Capítulo II: François Chénique

François CHÉNIQUE é o compilador da obra que acabamos de analisar no Capítulo I. Foi ele quem estabeleceu a coletânea póstuma dos escritos do Padre Stéphane e lhe deu seu título. É, portanto, a primeira personalidade que se apresenta ao espírito quando se quer recensear os membros da ESCOLA DO ESOTERISMO CRISTÃO. Graças às notas explicativas com que acompanhou os dois tomos dessa coletânea, sabemos que Fr. Chénique adere a essa Escola, no conjunto como no detalhe. Um documento muito sintomático vai assegurar-nos definitivamente de seu pertencimento ao Esoterismo cristão. Trata-se das "Actes de la Deuxième Rencontre Bouddhistes Chrétiens" [Atas do Segundo Encontro Budistas-Cristãos], encontro organizado pelo INSTITUT KARMA-LING, em Pentecostes de 1984, sob a Presidência do Lama Denis Teundroup, no "Centro Budista da Cartuxa de Saint-Hugon".

Esse colóquio foi consagrado a debater o seguinte tema: PALAVRA E SILÊNCIO. As "Atas" do colóquio foram publicadas pelas EDITIONS PRAJNA, no endereço da Cartuxa de Saint-Hugon, comuna de Arvillard, 73110 La Rochette. A conferência de Fr. Chénique nesse colóquio tinha por título: "E o Verbo se fez carne".

INSTITUT KARMA-LING

Quais são as atividades habituais do instituto KARMA-LING, que foi a "potência convidante" do colóquio de 1984?

As "Atas" apresentam-nos essas atividades como se desenrolando em quatro níveis.

"O ensinamento budista prega a tolerância e nosso pai espiritual, o Muito Venerável Kalu Rinpoche, é a encarnação (isto é, a reencarnação) de Jamgon Kongtrul Rinpoche, o grande artífice, no século passado, do que se chama o movimento ecumênico ou 'sem partido': o movimento RIME da tradição tibetana."

OS PARTICIPANTES DO COLÓQUIO BUDISTAS-CRISTÃOS

Quais foram os PARTICIPANTES desse colóquio "Budistas-cristãos" de 1984? Foi o Doutor Schnetzler, psiquiatra, quem procedeu à sua apresentação na sessão inaugural.

É fácil constatar que todos esses conferencistas foram escolhidos por seu espírito de ecumenismo. Aqueles dentre eles que são religiosos católicos pertencem à Igreja conciliar. Todos estão conquistados à ideia de uma EQUIVALÊNCIA GERAL do Cristianismo e do Budismo. Pois tal é o denominador comum exigido de todos os participantes. Tratava-se, em seguida, para cada conferencista, de tratar das equivalências de detalhe em certos casos particulares, por exemplo a mística, os avatares, os símbolos, a iniciação... Foi um colóquio para constatar um acordo preestabelecido e para rodar uma argumentação em vista do proselitismo. Pode-se dizer, em suma, que foi um colóquio de pastoral ecumênica.

Entre os conferencistas que acabamos de citar, há dois que são ao mesmo tempo cristãos e budistas. São o Doutor J. P. Schnetzler e François Chénique. Entretanto, as obras do Dr. Schnetzler fazem dele um escritor propriamente budista: "La Méditation bouddhiste, bases théoriques et techniques" [A Meditação budista, bases teóricas e técnicas] (Dervy, 1979), "Comparaison entre l'Hésychasme et le Bouddhisme" [Comparação entre o Hesicasmo e o Budismo] (Prajna, 1983), "Non-Mental et Méditation" [Não-Mental e Meditação] (Les Cahiers du Bouddhisme N° 2, 1984).

Para acompanhar o pensamento e as atividades da Escola do esoterismo cristão, recorreremos preferencialmente a François Chénique, que é muito mais típico dessa escola. Mencionemos aqui seu livro: "Le Yoga spirituel de saint François d'Assise" [O Yoga espiritual de São Francisco de Assis]. Vamos resumir a conferência que pronunciou no colóquio de Saint-Hugon em 1984. Reencontraremos nela os temas que já encontramos no Padre Stéphane.

