# Capítulo I: O Padre Stéphane

### INTRODUÇÃO: A OBRA DO PADRE STÉPHANE — CARACTERÍSTICAS GERAIS

A primeira obra dessa "Escola" que examinaremos será a do Padre Henri STÉPHANE, intitulada: "INTRODUCTION À L'ÉSOTÉRISME CHRÉTIEN" \[Introdução ao esoterismo cristão\].

Textos reunidos e anotados por François CHÉNIQUE. Prefácio e Posfácio de Jean BORELLA. Em dois tomos (1979-1983), pelas Éditions DERVY-LIVRES, 6 rue de Savoie, Paris VI. Na coleção "Mystique et religions" (a cinta que fecha o livro novo traz a menção "O teólogo do nosso século").

Se iniciamos nosso estudo por este autor, é porque ele foi um dos principais inspiradores de um importante grupo de escritores que militam no sentido do Esoterismo Cristão e que formam verdadeiramente uma "Escola de Pensamento", cuja coesão não deixa dúvida.

> Depois de uma BIOGRAFIA sucinta do Padre H. Stéphane, procederemos a uma análise resumida de sua doutrina.

### BIOGRAFIA SUCINTA DO PADRE STÉPHANE

O Padre Stéphane chamava-se, de seu verdadeiro nome, André, Henri, Stéphane GIRCOURS. Nasceu em 1906. Era matemático de formação. Sua vocação sacerdotal foi bastante tardia. Foi ordenado padre em 1941, portanto aos 35 anos. Durante quase toda a vida, ensinou matemática e deu aulas de Religião em instituições privadas. Foi em um seminário menor que teve seu primeiro posto de professor.

Cultivava, diz-se, para si mesmo, tendências místicas. Familiarizou-se cedo com São João da Cruz e Santa Teresa d'Ávila. Infelizmente, descobriu também os livros e a doutrina de René Guénon, dos quais fez, a partir de então, seu alimento habitual.

A isso acrescentou o estudo das obras de Frithjof Schuon, que é o principal discípulo e continuador de R. Guénon. Não tardou a incorporar esses novos dados às suas concepções cristãs e até às aulas de Religião que ministrava. Foi assim que chamou a atenção de seu bispo, o bispo de Nancy, que acabou sendo obrigado a expulsá-lo da diocese. O Padre Gircours deixou a diocese de Nancy em setembro de 1943, com proibição de confessar.

Foi então acolhido no Colégio Sainte-Geneviève, em Versalhes, onde lhe confiaram a classe de matemática de preparação para a Agro. Ali lecionou até se aposentar, em 1973.

Levou, a partir daí, uma vida quase eremítica. Mas sua solidão não o impediu de receber visitas numerosas e, sobretudo, assíduas. Em suma, formou verdadeiros adeptos. Escreveu apenas pequenos tratados sobre assuntos isolados. Encontram-se esclarecimentos sobre seu método no prefácio do primeiro tomo.

No fim da vida, sem dúvida cansado por seus estudos, perturbado talvez também pela vertigem que o Esoterismo arrasta tantas vezes consigo, o Padre Gircours teve de fazer internações no Hospital psiquiátrico interdepartamental de Maréville, perto de Nancy, onde seus fiéis não deixaram de ir visitá-lo. Morreu em 1984, no décimo primeiro ano de sua aposentadoria.

<u>"L'Introduction à l'Ésotérisme Chrétien"</u> é a coletânea, reunida por François Chénique, dos principais sermões e de alguns dos breves tratados deixados pelo Padre Stéphane.

### AS FONTES DE INSPIRAÇÃO

O Padre Stéphane foi um padre instruído e familiarizado com as questões de doutrina. À formação religiosa clássica que recebera no seminário, e que manteve assiduamente depois, acrescentou outra formação, de tendência orientalista, não menos ardentemente cultivada. François Chénique, seu compilador, cita em particular quatro autores como tendo exercido sobre ele uma profunda influência:

- René GUÉNON
- Frithjof SCHUON
- Ananda K. COOMARASWAMY
- e Paul EVDOKIMOV.

### A DOUTRINA DO PADRE STÉPHANE — INTRODUÇÃO

Podemos esperar encontrar, na obra do Padre Stéphane, em conformidade com seu título, uma associação de Esoterismo e de Cristianismo.

> Como essas duas doutrinas vão coabitar?

Percebe-se rapidamente que o autor não elaborou um sincretismo homogêneo. É evidente que ele não pôde associar o esoterismo e o cristianismo para formar um conjunto coerente. Não harmonizou as duas doutrinas. Antes as justapôs. Certos desenvolvimentos do Padre Stéphane são perfeitamente ortodoxos.

Outros, em contrapartida, estão contaminados pelo Esoterismo, em graus diversos. Vamos classificá-los por assunto e examiná-los um após o outro, sem pretender uma sucessão perfeitamente lógica, já que o próprio autor não produziu um desenvolvimento organizado, mas apenas breves tratados distintos.

### A ORTODOXIA DO PADRE STÉPHANE

**1. Sobre a INERRÂNCIA BÍBLICA:** o Padre Stéphane insurge-se contra os teólogos modernistas que pretendem transpor, para o domínio da exegese bíblica, os métodos profanos da "crítica histórica".

> *"O método HISTÓRICO e EXEGÉTICO, tão caro aos nossos contemporâneos, é totalmente impotente para dar o sentido da Bíblia; contenta-se em estudar os próprios documentos, em situá-los penosamente num quadro cronológico e geográfico. Mas, ao cabo de tantos esforços, o que resta, e em que um tal trabalho contribui para dar a inteligência da Escritura?*
> 
> *"Toda a questão é, então, saber se esse AGGIORNAMENTO não acarreta uma desnaturação, uma falsificação ou ao menos uma desvalorização das COISAS SANTAS. A dissecação que se aplica à Escritura Santa parece tão sacrílega quanto seria examinar uma hóstia consagrada ao microscópio na esperança de nela descobrir o Corpo de Cristo."* T. I, p. 337.

**2.** O Padre Stéphane hierarquiza com exatidão OS DOIS PRECEITOS DA CARIDADE, a saber, o Amor a Deus primeiro e o do próximo em seguida:

> *"Mal é preciso lembrar todas as inépcias, os desvarios e as aberrações que se pregam, em nome do Amor, em toda sorte de seitas. Reduz-se tudo à fraternidade universal; por outro lado, justificam-se todas as torpezas em nome do Amor... Todas essas aberrações podem se reduzir a esta afirmação: retém-se somente o amor ao próximo e esquece-se o Amor a Deus ou a Cristo, quando está dito: 'amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito, e o teu próximo como a ti mesmo.' (Mat. XXII-37). Sacrifica-se a verdade ao amor."* Tomo II, página 311.

**3.** As posições relativas da OBJETIVIDADE E DA SUBJETIVIDADE em matéria religiosa são muito bem precisadas: *"Dirigimo-nos aqui a Cristãos que creem em Deus, no além e em Jesus Cristo, mas que imaginam chegar a Deus, ou ao céu, por uma simples ligação ideal com Cristo, por uma espécie de romantismo SUBJETIVO em que se derrama sua aspiração espiritual vaga e sentimental; reza-se a Deus, ama-se a Cristo, admiram-se suas virtudes e admite-se, ou não se compreende, a necessidade de uma ligação OBJETIVA, a única real e eficaz, a uma ordem sacramental querida e fundada por Cristo, e cujas estruturas não são entregues à fantasia e ao arbítrio dos homens. Em outras palavras, não basta ter a fé e o amor para que se realize efetivamente em nós a obra do Mediador.*

**4.** Eis, sobre a importância da ORAÇÃO LITÚRGICA, uma reflexão do Padre Stéphane que o muito tradicional Dom Guéranger poderia ter assinado:

> *"... a oração mental e a oração litúrgica são dois modos complementares de toda vida espiritual. Mas a oração litúrgica, que é a prece oficial da Igreja, Esposa sagrada e Corpo Místico de Cristo, é evidentemente superior à oração mental individual, e mais agradável a Deus. A Igreja, com seus ritos sacramentais e seu Ofício Divino, aparece assim como a fonte em que se alimenta o fiel".* Tomo I, página 271.

**5.** O Padre Stéphane julga a IGREJA MODERNA, e mais especialmente a Igreja pós-conciliar, com severidade:

> *"Mas o mais grave... é ser tentado a REDUZIR a Religião a uma caricatura. Sem entrar em detalhes, bastará lembrar que houve toda uma época em que se reduziu a Religião à moral, o que se pode chamar de MORALISMO, ou à observância de um certo número de práticas, o que se pode chamar de FORMALISMO ou conformismo. Hoje, de decadência em decadência, sabeis a que se a reduz: ao 'social', até mesmo ao SOCIALISMO."* Tomo II, página 365.

**6.** Certas frases do Padre Stéphane levam a supor que ele subscreve a doutrina chamada "da PRIMAZIA ABSOLUTA" do "Verbo Encarnado", doutrina particularmente em voga no núcleo duro do tradicionalismo. Eis uma dessas passagens:

> *"A natureza é querida EM VISTA DA ENCARNAÇÃO do Verbo e da constituição do corpo místico e 'a criação inteira espera a glorificação dos filhos de Deus' (Rom. VIII, 19). Isso em nada prejudica o caráter essencialmente gratuito da Graça, nem a impossibilidade de o homem, suposto reduzido às suas únicas forças, alcançar seu fim sobrenatural sem o socorro de Deus."* Tomo I, página 34.

**7.** Reconhece também à Igreja a propriedade de seu patrimônio SIMBÓLICO:

> *"Esses símbolos não são escolhidos ao acaso, mas, pela assistência do Espírito Santo, a Igreja, seguindo e por ordem de Cristo, escolheu na natureza os símbolos essenciais cardeais, que representam de maneira sintética e simbólica a universalidade da natureza."* Tomo II, página 155.

Veremos, não obstante, que, em pontos muito importantes, o Padre Stéphane se afasta da ortodoxia simbólica para se juntar ao simbolismo dos ocultistas e dos orientais.

**8.** A crítica que faz da NOVA LITURGIA é excelente:

> *"Para celebrar os Santos Mistérios, não é indiferente entrar numa Igreja românica ou numa sala de jantar. Não é indiferente revestir os ornamentos litúrgicos ou dizer a Missa de macacão. Não é indiferente dizê-la em latim e em gregoriano, ou cantar cantilenas em língua vulgar. Tudo isso contribui grandemente para dar o sentido do sagrado."*
> 
> *"Um certo quadro (ambiente!) é, portanto, indispensável, ao nível do homem comum, para que a Religião subsista sob formas sagradas adequadas à sua sensibilidade. Hoje esse quadro está em migalhas, e a Religião se evapora."* Tomo II, página 250.

**9.** As DESVIAÇÕES DO CONCÍLIO não escaparam à observação do Padre Stéphane:

> *"Todo esse modernismo, contido tão bem quanto mal até o Vaticano II, espalhou-se como um abscesso rompido, como uma leucemia por todo o organismo, quando o Concílio ABRIU AS JANELAS. Concebe-se que uma crítica tão radical da Religião conduza à sua destruição."* Tomo II, página 170.

**10.** O Padre Stéphane não esquece a DEMONOLOGIA. Notou perfeitamente que o mundo moderno está compenetrado pela influência de Satanás:

> *"Hoje essa visão apocalíptica das coisas é considerada, por nossos contemporâneos, que se veem como espíritos fortes e que substituíram o Culto de Deus pelo culto do homem, como obscurantismo medieval, e já não se fala dela. Basta, contudo, abrir os olhos e ler os jornais para se dar conta de que SATANÁS ESTÁ POR TODA PARTE; se já não está no deserto de areia, está no deserto do mundo moderno, um mundo de máquinas e de fealdades de toda sorte."* Tomo II, página 299.
> 
> *"Para quem compreendeu a notável coerência do dogma, os balbucios de uma filosofia qualquer (hegeliana, por exemplo) são inexistentes. Quanto à ironia e ao ceticismo dos modernistas ou dos negadores de toda espécie, é O RISO DE SATANÁS."* Tomo II, páginas 327-328.
> 
> *"Se a nova religião é essencialmente o culto do homem, a antiga era essencialmente o culto de Deus. Escusado dizer que a nova religião não é senão uma pseudo-religião, uma paródia satânica da antiga religião."* Tomo I, página 372.

Vê-se que o Padre Stéphane opera um certo DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS. Crê incontestavelmente na existência de espíritos maus. Contudo, constataremos mais adiante que os critérios que aplica para distinguir os bons dos maus espíritos não são de modo algum aqueles que a Igreja tradicional sempre utilizou.

**11.** É mesmo em função desse discernimento dos espíritos que o Padre Stéphane faz a crítica de FREUD e de JUNG. Nada pode atrair melhor a confiança dos reacionários:

> *"Há primeiro a declaração particularmente significativa de Freud, que pôs à frente de sua 'Traumdeutung' (interpretação do sonho) esta epígrafe: 'Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo' (Virgílio, Eneida VII-312). Se não posso dobrar as potências do alto, remexerei o Aqueronte, isto é, os infernos. Esse propósito deliberado de explorar o 'infernal', por não poder dobrar o 'celeste', não deixa dúvida quanto ao caráter 'sinistro' de seu projeto... Por fim, faremos uma pergunta sem dúvida muito indiscreta: POR QUEM os primeiros psicanalistas puderam ter sido eles próprios psicanalisados, e DE QUEM tinham os 'poderes' que comunicaram a seus discípulos."* Tomo II, páginas 182-183.

