# Cadernos Barruel 19 - 1989

# A REVOLUÇÃO SEXUAL, PEDRA ANGULAR DA REVOLUÇÃO - 1

##### IDEOLOGIA, ATORES E CÚMPLICES

Devolvendo Valéry Giscard d'Estaing a Chamalières, as eleições de 1981 deram a totalidade do poder republicano — Presidência, governo e maioria absoluta na Câmara dos Deputados — à União da Esquerda.

A tomada do poder pela associação PS-PC era o desfecho lógico do trabalho realizado em todos os níveis da sociedade por marxistas, maçons, ateus, materialistas e outros anticatólicos, aos quais o general De Gaulle havia aberto, em 1944, as portas das instituições nacionais, após uma guerra civil e uma depuração deliberadamente desejadas para atingir seus fins.

Esse governo marcou, por suas diversas leis, o ponto culminante da ação iniciada em 1789, para consumar definitivamente a transformação moral, social e econômica da França.

Em março de 1986, o conjunto RPR e UDF, classificado como direita pela terminologia republicana, retomou a direção do governo sob o olhar zombeteiro do presidente socialista.

Todos os homens responsáveis pelas leis promulgadas antes de 1981 e que se afirmavam herdeiros do General retornaram com força. Era ilusório pensar que daí resultaria uma mudança profunda.

Aplicando à economia ideias opostas às de seus antecessores, eles soltariam voluntariamente a presa pela sombra, interessando-se pelo acidental e negligenciando a razão fundamental do mal francês.

Certamente, a recuperação material do país se impunha, mas a necessidade primordial implicava o retorno aos princípios morais, mestres de obra de toda vida pessoal, social e econômica, que vinham sendo abalados, esquecidos e legalmente desrespeitados há dois séculos.

O propósito deste estudo é mostrar que não há outro remédio eficaz para a evolução catastrófica da grave doença de que sofre a sociedade francesa.

Primeiramente, será demonstrado por qual caminho ideológico os pensadores revolucionários chegaram à designação de seu único verdadeiro inimigo: a doutrina social da Igreja Católica e, mais precisamente, seu elemento fundamental, ou seja, a família matrimonial, centro de amor e fecundidade sob o olhar de Deus.

Ao aprofundar a análise, ficará claro que a mulher, destinada a tornar-se esposa e mãe, a ser o elemento religioso, aquele que liga entre si os membros da família, e a pedra angular da moral humana, sofreu e ainda sofre os mais fortes ataques.

Será necessário, então, enumerar os principais atores dessas manobras, intensificadas desde o início dos anos 40. Homens políticos, organismos oficiais, grupamentos e associações diversas, com impacto multiplicado pela mídia cúmplice, empenharam-se em manipular a opinião. A nova religião do Progresso, da liberdade... elaborou um discurso orquestrado pelas potências internacionais de toda ordem. A carência quase ativa das Igrejas Cristãs, responsáveis pelos princípios morais visados, facilitou a manipulação... O governo acompanhou!

Será possível, então, descrever e analisar as três fases da transformação do homem:

- a) reduzi-lo à animalidade: o Macaco;
- b) organizar o cativeiro e a criação do macaco, para chegar ao estágio final:
- c) morte do Homem e início da era do Macaco normalizado...

O que permitirá descobrir o remédio: que o Homem demonstre humildade diante de seu Criador e se comprometa voluntariamente a merecer por suas obras a Felicidade Eterna à qual está predestinado!

##### I – A IDEOLOGIA EM QUESTÃO

**A) Um pouco de história**

O que a Revolução havia produzido? Antoine Murat, em "*O Catolicismo Social na França*", traça um excelente panorama:

> *"A Sociedade Francesa... foi devastada de alto a baixo e substituída por um mundo novo: o mundo moderno. As instituições... desabaram de uma só vez. A realeza desapareceu. As províncias também. As corporações de ofício e as associações profissionais. Da mesma forma, a Igreja foi perseguida, arruinada.*
> 
> *Não apenas o soberano legítimo fora guilhotinado e os corpos intermediários destruídos, mas o direito privado também se tornara outro; as relações jurídicas pessoais ou familiares, profissionais ou sociais, já não eram as mesmas de antes de 1789... Doravante, todos os homens eram iguais em direito, todos eram irmãos e livres, sob pena de morte."*

O século XIX, regido por uma legislação de espírito individualista – da Declaração dos Direitos do Homem sem Deus... ao código napoleônico concebido, dizia Renan, para crianças abandonadas, destinadas a morrer solteiras – foi o do Liberalismo-Capitalismo que esmagava os assalariados indefesos e o ponto de partida das dinastias burguesas e financeiras. Em nome da Liberdade!

