Capítulo IV: Algumas Personalidades do Esoterismo Cristão

INTRODUÇÃO

Já não temos nenhuma dúvida sobre a existência de uma DOUTRINA do esoterismo cristão, pois uma obra importante dela se reclama explicitamente: o livro do Padre Stéphane intitulado "Introduction à l'Ésotérisme Chrétien". Doutrina homogênea e bem delimitada. Já encontramos dois autores que aderem a essa doutrina: François Chénique e o Prof. Borella. Mas vamos mais longe e pensamos que existe também uma verdadeira ESCOLA, que professa em comum essa doutrina. Estimamos já ter em mãos a ponta do fio do novelo. Resta-nos apenas seguir esse fio levando em consideração, no caminho, os autores que se recomendam uns aos outros ou que se dão a si mesmos como aparentados e confrades no mesmo esoterismo.

O primeiro escritor que nos vem ao espírito é evidentemente Fr. Schuon, pois o Prof. Borella o considera um Mestre. Sabemos também que o Padre Stéphane o tinha em altíssima estima, em pé de igualdade com R. Guénon.

Mas então, dir-nos-ão, por que não citar R. Guénon mesmo como o verdadeiro fundador do esoterismo cristão? Com razão nos censurariam, pois esse pensador não poderia passar por cristão. É de notoriedade pública que já não praticava sua religião de origem e que se tornara muçulmano. Guénon é certamente um escritor esoterista, mas não é com certeza cristão. Sua religião exotérica era o Islã. É, portanto, em definitivo, por Fr. Schuon que se deve prosseguir nossa prospecção dos autores a incluir na Escola do esoterismo cristão.

Sabemos muito bem que Fr. Schuon também se havia tornado muçulmano. Mas sempre teve o cuidado de manter, com o cristianismo, as melhores relações de vizinhança. Entre os visitantes que recebia, muitos eram católicos de tendência tradicionalista.

FRITHJOF SCHUON

Notícia Biográfica

O pai de Fr. Schuon era württemberguês, sua mãe era alsaciana e ele próprio nasceu em Basileia em 1907. Casou-se com a filha de um diplomata suíço. Exerceu primeiro a profissão de desenhista de arte em Paris, estudando, para si mesmo, o árabe e algumas línguas orientais. Residiu no Norte da África e travou contato com dignitários do sufismo. Visitou duas vezes Guénon no Cairo. Estava na Índia quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial. Voltou então à Suíça, de que tinha a nacionalidade. Depois da guerra, voltou à Índia, depois viajou pela América do Norte. Durante vinte anos foi o correspondente e mesmo o colaborador de Guénon nas "Éditions Traditionnelles". Sua residência ordinária ficava na Suíça, nas margens do lago Léman. Atualmente muito idoso, retirou-se para os EUA.

Sua produção literária e filosófica é quase tão importante quanto a de R. Guénon. Eis a lista de suas principais obras (sem ordem cronológica de aparição):

É sem hesitação que o fazemos figurar na Escola do esoterismo cristão, pois seu desejo era fornecer uma doutrina esotérica perfeitamente compatível com o cristianismo. É preciso mesmo atribuir-lhe, nessa escola, um lugar de escol. Recebia muitas visitas, tinha o senso do proselitismo e foi verdadeiramente um "Mestre". Sua obra mereceria ser estudada a fundo. O Padre Stéphane lhe reconhecia tanto mérito quanto à de R. Guénon. Obrigados a nos limitar, analisaremos aqui somente um capítulo do "Dossier H — 1984", em que Fr. Schuon delimita sua posição em relação ao puro guenonismo; é uma posição alternadamente elogiosa e crítica, de grandíssimo interesse para o nosso estudo.

Fr. Schuon e o Guenonismo

"Guénon prestou-nos um inestimável serviço ao apresentar e explicar as noções cruciais:

depois definindo e condenando, com um realismo implacável, a aberração moderna sob todas as suas formas." (Dossier H — 1984).

Fr. Schuon, quando colaborava nas "Éditions Traditionnelles" e ao longo de seus livros, ele próprio aprofundou e desenvolveu essas mesmas "noções cruciais". Mas o que censura em Guénon é ter majorado a componente hinduísta (e islâmica) de seu sistema e, inversamente, ter dado provas, a respeito do cristianismo, de certo número de ignorâncias imperdoáveis. Em conclusão de seu capítulo, resume-se ele próprio escrevendo:

"Um dos pontos mais fracos da obra guenoniana é, sem contestação possível, a subestimação do homem ocidental — não do mundo moderno, pois sob esse aspecto Guénon tem mil vezes razão — e correlativamente a superestimação do homem oriental e do estado atual das civilizações tradicionais."

Quais são as principais críticas que Fr. Schuon dirige ao sistema guenoniano? E qual é a gravidade delas?

  1. — Fr. Schuon censura R. Guénon por negligenciar demais o budismo e sobretudo por conhecê-lo insuficientemente. E, com efeito, Guénon considerou por muito tempo o budismo uma espécie de protestantismo que teria brotado como parasita no tronco do antigo bramanismo. Parece, contudo, que teria voltado atrás em seu juízo em seguida à observação de um dignitário oriental (queremos falar de A. K. Coomaraswamy), que o assegurava de que o budismo não está afinal em revolta fundamental contra o bramanismo e de que não rompe a cadeia iniciática.

  2. — Sobre a questão das relações entre a autoridade espiritual e o poder temporal:

  1. — Schuon critica o desprezo constante de Guénon pela matéria.

  2. — Schuon faz censura a Guénon por não admitir os japoneses na comunidade extremo-oriental.

  3. — Sobre a questão: a Religião cristã é esotérica ou exotérica?

  1. — Os Sacramentos cristãos são iniciações?
  1. — Sobre a questão da TRANSMIGRAÇÃO DAS ALMAS, Schuon só censura em Guénon sua falta de clareza na expressão. Mas aceita a ideia guenoniana dos "estados pré-humanos" e dos "estados pós-humanos", que Guénon desenvolve em "Les États multiples de l'Être" [Os Estados múltiplos do Ser]. (Cumpre notar que, em suas obras sobre o Espiritismo e sobre a Teosofia, Guénon dá a impressão de ser nitidamente hostil à doutrina da reencarnação, ao menos tal como é definida nessas duas escolas.)

Em suma, percebe-se que Schuon só faz a Guénon censuras secundárias. Aceita o conjunto de seu sistema, como diz aliás no início de seu capítulo. Adota também muito largamente sua terminologia hinduísta e sânscrita, com a qual ele próprio está muito familiarizado. É-se submergido por Karma, Mahayana, Samsara, atma, bhakti, jnana... Já encontramos esse traço no Padre Stéphane, em Fr. Chénique e, em menor grau, no Prof. Borella.

Não existem, entre Guénon e Schuon, diferenças doutrinais profundas. Mas Schuon é muito mais atento a apresentar um esoterismo que apareça como eminentemente COMPATÍVEL com o catolicismo. E é preciso reconhecer que, sob esse aspecto, tornou-se "Mestre".

JEAN HANI

Depois de Frithjof Schuon, o escritor que cumpre mencionar como um dos mais característicos do esoterismo cristão é Jean Hani. Nasceu em 1917. É agregado e Doutor de Estado em letras. Criou e dirigiu o "Centro de Pesquisas sobre a Antiguidade Clássica", bem como o "Seminário de História da Religião Grega". É, além disso, membro do "Centro de Pesquisas Mitológicas" da Universidade de Paris-Nanterre. Suas obras de erudição universitária são numerosas. Mas esse autor nos interessa sobretudo aqui porque, em seguida a seu encontro com a obra de René Guénon, escreveu quatro livros (todos os quatro pelas Éditions Trédaniel) particularmente característicos da escola de pensamento que nos interessa:

A essas obras de livraria vêm somar-se uma multidão de artigos em revistas de tendência esotérica muito marcada. Cumpre assinalar sua participação em três publicações significativas:

O conjunto dessa obra mereceria ser estudado com atenção, pois exprime um pensamento muito elaborado. Mas reencontraríamos nela, afinal, os mesmos temas que encontramos nos autores precedentes, em particular sobre o simbolismo e sobre o monarquismo esotérico. Esse trabalho será certamente empreendido um dia ou outro, porque a influência de Jean Hani já é considerável. Contentemo-nos aqui em examinar suas teses em relação com a liturgia da Missa, pois contêm anomalias de juízo partilhadas por certo número de clérigos tradicionalistas.

