Cadernos Barruel 2 - 1978
- PARA MANTER A BOA COMPANHIA..... DE BARBIER A BARRUEL
- O PADRE AUGUSTIN BARRUEL
- PRECURSORES ESQUECIDOS
- O PADRE BARBIER FACE ÀS ARTIMANHAS DO CATOLICISMO LIBERAL
- A INFILTRAÇÃO MAÇÔNICA NA SOCIEDADE CRISTÃ
- O PROBLEMA ARDENTE DA TRADIÇÃO
- PRIMEIROS MARCOS PARA UMA HISTÓRIA DA REVOLUÇÃO LITÚRGICA
- NOTAS DA ADMINISTRAÇÃO
PARA MANTER A BOA COMPANHIA..... DE BARBIER A BARRUEL
Os leitores do primeiro número deste Boletim terão, sem dúvida, ficado espantados ao receberem este segundo número, que é quase idêntico ao primeiro, com uma pequena diferença: passamos do padre Barbier para o padre Barruel.
Dois jesuítas, dois ex-jesuítas contrarrevolucionários, cuja comparação é instrutiva: Barruel foi secularizado em razão da tormenta revolucionária, mas tornou-se mais tarde um dos pilares da reconstrução da Companhia, enquanto Barbier teve de se afastar de sua Ordem para poder lutar livremente contra a Revolução no seio da Igreja; em suma, dois estágios sucessivos, a um século de distância, do avanço revolucionário...
Contudo, não foi pelo prazer desta aproximação que realizamos uma modificação moralmente penosa e que acarreta inconvenientes materiais.
De fato, verifica-se que, se o padre Barbier é de fato um homem público – e quem o é mais do que um polemista desta têmpera! – seu nome não é livre e pertence... nem mesmo à sua família, cujos vários membros interessados em nosso trabalho se subscreveram, mas apenas ao seu sobrinho, que pretende não ser arrastado para posições demasiado taxativas.
Parece que, contra toda equidade, é este o direito positivo, e somos demasiado pobres para enfrentar os percalços da jurisprudência. Demasiado pobres e demasiado ocupados com cem outras coisas mais importantes, somos forçados a ceder à violência que nos é imposta; renunciamos, portanto, ao patrocínio do padre Barbier, para nosso grande pesar, pois ninguém melhor do que ele poderia simbolizar o espírito de nosso empreendimento, e nos unimos ao do padre Barruel, outro jesuíta, outro vulto ilustre da causa contrarrevolucionária.
Mas nem por isso abandonaremos o padre Barbier: seu nome, desaparecido do cabeçalho deste Boletim, seu pensamento continuará a ornar as suas páginas, e já a partir deste número um artigo relembra como ele soube analisar a tática dos liberais diante da autoridade na Igreja.
Esta peripécia terá tido o mérito de evidenciar melhor as profundas feridas que o impulso revolucionário causou ao corpo católico, que se encontra completamente combalido. – E não é difícil prever que as análises ulteriores poderão, deverão, despertar velhas cicatrizes, mesmo entre certos tradicionalistas que gostariam de não levar suas críticas além do Vaticano II! Nunca se drenou um abscesso sem provocar gritos, sobretudo quando é preciso limpar até o osso...
P.R.
O PADRE AUGUSTIN BARRUEL
Uma vez que, após o padre Barbier, decidimos colocar nossos trabalhos sob a égide do Padre Augustin Barruel, pareceu-nos interessante reproduzir o artigo abaixo do Padre Dudon, SJ.
Publicadas na Études, revista da Companhia, em 20 de outubro de 1926, estas poucas páginas abordam a recepção da obra do Padre Barruel pelos historiadores oficiais da Revolução e, assim, permitem apreciar melhor a sua importância.
O eminente jesuíta, que estudou de perto a Revolução e a influência das lojas maçônicas sobre ela, é demasiado conhecido para que nos estendamos; limitemo-nos a recordar que sua principal obra, tornada difícil de encontrar, As Memórias para servir à história do Jacobinismo, foi reeditada recentemente pela Diffusion de la Pensée Française em Chiré-en-Montreuil.
DA AÇÃO POLÍTICA DAS LOJAS NO SÉCULO XVIII
Como todos os historiadores favoráveis à Maçonaria, o Sr. Martin fala desdenhosamente de Barruel. Ele zomba de suas "histórias patéticas"; considera infantil sua tese do "complô maçônico" para explicar a Revolução. Mal e mal lhe reconhece o mérito de uma "erudição abundante". Muita leitura, pouco julgamento e bastante exaltação. Tal é, a meu ver, a ideia que o Sr. Martin faz de Augustin Barruel. Isso requer alguma discussão.
Barruel relata que foi iniciado na Maçonaria por surpresa e à força, e que também assistiu a iniciações. O Sr. Martin considera este relato inverossímil. A questão é saber se é verdade. E não há por que duvidar. Barruel é o oposto de um mistificador. Seus livros responderiam por ele, se fosse preciso. Ele pode se enganar, como todo homem; mas não mente. Toda a sua carreira de polemista, desde as Helviennes (1781) até o livro sobre o Concordato (1802), revela um homem corajoso, nobre, zeloso por saber com exatidão. Ele viveu em tempos singularmente conturbados: desvendar a verdade e defendê-la foi a ocupação de toda a sua vida. Uma vez que ele o disse, deve-se ter por certo que ele viu com seus próprios olhos o que se passa nas Lojas.
Além disso, ele leu tudo o que foi publicado em seu tempo na Inglaterra, Alemanha e França, sobre a Maçonaria. O Sr. Le Forestier, em seu livro sobre os Iluminados da Baviera, reconhece esse conhecimento excepcional de Barruel.
Disse, há oito anos, as razões pelas quais a tese do Sr. Le Forestier me parecia insustentável; remeto meus leitores a elas.
Além disso, o Sr. Le Forestier não crê na influência do Iluminismo sobre o Grande Oriente de França; Barruel estima, ao contrário, que a conjunção do Iluminismo de Weishaupt com a Maçonaria francesa foi realizada em 1787 e decidiu os acontecimentos revolucionários.
Sobre este segundo ponto, noto que os dois autores recorrem a conjecturas, em vez de demonstração. O leitor julgará qual dos dois é o mais arrojado.
Barruel soube, por maçons, que o convite às lojas parisienses para virem deliberar com os Irmãos alemães, Bode e o barão de Busch, emanava dos Amigos Reunidos; por eles ainda, ele soube algo desse encontro, ignorando, porém, os detalhes da deliberação; um Irmão lhe explicou, em um memorando, um novo grau conferido no final de 1787, e os detalhes dessa iniciação exalam fortemente o Iluminismo; enfim, é uma das astúcias de Weishaupt buscar para suas teorias o apoio do número; ora, é a partir de 1787 que as Lojas militares, como Barruel soube por confidências, passaram a receber suboficiais, e que se multiplicaram esses liceus, essas sociedades, esses clubes, que serviram à Maçonaria como meios de penetração e ação.
É preciso notar que, no trecho de suas Memórias onde fala da invasão do Iluminismo na França, Barruel não menciona apenas o Grande Oriente – que ele chama justamente de "parlamento maçônico" – mas também os Amigos Reunidos, os Swedenborgistas da rua de la Sourdière, os teósofos de Ermenonville, a Loja das Nove Irmãs, a da Canard. A loja do Contrato Social é a única que ele excetua da influência das detestáveis doutrinas do Iluminismo.
Notemos ainda que outros maçons além de Savalette de Lange faziam parte, ao mesmo tempo, tanto do Grande Oriente quanto de outras Lojas, como as Nove Irmãs ou os Amigos Reunidos.
Para negar qualquer contato real entre o Iluminismo de Weishaupt e o Grande Oriente, o Sr. Martin se refere ao Sr. Le Forestier. O Sr. Le Forestier, de fato, defende essa tese em seu livro sobre os Iluminados da Baviera. Mas seus apoios parecem frágeis, já que consistem em um artigo de um jornal de 1801. É essa uma prova irrefutável?
O Sr. Martin não pensa que Bode e Busch poderiam ter agido em Paris, por meio de conversas, fora de qualquer recepção oficial no Grande Oriente? É provável que o Sr. Gustave Bord tenha algo a nos dizer sobre Savalette de Lange e Chefdebien, em suas relações com os Iluminados alemães. O papel nefasto desses dois personagens ainda não está totalmente esclarecido.
Além do mais, mesmo que Barruel tivesse se enganado sobre a importância da viagem de Bode, restaria o que ele escreveu, nos dois primeiros tomos de suas Memórias, sobre a conjuração dos "sofistas da impiedade" e dos "sofistas da rebelião".
Há aí um ponto importante a examinar.
Em dois capítulos distintos de seu livro, o Sr. Gaston Martin insiste na ideia de que a Maçonaria é apenas uma herdeira do filosofismo; ela não inventou sua doutrina religiosa, social ou política; ela a recebeu. Por isso, as obras do Sr. Sée sobre as Ideias políticas na França no século XVIII são citadas com complacência. E assim também o historiador retoma, várias vezes, certo discurso de Palasne de Champeaux, venerável da Virtude Triunfante de Saint-Brieuc e deputado à Constituinte:
As luzes que iluminam este século devem-se às profundas meditações, às combinações refletidas dos doutos filósofos; seus escritos imortais passaram por todas as mãos, e as verdades cintilantes que continham permaneceram gravadas em todas as mentes, aguardando apenas uma ocasião favorável para se desenvolverem.
"Há nesse discurso", conclui o Sr. Martin, "uma análise muito interessante e perspicaz da interpenetração da Maçonaria e da filosofia".
Abramos Barruel. Pelo que começam suas Memórias para servir à história do jacobinismo? Pela demonstração da conspiração anticristã da qual Voltaire, d'Alembert, Diderot e Frederico II são os líderes. Na própria correspondência dessas figuras, Barruel busca e encontra a prova de seu intento, de seu segredo, de sua união, de seus meios de ação, das etapas sucessivas que marcarão a destruição da Igreja Católica e culminarão no esmagamento do "infame". Não são "histórias patéticas"; é uma demonstração rigorosa e inatacável, à qual Barruel dedica um volume inteiro.
O volume em que ele denuncia os "sofistas da rebelião" não é menos revelador que aquele onde são desmascarados os "sofistas da impiedade". O processo é sempre o mesmo: citações autênticas, numerosas, convergentes. Assim como no panorama anterior, Voltaire e d'Alembert reaparecem; depois, Montesquieu, Jean-Jacques Rousseau, Mably, Diderot, Helvetius, Raynal, o clube de Holbach, desfilam com suas teorias diversamente antimonárquicas.
Finalmente, Barruel discutiu com maçons e recebeu confidências. É fácil, a priori, zombar de um homem enganado por "histórias" de Irmãos desiludidos. Neste caso, porém, a ironia se desvia e se engana. Barruel não viu meros comparsas. Ele nomeia suas testemunhas ou as designa claramente, quando não pode nomeá-las. Ele teve as confissões de um Rosacruz e de um cavaleiro Kadosh; ele viu martinistas; ele recebeu de um dos testemunhas oculares o relato da missão de Sinéty ao regimento de Sarre e invoca, sobre esse fato, o testemunho dos Senhores De Martange, de Bertrix e de Myon; ele cita o testemunho de Girtan sobre o clube de propaganda dirigido por Rochefoucauld, Concorde e Sièyes; ele sabe, segundo esse confidente, o que "o sofista Bergier", cinco anos antes de 89, disse sobre a preparação da Revolução; ele viu uma carta do médico Alphonse Leroi precisando, em 89, que a Revolução estava sendo preparada há muitos anos; ele ouviu, da boca do destinatário dessa carta, a conversa deste com um ministro de Luís XVI; ele teve em mãos o relato, feito por Beaupoil de Sainte-Aulaire, de suas impressões sobre o Comitê dos Amigos dos Negros, cujo objetivo superava singularmente o tráfico negreiro; ele soube, de Gobel, detalhes muito semelhantes, assim como de um membro do Comitê regulador; ele teve consigo memórias que relatavam como maçons perigordianos, um certo senhor Lacoste e um certo senhor Gairaux, recebiam as instruções do Grande Oriente.
Por mais que o Sr. Gaston Martin, e também o Sr. Albert Lantoine, zombem das "histórias" de Barruel, este homem relata o que sabe a partir de excelentes informantes. Isso é verdade, quando ele folheia os livros dos filósofos, e também quando folheia as memórias daqueles que ele chama de "adeptos das Lojas". A priori, repito, é fácil afirmar que Barruel foi mistificado por maçons adormecidos. A afirmação só tem valor com provas que a sustentem.
Para citar um exemplo, Barruel acredita, segundo Virieu, na condenação à morte de Luís XVI, no congresso maçônico de Wilhelmsbad, em 1782. O Sr. Gustave Bord demonstrou que as declarações atribuídas a Virieu não eram nem tão claras, nem tão decisivas. Deixando este caso de lado, não sei se alguém conseguiu pegar Barruel em erro. E, de qualquer forma, por meio de papéis ainda existentes, seria fácil para mim demonstrar a amplitude e a seriedade de suas informações.
Os três últimos volumes das Memórias sobre o jacobinismo tratam dos Iluminados da Baviera. Em seu prefácio, o autor enumera suas fontes; são as mesmas de onde o Sr. Le Forestier se inspirou; são numerosas e não há melhores. O Sr. Le Forestier concorda que Barruel leu tudo. Mas ele difere muito de seu predecessor em suas conclusões. Para o Sr. Le Forestier, as teorias dos Iluminados são meras audácias de pensamento; para Barruel, elas são planos de reforma que estavam decididos a introduzir.
Já é o livro do Sr. Sée sobre as Ideias políticas na França no século XVIII. É até muito mais. Pois Barruel não se contenta em compilar os textos dos inimigos da realeza. Ele os confronta, por um lado, com as confissões de Condorcet e do Mercure, e, por outro lado, com o célebre requisitório pronunciado no Parlamento de Paris, em 1770, pelo advogado-geral Séguier. Ele mostra a penetração dessas ideias subversivas nos panfletos da época, no meio parlamentar e no mundo das Lojas.
De modo que, se é um mérito, para o Sr. Gaston Martin, ter descoberto que a Maçonaria francesa é uma herdeira do filosofismo, ele deve compartilhar essa glória com Barruel, que fez essa demonstração, há cerca de cento e trinta anos.
Prossigamos com este paralelo.
O Sr. Martin estudou com cuidado a "difusão das ideias maçônicas". Essa se dá pelo recrutamento das próprias Lojas; a nobreza, o exército, a burguesia, o clero, são conquistados por todo o reino. Ela se dá também pela propaganda fora das Lojas; e pela busca de meios práticos para realizar a igualdade e a liberdade das quais as lojas são as anunciadoras. A Maçonaria tem a mão na redação dos cadernos de queixas e nas eleições para os Estados Gerais. Ela ajuda financeiramente e supervisiona a conduta política dos eleitos. Ela mobiliza as massas proletárias, os meios administrativos e o exército. Pelo Clube Bretão e pelo Clube dos Trinta, ela age em Paris e em outras regiões; a câmara de correspondência do Grande Oriente é o centro nervoso que, por meio de circulares nas lojas, e fora das Lojas por jornais, panfletos, oradores em missão e clubes locais, distribui o influxo maçônico até as extremidades do corpo social. Assim, as Lojas prepararam e asseguraram a vitória da Revolução.
Será que, ainda ontem, o Sr. Albert Mathiez não escrevia:
As Lojas de antes de 1789, longe de serem sociedades de pensamento, eram, ao contrário, sociedades de banquetes e divertimento. Essas Lojas pertenciam, aliás, a ritos, ou seja, a sistemas diferentes. Elas só tinham em comum o recrutamento uniforme nas classes ricas. Elas forneceram à emigração seu contingente mais importante. Seu papel político foi aproximadamente inexistente; supor que tinham um programa e que dirigiam a opinião é algo absolutamente arbitrário.
Eis, sem dúvida, "conclusões rápidas" que farão o Sr. Martin sorrir; e a vontade lhe virá de remeter o censor severo de sua tese de doutorado "aos métodos lentos e áridos da erudição e da crítica".
