heisler realiza uma série de curtas-metragens, “Revue du Surréalisme filmée”, e em 1952 Zimbacca, Bédouin e Péret fazem um média-metragem, “L’invention du monde”; os autores desse filme se propunham “exaltar as artes selvagens e pôr em valor suas implicações mitológicas e simbólicas” e, para isso, depositavam “confiança no poder de expressão e de evocação da imagem, que apela tanto ao inconsciente do espectador, onde jazem os arquétipos, quanto às suas faculdades de encadeamento lógico”.

Mais uma vez, convirá consagrar todo um estudo ao cinema como elemento determinante do transtorno atual, e seria preciso debruçar-se ao mesmo tempo sobre suas origens históricas, suas técnicas e seus temas, e isso mesmo fora do cinema propriamente surrealista.

No plano internacional, o Surrealismo continua a irradiar: em 1951, o poeta mexicano Octavio Paz, futuro Prêmio Nobel, publica uma obra, síntese entre a mitologia asteca e o espírito surrealista; ainda em 1951, na Áustria, Max Hölzer publica em Viena uma coletânea intitulada “Surrealistische Publikationen”, e em 1952 o pintor Edgar Jené organiza em Saarbrücken, sob os auspícios da missão diplomática francesa, uma exposição “A pintura surrealista na Europa”.

Na França, o Surrealismo conquistou direito de cidadania: em sua edição de 1952, o Petit Larousse dá-lhe uma definição, professores o comentam na Sorbonne e, também em 1952, André Breton é convidado a dar no Rádio dezesseis entrevistas semanais sobre a história do Surrealismo. Entretanto, o movimento já não tem órgão de expressão próprio, vê-se reduzido, segundo a expressão de Breton, a seguir um curso subterrâneo, e será levado a colaborar em duas publicações, o semanário Arts e o órgão da Federação anarquista e libertária, entre outubro de 1951 e janeiro de 1953.

Em uns quarenta bilhetes semanais, os Surrealistas se esforçaram por provocar em seus leitores anarquistas, especialistas da revolta social, uma adesão à revolta intelectual e moral do surrealismo; na verdade, se essa colaboração lhes foi oferecida, foi porque, no seio da organização anarquista, uma minoria ativa tentava renovar e alargar a própria ideologia anarquista.

Por seu lado, o semanário Arts, de tiragem muito grande, o primeiro da França no gênero, devia fornecer uma tribuna de primeira importância em várias circunstâncias, por ocasião de grandes polêmicas.

A primeira dessas polêmicas deu-se entre Breton e Albert Camus, em outubro–novembro de 1951, por ocasião da publicação do livro “O Homem revoltado”. Toda a tese de Camus vai efetivamente de encontro ao próprio princípio do Surrealismo, e mostra que, longe de engrandecer o homem, a revolta o diminui e escraviza, e que, precisamente, nos tempos modernos o culto da revolta absoluta conduziu à escravidão absoluta; Camus pensava sobretudo nos regimes totalitários que a humanidade acabava de descobrir, sendo os estragos da droga, que teriam respondido à mesma análise, ainda bastante moderados. A polêmica foi muito viva, permitindo-se Camus atacar todos os deuses da revolta e do Surrealismo: Sade, Rimbaud, Lautréamont.

Pouco depois, em dezembro de 1951, começa outra polêmica. Tendo um programa radiofônico apresentado Alfred Jarry, pai de Ubu Rei, como poeta cristão, Péret pegou fogo e respondeu em Arts, o que, a bem dizer, não era difícil, sendo a tese idiota. Os surrealistas puderam assim mexer o caldeirão e provocar uma enxurrada de testemunhos em Arts: Aimé Patri, Julien Gracq, Luc Estang, Max-Pol Fouchet, Michel Carrouges, Roland de Renéville, Jacques Prévert, Pieyre de Mandiargues e Jules Monnerot; tudo isso permitiu uma intensa propaganda das teses revolucionárias junto ao grande público, graças ao canal do jornal literário mais lido da França.

Uma terceira polêmica, no início de 1952, relativa à arte, levantou-se entre os Surrealistas que escreviam em Arts e os Comunistas que escreviam em seu Jornal “Les Lettres Françaises”. Os comunistas defendiam o realismo socialista, e os surrealistas pregavam a arte como fermento de liberdade e de revolução; como ilustração da tese surrealista, para afirmar seu desenvolvimento prático, teve lugar em maio de 1952, no Museu de Arte Moderna de Paris, uma grande exposição pictórica, “A Arte do século XX”.

Viram-se ali algumas obras dos precursores do século XIX, Seurat, Gauguin, Van Gogh, Renoir, Cézanne, e sobretudo representantes das diversas escolas modernas: Munch, Picasso, Matisse, Duchamp, Picabia, Kandinsky, Chirico, Mondrian, Modigliani, Chagall, Derain, Braque, Juan Gris, Dalí, Ernst, Masson, Miró, Matta, Tanguy e Rousseau, “todos participando, segundo a expressão de Breton, da grande busca espiritual, aquela que tende a exprimir o conteúdo latente de nossa época e a conciliar as aspirações e as premonições do homem”. No mesmo momento, Breton e Péret publicam no jornal Arts uma história em quadrinhos comentada, “A vida em imagens de Pablo Picasso”.

Nesse fim do ano de 1952, a equipe surrealista aparece como solidamente reformada após as dificuldades da guerra e do pós-guerra, e é evidente que saiu do gueto em que os comunistas haviam querido encerrá-la; fala até muito alto, e todos a ouvem.

Em novembro de 1952 consegue dotar-se de um novo órgão de título significativo, Medium, cujo primeiro número anuncia a iminente abertura de uma galeria, “À l’étoile scellée”, bem como a próxima publicação de uma dezena de obras emanadas de diversos membros da equipe: Benayoun, Kyrou, Breton, Malcolm de Chazal etc.

Sobretudo, talvez, Breton dá notícia do ensino esotérico público, de desocultação evidentemente, que René Alleau ministra a cada domingo à tarde na sala da Sociedade de Geografia, sobre o tema: os textos clássicos da Alquimia, e notadamente uma obra escrita em 1669 em Londres por Eyrenaeus Philalethes (amigo da Liberdade). Esse interesse não é novo, já tivemos mais de um testemunho dele, notadamente no segundo manifesto, em 1929, no qual Breton se exprimia nestes termos:

“Peço que se queira observar que as pesquisas surrealistas apresentam, com as pesquisas alquímicas, uma notável analogia de objetivo: a pedra filosofal não é outra coisa senão aquilo que devia permitir à imaginação do homem tomar sobre todas as coisas uma desforra retumbante, e eis-nos de novo, depois de séculos de domesticação do espírito e de resignação louca, a tentar libertar definitivamente essa imaginação pelo ‘longo, imenso, racional desregramento de todos os sentidos e o resto’.”