Vamos, pois, abrir "La Divine Liturgie, aperçus sur la Messe" (Trédaniel, 1981), na página de introdução em que o autor explica seu método de exposição. Não esconde que vai comportar-se como sociólogo duplicado de esoterista:

"Nosso ponto de vista, portanto, não é nem o do teólogo nem o do liturgista, mas o do historiador das religiões. O que queremos mostrar é que o culto cristão da missa se esclarece à luz dos estudos concernentes aos esquemas universais do sagrado aos quais se conforma.

"Certamente o culto cristão tem sua especificidade: mas isso cabe ao teólogo e ao liturgista dizer. O que nos propomos é desprender, no culto cristão, os caracteres que o ligam à universalidade do sagrado.

"É certo que a história das religiões, ajudada pela antropologia, pela etnologia e pela linguística, trouxe ao conhecimento do cristianismo algo de insubstituível e não temos de desprezar as aquisições dessas ciências.

"... Quanto a nós, utilizamos essas aquisições submetendo-as, de um lado, à teologia e, de outro, à metafísica e à Tradição sagrada universal." (Introdução).

Essa tomada de posição de Jean Hani, quanto a seu método de trabalho e ao espírito de suas pesquisas, apresenta o grande mérito da clareza, o que nem sempre é o caso entre os escritores esoteristas. Vai utilizar, escreve, "as aquisições" da história, da antropologia, da etnologia e da linguística. Essas aquisições lhe fornecerão os esquemas universais do sagrado. E projetará a luz desses esquemas sobre o culto cristão para melhor compreender-lhe a essência.

Mas essas aquisições científicas, por si sós, são insuficientes, por serem materiais demais, para explicar os ritos. É preciso ainda introduzir, no exame desses ritos, um fator de apreciação muito mais espiritual. O autor pensa, pois, que, nesse trabalho de elucidação da liturgia, duas instâncias têm sua palavra a dizer: de um lado os teólogos cristãos e de outro a metafísica e a Tradição sagrada universal.

Os teólogos cristãos, evidentemente, representam a Igreja católica. Sem o aval da Igreja, com efeito, nenhuma elucidação do culto poderia ser aceita. Consultar-se-ão, portanto, a Igreja e seus teólogos.

Mas o que se deve entender por "A Metafísica e a Tradição sagrada universal"? Em que santuário é preciso ir buscá-las? O autor não o precisa. Mas não é difícil adivinhar que a metafísica é a ciência, intuitiva ou semi-intuitiva, dos esoteristas. Quanto à Tradição sagrada universal, todo o mundo sabe que a Maçonaria julga detê-la.

Vão nos propor uma inteligência da liturgia que será o resultado de um acordo entre, de um lado, os teólogos católicos aos quais se submeterão as "aquisições" das ciências religiosas e, de outro, os metafísicos e os detentores da Tradição sagrada universal. Esse acordo não pode deixar de se estabelecer, dado que está na natureza das coisas. É pelo menos o que pensa o autor.

Uma Refutação Preliminar

Não podemos ir mais longe sem refutar a noção de "Tradição sagrada universal". É uma refutação que já fizemos muitas vezes, mas que se impõe de novo aqui, em particular para aqueles que tomassem nossa exposição em curso de caminho. Dizem-nos que essa tradição é universal; querem dizer com isso que é universalmente aceita e que sempre o foi. É única e inalterada desde os tempos imemoriais. (Lembremos aqui que a metafísica é suposta coincidir a todo instante com essa Tradição universal e ser sua atualização em todos os casos particulares.) Tal é a construção estabelecida pelos esoteristas e que conhecemos bem, pois a encontramos em todos os autores precedentes.

Na realidade, as coisas não se passaram assim. Adão foi o beneficiário e o depositário de uma Revelação primordial e de uma ciência infusa que não deixam dúvida, que a Igreja ensina oficialmente e às quais se pode, com efeito, dar o nome de Tradição primordial e mesmo de Religião primordial. Mas é certo também que essa Tradição adâmica não se manteve em sua integridade e em sua unidade. Foi em grande parte deformada. Muito rapidamente criaram-se DUAS TRADIÇÕES, uma fiel à forma primordial, a outra desviada. E a prova dessa rápida dualidade de tradições é o episódio, tão famoso, do sacrifício de Abel e do sacrifício de Caim:

Certamente Jean Hani, no livro que examinamos, não remonta tão alto. Não considera as duas tradições no estágio de seu nascimento. Observa-as muito tempo depois de sua separação, mas considerando-as em seu conjunto e como se nenhum antagonismo se tivesse estabelecido. É como sociólogo e como metafísico que estuda em bloco todos os sacrifícios do mundo. Só se interessa pelos elementos comuns a esses dois tipos de liturgia (por exemplo sua igual antiguidade, que é real) sem levar em conta o juízo de Deus. Para ele, todos os sacrifícios da História universal, quaisquer que sejam os altares sobre os quais tenham sido oferecidos, são comparáveis. Considera-os como pertencentes à mesma essência de fenômenos sociais. Estabelecer-se-á assim, científica e metafisicamente, um sacrifício-robô, que será reputado a norma. E perceber-se-á que todos os sacrifícios, o dos cristãos como o dos hinduístas ou o dos pagãos, não são senão variantes mais ou menos próximas dessa norma.

O católico tradicionalista não admite que haja uma "Tradição sagrada universal". Se se declara tradicionalista é porque se refere à TRADIÇÃO APOSTÓLICA. A Tradição apostólica não é outra coisa senão o ensinamento oral dos Apóstolos, que se fixou bastante rapidamente (desde a geração que seguiu os Apóstolos) nas liturgias primitivas, nas inscrições paleocristãs, entre os "Padres apostólicos" (aqueles que conheceram os Apóstolos) e em diversos outros documentos. A Tradição apostólica é uma das duas formas da Revelação (a outra forma é o cânon das Escrituras). É o Magistério que, haurindo do conjunto desse antigo patrimônio, define o que pertence verdadeiramente à Tradição apostólica.

A Tradição apostólica sintetiza as Tradições patriarcais e mosaicas que a precederam, porque realiza suas profecias. E até as supera em riqueza e em exatidão porque contém uma parte de Revelação evangélica. É mais completa e ao mesmo tempo mais expurgada que qualquer outra forma de tradição.

A Missa Explicada pelas Ciências Históricas

Conhecemos agora as disposições de espírito com que Jean Hani vai empreender a elucidação dos mistérios da Missa. Vai tentar explicar os ritos eucarísticos, primeiro na qualidade de antropólogo, aplicando-lhes as aquisições das ciências históricas, depois na qualidade de esoterista, projetando sobre eles a luz do que chama "a metafísica" e a "Tradição sagrada universal", que não passa de uma tradição desviada e poluída.

Vejamos primeiro o esclarecimento trazido à Missa pelo historiador antropólogo. Teremos de nos contentar com um único exemplo, pois devemos nos limitar. Estuda a anamnese, isto é, a parte do cânon da Missa que "faz memória" da Paixão, da Ressurreição e da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, em aplicação do preceito: "Fareis isto em memória de Mim". É a oração do celebrante que começa por estas palavras: "Unde et memores..." e que se situa logo depois da consagração do vinho. Qual será a atitude de Jean Hani diante dessa anamnese? Que esclarecimento lhe dará?