Nascido entre 1830 e 1835, o Socialismo, de Saint-Simon a Proudhon, passando por Fournier, Blanc e outros pensadores, tornou-se marxista por volta de 1869 e começou a conquistar a classe operária.

Desde o início do século atual, radicais, radicais-socialistas, socialistas dos quais surgiriam, no final de 1920, os comunistas, confessaram abertamente sua motivação principal: a luta antirreligiosa. Deus havia se tornado o inimigo pessoal de cada discípulo de 1789.

Todos os pensamentos e ações dos políticos adeptos dessas ideias, ajudados por seus cúmplices da Maçonaria, das finanças internacionais judaica e protestante, da indústria e da burguesia do capitalismo desenfreado, convergiriam, prioritariamente, para a luta contra a verdadeira religião, a de Nosso Senhor Jesus Cristo.

**B) Uma ideia satânica**

Foi o italiano Antonio Gramsci (1891-1937) quem, primeiro, destacou a importância fundamental da modificação da natureza do Homem, através da transformação do que ele chama de "aparelho civil", ou seja, o conjunto de tradições – cultura – costumes.

G. Duhamel também compreendera bem a importância dessa tática:

> *"Revolução? Sim; mas entenda bem: só há verdadeira revolução moral. Todo o resto é miséria, sangue desperdiçado, lágrimas vãs."*

**C) As vítimas designadas**

Visam-se, em primeiro lugar, as tradições e a cultura alinhadas à religião católica, impregnadas dessas diretrizes, que fixam em nosso país a lei moral (regra de vida) à qual os costumes (o modo de viver) devem se conformar.

Essa moral tradicional francesa ultrapassa o social, os costumes e transcende o Homem, pois é "*vivificada e coroada pela obediência a um apelo superior, o da moral religiosa, fundada no Amor a Deus e ao próximo.*" (THIBON G.)

É justamente contra essa moral que lutam, por motivos imediatos diferentes, os inimigos da Fé Católica Romana e, para o esmagamento e desaparecimento da única religião com doutrina social ensinada e proclamada, eles percorrem um caminho mais ou menos longo com os marxistas, inimigos do Homem.

Estes últimos sempre afirmaram, em seu próprio estilo:

> "*Até agora, a moral sempre foi a expressão do ser alienado do Homem, isto é, da práxis humana enquanto não é senhora de si mesma.*" (CORZ, comunista).
> 
> "*Repudiamos toda moralidade de inspiração estranha à humanidade. Dizemos que não passam de mentiras, enganos... Nossa moralidade se deduz dos interesses da luta de classes do proletariado... Dizemos: é moral o que contribui para a destruição da velha sociedade de exploradores.*" (LENINE).
> 
> "*Repudiamos toda moralidade que não venha de conceitos humanos... Não acreditamos em uma moralidade eterna*." (LENINE).
> 
> "*O revolucionário despreza e odeia toda moral*." (BAKUNIN).
> 
> "*Para negar a divindade, é preciso afirmar o Homem, sua força e sua liberdade. Quanto à família, a repudiamos com todas as nossas forças em nome da emancipação da humanidade.*" (YEZINIER).

A família a ser destruída é bem a família cristã,

> "*célula primeira e vital da Sociedade", tendo "laços orgânicos e vitais com a Sociedade porque constitui seu fundamento e a sustenta incessantemente ao realizar seu serviço à vida. É no seio da família, de fato, que nascem os cidadãos e é na família que eles fazem a primeira aprendizagem das virtudes sociais que são, para a sociedade, a alma de sua vida e de seu desenvolvimento.*" S.S. João Paulo II

A família a ser destruída é a família cristã, concretização da sã concepção do Amor Humano,

> "*enquadramento do impulso carnal por um complexo de emoções e sentimentos: ternura, entusiasmo, doação de si, necessidade de intimidade e de trocas em todos os planos, que concerne à alma infinitamente mais do que ao corpo.*" (Gustave THIBON)

**D) Corromper a Mulher para Libertar o Sexo**

Gramsci afina a tática. Em seu discurso sobre a moral burguesa e a elaboração de uma nova ética, ele aborda o problema da sexualidade. Desejando destruir as formas de civilização presentes que "*apenas refletem a visão própria do catolicismo*", ele aponta o ponto fraco da armadura: as relações sexuais e, no casal, ele faz recair o ataque sobre o elemento fundamental: a mulher:

> "*A questão ético-civil mais importante ligada à questão sexual é a da formação de uma nova personalidade feminina. Enquanto a mulher não alcançar não apenas uma real independência frente ao homem, mas uma nova maneira de conceber a si mesma e seu papel nas relações sexuais... a situação não evoluirá a favor da revolução!"*

Eis, portanto, a ideia geral: libertação completa da sexualidade humana e, mais precisamente, fazer a mulher tomar consciência da necessidade de usufruir livremente de suas possibilidades sexuais... O prazer físico - no amor humano - manifestação da Bondade de Deus, em um ato cometido para o cumprimento do "*Crescei e multiplicai-vos*" pelo Homem destinado a "*louvar, honrar e servir*" seu criador - desviado em meio de servidão e queda... Que satisfação para o anjo rebelde. Nada de surpreendente que aquele que foi vencido por uma mulher inspire a seus sequazes, à tradição revolucionária, o ódio à mulher, eminente símbolo católico pelas três missões que o Criador inscreveu em sua natureza:

- missão de maternidade física ou espiritual por seu organismo e, mais ainda, por seu espírito e sua requintada sensibilidade (Pio XII);
- missão de esposa (Eclesiastes);
- missão religiosa e missão de autoridade: ser o elemento que une entre si os membros da família; ser o sol da família pela clareza de seu olhar e o calor de sua palavra (Pio XII) para exercer incessantemente sua influência, a autoridade do amor... pois é por ela, em última análise, que a família se eleva ou, ao contrário, declina.

Essa tradição revolucionária são os Enciclopedistas, apologetas incondicionais do prazer e da rejeição de toda moral - é um dos seus, Helvetius (1715-1771), retomando em seus discursos o ideal do bom selvagem e preconizando a mulher disponível para todos - é, em agosto de 1838, um membro da Alta Venda, seita maçônica italiana, enunciando os meios próprios para destruir a moral: corromper o clero... popularizar o vício na multidão... corromper a mulher - é o objetivo reconhecido pelos zeladores da escola laica e republicana: o primeiro autor da lei que criou os liceus de moças, Camille Séé, declarou que a obra de descristianização da França só obteria pleno sucesso quando todas as mulheres tivessem recebido a educação laica... É o objetivo da Maçonaria e, mais precisamente, do Grande Oriente: em seu convento de 1900, ele encaminhou ao estudo das lojas a busca dos meios mais eficazes para estabelecer a influência das ideias maçônicas sobre a mulher...

Em janeiro de 1906, o Padre Bienvenu Hartin declarava:

> *"Viajo muito por uma causa que tenho profundamente no coração, a educação das jovens... arrancaremos a mulher do convento e da Igreja. O homem faz a lei, a mulher faz os costumes."*

E Jules Ferry:

> *"Quem detém a mulher detém tudo; primeiro porque detém a criança, depois porque detém o marido."*

Já em 1924, no *Humanité* de 8 de novembro, P. Sémard precisava:

> *"Os comunistas desejam que a mulher se liberte o mais rápido possível do seu lar; que ela só vivencie a maternidade de forma consciente e racional."*

O trabalho se fazia lentamente – sob o olhar cego do poder supostamente antimarxista. A explosão ocorreu já nos anos 1950, quando a mídia se lançou na batalha pública.

*Paris-Presse* de 13 de fevereiro de 1950:

> *"Numa democracia digna desse nome, a mulher é e permanece livre para dispor de sua pessoa... A mulher é senhora do seu corpo. O governo deve reconhecer oficialmente a contracepção..."*

E em 1967, a *Look-Magazine* de 25 de julho aplaudia o sucesso da pílula: "*a mulher poderá ter o comportamento sexual de um homem.*"

Todas as feministas desvirtuadas estavam na alegria. Uma de suas líderes, a Senhora Simone de Beauvoir, mostrava-lhes de forma blasfema o obscurantismo do catolicismo ao condenar Nossa Senhora:

> *"Pela primeira vez, na história da humanidade, a mãe se ajoelha diante do filho e reconhece livremente sua inferioridade: é a suprema vitória masculina que se consome no culto a Maria."*

A náusea está próxima, é preciso parar as citações.