O surrealismo é, quer ser, essa alquimia do Verbo anunciada por Rimbaud, e Breton acrescenta: “alquimia do verbo: essas palavras, que se vão repetindo um pouco ao acaso hoje, pedem para ser tomadas ao pé da letra”.

Seria bastante vão e fastidioso prosseguir um paralelo bem obscuro entre essas duas noções, elas próprias pouco claras: notemos, contudo, uma dupla correspondência: assim como a alquimia visava primeiro um domínio dos elementos materiais, o Surrealismo visa o domínio do verbo para fazer sair das palavras um poder desconhecido (cf. o automatismo verbal, e, na alquimia, o que se chama a língua dos pássaros) destinado a transformar os espíritos. Num plano mais elevado, no nível da pessoa, assim como a alquimia conduz o postulante à iniciação, isto é, à iluminação panteísta, o Surrealismo, por seu lado, visava determinar o ponto em que se resolvem as contradições, em que o homem se sente igual a Deus, ou mais exatamente imagina tomar o lugar de Deus.

René Alleau conhecera o Surrealismo antes de lançar-se no ocultismo e, por sua própria confissão, esse encontro orientara seu futuro. Breton e Alleau criaram laços muito estreitos, participando reciprocamente de seus trabalhos; até onde se desenvolveram essas relações, e os surrealistas passaram das palavras aos atos? Não o sabemos.

Mas o espírito, em todo caso, era bem comum, e essa convivência só podia levar os surrealistas a um aprofundamento de seu pensamento na linha traçada por esta definição de René Alleau:

“Não apenas a ascese alquímica proclama a unidade da matéria, como testemunha a união da matéria e da consciência, como da soberana potência do ‘espírito libertado’, fórmula que exprime à maravilha a união do Monismo e do Panteísmo.

Tocamos assim naquilo que constitui um dos dados fundamentais do pensamento revolucionário através dos tempos e das regiões: a divinização do homem e do mundo, perseguida há séculos, no paganismo antigo primeiro, depois no neopaganismo, quer durante os quatro primeiros séculos, quer mais tarde em diversos períodos da Idade Média, nos séculos XI–XII em diversos movimentos ‘populares’, nos séculos XIV–XV–XVI nos cenáculos rosa-cruzes, enfim nos séculos XVIII e XIX na Maçonaria moderna.”

Em dezembro de 1952 abre-se a Galeria “À l’Étoile scellée”, logo ocupada pela exposição de um recém-chegado, refugiado húngaro, Simon Hantaï, que Breton saúda nestes termos: “Mais uma vez, como talvez a cada dez anos, uma grande partida.”

De modo geral, a galeria vai encontrar-se, durante alguns anos, no centro de um carrossel de tendências pictóricas; digamos apenas que o “realismo socialista” está em séria perda de velocidade, assim como certa arte abstrata, enquanto sobe a cotação da arte surrealista, como testemunham numerosas exposições: Paalen em dezembro de 1952, Picabia em janeiro de 1953, Wilson em março de 1953, Wifredo Lam no mesmo mês, Miró em maio de 1953.

Aparece em maio de 1953 o sueco Svanberg, que se reclama de Hieronymus Bosch (pintor da Idade Média, membro de uma seita gnóstica e cuja obra é célebre) e de Arcimboldo (pintor fantástico do Renascimento).

Em fevereiro de 1953, a revista “Medium” publica um artigo “Abstração e Surrealismo”, testemunho de uma evolução que dará origem à escola da abstração lírica. O autor do artigo, Charles Estienne, quer “apressar o momento em que o interior da vista se terá tornado o exterior da visão”; admirado diante dessa fórmula magnificamente subjetiva, Breton conclui:

“Nesta última fórmula, entre todas impressionante, reside o princípio de unificação de duas tendências atuais da pintura, cujos adversários comuns têm interesse em explorar a oposição aparente. Longe de persistir em querer excluir-se, uma e outra devem adotá-la com entusiasmo como senha de reunião.”

Breton reconhece com isso o quanto a coexistência de duas tendências — e de quantas subtendências! — era difícil e constituía fonte de fraquezas ao mesmo tempo para os pintores e para o público visado, dificuldade que se poderia resumir assim: como casar Picasso e Salvador Dalí no plano da arte, sem falar de política, já que Dalí se ligava a Nova York e Picasso a Moscou?

A galeria da Étoile Scellée acolhe assim toda uma série de exposições diferentes pela forma, do mais abstrato ao mais figurativo, mas semelhantes pelo pensamento e pela intenção; grande número de jovens pintores são sensíveis a essa abertura e se reencontram em torno desta definição de Jean Schuster:

“O pintor deve ser o inventor de um tesouro dotado de alto potencial simbólico: que esperar dele, senão o transtorno das estruturas mentais que deve culminar na inversão de sinal da luta secular do homem contra o real, sendo o primeiro já, até nova ordem, presa do segundo.”

Essa concepção encontrava igualmente boa acolhida junto à maior parte da crítica internacional, como veremos adiante.

Voltando à literatura, no decorrer desse verão de 1953, Breton e Péret, de férias em Saint-Cirq-Lapopie, inventam e põem a ponto um novo método, o Jogo do um no outro: é um sistema muito sutil de imagens, de evocações, que permitem fazer explodir o sentido preciso das palavras e fazer aparecer assim um novo pensamento; os membros do grupo parecem ter atribuído grande importância a esse método, comparável ao automatismo verbal.

Durante o inverno de 53–54, o boletim “Medium” torna-se uma luxuosa revista, cada número sendo ilustrado por um pintor do grupo: Hantaï, Paalen, Svanberg, Lam. O conteúdo também se enriquece, notadamente com o aporte de autores vizinhos, todos da mesma linhagem: Raymond Abellio trata da metapsíquica, Lancelot Lengyel da arte celta; René Alleau e seu mestre em ocultismo Eugène Canseliet colaboram também regularmente.