Faz da anamnese do cânon católico um caso particular do fenômeno geral de anamnese. Assimila-a às fórmulas análogas que se encontram nas liturgias pagãs. Faz notar que, em toda religião, o evento fundador que lhe deu nascimento é comemorado ritualmente. O autor apela para a autoridade de Mircea Eliade, em "Aspects du Mythe" [Aspectos do Mito] (Paris, 1963): a recitação ritual da história divina que funda a comunidade "não é uma comemoração (no sentido ordinário) dos eventos míticos, mas sua REITERAÇÃO. As pessoas dos mitos são tornadas presentes, tornamo-nos seus contemporâneos". A recitação ritual, continua Jean Hani, faz-nos sair do tempo ordinário para nos recolocar no tempo primordial em que se passou o evento divino fundador.

Para o autor de "La Divine Liturgie", a anamnese cristã não é senão um caso particular da comemoração que se reencontra em todas as religiões. Mas o que não diz e que é, contudo, essencial para um católico, é que "o evento fundador" que se "torna presente" nas comemorações não cristãs só tem de divino o nome. Nessas religiões é sempre um evento diabólico (falsa aparição, falsa revelação, falsa mística). E é por isso que a Igreja as chama falsas religiões. O exequatur que pretende estabelecer é, portanto, falacioso, pois os ritos que compara, e que finalmente identifica, procedem de dois inspiradores diferentes e até antagonistas: Jesus e Belial. Ao aplicar, sem operar o discernimento dos espíritos, os dados da antropologia e da sociologia à anamnese do cânon da Missa, Jean Hani não esclareceu esse rito, obscureceu-o. Concede-lhe o mesmo valor que a suas imitações luciferianas.

Opera, aliás, da mesma maneira com a CONSAGRAÇÃO, da qual descobre equivalentes no hinduísmo. Exprime-se assim, ainda em "La Divine Liturgie" (página 38, em nota):

"Importa ver bem, hoje mais que outrora, que essa PRESENÇA REAL na matéria do sacrifício é essencial nas grandes religiões; assim, no sacrifício animal do hinduísmo, reserva-se uma parte da vítima, chamada ida, sobre a qual o sacerdote pronuncia uma invocação em seguida à qual a divindade se encarna realmente na oferenda."

Aqui também fazemos uma reflexão análoga: se há "presença real", o que é possível afinal em certa medida, de quem é essa presença, em tal religião? O sociólogo não poderia colocar-se essa questão, pois não dispõe de critérios sobrenaturais. Mas então não deve também pretender elucidar os mistérios da Missa.

A Missa Iluminada pela Luz da Metafísica

Depois de ter aplicado à Missa as aquisições das ciências humanas, Jean Hani quer dar aos cristãos uma explicação quintessencial do Santo Sacrifício. Para isso, vai colocar-se no plano do intemporal. Fá-lo-á, em particular, no capítulo intitulado "Os Santos Mistérios" (página 31 e seguintes):

"A única explicação verdadeiramente satisfatória é a que fornece o ponto de vista metafísico, totalmente desprendido da temporalidade."

O ponto de vista metafísico é aquele que se adquire nos meios esotéricos. O ESPIRITUAL (isto é, o metafísico, o esoterista, o iniciado) SABE que a liturgia visível, celebrada nos altares da terra, não é senão A REFRAÇÃO SIMBÓLICA, no plano da corporeidade em que o homem se move durante a existência terrestre, DA REALIDADE INVISÍVEL DO ALTO. A verdadeira missa se desenrola no céu: "A missa tem SEU PROTÓTIPO no sacrifício celeste" (página 41).

Um pouco abaixo o autor precisa seu pensamento nestes termos:

"Os textos da Escritura descrevem-nos, sob uma forma sensível, uma realidade espiritual e apresentam-nos, num desenrolar temporal, algo que, na realidade, nunca deixou de existir e pertence à eternidade."

É mais formal ainda quando escreve:

"A MISSA NÃO É A REPETIÇÃO OU A REPRODUÇÃO DO ATO HISTÓRICO QUE FOI O SACRIFÍCIO DO CALVÁRIO, coisa aliás impossível; nem sequer é, no fundo, sua representação." (página 42).

Podemos recapitular, em três pontos, as importantes noções que acabamos de anotar em "La Divine Liturgie":

Devemos agora tentar compreender o mecanismo desse SACRIFÍCIO ETERNO. Jean Hani vai nos ajudar nisso:

"Mas para compreender, em sua última profundidade, o sentido desse sacrifício, ao mesmo tempo expiatório e transfigurador, e, de maneira geral, o sentido mesmo e a função do sacrifício, é preciso conhecer-lhe o fundamento metafísico." (página 29).

Vão, pois, nos explicar o fundamento metafísico do "Sacrifício eterno". Esse sacrifício eterno está presente nos dois movimentos essenciais da obra divina, a saber, a CRIAÇÃO e depois a REINTEGRAÇÃO do universo. É no capítulo "O Sacrifício" de "La Divine Liturgie" que J. Hani se explica sobre esse assunto. Vamos resumir sua doutrina ajudando-nos de suas próprias expressões.

  1. A Criação constitui o sacrifício de Deus.

"O fundamento é, por mais espantosa que possa parecer a fórmula, O SACRIFÍCIO ETERNO DE DEUS.

"O sacrifício de Deus É A CRIAÇÃO. A criação é, de certa maneira, A HUMILHAÇÃO DE DEUS EM RELAÇÃO A SEU ABSOLUTO.

"Deus, que em seu Absoluto não Se relaciona com nada senão com Si mesmo, torna-se um ABSOLUTO-RELATIVO: pondo o ser de criatura, entra em relação com ele.

"Esse fato de pôr-se em relação é O SACRIFÍCIO DO ABSOLUTO e o sacrifício do Amor por esse 'outro' que Ele próprio põe como criado do nada." (página 29).

Assim o "Sacrifício celeste" é DEUS SAINDO DE SI MESMO. É um sacrifício porque esse nascimento do universo rompe o Absoluto de Deus. Doravante Ele já não está só. Torna-se, escreve J. Hani, "um Absoluto-relativo".

  1. A Reintegração do Universo é também um Sacrifício Celeste.

"Além disso, em Deus, o Filho enquanto tal é eminentemente o sacrifício de Deus."

Como assim? Jean Hani observa duas saídas sacrificiais de Deus para fora de si mesmo.

Deus sai uma primeira vez de si mesmo, ad intra, quando engendra seu Filho. E sai uma segunda vez de si mesmo, ad extra, quando cria o universo. E é porque o Filho é o "Sacrifício do Pai" que está encarregado da Reintegração do universo no Princípio.

Conhecemos agora o duplo mecanismo desse Sacrifício eterno que está na origem do de Cristo no Calvário e dos que são oferecidos nos altares da Terra. O autor poderá enunciar a definição metafísica da Missa que prometeu:

"A consagração pelo sacerdote que opera o sacrifício é, mais precisamente, A MANIFESTAÇÃO VISÍVEL DE UM ATO ETERNO: rasga o véu 'ilusório' das condições de espaço e de tempo que separam o espírito do homem da contemplação das realidades eternas." (página 42).

Depois, consciente de ter enfim elucidado o mistério da Missa com o auxílio da luz esotérica, termina escrevendo:

"Desde que se encaram as coisas do ponto de vista metafísico, toda dificuldade de explicação desaparece." (p. 42)

Tal é a explicação metafísica da Missa. Tal é o Sacrifício celeste do qual o do Gólgota e os de nossos altares são PROJEÇÕES no universo ilusório em que vivemos.

Tem-se logo a forte intuição de que tal doutrina é incompatível com o catolicismo ortodoxo. Por isso devemos consagrar um último parágrafo a nos assegurar dessa incompatibilidade.

A Verdadeira Natureza da Liturgia Celeste segundo os Textos do Cânon

Não podemos ficar nessa doutrina, manifestamente heterodoxa. É preciso refutá-la. Comecemos por lembrar, para bem situar o problema, as cinco fases do Sacrifício Redentor:

Antes de nos interrogarmos sobre a verdadeira natureza do Altar celeste e da liturgia que nele se desenrola, é preciso remontar à origem e perguntar por que o Sacrifício da terra foi instituído. Foi instituído para SATISFAZER A JUSTIÇA DIVINA, ultrajada pela falta original e pelos pecados ditos "atuais" que a seguiram. O Sacrifício expiatório foi oferecido por Nosso Senhor Jesus Cristo no Calvário. Os celebrantes de nossas Missas, que são renovações incruentas do Sacrifício da Cruz, pedem a Deus que aceite a satisfação que Lhe é feita.