O Padre Stéphane é muito hostil à noção de inconsciente coletivo (de Jung), da qual sugere tratar-se de uma potência de tipo maléfico (nota sobre Jung — Tomo II, página 184).

É igualmente muito hostil a Bergson e às suas doutrinas da evolução (tratado IV — Tomo II, página 187); tudo isso só pode agradar entre os intelectuais tradicionalistas.

\* \* \* \* \*

Para concluir este parágrafo sobre "a ortodoxia do Padre Stéphane", podemos constatar que sua obra tem de que SEDUZIR certos espíritos tradicionalistas de hoje, sobretudo por sua CRÍTICA da Igreja contemporânea. Insiste, com efeito, na DESSACRALIZAÇÃO da Igreja moderna.

Aqueles que se contentarem com uma leitura rápida poderão ficar impressionados por essa crítica judiciosa. Eis, dirão, um escritor:

- que ensina uma BOA DOUTRINA sobre pontos essenciais,
- que não gosta do mundo moderno e de sua DESSACRALIZAÇÃO,
- que critica a SECULARIZAÇÃO da Igreja pós-conciliar,
- e que não receia falar do DEMÔNIO e de sua influência considerável na civilização contemporânea.

Em consequência, os leitores INSUFICIENTEMENTE atentos classificarão o Padre Stéphane entre os ESCRITORES TRADICIONALISTAS. Ora, é precisamente nessa categoria que ele próprio e seus compiladores desejam ser incluídos. E, no entanto, veremos, nos parágrafos seguintes, que o veneno esotérico impregna toda a obra do Padre Stéphane e desnatura completamente o aparente tradicionalismo que acabamos de observar.

Não deixa de ser interessante notar que já era assim com R. Guénon, que foi seu principal inspirador durante os anos trinta e quarenta (de 1925 a 1950).

Guénon ENCANTOU, com suas incessantes referências à TRADIÇÃO, grande parte da intelligentsia nacionalista e reacionária, que não soube discernir o Esotero-ocultismo escondido sob o verniz tradicional.

### O ESOTERISMO DO PADRE STÉPHANE — O PADRE STÉPHANE DEFINE EXOTERISMO E ESOTERISMO

Em sua "Introduction à l'Ésotérisme Chrétien", o Padre Stéphane insiste na distinção entre Exoterismo e Esoterismo. Essa distinção faz parte integrante de seu sistema, como do de seus inspiradores, em particular R. Guénon e F. Schuon, assim como fará parte também dos sistemas propostos por seus discípulos.

É necessário, portanto, examinar essas definições tal como as entendem o Padre Stéphane e os representantes dessa escola.

#### a) Definição de exoterismo

> O Exoterismo é a Religião adaptada ao grande público. Existe, escreve o Padre Stéphane:
> 
> *"...toda uma literatura edificante destinada a vulgarizar o Evangelho para pô-lo ao alcance da massa."*

Ora, o Padre Stéphane julga que, para apresentar o Evangelho à massa, foi preciso fazê-lo sofrer uma deformação. Foi preciso, escreve ele:

> a) sistematizá-lo e fazer dele uma teoria ABSTRATA e geral, válida para todos e oferecida a todos;
> 
> b) SIMPLIFICÁ-LO e vulgarizá-lo para pô-lo ao alcance de todas as inteligências. Eis o seu texto:
> 
> *"É praticamente inevitável que tal 'remanejamento' tenha resultado numa depreciação, num 'nivelamento por baixo', numa minimização, num empobrecimento, numa decadência de seu conteúdo, num desvio de sua linha primitiva."* Tomo II, página 89.

Para o Padre Stéphane, a Religião, em sua forma exotérica, apresenta um JURIDISMO ressequido:

> *"Assim a Igreja edifica seu organismo jurídico-social sobre as ruínas do Império romano. A partir desse momento, torna-se a teocracia romana, herdeira do Império dos Césares que destronou. A partir desse momento, o espírito não sopra mais onde quer, mas onde pode, através das estreitas divisórias do Direito Canônico, armadura do novo regime.*
> 
> *"... A metafísica de Aristóteles, com suas categorias racionais, vem ressecar uma doutrina que se apresentava essencialmente como um mistério de fé a descobrir e a realizar vitalmente. A vida sobrenatural... torna-se objeto de especulação racional e objetiva.*
> 
> *Ela é posta em lata, e as verdades vivas do Dogma cristão são distribuídas sob a forma de comprimidos para todos. O Direito Romano vem paralisar uma ética fundada na caridade e transformar um sistema de Amor em regulamento de polícia."* Tomo II, página 24.

O Exoterismo oficial é tido, pelo Padre Stéphane, como uma doutrina essencialmente limitada. Ele o opõe ao "conhecimento esotérico", que é, a seu ver, mais vivo e mais essencial. Exprime-se assim:

> *"...uma espécie de ignorância sistemática ou de cegueira impede os defensores do Exoterismo de ver os limites deste. O 'conhecimento' (ao contrário) lhes permitiria, até certo ponto, não se deixarem abalar por uma multidão de ilusões e aberrações inerentes a um Exoterismo que não recebe mais nenhuma luz de um Esoterismo desconhecido."* Tomo I, página 233.

Há um capítulo, em particular, em que o autor da "Introduction à l'Ésotérisme Chrétien" não oculta seu desdém pela doutrina exotérica da Igreja: o da MORAL.

> *"...o pecado é apresentado como uma transgressão a uma lei imposta por um legislador caprichoso ou tirânico, que impõe um jugo de temor a escravos carregados de correntes e os castiga, em sua cólera, com as mais terríveis penas do inferno."*

De maneira mais geral e no plano metafísico, o Padre Stéphane julga, ainda aqui na esteira de R. Guénon, que a DISTINÇÃO ENTRE O BEM E O MAL deve ser superada. E censura a Igreja romana por se agarrar a essa distinção, metafisicamente inadmissível a seu ver.

Mas então, se o Exoterismo da Igreja romana é a tal ponto esclerosado e esclerosante, a lógica pediria que fosse pura e simplesmente abandonado em proveito do Esoterismo. De modo algum, diz o Padre Stéphane: é preciso manter firmemente o Exoterismo para o povo, ao menos na fase de evolução cíclica em que nos encontramos hoje:

> *"Em outras palavras, já seria alguma coisa, e até muito, se, à falta de um ESOTERISMO efetivo, se pudesse, mediante um conhecimento doutrinal teórico, devolver ao EXOTERISMO, inevitável em razão do 'momento cósmico', uma certa dignidade, uma certa consistência e uma certa resistência a todos os assaltos da subversão moderna, sabendo ao mesmo tempo que a aproximação, igualmente inevitável, do 'fim do ciclo' só pode favorecer a eclosão de todas as formas de subversão que o Evangelho prediz designando-a como 'a abominação da desolação estabelecida no lugar santo', na qual deixaram de crer os nossos 'progressistas' de toda laia."* Tomo I, página 233.

O Padre Stéphane chega mesmo a recomendar com insistência a maior pontualidade na prática Exotérica. Não tenteis, recomenda ele fortemente, progredir na via Esotérica se não começardes por praticar pontualmente a vossa religião exotérica.

Essa posição é a de todos os membros da "Escola do Esoterismo Cristão". Ela lhes permite trabalhar por uma mutação da Religião Cristã permanecendo no interior da Igreja.

#### b) Definição de esoterismo

Para o Padre Stéphane, o Esoterismo não é outra coisa senão o fundo comum de todas as religiões. Convém hoje, escreve ele:

> *"... lembrar os elementos essenciais de toda religião, o que chamamos de FUNDO METAFÍSICO, ... esse fundo metafísico que se poderia chamar de RELIGIO PERENNIS."* Tomo I, página 372.

O Padre Stéphane subscreve a tese da UNIDADE TRANSCENDENTE DAS RELIGIÕES, que é uma tese maçônica muito antiga, muitas vezes retomada na época contemporânea, em particular por F. Schuon em uma obra que traz precisamente este título: "L'Unité transcendante des religions" \[A unidade transcendente das religiões\], pelas edições du Seuil.

O Padre Stéphane faz dela uma afirmação indiscutível e declara dirigir-se exclusivamente àqueles que admitem sem reservas essa unidade transcendente. É a eles que prega. É para eles que escreve. Não se ocupa dos imbecis que recusam admitir esse dogma de base. Ver Tomo I, página 237.

> O Esoterismo assim definido não pode ser facilmente compreendido por todos. Permanece privilégio de uma elite:
> 
> *"Para que uma tradição não seja alterada, é preciso que seja acessível apenas a uma elite e que não se difunda no seio das massas populares... Há, contudo, exceções: a tradição pode permanecer intacta se for confiada a INICIADOS que a conservarão como um depósito sagrado, ou mesmo a chefes que tenham a missão de transmiti-la."* Tomo II, página 226.

O Padre Stéphane, como tantas vezes faz seu mestre R. Guénon, não dissimula sua comiseração por aqueles que ficaram no PRECONCEITO EXOTÉRICO.

> *"No caso que nos ocupa presentemente, estamos diante das 'reações' da maioria dos cristãos à obra de R. Guénon, elas próprias variáveis segundo os casos: primeiro a atitude daqueles que, acometidos do 'preconceito exotérico', não podem admitir que haja outra forma tradicional válida além da sua, e cujo horizonte mental ou psíquico não pode conceber nem supor verdades de ordem Esotérica como a unidade transcendente das religiões; estes são irredutíveis e julgam-se obrigados a justificar sua posição desnaturando a obra e as intenções de R. Guénon. Não pensamos de modo algum em convencê-los e só lhes pedimos uma coisa: que guardem silêncio sobre uma obra que os ultrapassa e não lhes diz respeito."* Tomo II, página 60.
> 
> Um pouco abaixo, acrescenta, sempre com o mesmo desdém:
> 
> *"... a maioria dos nossos contemporâneos parece desprovida do SEXTO SENTIDO necessário para compreender a metafísica tradicional."* Tomo II, página 222.

O Esoterismo é, pois, a doutrina de uma elite. Pretende ir muito mais ao fundo das coisas do que o vulgar Exoterismo, que permanece a doutrina simplificada em uso na Igreja oficial. A doutrina esotérica pretende tocar a própria essência do sagrado.

Infelizmente, o Esoterismo, tanto na obra que nos interessa quanto nas dos demais membros da mesma escola, não é objeto de um desenvolvimento racional e homogêneo. É exposto apenas sob a forma de queixas dirigidas ao Exoterismo oficial, e de maneira difusa ao longo de toda a obra. Para conhecer o conteúdo nocional do Esoterismo Cristão, é preciso, portanto, proceder a um inventário e a uma classificação que abranjam os dois tomos da "Introduction à l'Ésotérisme Chrétien".

Os parágrafos que se seguem analisarão os principais TEMAS ESOTÉRICOS que constituem a "doutrina do Padre Stéphane". E não somente a dele, mas a de todos os escritores dessa escola.

### O VOCABULÁRIO DO PADRE STÉPHANE

Elaborada com grande cuidado quanto à apresentação material, a compilação do Padre Stéphane publicada por François Chénique termina com um LÉXICO das palavras que exigem alguns esclarecimentos para leitores de competência mediana.

Muitas dessas palavras provêm da terminologia em uso entre os teólogos da Igreja grega bizantina ou russa.

Algumas, em número muito pequeno, são tiradas da literatura religiosa judaica e islâmica. Mas as mais numerosas são os TERMOS SÂNSCRITOS. O Padre Stéphane utiliza correntemente o vocabulário da religião hinduísta. E é evidente que os termos sânscritos por ele empregados trazem consigo as noções religiosas que designam. De modo que seus raciocínios, em razão da terminologia utilizada, têm uma tonalidade nitidamente sincrética. Citemos alguns exemplos:

> *"...é somente de maneira ideal que podemos nos colocar do ponto de vista do Absoluto, pois esse ponto de vista na realidade não existe: ATMA não conhece nada além de si mesmo."* Tomo I, página 214.
> 
> *"Quando o homem decaído vê pão, diz: 'é pão'. Quando o homem verdadeiro — o CRISTO-INDRA — vê pão, diz: 'Isto é o meu corpo.'"* Tomo I, página 312.
> 
> *"A virtude comporta três componentes: a Humildade, a Caridade, a Verdade, que correspondem respectivamente ao simbolismo ascendente ou ao aspecto benéfico e primordial dos três GUNAS ainda em equilíbrio indiferenciado na PRAKRITI: TAXAS, RAJAS e SATTVA.*
> 
> *TAXAS é a humildade da substância primordial, a passividade e a submissão. RAJAS é a expansão, o fervor, a caridade.*
> 
> *SATTVA é a luz, o conhecimento, a verdade.*
> 
> *Esses três componentes correspondem aos três mistérios: a Anunciação, a Visitação e a Natividade."* T. I, p. 231.

Segundo o Padre Stéphane, por conseguinte, a religião hinduísta, cujos termos ele utiliza aqui, ensina, ainda que sob forma diferente, as três noções cristãs de Anunciação, de Visitação e de Natividade; ele quer visivelmente nos levar à conclusão de que o hinduísmo se beneficia, como o Cristianismo, de uma certa forma de revelação divina.