Certamente, o Sr. Gaston Martin é o primeiro historiador de esquerda, se me permite a expressão, que falou, de forma tão peremptória, da ação política das Lojas, antes de 1789. Aos elogios do Sr. Philippe Sagnac, eu de bom grado juntaria os meus, se tivessem valor.
Acrescentemos que, mesmo que se conseguisse inocentar o Grande Oriente, a questão das responsabilidades maçônicas não estaria resolvida. O Grande Oriente não é toda a maçonaria francesa do século XVIII. Ele espera que o Sr. Gustave Bord venha a publicar a continuação de sua história das Lojas. Quando o segundo volume tiver saído, veremos mais claramente este problema ainda envolto em sombras.
Com Augustin Cochin, o Sr. Martin se sente mais desconfortável do que com Barruel. Para conter palavras desairosas, há o respeito por uma morte heroica que encerrou uma vida nobre; o respeito também por essa École des Chartes, cujo prestígio rivaliza com o da École Normale ou da Sorbonne. Contudo, o Sr. Martin não se priva de contestar, aqui e ali, as conclusões de Augustin Cochin.
Mas, na verdade, é um paradoxo pretender que o pequeno livro vermelho do Sr. Martin confirma os dois grandes volumes brancos de Augustin Cochin sobre as "Sociedades de pensamento"?
Em ambas as obras, encontramos a prova dessa ação secreta, metódica, pela qual os Maçons mais ativos espalharam, fora das Lojas, "essas fórmulas, nítidas, incisivas, decisivas", que continham a palavra de ordem das profundas mudanças a serem operadas na vida nacional.
Cada um à sua maneira, o Sr. Martin e Augustin Cochin demonstraram, assim como Barruel, que a Maçonaria francesa, sobretudo após 1770, foi a semente incansável, eficaz e oculta das ideias novas e explosivas de 89.
No fundo, o que separa o Sr. Gaston Martin de seus predecessores é um problema de valores, mais do que uma questão de fatos. As ideias libertárias e igualitárias são um germe de vida ou um veneno mortal? Germe de vida, diz o Sr. Martin; veneno mortal, dizem Barruel e Augustin Cochin.
Para justificar esse julgamento, Barruel tinha diante dos olhos a França em ruínas; Augustin Cochin, sem falar de outros fragmentos da história contemporânea, conhecia a detestável política de nossa Terceira República. E se a morte o tivesse poupado durante a guerra, os eventos ocorridos de 1918 a 1926 teriam certamente fortalecido o brilhante historiador na convicção de que ele havia julgado bem a maleficência dos princípios revolucionários. Mas, por si só, os acontecimentos do século XVIII revelam, a quem quiser ver, essa maleficência.
E faltou até o pretexto para essa insurreição infernal contra a velha monarquia. Quem, afinal, pôde seriamente pensar que Luís XV e Luís XVI foram tiranos insuportáveis?
Pela demonstração que faz, ele fornece provas para a famosa passagem na qual Condorcet vangloriou-se da hábil maleabilidade da propaganda maçônica; ele justifica Barruel. Pois Barruel (no cap. XIV do tomo II de suas Memórias) já descreveu a caixa eleitoral, o comitê regulador, os Escritórios de correspondência, os oradores em missão, a multiplicação dos periódicos e dos clubes; em suma, todo o jogo poderoso e fatal da máquina maçônica.
Por outro lado, o Sr. Gaston Martin, como Barruel, diz que a grande preparação da Revolução consistiu na interpenetração do filosofismo e da Maçonaria. Ora, não se pode negar, o filosofismo, sobretudo na época da Encyclopédie e do clube de Holbach, fez um esforço concertado para aniquilar a Igreja e desorganizar o Estado. Diante disso, por qual salto para trás o Sr. Martin e o Sr. Sagnac se recusam a ouvir falar de "complô maçônico"?
Pelo fato de ter havido, nas Lojas do século XVIII, nobres e padres, o Sr. Martin conclui pela insolubilidade de uma destruição do trono e do altar desejada pelas Lojas. O raciocínio não se sustenta. Antes do Sr. Martin, Barruel já havia notado o fato e apresentado a objeção. A esta, há apenas uma resposta verdadeira: incautos ignoraram, miseráveis aceitaram a ruína futura das coisas augustas, das quais sua casta ou sua vocação deveria tê-los constituído guardiões indefectíveis. Nem todos os "sofistas da impiedade" e todos os "sofistas da rebelião" tiveram a mesma perversidade de ideias ou a mesma fúria de destruir. Barruel o assinala expressamente, mesmo para o clube de Holbach. Assim era, entre os grandes Maçons de Paris. Mas todos, maçons e sofistas, desejavam mudanças profundas no antigo regime; e as exigiam, em nome do duplo princípio da soberania nacional e da igualdade dos homens.
Aconteceu que os desígnios mais moderados foram superados pelo ardor impetuoso dos mais violentos. Isso ainda acontece. O espetáculo está diante de nossos olhos. Esses violentos existiam na Maçonaria, assim como no filosofismo. Os moderados que aceitaram os violentos como colaboradores, por isso mesmo, aceitaram o risco de sua dominação.
O Sr. Martin diz, em algum lugar, que a Maçonaria daquela época era a favor da monarquia e da religião tradicionais. Onde está a prova? Barruel viu com seus próprios olhos o plano da Loja do Contrato Social, que convidava os Irmãos, após a Constituição Civil, a se unirem ao rei, contra os jacobinos, para deter ali o movimento revolucionário. O que o Grande Oriente respondeu ao apelo sugerido pelo Duque de la Rochefoucauld, assustado com o rumo dos acontecimentos? Ele também elaborou um plano, que testemunha uma séria vontade de barrar o caminho aos violentos? Se o Sr. Gaston Martin nos fornecer esse texto – do que duvido muito – poderemos conceder ao Grande Oriente as circunstâncias atenuantes. Mas nada mais. Será preciso taxar de hipocrisia sua moderação aparente. Pois, pelo simples relato da propaganda maçônica descrita no livro do Sr. Gaston Martin, permanece constante que o Grande Oriente montou a máquina infernal e preparou a pólvora que deveria fazer tudo explodir.
A verdade é que o poder real não era, em lugar nenhum da Europa, mais paterno do que na França. A verdade é que, se Luís XVI tivesse sido um líder, a Revolução teria sido morta no ovo, a despeito de todas as "Sociedades de pensamento".
O Sr. Gaston Martin alegra-se com a destruição selvagem e estúpida da antiga França; e ele parabeniza a Maçonaria por ter tido sua parte nessa empreitada de demolição. O Grande Oriente de hoje aceitou, com gratidão, os cumprimentos feitos ao Grande Oriente de outrora. Diz-se que o livro do Sr. Martin foi recompensado com um prêmio de 4.000 francos, fundado pelo Sr. Arthur Mille, ex-presidente do Grande Oriente de França?
O que pensarão os profanos de tal aprovação? Uma única coisa, creio, e é que os grandes Maçons de 1926, para alimentar seu ódio implacável contra os elementos ainda vigorosos da França de outrora, não encontram alimento melhor do que a lembrança das façanhas execráveis dos grandes Maçons de 1789.
P.R. Paul DUDON SJ - (Extrato das Études - pp. 173 a 182 - 20 de outubro de 1926)
PRECURSORES ESQUECIDOS
Nossa intenção é publicar, sob este título bastante geral, estudos e artigos referentes a um certo número de homens dos séculos XIX e XX que estudaram, como o padre Barbier, a penetração da Revolução no Cristianismo, perceberam rapidamente seu extremo perigo futuro e a denunciaram muito cedo.
O futuro, infelizmente, lhes deu razão, e sua obra foi coberta por um espesso véu de silêncio por seus inimigos triunfantes, e sua memória caiu no esquecimento. Nosso primeiro dever e, portanto, nosso primeiro passo são, primeiramente, recordar.
QUANDO UM NOVO CONVERTIDO DESCOBRE "LE SILLON"
Adolphe Retté, poeta da escola simbolista, veio de muito longe para a Igreja. Ele narrou seu percurso em um livro publicado em 1907, Do Diabo a Deus. Tendo partido da Anarquia e do paganismo, passado pelo socialismo e pela irreligião, uma vez chegado ao porto, aplicou-se a defender a Verdade finalmente encontrada e, ao mesmo tempo, a descrever as riquezas da vida espiritual – essa ação, ele a conduziu como um franco-atirador, fora das estruturas dos partidos e das instituições religiosas da época.
Ao lê-lo, descobrimos um escritor perspicaz que sabe expressar de forma muito viva, com uma inegável sinceridade, as paisagens da vida interior e que lança sobre a sociedade em que vive um olhar algo profético. Antes de 1930 (data de sua morte), ele discerniu a corrida para um mundo de Apocalipse – aquele cujo prólogo vivemos – do lamentável rebanho de seus contemporâneos.
A obra de Adolphe Retté está hoje praticamente esquecida. É uma pena. Acabo de reler alguns de seus livros: Sob a Estrela da Manhã, Quando o Espírito Sopra, Os Rubis do Cálice, No País dos Lírios Negros, Cartas a um Indiferente, A Casa em Ordem, Até o Fim do Mundo, O Viajante Espantado, Orações do Silêncio...(1)
Fiquei impressionado com sua atualidade. Claro, o contexto não é mais o mesmo, as situações se agravaram ainda mais, mas as exigências profundas que eles propõem permanecem mais imperiosas do que nunca.
O autor nos conta suas múltiplas experiências, as do mundo católico em particular. Ele realça almas de uma beleza excepcional, mas também estigmatiza as falhas de muitos cristãos, sua ingenuidade e sua falta de fé ou de julgamento. Contentar-me-ei hoje em relatar a experiência que ele teve com o Sillon, no tempo de sua grande voga.
Mal convertido, Retté foi procurado por um padre, entusiasmado com Marc Sangnier, para que aderisse ao movimento.
Entre os papéis que ele lhe entregou, havia um que o fez imediatamente "torcer o nariz" – era intitulado Um Novo Messias (simplesmente). Eis o texto:
"Natal! Na véspera da grande festa cristã, um novo messias veio à Savoia, anunciar à democracia o reinado da fraternidade humana e de todos os pontos do horizonte, pastores e magos guiados por uma estrela invisível acorreram para ouvir a boa nova. Esse jovem apóstolo (Marc Sangnier) exerce ao seu redor um poderoso atrativo; as audiências mais diversas acolhem sua palavra com uma atenção quase religiosa e as ovações triunfais que saúdam sua passagem recordam, em certa medida, as do povo de Israel aclamando Jesus em sua entrada em Jerusalém. Nada faltou ao messias da democracia para evocar entre nós a memória de seu divino mestre."
Essa disparatada fala me colocou desde então nos antípodas do agitador que não desautorizava tal aproximação onde o ridículo se aliava ao sacrilégio (2).
Foi em Lyon que Adolphe Retté pôde ouvir Marc Sangnier. Ele resumiu sua impressão assim:
"Minha impressão foi dupla. Primeiro, admirei, do ponto de vista da fonética, o extraordinário moinho de palavras que funcionava, sem tropeços, naquela goela incansável. Em seguida, percebi que esse mecanismo vocal não tinha nada a moer – literalmente nada.
Quero dizer que as sequências de frases que ele debitava por todo lado não continham substância alguma. Redundâncias empoladas, apóstrofes de um lirismo banal, períodos intermináveis de um sentimentalismo desbotado – Nenhuma ideia prática, nem um raciocínio encadeado.
O Sr. Sangnier tratava de política, ciência que, mais do que todas, exige conhecimentos precisos a serviço de uma inteligência pragmática.
Aqui, nem mesmo o menor indício dessas qualidades. Tinha-se a sensação de estar imerso em um banho de água morna e turva onde ondulavam, com demasiada maleabilidade, enguias suspeitas..." (3).
E Retté concluía:
"É preciso desejar que um dia ou outro o Sr. Sangnier, exclamando com Baudelaire 'meus braços se romperam por terem abraçado nuvens', adquira o senso do Real. É preciso esperá-lo, mas sem contar muito com isso."
Nosso convertido quis em seguida sustentar suas impressões pessoais por uma estudo aprofundado do Sillon. O documento de base é a Carta de Pio X de 25 de agosto de 1910 que situa, na linha dos Filósofos do século XVIII, as teorias do Sillon "que, sob suas aparências brilhantes e generosas, carecem frequentemente de clareza, de lógica e de verdade". Vêm em seguida as Erros do Sillon do padre Emmanuel Barbier e O Dilema de Marc Sangnier de Charles Maurras.
"O primeiro desses livros refutava o Sillon com perfeita moderação de termos e grande força de argumentação nos pontos de vista teológico e social... O segundo, também contido na forma, o criticava sob os pontos de vista da filosofia e da tradição. Não é exagero dizer que é uma obra-prima de dialética e de razão lúcida. Ambos os volumes me ajudaram grandemente a formar a convicção de que essa aventura anarco-religiosa não apresentava nada de sério. E quando interroguei alguns sillonistas e me foi comunicado que 'para ser do Sillon, era preciso primeiro crer em sua missão providencial', fiquei definitivamente convencido." (4)
Adolphe Retté escapara da Democracia após tê-la conhecido e servido nas formas anarquista, socialista, radical. Nunca sentiu a necessidade de conhecê-la em sua forma católica. Foi preciso, no entanto, que ele ainda frequentasse o mundo dos "liberais". Dessa incursão, ele trouxe consigo um feixe de observações picantes e tão instrutivas! Um próximo artigo será dedicado a essa nova experiência.
F.M. d'A.
(1) – A maioria das obras de Adolphe Retté encontra-se, quando não estão esgotadas, nas Éditions Messein, 79, quai St Michel Paris 5e. (2) – A Casa em Ordem, p.222
(3) – Id., p. 224
(4) – Id., p. 223
O PADRE BARBIER FACE ÀS ARTIMANHAS DO CATOLICISMO LIBERAL
O primeiro número publicado pelo nosso centro de estudos, ao citar um artigo de Roger Duguet, pôde dar uma ideia do que foi o padre Barbier. Pouco sabemos sobre sua personalidade e sua vida.
Podemos apenas complementar a nomenclatura de suas obras; com efeito, à curta enumeração da página cinco convém acrescentar: As Origens do Cristianismo (dois volumes), Meu Crime (alocuções de colégios 1896-1901), A Disciplina nas Escolas Livres, As Narrativas do Evangelho, As Infiltrações Maçônicas na Igreja, e O Dever Político dos Católicos.
Mas é de sua "História do Catolicismo Liberal e do Catolicismo Social na França do Concílio do Vaticano à Ascensão de Bento XV (1870-1914)" que nos propomos extrair algumas ideias.
Esta obra contém cinco volumes de aproximadamente quinhentas páginas cada, tratando-se, portanto, de uma produção considerável; não se trata de resumir este trabalho, repleto de citações e abrangendo quarenta anos da história da Igreja na França. Queremos apenas destacar o que nos pareceu mais marcante sobre os métodos de penetração da subversão.
Citaremos quatro exemplos, não tanto para provar que essa subversão já estava em andamento no final do século passado, quanto para mostrar a tática empregada.
1º Exemplo. Em 1º de novembro de 1885, Leão XIII publicava a Encíclica Immortale Dei sobre a constituição cristã dos Estados; nela pode-se ler, nomeadamente:
"As sociedades políticas não podem, sem crime, comportar-se como se Deus não existisse de modo algum... Ao honrar a Divindade, devem seguir estritamente as regras e o modo segundo o qual o próprio Deus declarou querer ser honrado. Os chefes de Estado devem, portanto, colocar entre seus principais deveres o de favorecer a religião, protegê-la com sua benevolência, cobri-la com a autoridade tutelar das leis."
Esta é uma tomada de posição das mais claras, que não tem nada de compatível com o liberalismo; aliás, Leão XIII citava Mirari Vos de Gregório XVI e alguns artigos do Syllabus de Pio IX. A tese liberal, ao contrário, proclama a indiferença absoluta do Estado em matéria religiosa; segundo ela, a Igreja só pode reivindicar dos poderes públicos o direito comum.
Qual foi, então, a reação dos católicos liberais diante dessa encíclica Immortale Dei, que proclamava que a Igreja, incumbida de ensinar a verdade revelada, deve gozar na sociedade de um estatuto privilegiado? Poder-se-ia esperar reclamações ou, no mínimo, uma atitude de consternação: pois bem, nada disso, o que foi posto em evidência foi o efeito apaziguador do texto do Santo Padre.