Esse pedido de aceitação constitui a quinta (em honra das Cinco Chagas) e última fase do Sacrifício terrestre. Essa fase, no ritual da Missa, é menos nitidamente delimitada que as precedentes. É difusa no conjunto da celebração, mas nem por isso deixa de constituir uma fase particular, sem a qual o Sacrifício não seria completo.

Recapitulemos rapidamente as principais orações da Missa nas quais se manifesta o pedido de aceitação:

Convém que se tenha aqui diante dos olhos o texto do "Placeat", porque vamos fornecer-lhe um comentário:

"Aceitai, Trindade Santa, a homenagem de meu ministério, e fazei que o Sacrifício que, embora indigno, acabo de oferecer aos olhares de Vossa Majestade, possa Vos agradar e tornar-se, para mim e para todos aqueles por quem o ofereci, fonte de perdão. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Assim seja."

Em suma, a Missa da terra termina por um pedido de aceitação do Sacrifício expiatório que acaba de ser oferecido. Quanto à aceitação mesma, é no Céu que se tornará efetiva. Pensa-se irresistivelmente no Altar sublime (in sublime altare tuum) que é evocado no "Supplices te rogamus". É evidentemente no Céu que a fase triunfal do Sacrifício é verdadeiramente celebrada. O Apocalipse nos revela que o Cordeiro imolado é, no Céu, objeto de um culto de solenidade inaudita. Ora, as relações entre a liturgia celeste e a liturgia terrestre dão lugar, neste momento, a confusões porque muitos espíritos estão perturbados, precisamente, pelos escritos dos esoteristas cristãos. Revejamos, portanto, todos esses textos tomando seus comentários de Dom Eugène Vandeur, beneditino de Maredsous (1924), e de Dom Prosper Guéranger, o "Doutor Litúrgico".

E antes de tudo, que diz o "Supplices te rogamus", que precede a leitura dos Dípticos:

"Nós Vos suplicamos, Deus todo-poderoso, que mandeis que estas coisas (hæc) sejam levadas, pelas mãos de Vosso santo Anjo, ao Vosso Altar sublime, à presença de Vossa divina Majestade, a fim de que todos nós que participarmos do Sacrifício deste Altar pela recepção do Corpo infinitamente santo e do Sangue de Vosso Filho..."

Notamos logo uma particularidade muito importante: o celebrante pede a Deus que "estas coisas" (hæc), isto é, o Corpo da Vítima acompanhado dos votos dos fiéis, sejam LEVADAS AO ALTAR SUBLIME. Trata-se, pois, de um transporte da terra para o Céu, isto é, de um movimento inverso ao descrito por Jean Hani, para quem é o Sacrifício Celeste (prototípico) que é projetado sobre a terra por ocasião de cada Missa. Segundo o cânon, vê-se, a transferência faz-se, ao contrário, de baixo para cima pelo ministério de um anjo. A origem verdadeira do Sacrifício é, portanto, a terra. Seu ponto de chegada é o Céu.

Perguntemo-nos agora qual é a posição relativa dos dois altares de que o "Supplices te rogamus" faz menção. Dom Eugène Vandeur escreve:

"A presente oração põe em correspondência DOIS ALTARES DIFERENTES, o da terra sobre o qual repousam os dons oferecidos e consagrados, e o altar místico do Céu, de que fala São João no Apocalipse (VIII, 3) e onde são oferecidos os méritos do Redentor e os votos dos fiéis." (La Sainte Messe, Notes sur sa liturgie, Gabalda, Paris, 1924).

Segue-se, do mesmo autor, um comentário que vai nos fornecer o verdadeiro sentido da liturgia celeste oferecida no altar sublime. É uma liturgia de RATIFICAÇÃO. É a quinta fase do Sacrifício, a Aceitação, aqui realizada, ratificada e celebrada:

"Que é esse altar sublime? É O PRÓPRIO DEUS, enquanto recebe, aceita o Sacrifício do Calvário, aquele que a Missa rememora e reproduz. O Sacrifício da Cruz recebeu de Deus uma resposta benévola, ratificando a reconciliação da terra e do Céu." (Dom Eugène Vandeur.)

As significações respectivas dos dois Altares do "Supplices te rogamus" aparecem nitidamente. O Altar da terra é o Altar do Sacrifício sangrento, é o da Cruz fincada na terra. E o Altar sublime do Céu é o do Sacrifício de Louvor. Desenrola-se no Céu, em torno do Cordeiro, uma liturgia de louvor. Pois "o Cristo ressuscitado não morre mais", como diz São Paulo. O culto celeste do Cordeiro imolado é mesmo objeto particular do Cap. V do Apocalipse:

"E vi, e eis que no meio do trono e dos quatro animais e no meio dos anciãos, ESTAVA DE PÉ UM CORDEIRO: PARECIA TER SIDO IMOLADO." (tamquam occisum, Apoc., V, 6).

Dom Guéranger comenta assim essa passagem:

"Esse Cordeiro está de pé, diz São João; contudo acrescenta: tamquam occisum, está como imolado. Nosso Senhor, com efeito, terá sempre Suas cinco chagas, que agora são resplandecentes; mas o Cordeiro está de pé porque está VIVO e não morrerá mais; é assim que no-lo mostra São João." (Explication de la Sainte Messe, Solesmes, 1885).

Do fato de recusarmos ver, na Missa de nossos Altares, uma "projeção" de alguma liturgia celeste tal como a ensina J. Hani em nome da metafísica, alguns opositores nos disseram: "Mas então ignorais o culto celeste!" Respondemos: de modo algum. O culto celeste do Cordeiro como imolado é celebrado com uma solenidade prodigiosa.

Escutemos São João:

"Quando o Cordeiro recebeu o livro, os quatro animais e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do cordeiro, tendo cada um uma harpa e taças de ouro cheias de perfumes, que são as orações dos Santos." (Apoc., V, 8).

A multidão dos anjos participa da adoração universal:

"Depois vi e ouvi, em torno do trono, em torno dos animais (os evangelistas) e dos anciãos, a voz de uma multidão de anjos, e seu número era de miríades e milhares de milhares. Diziam em alta voz: O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra, a glória e a bênção." (Apoc., V, 11-12).

Como, depois de todas essas belas descrições revestidas da autoridade das Escrituras, poderia alguém esquecer as cerimônias que se desenrolam em torno do Altar Sublime.

Mais ainda, é igualmente certo que toda a corte celeste assiste às liturgias da terra, sejam elas expiatórias ou "de louvor", como é o caso, por exemplo, da Bênção do Santíssimo Sacramento. Essa assistência dos santos e dos anjos traz aos fiéis profundos confortos espirituais; mas não significa que o sacrifício inicial seja celeste. O Sacrifício inicial é o da Cruz, reparação das ofensas humanas.

Mais uma vez, o axioma central em torno do qual se constrói o raciocínio de "La Divine Liturgie" de Jean Hani é, esclarecendo-o o mais possível, o seguinte: ao proceder à criação do universo, Deus impôs a si mesmo um SACRIFÍCIO porque lesou seu Absoluto; tornou-se, em virtude da criação, um "absoluto-relativo"; para que esse estado sacrificial termine, é preciso que o universo seja REINTEGRADO em Deus e divinizado; essa reintegração, que exige uma prova através de uma passagem estreita de ordem iniciática, é, ela também, um Sacrifício celeste inicial que está na origem do Sacrifício do Calvário e do dos Altares.

Essa doutrina é duplamente heterodoxa. Primeiro, é falso pretender que a criação tenha sido para Deus uma lesão, uma humilhação, um sacrifício. A Igreja ensina que Deus criou o universo sem ser constrangido por qualquer necessidade que seja, mas por pura bondade. A criação nada acrescentou à Sua glória intrínseca, apenas a manifestou exteriormente. A ideia de colocar uma vicissitude qualquer na origem do universo é uma das marcas da antiga gnose: é o defeito de origem da criação, tão característico dessas falsas concepções.