No decorrer do verão de 1954 sobrevém um acontecimento memorável que vai agitar mais uma vez, e muito violentamente, a barca surrealista.

Os organizadores da 27.ª Bienal de Veneza colocam sua exposição sob o signo do Fantástico na arte, fantástico e não surrealismo porque haviam tido medo da palavra, mas a intenção estava lá, e aliás uma quinzena de pintores surrealistas figura nas paredes; mas, evidentemente, esse acolhimento, que consagra a irradiação surrealista, implica também uma consagração social de certos autores surrealistas, e Max Ernst, Arp e Miró recebem o grande Prêmio de pintura da Bienal, o que é surpreendente (embora muito humano) da parte do muito inconformista Ernst.

O grupo surrealista pegou fogo e publicou imediatamente uma declaração indignada de exclusão de Max Ernst, acusado de desorientar a juventude por sua atitude. Tudo isso foi ocasião de belos tumultos e, para esclarecer a situação, Charles Estienne lançou no fim do ano de 1954 uma grande enquete sobre “a situação da pintura em 1954”, sob a forma de um questionário detalhado ao qual responderam grande número de jovens pintores; a intenção real era evidentemente reconduzir os espíritos à verdadeira concepção surrealista da arte.

Entre as respostas, faremos duas citações significativas, a de Altan e a de Svanberg.

Depois de um texto de Sade em que este conta a história de um estupro, o estupro de Justine em “Justine ou os infortúnios da virtude”, Altan conclui:

“A orientação do surrealismo? Poderia ser ajudar positivamente o homem, fora de toda ‘literatura’ e talvez sobretudo pela pintura... a entrar em comunicação com as potências cósmicas, a criar ‘formas novas’ suficientemente carregadas de sangue, de vida, de violência, para constranger o homem a esses breves momentos em que, à força de êxtase e de loucura, ele se ultrapassa e se justifica.”

O texto do sueco Svanberg resume perfeitamente a exposição que ele deveria realizar na primavera seguinte, em março–abril de 1955, na galeria L’Étoile Scellée:

“A mulher representa a meus olhos um mundo sobredeterminado em que todas as minhas ideias de beleza, de poesia, de agressão, em que minha alegria de viver e sua companheira inseparável, o terror do efêmero, a talharam nas inumeráveis facetas da nostalgia da beleza. A mulher é para mim uma divindade que adoro por minha arte e através dela. O peixe e o pássaro, a borboleta e o beijo, a flor ardente e meu olho, a língua do mar e os braços brancos da praia, os saltos altos sonoros e o ouvido que os embala, tudo é a mulher em minha pintura. Por seus atributos sedutores, ela dissimula e revela, esquiva-se e ataca, adorna, intensifica, mas jamais dá resposta definitiva. É uma visão de metamorfose que, quando se crê apreendê-la, escapa, torna-se talvez um sol radiante. Desliza entre arcos votados à eternidade, um olho olha. O olho torna-se um peixe fusiforme, sua íris deslizou um pouco para o lado e forma a cabeça. O peixe volta a ser uma mulher de quadris redondos, a cabeça é um sol que lentamente se liberta para de novo irradiar como o retrato eterno de minha mulher.”

Texto que provocou, no número 3 da revista Medium, o seguinte comentário de Breton: “Conto entre os grandes encontros de minha vida o da obra de Max Walter Svanberg, que me permitiu apreciar por dentro, fazendo-me sofrê-lo em toda a sua força, o que pode ser a fascinação.”

Sempre fiel à técnica do questionário, “Medium” lança outra enquete: “Abririeis? isto é, abririeis vossa porta, se se apresentassem, a Baudelaire, Hegel, Novalis, Freud etc., e por quais razões?” A inspiração, como se vê, não mudou?

Testemunha-o igualmente um artigo de Jean Bruno na Revue Métapsychique sobre “André Breton e a magia cotidiana”, em fevereiro de 1954, título retomado pelo próprio Breton, “Magie quotidienne”, para um artigo publicado no primeiro número da Revista “La Tour Saint-Jacques” em novembro de 1955; o simples nome dessa nova publicação sublinha o vínculo, ao menos teórico, com a alquimia.

Nesse mesmo ano de 1954, Michel Carrouges comete um novo livro que suscita numerosos protestos no seio do grupo, Les Machines célibataires; sua tese é que a barbárie moderna, ao mesmo tempo materialista científica e ideologicamente totalitária, provém em boa parte do pensamento de homens como Duchamp, Kafka, Roussel, e ele a resume assim:

“O mito das ‘Máquinas celibatárias’ (alusão ao quadro de Duchamp A Noiva despida por seus celibatários, mesmo) significa de modo evidente o império simultâneo do maquinismo e do mundo do terror... O mais extraordinário, talvez, desse ponto de vista, é que as terrificantes máquinas inventadas por Duchamp, Kafka, Roussel erguem lado a lado suas silhuetas fantásticas no limiar da era da barbárie científica e concentracionária... Seria pueril crer que os maiores gênios de nosso tempo se divertem com jogos irreais e que disfarçam seu pensamento por prazer. Por mais bizarros que possam parecer seus grandes jogos, fazem aparecer em traços de fogo o mito maior em que se inscreve a quádrupla tragédia de nosso tempo: o nó górdio das interferências do maquinismo, do terror, do erotismo e da religião ou da antirreligião.”

Retomava assim a tese já esboçada por um ex-surrealista, Raymond Queneau, para quem Kafka, Sade e Swift são os precursores do fascismo.

É bastante divertido para nós, situados como estamos, ver diversos representantes do mesmo espírito atirarem na cara uns dos outros os diversos aspectos da mesma doutrina, aspectos que querem crer contraditórios, mas que sabemos serem complementares: a Revolução, como o demônio, tem sempre duas faces; ambos lhe sorriem pela frente enquanto o destroem por trás. É realmente cômico que discípulos tão fervorosos de Sade ainda não conheçam semelhante evidência, a ponto de se crer que não o leram...!

No prolongamento desses tumultos, o número 4 da revista Medium publica um novo manifesto, “Do Surrealismo em suas obras vivas”, em que Breton conclui:

“A intuição poética, enfim desenfreada, do Surrealismo... pode sozinha prover-nos do fio que nos recoloca no caminho da Gnose, enquanto conhecimento da Realidade Suprassensível.”