Em um congresso dos católicos da Normandia, realizado em Rouen, em 2 de dezembro de 1885, o arcebispo daquela cidade, falando da encíclica, dizia:
"Nenhum católico jamais teve a audácia de insurgir-se contra os princípios que Leão XIII acaba de expor após Gregório XVI e Pio IX. Quem jamais ensinou a indiferença em matéria religiosa? Quem jamais reivindicou, como um direito, uma liberdade ilimitada e absoluta?"
Em apoio a essas afirmações, Dom Thomas citava páginas de Lacordaire e de Dom Dupanloup sobre a liberdade política, sobre a igualdade cívica e sobre a liberdade de consciência, e tentava provar que o que eles haviam dito e feito estava ratificado por Leão XIII:
"São todas essas declarações, todos esses sentimentos, todos esses conselhos que encontramos cobertos pela majestade do supremo pontificado na encíclica Immortale Dei."
Uma vintena de prelados felicitou Dom Thomas. Somente Dom Freppel, bispo de Angers, o repreendeu por "ter forçado a linguagem do Santo Padre a ponto de alterar-lhe o sentido". No início de janeiro de 1886, Dom Freppel recebeu de Roma, por intermédio da Nunciatura, uma monitória que o repreendia por ter criticado publicamente um de seus colegas superior a ele na hierarquia.
O padre Barbier observa com justa razão que, se Dom Dupanloup foi isento de liberalismo, dever-se-ia necessariamente dizer o mesmo de Montalembert, do duque de Broglie, do Sr. de Falloux e dos outros amigos com os quais o bispo de Orléans se encontrava em conformidade de opiniões e ações. Não haveria, portanto, católicos liberais, e Pio IX ter-se-ia voltado contra fantasmas.
2º Exemplo. A doutrina dita "americanismo" foi assim chamada por ter sido difundida por americanos: o padre Hecker, Dom O'Connell, Dom Keane, Dom Ireland. O padre Hecker dizia que era preciso preparar o mundo, pelo exemplo e pela influência moral, para o reinado universal da liberdade humana e dos direitos do homem. Três traços distinguem e caracterizam esse catolicismo americano: ele quer ser moderno, democrático e individualista; o acordo entre a cultura científica e a fé religiosa é a primeira condição para uma Igreja ser moderna e agir sobre a sociedade contemporânea, caminhando e simpatizando com ela.
Esse nome de americanismo não significa mais nada hoje; nem sequer se ouve mais pronunciá-lo. É que se trata de uma doutrina que não é mais específica da América, mas que, sob outro nome, se estende agora ao mundo inteiro e está em plena vigência: é mesmo ela que inspira toda a subversão atual, e o catolicismo oficial está totalmente impregnado dela.
O padre Barbier já dizia:
"As máximas e o espírito do americanismo permaneceram erros religiosos e sociais... Religião de indiferença dogmática, o americanismo favoreceu uma anarquia doutrinal que foi se agravando durante vários anos; religião de liberdade individual, religião da evolução em todas as esferas, ele está no fundo de todas as variedades do modernismo e nutre seu veneno nas mentes; religião de vida interior à moda protestante, ele inspira o desdém pelas devoções honradas na Igreja; religião dos tempos novos e da democracia, religião de bem-estar, ele se torna a dos padres democratas e dos novos apóstolos leigos que trazem ao povo um evangelho terrestre. A continuação desta história oferece com demasiada facilidade a oportunidade de constatar quão profundas e vivazes são as raízes lançadas por esses erros no solo da França Católica."
Leão XIII condenou o americanismo por um julgamento em forma solene em sua carta ao Cardeal Gibbons, datada de 22 de janeiro de 1899; o Papa assinala primeiro o fundamento de todos os erros dessa doutrina, a adaptação da Igreja ao século:
"Eles sustentam, de fato, que é oportuno, para conquistar o coração dos extraviados, silenciar certos pontos de doutrina, ou atenuá-los a ponto de não lhes deixar mais o sentido ao qual a Igreja sempre se manteve. Que se evite subtrair qualquer coisa da doutrina recebida de Deus, por qualquer motivo que seja, pois aquele que o fizesse tenderia mais a separar os católicos da Igreja do que a trazer de volta à Igreja aqueles que estão separados."
Leão XIII critica também uma consequência dessas doutrinas que ele acaba de condenar, aquela que consiste em pretender que as virtudes naturais são mais apropriadas ao tempo presente do que as virtudes sobrenaturais:
"Em que a natureza, ajudada pela graça, seria mais fraca do que se fosse deixada às suas próprias forças?"
Daí decorre ainda a distinção falsamente posta entre as virtudes passivas e ativas, e a importância especial dada a estas:
"Não há virtudes cristãs mais apropriadas do que outras a certas épocas; Cristo não muda com os séculos, mas é o mesmo hoje que foi ontem e que será por todos os séculos."
Como esse documento pontifical seria acolhido? Dom Ireland apressou-se em endereçar ao Santo Padre uma carta de calorosa adesão, esquecendo que ele próprio havia saudado no padre Hecker, fundador do americanismo, "a joia do clero americano", "o tipo que deveríamos ver se reproduzir o máximo possível entre nós", e exclamava:
"Não podemos deixar de nos indignar que tal injúria fosse feita à nossa nação ao designar com a palavra americanismo erros e extravagâncias desse tipo."
Na França, a "Vie catholique" de Dabry, a "Justice sociale" de Naudet, a "Quinzaine", publicações que professavam, contudo, doutrinas análogas, não se sentem concernidas pela sentença. Naudet escreve em 11 de março de 1900:
"Leão XIII abstém-se de atribuir a nossos irmãos de além-oceano o conjunto que lhes é geralmente atribuído pela imaginação fecunda daqueles que pegam sua palavra de ordem nos escritórios da La Vérité."
La Vérité era, nessa época, o jornal que combatia o Liberalismo.
Na "Vie catholique" de 21 de março de 1899, Dabry não fala de outra forma:
"não há e não podia haver questão de submissão, já que neste assunto há apenas um venenoso processo de tendência."
Na "Quinzaine" de 1º de abril de 1899, podia-se ler:
"Após a carta soberana endereçada por Sua Santidade Leão XIII ao Cardeal Gibbons sobre o Americanismo, os católicos simplesmente dóceis aos ensinamentos da Santa Sé simplesmente registraram a decisão de Roma. Não tinham que se submeter, pois nunca haviam contestado um iota dos pontos de doutrina recordados pelo Santo Padre, e a Quinzaine, em particular, que já há vários meses havia publicado sobre a questão considerações cujos equivalentes se encontram na carta pontifícia."
Indignado por este artigo, Dom Turinaz, bispo de Nancy, condenou-o, e foi aprovado por Dom Isoard, bispo de Annecy.
3º Exemplo. Um congresso de padres reuniu-se em Bourges, sob a direção de Dom Servonnet, arcebispo dessa cidade, em 10 de setembro de 1900.
O padre Lemire, deputado do Norte, falando dos trabalhos desse congresso, onde teve um papel importante, declarou:
"Sinto uma aspiração geral do clero francês a se aproximar da sociedade moderna, a conformar sua linguagem, sua ação e seu próprio comportamento em meio aos costumes democráticos, às ideias modernas. Recebemos comunicações muito numerosas, e muitas delas notáveis, atestando uma inteligência que não se suspeita ou que foi desconhecida em nosso pequeno clero. Quase todos expõem um mesmo desejo: o de se libertar dos estudos puramente dogmáticos e dos ensinamentos tradicionais, de estudar livremente e com profundidade as doutrinas modernas, as obras essenciais que fundamentam o pensamento moderno e a ciência atual."
O padre Birot, vigário geral honorário de Albi, proferiu no congresso um discurso sobre o amor ao seu país e ao seu tempo, do qual a Semaine Religieuse de Bourges não hesitava em dizer que expressava o pensamento dominante dos participantes. L'Univers de 15 de setembro dizia, pela pena de seu correspondente:
"Este admirável discurso, verdadeira obra-prima, não exageramos, de conteúdo e forma, produziu a mais profunda impressão."
Dom Rumeau, bispo de Angers, deu uma apreciação muito elogiosa do Sr. Birot:
"Vocês ouviram um belíssimo discurso, que aplaudiram e que não serei temerário em chamar de magistral."
O que, então, dissera o padre Birot?
"A causa do mal-estar atual é que, embora amemos muito o nosso país, temos menos simpatia pelo nosso tempo. Senhores, não amamos o suficiente o nosso século, não compreendemos nem seus jovens entusiasmos, nem suas temeridades, não tivemos nem indulgência suficiente para suas faltas nem consideração suficiente para suas grandezas. Ele teve piedades infinitas, chorou sobre todos os infortúnios, revoltou-se contra todas as injustiças... Jamais o homem foi mais poderoso, ousarão nos acrescentar que jamais ele foi melhor. Ousaremos, senhores, para a glória de nosso Salvador e apesar do escândalo de alguns pusilânimes. Abrangemos com um olhar de conjunto toda a história e afirmamos que o coração da humanidade nunca parou de se engrandecer.
Enfim, senhores, é preciso amar as coisas do seu tempo, e por isso entendo as instituições e as obras. Não rememos contra a corrente, seria remar contra o próprio Deus, atrasaríamos a marcha do navio, chegaríamos atrasados, molhados e lamentáveis."
O Padre Belleville pediu explicações ao congresso sobre algumas das doutrinas emitidas; ele não teve a palavra, o presidente descartou a discussão que julgou inútil.
O padre Lemire, em conclusão, felicitou-se por o congresso ter-se mantido tranquilo e pacífico, sem que o governo ou a administração tivessem imposto qualquer entrave, e achou por bem atribuir a honra disso às instituições de seu país.
A isso, o jornal "La Vérité" replicou que, se o governo havia tolerado o congresso de Bourges, é porque o havia achado inofensivo de seu ponto de vista.
Os membros desse congresso tinham consciência de que sua admiração pelas obras dos homens de seu século, que desejavam organizar o universo ignorando Deus, seu temor profundo de que a nova torre de Babel se edificasse sem eles, não estavam na linha do catolicismo autêntico? Este último recomenda buscar antes de tudo o reino de Deus e sua justiça.
Não podemos responder à pergunta que acaba de ser feita, pois a única base que possuímos são as palavras do arcebispo Dom Servonnet:
"Os trabalhos do congresso destinam-se unicamente a buscar os meios de aplicar à vida prática as instruções de Sua Santidade. O congresso é obrigado, para permanecer útil, a não ultrapassar, por uma palavra, uma linha, um pensamento, a ordem do chefe. Somos os membros mais devotados do clero."
Em 18 de setembro de 1900, Dom Isoard, bispo de Annecy, proferiu em sua diocese uma alocução onde fez a crítica precisa das doutrinas professadas no congresso. Dom Servonnet, arcebispo de Bourges, e Dom Fulbert-Petit, arcebispo de Besançon, levaram a alocução de seu colega ao julgamento de Roma; em 15 de janeiro de 1901, a Sagrada Congregação dos Bispos e dos Regulares declarou que lhe faltavam elementos para se pronunciar sobre os fatos. No entanto, Dom Isoard foi-lhe solicitado que apresentasse suas desculpas aos seus colegas que podiam considerar-se pessoalmente ofendidos pelo ataque do bispo de Annecy.
4º Exemplo. O padre Barbier combateu o Sillon em quatro obras: As Ideias do Sillon, Os Erros do Sillon, A Decadência do Sillon, O Sillon. Qual foi a resposta a isso?
O padre Desgranges escreveu um opúsculo, "As Verdadeiras Ideias do Sillon", destinado a responder ao padre Barbier. Ele sustenta que o Sillon não era liberal, o que é capaz de surpreender qualquer pessoa minimamente informada. O padre Desgranges chega a escrever:
"Cem vezes Marc Sangnier, mais corajoso que certos conservadores que jogam o Syllabus pela borda, fez aclamar em reunião pública esta doutrina que é precisamente o contrário do liberalismo."
Aliás, o próprio Marc Sangnier não escreveu que:
"mesmo aos olhos dos não-crentes, o Syllabus deve parecer um documento de grande bom senso."
Em resumo.
Desses quatro exemplos, resulta que o catolicismo liberal e revolucionário, embora em contradição formal com o magistério romano, nunca reconhece a existência de sequer uma sombra de desacordo com ele.
1º) - Se Roma fala e expõe uma doutrina contrária à deles, eles alegam que as afirmações e condenações provenientes da Santa Sé não os concernem. Foi o caso do Syllabus, da Immortale Dei, do Americanismo. Cada vez dizem que não são visados.
2º) - Se eles expõem uma opinião em contradição formal com o ensinamento doutrinal da Igreja, como foi o caso do congresso de Bourges, os católicos liberais alegam nunca se terem afastado do ponto de vista do magistério romano.
3º) - Se bispos, padres ou jornais, como Dom Freppel, Dom Isoard, o padre Barbier, ou o jornal "La Vérité", acham que devem se insurgir contra doutrinas subversivas, os católicos liberais os fazem passar por mal-intencionados e sectários que buscam queixas imaginárias.
4º) - Essa manobra geralmente tem sucesso. Não se pode deixar de ficar consternado ao ver como Dom Freppel, em um caso, e Dom Isoard, em outro, foram repreendidos pelos organismos oficiais da Santa Sé... em 1900! Em ambos os casos, foi por falta de respeito para com os superiores hierárquicos. O respeito pelas pessoas de alta dignidade está acima do respeito pela doutrina católica autêntica?
G.L.
A INFILTRAÇÃO MAÇÔNICA NA SOCIEDADE CRISTÃ
O problema que primeiramente se apresentou aos revolucionários para destruir a Sociedade cristã foi este:
"Como se infiltrar nesta sociedade e, pouco a pouco, destruir as suas estruturas políticas e sociais, e depois as suas convicções religiosas?"
Era preciso, portanto, primeiramente seduzir a opinião católica, fazendo-a absorver princípios destruidores apresentados como ideias nutritivas. Em seguida, era necessário afastar a desconfiança ou a hostilidade das autoridades políticas e religiosas (reis e papa), o que explica a política de sigilo e o respeito, ao menos aparente, pelas convicções cristãs. Era preciso substituir pacientemente, sem nunca o admitir, o pensamento cristão por um pensamento distorcido através de falsificações sucessivas, progressivas, mas imperceptíveis. Era preciso obter uma tolerância oficial para as lojas, organizando um recrutamento inicial falho, porque impregnado de mentalidade cristã, mas já apto a receber alguns germes novos.
Assim, a Constituição maçônica de Anderson afirma os princípios que quer destruir, mas já prepara as deformações. Ela proclama a existência de Deus e o respeito pela religião, mas declara-se filosófica e progressista. Afirma que o seu objetivo é "a busca da verdade e a liberdade de consciência"; uma contradição enorme: como buscar a verdade, se se devem respeitar todas as religiões? Como manter a liberdade de consciência, se se deve professar a existência de Deus? Começa-se a preparar as sucessivas ondas de assalto contra a Igreja Católica. A tolerância não pode ser combinada com o respeito por todas as religiões, visto que algumas são intolerantes. A busca da verdade pressupõe a supressão de todos os dogmas religiosos, pois são imutáveis e já constituem uma verdade adquirida. Os Papas condenam a Maçonaria? Com isso, manifestam a sua intolerância e a sua atitude provocadora.
A Maçonaria preparou também a cegueira dos poderes políticos. Precisava de criar uma fachada agradável e mundana para desviar toda a desconfiança e obter autorização para existir, condição absolutamente necessária para agir eficazmente sobre uma população profundamente cristã, cuja alma fora impregnada pela educação religiosa durante séculos.
A Maçonaria é uma Sociedade de Educação Revolucionária.
Não era possível para os dirigentes dar ordens diretamente e exigir obediência sem se revelarem e se tornarem vulneráveis. Era preciso, portanto, proceder de outra forma.