Essa doutrina é heterodoxa igualmente porque contém em germe um incontestável docetismo. Se se coloca o Sacrifício inicial no "intemporal metafísico", como Jean Hani explicitamente se propõe, reduz-se ao mesmo tempo a fumaça o Sacrifício da Cruz, pois ele se torna a simples passagem de um limiar iniciático de reintegração. É como dizer que se torna um símbolo. E, por conseguinte, os Sacrifícios dos Altares não são mais que símbolos.

O docetismo (do grego dokein: parecer), que se encontra também entre os primeiros gnósticos, reduz a Paixão de Nosso Senhor a uma simples aparência. A fé mais elementar nos ensina que Jesus Cristo "sofreu sob Pôncio Pilatos" não em aparência, mas realmente.

TRANSIÇÃO

Passamos agora em revista os principais temas que constituem o conteúdo nocional do esoterismo cristão. E, no entanto, resta-nos ainda evocar certo número de personalidades de primeiro plano que pertencem a essa escola. Todas mereceriam que se analisassem suas obras com a mesma atenção. Mas recairíamos nos mesmos temas expressos apenas em variantes. E, além disso, já não seria um artigo que seria preciso consagrar a esse trabalho, seria uma grossa obra. Devemos doravante, para cada uma dessas personalidades, contentar-nos com uma breve apresentação. O estudo dessa escola de pensamento está apenas começando e teremos ocasião de preencher muitos vazios.

Quais são os critérios que nos levam a incluir tal escritor na escola do esoterismo cristão? Incluímos ali primeiro os que dela se reclamam, ao menos tacitamente, pelas posições que tomam. Depois os que se citam mutuamente com favor e não fazem mistério de seu parentesco.

Depois os que estão inscritos nos comitês de redação das casas editoras especializadas. Esses diversos critérios materiais são afinal bastante precisos, sobretudo quando se entrecruzam.

Todas essas personalidades concordarão de bom grado com seu pertencimento a essa escola?

É bastante difícil prever. Alguns manifestarão reservas por razões fáceis de compreender. Um esoterista cristão bebe em duas fontes; mas não bebe nelas em igualdade. Alguns se esforçam com cuidado em parecer cristãos autênticos sem mistura. Mas outros mantêm uma linguagem mais abertamente esotérica. Podem ser, uns ou outros, contrariados ao se verem amalgamados, arbitrariamente julgarão, a uma escola de pensamento que não tem existência oficial e que podem considerar comprometedora para si. As questões de pertencimento levam muitas vezes a intermináveis polêmicas. Viu-se isso quando se tratou de delimitar os românticos, os simbolistas, os impressionistas, os surrealistas...

JEAN TOURNIAC

Jean Tourniac nasceu em 1919. É um discípulo incontestável de René Guénon, de quem foi amigo e correspondente na França durante longos anos e até a morte do "Mestre", ocorrida no Cairo em 1951. Durante a ocupação, participou ativamente da Resistência (Forças Francesas do Interior). Pertenceu aos militantes de "Témoignage Chrétien", mas não conservou depois o lado "progressista" dele. Antigo aluno da École Pratique des Hautes Études, especializou-se no estudo:

Colabora em numerosas publicações francesas e estrangeiras. Pertence ao comitê de leitura dos Cahiers e da Bibliothèque de l'Hermétisme das Éditions Albin Michel. Publicou uma dezena de livros, dos quais citaremos apenas os principais:

Os títulos desses livros bastam para indicar a orientação de Jean Tourniac. Vê-se logo que tem uma feição de espírito maçônica. É verdadeiramente iniciado? É verossímil, mas não encontramos prova certa. O que é certo é o cuidado que demonstra, em todas as suas obras, de costear o cristianismo o mais de perto possível. De fato, é incontestavelmente um dos mestres de pensamento do esoterismo cristão. Cumpre assinalar sua colaboração muito regular em "Vers la Tradition".

JEAN PHAURE

Para situá-lo, deem-se primeiro os títulos de suas principais obras:

Encontra-se sua assinatura em muitas publicações. É em particular um colaborador regular da revista "Atlantis"; eis alguns títulos de artigos:

A revista "Atlantis" foi fundada por Paul Lecour em 1926. É atualmente dirigida por Jacques d'Arès.

Assinalemos também a colaboração na revista "Question de", que é dirigida por Marc de Smedt. Um de seus artigos foi notado: "Vislumbre sobre a Metafísica do Monte Saint-Michel", em 1988, no n° 73. Esse mesmo número continha também um artigo de Jean Hani: "A Jerusalém celeste, Arquétipo da Cidade".

MARIE-MADELEINE DAVY

Não há melhor apresentação dessa personalidade universitária do que a que é feita no "Dossier H" sobre R. Guénon, de 1984:

"Depois de estudos de filosofia na Sorbonne, tese de doutorado sobre um místico do século XII, Guilherme de Saint-Thierry. Encarregada de curso na École Pratique des Hautes Études (Sorbonne); dois anos em Berlim, três anos na Universidade de Manchester. Numerosas conferências no mundo inteiro. Mestre de Pesquisa no C.N.R.S. Marie-Madeleine DAVY é autora de numerosas obras sobre a espiritualidade, sobre a mística, sobre a filosofia e a simbólica medievais, entre outras:

Nesta última obra, Marie-Madeleine DAVY exprime uma parte de suas concepções teológicas. Vê-se que são bastante semelhantes às do Prof. Borella. Como ele, dá a Deus o nome de Deidade. E eis como situa e define a Deidade:

"A Deidade permanece invisível. Pode-se pensar que as Pessoas Trinitárias, que pertencem à manifestação, servem de introdutoras... mas o Pai não é a Deidade. A Deidade é um ALÉM das Pessoas divinas." (Traversée en solitaire). — Já encontramos uma teologia análoga no Padre Stéphane e no Prof. Borella.

M.-M. Davy faz mesmo menção de uma certa VIDÊNCIA, com um sentimento de certeza absoluta. Escreve isto, ainda na mesma obra:

"Tudo isso é pouco claro, concordo, pelo simples fato de que ignoro como exprimi-lo, mas o experimento como uma realidade. Tenho a experiência disso? Apenas o esboço de uma experiência. No entanto, nada é vago. Tudo me aparece certo, indiscutível... Essa revelação e essa vida eterna não surgem depois da morte física, precedem-na. E é isso que é preciso compreender. Se não, colocamos numa condição post mortem o que se situa no ante mortem."

Entre as colaborações que M.-M. Davy assegura em revistas, citemos as de:

MAURICE DE GANDILLAC

Todos os membros da escola do esoterismo cristão citam Maurice de Gandillac como um sábio erudito e declaram dever-lhe muito. Aqui só podemos enumerar suas obras:

PAUL BARBA-NEGRA

Fala-se muito de Paul Barba-Negra entre os esoteristas cristãos. Faz conferências. Escreve em muitas publicações. Devemos, pois, dizer algumas palavras sobre esse personagem, muito característico, com efeito, da escola cujos principais membros queremos enumerar.

Paul Barba-Negra nasceu na Romênia em 1929. Depois de estudos de medicina e de psiquiatria, consagra-se à História e ao cinema. Produz uma quinzena de curtas e médias-metragens, quando ainda mora na Romênia. Depois de obter o "Prêmio Internacional da Crítica", emigra para a França, onde se instala. Trabalha no "Institut d'Esthétique" do C.N.R.S. e começa uma tese de Doutorado. Realiza, para a televisão, a série Architecture et Géographie sacrée [Arquitetura e Geografia Sagrada], em 1978. Essa série obteve grande sucesso e foi retransmitida várias vezes.

Realizou recentemente um filme sobre Mircea Eliade (que é também romeno) e sobre "a redescoberta do sagrado". Vê-se que tem um temperamento de divulgador. Seus temas são os que se encontram em Jean Hani, sobre a geografia e a arquitetura sagradas.