Esse mesmo número 4 contém também a primeira alusão à Argélia, e Breton afirma: “Mantemo-nos inteiramente solidários com os insurgentes, cuja luta é a nossa.” O período que começa por volta do ano de 1955 vai encontrar-se, pela natureza das coisas, um pouco mais marcado pela política em duas direções, a Argélia e a Europa do Leste, onde diversos povos, Polônia e Hungria, se sublevam. Não se deve esquecer, sobretudo, o 20.º congresso do P.C. russo, aquele em que Kruschev desbancou Stálin, cujas consequências foram tão importantes e que justificava a posteriori as posições antistalinistas dos Surrealistas.

No plano da Argélia, os surrealistas aderem ao Comitê de Ação dos Intelectuais franceses contra a continuação da guerra na África do Norte e, em 20 de abril de 1956, Breton pronuncia um discurso durante um comício “Pela defesa da Liberdade”.

Do lado do Leste, em outubro de 1956, os surrealistas publicam “Hungria Sol Nascente”, em que, retomando suas posições ultrarrevolucionárias, querem ver na revolução húngara o sol nascente da verdadeira revolução mundial (quando na realidade se tratava dos primeiríssimos passos de uma verdadeira contrarrevolução popular...).

Na mesma época aparece o primeiro número de uma revista luxuosa, “Le Surréalisme, même”, em que as reproduções de obras plásticas ocupam grande espaço; aparecem igualmente os primeiros trabalhos de um jovem canadense, Jean Benoît, cujos quadros–objetos devem ser, segundo ele próprio, “o lugar geométrico do erotismo, do irracional poético e da Subversão”.

GUINADA À DIREITA...?

A partir de 1957 assiste-se a um curioso fenômeno, embora não seja extraordinário para quem conhece um pouco a Revolução: trata-se da guinada à direita de certo número de espíritos que então frequentavam as águas revolucionárias e surrealistas. Como isso se operou? Mistério. O certo é que essa corrente aparece já em outubro de 1956 a propósito da Hungria: o pintor Hantaï toma posição pela revolta antirrussa, mas também anticomunista, antimarxista, o que deixa os surrealistas furiosos. A tendência se confirma no mesmo ano a propósito da Argélia, em torno do pintor Mathieu que, em janeiro de 1957, toma posição contra a FLN argelina.

Mas o fato mais rico em ensinamentos foi, em março de 1957, o ciclo de comemoração da condenação pela Igreja do discípulo cristão de Averróis, Siger de Brabante (1235–1281), organizado por Mathieu e Hantaï. No programa–manifesto desse ciclo, patrocinado por Paulhan e Pauwels [6], encontram-se citados como técnicas de aviltamento do homem, ao lado, claro, do pensamento cristão, o ensino laico, os seguros sociais e o sufrágio universal.

Visto com trinta e cinco anos de recuo, tudo isso exala um certo perfume doravante bem conhecido, um certo resquício de Nova Direita, da qual não é proibido pensar que lançava ali seus primeiros marcos públicos dez anos antes de sua fundação oficial.

Os Surrealistas denunciaram a manobra num panfleto intitulado “Tiro de advertência”, do qual extraímos estas linhas: “O grupo capetiano que se contou na galeria Kléber pode dispor de apoios poderosos, dos quais quisemos assinalar alguns. Pode pretender invadir certos domínios (esoterismo, arte medieval etc.) em que o surrealismo abria seu próprio caminho. Mas, sob nenhum pretexto, aceitaríamos ser confundidos com ele. Alegramo-nos, ao contrário, de que a prova seja feita, mais uma vez, de que o inimigo principal, constante e perigosamente ativo, do pensamento livre nesta metade do mundo é a Igreja.”

A concorrência é, pois, dura, já que, por assim dizer, até a “direita” se mete nisso! Mas Breton não pretende por isso mudar de terreno e, nesse ano de 1957, escreve “L’Art magique”, que conclui assim: “Se não cabe ao Surrealismo desempenhar o papel, forçosamente confusional no quadro da sociedade atual, dos magos que talvez façam cruelmente falta a essa sociedade, nem decidir os debates entre as diversas tendências que se reclamam da ‘Tradição’ esotérica, sua palavra de ordem fundamental: libertação sem condição do espírito no sentido do melhor, apenas dá, ou devolve, o impulso moral e poético ao que foi o voto da magia, seu segredo diversamente confessado, sempre ameaçado e jamais dissolvido ao longo dos séculos.”

Tal aparecia, visto de fora, o movimento surrealista, como testemunha a apreciação do escritor não surrealista Dionys Mascolo numa obra publicada pelas Éditions de Minuit em 1957, “Lettre polonaise sur la misère intellectuelle en France”:

“É preciso insistir na extrema importância do único movimento de pensamento que a França conheceu nessa primeira metade do século XX. Oriundo da burguesia, nutrido de literatura, assim como aqueles que deviam tornar-se literatos de carreira, um grupo se formou em torno da pessoa exigente de André Breton para impor a todos, em termos que não é possível esquecer, um conjunto de convicções, de injunções, de lembretes, de definições, de regras que compõem uma ética intelectual... Associando Marx e Rimbaud indissoluvelmente (mudar a vida – transformar o mundo), pondo a primazia da poesia sobre toda outra realidade, mas rebaixando abaixo das atividades mais servis a poesia que se julgasse no direito de negligenciar a ação revolucionária, pondo que a poesia é conhecimento, ligando sem escapatória possível o lirismo às pesquisas das ciências humanas, oposto a toda literatura que se apresentasse como superior à imaginação, a toda mística que se apresentasse como superior à razão, o grupo surrealista, em pouco tempo, fez muito mais do que acumular obras: constituiu um espírito.”

Essa análise, ao mesmo tempo concisa e completa, parece-nos constituir o melhor resumo possível da questão; não é sem sentido, sem dúvida, que ela emane, nesse ano de 1957, de um autor comunista e seja publicada na França numa casa editorial muito próxima do Partido. Poder-se-ia dizer que lentamente a paisagem se moveu, à direita como à esquerda, sinal de uma ampla penetração da ideologia surrealista em meios diversos.

Essa abertura será facilitada pelos acontecimentos de 1958, e os Surrealistas participam da fundação de um periódico aberto a toda a esquerda intelectual, “14 Juillet”, cujo primeiro número sairá em 14 de julho de 1958. Três números aparecerão, nos quais colaborarão surrealistas como Breton, Bédouin, Benayoun, de Mandiargues, Péret, sartrianos como Péju, Pouillon, e intelectuais comunistas em ruptura com o Partido, como Antelme, Morin, Marguerite Duras, Duvignaud, Vittorini, Rolland, bem como, aliás, Maurice Blanchot.