Eis agora os termos sânscritos contidos no léxico que encerra o Tomo II de "L'Introduction à l'Ésotérisme Chrétien":

<table id="bkmrk-termo-significado-ad"><thead><tr><th>Termo</th><th>Significado</th></tr></thead><tbody><tr><td>ADVAITA</td><td>Doutrina da "não-dualidade"</td></tr><tr><td>ATMA</td><td>Pronome reflexivo que significa "SI"</td></tr><tr><td>AVATARA</td><td>As Manifestações terrestres de Vishnu</td></tr><tr><td>BRAHMA</td><td>O Princípio Supremo</td></tr><tr><td>ISHAVARA</td><td>O Princípio Causal</td></tr><tr><td>JIVA</td><td>A Individualidade viva</td></tr><tr><td>KOSHA</td><td>Os invólucros do "Si"</td></tr><tr><td>MANTRA</td><td>Fórmula sagrada</td></tr><tr><td>MAYA</td><td>A Ilusão cósmica</td></tr><tr><td>PRAKRITI</td><td>O Princípio feminino da Manifestação Universal</td></tr><tr><td>PURUSHA</td><td>O Princípio masculino da Manifestação Universal</td></tr><tr><td>SAT-CHIT-ANANDA</td><td>Ser ou Realidade Absoluta</td></tr><tr><td>SHARTI</td><td>A Onipotência divina</td></tr><tr><td>SHANKARA</td><td>O Fundador da doutrina do Vedanta</td></tr><tr><td>UPANISHAD</td><td>A Parte metafísica do hinduísmo</td></tr><tr><td>VEDANTA</td><td>O fim do Veda, último livro das "Escrituras Védicas"</td></tr></tbody></table>

Para dar uma ideia do vocabulário do Padre Stéphane, reproduzimos a seguir o poema que F. Chénique, seu compilador, colocou no fim do primeiro tomo, para lhe servir de conclusão e resumo. Discernir-se-á nele facilmente a terminologia sincrética e rosacruciana que é a da "Introduction à l'Ésotérisme Chrétien". Esse poema foi composto pelo próprio Padre Stéphane.

> **Tratado XIV.4 — Tomo I: A flor**
> 
> A flor é o Cálice que se abre Para beber o Orvalho Celeste
> 
> *Rorate, Coeli desuper*
> 
> E *nubes pluant Justum.*
> 
> O Cálice é o Graal Que recolhe o Sangue de Cristo,
> 
> O Sangue de Cristo que escorre ao longo de toda a Cruz E fertiliza as rosas que jazem a seus pés.
> 
> *Calicem salutaris accipiam* Et *nomen Domini invocabo;* *Laudans invocabo Dominum*
> 
> *Et ab inimicis meis salvus ero.*
> 
> Jesus de Nazaré é Jesus da Flor, Jesus nascido da Flor, Jesus nascido da Rosa, O Rosário, a Rosa gótica,
> 
> ROSA MYSTICA
> 
> *Mani padmé,* Joia no Lótus!
> 
> *Mani padmé, Aum!*
> 
> AUM, AVM, AVE MARIA
> 
> "Meu Bem-amado é meu, e eu sou dele, Ele repousa entre os lírios,
> 
> Até que a aurora desponte E as sombras declinem."
> 
> "Com flores e esmeraldas Colhidas na fresca manhã,
> 
> Faremos as grinaldas Floridas em teu amor."
> 
> O Coração do Gnóstico Identifica-se ao coração da Flor
> 
> O Coração de Maria identifica-se ao Coração de Jesus,
> 
> O Coração do Gnóstico identifica-se ao Coração do Mundo, Centro do Ser, morada de *Brahma*
> 
> A existência é uma Rosa Assinada por uma Cruz,
> 
> A Rosa-Cruz.
> 
> E a Cruz identifica-se à Árvore da Vida E a Vida era a Luz dos homens E a luz brilha nas trevas
> 
> E as trevas não a sufocaram.
> 
> Perguntei ainda à Flor "Por que tens a cabeça inclinada?"
> 
> A Flor me respondeu
> 
> "Ó dervixe! Meu pequeno coração está voltado para Alá!"

### A MÍSTICA DO PADRE STÉPHANE

O Padre Stéphane vai seguir R. Guénon em sua "metafísica", como já o segue em tantos outros assuntos. Ora, o que Guénon chama de "metafísica" não é outra coisa senão uma "via contemplativa", isto é, uma mística.

> Qual é, então, o agente inspirador que faz a alma humana caminhar na "via metafísica" guenoniana?

É, repetem-nos incansavelmente, uma INFLUÊNCIA ESPIRITUAL NÃO HUMANA. René Guénon nos explica que essa influência se manifesta na sequência de uma iniciação, com a precisão de que a regularidade ritual da iniciação representa para ele uma condição de importância primordial.

O Padre Stéphane vai nos explicar, por sua vez, que na Religião Cristã a influência espiritual não é outra senão A GRAÇA. E dela deduz a necessidade da regularidade ritual dos sacramentos que dispensam a Graça:

> *"A realização dessa tendência supõe, pois, a intervenção divina (que os teólogos chamam A GRAÇA) e que designaremos pelo nome geral de INFLUÊNCIA ESPIRITUAL."*

Adota, portanto, a terminologia guenoniana, que lhe parece mais geral, mais abrangente do que a dos simples teólogos católicos. O que os teólogos católicos, no quadro de sua religião particular, chamam de "A Graça", o Padre Stéphane vai chamá-lo de "influência espiritual", expressão que continuará válida para as outras religiões.

Pode-se perguntar se o Padre Stéphane cultivou pessoalmente a vida mística. Para responder a essa pergunta, podemos nos reportar ao seu Tratado VII-2, intitulado "Do Nascimento eterno". Antes de chegar a explicar a noção de Batismo no Espírito Santo, escreve:

> *"... há no homem ALGUMA COISA que está fora do tempo, e essa 'alguma coisa' é um LUGAR fora do espaço, e é nesse lugar que se realiza o Batismo no Espírito Santo."*

Comentaremos mais adiante essa passagem quanto ao fundo. O que nos interessa agora é a exclamação com que o Padre Stéphane a faz seguir:

> *"E agora ouvi-me bem, pois VOU DIZER COISAS QUE NUNCA FORAM DITAS, mas quem não cresceu à medida desta Verdade não é capaz de me compreender."* Tomo I, página 216.

Essas "coisas que nunca foram ditas" são apenas INOVAÇÕES doutrinais provenientes de suas pesquisas pessoais?

Pensamos que, em seu espírito, trata-se de uma verdadeira inspiração, de uma revelação divina de ordem mística, ou antes do que ele toma por tal. Trata-se, muito verossimilmente, de uma ILUMINAÇÃO que manifesta a passagem da "influência espiritual" em que não cessa de pensar. Mas então, quem é o inspirador que se esconde por trás dessa expressão? É realmente o Autor da Graça ou alguma entidade espiritual de natureza angélica ou demoníaca?

É preciso reconhecer que as passagens em que ele faz menção a esse misticismo são raras. Mas a que acabamos de citar é, ainda assim, muito clara e muito característica.

### O ANTIDOGMATISMO

Sobre a necessidade e a excelência do edifício dogmático erguido pela Igreja, o Padre Stéphane professa alternadamente dois pareceres contrários: ora faz o elogio do dogma, ora aspira a derrubá-lo.

> Em algumas de suas proposições, mostra-se favorável à FORMULAÇÃO DOGMÁTICA. Assim escreve:
> 
> *"Como são enriquecedores, apaziguadores e nutritivos os grandes dogmas cristãos."* Tomo II, página 77.
> 
> *"Para quem compreendeu a notável coerência do dogma, os balbucios de uma filosofia qualquer são inexistentes."* Tomo II, página 327.
> 
> Esse elogio da formulação dogmática encontra sua razão determinante na hostilidade do Padre Stéphane contra as doutrinas da evolução postas em moda por H. Bergson.
> 
> *"A obsessão, a fobia do estático, do 'definido', do 'conceitual', do 'quadro fixo e rígido', que transpira de toda a filosofia bergsoniana, assemelha-se nitidamente, ou conduz, à atitude modernista, em que a rigidez do dogma é combatida em proveito de uma experiência interior, essencialmente móvel, de caráter evolutivo e imprevisível. Assim, não parece duvidoso que o método bergsoniano tenha podido conduzir ao modernismo ou justificá-lo."* T. II, p. 193-194.

Vê-se que, para o Padre Stéphane, a fixidez do dogma é um poderoso baluarte contra a fluidez do evolucionismo bergsoniano e modernista. Sua tomada de posição em favor do edifício dogmático é, portanto, nítida. Surpreende, pois, constatar que o mesmo Padre Stéphane, em numerosíssimas passagens, é assombrado pelo projeto de uma GRANDE REFORMA DA IGREJA. Não esconde que a formulação dogmática e sua solene fixidez o incomodam profundamente. Deseja uma religião que estivesse perpetuamente EM BUSCA:

> *"Em vez de encarar a religião como um conjunto de relações entre o homem e Deus, relação que se tende a 'determinar' e a 'fixar' em fórmulas de oração debitadas mecanicamente, em 'fórmulas dogmáticas' que 'encapsulam o Dogma', nos quadros rígidos das definições e dos 'cânones' dos concílios, NÃO SERIA mais feliz, mais fecundo e mais vital encarar essa religião como uma BUSCA DE DEUS, não à maneira do 'livre exame' protestante nem de uma experiência religiosa subjetiva e imanente, à maneira dos modernistas, MAS COMO uma 'tomada de consciência' interior e de um 'transcendente' que nos é mais imanente do que o nosso 'eu', em razão mesmo de sua transcendência."* Tomo II, página 77.

Como o Padre Stéphane encara essa REFORMA, pretensamente necessária, da Religião? Responde como segue:

> *"Seria preciso tentar reencontrar o impulso primitivo em sua pureza original, operar um verdadeiro rejuvenescimento, uma decantação, uma destilação, uma depuração, para libertar o puro cristal da ganga que lhe mascara o esplendor e a limpidez. O rio que já percorreu longos espaços drenou em suas águas uma multidão de detritos, de resíduos, que o tornam barrento e impedem de reconhecer em suas águas a pureza da fonte original. É, pois, por um RETORNO ÀS FONTES que se poderá tentar reencontrar o Cristianismo em sua pureza primitiva."* T. II, p. 89.

Se o crermos, as instituições eclesiásticas e o edifício do dogma não passam de um rio cheio de resíduos. É sempre assim que começam as reivindicações dos reformadores. Note-se que, na época em que o Padre Stéphane compôs suas homilias e seus pequenos Tratados, Lanza del Vasto publicava um livro de iniciação orientalista que traz precisamente o título de "Retour aux Sources" \[Retorno às Fontes\].

O que agradaria ao Padre Stéphane seria uma DOUTRINA INFORMAL, suscetível de convir à "infinidade das Revelações":

> *"A Onipotência Misericordiosa (enquanto SAKTI — energia — de Brahma) manifesta-se primeiro como pai, proclamando assim a abolição da Antiga Lei e o regime da Lei Nova. Deus se revela então como pessoal (sublinhemos, aqui ainda, nosso acordo com Mircea Eliade e Paul Sérant) mas, imediatamente, para marcar a transcendência da Personalidade Divina, é preciso acrescentar que ela se revela na Unidade das Três Pessoas distintas, revelação que tem por função traduzir, mascarando-a sob as aparências de um 'mistério', a MULTIPLICIDADE INDEFINIDA dos 'Aspectos' incluídos na 'Possibilidade Universal', aspectos aos quais correspondem UMA INFINIDADE DE REVELAÇÕES POSSÍVEIS."* Tomo II, página 50.

Assim a "Possibilidade Universal", nome que os guenonianos dão à Divindade, engendraria uma "multiplicidade indefinida de aspectos" e, portanto, uma infinidade de revelações possíveis sobre a terra. Essas expressões contêm as bases, a um só tempo, do PLURALISMO e do ECUMENISMO, que são os dois pontos essenciais da eclesiologia conciliar. Uma Igreja *pluralista* quanto à sua construção interna e *ecumênica* quanto às suas relações externas.

*Tradicionalista* quando se trata de criticar o modernismo "dessacralizante", o Padre Stéphane torna-se *conciliar* em pontos essenciais de doutrina. Reencontraremos essa posição ambígua em todos os escritores da escola do esoterismo cristão.

### O ABSOLUTO INDIFERENCIADO

Para raciocinar sobre a Divindade, o Padre Stéphane começa por dar às Pessoas Divinas o nome de HIPÓSTASES. Essa palavra não é certamente imprópria, pois é simples sinônimo da expressão "relação subsistente" pela qual São Tomás de Aquino, entre outros doutores, define a Pessoa divina. Mas, enfim, é preciso reconhecer que os teólogos católicos preferem em geral falar de "Pessoa" a falar de Hipóstase.

Em contrapartida, é certo que o termo Hipóstase, mais abstrato que o de Pessoa, se incorpora melhor à especulação metafísica do Padre Stéphane. O prefixo "hipo", com efeito, sugere a ideia de que as Hipóstases ocupam um grau inferior em relação à UNIDADE ABSOLUTA, a qual merece assim muito melhor o nome de HIPERTEOS, em que se encontra o prefixo "hiper", que quer dizer *acima de*.