HENRY MONTAIGU

Já apresentamos sucintamente a personalidade de Henry Montaigu e a revista "La Place Royale", que dirigiu. A obra desse jovem escritor já é considerável, uma vintena de livros publicados. Pertence indubitavelmente à Escola do esoterismo cristão. Não se poderia duvidar depois da leitura do artigo que o Prof. Borella lhe consagrou em "Politica Hermetica" n° 2, de 1988. É um artigo bastante longo, de quatro páginas inteiras e densas, que analisa um livro recente de H. Montaigu: "La Couronne de feu — Introduction à la lecture symbolique de l'Histoire de France." Dervy, 1987. No ano precedente, em 1986, H. Montaigu havia publicado, sobre um assunto análogo: "La Sagesse du Roi dormant." (Éditions de la Place Royale).

Jean Borella felicita-se de que H. Montaigu tenha estudado com tanto cuidado as origens e a natureza da monarquia francesa à luz do esoterismo. Felicita o autor de "La Couronne de feu" por ter "procedido a uma leitura esotérica da História da França". Nisso, diz, seu livro completa o trabalho mais propriamente histórico de Jean Hani, "La Royauté sacrée".

Toda essa escola elabora assim um legitimismo esotérico que convém observar com muita desconfiança, pois vai infalivelmente desembocar em introduzir a gnose na origem da História da França. Essa mesma escola, sabemo-lo, procura introduzir a gnose no cume do dogma.

Esse assunto do legitimismo esotérico exige ser tratado separadamente, como é também o caso do simbolismo.

OS NÃO CRISTÃOS

Até aqui, enumeramos escritores que aliam o cristianismo (praticado por eles ao menos a título exotérico) ao esoterismo, que lhes serve de doutrina de aprofundamento. É ao menos o princípio que tentamos seguir. Na prática, não fomos verificar a sinceridade de suas convicções cristãs. Levamos em conta unicamente o que se pode ler nas obras que publicaram. Bastou-nos que o cristianismo seja exibido como um dos componentes de suas doutrinas.

Mas já mostramos que o limite é extremamente impreciso, para não dizer inexistente, entre o esoterismo dito cristão e o que não tem essa etiqueta. Ora, existe toda uma série de esoteristas não cristãos que tiveram influência capital sobre os cristãos. Poder-se-iam citar em grande número. Escolhemos três dentre os mais frequentemente citados: A. K. Coomaraswamy, Léo Schaya e Alain Daniélou.

A. K. COOMARASWAMY

Nasceu em Colombo, na Ilha de Ceilão, em 1877. É filho de um jurista de origem indiana e de uma inglesa. Sua formação é mista, é um hinduísmo fortemente anglo-saxão. Obtém em 1904 um doutorado em ciências na universidade de Londres. Depois é diretor das pesquisas mineralógicas no Ceilão. Na Índia, funda um "Movimento para a Educação Nacional". No curso da guerra de 1914-1918, é chamado ao "Museum of Fine Arts" de Boston (EUA). Instala-se na América e vê-se confiar a direção do "Departamento das Artes do Islã e do Oriente Médio".

A partir de 1930, mantém uma correspondência contínua com René Guénon. Os dois homens correspondem-se, em particular, sobre a questão do Budismo. R. Guénon considera o Budismo uma espécie de protestantismo que teria se destacado do antigo tronco bramânico.

Coomaraswamy consegue fazê-lo rever sua posição e admitir que o Budismo não deixou a cadeia da Tradição universal. Nessa mesma época, colabora na revista "Les Études Traditionnelles", da qual R. Guénon, desde o Cairo, permanece o mestre de pensamento.

A. K. Coomaraswamy era casado com uma americana, Dona-Louisa RUNSTEIN, da qual teve um filho. Ele próprio morreu em Boston em 1947. É interessante notar que seus funerais foram celebrados na América segundo o rito greco-ortodoxo. Mas celebrou-se também na Índia uma cerimônia fúnebre no rito hindu.

Entre suas numerosas obras, assinalemos somente as que foram traduzidas para o francês:

Não há dúvida de que, a partir de 1930, Coomaraswamy exerceu grande influência sobre R. Guénon, mas também sobre todo o conjunto da escola do esoterismo cristão.

Não deixemos Coomaraswamy sem dizer algumas palavras sobre seu filho. Tomaremos nossas informações do livro de Marie-France James intitulado: "ESOTÉRISME, OCCULTISME, FRANC-MAÇONNERIE ET CHRISTIANISME AUX XIXe ET XXe SIÈCLES" [Esoterismo, ocultismo, franco-maçonaria e cristianismo nos séculos XIX e XX]:

"Rama-Ponnambalam Coomaraswamy (nascido em 1932), depois de ter viajado com Marco Pallis e encontrado Guénon no Cairo em 1946, vai para a Índia, onde prossegue sua formação acadêmica e trabalha nos casas de moribundos de Madre Teresa de Calcutá. De volta aos EUA, prepara estudos de medicina. Exerce atualmente como cirurgião em Nova York. Convertido ao catolicismo e casado com uma senhorita de origem italiana, evolui, não obstante, sob a direção espiritual de FRITHJOF SCHUON e aparece como uma das cabeças dirigentes do movimento integrista (Monsenhor Lefebvre) de Long Island, nos arredores de Nova York. Colabora, aliás, na revista Studies of Comparative Religion."

LÉO SCHAYA

É indispensável fazer figurar Léo Schaya entre as personalidades do esoterismo cristão. Ele próprio não é cristão, mas exerce, sobre os cristãos dessa escola, uma influência profunda. Os títulos de suas obras, por si sós, indicam o sentido dessa influência:

Encontra-se a assinatura de Léo Schaya em muitas publicações esotéricas. Foi ele o primeiro redator-chefe de "Connaissance des Religions". Depois de sua morte, foi substituído por Michel Bertrand. Judeu de nascimento, Léo Schaya era convertido ao Islã.

ALAIN DANIÉLOU

Nascido em 1907, Alain Daniélou é um orientalista muito conhecido e muito influente nos meios esotéricos. Fixou-se muito cedo na Índia, onde se familiarizou completamente com o sânscrito. Foi professor na Universidade de Benares. Depois, em 1955, foi nomeado para o Institut français d'Indologie, em Pondicherry, e em seguida para a École française d'Extrême-Orient.

Apaixonado pela música indiana, fundou, na França, em 1963, o Institut International d'Étude comparative de la Musique, cuja direção assegurou até 1979. A lista de suas principais obras dá uma ideia de sua orientação e de suas competências:

Alain Daniélou não é ele próprio cristão, pois passou oficialmente ao Hinduísmo. Mas é frequentemente citado pelos esoteristas cristãos, que nele saúdam o sábio e adotam muitas de suas teses. É por isso que o fazemos figurar entre os "doutores" dessa escola.

INFLUÊNCIA A JUSANTE

Passamos em revista algumas das personalidades de primeiro plano do esoterismo cristão, a saber, os "doutrinários" da primeira geração. Ora, sua ação de prospecção discreta se exerce já há algumas dezenas de anos. Começou a dar frutos.

A JUSANTE desse grupo antigo e fundador, uma nova geração está à obra. Só que seu proselitismo permanece discreto. Ainda está na fase do Entrismo. Esses militantes, na maioria das vezes de grande valor, permanecem difíceis de distinguir. Dessa geração, escolheremos apenas três exemplos: Yves Daoudal, Yves Chiron e o Padre Leschenne.

YVES DAOUDAL

Yves Daoudal é um escritor agora bem lançado. Produz muito. O leitor do jornal PRÉSENT pode lê-lo quase todas as manhãs. Seu estilo vivo não carece de atrativo; a riqueza e a sobriedade alternam-se nele agradavelmente. Sabe comunicar sua emoção. Seu pensamento filosófico e religioso é de orientação tradicional, mas atraído ao mesmo tempo, o que não é contraditório, pelo esoterismo cristão. Mas sob esse aspecto, suas servidões jornalísticas obrigam-no a certa moderação. Não quer assustar seu público.