Por outro lado, nesse fim de 1958, os Surrealistas criam um novo órgão destinado a assegurar a permanência do movimento, “Bief”.

O ano de 1959 verá a morte de vários membros do grupo: Péret primeiro, em 18 de setembro, em Paris, o mais próximo de Breton e o mais fiel; depois Paalen, suicidado na Cidade do México no fim de setembro, e, em 6 de outubro, Jean-Pierre Duprey, suicidado em Paris.

Esse ano de 1959 verá sobretudo a realização da 8.ª Exposição Internacional do Surrealismo, que toma por tema “o Erotismo” e que, segundo Breton, “convida os visitantes a empreender um reconhecimento em plena floresta virgem na própria Paris, no limiar de 1960”.

Breton precisa que o Erotismo de que se trata aqui é o oposto da pilhéria licenciosa e que é uma colocação em questão, a mais radical que há, da vida interior e do próprio ser do homem. Seu verdadeiro ponto de mira é a interdição, imemorial, universal, que pesa tanto sobre o pretenso civilizado quanto sobre o pretenso selvagem, e que é preciso começar por desembaraçar da imensa moita de preconceitos que a recobre.

Na mesma época em que escreve essas linhas para o Aviso aos expositores e aos visitantes, preside uma reunião privada que congrega uma centena de participantes, na qual Jean Benoît encena o testamento de Sade e termina sua representação marcando-se a si mesmo com um ferro em brasa com as iniciais de Sade.

Em 1960, Breton participa do Manifesto dos 121, tomada de posição de 121 intelectuais franceses em favor da FLN, que devia ter grande influência pelo alarde midiático que permitiu. Em 1961 funda e dirige uma última revista, “La Brèche”, e em 1962 toma a palavra no Père-Lachaise por ocasião da cremação da viúva de Trótski. Durante os três anos seguintes prepara longamente a 9.ª Exposição Internacional do Surrealismo, que teve lugar em novembro de 1965 na Galeria de l’Œil.

Parece certo que doravante, e já há vários anos, a atividade do grupo perdeu o fôlego; revezada na periferia pela multidão dos grupos internacionais, já não é praticamente produtiva em seu centro desde o ano de 1960, como se Breton se encontrasse um pouco isolado em meio às novas gerações.

Durante o verão de 1966, enquanto passa férias, como todos os verões, em sua propriedade de Saint-Cirq-Lapopie, no Lot, adoece; levado às pressas para Paris, ali morre em 28 de setembro e é enterrado em 1.º de outubro de 1966 no cemitério des Batignolles.

Dezoito meses depois deu-se a explosão de maio de 1968, na qual se haveriam de reencontrar todos os temas surrealistas, em profundidade nos princípios e por vezes até nas fórmulas contundentes nos muros.

É preciso, contudo, precisar que essa juventude, que se tornou mobilizável em 1968, não tinha sofrido, ou quase não, a influência direta do Surrealismo, mas havia sido formada, ou antes deformada, por uma multidão de mestres e de organizações que, esses sim, haviam recebido diretamente a influência surrealista e dela tinham extraído o impulso determinante.

Outro estudo a fazer sobre todos esses grupos exigiria longo trabalho; contentemo-nos em fixar alguns pontos particulares, esperando que estes vislumbres provoquem vocações de pesquisadores.

Lembremos primeiro algumas organizações nascidas na mesma época que o Surrealismo, num espírito comparável, e cujos esforços se cruzaram para participar de um mesmo transtorno dos espíritos.

Em Weimar, na Alemanha, em 1919, um arquiteto, Walter Gropius, funda com alguns camaradas dadaizantes a BAUHAUS, corporação de artistas de diversas especialidades que devia tornar-se uma formidável escola de arte moderna. Com efeito, dadaístas, anarquistas, revolucionários, os membros da Bauhaus vão revolucionar na prática a arquitetura e a decoração, na Europa primeiro e depois, a partir de 1933, na América, depois que a chegada dos Nazistas ao poder os levou a emigrar para os Estados Unidos, onde haveriam de fazer furor e criar o que hoje se chama “design”.

Ainda durante a primeira guerra mundial, em 1917, foi fundada em Viena, na Áustria, a VMP, escola privada de música, por Schönberg, que realizou em matéria musical o mesmo trabalho revolucionário que a Bauhaus: é a origem da música moderna, serial. Schönberg emigrou igualmente para os Estados Unidos em 1933. Essa cidade de Viena, onde grassava também Freud na mesma época, mereceria um estudo próprio como foco revolucionário: ali se elaboraram, entre 1880 e 1930, grande número dos temas do pensamento moderno, e dali partiram para a França, a Inglaterra e ainda mais os Estados Unidos aqueles que os difundiram pelo mundo.

Alguns anos antes, por volta de 1910, em Munique, Kandinsky, russo de origem asiática, fundara o grupo de pintura revolucionária chamado o Cavaleiro Azul (em alemão “Blaue Reiter”), e tornou-se professor na Bauhaus em 1922.

Após a criação do Surrealismo, aludimos ao grupo “Le Grand Jeu”, que entrou em concorrência com Breton: muito mais que os Surrealistas, os membros desse grupo, Daumal, Vailland, Lecomte, fizeram apelo sistemático à droga para “captar as forças de dentro”, e sua influência reaparecerá muito forte entre os Beatniks e Hippies dos anos 55–70, que são uma das grandes correntes preparatórias de Maio de 68.

Este último traço sublinha o fato de que, para muitos ultrarrevolucionários, o estilo do grupo surrealista permanecia ainda “muito burguês”, ao menos em seu gênero de vida e em seu modo de contestação muito intelectual.

Depois de 1945, quando o grupo de Breton tinha dificuldades para se reformar e sofria o bloqueio comunista, bloqueio que devia durar até o aparecimento da guerra fria, surgiu um novo grupo: a “ditadura letrista”, fundada por um refugiado romeno, Isidore Isou, antigo dirigente da Juventude Marxista Sionista Romena. Os Letristas representavam o mesmo estilo de contestação que os surrealistas em seus começos, com grande violência verbal e, além disso, certo ar “semimendigo”: é a época de Saint-Germain-des-Prés, com o abandono da família, dos estudos e de todo meio de subsistência.