É preciso constatar que os marxistas e seus cúmplices souberam bem aproveitar a moda ambiente: sucesso das teorias freudianas na educação e na psiquiatria-psicanálise, e usar a fragilidade do Homem entregue a si mesmo diante das tentações sexuais.

O sexo... a carne sempre foi, é sempre o calcanhar de Aquiles do Homem e o fator mais importante de um desequilíbrio que pode levar a uma queda definitiva:

> *"O desequilíbrio pode ser mais sutil e mais profundo. Pode vir de um apelo cada vez mais exclusivo à afetividade, à sensibilidade, em detrimento da inteligência, da vontade e da razão. Pode vir, no seio da sensibilidade, do recurso exclusivo a um setor da sensibilidade. Nada é mais fundamental que a LIBIDO; o ser humano é muito mais profundamente sexuado do que qualquer ser vivo; o apelo do nosso ser ao ser complementar, a outra metade de nós mesmos, é tanto mais pungente quanto nosso grande cérebro nos oferece, na ordem da UBRIS do SAPIENS-DEMENS (Ed. Morin), uma infinidade de fugas, projeções, transposições... o erótico deve ser controlado. Disso depende nosso equilíbrio, nossa felicidade e as possibilidades de prazer que nos oferece essa estrutura frágil do nosso ser. O erótico é o fator privilegiado, quase caricatural, do auto-asfixiamento. Os transbordamentos sexuais são, portanto, um sintoma quase constante das fases de decadência."*

O historiador cristão confirma o fundamento da tática anti-sociedade cristã: liberar o sexo, admitir todas as depravações consideradas como outra forma de amor, dar autonomia à mulher... a igualdade quantitativa com o homem e a civilização cristã desaparecerá, dando lugar a um caos. E esse caos será a condição ideal para que o poder oculto (que comanda toda esta transformação) possa, em seguida, restaurar a ordem segundo os seus próprios termos.

##### II - OS PRINCIPAIS ATORES E CÚMPLICES

Esse poder interessado nessa reviravolta compreende um conjunto de agrupamentos e organismos, parecendo sempre diferentes, opostos na maioria das vezes para enganar o bom povo! Trabalhando há muito tempo, adquiriram uma situação quase oficial desde a libertação de 1945. A eliminação organizada do que se convencionou chamar de direita católica e nacional, a participação no governo dos social comunistas, o poder dos católicos de esquerda "*uma das mais abomináveis obras-primas do mundo contemporâneo*", facilitaram e oficializaram a intoxicação da massa. A pequena maioria de 1981, que permitiu a aceleração do processo de subversão, é o resultado numérico – visível – dos esforços realizados.

É preciso tentar reconhecer os principais atores da criação do consenso, que, além da mudança, engajaram a nação francesa numa ladeira mais perigosa! bem antes de 1981.

**A) Em nível nacional, primeiramente**

**1. Os homens**

Em primeiro lugar, os políticos.

Não pode ser ignorado o pensamento do Presidente V. Giscard d'Estaing: em 18 de dezembro de 1974, diante de 190 cientistas representantes de 19 países reunidos em colóquio sobre Biologia e o Devir do Homem... ele insistiu na necessidade de instaurar uma moral da espécie, conforme os desejos dos participantes levados a considerar que aos novos poderes da Ciência devem corresponder novos deveres do Homem.

Proposições eugenistas, estilo nova direita... confirmadas na entrevista do futuro candidato derrotado por Mitterrand no Figaro-Magazine de 28 de fevereiro de 1981:

> *"... O objetivo fundamental é a liberdade em todos os domínios... minha grande esperança... uma nova civilização. Certos sinais me parecem encorajadores... O renascimento espiritual e cultural... a vitalidade demográfica e biológica que se afirma na juventude francesa... uma recuperação da curva demográfica..."*

Onde o Presidente obtinha suas informações? E que habilidade na desinformação!