Toda a sua obra, já importante, deveria ser estudada nesse sentido. Não nos metamos por esse caminho aqui. Contentemo-nos, por ora, em mostrar que não se exagera nada ao incluí-lo nessa escola, da qual é um propagador discreto, mas eficaz.

Tomemos como exemplo único (já que o espaço doravante nos falta) um artigo de Yves Daoudal aparecido em "Présent" do sábado 14 de fevereiro de 1987, intitulado "Um livro de Jean Borella, na linha de crista do pensamento católico — Reencontrar O SENTIDO DO SOBRENATURAL até a deificação." O autor do artigo (Yves Daoudal) faz de J. Borella um elogio que ultrapassa de muito as necessidades do jornalismo e que deve ser posto na conta da confraternidade de opinião. O jornalista incensa o escritor porque ambos são "da mesma casa". Eis alguns excertos do artigo:

O Livro de Jean Borella é "um livro de extraordinária densidade, de rigor intelectual fascinante e de profundidade de análise pouco comum."

"Estas poucas notas não têm a ambição de dar conta de uma reflexão cuja riqueza é tal que não se compreende como pode caber em 160 pequenas páginas... Todo cristão minimamente consciente de seu destino divino deve ir vê-lo de mais perto. Pois esse livro mergulha no coração mesmo da religião. E só se pode saudar as muito jovens edições de 'La Place Royale', que tiveram a coragem de publicar um texto que certamente parece errático no clima atual de decadência generalizada, mas permanecerá como uma das raras testemunhas da persistência, mesmo neste fim do século XX, do pensamento católico em seu mais alto nível."

São elogios gerais que mostram a adesão de Yves Daoudal a todo o conjunto do raciocínio de Jean Borella. Ora, esse raciocínio nós o conhecemos: a faculdade sobrenatural (o sentido sobrenatural) que o homem traz consigo ao nascer é conatural a Deus; é uma fração de divindade que o homem possui por sua natureza. Tal é a tese central do livro, a que justifica seu título "Le Sens du Surnaturel".

Ora, Yves Daoudal, em sua resenha de "Présent", não examina esse ponto central de doutrina. Faz recair seu exame sobre os elementos secundários de que Jean Borella cerca o assunto principal. A saber, por exemplo, a tese do corpo triforme de Cristo, a qual é totalmente aceitável (com a condição de que não se sirva dela para embaralhar a questão).

Yves Daoudal toma em consideração, na exposição de Jean Borella, unicamente o que é aceitável para um católico tradicionalista normal. Empenha-se visivelmente em fazer ressaltar a COMPATIBILIDADE da obra que analisa com a ortodoxia. Por isso é levado a ignorar o assunto principal do livro, que é precisamente inaceitável, pois, mais uma vez, o homem não possui em si nenhum constituinte congênito, ainda que espiritual, que seja de natureza divina.

Depois da morte do Padre Luc Lefèvre, Yves Daoudal tomou parte preponderante na Redação de "La Pensée Catholique". É, portanto, de prever que essa revista apresentará cada vez mais, a seus leitores, o esoterismo cristão como COMPATÍVEL com a fé mais "romana".

YVES CHIRON

Yves Chiron é um jovem escritor de grande atividade. Nasceu em 1960. É professor de História em um colégio católico tradicionalista. Em poucos anos, publicou meia dúzia de obras que tiveram real sucesso:

Todas essas obras fazem dele um escritor nacionalista e católico de boa tonalidade. Esforça-se por irradiar sobretudo nos meios tradicionalistas.

Mas encontra-se-o também na órbita das Éditions PARDÈS (Casa Editora esoterista por excelência) que, em seus anúncios, apresentam Yves Chiron como "assegurando a rubrica dos livros de história e dos ensaios em diferentes revistas dependentes dessa Casa, notadamente na revista 'REBIS'". Trata-se de uma revista editada por Pardès e que desenvolve os temas esotéricos simbolizados e resumidos pelo Andrógino. Rebis é um termo alquímico que significa "A coisa dupla".

Yves Chiron dirige também a revista "L'Âge d'Or — Pour la révolution spirituelle" [A Idade de Ouro — Pela revolução espiritual]. Essa publicação depende igualmente das Éditions Pardès. (Não se deve confundi-la com as Éditions "L'Âge d'Homme", que publicam os "Dossiers H", assim como a revista "Politica Hermetica", de que falamos acima.)

É igualmente em Pardès que Yves Chiron dirige a Coleção AGNUS DEI. Nessa qualidade, editou, em 1987: "Le Mystère du Yéti, à la lumière de la tradition biblique" [O Mistério do Yeti, à luz da tradição bíblica] (obra de Mordini, traduzida do italiano). A tese desse livro é a seguinte: "Os Yetis são, segundo Mordini, os descendentes de Noema, portanto de Caim, homens recaídos ao estado animal." Noema e sua família teriam escapado ao desastre do Dilúvio, o qual não seria, portanto, mais universal, o que não é conforme à Bíblia, sob cuja luz se pretende colocar.

Na Coleção "Agnus Dei" saíram igualmente:

No número 4 da revista "L'Âge d'Or", do verão de 1985, intitulado "Julius Evola et le Catholicisme" [Julius Evola e o Catolicismo], Yves Chiron alinha-se atrás de J. Evola quanto à desejável reformação do catolicismo. Eis como se exprime:

"Para concluir, só podemos fazer nosso o voto de Evola em MASQUE ET VISAGE DU SPIRITUALISME CONTEMPORAIN [Máscara e rosto do espiritualismo contemporâneo], voto que ele teme não ser mais que um sonho."

Citemos agora o texto de J. Evola que Yves Chiron aprova:

"Um catolicismo que se elevasse ao nível de uma tradição verdadeiramente universal, unânime e perene — em que a fé pudesse integrar-se numa realização metafísica — o símbolo na via de despertar — o rito e o sacramento numa ação de potência — o dogma na expressão de um conhecimento absoluto e infalível porque não humano e, como tal, vivo em seres libertados dos bens terrestres por meio de uma ascese — em que o pontificado revestiria sua função mediadora primordial — tal catolicismo poderia então suplantar todo espiritualismo presente e futuro." (Julius Evola, em "Masques et visages du spiritualisme contemporain", Éditions de l'Homme, Montreal, 1972, página 203)

É bem evidente que essas poucas linhas de J. Evola resumem o programa de reforma religiosa dos esoteristas:

Yves Chiron declara, portanto, que no conjunto adere a esse plano de reforma. Confirma, depois de citar Evola, seu juízo favorável escrevendo:

"Em sua precisão e em sua grande justeza, essas linhas nos parecem definir perfeitamente o que poderia caracterizar uma restauração do Catolicismo."

Mas essa restauração não é, para Yves Chiron, uma verdadeira reforma. Bastaria, para realizá-la, que a Igreja voltasse ao que praticou na Idade Média e no momento da Contrarreforma. Escreve:

"Restauração, pois o Cristianismo da Idade Média ou o da Contrarreforma católica, no século XVII, não estava distante do voto de Evola."

Em suma, segundo esse juízo, o Catolicismo da Idade Média correspondia já ao esquema de Evola. Em outras palavras, era esotérico espontaneamente e sem o saber. É exatamente, reconhecer-se-á, a posição do Prof. Borella.

Ora, precisamente o número 5 da revista "L'Âge d'Or" publica uma entrevista de Yves Chiron com o Prof. Borella. As entrevistas desse tipo são feitas para permitir àquele que é interrogado (o Prof. Borella) exprimir e precisar suas ideias. As duas personagens que conversam não são forçosamente do mesmo parecer. No nosso caso, sente-se desde o início um acordo doutrinal perfeito. Yves Chiron não faz ao interlocutor nenhuma pergunta embaraçosa, ao contrário. Ajuda-o a mostrar que o esoterismo é eminentemente compatível com o cristianismo, que é já esotérico sem querer confessá-lo.

Não hesitamos em incluir Yves Chiron na Escola do esoterismo cristão. É certamente aí que residem sua convicção profunda e seu dinamismo.