É preciso notar também, e é importante, entre essa juventude europeia, a presença de grande número de Americanos, desmobilizados no local e que, tendo vadiado alguns anos na França, voltavam para casa com novos costumes, bem como de nórdicos, Suecos, Dinamarqueses, Holandeses: todo um pequeno mundo cosmopolita, pronto para a viagem, sem raízes, e que ia efetivamente de Paris a Nova York, ou Amsterdã, ou Copenhague, onde quer que a juventude começasse a se agitar.

Em 1950, o grupo letrista lança uma nova revista, “Front de la Jeunesse”, na qual se prega, dezoito anos antes de 68, a revolta secundarista.

Uma tendência extrema desse grupo fez cisão e fundou em 1953 a “Internacional Letrista”, de tom ainda mais provocador, do gênero “O éter está à venda livre” ou ainda “violentai as menores”; mas pouco tempo depois o início da guerra da Argélia marcava o fim de Saint-Germain-des-Prés e as diversas equipes se viram dispersas.

Só a partir de 1957 um novo grupo se solda em torno de um responsável letrista, Guy Debord: é a Internacional Situacionista, cuja contribuição original é a análise da sociedade de consumo nascente: os situacionistas querem mostrar que toda atividade revolucionária é recuperada e se torna mercadoria como outra qualquer, e insistem na ideia de que a revolução deve ser uma festa alegre e gratuita.

Em junho de 1958 aparece o primeiro número da Revista da Internacional Situacionista, depois, muito depressa, a partir de uma cisão, nasce na Holanda o movimento Provo, que põe em destaque o uso livre da droga.

São todos esses grupos que construíram de maneira imediata as teorias e o vocabulário de 68 ao longo de uma dezena de anos de incubação, mas suas fontes, suas raízes, vinham em grandíssima parte do enorme trabalho subversivo efetuado durante quarenta anos pelos Surrealistas.

Haveria lugar para estudar igualmente os movimentos americanos Beatnik e Hippie, com sua dupla raiz “O Oriente e a droga”, já em honra entre os Surrealistas, que desta vez não atinge mais alguns milhares de jovens burgueses, mas milhões de jovens de todos os meios.

O meio humano, os materiais estavam prontos; bastou a vinda a Paris de um “judeu alemão”, como gostava de apresentar-se o próprio Daniel Cohn-Bendit, para que a palha bem seca pegasse fogo...

P.R.

BREVE BIBLIOGRAFIA

MAURICE NADEAU, “Histoire du Surréalisme” – Éditions du Seuil

JEAN-LOUIS BÉDOUIN, “Vingt ans de Surréalisme (1919–1959)” – Éditions Denoël, 1961

ALAIN e ODETTE VIRMAUX, “La Constellation Surréaliste” – Éditions la Manufacture, 1987

REVISTA “LA NRF” n.º 172, “André Breton et le Mouvement Surréaliste” – Ano de 1967

ANDRÉ LEGRAND, “André Breton et son temps” – Éditions Le Soleil Noir, 1976

FERDINAND ALQUIÉ, “Philosophie du Surréalisme” – Flammarion, 1977

TROTSKI, “Littérature et Révolution” – 10/18 UGE, 1964


6 – Louis Pauwels, ex-discípulo do mago Gurdjieff e que concluía então seu livro sobre o mestre, acabava de encontrar Jacques Bergier em circunstâncias que ele mesmo conta: “Isso se deu por intermédio de René Alleau e nos meios surrealistas; eu via com frequência André Breton nessa época e, como procurava um colaborador científico para escrever um livro de prospectiva que me encomendara Pierre Lazareff, René Alleau, amigo e colaborador de Breton, apresentou-me Jacques Bergier. Nunca escrevemos ‘Visa para o futuro’, mas, falando das chances de um casamento possível entre a civilização contemporânea e o pensamento esotérico, empreendemos ‘O Despertar dos Mágicos’, que saiu em 1960 e vendeu mais de um milhão de exemplares, do qual saiu também a aventura Planeta, revista com tiragem de cem mil exemplares.”

“Democracia Clerical”

A única leve censura que se poderia fazer ao livro recentemente editado pelas Éditions Sainte Jeanne d’Arc é sem dúvida a ambiguidade de seu título, que só se torna evidente após a leitura.

Essa fórmula não designa, como se poderia crer, uma preocupação excessiva dos clérigos em escutar a voz dos leigos, mas simplesmente o fato de que os clérigos se puseram ao serviço da Revolução toda vez que ela esteve em perigo.

Toda vez que o povo francês esteve prestes a livrar-se da ditadura revolucionária, ou a caminho de fazê-lo, os chefes da Igreja Católica — e por essa fórmula é preciso designar a hierarquia, os sacerdotes e os intelectuais, tanto leigos quanto clérigos — correram em socorro de seus inimigos naturais.

Esse acomodamento progressivo ao longo de todo o século XIX, acomodamento político, quis-se crer, conduziu logicamente ao acomodamento religioso do Vaticano II, pois a Revolução é UMA. Essa vasta traição, denunciada por numerosos papas e realizada por outros, permanece um mistério insondável em termos humanos, mistério quanto à economia da salvação, mas era necessário estabelecê-la bem em seu desenrolar.

Este pequeno livro o faz de maneira magistral e rápida, que o põe ao alcance de todos os leitores; para convencê-los, reproduzimos abaixo o primeiro capítulo, consagrado à Concordata de Bonaparte.

“O que acabo de fazer em favor da religião era absolutamente necessário. É o fundamento da república. Sem isso, nosso governo não teria durado três anos.”

Tais são as palavras que Bonaparte, primeiro cônsul, dirigia a seu irmão algumas horas após a assinatura da concordata de 1801.

O cardeal Consalvi acabava de apor nela o selo do Papa Pio VII. A tinta ainda não havia secado! Sem essa concordata, “nosso governo não teria durado três anos”! É assim que se exprime o ditador, novo senhor provisório da revolução em marcha, que ele próprio denomina a “república”. Pio VII e seus cardeais acabavam de salvar a revolução cambaleante?