Dentre a massa de membros das lojas, era preciso fazer uma seleção: os homens honestos e pacíficos vão se autoeliminando aos poucos, seja por aversão aos ritos bizarros ou estúpidos, seja por indiferença: a porta de saída está escancarada. Bastava escutar um ensinamento mais inquietante para provocar a saída dos iniciados que permaneciam relativamente honestos: esta é uma primeira forma de depuração, quando a Maçonaria prepara uma ação mais fortemente revolucionária. As saídas são compensadas por novos recrutas. Restam os ambiciosos, os descontentes; basta reforçar um ensinamento mais "filosófico, progressista e iluminado".
Resta-lhes a velha crença de que trabalham em prol do progresso da humanidade, que são os campeões de uma nova ordem, finalmente libertos das velhas virtudes rotineiras.
Os dirigentes maçônicos utilizam dois métodos notáveis para obter essa educação revolucionária:
a) A dupla hierarquia: uma hierarquia administrativa oficial que mantém um aparelho institucional relativamente antigo, e uma hierarquia secreta: a dos altos graus, na qual os iniciados não são eleitos pela base, mas cooptados pelos graus superiores. Os cargos administrativos eleitos são renovados anual e democraticamente: são a própria imagem dos nossos governos modernos. Os altos graus são obtidos por uma seleção rigorosa dos mais convictos e são conferidos vitaliciamente.
b) Os "círculos internos", onde se pratica a dinâmica de grupo. Em cada oficina, há um pequeno número de membros, cerca de vinte; há uma circulação livre e frequente dos altos graus durante as sessões das oficinas, que decorrem sempre segundo um rito de caráter religioso para impor, mesmo aos céticos, um certo temor respeitoso. Ora, antes da sessão de uma oficina, os altos graus reuniram-se entre si; definiram a direção dos debates, as ideias dominantes a serem introduzidas nas mentes e a serem adotadas. Encontram-se dois ou três deles no meio da massa de irmãos não iniciados; não têm ordens ou instruções para dar. Sugerem, propõem as fórmulas e as decisões. Os outros irmãos, não iniciados nos graus superiores, acreditam ter chegado espontaneamente às decisões que tomam. É a "dinâmica de grupo".
Eis as ideias essenciais que permanecerão nas mentes dos simples irmãos: a Maçonaria é sagrada, a sua origem perde-se na noite dos tempos. O seu simbolismo é obscuro, equívoco, mas a lenda de Hiram permite inverter o sentido da Bíblia: Caim, odiosamente caluniado, vítima do ciúme de Abel, ancestral de todos os grandes inventores da história, pai da "Civilização, do Progresso e das Luzes".
A tolerância é a grande virtude do irmão iniciado: chegou-se a suprimir o G.A.D.U. (Grande Arquiteto do Universo) para não ferir a consciência daqueles que não acreditam na existência de Deus. Entre todas as opiniões que se confrontam, o irmão pode defender umas, mas deve aceitar a vizinhança das outras e respeitá-las.
Esta tolerância é pregada com fanatismo; irmãos moderados são denunciados pela sua brandura perante a intolerância, pela sua falta de ardor em pregar a Tolerância. Assim, os homens mais dóceis tornar-se-ão pouco a pouco fanáticos; esta ideia de Tolerância deve ser uma arma incessantemente voltada contra a Igreja intolerante. Respeita-se o cristão "sincero", o cristão "esclarecido", mas fustiga-se o cristão fechado em seu dogma, incapaz de abrir o seu espírito às "luzes" da nova sociedade, "o integrista", em suma. Portanto, o inimigo a ser abatido. E eis que o irmão está pronto para passar à ação. A sua educação revolucionária está praticamente concluída.
A Maçonaria é uma Escola de Preparação para a Ação.
Após cinquenta anos dessa educação, é preciso passar à ação. Com efeito, ao longo de uma primeira geração de iniciados, uma notável seleção pôde ser operada. Na geração seguinte, a maioria dos iniciados está finalmente preparada o suficiente para o "Ódio" à civilização cristã e à Fé católica, para que se possa esperar uma revolução com alguma chance de sucesso e sem demasiados tumultos, levantes ou oposições dentro da Sociedade maçônica.
Chega o dia D, o da Revolução. Os homens estão prontos. A Maçonaria terminou a sua obra educativa. Entra "em adormecimento". Escapa assim às consequências do Fracasso, se houver. Os irmãos constituem Sociedades de ação revolucionária: os Jacobinos, os Teofilantropistas, a Carbonária, a Liga do Ensino, a Hetéria grega, os Fenianos irlandeses, os "Jovens Turcos". Restam circulares confidenciais, "influências individuais cuidadosamente veladas" para lembrar aos irmãos hesitantes o que se espera deles.
No momento da passagem para a ação revolucionária, uma multidão de irmãos abre os olhos: os princípios inculcados levam, afinal, a isto, que não se queria. Segue-se a fuga dos irmãos desiludidos. Ficarão apenas os violentos, os ambiciosos. A última depuração está concluída. A Revolução estará nas mãos dos "puros", dos espíritos completamente iluminados. Enfim, "a Infame" vai ser abatida.
A Maçonaria é uma "Contra-Igreja" camuflada.
Existe nos Altos Graus o de Rosa-Cruz, o 18º. O iniciado que finalmente passou por este grau está necessariamente prisioneiro do seu ódio contra a Igreja Católica.
Como provocar esse ódio antirreligioso? Fazendo o iniciado praticar gestos e pronunciar palavras diante de testemunhas que possam revoltar qualquer homem honesto e de boa-fé. Nesse momento, o iniciado é prisioneiro do que acabou de fazer; ele é "controlado" pelos outros iniciados, testemunhas definitivas da profanação. O ritual de iniciação ao Grau de Rosa-Cruz é uma odiosa profanação da Santa Missa. Inclui um sinal de ordem chamado do "Bom Pastor", uma senha "Emmanuel" à qual se responde "Pax Vobis". Depois, desenrola-se a "Ceia" rosacruz: pão e vinho sobre a mesa.
O Mestre de Cerimônias declara: "que este pão nos mantenha em força e em saúde", e depois "que este vinho, símbolo da Inteligência, eleve o nosso espírito". Em seguida: "Tomai e comei, dai de comer a quem tem fome". "Tomai e bebei, dai de beber a quem tem sede". Por fim: "Tudo está consumado. Retiremo-nos em paz..."
O texto maçônico diz:
"O Cavaleiro Rosa-Cruz é um apóstolo. O seu apostolado ordena-lhe que coloque o Amor pela Humanidade, levado ao extremo sacrifício, no frontispício da Obra que ele persegue... Um histórico, mesmo que breve, da Cruz, cuja origem se perde na noite dos tempos... O ponto crucial assim determinado (pela Cruz) é o eixo da Roda Universal das Coisas, gerada pela Revolução da Cruz, autora do ponto de interseção dos seus ramos, imagem da Evolução do Grande Fim... Lugar de encontro das forças extremas ou opostas; este ponto crucial é também o Mediador, e é bastante curioso notar que o nome egípcio desse Mediador é 'Kryst', que significa 'O Possuidor do Segredo... etc...".
Após uma tal iniciação e uma tal profanação da Santa Missa, pode-se imaginar o estado de espírito de um bispo maçom celebrando o ofício religioso. Poderia ser, por exemplo, o Ir∴ Talleyrand, para não citar alguns bispos ou cardeais mais recentes...
Enfim, para terminar esta apresentação sucinta da Maçonaria, julgamos muito útil publicar um documento antigo, que escapou à atenção dos editores da "Diffusion de la Pensée Française" quando reeditaram as "Mémoires pour servir à l'Histoire du Jacobinisme" do Abade Barruel.
E.C.
O PROBLEMA ARDENTE DA TRADIÇÃO
QUE TRADIÇÃO OS CATÓLICOS "TRADICIONALISTAS" DEFENDEM?
A palavra TRADIÇÃO é empregada, por uns e por outros, em sentidos diferentes, de modo que se tornou totalmente polivalente, designando indiferentemente o a favor e o contra, o melhor e o pior. O público contemporâneo não parece ter tomado consciência dessa imprecisão de vocabulário que contribui para manter a confusão de ideias sobre um capítulo particularmente importante.
Os católicos que permaneceram fiéis, aqueles que precisamente se chamam tradicionalistas, são gravemente prejudicados pela obscuridade de um termo tão crucial na exposição da doutrina sã, pois ela remove a clareza de certas definições básicas, por exemplo, desta: "A Igreja é guardiã da Escritura e da Tradição, que são as duas fontes principais da Revelação". É certo que, se se dá uma definição confusa da Tradição, se faz da Igreja a guardiã de uma Revelação ela própria confusa.
Estamos em condições de provar que uma verdadeira campanha de intoxicação é empreendida, em um nível muito alto, pelos inimigos da Igreja, para finalmente acreditar uma falsa tradição no lugar da verdadeira. Pensamos que seria do interesse dos católicos fiéis precisar, mais uma vez, em meio à confusão que se adensa, de qual Tradição eles são os herdeiros e defensores. É a esse trabalho de clarificação que gostaríamos de contribuir com a presente nota.
Nosso raciocínio será evidentemente moldado pela fé. Em outras palavras, adotamos "a priori" o ponto de vista ditado pela fé. E constataremos "a posteriori" que nossa reflexão foi guiada e que nosso tema foi iluminado. O crente e o não-crente observam a mesma paisagem, mas o não-crente a examina penosamente, como à luz infravermelha, enquanto o crente a contempla iluminada pela plena luz do sol. É pela fé que obtemos a compreensão, segundo a fórmula de Santo Anselmo: "Crede ut intelligas" (creia para que compreenda). Nosso método de raciocínio escandalizará os racionalistas que não querem aceitar nenhuma verdade a priori, especialmente aquelas que vêm do céu, e que confiam apenas em sua experiência; assim, acabam privando o mundo de seu governo providencial e o submetendo a uma série de experiências indefinidamente continuadas.
Depois de eliminar o sentido etimológico que nada significa, lembraremos qual sentido os teólogos dão à palavra TRADIÇÃO no Antigo e, depois, no Novo Testamento. Veremos, ao longo do caminho, que se criou uma pseudotradição, tão antiga quanto a verdadeira, mas cujo conteúdo é composto; é essa que hoje está se tornando invasiva novamente.
A TRADIÇÃO NO SENTIDO ETIMOLÓGICO
Vamos fazer uma primeira constatação. O sentido em que a palavra "tradição" é comumente empregada, tanto por literatos quanto por jornalistas, coincide com o sentido etimológico. Esta palavra é formada por "trans" (através) e "dare" (dar). Ela significa, literalmente, "aquilo que é dado por transferência". Assim, a única ideia que está realmente incluída nos radicais constitutivos é a de tradução, de entrega, de transmissão, de passagem, de transporte, de legado. O sentido etimológico não faz nenhuma alusão à natureza do que é transmitido. Em suma, ele designa um veículo cujo carregamento é desconhecido. Ele se contenta em definir um certo modo de aquisição de conhecimentos sem dizer em que consistem. Indica apenas como eles são recebidos.
E qual é o modo de recepção? É a herança. A tradição, no sentido etimológico, é o "legado do passado". É o conjunto do patrimônio intelectual que provém das gerações anteriores e que culmina na geração do momento. Nesse legado do passado, obviamente encontraremos tudo o que o homem é capaz de legar, ou seja, tudo o que ele tem em si: o bom e o ruim, o verdadeiro e o falso, a história e a lenda. A tradição, no sentido literal que estamos examinando agora, não faz nenhuma escolha nesse legado necessariamente global e heterogêneo. Ela não vai impedir o ruim, o falso e a lenda de passarem para deixar apenas o bom, o verdadeiro e a história. Ela vai transmitir tudo sem distinção.
Ora, é precisamente com essa mesma ausência de discriminação que a palavra é empregada no sentido corrente. Usaremos a palavra "tradição" (seja no singular ou no plural) sempre que quisermos designar um dos elementos desse legado universal da humanidade passada: falaremos das tradições vestimentares da Bretanha, das tradições culinárias do Périgord, das tradições militares de Saint-Cyr, das tradições pagãs da África negra, das tradições marítimas dos escandinavos, das tradições religiosas da Índia. Diremos que, para viver com sabedoria, é preciso permanecer fiel à tradição, ou seja, à "lição do passado", ao costume, aos hábitos ancestrais. Tudo o que tem um precedente no passado pode ser dito tradicional.
É, portanto, no sentido etimológico que a palavra é comumente empregada para designar os conhecimentos herdados, antigos, aqueles que se distinguem das inovações, das descobertas, das invenções do presente e, em última análise, se opõem a elas.
Ora, acontece que um grande número de pessoas, cultas ou não, nutrem instintivamente uma opinião favorável em relação aos vestígios do passado, onde se condensa toda a experiência acumulada nos tempos antigos. É uma opinião da qual mesmo os mais racionalistas não podem se defender. Há sempre um recanto do pensamento onde mantêm em reserva a boia de salvamento tradicional.
Quando, então, se designa um conceito qualquer, ou todo um sistema, como proveniente da tradição, desencadeia-se um preconceito favorável em todos aqueles que temem as inovações, as novidades, as invenções, as aventuras e que veneram vagamente, mas de forma irresistível, a sabedoria antiga. De sorte que a tradição, no sentido corrente do termo, apresenta uma dupla particularidade: um conteúdo nocional absolutamente qualquer e indiferente, tão rico em coisas ruins quanto em boas, mas, ao mesmo tempo, uma presunção favorável de experiência acumulada, de ponderação, de sabedoria, de prudência.
O professor de literatura dirá, por exemplo: "O romantismo rompeu com a tradição clássica". Depois, algumas páginas mais adiante, ele acrescentará: "O drama de Hernani (eminentemente romântico, no entanto) pertence, 'por tradição', ao repertório da Comédie Française". O classicismo e o romantismo serão assim englobados ambos na tradição, após terem sido declarados adversários.
Outro conferencista, depois de falar sobre a tradição monarquista dos Vendeanos, nos lembrará, alguns instantes mais tarde, da tradição revolucionária da periferia parisiense, empregando o mesmo termo para designar orientações opostas, mas que têm em comum terem sido herdadas. E é preciso reconhecer que ele terá algumas razões para se expressar assim, pois, uma vez que é transmitida pelas gerações anteriores, a revolução torna-se, de fato, tradicional, no sentido etimológico. E, ao se tornar tradicional, ela reveste-se de uma presunção favorável, torna-se mais sábia, deixa de ser uma inovação e uma aventura para se tornar um legado e uma lição do passado.
Entende-se que tantos escritores, de todas as orientações, invoquem, em favor de seu sistema, a pertença à tradição no sentido amplo, cujo conteúdo nocional não é um incômodo para ninguém, pois é absolutamente qualquer e indiferente. No sentido corrente, o bem e o mal são igualmente tradicionais. Mas ambos são, um e outro, aureolados de antiguidade por essa palavra vaga de tradição.
REVELAÇÃO, ESCRITA E TRADIÇÃO
Na terminologia eclesiástica, o termo TRADIÇÃO não se aplica mais a todo o legado do passado sem distinção de conteúdo. Ele é reservado exclusivamente à parte da Revelação divina que não foi consignada por escrito e que foi transmitida oralmente. Toda Revelação, de fato, pode deixar duas formas de registro: uma escrita, que se soma àquelas que já foram consignadas e que formarão, com elas, as ESCRITURAS SAGRADAS; e também uma forma oral, que se soma à TRADIÇÃO, pois procuraremos e recolheremos os menores vestígios das preciosas palavras divinas.
A Revelação divina se manifestou em três grandes fases. Primeiro, houve uma Revelação primordial recebida pelos Patriarcas, mas que não gerou nenhuma Escritura; depois, uma segunda Revelação que deu origem ao Antigo Testamento; e, finalmente, uma terceira, a do Messias, que gerou o Novo Testamento, com o qual a Revelação Pública se encerrou.
Cada fase viu surgir uma forma particular de Tradição que transmitiu a parte não escrita da Revelação e que a Igreja, em sua forma atual, se esforçou para preservar. De fato, todos os historiadores da Religião concordam em afirmar que a Igreja, embora sob diferentes formas, remonta aos primórdios da humanidade e, portanto, aos tempos das primeiras Revelações.
Uma vez que queremos definir a Tradição, devemos compreender sua cadeia desde o início e questionar em quais condições ela pôde ou não chegar até nós.