Dessa maneira, distingue-se mais facilmente o Hiperteos, que é um SUPER-DEUS, das Hipóstases, que aparecem assim como SUB-DEUSES. Pois tais são, de fato, as posições relativas que o Padre Stéphane atribui ao Absoluto, de um lado, e às Hipóstases, de outro. Ele estabelece assim um postulado que terá enormes consequências em toda a sua doutrina esotérica, a saber, que o ABSOLUTO TRANSCENDE AS TRÊS HIPÓSTASES.

E é desse "Absoluto transcendente" que ele quer nos fazer admitir a realidade "sobre-essencial". Dá-lhe o nome de PRINCÍPIO SUPREMO, adotando assim a terminologia de René Guénon. Notemos desde já que o "Princípio Supremo" de Guénon e de Stéphane não é senão um sinônimo do SER SUPREMO dos franco-maçons.

Stéphane busca seus argumentos em certo número de autores cujos nomes nos revela François Chénique (o editor da "Introduction à l'Ésotérisme Chrétien"). Eis os principais:

- Léo Schaya, em "L'Homme et l'Absolu selon la Kabbale" \[O Homem e o Absoluto segundo a Cabala\],
- A. K. Coomaraswamy, em "Hindouisme et Bouddhisme" \[Hinduísmo e Budismo\],
- e sobretudo F. Schuon, em "L'Unité transcendante des religions", "Comprendre l'Islam" \[Compreender o Islã\]... e suas outras obras. Aquele em quem o Padre Stéphane mais diretamente se inspira é F. Schuon, que estabelece, no cume de seu raciocínio, uma hierarquia metafísica supereminente, cujos três degraus são os seguintes:
    
    
    - O primeiro grau de realização é o SUPER-SER. É a unidade totalmente indiferenciada.
    - O segundo grau é o SER. É o nível da "possibilidade universal", sede virtual de uma diferenciação indefinida.
    - O terceiro grau é a EXISTÊNCIA, que corresponde ao estado criado.

"O Absoluto que transcende as três hipóstases", de que acabamos de falar, corresponde ao "super-ser" de F. Schuon. Corresponde também à "Deidade sobre-essencial" do Pseudo-Dionísio. Estamos, portanto, diante de um princípio metafísico ao qual, nas diversas produções do esoterismo cristão, se darão vários nomes:

- Absoluto indiferenciado,
- Absoluto transcendente,
- Princípio Supremo,
- Deidade sobre-essencial.

> Eis algumas passagens em que o Padre Stéphane se exprime a respeito de seu Princípio supremo:
> 
> *"<u>O Princípio supremo</u> é um ponto não manifestado, situado simbolicamente no centro que faz girar a <u>RODA CÓSMICA</u>, sem participar de seu movimento e sem ser afetado por ele de maneira alguma."* Tomo II, página 84.
> 
> *"<u>O Princípio supremo</u> é indiferenciado a tal ponto que já não se pode sequer dizer que tenha uma vontade própria. A vontade divina, com efeito, como tal é inexprimível, sendo idêntica ao próprio Princípio, de modo que não se pode dizer que este queira isto ou aquilo. <u>O PRINCÍPIO</u> não quer nada. Só o ser individual quer isto ou aquilo."* Tomo I, páginas 234-235.

Definido assim o Absoluto indiferenciado, ou Princípio supremo, que se tornam as três HIPÓSTASES, isto é, as três Pessoas Divinas? Podem elas ser incluídas em um Princípio supremo tão absolutamente indiferenciado? Evidentemente não, pois são distintas e, portanto, diferenciadas. É preciso fazê-las descer ao nível da diferenciação, que é o do SER, isto é, o da "possibilidade universal" ou "virtualidade universal".

> Eis, pois, o Deus trinitário do Cristianismo repartido entre dois níveis:
> 
> - O nível superior do absoluto, da unidade e do infinito.
> - O nível inferior das hipóstases diferenciadas.

Para resumir essa teologia, pode-se dizer que o Padre Stéphane coloca a UNIDADE ACIMA DA TRINDADE. Fazendo isso, SUBORDINA as hipóstases trinitárias a um certo PRINCÍPIO, isto é, a uma certa lógica, da qual elas passam a ser prisioneiras.

Não é possível conciliar essa teologia "esotérica" com o ensinamento constante da Igreja. Quanto à Santíssima Trindade, a Igreja ensina:

- a PROPRIEDADE nas Pessoas,
- a UNIDADE na essência,
- a IGUALDADE na Majestade. (Prefácio da Santíssima Trindade)

> A unanimidade dos Padres, resumida no "Símbolo de Santo Atanásio", vai no mesmo sentido:
> 
> *"... E nesta Trindade, nada de anterior ou posterior, nada de maior ou menor."*

As três Pessoas Divinas são CONSUBSTANCIAIS. O DEUS-UNO e o DEUS-TRINO são um só e mesmo DEUS. O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó é ao mesmo tempo um Deus INFINITO e PESSOAL. Tal é o MISTÉRIO da SANTÍSSIMA TRINDADE.

Pode-se afirmar que o "Princípio Supremo Indiferenciado", que o Padre Stéphane toma de empréstimo ao Hinduísmo para aclimatá-lo no Cristianismo, é uma invenção do espírito humano, sem dúvida auxiliado pelo espírito das trevas.

As duas passagens que extraímos da obra do Padre Stéphane e citamos acima são totalmente insuficientes para formar uma ideia exata de sua teologia stefaniana. Por isso reproduzimos a seguir:

> O esquema teológico da página 15, que esquematiza toda a sua construção metafísica.

![Esquema teológico do Padre Stéphane (legendas no original em francês)](https://biblioteca.acaorestauracionista.com.br/uploads/images/gallery/2026-10/1hN2WLqmPgZ9wefe-image1.png)

> **Tradução das legendas do esquema** (de cima para baixo): *Coluna esquerda:* INCRIADO = Não manifestado (Metafísica; Ontologia) · CRIADO = Manifestado (Cosmologia) (Manifestação formal; Águas superiores; Águas inferiores). **Metafísica:** SUPER-SER ou NÃO-SER ou HIPERTEOS — Arquétipos principiais, Essências imutáveis, Ideias — Números; Estado incondicionado. **Ontologia:** DEUS · O Ser · PRINCÍPIO da MANIFESTAÇÃO; PRINCÍPIO ATIVO / PRINCÍPIO PASSIVO (ver a parte inferior do quadro); ESSÊNCIA. **Águas superiores:** MANIFESTAÇÃO INFORMAL · ESTADOS ANGÉLICOS ou SUPERIORES · SUPERFÍCIE das ÁGUAS · ANDAR sobre as ÁGUAS · ESTADO PRIMORDIAL. **Águas inferiores:** MANIFESTAÇÃO SUTIL · ESTADO ANÍMICO, PSIQUISMO · MANIFESTAÇÃO GROSSEIRA · ESTADO CORPORAL. **Base:** EXISTÊNCIA (ponto de vista objetivo) · CONHECIMENTO (ponto de vista subjetivo) · PRINCÍPIO PASSIVO, SUBSTÂNCIA: HYLÉ PRIMORDIAL indiferenciada · MATERIA PRIMA, substância plástica universal. *Coluna direita:* Espírito = Nous = Intelecto · Alma = Psique · Corpo = Soma.

### A ORIGEM DO MAL

Na sã doutrina cristã, a QUEDA ORIGINAL consiste em uma FALTA cometida pelo homem a despeito das advertências de Deus. É a transgressão de um preceito divino que provocou, num mundo que era perfeito, a intrusão dos espíritos maus. Daí resultou um estado de ignorância, de dor e de morte. Tal é, muito sucintamente condensada, a doutrina cristã sobre a origem do mal.

A descrição da queda não é de modo algum a mesma na doutrina dos antigos gnósticos. Certamente existe, entre eles também, uma "queda original", mas ela não tem as mesmas causas. O estado de queda não resulta de uma transgressão do homem, mas de um DEFEITO DE CONSTRUÇÃO do universo. Em seguida a uma falha do Demiurgo (arquiteto do universo) e sobretudo da Sofia (espécie de Sabedoria Divina Personificada), certas almas, que eram centelhas espirituais jorradas da divindade, são precipitadas em corpos materiais para formar os homens. Ora, a matéria é má; portanto, essas almas, divinas na origem, contraem o mal pela simples incorporação em corpos materiais. Assim, segundo os gnósticos, a "queda original" é essa precipitação das almas nos corpos. Há uma degradação original que o homem sofre, mas da qual não é responsável. É uma DEGRADAÇÃO DE NATUREZA. Tal é a doutrina dos gnósticos dos primeiros séculos de nossa era.

> Vejamos agora como o Padre Stéphane se exprime a respeito da origem do mal na terra:

1. — *"Mas é proibido ao homem 'comer da Árvore do conhecimento do Bem e do Mal', isto é, o conhecimento da dualidade ou da SEPARATIVIDADE, pois então, em vez de conhecer as coisas na unidade metafísica de suas essências, o homem só as conhece na diversidade e na multiplicidade de suas aparências."* Tomo I, páginas 342-343.

> Eis agora uma passagem mais explicativa:

2. — *"Nessa perspectiva, todo o mistério do mal consiste na ILUSÃO SEPARATISTA ou na 'separatividade aparente', em virtude da qual o ser manifestado, em certo grau de existência, ESQUECE de algum modo seu ARQUÉTIPO ETERNO ou sua própria 'possibilidade principial', e por isso mesmo toma-se por 'alguma coisa de autônomo', por um 'em-si', e põe assim um limite, aliás totalmente ilusório, ao infinito divino."*

> *"Aqui reside o mistério do pecado original, do qual todos os outros não são senão consequências particulares; trata-se, portanto, de um PECADO DE ORIGEM, isto é, de uma SAÍDA ILUSÓRIA (oriri = saída) do Princípio, e por conseguinte de um PECADO DE NATUREZA que afeta necessariamente o mundo, manifestado como tal, em qualquer grau que se o considere, exceto a Virgem, que se identifica à Possibilidade Universal em sua Imaculada Conceição, e que é isenta do pecado original."* Tomo I, página 94.

Portanto, segundo o Padre Stéphane, desde que é "manifestado", isto é, desde que vem à existência, o mundo conhece a "ilusão separativa". Fica assim afetado de um PECADO DE ORIGEM que, por conseguinte, é ao mesmo tempo um PECADO DE NATUREZA.

Quanto a cada alma tomada em particular, depois de sua "saída ilusória do Princípio", ela ESQUECE seu arquétipo eterno e toma-se por algo autônomo, quando pertence na realidade ao infinito divino.

Vê-se que o "pecado de natureza" do Padre Stéphane se decalca traço por traço sobre o "pecado de natureza" dos antigos gnósticos. Esse pecado de natureza não é outro, em última análise, senão a precipitação da alma, para fora de Deus, em um corpo material.

### O GERME DIVINO NA ALMA HUMANA

> A alma humana é um fragmento da divindade?

A essa pergunta, a doutrina católica responde negativamente. A alma humana é certamente prometida, sob certas condições evidentemente, a participar da vida divina. Mas é apenas por ADOÇÃO, no estado de Glória. Ela só se torna participante da vida divina por GRAÇA. Mas não é divina por NATUREZA. O Dictionnaire de Théologie catholique (Vacant) escreve, no artigo "platonismo":

> *"Mesmo a faculdade mais alta da alma não é uma posse de Deus, mas apenas uma imagem."*

A essa mesma pergunta os esoteristas cristãos, como todos os gnósticos, respondem, ao contrário, afirmativamente. O Padre Stéphane não faz exceção. Subscreve a existência de um GERME DIVINO na alma humana, germe que só precisa desabrochar, mas que ali se encontra desde a origem.

Ele não trata desse assunto por si mesmo e em bloco. Aborda-o apenas ocasionalmente. Além disso, hesita em tomar posição e suas fórmulas nem sempre são claras. Eis, contudo, algumas passagens que não permitem duvidar da orientação "gnóstica" do Padre Stéphane.

Um interlocutor lhe perguntou um dia qual a diferença de natureza entre a alma humana e o absoluto transcendente. O Padre Stéphane lhe respondeu:

> *"O Eterno reflete, no fundo de nosso ser contingente, a Palavra eterna do Verbo criador e transformador, dizendo, no abismo de todo ser: Tudo isto não é nada, a não ser Eu."* Tomo II, página 17.

No abismo de todo ser encontra-se o Verbo criador. E um pouco adiante o Padre Stéphane acrescenta, para ser mais explicativo:

> *"É aí precisamente, nesse fundo abissal do ser, que se realiza o nascimento eterno do ser verdadeiro e único. É aí o nascimento de Deus no mundo. É aí o nascimento de Cristo na caverna. É aí também que o Pai eterno, segundo a ordem de Melquisedec, pronuncia sobre todas as coisas a Palavra eterna que engendra todas as coisas para a vida eterna: Isto é o meu corpo... Eu sou a Ressurreição e a Vida."* Tomo II, página 17.