O PADRE LESCHENNE

O jornal L'Est Républicain de segunda-feira 30 de junho de 1986 publicou o relato de uma "Primeira Missa", sob o título "Comunidade Católica de Rito Latino — Primeira Missa Solene do Padre Leschenne". Lia-se ali isto:

"Ordenado padre em Écône em 27 de junho, o Padre Alain Leschenne cantou ontem sua primeira missa solene na capela do Sagrado Coração, rue Maréchal Oudinot... Com 28 anos atualmente, Alain Leschenne entrou no seminário de Écône em 1979, depois de ter cumprido seu serviço como monitor numa escola militar.

"Sua vocação, contudo, foi bastante tardia. Nasceu do encontro de um homem e de uma obra, o professor Jean Borella, cuja obra intitulada LA CHARITÉ PROFANÉE marcou profundamente o jovem Alain.

"Nomeado para Dijon, o Padre Alain Leschenne terá em todo caso a sorte de poder viver a abertura do primeiro seminário tradicional francês em outubro, em Flavigny-sur-Ozerain, perto da capital da Côte-d'Or."

Assim, esse artigo anunciava ao grande público, com o acordo ativo do interessado, que um convertido ao catolicismo esotérico de "La Charité Profanée" acedia ao posto de "Prior de Dijon".

Alguns anos mais tarde, em um artigo aparecido em Fideliter, o Padre Leschenne mostra ele próprio que está apto a propagar por sua vez o esoterismo que aprendeu do Prof. Borella e provavelmente também de Jean Hani, como se verá. É um artigo consagrado ao Ofertório da Missa. O autor mostra sua importância insubstituível no antigo rito. Pode-se subscrever também o que diz sobre o simbolismo das rubricas e o das oblatas. Nem tudo, certamente, é de rejeitar nessas quatro páginas densas e muito trabalhadas. Não obstante, uma radioscopia um pouco atenta de todo esse raciocínio faz aparecer vários pontos de doutrina que são tipicamente gnósticos, ainda que bem envolvidos num vocabulário escorregadio. Examinaremos apenas um, por falta de espaço.

Vem um parágrafo, com efeito, em que se misturam duas doutrinas, uma ortodoxa, outra esotérica. O autor escreve primeiro e repete com força que os sacerdotes renovam e reproduzem o ato único de Cristo morrendo na Cruz, e acrescenta: "A Missa reitera o sacrifício salvador OU ANTES a consagração manifesta visivelmente um ATO ETERNO". É aí que reside a charneira de seu raciocínio. Diz-nos primeiro que a missa reitera o sacrifício salvador, portanto o Sacrifício HISTÓRICO de Nosso Senhor Jesus Cristo: muito bem, é com efeito a sã doutrina. Mas depois faz-se menção de um ato ETERNO que a consagração manifestaria visivelmente.

Qual é, pois, esse ato eterno? O Padre Leschenne vai nos explicar, mas sem pôr, contudo, a clareza que teríamos desejado. Exprime-se como esoterista, por palavras veladas. Esse "ato eterno" é um:

"Ato imóvel e imutável, uno e idêntico a si através de suas manifestações em modos diversos. — Ato litúrgico da missa, ato original do Filho do Homem exaltado na cruz, ato eterno de Deus em que o Pai engendra seu Filho e, Nele, produz o universo. Sacrifício ritual do altar, sacrifício fundador do Calvário, sacrifício eterno do Cordeiro imolado."

Essa longa enumeração exige ser esclarecida, pois é nela que reside a mistura, ou antes a alternância, da ortodoxia e da gnose. — Que se quer nos mostrar? Quer-se nos mostrar que um certo "ato imutável", mas de natureza sacrificial, se manifesta em modos diversos; mais exatamente em modo histórico e em modo eterno. — Extraiamos primeiro as manifestações desse ato imutável em modo HISTÓRICO. Obtemos isto:

Isolemos agora, em todo esse contexto, as manifestações desse mesmo "ato imutável" em modo ETERNO. Obtemos então:

Comparemos agora os termos desses dois modos de manifestação. Resulta que o Ato eterno de Deus em que o Pai engendra seu Filho e, Nele, produz o universo é um Sacrifício eterno, do qual o da Cruz é uma modalidade histórica. Se, portanto, a missa é a reiteração do Sacrifício do Calvário, o próprio Calvário é a reiteração do que é preciso chamar de SACRIFÍCIO DA CRIAÇÃO.

Reconhecer-se-ão as teorias que desenvolve o Prof. Borella em "La Charité Profanée" e em "Le Sens du Surnaturel" e mais ainda as de Jean Hani em "La Divine Liturgie".

É evidente que tudo isso exigiria ser estudado com muito mais detalhes. Pois são, afinal, questões gravíssimas. Somos obrigados a condensar, pois já ultrapassamos os limites de um simples artigo. Todos esses problemas deverão ser retomados ulteriormente para nada deixar na sombra.

O ofertório da Missa

Última página do artigo.

Essa oferenda, a Igreja a apresenta «em memória da paixão, da ressurreição e da ascensão de Jesus Cristo, Nosso Senhor». Não se trata, é claro, de uma piedosa lembrança, de uma simples comemoração, humana e ineficaz, mas de uma memória ritual. Uma energia celeste, estranha ao mundo humano, sobrenatural e divina, uma potência vivificante foi confiada por Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, a seus discípulos. Investiu-os do poder de consagrar o pão e o vinho «em memória Dele». Doravante, renovam e reproduzem o ato único de Cristo morrendo na Cruz, como também a obra única da salvação operada por toda a sua vida, e muito especialmente por sua Paixão, sua Ressurreição e sua Ascensão. Cristo é a Vítima, a vítima pura e sem mancha, a vítima aceita pelo Céu. A missa reitera esse sacrifício salvador, ou antes a consagração manifesta visivelmente um ato eterno. Ato imóvel e imutável, uno e idêntico a si através de suas manifestações em modos diversos. Ato litúrgico da missa, ato original do Filho do Homem exaltado na cruz, ato eterno de Deus em que o Pai engendra seu Filho e, Nele, produz o universo. Sacrifício ritual do altar, sacrifício fundador do Calvário, sacrifício eterno do Cordeiro imolado.

«Se Cristo nascesse mil vezes em Belém sem nascer uma vez em teu coração, não serias salvo», afirma um santo. Do mesmo modo, se o sacrifício de Cristo não é também o teu, isso de nada te serve. É por isso que o sacerdote, depois de beijar o altar, volta-se para os fiéis e, abrindo amplamente suas mãos carregadas de bênçãos, convida solenemente a assembleia a não assistir passivamente ao drama litúrgico, mas a introduzir-se no grande movimento do sacrifício eucarístico. Pois duas coisas são bem certas. A primeira é que o sacrifício é o único acesso à vida divina. A segunda, que só o sacrifício de Cristo é agradável a Deus. Deus é santo e infinitamente perfeito, o homem pecador e limitado. Dois mundos quase incomensuráveis que só se comunicam pela porta estreita do sacrifício. É preciso morrer para entrar numa vida mais alta. Mas não basta morrer, é preciso morrer com Cristo, com aquele cuja morte é uma vitória e uma ponte lançada sobre o abismo. É por isso que a Igreja reclama dos fiéis que se ofereçam com Cristo, que seu corpo e seu coração sejam apresentados com Cristo numa hóstia espiritual, que com grande seriedade façam verdadeiramente seu o sacrifício da Cruz e do altar.

Tal se apresenta o ofertório da missa, prelúdio da misteriosa consagração. A Igreja ali ensina aqueles que queiram ouvi-la. Possam abrir-se os ouvidos e os corações dos surdos e que todos, persuadidos de que a Missa é um Tesouro, nela haurir um coração novo para honrar a Deus em espírito e em verdade. Pois onde está o teu Tesouro, aí também está o teu Coração.

Padre Alain LESCHENNE



Revision #1
Created 23 October 2026 00:11:04 by Admin
Updated 23 October 2026 00:11:04 by Admin