A TRADIÇÃO PRIMORDIAL E SUA CORRUPÇÃO
As Revelações recebidas pelos nossos Primeiros Pais e pelos Patriarcas que os sucederam não foram registradas por escrito. Em vão procuraríamos por um livro arcaico que nos entregasse seu conteúdo. Elas não estão consignadas em nenhum texto oficialmente codificado por uma autoridade espiritual. Foram transmitidas oralmente e podemos falar corretamente de uma TRADIÇÃO PRIMORDIAL.
No entanto, é necessário acrescentar imediatamente que esta Tradição não permaneceu homogênea e única por muito tempo. Desde o início, foi o lugar de uma divisão. A primeira manifestação dessa divisão nos é relatada no Livro do Gênesis; é a separação dos dois cultos:
- o culto de Abel, que é um sacrifício expiatório aceito por Deus como constituindo a verdadeira Religião sobrenatural;
- e o culto de Caim, que é apenas uma oferta de louvor e no qual se exerce apenas a religiosidade natural.
Cada um desses cultos vai dar origem a uma tradição cuja antiguidade será igual à da outra, mas cujo conteúdo e espírito serão diferentes. Se julgarmos apenas pela antiguidade e negligenciarmos o conteúdo e o espírito, não podemos dar preeminência a nenhum dos dois e até mesmo podemos confundi-los em uma única e mesma tradição primordial indiferenciada, o caldeirão de todas as religiões, todas de igual dignidade pois derivam de uma única raiz.
É evidente que tal confusão não é admissível, pois tudo indica a persistência de dois fluxos tradicionais: um fiel à Revelação sobrenatural e outro dócil à inspiração da natureza, incluindo nela os demônios que, embora espíritos, são considerados forças naturais.
Sempre é difícil distinguir a tradição, que é o recipiente, da religião, que é o conteúdo. Em muitos casos, os dois termos podem ser usados indistintamente, especialmente quando se trata desses tempos antigos.
Acabamos de constatar a existência, desde o início, de duas religiões. Estamos certos de não distorcê-las nem desnaturá-las ao chamá-las, para simplificar: uma como a Religião sobrenatural, que reconhece a necessidade de um mediador e o aguarda; a outra, a religião natural, na qual o homem pode alcançar a Deus por seus próprios meios. A distinção, separação e rivalidade entre essas duas religiões não ocorreram sem algumas interferências, como é de se esperar. Mas o que é certo é que sua história comparada é a de sua separação progressiva e hostilidade e não a de sua união e sincretismo.
As duas religiões, portanto as duas tradições, realizaram a profecia que Deus fez no momento da expulsão do paraíso terrestre, quando falou à serpente nestes termos: "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela" (Gên. III, 15). O texto menciona "semen" (semente), geralmente traduzido como "descendência". Quem são essas descendências?
A descendência da mulher é Nosso Senhor Jesus Cristo; mas são também os membros de Seu Corpo Místico, que é a Igreja.
A descendência da serpente é o Anticristo, mas também os membros de seu corpo místico, que é "a Besta".
A história mundial é a do combate entre essas duas descendências, portanto entre esses dois corpos místicos.
A batalha é fluída como todas as batalhas, o que significa que cada lado possui alternâncias entre ofensiva e defensiva, avanço de um lado correspondendo ao recuo do outro. O longo período que se estende desde os primórdios até a Vinda do Messias é marcado pelo crescimento irresistível dessa tradição compósita, dessa religião natural que busca alcançar a Deus apenas com as forças da natureza e que não é outra coisa senão a "descendência da serpente". Esse crescimento irresistível naturalmente leva ao recuo da Tradição primordial, que perpetua a Verdadeira Religião.
Dedicamos um parágrafo a cada uma dessas duas tradições: o primeiro à "Tradição patriarcal", que transmite, desde Adão até Moisés, a religião do verdadeiro Deus; o segundo à "tradição poluída", que durante o mesmo período transmite sem distinguir o verdadeiro do falso.
A TRADIÇÃO PATRIARCAL
O fluxo tradicional fiel é aquele dos grandes patriarcas. A Bíblia menciona dez desde Adão até Noé: Adão, Sete, Enos, Cainã, Maalaleel, Jarede, Enoque, Matusalém e Lameque, o pai de Noé. Esses patriarcas transmitiram a Revelação Primordial que receberam de Adão e a enriqueceram com revelações subsequentes ao longo das eras.
Mas essa transmissão fiel (é importante notar) é realizada por uma linha de poucos, enquanto a grande maioria dos homens é influenciada pelo outro fluxo tradicional, antigo também, mas desviado. Esse fluxo começou com o naturalismo de Caim. Esse desvio do conhecimento religioso levou à conduta imoral generalizada, que foi finalmente punida com o dilúvio. No entanto, após sair da arca, o patriarca Noé retomou o fio da Revelação divina e reconstruiu a Religião primitiva que uma Tradição autêntica ainda transmite até outro período turbulento, desde o episódio da Torre de Babel até a chamada de Abraão.
Uma questão importante nos prenderá por um momento. O que acontece com a Tradição autêntica durante esse período turbulento da Torre de Babel, quando a tradição pagã está em um estado de efervescência extraordinária? Ela se retraiu para se proteger da contaminação e avançou obscuramente até chegar ao misterioso personagem de Melquisedeque, que, sem dúvida, a transmitiu a Abraão. E com Abraão, o processo de fortalecimento e separação se intensifica ainda mais. Deus providenciou à Verdadeira Religião, e portanto à Tradição que a veicula, um lugar protegido, um povo separado dos outros, para que ela se perpetue com toda a proteção possível, aguardando os tempos marcados para seu florescimento.
Assim, a Tradição continua e sempre na mesma forma oral. É muito importante observar que se conhecemos hoje o conteúdo da Revelação Primordial, não é à Tradição que devemos isso, mas à ESCRITURA.
Pois isto é o que aconteceu. Quando a deterioração dessa religião primitiva, deterioração causada pelo paganismo invasor, se tornou irreversível, Deus fez uma Nova Revelação que em grande parte foi dedicada a relembrar a primeira e que, desta vez, Ele mandou ser registrada por escrito. Estes são os Livros do Antigo Testamento, especialmente o Livro de Gênesis, é claro, que a partir de agora irá relembrar uma Tradição nunca antes escrita. Assim, a Nova Revelação, que é a antiga reconstituída e complementada, não é mais transmitida oralmente, mas se torna a Sagrada Escritura. Ela será conservada pela Sinagoga dos Judeus, à qual Deus inspirou um gosto muito aguçado pela exatidão literal.
É hora de nos perguntarmos qual era o conteúdo dessa Tradição primitiva. É, portanto, a Escritura que nos revelará isso, já que a Tradição patriarcal não nos chegou. Os primeiros homens receberam de Deus conhecimento, preceitos, um culto e uma profecia.
O conhecimento fundamental é o de um Deus pessoal e criador, o que exclui qualquer entidade metafísica da qual o universo visível seria apenas uma emanção mais ou menos direta. O conhecimento sobre o universo é o da "obra dos seis dias", que revela tanto o plano de construção do mundo quanto o seu plano de governo.
Os preceitos de conduta estavam inscritos diretamente e tacitamente no coração do homem. O culto era o do sacrifício expiatório, que se tornou necessário desde a queda.
A profecia era a da "postéridade da mulher que esmagará a cabeça da serpente", uma profecia que certamente foi a peça central do legado espiritual transmitido pelos patriarcas.
Mais a tradição também continha dados históricos, isto é, a lembrança dos grandes eventos que determinaram o status do homem em relação a Deus. Os principais são o paraíso terrestre, a queda e o dilúvio. Frequentemente, adicionava-se algumas noções relacionadas à contagem do tempo, como a semana de sete dias. Os arquivos da humanidade haviam preservado desses eventos apenas memórias lendárias e quase indecifráveis.
Este é, em resumo, o conteúdo da Tradição patriarcal. No entanto, é importante notar que não é graças à Tradição que conhecemos isso, mas sim graças à Escritura, a qual não nos revela todos os episódios da história primitiva, mas apenas aqueles que têm importância para nossa salvação.
Assim, Moisés registra por escrito esta Nova Revelação que consiste em parte em lembrar a primeira. Mas então podemos questionar se há realmente uma Nova Revelação, e se Moisés não se limitou a escrever o que ele recebeu oralmente da cadeia tradicional, cujos últimos elos foram Abraão, Isaque e Jacó. Será que ele não também se inspirou, como frequentemente se diz, nas teogonias egípcias e caldeias para compilar tudo isso em uma narrativa coerente?
Assuradamente NÃO. Moisés não poderia simplesmente organizar os materiais que estavam ao seu alcance de forma humana. Houve de fato uma verdadeira revelação em uma época precisamente quando a revelação primordial, já irreconhecível no fluxo infiel da tradição exuberante do paganismo, também estava à beira de desaparecer definitivamente no fluxo fiel. Pode-se afirmar com certeza que a Tradição patriarcal não é conhecível sem o auxílio da Escritura.
Certamente, ela não tinha desaparecido completamente, visto que ressurgiu na pessoa dos Reis Magos, Gaspar, Melchior e Baltazar, que pelo menos haviam recebido o essencial, ou seja, a profecia de um Salvador. No entanto, ela permanecia como vestígios isolados sem influência sobre a crescente evolução do paganismo.
A TRADIÇÃO POLUÍDA
Paralelamente ao fluxo tradicional fiel, que é o dos patriarcas, circula outro fluxo, também tradicional, que pode reivindicar a mesma antiguidade. Ele também deriva da divisão inicial da religião, ou seja, do julgamento divino sobre os respectivos sacrifícios de Abel e Caim. O fluxo poluído se origina do sacrifício de Caim e carrega, em seu conteúdo, todas as noções compostas que a religiosidade natural do homem pode gerar.
O conteúdo dessa tradição desviada não nos é conhecido em detalhes. Mas dois episódios nos ajudam a entender seu teor geral. O primeiro é o Dilúvio, o segundo é a Torre de Babel.
O texto bíblico fornece uma descrição do estado geral da humanidade antes do Dilúvio, que diz pouco, mas contém muito:
"Deus viu que a maldade dos homens era grande na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era só para o mal" (Gênesis VI, 5).
E mais adiante:
"A terra estava corrompida diante de Deus e cheia de violência. Deus olhou para a terra e viu que ela estava corrompida, pois toda carne tinha corrompido o seu caminho sobre a terra" (Gênesis VI, 11-12).
Corrupção, malícia, iniquidade: essas palavras se referem, claro, à imoralidade dos costumes, mas também à fonte dessa imoralidade, ou seja, a perversão das concepções religiosas: "Toda carne tinha corrompido seus caminhos". E quais eram essas formas religiosas pervertidas? Nenhum documento nos revela detalhadamente, mas é certo que essas deviações deveriam afetar tanto o conhecimento, os preceitos, o culto e a profecia que formavam a estrutura da Religião primitiva. Elas não deviam diferir muito do paganismo que ressurgirá após o dilúvio, e que conhecemos bem.
O segundo episódio nos permitirá precisar quais foram as concepções desviadas da religião e da tradição. O que encontramos no "Grande Desígnio" dos construtores de Babel? Duas noções importantes: uma sobre Deus e outra sobre o homem.
Em seu desígnio encontramos o desejo religioso de honrar Deus, de alcançar Deus. Mas não é por meios humanos: "Vamos construir uma torre cujo topo chegue até o céu" (Gênesis XI, 4). Essa religião é estabelecida pelo homem e não deriva do conhecimento, dos preceitos, do culto e da profecia revelados por Deus. Ela tem Deus como objetivo, mas não tem Deus como base. Pelo contrário, ela corresponde exatamente à crítica das Escrituras: "Este povo se aproxima de mim apenas com palavras, e honra-me apenas com os lábios" (Isaías XXIX, 13).
Também encontramos, curiosamente para uma época tão distante de nós, um inegável humanitarismo, fruto da razão humana:
"Celebramos nosso nome antes de sermos dispersos sobre a face da terra" (Gênesis XI, 4).
O que significa "celebramos nosso nome"? Será que eles queriam erguer, para a glória da humanidade, um monumento ao lado da torre construída para a glória de Deus? Muitos estudiosos pensam assim.
Também sabemos que nesta época ocorreu uma prodigiosa eflorescência do politeísmo e do panteísmo (especialmente em sua forma emanacionista), os quais servem tão bem aos demônios que não podemos deixar de pensar que eles têm algo a ver com sua origem e disseminação. É evidente que a religião de Babel estava impregnada dessas ideias.
Não é difícil entender por que Deus não quis a unidade e a religião de Babel. Há duas grandes razões.
Primeiro, essa unidade e essa religião são, em última análise, as do Seu adversário. No contexto de Babel, a Tradição primordial estava sendo sufocada sob a exuberância da vegetação pagã, que, ao contrário, com seus elementos humanitários, panteístas e politeístas, constituía o que é chamado de pandemônio.
Em segundo lugar, e mais importante, Deus tinha um plano totalmente diferente, cuja essência Ele havia profetizado logo após a queda. Esse plano envolvia o envio à terra do Verbo Encarnado, misteriosamente designado pela expressão "a descendência da mulher". Tudo gira em torno disso. Qualquer religião, por mais antiga que seja, que pretenda ou espere outra coisa não é a verdadeira.
Essas duas razões principais ajudam a entender melhor a vontade de Deus, que à primeira vista pode surpreender. Como assim! A humanidade estava unida e religiosa e desejava permanecer assim. E Deus mesmo desfez essa unidade e essa religião. Mas Ele tinha dois poderosos motivos. Não há dúvida de que a dispersão resultou de uma vontade expressa de Deus. O texto bíblico merece ser relido e lembrado:
"O Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os filhos de Adão estavam construindo; e disse: 'Eis que o povo é um, e todos têm uma só língua; e isso é o que começaram a fazer, e agora não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer. Vinde, desçamos e confundamos ali a sua língua, para que não entendam cada um a língua do seu próximo'. Assim o Senhor os dispersou dali sobre a face de toda a terra, e cessaram de edificar a cidade. Por isso se chamou o seu nome Babel, porque ali confundiu o Senhor a língua de toda a terra; e dali o Senhor os dispersou sobre a face de toda a terra." (Gênesis XI, 5-9)
A religião de Babel é o resultado final da tradição desviada e sua última manifestação global. Após a dispersão, surgirão tradições específicas, umas no Oriente, outras no Ocidente. Mas o que é comum a essas tradições particulares tem boas chances de derivar da religião de Babel.
Os pensadores modernos que nos remetem à tradição primitiva comum a todas as religiões não nos remetem a nada além do antigo pandemônio no estado em que estava quando Deus o dispersou.
A TRADIÇÃO DA SINAGOGA
Deixamos Moisés no momento em que ele estava registrando por escrito, sob a ditadura de Deus, a Tradição patriarcal. Ele inaugura um período de revelações progressivas que deveria perdurar até a aproximação da Vinda do Messias, e cuja codificação foi realizada com notável precisão pelo clero da Sinagoga.
Uma questão se apresenta para nós, que buscamos identificar todas as formas da Tradição. Todas as revelações que ocorreram durante a vigência da Antiga Aliança não deram origem, além dos livros devidamente codificados, a uma tradição oral que seria como um excedente, uma tradição que reuniria seus resquícios? Existe uma tradição judaica que teria, em relação aos livros do Antigo Testamento, a mesma posição relativa que a Tradição apostólica em relação aos livros do Novo Testamento?
De fato, isso ocorre, mas apenas até certo ponto. A Escritura deu origem, tanto na Sinagoga quanto posteriormente na Igreja, a comentários cujos autores inevitavelmente buscaram todos os vestígios de revelação que poderiam ter escapado da codificação escrita e, de modo geral, tudo o que pudesse auxiliar na compreensão do texto sagrado. Portanto, nessas numerosas coleções de comentários (evitando termos técnicos), deveríamos encontrar material para estabelecer uma tradição judaica.
Infelizmente, esses comentários são extremamente heterogêneos. Encontramos, de fato, alguns vestígios de revelação. Por exemplo, em certas coleções, existem decisões judiciais que muito provavelmente foram emitidas por Moisés. No entanto, há muito mais do que isso; há uma colheita de lendas e desenvolvimentos onde predominam mais teosofia pagã do que monoteísmo bíblico. Um exemplo são as dez sefirot, das quais é impossível saber se representam perfeições divinas ou espíritos emanados de Deus e co-criadores com Ele, o que colocaria em questão o princípio da Criação ex-nihilo.