A CONFERÊNCIA DE FRANÇOIS CHÉNIQUE

O tema de sua conferência na Cartuxa de Saint-Hugon era este: "E O VERBO SE FEZ CARNE". Segundo sua introdução, propõe-se uma dupla demonstração.

1° diluir "A carne" em todo o conjunto do Universo — 2° e diluir "o Verbo" ao longo de toda a História humana.

Seu trabalho consistirá em RELATIVIZAR a Encarnação histórica que é "confessada" pela Religião cristã, para pôr em seu lugar uma "Encarnação" teórica e equívoca que se poderá aplicar tanto a Nosso Senhor quanto ao Seu "Adversário".

1. — DILUIÇÃO DA CARNE

Quando nos dizem que o Verbo revestiu a natureza humana, que querem nos fazer compreender? Fr. Chénique vai nos dar o sentido esotérico, e portanto essencial, dessa expressão:

"É preciso conceber que a natureza humana do Verbo é uma natureza humana desprovida de personalidade. Em outras palavras, a natureza humana somos todos nós, na medida em que participamos dessa natureza... É isso que simboliza a Ascensão. Não é um corpo que sobe ao céu, é a natureza humana como tal."

"Não é um corpo que sobe ao céu", diz-nos Fr. Chénique. "É uma natureza humana desprovida de personalidade". A sutileza desse budista é grande, pois, com efeito, a personalidade que sobe ao Céu, no dia da Ascensão, não é uma "personalidade humana", já que Nosso Senhor possui somente a Personalidade divina em duas naturezas. Nosso sofista aproveita para nos sugerir que a natureza humana que sobe ao céu é uma natureza representativa e coletiva. Eis, pois, "a carne" da Encarnação diluída no conjunto da humanidade. Não deixa, em seguida, de estender essa diluição ao cosmos inteiro.

2. — DILUIÇÃO DO VERBO

Podia-se esperar, evidentemente, que o budista, que é ao mesmo tempo um esoterista cristão, faça de Nosso Senhor Jesus Cristo um AVATAR da divindade. Mas precisa bem que se trata de um Avatar de um tipo muito especial. Pois se distinguem os avataras maiores e os avataras menores. Em seu Advento terrestre, o Verbo Encarnado pode ser considerado um "Avatar pleno" (ou maior). Mas sem prejuízo dos avataras menores que possam ter sido os seus em outras circunstâncias. Por exemplo, o ROCHEDO de Moisés de onde a água jorrou era um avatara. Da mesma forma, a ARCA de Noé. — O Verbo, a Palavra, materializa-se e se faz ouvir de múltiplas maneiras e em múltiplos graus. Os Avataras de Vishnu são de natureza menor. — Fr. Chénique mantém a noção de Avatara tentando cristianizá-la.

SÍMBOLOS E SACRAMENTOS

Como corolário de seu tema principal, Fr. Chénique é levado a definir o que entende por símbolos. Pode-se facilmente prever que fornecerá uma definição apta a satisfazer conjuntamente os budistas e os esoteristas cristãos. Eis o seu texto:

"OS SÍMBOLOS SÃO SINAIS SENSÍVEIS, isto é, perceptíveis pelos sentidos do homem, que remetem a uma realidade ou verdade que lhes é superior: significam essa realidade superior e a tornam de algum modo PRESENTE."

Segundo ele, portanto, os símbolos tornam presentes realidades superiores. Não se pode aceitar uma tal definição. Na realidade, os símbolos têm apenas valor pedagógico. Evocam ao espírito os objetos que figuram, mas não os tornam PRESENTES. É a própria evidência. Há aí uma hipertrofia que constitui um verdadeiro erro. — É interessante observar como Fr. Chénique pensa justificar esse juízo.