> Esse texto não afirma nitidamente que a alma é divina por natureza. Diz apenas que ela é O LUGAR DE UM NASCIMENTO DIVINO.
> 
> Mas eis outra passagem em que a posição esotérica do Padre Stéphane toma uma forma mais explícita:
> 
> *"...há no homem ALGUMA COISA que está fora do tempo e essa 'alguma coisa' é UM LUGAR fora do espaço, e é nesse lugar que se realiza o batismo no Espírito Santo."*
> 
> Depois, um pouco abaixo, reitera:
> 
> *"E o Pai não pode querer senão uma coisa: engendrar o Filho Único. E o engendra pelo Espírito Santo... E onde se realiza essa obra única do Pai? Ali, aqui, neste LUGAR, nesta ALGUMA COISA que está no homem e que está FORA DO TEMPO, e ele não pode realizar outras obras, senão engendrar o Filho Único, neste lugar que se encontra no homem."* Tomo I, página 216.
> 
> Na opinião do Padre Stéphane, há, portanto, no homem:

- uma "alguma coisa" que está fora do tempo,
- e um lugar que está fora do espaço.

> Essas expressões significam que haveria no homem uma parte de eternidade e uma parte de divindade.
> 
> Mas a posição esotérica do Padre Stéphane tomará uma forma ainda mais típica na passagem seguinte.

Quando chega a tratar do retorno dos seres criados à unidade do Princípio, exprime-se assim:

> *"No retorno da multiplicidade à Unidade, não é a multiplicidade dos 'egos' individuais como tal que retorna ao Princípio, mas os FRAGMENTOS DA DIVINDADE dispersos nos seres. E é somente pela morte dos 'egos' que a Deidade desmembrada é restaurada em sua integridade e em sua plenitude primeira."* Tomo I, página 248.

O Padre Stéphane afirma aí claramente que cada "ego", isto é, cada indivíduo humano, é um "fragmento de Divindade". Alinha-se, portanto, com todos os demais gnósticos.

### A ALQUIMIA ESPIRITUAL

Sabe-se que existem dois tipos de alquimia: a alquimia *operativa* (A) (chamada às vezes alquimia dos fornos ou ainda "alquimia dos assopradores") e a alquimia *espiritual* (B). Elas têm certamente princípios comuns, mas distinguem-se nitidamente, ao menos por seu campo de aplicação, que é físico na primeira e mental na segunda.

> **A — A ALQUIMIA OPERATIVA** tem por objetivo, segundo o dicionário: "a descoberta e a fixação de um certo *fermento misterioso*, graças ao qual a desagregação dos corpos, portanto a morte, poderia ser retardada quase indefinidamente. Esse mesmo agente deveria assegurar a progressão rápida dos seres para o *estado superior*" (Larousse). Esse estado, que os alquimistas chamam de superior, corresponde ao *estado de glória* de que trata a doutrina cristã. Antes de expor a tese alquimista da *transmutação da matéria* (e, mais geralmente, do universo), vejamos muito rapidamente qual é o ensinamento da Igreja sobre *a glorificação da natureza*.

Segundo a doutrina eclesiástica, o universo em que vivemos não foi feito para durar eternamente. Ele sofre atualmente, no estado de natureza, uma prova de santificação, depois será um dia transformado em um estado definitivo dito "glorioso", que constituirá o que a Igreja chama de Reino dos Céus. Essa transformação não está ao alcance das forças humanas. O homem, embora dotado de um certo poder sobre a natureza que faz dele um *FABER*, não pode conduzir o universo aos seus fins últimos. Para consegui-lo, são necessárias duas intervenções divinas sucessivas.

É antes de tudo indispensável que o mundo decaído seja levado a um certo nível de maturidade que o torne apto à transformação definitiva. O agente dessa maturidade é *a Graça*, que é uma ajuda exterior ao mundo, que lhe vem do alto e lhe é trazida pelo Verbo Encarnado. É preciso, em seguida, que intervenha um *decreto divino* que a Escritura nos anuncia nestes termos: "Eis que faço novas todas as coisas." (Apoc. XXI-5). Compreende-se que, para fazer surgir a glória da natureza, seja necessário desdobrar um poder análogo ao que foi preciso para fazer surgir a natureza do nada. Só *Deus* é capaz de tal desdobramento de poder. Daí a necessidade de um decreto especial. Tais são as duas intervenções divinas requeridas para conduzir o mundo a seus fins últimos: a ação exterior da *Graça* e o decreto de *renovação* de todas as coisas.

As teses alquimistas sobre a transmutação da matéria diferem notavelmente do ensinamento eclesiástico. O "fermento misterioso", o agente da transmutação que deve prolongar a vida natural e conduzir o mundo a um estado superior, será procurado pelos alquimistas simultaneamente em duas vias complementares: seja na própria natureza (1), seja em uma ajuda exterior que não será mais a da Graça (como é o caso no ensinamento eclesiástico), mas a de Lúcifer (2).

1. — O fermento misterioso da transmutação encontra-se, dizem eles, na própria natureza. Está nela incluído virtualmente. A natureza material contém em si mesma, em estado de germes, as forças necessárias à sua própria transmutação. É próprio da alquimia, herdeira da ciência primordial, transmitir a seus iniciados, gente íntegra que não abusa de sua ciência, o segredo desse fermento misterioso apto a exaltar a natureza.
2. — Entretanto, os alquimistas têm perfeita consciência de que as manipulações simplesmente naturais são insuficientes para provocar uma transmutação completa. A suas receitas de ordem química, são obrigados a juntar práticas mágicas. A suas destilações e sublimações operatórias misturam ritos, meditações e encantações, a fim de chamar precisamente a ajuda exterior de que necessitam. Tomam por argumento a pureza de suas intenções, que é na maioria das vezes real, de fato, para assegurar que se cercam da cooperação dos santos anjos e que, portanto, sua magia é sadia. Mas a opinião cristã está desde há muito formada: a alquimia é uma forma da magia. E a magia faz apelo ao conhecimento que os anjos decaídos possuem das forças desconhecidas, e sem dúvida incognoscíveis, da natureza. A ajuda assim solicitada pelos rituais, pelos procedimentos e pela linguagem alquímica não é mais a da Graça do Verbo Encarnado, mas sim a de Lúcifer.

Mediante essa ajuda, a alquimia operativa, dita também *alquimia dos fornos*, procura, e encontra às vezes, dizem, o fermento filosofal, o qual reveste duas formas possíveis. Pode apresentar-se sob forma líquida ou sob forma sólida. Quando é líquido, dá-se-lhe o nome de *elixir de longa vida*; é também a "panaceia", o remédio universal. Quando é sólido, é a *pedra filosofal*. Empregada com discernimento, a pedra filosofal transforma o "vil chumbo" da natureza em ouro, símbolo e primícia da glória. Qual é a eficácia real da alquimia operativa? Está longe de ser evidente. Muitos pensadores da escola esotérica julgam que a alquimia operativa deve ser considerada como uma forma materializada e desviada, como um subproduto, da única verdadeira alquimia, que é a alquimia espiritual.

> **B — A ALQUIMIA ESPIRITUAL** aplica à vida da alma princípios análogos aos da alquimia operativa. Toda vida interior é uma alquimia pelo simples fato de ser um processo de destilação, de depuração e de sublimação. Assim como a alquimia operativa faz desabrochar as energias naturais de exaltação virtualmente incluídas na matéria, assim a alquimia espiritual faz desabrochar o germe divino enterrado no fundo da alma. A alma meditativa chega à "união transformante", como o mercúrio se "transforma" em ouro. Por um trabalho sobre si mesma, trabalho reputado "alquímico", a alma vai divinizar-se inteiramente. Tem, em princípio, os meios para isso, já que é uma centelha da divindade e que não tende senão a reintegrar seu Deus de origem. Reencontra-se, pois, fatalmente, na teologia mística segundo a alquimia, um certo automatismo na ascensão da alma.

Não obstante, como seus confrades operativos, os adeptos da alquimia espiritual dão-se perfeitamente conta de que a atração congênita da alma para Deus não é suficiente e de que uma ajuda exterior lhe é necessária para chegar a uma reintegração total. O Padre Stéphane, enquanto esoterista cristão, deu sua definição da alquimia espiritual em um pequeno tratado que reproduzimos por inteiro. Ver-se-á que a necessidade de uma ajuda exterior não lhe escapa e que a essa ajuda ele dá o nome de *Graça*.

Mas que resultado essa ajuda exterior produzirá, segundo o autor, na "alma alquímica"? Por essa ajuda, a alma vai *transubstanciar-se* e o Verbo poderá *encarnar-se* nela.

> **TRATADO VII.10 — *ALQUIMIA ESPIRITUAL***

A Vida espiritual pode definir-se essencialmente como renúncia ao eu e ao mundo (aspecto negativo) e como "união com Deus" (aspecto positivo). Podem-se nela distinguir quatro fases: metanoia, catarse, apatheia e *theosis*, em ordem hierárquica ascendente, mas essas quatro fases devem ser consideradas concomitantes antes que sucessivas, ou ainda como "dominantes" nas diversas etapas da vida espiritual; quer dizer, por exemplo, que não há metanoia sem um começo de catarse ou de theosis, e *vice-versa*.

1. *Metanoia* = conversão = <u>reviramento</u>: a alma, tendo percebido um começo de Luz divina, desvia-se <u>sob a ação da Graça</u> — em intenção ao menos — do ego e do mundo. Fase inicial em que a "dominante" é a metanoia. É uma "orientação nova": a alma volta-se para o Sol Espiritual. É a entrada na via, mas resta todo o caminho a percorrer.
2. Catarse = <u>purificação</u> = mortificação das paixões e do desejo. A alma "orientada" deve purificar-se de todos os obstáculos ao cumprimento e ao desabrochar da Vida Divina nela, o que corresponderá aos dois aspectos seguintes: apatheia e *theosis*.
3. Apatheia = <u>apaziguamento</u> = contentamento. A alma, libertada do *ego* e das paixões, está no estado de pureza, de virgindade, de passividade perfeita *(materia prima)* para <u>receber</u> o Fiat *Lux*, <u>o Verbo Iluminador</u> e Transformador que quer encarnar-se nela; é o Mistério da Encarnação e da "Transubstanciação": "Isto é o meu Corpo".
4. *Theosis* = <u>divinização</u>: a alma, inteiramente despojada, já não é ela mesma, pois é <u>"transformada" em Deus.</u> Tomo I, página 236.

À primeira vista, já que faz intervir a ação da Graça, o Padre Stéphane permanece, não obstante o título inquietante de seu tratado, na boa ortodoxia, como lhe acontece em outros assuntos, conforme já fizemos notar. Perguntemos-lhe, contudo, o que entende por "Graça". Qual é, na doutrina stefaniana, a natureza dessa ajuda exterior necessária para realizar a metanoia? Trata-se verdadeira e exclusivamente da Graça que é dada do Céu pelo Verbo Encarnado? Ora, é precisamente aí que o Padre Stéphane se junta aos esoteristas. A Graça tal como ele a entende identifica-se com essa *energia divina* que se reencontra nas outras religiões sob nomes diversos: *influência espiritual não humana* em R. Guénon (1), *baraqah* entre os muçulmanos (2), *possibilidade universal* entre os hinduístas (3), *Metatron* entre os cabalistas (4). Vejamos como ele se exprime a propósito dessas pretensas equivalências.

1. — *A INFLUÊNCIA ESPIRITUAL NÃO HUMANA* em R. Guénon. O Padre Stéphane constata que o ser humano mostra uma tendência fundamental a dirigir-se ao "Princípio divino". E pergunta-se qual pode ser a origem dessa tendência. Eis como responde à questão:

> *"Ora, esse fim, o termo dessa tendência, está situado no domínio do divino, do não humano, do transcendente que, como tal, escapa ao poder do homem enquanto homem. A realização dessa tendência supõe, pois, a intervenção divina, que os teólogos chamam A GRAÇA, e que designaremos pelo nome de INFLUÊNCIA ESPIRITUAL."* Tomo I, página 359.

Ora, a expressão *influência espiritual não humana* é precisamente a que R. Guénon emprega invariavelmente quando quer falar de uma ajuda espiritual exterior. Escreve, por exemplo, que no momento da iniciação (maçônica ou outra) o sujeito recebe uma "influência espiritual não humana". O Padre Stéphane anuncia aqui sua intenção de abandonar a terminologia dos teólogos e de alinhar-se à de R. Guénon, que lhe parece mais exata, sem dúvida porque é válida igualmente para as outras religiões, para designar a ajuda espiritual exterior de que o homem tem necessidade em sua ascensão a Deus. Certamente constata a necessidade de uma ajuda exterior, mas já não consente em dar-lhe exclusivamente o nome de "Graça".