Assim, materialmente, existe uma Cabala, ou seja, uma tradição judaica, mas ela não se alinha verdadeiramente com a Tradição primordial nem com a Tradição apostólica. Ela está principalmente na linha da tradição pagã, da qual reproduz a complexidade e a exuberância. Torna-se, portanto, muito difícil extrair dela qualquer coisa útil.
Por que isso acontece assim? Por que a Sinagoga, que vemos tão cuidadosa na codificação dos textos revelados com uma precisão impecável, foi tão desajeitada e impotente na elaboração de uma tradição que fosse homogênea com essa Escritura?
Há, para isso, duas razões que estão relacionadas, mas que ainda assim podem ser distinguíveis.
Primeiramente, o entendimento do Antigo Testamento, cuja Sinagoga registrava meticulosamente a letra, só é plenamente dado pelo Novo. O Novo Testamento interpreta o Antigo, embora cronologicamente venha depois dele; ele realiza suas profecias e, portanto, esclarece quase todos os seus trechos. Antes da redação do Novo Testamento, não era possível compreender completamente o Antigo.
Além disso, a Sinagoga não teve o benefício da Assistência do Espírito Santo. Isso é frequentemente esquecido. Ela não estava sob o mesmo regime que a Igreja dos Gentios. A Igreja vive sob o regime da Nova Aliança, que é eterna e espiritual, e que deve culminar na formação do Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou seja, a Jerusalém Celeste; ela é assistida pelo Espírito Santo, cujo papel é fazer entender o que Nosso Senhor ensinou:
"Ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos tenho dito."
A Sinagoga não tinha essa assistência. A Antiga Aliança era carnal, pois tinha como objetivo a formação do Corpo Físico de Nosso Senhor em uma raça escolhida para esse fim. O Espírito Santo ainda não havia sido enviado por Jesus, que subiu ao céu.
Certamente, o Espírito Santo se manifestou pelos profetas do Antigo Testamento (qui locutus est per prophetas). No entanto, as revelações dos Profetas permanecem muito obscuras. É certo que a assistência do Espírito Santo concedida à Igreja após o Pentecostes foi muito mais generosa do que aquela concedida à Sinagoga.
Essas duas razões explicam a incapacidade da Sinagoga em entender sua própria Escritura, em fornecer um comentário esclarecido e em estabelecer uma tradição que pudesse preencher completamente o vazio entre a Tradição patriarcal e a Tradição apostólica.
O Divino Mestre proferiu um severo julgamento sobre a "tradição dos antigos":
"E vós, por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?" (Mateus XV, 3).
Julgamento que São Paulo reitera e completa nestes termos:
"Tende cuidado que ninguém vos seduza com filosofias e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo e não segundo Cristo." (Colossenses II, 8).
Seremos levados a revisitar esta questão da Cabala quando estudarmos a formação da Tradição apostólica. Concluamos provisoriamente dizendo que a tradição da Sinagoga certamente contém algumas pedras preciosas que seria muito interessante descobrir, mas que estão muitas vezes afogadas em escórias frequentemente cortantes.
A CODIFICAÇÃO DA REVELAÇÃO MESSIÂNICA
Todo mundo sabe que Nosso Senhor não escreveu nada. Seu ensinamento era oral e foi transmitido oralmente durante um período inicial. Então chegou um tempo em que alguns dos Apóstolos e Discípulos perceberam a necessidade de deixar registros escritos: scripta manent. Esses escritos, para cuja redação receberam de Deus um carisma especial que os tornou "escritores sagrados", formaram o Novo Testamento. Os livros dignos de fazer parte do Novo Testamento foram limitativamente escolhidos pelo Magistério da Igreja primitiva; eles são chamados de Livros Canônicos e se encerram com o Livro do Apocalipse de São João, com o qual a Revelação pública é encerrada.
Esse trabalho de composição só foi possível graças à assistência do Espírito Santo. Pois foi necessário escolher entre documentos de valores muito desiguais aqueles que podiam ser garantidos como "sem mistura de erro". Tal escolha só poderia ser feita e tal garantia só poderia ser dada por autoridades eclesiásticas assistidas pelo Espírito Santo .
Para alguns desses textos, o Magistério hesitou por muito tempo. O caso mais ilustre dessas hesitações é o do "Pastor" de Hermas. Hermas é um dos primeiros Padres Apostólicos. Dá-se o nome de Padres Apostólicos àqueles dos Padres da Igreja que pessoalmente conheceram os Apóstolos. Hermas compôs um diálogo doutrinário e moral chamado o "Pastor", que por muito tempo foi considerado inspirado e, portanto, pertencente ao cânone das Escrituras. Foi necessário esperar pelo Papa Gelásio para que a decisão fosse tomada de excluí-lo definitivamente. O Papa deu como motivo não que esse texto fosse totalmente ruim, certamente não, mas apenas que ele não estava completamente isento de erro.
Qual destino deveriam ter os livros da Sinagoga? Nosso Senhor ensinou que Ele veio para cumprir as profecias, assim como para realizar e aperfeiçoar a Lei. Portanto, era apropriado estender a canonicidade, com todas as suas garantias, à Lei e aos Profetas, ou seja, aos livros do Antigo Testamento.
A garantia de inspiração concedida pela Igreja acarreta uma série de consequências:
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As Escrituras Sagradas tornam-se a principal fonte onde podemos encontrar a Revelação divina, pois nenhum outro documento possui a mesma garantia.
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Portanto, podemos nos dedicar a uma exegese extremamente profunda desses textos, pois temos certeza de que cada palavra não foi colocada ao acaso. Assim, tornam-se um objeto de meditação inesgotável.
O ENSINAMENTO ORAL DOS APÓSTOLOS
Os escritores sagrados, ou seja, os autores dos livros canônicos, não registraram por escrito todas as palavras de Nosso Senhor, nem relataram todas as suas ações. Eles mesmos afirmam isso. Citamos, entre outras provas, este trecho de São João:
"Eu teria muitas coisas para escrever, mas não quero fazê-lo com tinta e pena; espero vê-lo em breve e conversaremos de viva voz." (João III, 13-14).
Não há dúvida de que os Livros canônicos não contêm em sua totalidade o ensinamento dos Apóstolos. Primeiramente, alguns Apóstolos não escreveram nada por si mesmos e se contentaram em pregar. Sua pregação foi registrada por diversos autores que não são considerados escritores sagrados. E aqueles dos Apóstolos que escreveram também pregaram; portanto, possuímos deles "cartas" que agora fazem parte das Escrituras Sagradas, e também pregações "de viva voz" que eles deixaram para a tradição oral. Encontramos claramente em São Paulo a menção dessas duas fontes: "de viva voz" e "por carta":
"Portanto, irmãos, ficai firmes e conservai as tradições que vos foram ensinadas, seja de viva voz, seja por carta." (II Tessalonicenses II, 15).
Nos livros canônicos, portanto, os escritores sagrados não disseram tudo o que sabiam. Eles também transmitiram um ensinamento oral, cujas pegadas a Igreja certamente procurará diligentemente.
O ESTABELECIMENTO DA TRADIÇÃO APOSTÓLICA
Autores de qualidade e com funções muito diversas escreveram sobre os mesmos eventos que já são objeto dos Livros Sagrados. E o fizeram com uma das duas seguintes intenções:
- para relatar, em uma forma diferente, o que os escritores sagrados já haviam escrito;
- para registrar por escrito o que os Apóstolos haviam ensinado de "viva voz".
É importante notar que esses dados são considerados tradicionais apenas porque permaneceram orais durante a vida dos Apóstolos. No entanto, após certo tempo, eles também foram escritos. Eles foram incorporados em textos cuja diversidade vamos examinar.
Foi formado um vasto acervo de documentos que, embora não tenham recebido a inspiração maior do Espírito Santo, foram compostos com grande habilidade, cuidado e piedade pelos ouvintes dos Apóstolos e dos Discípulos. Desde o início, esses documentos foram altamente considerados pelo Magistério, pois continham parte do ensinamento de Nosso Senhor que não se encontrava nas Escrituras.
Esta reserva documental não constitui, por si só e em seu conjunto, a Tradição. Mas é dela que o Magistério irá extrair, quando necessário, os vestígios dessa Revelação messiânica da qual ele é guardião, não querendo deixar escapar nada, mas encontrando os elementos dispersos. São esses vestígios que, reunidos, recebem o nome de Tradição Apostólica.
O reconhecimento da Tradição como segunda fonte da Revelação (sendo a primeira a Escritura) é uma característica da Igreja Católica. As escolas protestantes são divididas sobre este ponto; algumas admitem certa tradição, mas a limitam a alguns textos; a maioria é hostil à própria noção de tradição, respondendo com o adágio "Sola Scriptura". Portanto, é bom fornecer algumas provas da antiguidade deste reconhecimento da Tradição Apostólica.
Santo Agostinho:
"Há muitas coisas às quais a Igreja está firmemente ligada e que, portanto, podemos considerar como ordenadas pelos Apóstolos, embora não nos tenham sido transmitidas por escrito." (De Bapt. V, 23-31).
São Basílio:
"Considero apostólico firmar-se também nas tradições que não estão contidas na Escritura." (XVII, 66 - Mig. XXXII, 188).
São Epifânio:
"A Tradição também é necessária, pois nem tudo pode ser encontrado na Escritura; por isso, os Santos Apóstolos nos deixaram parte de seu ensinamento nas Escrituras e o restante por meio das tradições." (Haer. LXI, 6 - Mig. XXXXI, 1057).
Os séculos que se sucederam não mudaram a doutrina. Ela ainda era a mesma no Concílio de Trento:
"A Igreja recebe com o mesmo respeito e piedade os Livros Santos e as tradições sobre a fé e os costumes que nos vêm de Jesus Cristo pelos Apóstolos, ou que os Apóstolos nos deixaram pela inspiração do Espírito Santo".
Portanto, para constituir o cânon das Escrituras, o Magistério da Igreja primitiva aceitou apenas textos onde tudo era absolutamente irrepreensível, ou seja, onde tudo evidenciava claramente a inspiração divina. Essa rigorosidade necessária deixou escapar documentos menos cuidadosamente compostos, onde fragmentos autênticos da Revelação Messiânica conviviam com passagens de interpretação humana. Esses documentos, por não serem "sem mistura de erro", não puderam receber a mesma garantia. Eles formaram a reserva de onde a Igreja busca a Tradição.
UM INVENTÁRIO ABUNDANTE
É hora de nos perguntarmos de quais elementos se compõe a vasta reserva documental na qual a Tradição apostólica está distribuída. Note-se que a Igreja nunca publicou oficialmente um inventário limitativo desses documentos. Aqui, é o costume que determina a lei.
O primeiro lugar nas fontes da Tradição é evidentemente dos "Padres Apostólicos", pois eles conviveram com os Apóstolos. Se há personagens que puderam recolher sua pregação, foram esses. Como exemplo, mencionemos São Policarpo, que conheceu São João Evangelista e posteriormente fundou a Igreja de Lyon. Os "Padres Apostólicos" foram testemunhas dos Testemunhos de Jesus Cristo. Assim, têm um lugar especial na transmissão da Tradição. Eles não formularam propriamente a Revelação; portanto, não são "escritores sagrados"; no entanto, recolheram fragmentos dela em uma forma não canônica.
Os "Padres" que sucederam a eles também estão entre essas fontes. O título de "Pai da Igreja" não é conferido oficialmente, mas é uma denominação baseada no uso. Por outro lado, o título de "Doutor" é conferido oficialmente após um procedimento rigoroso. Alguns personagens da antiguidade cristã são tanto Pais quanto Doutores da Igreja. Por exemplo, mencionemos os quatro grandes Doutores gregos: São Basílio, Santo Atanásio, São João Crisóstomo e São Gregório de Nazianzo, e os quatro grandes Doutores latinos: São Jerônimo, Santo Ambrósio, Santo Agostinho e São Gregório Magno. Quando se busca qual é a tradição sobre um ponto específico, sempre se consulta esses grandes personagens.
Outra fonte da Tradição são os Símbolos, esses resumos da fé que eram ensinados de cor aos catecúmenos no momento do Batismo. Mencionemos os três mais antigos: o "Símbolo dos Apóstolos", do qual existem duas versões, o "textus antiquior" e o "textus receptus"; o "Símbolo de Niceia-Constantinopla", confirmado no Concílio de Éfeso e recitado na Missa latina; o "Símbolo de Santo Atanásio", que começa com as palavras "Todo aquele que deseja ser salvo" e que faz parte do Breviário latino.
As Liturgias das Missas, das Horas e dos Sacramentos, e até mesmo as dos sacramentais, constituem uma das fontes mais seguras e ricas da Tradição. Dom Guéranger afirmava que a liturgia é a Tradição em seu mais alto grau de fidelidade. Ela é universalmente construída sobre o mesmo modelo, com as mesmas partes essenciais. A apostolicidade das liturgias mais antigas não deixa absolutamente nenhuma dúvida. Por um certo tempo, foram transmitidas oralmente e até mesmo secretamente, por prudência e respeito, para não expor os "Santos Mistérios" publicamente: isso era conhecido como "a disciplina do Arcano".
Outra fonte da Tradição, como se pode imaginar, são os relatórios, ou melhor, os "considerandos" dos primeiros Concílios Ecumênicos:
- O Concílio de Niceia, em 325, afirma a divindade de Jesus Cristo contra Ário, que a nega;
- O Concílio de Constantinopla, em 381, afirma a divindade do Espírito Santo contra Macedônio, que a nega;
- O Concílio de Éfeso, em 431, afirma a maternidade divina da Santa Virgem contra Nestório, que argumenta que a Santa Virgem é apenas mãe da pessoa humana de Nosso Senhor;
- O Concílio de Calcedônia, em 451, afirma as duas naturezas na pessoa de Jesus Cristo contra Eutiques, que ensina que na pessoa de Jesus Cristo a natureza divina eliminou a natureza humana (Monofisismo).
Este inventário abundante não é, portanto, limitativo. Podemos mencionar muitos outros elementos: inscrições funerárias, hagiografia, arquitetura de monumentos cristãos e até mesmo os textos apócrifos, que não devem ser negligenciados.
AS DUAS FUNÇÕES DA TRADIÇÃO
As Escrituras e a Tradição contêm ambas uma parte da Revelação divina. É evidente que estão em harmonia uma com a outra e que essa harmonia permite que se iluminem mutuamente. A Tradição pode se comportar tanto como "explicativa" quanto como "completiva".
A Tradição é explicativa quando relata, em termos diferentes ou semelhantes, os mesmos eventos que as Escrituras; isso ajuda na interpretação e esclarece seu significado. Nesse aspecto, a Tradição tem sido extremamente frutífera e continua sendo.
A Tradição é completiva quando enriquece o conteúdo revelado das Escrituras com novos dados, ou seja, quando contém elementos que as Escrituras não incluem, como foi afirmado por Santo Agostinho, São Basílio e São Epifânio. Entre esses complementos, menciona-se:
- a lista dos livros do Novo Testamento (de fato, a composição do cânone das Escrituras não é escriturária, mas tradicional, o que é curioso);
- o número sete dos Sacramentos;
- a transferência da Cátedra de São Pedro de Antioquia para Roma;
- a doutrina do Anjo da Guarda;
- a doutrina do Purgatório;
- a doutrina da Imaculada Conceição, etc.
Estes complementos, de fato, são periodicamente necessários. É uma necessidade constante descobrir algo novo. É uma necessidade vital assimilar uma alimentação sempre renovada. É certo que a Igreja, que ainda não alcançou dimensões definitivas e cujo próprio dogma se desenvolve, sente uma fome por enriquecimento. Com que frequência lemos nos Introitos ou nas Coletas esta expressão: "Canticum novum cantabo" - "Cantarei um cântico novo". A novidade é necessária. O problema é onde encontrá-la. Os modernistas respondem: "No mundo, imitando o profano". Os católicos fiéis têm à disposição uma fonte de água viva: a Tradição: "...todo escriba instruído no Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas." (Mateus 13, 52).
O Tesouro é a Revelação. O velho são as coisas que a Igreja já extraiu dela. O novo é o que ela extrai quando chega o momento de entoar um cântico novo.