Michel Poniatowski, no livro que teve a franqueza ou o cinismo de intitular: "*Conduzir a Mudança*", afirma sua fé em um homem materialista, voluntarista... em marcha rumo a um devir primo-irmão dos amanhãs que cantam:

> "*O Homem sabe que hoje não existem certezas absolutas fora de sua própria realidade e das verdades provisórias que tenta definir para responder, a cada época da história, a problemas imprevistos e novos. Ele precisa encontrar em si mesmo, e suas fés, e suas doutrinas e suas vontades de futuro. Ele deve aprender até mesmo a espiritualizar sua própria ação.*"

Em sequência e como exemplo, os jornalistas ouvidos aplaudiram e aumentaram a aposta. Assim Louis Pauwels - membro do G.R.E.C.E., diretor e editorialista do Figaro-Magazine:

> "*Creio na liberdade absoluta do homem; creio que sou, se eu quiser, mestre de minhas representações, e que assim o Bem e o Mal dependem de mim.*"

Os políticos de escalão inferior ecoaram em coro. O chefe do M.R.G. Roger-Gérard Schwartzenberg definia o liberalismo do poder, o engajava a continuar e anunciava a política social do governo rosa-vermelho:

> "*O Liberalismo é, antes de tudo, a não ingerência do Estado na vida privada, o respeito a uma esfera individual onde cada um obedece à sua própria consciência... Desde que não firam a liberdade alheia, desde que não perturbem a ordem pública, os comportamentos pessoais são da alçada do livre-arbítrio...*
> 
> *O Estado liberal não pode ser um censor dos costumes, um diretor de consciência que profere interditos, que professa dogmas...*
> 
> *A Democracia liberal implica... uma sociedade tolerante, permissiva e, portanto, pluralista. Ao invés de impor um modelo único de comportamento, ela admite o direito à diferença, à variação, até mesmo ao desvio...*
> 
> *Os textos (de V.G.E.) sobre o aborto, a contracepção e o divórcio vão nesse sentido. Eles não impõem a ninguém os tabus de ninguém. No mesmo caminho, poder-se-ia suprimir a repressão penal do adultério, aliás discriminatório para a mulher, e modificar os artigos do código relativos aos delitos sexuais...*"

Medalha de honra para Giscard, S. Weil, B. Pons, Neuworth, Lecanu e em breve a camisa amarela para a dupla Badinter-Defferre...

Em segundo lugar, os organismos oficiais cujos membros são na maioria das vezes nomeados pelo poder.

Assim o "Grupo 1985" constituído pelo Primeiro-Ministro no final de 1962, a fim de estudar, sob o ângulo dos fatos portadores de futuro, o que seria útil conhecer desde já sobre a França de 1985 para iluminar as orientações gerais do Plano.

Os Sábios disseram na época... entre outras palavras:

> *"Os valores da nossa sociedade podem ser livremente escolhidos..." "também é preciso resistir à tentação de tomar como valor tudo o que parece permanente e tranquilizador..." "A formação que os Homens receberão então... deverá... permitir-lhes aceder da melhor forma às felicidades possíveis..." "... A mobilidade deverá aplicar-se igualmente... às ideias, e os meios deverão ser encontrados para fazer desaparecer aquelas cuja desatualização dificulta o Progresso..."*

O relatório insiste em... "*a obrigação de uma revisão dos valores do Homem*."

Nada foi feito pelo governo em exercício - posteriormente retornado ao poder - para evitar essa deriva. Nada poderia ser feito quando se conhece os nomes dos Sábios, entre os quais duas personalidades socialistas: os Senhores Delors e Saint-Geours.

O Alto Comitê para a População e a Família, constituído da mesma forma para uma prospecção mais especializada, confirma a vontade dos Políticos, tomados em bloco, de fazer mudar o Homem:

> "*Ele não admite nem religião natural, nem moral evidente que se imponha ao Estado." Afirma de cem maneiras que "as leis, as regras, as referências a Deus, são apenas tabus, zonas de obscurantismo, superstições, fatalismo e tradicionalismo obtuso.*"

Ele pede ao governo "*que reconheça ao Homem como fim próprio, autônomo e suficiente, a Fruição, a regra do bem prazer...: deixar o Homem aceder a todas as satisfações e a todos os prazeres cobiçados.*"

O Presidente V.G.E., Chirac e seus partidos deixaram acontecer, fizeram a revolução moral, aquela que coloca uma nação nas mãos do Marxismo...

Primeiramente, ocorreu uma verdadeira eclosão de Associações e movimentos que se diziam representantes da vontade popular, mas praticamente os únicos a receber ajuda da mídia:

A Seção Francesa do Planejamento Familiar, criada em 1956 pela Doutora Marie-André Lagroua-Weill-Hallé, sob a denominação de "Maternidade Feliz"; viúva do professor de medicina Benjamin W. H., membro do P.C., ex-Presidente do Conselho Mundial da Paz, Satélite de Moscou.