2. — A *Baraqah* entre os Muçulmanos. O Padre Stéphane, no Tomo II, página 214, menciona a baraqah como sendo essa influência espiritual que só ela pode realizar a transformação do ser no plano espiritual. A baraqah é, portanto, para ele o nome que se dá à Graça na religião islâmica. Também aqui admite a equivalência.
3. — A *Possibilidade Universal* entre os hinduístas. Segundo o Padre Stéphane, o Verbo divino leva, no hinduísmo, o nome de "Possibilidade universal". E essa entidade metafísica dispensa, às almas que se colocam sob sua influência, a força que lhes é necessária. Também aqui é "a Graça", sob outro nome.
4. — O *Metatron* entre os cabalistas. Segundo o Padre Stéphane, o papel do Verbo, como dispensador da ajuda celeste, seria desempenhado, na Cabala, pelo Metatron. Quem é, então, esse Metatron? A literatura judaica sobre o assunto está longe de ser clara. Para certos autores, como por exemplo Léo Schaya em sua obra "L'Homme et l'Absolu selon la Kabbale", parece que o Metatron seja o nome dado à Sabedoria divina quando é considerada em sua *imanência* no homem. Para outros, seria preciso ater-se à etimologia grega da palavra Metatron, que significa "ao lado do trono" (meta — trono). Mas então como interpretar esse sentido etimológico? Esse espírito que se mantém junto ao trono está ali para honrar a Deus (caso em que seria um anjo) ou para suplantá-lo (caso em que seria Lúcifer)? As explicações do Padre Stéphane são confusas. Poderão eventualmente ser encontradas no Tomo I, páginas 292-293. Do Metatron proviria a ajuda espiritual de que a alma precisa, já que ele é o Sol divino como o Verbo é também o Sol divino.

O Padre Stéphane, como se vê, procura equivalentes à Graça em religiões que são o oposto do Cristianismo. Os equivalentes que ali descobre não o são e têm apenas as aparências. Pois a Graça define-se estritamente como a ajuda sobrenatural enviada pelo *Primogênito de toda criatura*, que é também o *Redentor*. Ora, só há um único Redentor e, portanto, só há uma única Graça: a que é dispensada pela Igreja fundada precisamente pelo Redentor. É evidente que as religiões que não reconhecem Jesus Cristo como o Verbo Encarnado não poderiam proporcionar a Graça.

Assim, as vias contemplativas preconizadas pelo Padre Stéphane são verdadeiramente alquímicas por suas *modalidades*. Mas o são também por suas *finalidades*. Quais são as finalidades prometidas à alma guiada pela "influência espiritual não humana" (essa influência que não diz seu nome)? Já o vimos no parágrafo "O Germe divino na Alma humana". O Padre Stéphane no-lo repete aqui quando define *a theosis*, no fim do pequeno tratado que acabamos de citar: "A Theosis: divinização: a alma, inteiramente despojada, *já não é ela mesma, pois é transformada em Deus*." A Alma, assim conduzida a seu fim, já não pertence a si mesma. Diremos que está enfeitiçada e literalmente possuída por um espírito (uma influência espiritual não humana) maior e mais forte do que ela. Já não se trata, como na sã doutrina católica, de uma *participação* na vida divina e de uma *filiação de adoção*, mas de uma perda de identidade: a alma já não é ela mesma, diz-nos o Padre Stéphane. Também aqui afasta-se da ortodoxia e alinha-se deliberadamente com a alquimia dos esoteristas, como declara abertamente no título de seu tratado: "A Alquimia espiritual".

### A TEORIA DOS TRÊS MUNDOS

> Não há dúvida de que o Padre Stéphane adere ao *TRICOTOMISMO* de Platão, chamado também *TRIPARTIÇÃO* ou ainda *Teoria dos Três Mundos*.

Teve um dia de pronunciar a homilia do 21º Domingo depois de Pentecostes. Comentou a célebre passagem de São Paulo: "Não temos somente de lutar contra a carne e o sangue, mas... contra as potências das trevas espalhadas nos ares." (Ef. VI, 12). O texto latino que tinha de traduzir é este: "contra spiritualia nequitiæ, in cœlestibus." E eis a tradução que dele dá: "...contra as potências infernais espalhadas NO MUNDO INTERMEDIÁRIO (O MUNDO SUTIL)." Tomo II, página 299.

Ora, São Paulo, no texto da *Vulgata*, não menciona de modo algum um "mundo intermediário". É o Padre Stéphane quem o acrescenta por sua própria autoridade. Vê-se, portanto, claramente que ele crê na existência de um "mundo sutil", ocupando o lugar intermediário entre o mundo físico e o mundo espiritual. E constata-se, em todo o conjunto de sua obra, que ele atribui uma importância capital a essa divisão tripartite do universo.

Segundo essa doutrina, que não data de hoje, o universo seria composto de três mundos sobrepostos: o mundo físico, depois o mundo anímico (sutil e intermediário, semifísico e semiespiritual) e, por fim, o mundo puramente espiritual (dito também angélico). Da mesma forma, o homem é composto de três elementos constitutivos: *o corpo* (soma em grego), que pertence ao mundo físico, *a alma* (psyché), que pertence ao mundo anímico ou mundo intermediário, e *o espírito* (nous), que pertence ao mundo espiritual.

> Duas particularidades importantes devem ser bem precisadas:

1. — os demônios fazem parte do mundo intermediário, como o Padre Stéphane dá claramente a entender em sua tradução de São Paulo;
2. — a alma e o espírito do homem constituem, nessa doutrina, duas substâncias distintas (duas substâncias que pertencem a dois mundos diferentes).

A existência desse pretenso *mundo intermediário* é totalmente desconhecida na doutrina ortodoxa da Igreja, para a qual a alma humana é constituída de uma única e mesma SUBSTÂNCIA, apta, contudo, a exercer duas FUNÇÕES distintas:

1. — uma função em relação ao corpo ao qual está ligada, e leva então o nome de ALMA;
2. — uma função em relação a Deus, para o qual tende, e leva então mais especialmente o nome de ESPÍRITO.

Em suma, a alma humana tem duas *funções*, mas é constituída de uma *única substância* espiritual. E pertence inteiramente ao mundo dos espíritos.

Aqui, uma particularidade de vocabulário precisa ser assinalada. A palavra ALMA possui dois significados, vizinhos certamente, mas não idênticos. Essa palavra pode ser empregada em sentido estrito ou em sentido amplo. Em *sentido estrito*, alma designa rigorosamente a alma vegetativa, isto é, a função de animação quase animal do corpo; certos autores dirão então "animus". Em *sentido amplo*, alma designa ao mesmo tempo o "animus" e o "spiritus", isto é, todo o conjunto da substância espiritual, incluindo as duas funções; certos autores escreverão então "anima". O uso se estabeleceu assim, o que evidentemente complica os desenvolvimentos sobre esse assunto. É um fenômeno linguístico bastante comum: a *parte* (sentido estrito) acabou por dar seu nome ao todo (sentido amplo).

Vê-se que as concepções do Padre Stéphane se afastam notavelmente da ortodoxia. Em contrapartida, ele é perfeitamente lógico consigo mesmo e em particular com as teses esotéricas sobre o germe de natureza divina incluído, segundo ele, na alma humana, teses que mencionamos em parágrafo anterior. Em um curto tratado, cuja parte essencial vamos citar, precisa que a fração "divina" do homem, sua centelha divina, é precisamente *o espírito*, o *"nous"*.

Começa por censurar a concepção corrente, que não é outra senão a doutrina da Igreja, por tornar incompreensível o comércio do homem com Deus. Como poderia o homem contatar Deus pelo pensamento se não possui em si nada de puramente espiritual? A alma, substância única, tal como é concebida pela Igreja, parece-lhe muito intimamente ligada ao corpo para prestar-se a um comércio espiritual com Deus.

> Em seguida acrescenta:
> 
> *"A resposta a essas questões não pode, em lógica rigorosa, ser formulada senão da seguinte maneira: além dos elementos constitutivos do ser que se encontra atualmente no estado humano (corpo, alma), EXISTE UM ELEMENTO SUPRA-HUMANO OU DIVINO, em estado não desenvolvido ou 'involuído', suscetível de entrar em relação com o domínio angélico ou a Divindade, e que chamaremos 'espírito'.*
> 
> *Seria, portanto, um erro considerável confundir o mundo psíquico, que é do domínio da alma, com o mundo espiritual. Ora, essa confusão corre o risco de ser mantida se nos contentarmos com a concepção dualista 'corpo-alma' do ser humano. Uma doutrina plenamente tradicional deverá, pois, encarar, no mínimo, uma concepção tripartite do ser humano: corpo, alma, espírito. Esse 'esquema' é suficiente, apesar de sua redução à mais simples expressão possível do que se destina a representar, a saber, a multiplicidade indefinida dos estados do ser em todas as suas modalidades possíveis, O ESTADO INCONDICIONADO — que é o 'Estado Quarto' — não sendo mencionado (o que permite escapar a todo panteísmo e a todo imanentismo), mas encontrando-se 'sugerido' pela palavra 'espírito', à qual basta pôr uma maiúscula para que designe aquilo de que se trata."* Tratado "Espírito, Alma, Corpo". Tomo I, página 191.

Assim, o espírito (o "nous") é declarado pertencer ao Estado Incondicionado (com maiúsculas no texto), isto é, à natureza divina. É esse espírito que, no homem, constitui, diz-se, o elemento supra-humano ou divino.

Essas concepções do Padre Stéphane, sobre os três mundos que constituem o universo e sobre os três componentes do homem, ligam-no incontestavelmente à escola esotérica ao mesmo tempo que o afastam do cristianismo autêntico.

### SOBRE A INICIAÇÃO

> O *conceito de INICIAÇÃO* encontra-se com bastante frequência sob a pena do Padre Stéphane. Tomemos primeiro alguns exemplos das passagens em que ele fala dela. Veremos em seguida que alcance e que sentido dá ao que entende por iniciação:
> 
> *"Outrora, na véspera da festa (de São João Batista), realizava-se o Batismo dos catecúmenos, e o templo era inundado de luz, sinal de INICIAÇÃO ao conhecimento de Deus."* Tomo I, página 277.

Assim, sugere que o Sacramento do Batismo é assimilável a uma iniciação. Algumas páginas adiante, precisa seu pensamento:

> *"É numa tal perspectiva que devem ser encarados e realizados sacramentalmente os ritos da INICIAÇÃO CRISTÃ, como o Batismo e a Eucaristia."* Tomo II, página 319.

Trata-se bem de uma iniciação, escreve ele, já que o cristão começa uma vida nova. Não há dúvida de que, para o Padre Stéphane, os sacramentos da Igreja formam também uma "hierarquia iniciática". É o que escreve na passagem seguinte:

> *"O clericalismo é o produto da degenerescência da Autoridade espiritual, do desmoronamento da HIERARQUIA INICIÁTICA ou eclesiástica, que é à imagem da hierarquia celeste: está evidentemente ligado à obscuração intelectual do Kali-Yuga e, por conseguinte, é tributário do moralismo e do sentimentalismo característicos do mundo moderno."* Tomo II, páginas 132-133.

Até onde o Padre Stéphane faz remontar a cadeia iniciática cristã? Foi Jesus Cristo o primeiro iniciador dos cristãos, e sua obra de iniciador constitui mesmo o essencial de sua missão terrestre:

> *"É interessante fazer a aproximação com São Mateus. Trata-se, para Cristo, de cumprir o ESSENCIAL de sua missão: INICIAR AS ALMAS NO MISTÉRIO SOBRENATURAL. Mas o Mestre mede a dificuldade de tal empreendimento. Por isso, segundo São Mateus, antes de revelar, no sermão da montanha, os misteriosos segredos do Reino e as exigências morais de seu acesso, e segundo São João antes de INICIAR Nicodemos no mistério da vida sobrenatural, Cristo quis atrair a si os corações e credenciar seu ensinamento realizando numerosas curas ou mudando a água em vinho, em Caná."* Tomo II, páginas 95-96.

O Padre Stéphane tenta nos explicar o mecanismo pelo qual Cristo é iniciador. É, diz-nos, porque ele cria um laço ontológico entre a substância individual do batizado e o <u>"princípio metacósmico"</u> que ele próprio é.

> *"... o que importa é que o dogma da eternidade do inferno confere à quase totalidade dos cristãos uma noção qualitativa e simbólica suficiente da causalidade cósmica que rege nossos destinos póstumos.*
> 
> *"Ora, aqui, isto é, para um cristão (e mesmo um simples batizado que o tenha sido em idade na qual não tomou consciência disso, o que é o caso mais frequente), a causalidade cósmica de que se trata é um laço ontológico entre a substância individual e o <u>PRINCÍPIO METACÓSMICO</u> que é o Cristo e seu corpo místico. Em virtude desse laço, a 'natureza' de um cristão já não é a de um pagão."* Tomo I, página 207.

A iniciação conferida por Cristo consistiria, portanto, numa ligação de cada indivíduo cristão ao "Princípio Metacósmico" que é Cristo. A iniciação cristã seria a transformação de nossa natureza operada por essa ligação.

Em seu Tratado II-7 (Tomo II, páginas 95-96), o Padre Stéphane explica-se sobre o mecanismo da missão "iniciadora" do Verbo Encarnado. Dá-lhe mais importância do que à sua missão "redentora". Fazendo isso, professa a mesma opinião de Rudolf Steiner, para quem o objetivo principal, e até único, de Cristo, em sua aparição sobre a terra, era elevar "o grau iniciático da humanidade".

Para tentar compreender qual é, para o Padre Stéphane, o processo da missão iniciadora de Jesus Cristo, pode-se consultar o Tratado II-7 (Tomo II, páginas 95-96), intitulado: "Introdução à moral evangélica". Tivemos de renunciar a citar esse texto por inteiro, primeiro porque é longo demais (conta umas vinte páginas) e sobretudo porque é escrito em estilo muito confuso. Exige um verdadeiro trabalho de clarificação. Retenhamos, para o que nos interessa aqui, que, segundo o Padre Stéphane, Cristo é essencialmente um MESTRE DE INICIAÇÃO.