EM VIRTUDE DAS PROMESSAS DE ASSISTÊNCIA
Quais serão as regras e critérios que a Igreja utilizará para reconhecer os vestígios da Tradição apostólica no meio dessa massa de escritos de tantos autores diferentes? Para que uma crença seja reconhecida como tradicional, ou seja, apostólica, ela deve satisfazer duas condições essenciais: ANTIGUIDADE e UNIVERSALIDADE. Às vezes são mencionadas também outras duas condições: a concordância e a perpétuidade, mas elas podem ser reduzidas às duas primeiras.
No entanto, é evidente que esses critérios de antiguidade e universalidade apenas começam a abordar o problema. Se aplicados sistematicamente e sem a assistência do Espírito Santo, seriam insuficientes para tomar uma decisão tão importante e de natureza tão sobrenatural. Portanto, é em virtude das promessas que lhe foram feitas que a Igreja pode empreender tal discriminação.
E como o Espírito Santo vai agir? Destaquemos apenas duas peculiaridades de sua ação: 1° Ele não adiciona nada às palavras de Cristo; 2° Ele opera invisivelmente:
- Ao falar do Espírito Santo que estava pronto para enviar, Jesus disse: "Ele vos ensinará tudo o que vos tenho dito". O Verbo pronunciou palavras, necessariamente misteriosas devido à sua origem, e é o Espírito Santo quem dá entendimento delas. Ele faz compreender o que Nosso Senhor se contentou em expressar. Mas Ele não ensina coisas novas que Nosso Senhor não tenha dito.
- É sempre surpreendente, ao observar os acontecimentos da Igreja, notar essa mistura de ordem e desordem. Sob certa aparência, tudo se desenrola como se fosse uma instituição puramente humana, com suas servidões, ônus e os altos e baixos desta condição terrena: escritos desconcertantes, alguns repletos de verdadeiro sobrenatural, outros de maravilhas inventadas, opiniões divergentes, situações estagnadas, decisões que nunca chegam...
Mas sob a luz da fé, a Igreja do Verbo Encarnado aparece, como Ele, verdadeiramente divina e humana ao mesmo tempo. Pois o resultado global desta aparente desordem é a criação de um admirável corpo de textos notoriamente inspirados. A assistência do Espírito Santo foi invisível enquanto se exercia. Mas tornou-se visível em seus efeitos: "attingit a fine usque ad finem, fortiter suaviterque disponens omnia" (ele alcança de uma extremidade à outra, ordenando todas as coisas com força e suavidade).
E quanto às revelações privadas? Elas trazem modificações ao depósito da Revelação Pública, que foi declarado fechado? Pode-se responder negativamente. As revelações privadas têm grande importância na Igreja. Entre outras influências, elas suscitaram muitas festas litúrgicas. Mas elas nunca inovam. Elas apenas cultivam germes já presentes na Escritura e na Tradição, seguindo sua lógica até onde for necessário.
Tomemos como exemplo a devoção e o Culto ao Sagrado Coração, cujo impulso vem de revelações "privadas" feitas a Santa Margarida Maria, durante o reinado de Luís XIV. Esta devoção já era observada até mesmo por Santo Agostinho. Mas podemos remontar mais longe, já que o Coração de Jesus ("lado" no texto, João 19, 34) recebe honras nas Escrituras. São João mesmo remonta mais longe ao citar, a respeito do golpe de lança na Paixão, um texto do Antigo Testamento: "Videbunt in quem transfixerunt" (verão aquele que transpassaram) (João 19, 37). É um texto de Zacarias 12, 10 que a Vulgata expressa de maneira ainda mais marcante: "et aspicient ad me quem confixerunt" (olharão para Mim, a quem transpassaram).
O PAPEL DOS HEREGES
Equipado com regras de discriminação e assegurado da Assistência do Espírito Santo, o Magistério buscará, portanto, na massa documental da qual falamos, os elementos da Tradição apostólica, e os reunirá e coordenará. Mas fará ele este trabalho de triagem de uma só vez e de uma vez por todas, como foi o caso dos Livros Sagrados?
A Tradição apostólica não foi formulada de uma vez por todas. É somente quando se torna necessário que a Igreja fixa um ou outro ponto. E como essa necessidade se manifesta? Muitas vezes é criada por hereges, cujo papel involuntário é levantar novos problemas aos quais oferecem soluções novas, não apostólicas e falsas. Eles assim obrigam a consultar a Tradição para saber qual era, neste caso específico, a opinião dos Apóstolos. Sua intervenção leva a um esclarecimento da doutrina. Portanto, eles têm um papel providencial a desempenhar. Escândalos devem acontecer; ai daqueles por quem eles vêm. A Redenção é um mistério.
"De fato, ouço que, quando vos reunis na igreja, há divisões entre vós; e em parte eu acredito. Porque é necessário que haja entre vós heresias, para que os aprovados sejam manifestados entre vós." (I Coríntios XI, 18-19)
Hoje em dia, há queixas sobre os modernistas. Eles, de fato, causaram um enorme estrago. Mas basta ter um pouco de paciência, e perceberemos que as questões às quais eles propuseram soluções falsas podem ser resolvidas pela Igreja ao buscar no "tesouro do pai de família", onde se encontra "o novo e o velho".
UMA TRADIÇÃO PURIFICADA
A Igreja dos Gentios adotou a tradição da Sinagoga como prólogo à sua própria Tradição, da mesma forma que adotou os livros do Antigo Testamento como prólogo aos do Novo? Não o fez. Por quê?
Por razões que já conhecemos, mas que é bom explicar sucintamente aqui.
O Divino Mestre, como vimos, fez um severo julgamento sobre a "tradição dos Anciãos". Ele a acusou de ter "anulado" a Lei, o que já é uma acusação grave. Mas há algo pior.
A que impulso, de fato, os escribas e fariseus respondiam ao anular a Lei com suas tradições? Nosso Senhor disse. Esse impulso não era meramente humano; vinha do "pai da mentira". Poderíamos multiplicar as citações das Escrituras nesse sentido. Contentemo-nos com esta menos conhecida, mas igualmente demonstrativa:
"Perambulais por terra e mar para fazer um prosélito, e, uma vez feito, o tornais filho do inferno, duas vezes mais do que vós mesmos." (Mateus XXIII, 15)
Tanto pelos historiadores quanto pela Bíblia, conhecemos a importância das infiltrações do paganismo entre os Judeus. Não na letra das Escrituras, é claro, pois estas eram preservadas com uma meticulosidade muitas vezes rigorosa, mas em tudo o que era comentário. E ainda assim, Nosso Senhor faz clara distinção quando declara, ao falar dos doutores da Lei:
"Fazei e observai tudo o que vos disserem, mas não imiteis suas obras, pois dizem e não fazem."
Fazei o que dizem porque sua Lei Escrita é correta. Mas não façais o que fazem porque sua interpretação é má. Nessas condições, entendemos por que a Igreja não considerou a tradição dos antigos.
No entanto, os escritores eclesiásticos de todas as épocas mantiveram uma atração secreta pelas incontestáveis pedras preciosas que ainda estão enterradas nos detritos cortantes da Cabala. Ouçamos Dom de Moléon, que ninguém pode suspeitar de qualquer desvio:
"Sem dúvida, é preciso reconhecer que essas tradições, consideradas em seu conjunto, geralmente não passam de um tecido de absurdos, improbabilidades e contos fantásticos. Ao percorrê-las, o leitor rapidamente se cansa de se sentir constantemente levado para a extravagância, o exagero e um maravilhoso que soa falso. No entanto, seria um erro pensar que tudo deve ser desprezado: sob as reviravoltas grotescas e ridículas dessas histórias, há um fundo de verdade; há pepitas de ouro nesse deserto árido. Uma crítica que condena tudo de imediato, sem discernimento, renega seu próprio nome, pois "crinein" significa precisamente separar, distinguir, julgar, escolher. Seu papel aqui é filtrar este depósito vindo dos judeus, reter o que tem chances de ser verdadeiro, e rejeitar todo o resto. Assim fizeram os Padres da Igreja, assim fizeram São Jerônimo, São Efrem e muitos outros depois deles, que souberam discernir, no amontoado dos escritos rabínicos, detalhes, precisões, anedotas que complementam o texto sagrado, o iluminam, o enriquecem e lhe conferem um sabor novo" (Dom de Moléon em Les Patriarches, página 26).
O problema está posto e vemos que não é apenas de hoje. No entanto, os esforços para encontrar uma solução têm sido até agora infrutíferos. Eles até foram prejudiciais. Lembremos apenas obras como La Kabbala Denudata de KNORR von ROSENROTH (1677), cuja influência se misturou à dos Rosacruzes para moldar o espírito das primeiras lojas maçônicas.
Este problema da Cabala é ainda mais complicado pelo fato de que só a conhecemos através de textos estabelecidos por rabinos da Idade Média que estavam atentos em introduzir uma hostilidade velada ao cristianismo.
O perigo de tudo que é cabalístico vem de suas divindades intermediárias indefiníveis, os sefirot, que fatalmente conduzem ao panteísmo ou ao politeísmo, ou mesmo a ambos ao mesmo tempo, desviando-se claramente do conceito essencial, patriarcal e ao mesmo tempo cristão, de um Deus Pessoal e Criador.
Compreende-se que a Igreja tenha se mantido afastada dessa possível contaminação e não assumido a guarda de uma tradição à qual o Divino Mestre acabara de manifestar sua desconfiança.
Portanto, é muito importante observar que a Tradição apostólica não admite qualquer coisa. Ela não transmite todas as ideias correntes. Não se sobrecarrega com costumes e hábitos arraigados. Permanece como um dos dois meios de conhecer a Revelação divina, sendo o outro a Escritura. Seu conteúdo conceitual é selecionado e permanece assim porque é supervisionado, o que é possível porque é administrado por instâncias eclesiásticas certas de serem assistidas pelo Espírito Santo. É a única tradição que se encontra nessa condição. Todas as outras, por falta dessa supervisão e assistência, acabam por carregar qualquer coisa, uma vez que alcançam certo grau de antiguidade e universalidade.
LOCUÇÕES ENVENENADAS
Os inimigos da Igreja atacam todas as instituições, tanto materiais quanto espirituais: dogma, hierarquia, sacramentos, presença territorial, tudo... A Tradição é alvo de um ataque particularmente bem estudado. E no entanto, somos convidados de todos os lados para uma apoteose da tradição. É em seu nome e sob sua antiga bandeira que todos os inimigos da Revolução querem se reunir.
Vimos que há duas tradições: uma das quais a Igreja é guardiã, cujo conteúdo é ortodoxo; a outra, de igual antiguidade, mas cujo conteúdo é compósito. Não deveríamos permitir que, sob o pretexto de combater a Revolução, os católicos abandonem a Tradição ortodoxa e adorem, passo a passo e insensivelmente, a tradição compósita.
O perigo não é ilusório e poderíamos fornecer muitos exemplos disso. Vamos considerar duas expressões frequentemente usadas hoje, que contêm implicitamente um deslize fatal e são usadas, por alguns sem malícia e por outros com malícia. Ouve-se falar de "tradição cristã" e de "tradição viva", sempre em um contexto bastante admirativo, o que completa a ilusão. Vamos examiná-las uma a uma.
A "tradição cristã" não é o nome correto do que se pretende designar assim. O nome correto é a "Tradição apostólica". De fato, se a chamamos de apostólica, a Tradição em questão é claramente definida quanto ao seu conteúdo: trata-se da parte da Revelação que não está nas Escrituras. Assim definida, ela transmite não concepções humanas, mas noções divinas.
Se apenas a chamamos de "tradição cristã", então ela não é mais estritamente apostólica. Ela amplia seu conteúdo para incluir amplamente o eclesiástico e pode abranger costumes, bons ou maus, hábitos, bons ou maus, e todo tipo de aquisições desde que sejam religiosas e tenham um mínimo de antiguidade. Ela não está mais sujeita à ortodoxia e apenas se pede a ela uma tintura cristã geral.
Assim, a tradição, assim chamada cristã, terá a mesma definição que a das outras religiões, para as quais não se pede que transmitam uma Revelação específica e para as quais se contenta com simples antiguidade. O futuro dirá se estamos certos em desconfiar da "tradição cristã" ou se o perigo era apenas ilusório.
A "tradição vivente", agora. É outro nome dado à mesma coisa. A expressão é habilmente combinada, mas não reflete a verdade.
Vimos que a Tradição apostólica não foi fixada de uma vez por todas. Ela está reservada em documentos cuja lista não foi sequer oficialmente finalizada, de onde o Magistério a retira e formula conforme as necessidades surgem. Conclui-se que a tradição é variável e que ninguém pode prever as surpresas que ela reserva.
Mas atenção, não se trata de uma verdadeira variabilidade, pois a mudança só pode ocorrer no sentido de enriquecimento: um processo que não envolve eliminações. Quando uma noção é reconhecida como tradicional pelas autoridades competentes, com as devidas provas de apostolicidade, ela nunca mais perderá sua característica de tradicionalidade. Portanto, trata-se de um desenvolvimento da mesma natureza que o dogma, com o qual aliás se superpõe. Não há desenvolvimento sem estabilidade.
Por outro lado, se qualificamos a Tradição como "vivente", estamos submetendo-a a um processo vital, ou seja, a uma alternância de assimilações e eliminações, onde umas provocam as outras. Estaremos então tolerando que periodicamente se livre de certos elementos que "cumpriram seu tempo" e que serão substituídos por novos. Eis a Tradição tornada evolutiva e o jogo está feito. Não se trata mais de um desenvolvimento, mas de um redemoinho. E que ninguém nos venha dizer que estamos inventando um perigo imaginário: recentemente, a grande argumentação das altas instâncias do Vaticano era afirmar, como algo óbvio, que a essência da Tradição na Igreja é evoluir e se adaptar sempre e sempre... sem dúvida como os redemoinhos de fumaça ao vento da história.
Muitos elogios envenenados também poderiam ser mencionados. Escolhemos apenas dois: o da "Tradição cristã" e o da "Tradição vivente". Timeo Danaos et dona ferentes.
CONCLUSÃO
Devíamos responder à pergunta: "Que Tradição os católicos 'tradicionalistas' defendem?"
Acreditamos ter mostrado, pelo menos em linhas gerais, que esta Tradição é peculiar à Igreja. Nenhuma outra religião a compartilha com ela. Ela se caracteriza de duas maneiras: pelo seu conteúdo conceitual e pelas modalidades de sua formação.
Quanto ao seu conteúdo, a verdadeira Tradição é composta por fragmentos da Revelação divina que escaparam à codificação escrita e, consequentemente, foram transmitidos pela via oral durante um certo período.
Quanto às modalidades de sua formação, a Tradição deve sua origem a três processos que correspondem às três fases da Revelação divina.
A Tradição primordial ou patriarcal não nos é diretamente conhecida sob forma tradicional. É pela Escritura que a conhecemos. É dela que se faz menção no Cânon da Missa, na oração: "Supra quæ propitio". Esta oração é recitada sobre as oferendas pelo celebrante, após a Consagração. Ela segue a " Unde et memores" e precede o "Supplices te rogamus". Aqui está a tradução dela:
"Que Vos digneis, Senhor, lançar um olhar favorável sobre estes dons, como Vos dignastes aceitar os presentes de Abel, Vosso servo justo, o sacrifício de Abraão, Vosso patriarca, e aquele que Vos ofereceu Melquisedec, Vosso sumo sacerdote, sacrifício santo, hóstia imaculada".
O Antigo Testamento também deu origem a uma Tradição, mas esta não se conservou intacta. Ela se sobrecarregou com elementos profanos e pagãos que tornam extremamente difícil a busca pelos vestígios da Revelação divina que, no entanto, ela contém.
O Novo Testamento, por sua vez, é complementado pela Tradição apostólica, que nada mais é do que o ensinamento oral dos Apóstolos. Este ensinamento está disperso na vasta coleção de documentos da paleografia cristã, cuja exploração ainda não está terminada, teoricamente pelo menos.
A Tradição dos Apóstolos, junto com a dos Patriarcas, forma um conjunto homogêneo que constitui precisamente esta verdadeira Tradição pela qual os católicos fiéis são os defensores.