Quer, num certo momento de sua conferência, dar exemplos dessas presentificações operadas pelos símbolos.

O que vai escolher como exemplos?

"Existem, diz ele, símbolos materiais: A ÁGUA do batismo, O PÃO eucarístico, O ÓLEO da confirmação..." (Atas, página 56).

Em suma, quer fornecer exemplos de símbolos e, para mostrar seu poder de "presentificação", é obrigado a escolher exemplos de SACRAMENTOS. Sacramentos que nem sua religião exotérica, o budismo, nem sua linhagem esotérica são capazes de reproduzir.

O sacramento da Igreja OPERA O QUE SIGNIFICA. Está dotado, por sua instituição divina, de uma força operatória.

O símbolo contenta-se com uma força sugestiva sobre o espírito.

Ao assimilar o sacramento ao símbolo quanto à força operatória, Fr. Chénique introduz a ilusão no espírito de seus ouvintes, que serão levados a pensar que todo símbolo é portador de uma força análoga e que pode, como se lhes repete, PRESENTIFICAR as realidades superiores simbolizadas.

Encontram-se essas ideias amplamente desenvolvidas nos trabalhos do Prof. Borella sobre o simbolismo. São, aliás, concepções muito largamente difundidas entre os escritores esotéricos.

CRIAÇÃO E EMANAÇÃO

Examinamos as doutrinas em voga entre os escritores que compõem a escola do esoterismo cristão. Cumpre-nos, portanto, perguntar a Fr. Chénique sua opinião sobre a origem do Universo. Ele nos revela o essencial dela no curso de sua conferência no Colóquio Karma-Ling.

Sabe-se que duas doutrinas estão em concorrência desde sempre: a doutrina da criação ex nihilo, que é a da Igreja, e a doutrina da Emanação, muito largamente difundida fora da Igreja. Lembremos rapidamente essas duas doutrinas a fim de bem compreender a posição de Fr. Chénique.

A CRIAÇÃO EX NIHILO. Deus criou o universo do nada. Fez surgir o universo onde não havia nada. Não se poderia exagerar a importância desse princípio, que tem repercussões inumeráveis na ciência de Deus, nas ciências da natureza e nas do homem. Como corolário da criação ex nihilo, a Igreja ensina que o homem foi criado portador da imagem e da semelhança de Deus.

A imagem divina de que se trata aqui diz respeito ao estado de natureza. Essa imagem reconhece-se na constituição natural do homem. Depois da queda, o homem conservou em si a imagem de Deus, já que ela pertence à natureza.

Que é, pois, essa imagem? É um REFLEXO. A imagem divina não é uma fração de substância divina. Há tanta diferença entre Deus e Sua imagem no homem quanto entre uma árvore e seu reflexo na superfície da água. Existe um abismo entre o modelo divino e a imagem humana.

A semelhança diz respeito à ordem sobrenatural. Consiste na Santidade de nossos Primeiros Pais, que haviam sido revestidos da graça santificante em razão de sua inocência. Depois da queda, o homem perdeu essa semelhança sobrenatural. Resta-lhe apenas a imagem divina (reflexo), pois sua constituição natural não lhe foi retirada, foi apenas ferida.

A EMANAÇÃO é uma doutrina muito antiga e muito difundida em todo o mundo não cristão. O universo seria um escoamento da substância divina, escoamento que vai se degradando na proporção em que se afasta de sua fonte. O mundo espiritual está próximo do Princípio e o mundo material dele está afastado. Entre os emanatistas, o cosmos já não será chamado "Criação", mas MANIFESTAÇÃO, palavra que evoca melhor a ideia de um escoamento substancial. É evidente que se encontram variantes entre as doutrinas emanatistas, sendo umas mais "contínuas", outras mais "descontínuas". Mas em todas é lógico que a alma humana, que pertence ao mundo espiritual diretamente emanado de Deus, contenha um fragmento da substância espiritual de Deus, um germe divino. Esse germe divino tende, muito naturalmente, a reintegrar sua fonte para nela retomar o lugar que tinha na origem.