\* \* \* \* \*

Vejamos agora qual é a doutrina católica tradicional sobre este capítulo. Pode-se falar de iniciação cristã? Os Sacramentos da santa Igreja podem ser considerados iniciações? A que espécie de mistérios uma iniciação cristã pode introduzir?

Façamos primeiro uma constatação de ordem geral: "Toda vez que há mistério, há lugar para iniciação". É, portanto, normal que, para participar dos mistérios cristãos, seja necessário passar por uma iniciação. O conceito de iniciação cristã não é estranho ao ensinamento clássico da teologia católica. Nem todos os sacramentos são considerados iniciáticos, mas somente alguns, em particular os que imprimem na alma um caráter indelével: o Batismo, a Confirmação e a Ordem. Esses Sacramentos marcam uma gradação na participação nos mistérios.

Entretanto, de fato, a doutrina cristã, embora admita a noção, não insiste muito no caráter iniciático dos sacramentos. E a discrição nessa matéria é muito compreensível. Com razão, o Magistério quer evitar que os fiéis assimilem essas iniciações cristãs às INICIAÇÕES MAÇÔNICAS. Tem razão de temer que estabeleçam uma confusão entre essas duas ordens de iniciação.

E, com efeito, existem duas ordens de iniciações radicalmente opostas. *Toda vez que há mistério*, dissemos, *há lugar para iniciação*. Só que é preciso acrescentar que há duas ordens de mistérios:

- os mistérios de CIMA,
- e os mistérios de BAIXO.

> Assim como há dois abismos, o abismo de Cima e o abismo de Baixo, assim há duas ordens de iniciação:

- *As iniciações aos mistérios de Cima.* São os sacramentos da Igreja, e somente os sacramentos da Igreja, pois ela é a única verdadeira Igreja do Verbo Encarnado.
- *As iniciações aos mistérios de Baixo.* São as iniciações do tipo maçônico, mas também as que se praticam nas religiões orientais, que são remanescências do paganismo.

\* \* \* \* \*

Ora, o Padre Stéphane tem perfeita consciência de que uma distinção dessa ordem deve ser mantida em princípio. Sabe que existem iniciações muito nefastas, como por exemplo as do xamanismo e da feitiçaria. Perguntemos-lhe qual será seu critério para distinguir as boas iniciações das más. Seu critério será o que encontrou nas teorias guenonianas. Eis essa regra de distinção:

- São *boas*, segundo ele, autênticas e recomendáveis, as iniciações que respondem a uma dupla exigência. É preciso que sejam de fundação imemorial (que sua origem se perca na noite dos tempos). E é preciso, além disso, que sejam conferidas em condições perfeitas de regularidade ritual.
- São más e reprováveis as iniciações cuja fundação é recente (portanto artificial e livresca) e cujo ritual é modernizado (portanto observado de maneira arbitrária). Convém então dar-lhes, segundo a gravidade do caso, o nome de *pseudoiniciação* ou de *contrainiciação*.

Estabelecida assim a fronteira entre as boas e as más iniciações, quais são, mais particularmente, as que o Padre Stéphane incluirá entre as *boas iniciações*? São:

- Os sacramentos da Igreja, que ele considera, portanto, iniciáticos. Nomeia o Batismo e a ele acrescenta curiosamente a Eucaristia (como, aliás, fazem muitos esoteristas cristãos), embora esse sacramento não imprima na alma um caráter indelével.
- Mas também as *iniciações* tal como são praticadas nas grandes religiões arcaicas da Índia e na religião esotérica muçulmana.

> E rejeita como "pseudoiniciações" ou "contrainiciações":

- as iniciações em curso na *feitiçaria* de todas as épocas e de todos os continentes,
- e igualmente as iniciações modernas cujos fundadores são mais ou menos aventureiros ou impostores.

Assim, o Padre Stéphane, embora faça a parte do fogo e condene as iniciações demasiado satânicas que, evidentemente, conduzem ao poço do abismo, admite, não obstante, fora da Igreja, a existência de iniciações salvadoras às quais concede equivalência com os sacramentos da Igreja. É bem certo que não poderíamos aderir a esse parecer e a essa classificação. Somente a Igreja fundada por N.S.J.C., a Pedra Angular, é apta a iniciar seus fiéis nos mistérios de Cima. Todas as iniciações que se praticam fora da Igreja introduzem na participação nos mistérios de Baixo.

### O ANDRÓGINO

O Padre Stéphane introduz em sua teologia não apenas a palavra, mas a própria noção de andrógino. Eis como raciocina. Começa por mostrar, apoiando-se na metafísica guenoniana, que todo ser criado apresenta obrigatoriamente uma BIPOLARIDADE:

> *"Contudo, essa obra (da Encarnação) não revestiria todo o seu caráter de misericórdia se a Maternidade Divina, aspecto complementar da Paternidade, não se manifestasse nela de alguma maneira, e se, metafisicamente falando, a BIPOLARIZAÇÃO DO SER, nos diferentes níveis de sua manifestação, não nela aparecesse."* T. II, p. 50.
> 
> Deve-se, portanto, reencontrar em Adão, o primeiro homem criado, a "bipolaridade" necessária a todo ser:
> 
> *"Adão, criado macho e fêmea, é à imagem de Deus; a esse título é, portanto, para o nosso estado de existência, o símbolo adequado do Homem Universal, mas, como nota R. Guénon, o primeiro Adão corresponde ao aspecto virtual do Homem Universal, ao passo que o Segundo Adão corresponde à restauração do estado adâmico, sendo de certa forma a primeira etapa nessa realização. A esse nível, trata-se então do ANDRÓGINO restaurado por Cristo, que não era nem homem nem mulher."* Tomo I, páginas 131-132.

O Padre Stéphane reafirma, sem qualquer espécie de equívoco, a androginia que atribui a Cristo quando passa a comentar o ícone bizantino da Deisis. Faz notar que, nessa composição pictórica, a personagem de Cristo ocupa a parte central; tem de um lado a Theotokos, a Mãe de Deus, e do outro lado São João Batista. Não precisa de mais para concluir:

> *"... A Theotokos e São João Batista, arquétipos celestes do masculino e do feminino, mantêm-se de um lado e de outro de Cristo, que é o ANDRÓGINO VERDADEIRO enquanto Novo Adão."* Tomo II, página 212.

A propósito da noção de Homem Universal, tão frequente nas teologias judaica e islâmica, o Padre Stéphane remete novamente ao andrógino:

> *"Deter-nos-emos um pouco mais sobre outro aspecto do HOMEM UNIVERSAL, a saber, sua relação com o estado edênico ou com o ANDRÓGINO PRIMORDIAL. Trata-se de um tema bíblico bem conhecido e frequentemente desenvolvido pelos Padres da Igreja: é o tema da imagem quebrada pela queda e restaurada por Cristo."* Tomo I, página 131.

Como todos os membros da escola do Esoterismo cristão, o Padre Stéphane pretende que a noção de andrógino se encontre FREQUENTEMENTE entre os Padres da Igreja. É absolutamente falso. Podem-se contar nos dedos de uma só mão os Padres que lhe são explicitamente favoráveis. Jamais a pretensa androginia de Cristo, ou de Adão, ou de seu arquétipo, foi objeto de um ensinamento continuado, muito menos de uma decisão do magistério.

Em contrapartida, o Andrógino, que é uma noção já constante no paganismo, reaparece entre os autores gnósticos, entre os neoplatônicos, assim como entre os hermetistas e na literatura alquímica. Representa ali um ser mítico, ao mesmo tempo homem, mulher e demônio. De fato, o andrógino é uma das figurações mais frequentes do demônio.

Resta-nos ver como, depois de afirmar com insistência a noção de andrógino, o Padre Stéphane faz dela uma das peças mestras de seu raciocínio metafísico. Sabe-se que adotou a metafísica do Vedanta, segundo a qual a "manifestação" (nós dizemos criação) faz aparecer, em todos os níveis, um polo positivo (Purusha) e um polo negativo (Prakriti):

> *"No nível do Cosmos, o par Purusha-Prakriti reencontra-se no Espírito de Deus que se movia sobre as águas primordiais, de que fala o Gênesis (I-2), simbolizando as águas, por sua plasticidade, a perfeita submissão de Prakriti.*
> 
> *"No nível do ser humano, encontramos o par Adão-Eva, ou o ANDRÓGINO PRIMORDIAL, e é nesse nível específico que se situa a concepção habitual do pecado original, que afeta toda a descendência de Adão.*
> 
> *"Por fim, no nível mais baixo da manifestação grosseira, temos o homem e a mulher no sentido ordinário."* Tomo I, página 95.

Pensa-se invencivelmente nas SIZÍGIAS da gnose simoniana. As sizígias são espécies de andróginos angélicos. São EONS do pleroma que vão em pares. Um éon macho e um éon fêmea formam uma Sizígia.

\* \* \* \* \*

Como apreciar tudo isso em função da sã doutrina? O andrógino é uma invenção do velho paganismo, passada à gnose e, além dela, ao Esoterismo cristão. Essa invenção não tem lugar na doutrina católica, que admite APENAS UM ARQUÉTIPO para homens e mulheres. Esse arquétipo é o Verbo Encarnado.

Ora, não é exato pretender que o Verbo encarnado apresente o duplo caráter masculino e feminino. "Um menino nos nasceu, UM FILHO nos foi dado" — "Ela dará à luz UM FILHO, e lhe darás o nome de Jesus" — "Este é MEU FILHO amado, em quem pus toda a minha complacência" — "Ele é o FILHO de Davi, o FILHO do Homem" — Tal é o mistério que Deus nos pede para meditar, sem ir procurar outro que só tem raízes entre os inimigos de Jesus.

Qual é, então, a verdadeira natureza do andrógino? Não receamos dizer que ele é uma das figuras simbólicas e enigmáticas pelas quais Lúcifer se esgueira na Religião de Cristo com o fim de tomar-lhe o lugar.

### A TEORIA DOS CICLOS

Em que medida o Padre Stéphane adere à teoria oriental e esotérica dos CICLOS CÓSMICOS? Antes de responder a essa pergunta, duas precauções são necessárias:

1. — Precisamos expor o conjunto da teoria dos ciclos, ainda que apenas em suas grandes linhas, pois o Padre Stéphane não o faz. Faremo-lo sob o título: "A Teoria do Samsara" (A).
2. — Em seguida, lembraremos o essencial da doutrina cristã sobre o mesmo assunto, a fim de fornecer o indispensável ponto de comparação de que precisamos. Faremo-lo sob o título: "A Doutrina cristã dos Fins últimos" (B).

#### A — A TEORIA DO SAMSARA

Samsara é uma palavra sânscrita que significa ESCOAMENTO. O Samsara é o "rio das existências sucessivas". O universo está submetido à lei do *eterno recomeço* e as almas, que não morrem, animam sucessivamente corpos diferentes. Toda existência é regida pela lei do nascimento, do apogeu e da morte. Tudo é ciclo. Tudo é pulsação. As eras cósmicas sucedem-se como outras tantas batidas de coração. Cada era forma um ciclo constituído por um início fulgurante e espiritual, seguido de uma descida, para terminar numa solidificação material.

Cada ciclo termina numa crise paroxística à qual sucede imediatamente um novo começo. Os mundos renascem indefinidamente uns dos outros. Assim gira eternamente A RODA DAS COISAS. Mas no centro dessa roda colossal encontra-se O INVARIÁVEL MEIO, que é o *Absoluto indiferenciado*, chamado também *Princípio supremo*. Ele não participa da turbulência da *Manifestação*, que se encontra na circunferência.

Pela contemplação e sobretudo pela iniciação, o homem pode obter *a Libertação*, que o isenta de sua sujeição à roda das coisas. Faz então retorno ao Princípio supremo de que emana e do qual é uma parcela. Por esse retorno ao Princípio, perde o estado contingente e "condicionado" que fazia dele *um indivíduo distinto* e perde-se no Absoluto indiferenciado. Torna-se de novo Deus ao desaparecer como homem. Esse sistema escatológico não comporta Juízo final, mas, em contrapartida, baseia-se na *recondução indefinida do estado de natureza*.

#### B — A DOUTRINA CRISTÃ DOS FINS ÚLTIMOS

A Doutrina cristã dos fins últimos possui, com as teorias orientais do Samsara, uma parte comum (1) e depois delas se afasta em pontos importantes (2).

1. — A parte comum diz respeito ao ESTADO DE NATUREZA. Os escritores de Igreja reconhecem perfeitamente que o estado de natureza é regido por leis cíclicas. Os astros, mas também os átomos, percorrem regularmente suas órbitas. Os seres vivos estão sujeitos, em seus corpos e em suas almas, a múltiplas pulsações que apresentam alternâncias de diástoles e sístoles. Ora, toda pulsação é um pequeno ciclo.

Pode-se dizer sem exagero que o estado de natureza, que é o do atual universo, é um estado *cíclico*. A Igreja está a tal ponto persuadida disso que, dócil às estações, às quais aliás não poderia se subtrair, estabeleceu dois ciclos litúrgicos, o Temporal e o Santoral, cujas interferências, de ano em ano, produzem por sua vez pulsações, aliás muito instrutivas. Celebra a festa *do Sagrado Coração*, que honra, em última análise, as pulsações plenas de misericórdia do Verbo Encarnado.