Paralelamente a este fluxo ortodoxo, criou-se outro fluxo que deveria ser chamado de "pseudo-tradicional", e que difere dele, obviamente, tanto em seu conteúdo quanto em seu modo de constituição. O conteúdo da "pseudo-tradição" não é homogêneo; é composto, é misto. Ele é composto por três componentes, misturados mais ou menos intimamente. Encontram-se nele vestígios distorcidos da Revelação divina, como concepções panteístas frequentemente emanacionistas. Encontram-se elucubrações humanitárias, como as da Torre de Babel. E encontra-se produtos da falsa mística, ou seja, da mística demoníaca que é a fonte da mitologia politeísta.
Em resumo, esta pseudo-tradição transmite, misturadas juntas, todas as produções da religiosidade natural.
Quanto ao seu modo de constituição, pode-se dizer que a pseudo-tradição está no seu direito ao reivindicar a mesma antiguidade que a Verdadeira. Ambas têm o mesmo ponto de partida, que é o julgamento de Deus sobre os sacrifícios de Abel e Caim. A pseudo-tradição é atualmente defendida, sob o nome de "tradição esotérica", por pensadores muito eruditos que a consideram a fonte comum de todas as religiões. Esta pretensão é plausivelmente fundamentada para as religiões não-cristãs.
Mas ela é infundada para a Igreja, que é guardiã de uma Tradição essencialmente antagonista àquela. De fato, um dos traços distintivos da Igreja, em todas as épocas, é ter sido mantida separada da raiz comum das falsas religiões.
Se é absolutamente necessário lembrar dessas definições, é porque estamos testemunhando uma manobra que visa deturpar e transformar a verdadeira Tradição, fazendo-a perder sua rigorosidade e tornando-a evolutiva para introduzir elementos conceituais heterodoxos.
JEAN VAQUIÉ
PRIMEIROS MARCOS PARA UMA HISTÓRIA DA REVOLUÇÃO LITÚRGICA
"A crise litúrgica, para além de atualmente ocupar os holofotes, é das mais interessantes pelo grande número de elementos que pôs em xeque... Não bastará examinar os seus antecedentes, a degradação da prática litúrgica nos séculos que a precederam, ou a deformação jansenista, mas será indispensável debruçar-se sobre os movimentos paralelos que a influenciaram: a questão social, a questão política e a adesão às formas revolucionárias, a evolução dos estudos religiosos e, nomeadamente, da exegese bíblica, os progressos do ecumenismo prático, a ascensão ao poder das redes progressistas após a Primeira Guerra Mundial e, sobretudo, a Segunda, etc."
Assim escrevíamos na página dez do primeiro número deste boletim, na primavera passada, para sublinhar a amplitude do estudo necessário, estudo que exigirá obviamente muitos colaboradores (1). Convém hoje traçar as grandes linhas dos domínios onde deverão exercer-se os seus esforços, e para maior comodidade partiremos da situação atual, remontando por etapas às causas mais remotas.
A período atual é caracterizado por dois traços principais: a sua diversidade e a sua legalidade. Com efeito, desde o Concílio, e em virtude do "espírito do Concílio", a revolução em matéria litúrgica é oficial, legal e até obrigatória.
Parece, em última análise, bastante inútil ponderar minuciosamente toda essa nova legislação: que seja fundamentalmente ilegal, tanto quanto ilícita, isso importa sem dúvida in aeternum, mas concretamente, e para nós aqui no plano do estudo, é muito mais importante saber que essa legislação exprime bem a vontade, e mais ainda, o pensamento profundo daqueles que exercem o poder na Igreja hoje.
Esse poder é talvez mais ou menos legal em certos níveis, tratando-se, por exemplo, da miríade de diversos gabinetes e comissões, mas de fato e por admissão geral, tanto da base quanto da hierarquia, não é contestado, nem em teoria nem na prática.
E é tanto menos contestado quanto se apresenta como extremamente difuso; da congregação romana ou do Sínodo dos bispos, ao último dos escritórios diocesanos, ou mesmo à pequena equipe interparoquial, a diversidade é infinita, tanto pela autoridade e qualificação quanto pelo objetivo visado e pelos meios empregados; desde o perito romano que ainda se esforça para salvar o que acredita ser possível, até o pequeno vigário ou o militante da Ação Católica que só têm um desejo: "acabar com tudo" e liquidar essa Igreja à qual só os prende um rótulo, cada um pode encontrar uma referência a seu gosto: houve mesmo, durante anos, as alocuções pontifícias de quarta-feira para tranquilizar aqueles que desejavam ser tranquilizados contra a evidência dos fatos.
Com base nessa legalidade e diversidade, floresce a maior fantasia: isso é tanto menos surpreendente quanto se trata de um vício que ameaça incessantemente a liturgia e no qual seus praticantes a fizeram cair muitas vezes. A novidade reside sobretudo em que, doravante, a fantasia se baseia não mais no capricho individual, mas num princípio oficial de pluralismo desenfreado que autoriza tudo, tudo o que é novo, claro!
Resta perguntar qual teologia traduz este estado de coisas, tanto do ponto de vista dos "produtores" quanto dos "consumidores".
É difícil compreender o estado de espírito do clero e dos membros da Ação Católica se não se fizer um sério retrocesso para captar a velha corrente de adaptação ao mundo que os atravessa desde o início do século.
O padre Barbier é um bom testemunho disso, ele cuja vocação de polemista contrarrevolucionário nasceu quando suas funções de capelão regional da ACJF para o Oeste da França o levaram a constatar de perto, de dentro, a penetração revolucionária nos meios cristãos... em 1905.
A situação ainda haveria de piorar muito com a Ação Católica especializada – JAC, JOC, JIC, JEC, etc. –, e o período de 1936-1940 é rico em exemplos disso.
As reflexões não são menores se nos voltarmos para os simples fiéis, quer sigam ou não.
Talvez seja preciso, antes de mais nada, pensar no grande número daqueles que simplesmente se afastaram da Igreja para cair no materialismo puro e simples, ou para se unirem à multidão de seitas que lhes são oferecidas, sobretudo desde há um século.
Que concepção tinham eles da Igreja, da sua natureza, do seu papel e do seu lugar em seu seio? Muito tênue, sem dúvida, para a terem podido abandonar assim.
Não menos curiosa é a posição dos fiéis que seguem um pouco de tudo, segundo o arbítrio do perito diocesano e do vigário do setor; desses fiéis que renegaram docilmente vinte séculos de tradição... Qual era, então, a teologia e, por exemplo, o que representava a missa para eles que aceitam tão facilmente substituí-la por uma reunião amigável, ou mesmo um piquenique?
Não era ela com demasiada frequência apenas mais uma obrigação, meio eclesiástica, meio mundana, à qual se dirigiam sem gosto particular e durante a qual se ocupavam como podiam, enquanto o clero "cumpria o seu ofício" no púlpito ou no altar? Que há de surpreendente, então, que as coisas continuem agora da mesma forma, com o número em constante declínio de fiéis que ainda se sentem obrigados, mas que não estão mais envolvidos do que antes e prontos a suportar qualquer coisa sem mais interesse real.
É, aliás, o que constatam, para se admirarem e deplorarem, os novos padres, pois pensavam eles, a nova liturgia em vernáculo deveria entusiasmar fiéis declarados adultos!
Antes de se espalhar pelas paróquias, a avalanche de novidades teve sua fonte no Concílio Vaticano II, de modo que o segundo ponto a ser estudado será a forma como o episcopado ratificou esta formidável reviravolta.
Como e, sobretudo, porquê. A história das manipulações conciliares começa a ser conhecida, um certo número de obras tendo feito o balanço das manobras e das organizações. Por outro lado, resta compreender o estado de espírito desses dois mil bispos e mais: pois a árvore cai para o lado para onde pende, e era preciso que houvesse, nessas mentes episcopais, toda uma predisposição a inclinar-se para o lado onde as maquinações dos líderes os arrastaram.
Esse episcopado, de onde provinha? Qual era a sua origem, a sua formação, os seus grandes temas de pensamento, quais tinham sido os seus mestres?
Acontece que, em matéria litúrgica, a pesquisa é relativamente fácil, um número muito pequeno de organizações tendo preparado a situação conciliar durante os vinte anos que antecederam o Concílio Vaticano II.
Para nos limitarmos provisoriamente à França, uma organização sobretudo teve um papel determinante: o Centro de Pastoral Litúrgica (CPL), que mais tarde se tornou o Centro Nacional (CNPL) quando o episcopado francês o adotou na totalidade. Fundado em 1943, em plena guerra, é preciso notar, e tornando-se operacional em 1945-46, este Centro forneceu as ideias e os homens e assegurou a reciclagem de grande parte do clero entre 1945 e 1960. Inspirou também uma profusão de inovações e experimentações naqueles anos, como a missa de frente para o povo, ou o uso do vernáculo.
Um estudo sério não se limitará obviamente à França e interessar-se-á também pela Alemanha, Bélgica e Itália, tanto para este período como para o do pré-guerra; longe de ser um ponto de partida absoluto, a criação do CPL em 1943 é, ela própria, apenas o ponto de chegada de uma longa elaboração, de um vasto movimento de pensamento que passa então para uma fase de sistematização, após uma gestação de mais de trinta anos.
Porque todo o trabalho fundamental foi realizado entre as duas guerras, numa efervescência da qual a maioria dos fiéis não tem ideia, nomeadamente no seio dos movimentos de jovens, como a Ação Católica ou o escutismo.
A avaliação disso é delicada, tanto o pior se encontra intimamente misturado ao melhor, quer no plano das ideias e das práticas, quer no das intenções.
A ideia central era reencontrar uma liturgia viva, ou seja, capaz de vivificar os fiéis, portanto liberta da ignorância e do formalismo.
Essa corrente, por sua vez, não estava sem raízes nem correspondências. Por um lado, o pós-guerra de 1918 caracterizou-se por uma preocupação em aliviar o peso do passado, de modernização que atingia todos os espíritos e todos os domínios e que não podia deixar de ter impacto em matéria religiosa.
Por outro lado, a descristianização tinha avançado, e setores geográficos ou sociais inteiros, muitas zonas rurais e os subúrbios das cidades, encontravam-se fora de qualquer influência cristã. Daí a ideia de um culto modernizado, diretamente acessível a pessoas descristianizadas, sem cultura cristã, alheias às tradições cristãs.
Este movimento tinha sido preparado antes de 1914 por um importante trabalho dos beneditinos belgas, nomeadamente Dom Lambert Beaudouin. E ele próprio prolongava, embora transformando-o, o longo esforço dos Beneditinos do final do século XIX.
Porque todas essas iniciativas não surgiram ex nihilo, mas sim no prolongamento e na sequência do impulso dado pelo próprio Dom Guéranger.
Com efeito, o meio dos religiosos beneditinos que se entusiasmava então pela questão litúrgica e pelo renascimento litúrgico, é o dos filhos de Dom Guéranger que desejam, seguindo os passos de seu pai fundador, restaurar a liturgia católica, torná-la viva, não só para os clérigos mas também para os leigos, e fazer dela o centro da vida espiritual.
O que, certamente, já não era tanto o caso, e desde há muito tempo, em meados do século XIX, tendo o equilíbrio da vida espiritual, sobretudo dos fiéis, sofrido um desvio progressivo desde o século XIV; trata-se de um fenômeno semelhante ao que se passou em matéria filosófica, domínio em que a Igreja também reagiu por volta da mesma época, no final do século XIX, quando restabeleceu a honra da filosofia do Doutor Comum, minada durante séculos pelo idealismo.
Essa transformação manifestava-se na prática por um estilo subjetivo e individualista, colocando a ênfase na psicologia e no sentimento individual, e minimizando esses meios comunitários e objetivos da Igreja, nomeadamente os meios litúrgicos.
Os avatares da música litúrgica do século XV ao XIX confirmam perfeitamente o movimento e são uma ilustração espetacular, um reflexo que não engana.
Pode-se assim distinguir várias etapas nesse processo da Revolução Litúrgica, cada uma enriquecendo-se de elementos novos capazes de modificar grandemente a configuração do conjunto.
Se quisermos, finalmente, compreender algo sobre esta revolução, e compreender de forma a tirar dela lições para a ação quotidiana, é preciso estudar primeiro a decadência desde a Renascença até o momento em que os membros da Ordem Beneditina dela tomam consciência e iniciam uma restauração de inspiração tradicional.
A segunda etapa seria a dos esforços desses primeiros padres para restaurar a liturgia, livrá-la de suas escórias, restabelecer uma boa compreensão e devolver-lhe o primeiro lugar nos espíritos e na prática da vida cristã.
A terceira etapa seria aquela em que esses beneditinos, ou melhor, seus sucessores, perceberam que essa decadência estava, de fato, muito integrada nos costumes cristãos da época e que, apesar de alguns apoios, incluindo o de São Pio X, a restauração só reunia em torno de si núcleos de fiéis, sem atingir a massa.
Chegamos assim, nesses anos de 1910, a uma virada perigosa onde irão atuar diversas influências que se somarão a essa constatação: o triunfo do liberalismo após a morte de Pio X, os primeiros surtos do ecumenismo e o vento geral de modernização após 1918.
Foi durante este período crucial entre as duas guerras, de 1918 a 1940, que o movimento litúrgico mudou completamente de rumo e que se constituíram as equipes de homens e os esquemas de pensamento que assegurariam a revolução litúrgica.
Não restará mais, a partir desse tempo em que a derrota e a ocupação obscurecem a maioria dos espíritos, senão organizar as estruturas que realizaram a formação da grande massa e a conquista das estruturas eclesiais.
Viria então o tempo de um concílio que faria transbordar os diques, permitindo ao fluxo revolucionário varrer as formas seculares, ao mesmo tempo que o fruto do trabalho dos filhos de Dom Guéranger, a fim de impor a todos uma nova práxis para uma nova religião, a religião ecumênica de amanhã, a religião do Homem.
P.R.
(1) Temos o prazer de constatar que o trabalho começou: há vários números do boletim "Fideliter", o Padre Bonneterre iniciou uma visão geral das organizações e tendências que estiveram na origem da revolução litúrgica.
NOTAS DA ADMINISTRAÇÃO
RESULTADOS
O lançamento do primeiro Boletim gerou um bom número de assinaturas, cujo total agora excede o triplo do número inicial. Chegamos, assim, a apenas metade do que é necessário para alcançar o equilíbrio financeiro somente pelas assinaturas, o que é muito encorajador após um único número.
Deste fato decorrem duas conclusões:
1- Convém que cada assinante possa encontrar outro, o que não parece muito difícil dado o valor atual da assinatura; e a proximidade do Natal é talvez uma boa ocasião para pensar nos seus amigos...
2- Por outro lado, é preciso que aqueles dos nossos amigos que puderem continuem as suas contribuições de apoio, já que, por enquanto, elas ainda asseguram metade do nosso pequeno orçamento.
COMO NOS AJUDAR
Para além do aspecto financeiro, existem diversas formas de nos ajudar, de acordo com as possibilidades de cada um de vocês.
Listas de Endereços
A experiência é, na verdade, bastante decepcionante, com um rendimento muito baixo, menos de um em cada dez, para um custo elevado; além disso, este método amplamente praticado levou ao esgotamento rápido e lamentável do número um. Parece, portanto, inútil enviar longas listas e preferível escolher um ou dois nomes de pessoas realmente interessadas e contatadas com antecedência.
Venda Avulsa
Uma boa fórmula, pouco utilizada, é a venda avulsa no âmbito dos grupos existentes, saídas de missas, conferências. Peçam-nos um pequeno estoque de três ou cinco exemplares que serão pagos após a venda ser efetuada. Esta forma de proceder, materialmente rentável, tem sobretudo a vantagem de dar a conhecer o Boletim a pessoas que, sem isso, o ignorariam por muito mais tempo.
Correspondentes
Lembramos, por fim, que as pessoas que desejem associar-se de uma forma ou de outra ao nosso trabalho serão bem-vindas; que escrevam ao secretariado e, após acordo do Conselho de Direção, poderão tornar-se Correspondentes da Sociedade e colaborar regularmente conosco.
As tarefas são tantas – confecção do Boletim, prospecção, difusão, documentação, redação – que haverá trabalho para todos!
D.M.