Três anos mais tarde, a ambição do novo “senhor” já não conhece limites. Quer tornar-se imperador e reinar sobre a Europa. É em Notre-Dame de Paris, em 2 de dezembro de 1804, que um Papa semiprisioneiro, semiconsentido, vem prestar-se a uma verdadeira paródia do sacre de nossos reis. Bonaparte, no entanto, arrebatado por seu orgulho e sua ambição, toma a coroa das mãos de Pio VII e a coloca ele mesmo sobre a cabeça. Esse “imperador” não devia durar mais de 10 anos. Mas o Papa, os cardeais, os homens de Igreja estavam lá, caucionando e abençoando esse simulacro e o que se seguiu. Pois mal o pontífice havia voltado à sacristia, o novo “imperador” estendia a mão sobre o evangelho para prestar juramento de permanecer fiel aos princípios da Revolução e de consagrar a vida a mantê-los e difundi-los. Pio VII e seus cardeais acabavam de abençoar e “legitimar” a Revolução triunfante?

Encontraram-se, na época, eclesiásticos de alto coturno que foram tolos o bastante, ou pervertidos o bastante, para adular Bonaparte comparando-o a Constantino. Ignoravam o sórdido cálculo político a que se entregara o primeiro Cônsul para assentar sua ambição e reforçar a Revolução que servia?

Depois do desencadeamento das fúrias e da tormenta revolucionária, depois da fase violenta de abalo e destruição do trono e da ordem católica; depois dos banhos de sangue e da eliminação física das elites; depois das violências da perseguição e da tomada do poder; depois do reino de “Gog”, isto é, dos demônios homicidas, devia vir a fase de organização da nova ordem das coisas, portanto uma paz aparente protegida por um poder forte e vitorioso, concretizando o reino de “Magog”, isto é, dos demônios mentirosos.

Para isso, o chefe que a Revolução escolhera devia absolutamente restabelecer a ordem no país, em insurreição permanente havia quase dez anos, por fidelidade a seu Rei, à sua Fé e à Igreja.

É que a França ainda era um país católico, profundamente arraigado em sua fidelidade. Nenhuma de suas províncias, nem mesmo as ruas de sua velha Paris, havia se reconhecido nessa revolução conduzida pelas seitas; financiada por ínfima minoria de burgueses, de clérigos desviados e de senhores da alta nobreza; realizada pela ralé e pela escória de uma população cuja esmagadora maioria permanecia católica e monarquista.

Mas a democracia revolucionária acabava de instalar-se. E na democracia não são as maiorias que detêm o poder em sua realidade, mesmo quando esmagadoras, mas a canalha insolente e os manipuladores de cordões que a governam na sombra. Eis o que o povo da França havia experimentado, sem compreender de fato seu mecanismo sociológico.

Ao descobrir esse monstro que chocava em seu seio, a França, a verdadeira, revoltou-se. Em toda parte a constituição civil do clero foi rejeitada e recusada. A notícia de 21 de janeiro de 1793 foi acolhida com estupor e indignação. Não, aquele monstro não era um filho da França.

Fala-se sempre aqui da Vendeia, por causa da epopeia extraordinária de seu grande exército. Mas muito antes e muito depois dela, Jean Chouan tinha mantido o campo. Em 1794, as guarnições de Laval, do Mans e das outras grandes cidades do centro-oeste estão prisioneiras de seus quartéis, dos quais não podem mais sair sem cair em emboscada. Em outubro de 1794 ainda, perto de Laval, Perna de Prata, o mendigo manco tornado chefe de guerra, morrerá no fogo, à frente de 2.000 homens, numa batalha campal cuja vitória assegurará com sua morte. A Bretanha está em armas atrás dos Cadoudal! A Normandia atrás dos Frotté. O Berry envia tropas a Charette, toma Sancerre, deixa-se massacrar em Palluau. A Flandres e a Bélgica “chouanam”. Em Lyon, é preciso amarrar as multidões a correntes na praça Bellecour e mandar a cavalaria carregar a sabre para massacrá-las em número suficiente! Toulon só é esmagada a tiros de canhão nas ruas por um artilheiro chamado Bonaparte! O Sudeste e o Sudoeste são monarquistas e hostis à república...

Em toda parte, o povo francês esconde e protege seus padres não juramentados, muitas vezes ao preço do martírio. Quem poderia contar aqueles que pegaram em armas, que tombaram em combate por Deus e pelo Rei, ou que morreram mártires por sua fé nos cadafalsos, nos afogamentos, nos massacres?

O sangue da França correu a jorros. Os demônios homicidas, sedentos de sacrifício humano, rejubilaram-se.

Mas aqueles mesmos que não pegaram em armas, aqueles que curvaram a nuca por fraqueza; esses mesmos não aceitaram a revolução.

Esta só repousa em alguns milhares de sectários e na força armada das tropas com que pode contar. O que muitas vezes se deve apenas à estúpida disciplina militar imitada dos prussianos, que fará servir Kléber e os Mainzeses, no uniforme branco das tropas de Luís XVI, contra os soldados de Bonchamps e de Stofflet, que lutavam pelo rei.

Tudo isso Bonaparte sabe em 1800. Ainda treme diante de Cadoudal emboscado em Paris, diante dos padres escondidos por toda parte, diante de Frotté, a quem manda assassinar! Sabe que o “terror branco” reina um pouco por toda parte; que os ignóbeis “soldados–açougueiros” das colunas infernais foram linchados pelas multidões, um a um, e pagaram seus crimes. Sabe que o próprio Diretório foi impotente para aplicar as leis antirreligiosas que tentou manter. Sabe que seu policial Fouché, apesar dos meios de que dispõe, nem sequer consegue impedir o exercício público do culto católico pelos padres proibidos, os “não juramentados”! E sabe que, por toda parte, o clero juramentado, por meio do qual a revolução tentou instaurar o cisma, por toda parte esse clero celebra em igrejas vazias, quando não foi delas expulso a pedradas ou com forcados nos rins!

Na verdade, a “república” da falsa “nação” está em perigo. Os convencionais e os Jacobinos sobreviventes são perseguidos por toda parte. Os homens no poder são liberais paralisados por seu liberalismo! A revolução só pode contar com Bonaparte e suas tropas! E ainda assim! As pretensas vitórias retumbantes sob as pirâmides saldaram-se num desastre e na fuga desesperada do “glorioso” Bonaparte, obrigado a confiar sua preciosa vida a um simples barquinho para atravessar a frota inglesa, abandonando seu corpo de exército no Egito, onde será dizimado pela peste e pelos sabres dos mamelucos.

O primeiro cônsul sabe tudo isso e o pesa em seu justo peso. O poder estabelecido, cujas rédeas tomou, é de uma terrível fragilidade, diante de uma nação traumatizada pelas violências de que mal sai, profundamente hostil a ele e que não lhe reconhece nenhuma legitimidade.