Todos os seres criados estão incorporados à ordem da natureza e estão, portanto, submetidos a ciclos. É incontestável e incontestado, tanto pela Igreja quanto pelos doutrinários das outras religiões. Há, portanto, acordo no que concerne à *ordem da NATUREZA*.

2. — A divergência diz respeito ao que deve SUCEDER à ordem da natureza. A Igreja ensina que o estado atual do universo não é senão um estado preparatório e probatório. Depois do *Juízo final*, o estado de natureza terá fim e será estabelecido um novo estado, a que se dá o nome de ESTADO DE GLÓRIA, o qual será definitivo e estável. E esse novo estado se estenderá ao universo inteiro: "Eis que faço *novas todas as coisas*." (Apoc. XXI-5). As coisas antigas terão desaparecido. Nem a matéria inerte nem a matéria viva estarão mais sujeitas a crescimento e decrescimento; já não estarão submetidas às leis que as regiam sob o império da natureza. Haverá outras leis, consequências de um novo decreto divino. Não haverá mais mar, símbolo da instabilidade. E não haverá mais noite. A Jerusalém celeste "não tem necessidade nem do sol nem da lua para a iluminar, pois a glória de Deus a ilumina e o Cordeiro é a sua lâmpada." (Apoc. XXI-23).

Podemos agora responder à pergunta que nos fazíamos no início deste parágrafo: em que medida o Padre Stéphane adere à teoria oriental e esotérica dos ciclos cósmicos? Nenhum de seus tratados é consagrado exclusivamente à teoria dos ciclos. E, no entanto, ele fala dela com frequência e a diversos propósitos. Sua adesão a essa teoria é certa. Tomemos dois exemplos:

1. — No tratado intitulado "A Questão da Mudança de Forma tradicional", considera o caso daqueles que mudam de religião exotérica (que passam, por exemplo, do hinduísmo ao catolicismo, ou inversamente). Nessa ocasião declara que toda alma deve permanecer capaz, qualquer que seja sua religião exotérica, de *ultrapassar OS LIMITES DA INDIVIDUALIDADE* e de *alcançar o ESTADO PRIMORDIAL*. Em claro, isso significa que toda alma deve saber renunciar à sua individualidade e desejar sua imersão no Absoluto indiferenciado. O Padre Stéphane mostra aí implicitamente que crê *na libertação* pela qual precisamente a alma deixa a roda cósmica para retornar ao estado primordial, isto é, ao Absoluto indiferenciado. É uma aceitação indireta, mas certa, da teoria dos ciclos.
2. — Em sua "Reflexão sobre a Festa do Sagrado Coração" (Tomo II, página 85), escreve: "...toda *espiritualidade verdadeira deverá ser uma <u>concentração</u>*, no *sentido indicado, deve ser concebida essencialmente como uma ação do <u>CENTRO</u> mesmo que tende a trazer a si todos os elementos da manifestação dispersos na circunferência da <u>RODA CÓSMICA</u>*." Aqui a adesão à teoria dos ciclos é muito mais explícita. É evidente que "o Centro" de que fala é "o invariável meio", isto é, o "Princípio Supremo".

O Padre Stéphane, ao mesmo tempo que mostra sua adesão a uma teoria que, como fizemos notar, está muito distante da escatologia da Igreja, não cessa de afirmar que ela é perfeitamente *compatível* com o cristianismo. Só tem um receio, confessa com uma impertinência toda guenoniana: o de que os cristãos do Ocidente, munidos do espírito espesso que se lhes conhece, sejam incapazes de compreender essa compatibilidade.

### SOBRE A MISSA

Teria sido interessante condensar em poucas palavras as concepções do Padre Stéphane sobre a Missa. Mas, na verdade, é impossível. Consagra a esse assunto alguns tratados relativamente curtos, de que só se retiram impressões confusas, para não dizer TURVAS.

É perseguido pela ideia de encontrar, para a teologia cristã do Sacrifício, equivalentes nas religiões orientais e de fazer da Missa católica um caso particular de uma certa "liturgia sacrificial" imemorial e "tradicional", cujo SACRIFÍCIO VÉDICO lhe oferece o espécime ideal. Chega a falar-nos de HIEROGAMIA a propósito da Eucaristia. E, querendo remontar até o "Sacrifício in Divinis", revolve as Processões divinas, sem nenhuma referência aos grandes Doutores católicos, mas inspirando-se, em contrapartida, em Guénon, Evdokimov, Schuon, Schaya e Coomaraswamy, que são todos orientalistas ou cabalistas.

> Encontrar-se-á a exposição das concepções do Padre Stéphane sobre a Missa principalmente em dois tratados:

- "Aspectos da Missa", Tratado VIII-3, no Tomo I,
- "Para compreender a Missa", Tratado II-5, no Tomo II.

Mas reencontraremos essas mesmas concepções turvas sobre o pretenso "Sacrifício in divinis" em duas ocasiões. Primeiro, quando examinarmos o livro do Prof. Borella "Le Sens du Surnaturel" \[O Sentido do Sobrenatural\]. Depois, quando chegar a vez da obra, capital sobre esse assunto, "La Divine Liturgie" \[A Divina Liturgia\], de Jean Hani.

### CONCLUSÃO: A ESTRATÉGIA DO PADRE STÉPHANE

**1.** — O Padre Stéphane dirige à Igreja romana a censura de ter *esclerosado* a Religião cristã à força de *autoritarismo*.

Durante tempo demais se encarou a religião, escreve ele,

> *"como um conjunto de relações entre o homem e Deus, relações que se tende a <u>determinar</u> e a <u>fixar</u> em fórmulas de oração debitadas mecanicamente, em fórmulas que <u>encapsulam o dogma</u>, nos quadros <u>rígidos</u> das definições e dos <u>cânones</u> dos Concílios."* Tomo II, página 77.

É absolutamente necessário pôr fim a essa intolerável rigidez. Para isso, que fazer? Precisamos primeiro de uma religião mais flexível, mais pessoal e mais mística. Mas precisamos também de uma religião mais *ecumênica*, de um ecumenismo que permanecerá reservado a uma elite, isto é, que permanecerá *esotérico*.

**2.** — Uma Religião mais mística:

> *"Não seria mais feliz, mais fecundo e mais vital encarar essa religião como uma <u>busca</u> de Deus, não à maneira do 'livre exame' protestante ou de uma experiência religiosa subjetiva e imanentista (à maneira dos modernistas), mas como uma <u>tomada de consciência</u> interior e pessoal, como uma exploração, uma descoberta progressiva e vivida de um <u>transcendente</u> que nos é mais <u>imanente</u> do que o nosso eu, em razão mesmo de sua transcendência."* Tomo II, página 77.

Podemos resumir essa posição dizendo que o Padre Stéphane deseja majorar a teologia mística em relação à teologia dogmática. É um traço que se encontra em todos os representantes da escola do esoterismo cristão.

**3.** — Uma Religião mais ecumênica:

> *"É preciso, portanto (mas a mentalidade habitual dos cristãos não se presta muito a isso), operar uma <u>purificação</u> ou uma <u>crítica da ideia de Deus</u> que eles propagam indefinidamente em seus discursos."* (Tomo II, página 40).
> 
> Para depurar a ideia de Deus, nada como examinar o que dela se diz nas outras religiões:
> 
> *"No ISLÃ, Deus se declara o <u>Único</u>, 'o Uno sem segundo'. Não há divindade senão a Divindade e o homem não é senão o Servidor da Unidade. NO SINAI, Javé revela seu nome: <u>Eu sou</u>, revela-se como o Existente. Na ÍNDIA, aparece como <u>paramatma</u>, o Supremo em si, ou como <u>parinirvana</u>, o Supremo Vazio, isto é, o Pleroma, a Plenitude. Na REVELAÇÃO CRISTÃ, revela-se como <u>pai</u>, pelo Filho, no Espírito, e o homem torna-se filho adotivo. Esses diferentes modos de Revelação são funções dos diferentes <u>receptáculos</u> humanos..."* (Tomo II, página 39 — breve Tratado intitulado "Deus").

Destilando essas diversas "revelações", a Religião cristã poderá enfim dar-se uma definição depurada da "ideia de Deus".

**4.** — Essa "purificação" da teologia far-se-á por um retorno às fontes a fim de nelas descobrir a RELIGIO PERENNIS, isto é, a religião eterna. É preciso começar por:

> *"... lembrar os elementos essenciais de toda religião, o que chamamos de FUNDO METAFÍSICO COMUM, cujo esquecimento ou negação constitui a causa profunda da subversão moderna. Compreender-se-á assim como é ilusório falar de Cristo, da Igreja, da crise na Igreja e de todos os problemas do mundo atual, se não se começa por lembrar — ou antes por expor para aqueles que ainda são capazes de compreendê-lo — esse fundo metafísico, que se poderia chamar de RELIGIO PERENNIS."* Tomo I, página 372.

**5.** — A reconstituição dessa "religio perennis" deve resultar num sincretismo? De modo algum, responde o Padre Stéphane. É preciso, ao contrário, conservar o PLURALISMO EXOTÉRICO:

> *"... o conteúdo metafísico universal que requer a Unidade transcendente das formas tradicionais... não constitui uma síntese propriamente dita entre Exoterismo e Exoterismo."* Tomo II, página 49.

É preciso, pois, conservar a distinção entre o exoterismo (que é forçosamente pluralista, já que as formas tradicionais diferem) e o esoterismo, que possui um "conteúdo universal".

**6.** — Esse trabalho de destilação metafísica e esotérica só pode ser pedido a UMA ELITE:

> *"Nosso propósito dirige-se, portanto, apenas ao NÚCLEO ÍNFIMO, não dos que já estão convencidos, o que seria inútil, mas dos que ainda são suscetíveis de compreender, sendo aliás seu pequeno número sem influência sobre a mentalidade geral condenada à ignorância; acrescentemos, enfim, que mesmo que esse 'núcleo' não exista, resta ainda uma razão maior para escrever estas coisas, a saber, que nunca é inútil proclamar a verdade, mesmo que não haja presentemente nenhum indivíduo suscetível de compreendê-la."* Tomo II, página 172.

**7.** — Em que condições esse "núcleo ínfimo" será posto a trabalhar? Fora da Igreja ou dentro? Eis a resposta do Padre Stéphane:

> *"Quantas vezes, ao longo da história, almas cansadas da pieguice e das beatices de uma religião insípida tentaram operar esse retorno às fontes? Muitos autores sérios reconhecem aí o ponto de partida de um movimento como o da Reforma, precedido aliás por certo número de movimentos análogos. Seu erro, para a maioria, foi ter querido realizá-lo <u>fora da Igreja</u>, provocando assim uma ruptura de unidade tão desfavorável à reforma da Igreja quanto a um desenvolvimento feliz dos movimentos reformadores.*
> 
> *"É, portanto, NO QUADRO DA IGREJA, e respeitando as linhas essenciais do ensinamento tradicional, ao menos em seu espírito, que esboçaremos 'um retorno às fontes' e proporemos construir uma moral evangélica na escola do Apóstolo e do Discípulo amado."* Tomo II, páginas 89-90.

Essa última menção do "discípulo amado" esconderia uma referência discreta a alguma linhagem "joanina"? É possível, mas o sintoma é tênue demais para que se possa afirmá-lo.

**8.** — Em que meio cristão o núcleo reformador deverá recrutar adeptos e trabalhar em seguida?

O Esoterismo cristão apresenta-se como uma FORMA TRADICIONAL porque se opõe ao mundo moderno, que é materialista, e à Igreja moderna, que é progressista. Os meios anti-progressistas são, portanto, particularmente indicados para difundir o Esoterismo cristão, o qual se apresentará, assim, como ANTICONCILIAR, na medida em que o Concílio é PROGRESSISTA.

Mas notemos, em sentido contrário, que o Esoterismo cristão milita em favor da UNIDADE TRANSCENDENTE das religiões. Contar-se-á, portanto, fatalmente entre as forças PRÓ-CONCILIARES, na medida em que o Concílio é ECUMÊNICO.

Devemos, portanto, esperar reencontrar esoteristas cristãos ao mesmo tempo na Igreja conciliar, onde empurrarão para o ecumenismo e o pluralismo, e na Igreja anticonciliar, onde farão valer seu "espírito tradicional".

**9.** — Qual é a situação pessoal do Padre Stéphane em relação a essa rede proselitista?

A escola do esoterismo cristão é muito antiga. Pode-se fazer remontar sua origem ao movimento da Rosa-Cruz, no fim do século XVI. Em seguida, os grandes doutrinários da franco-maçonaria não foram outra coisa senão esoteristas cristãos. O Padre Stéphane não é, portanto, nem o fundador nem o chefe dessa escola. Exerceu, contudo, uma influência pessoal que parece ter sido determinante sobre o *núcleo ínfimo* de que acaba de nos falar. É somente depois de sua morte que a escola do esoterismo cristão, em sua forma atual, se estendeu e se organizou consideravelmente. Uma das primeiras manifestações exteriores dessa escola de pensamento é precisamente a publicação do livro póstumo do Padre Stéphane, *Introduction à l'Ésotérisme Chrétien*, cuja análise sucinta terminamos aqui.

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