As duas doutrinas, a criacionista e a emanatista, excluem-se uma à outra. No criacionismo, o homem está separado de Deus como o reflexo está separado de seu modelo, isto é, por um abismo. Na emanação, há continuidade entre Deus e o homem.

Qual dessas duas concepções, eminentemente inconciliáveis, Fr. Chénique vai adotar? Declara-se criacionista ou emanatista? É difícil sabê-lo, pois os parágrafos que consagra a essa questão são muito confusos. Um dos mais claros é este:

"A criação está, em referência a Deus, enquanto VESTÍGIO, IMAGEM e SEMELHANÇA. — Enquanto 'vestígio', refere-se a Deus como a seu princípio. — Enquanto 'semelhança', como sendo um dom infuso.

"Toda a criação é vestígio de Deus, vestígio que é criado; 'imagem' que conhece Deus; semelhança em que Deus habita. — A cooperação de Deus com sua criatura situa-se segundo esses três graus.

"Deus coopera com a criatura que é seu vestígio sob a forma de princípio criador." Atas, página 61.

Esse curto parágrafo é típico do esoterismo cristão. Pois Fr. Chénique é budista, mas declara-se também cristão. À primeira vista, pode-se pensar que a doutrina da origem do universo e do homem aqui resumida pode inserir-se no cristianismo, já que nela se trata de criação (e não de "manifestação"), de imagem e de semelhança. A terminologia é católica. Mas é preciso constatar que O EMANATISMO é igualmente sugerido, pois nos dizem que a criação é um VESTÍGIO de Deus enquanto Princípio Criador. Ora, "vestígio" desperta a ideia de fragmento de substância remanescente.

Resta ao esoterismo cristão apenas fazer passar o criacionismo como uma VARIANTE entre as doutrinas EMANATISTAS. É a impressão duradoura que se tira de inúmeras passagens de R. Guénon, em particular em "Introduction générale à l'étude des doctrines hindoues" [Introdução geral ao estudo das doutrinas hindus].

INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES

Em setembro de 1986, realizou-se um novo colóquio na Cartuxa de Saint-Hugon, por iniciativa do Lama Denis Teundroup e do Doutor J. P. Schnetzler, sobre o tema: A Unidade Transcendente das Religiões. Os nomes dos participantes são interessantes de anotar porque pertencem quase todos à escola do esoterismo cristão:

O próximo colóquio de Saint-Hugon está previsto para 24 a 26 de abril de 1992. Será o segundo "inter-budista". Terá por tema O NÃO-EU. Os Cristãos antigos participantes (religiosos ou leigos) já não figuram no programa na qualidade de conferencistas. São anunciados como simples participantes. O Centro de Saint-Hugon tornou-se exclusivamente budista demais e os esoteristas cristãos preferiram marcar com ele certa distância, continuando, porém, a frequentá-lo como simpatizantes externos.

CONCLUSÃO

Se insistimos um pouco neste Colóquio Karma-Ling, foi para fazer notar bem que, afinal, a escola moderna do esoterismo cristão foi lançada à luz do dia por um Budista. Pois Fr. Chénique, que lhe deu seu nome e seus primeiros estatutos doutrinais ao publicar o livro do Padre Stéphane, pratica simultaneamente o Cristianismo e o Budismo.

É com toda a lógica que fazemos figurar Fr. Chénique entre seus membros. Incluir-se-ão também os conferencistas e os organizadores dos diversos "Colóquios de Saint-Hugon". Enumeramo-los no início, depois no fim do presente capítulo.

Resta-nos prosseguir nossa investigação. É o que vamos fazer examinando as obras do Prof. Borella.



Revision #1
Created 23 October 2026 00:10:48 by Admin
Updated 23 October 2026 00:10:48 by Admin