Daí o cálculo de Bonaparte, que os revolucionários farão tantas vezes com êxito, o qual consiste em enganar e seduzir os clérigos e extrair de seu hissope as aparências de uma legitimidade que não têm.

Bonaparte sabe que só a Igreja pode confeccionar-lhe uma aparência de legalidade e desarmar os católicos da França, e talvez até os dos países que vai conquistar! Para isso, precisa tratar com a Igreja e fazer-se sagrar. Ele o sabe. E consegue-o.

DEMOCRACIA CLERICAL

1 vol. br. 224 páginas – 130 francos

ÉDITIONS SAINTE JEANNE D’ARC “Les Guillots” – Villegenon 18260 VAILLY-SUR-SAULDRE

Yves Chiron Responde

Em seguimento à publicação do estudo sobre “A Escola moderna do Esoterismo cristão” no boletim n.º 22/23, o sr. Yves Chiron, de quem havíamos lembrado os vínculos com os meios esoteristas, enviou-nos uma carta com pedido de direito de resposta.

É de bom grado que lhe damos satisfação publicando um texto que não deixará de interessar nossos leitores.

“Senhor,

Como me autoriza a lei, peço-lhe que reproduza integralmente o seguinte direito de resposta, relativo às páginas 157 a 159 publicadas nos n.os 22/23 de sua revista:

  1. Há vários anos já não colaboro nas publicações das edições Pardès.

  2. Nunca dirigi a revista L’Âge d’Or; fui nela apenas um colaborador modesto durante alguns números. Escrever, empregando o presente, que a “dirijo” é, portanto, duplamente errôneo.

  3. Escrever, empregando mais uma vez o presente, que “dirijo” a coleção Agnus Dei nas edições Pardès é errôneo. Só dirigi essa coleção durante alguns meses. É justamente porque achava inaceitável, à luz da doutrina católica, o segundo título previsto na coleção, O Mito primordial do Cristianismo, de A. Mordini, que recusei prefaciá-lo. Nessa data, verão de 1987, deixei de dirigir — termo pomposo, já que apenas prefaciei o primeiro título — a coleção, e decidi, nessa circunstância, cessar toda colaboração nas revistas das edições Pardès.

  4. Quanto a O Mistério do Yeti, de A. Mordini, indiquei no prefácio: “Caberá sem dúvida a outros prosseguir e criticar a reflexão de Attilio Mordini”. Associo-me de bom grado à crítica formulada por J. Vaquié. Mas todas as análises de Mordini, nesse livro, são contestáveis?

  5. Quanto à citação de Evola que me censuram por ter aprovado: não creio que resuma “o programa de reforma religiosa dos esoteristas”. É preciso primeiro entender-se sobre o sentido das palavras. A definição do dogma como “expressão de um conhecimento absoluto e infalível”, se é insuficiente para um católico, não me parece por isso proceder da gnose, ou então o termo “conhecimento” deve ser banido para sempre do vocabulário católico. Dito isto, abandono de bom grado toda a obra de Evola por uma única Questão da Suma teológica.

  6. Não creio que “o esoterismo seja eminentemente compatível com o cristianismo”. Nunca fui adepto e propagador de um “esoterismo cristão”. Escrever: “É certamente aí que reside (sic) sua convicção profunda e seu dinamismo” é uma calúnia e uma injúria. A Fé católica, ensinada pelo Magistério, pelos Doutores e pelos Santos, me satisfaz plenamente. Submeto-me de antemão a todo julgamento autorizado da Igreja docente sobre meus modestos escritos. Se em algumas de minhas páginas de juventude pôde haver algumas afirmações errôneas, não se deve ver nelas algum negro desígnio de “entrismo”, de difusão de um “esoterismo cristão”, mas antes os frutos infelizes de uma imprudente precocidade de publicação.

Peço-lhe que aceite, Senhor, meus sentimentos respeitosos.”

As últimas linhas desse texto, um pouco sibilinas para nossos leitores, fazem sem dúvida alusão a um boletim mimeografado, criado e animado durante um ano pelo sr. Chiron há vários anos; encontrava-se nele uma dupla inspiração: de um lado a da revista COMMUNIO, com o Padre Urs von Balthasar e o Padre de Finance, apóstolos do Recentramento à João Paulo II; de outro, a de uma multidão de publicações esoteristas francesas e italianas, cuja aproximação nos havia parecido cheia de ensinamentos.

Depois dessa experiência de juventude, o sr. Chiron, graças a seus talentos assim revelados, iniciou uma colaboração com as Éditions Pardès, difusoras do pensamento de Julius Evola, um dos principais discípulos de René Guénon.

Juntando-se em seguida ao seio da Fraternidade São Pio X, onde se tornou professor de história, o sr. Chiron teria abandonado toda ideia esoterista. Se assim é, tanto melhor; lamentemos apenas que esse repúdio se tenha feito com tanta discrição que ninguém foi informado.

Aliás, nosso erro, se erro há, é desculpável, pois outros elementos adeptos do mesmo pensamento subsistem hoje no mesmo meio, entre os próprios clérigos. Então...

S.A.B.


1 – Cf. “La Gnose contre la Foi”, cap. II, e Boletim n.º 18 e 19 2 – “De la gnose à l’œcuménisme”, cap. I, Boletim n.º 3 3 – idem, cap. III, e Boletim n.º 9/10 4 – “La Gnose contre la Foi”, cap. I, p. 25 5 – “La Gnose contre la Foi”, p. 183 6 – Louis Pauwels, ex-discípulo do mago Gurdjieff e que concluía então seu livro sobre o mestre, acabava de encontrar Jacques Bergier em circunstâncias que ele mesmo conta: “Isso se deu por intermédio de René Alleau e nos meios surrealistas; eu via com frequência André Breton nessa época e, como procurava um colaborador científico para escrever um livro de prospectiva que me encomendara Pierre Lazareff, René Alleau, amigo e colaborador de Breton, apresentou-me Jacques Bergier. Nunca escrevemos ‘Visa para o futuro’, mas, falando das chances de um casamento possível entre a civilização contemporânea e o pensamento esotérico, empreendemos ‘O Despertar dos Mágicos’, que saiu em 1960 e vendeu mais de um milhão de exemplares, do qual saiu também a aventura Planeta, revista com tiragem de cem mil exemplares.”