Fizeram parte do Conselho Fundador:

A Senhora Evelyne Baylet, nascida Isaac, Diretora e patroa do Dépêche du Midi (Toulouse), influente entre os radicais e no P.S.;

O Doutor Pierre Simon, que foi conselheiro do Ministro Boulin na Saúde; o Senhor Richard Dupuy. Ambos foram Grão-Mestre da Grande Loja da França.

Françoise Giroud, pseudônimo de Grance Gougi, esposa Eliachef, criadora da revista "Elle", ex-diretora do Express;

Clara Malraux, nascida Goldschmidt; Daniel Mayer, ex-presidente da Liga dos Direitos Humanos; Dr. Bernard Muldworf, psiquiatra, membro do Comitê Central do Partido Comunista.

- "Choisir" criado em 1971: Gisèle Halimi e Simone de Beauvoir.
- Movimento pela Liberdade do Aborto e da Contracepção. O MLAC com Simone IFF, que foi conselheira do Ministro Roudy.
- Movimento de Libertação da Mulher, secção francesa com Simone de Beauvoir e B. Groult.
- Associação Nacional para o Estudo do Aborto, criada em 1969 por M. Dourien-Rollier Anne-Marie, onde se reúnem maçons, judeus, protestantes e católicos...
- A Liga pelo Aborto, que exigia a aplicação da lei Veil-Pelletier: obrigação de abortar para os médicos dos hospitais estatais, a abertura generalizada de Centros de Ortogenia, a publicidade e informação contraceptivas, a cobertura do I.V.G. pela Segurança Social, o que foi conseguido.
- A Associação para a Esterilização Voluntária, criada em 1975 por A.M. Dourien-Rollier.
- A Associação de Médicos pela Eutanásia...
- A Associação pelo Direito de Morrer com Dignidade, fundada e presidida pelo ex-senador Caillavet.

Em novembro de 1987, encomendou uma pesquisa à SOFRES. Os resultados são favoráveis à Associação e fornecem argumentos para a ação política do defensor da eutanásia, o Dr. Schwarzenberg, oncologista em Villejuif.

- A Associação para a Prevenção da Infância Deficiente. Acaba de se colocar sob os holofotes da mídia ao pedir à Assembleia que vote uma lei autorizando a eliminação de recém-nascidos... deficientes!

**A Mídia e Laboratórios... interessados:**

Paralelamente, ocorria a inundação do mercado por uma imprensa e um cinema controlados pelo capital judaico-protestante e obedecendo às diretrizes vindas dos grupos pró-Moscou dos EUA, realizando uma enorme campanha para "*fazer desaparecer todas as leis que refreiam a obscenidade, chamando-as de censura e violação da liberdade de expressão e de imprensa; abaixar os padrões morais incentivando a pornografia e a obscenidade em livros, revistas ilustradas, cinema, rádio e TV; apresentar a homossexualidade e a promiscuidade dos sexos como normais, naturais e benéficas para a saúde; desacreditar a família como instituição; favorecer o amor livre e facilitar o divórcio; destacar a necessidade de criar filhos longe da influência limitadora dos pais; atribuir os preconceitos, bloqueios e atrasos das crianças à influência repressiva dos pais.*"

Destacaram-se especialmente:

O grupo FILIPACCHI, editora, com Jacques Lanzmann, Meyerstein dos discos POLYDOR... e Silvain Poirat, ex-chefe da Matra e Europe 1. Publica a versão francesa da Play Boy, a União animada pelo Dr. Meignant, responsável pelo Curso de Sexologia na universidade de Vincennes (Presidente Claude Frioux do P.C.), os livros de Emmanuel Arsan e Lui;

O truste Hachette, com sua Enciclopédia Sexual em cinco volumes;

O grupo PROUVOST, presidente-diretor-geral da "Lainière" de Roubaix, patrão da R.T.L., associado à BEGHIN (Açúcar e Papéis-Lotus), que publica as revistas PAIS, SENHORITA e COSMOPOLITAN... com o apoio do Banco Dreyfus...

Para os produtores de filmes: LUSOFRANCE, um israelita marroquino José Benazeraf... A S.A.R.L. HUSTAIX... A distribuição é feita pela Sociedade N. dos Estabelecimentos Gaumont, onde encontramos Beghin e Schneider; PARAFRANCE, da Paramount; a CAPAC, de Elie de Rothschild, e a COCCINAR, do israelita Tenoudji.

A fortuna errante encontrava a oportunidade de investir na Ciência... para fazer progredir as técnicas genéticas (manipulações, diagnósticos...), as técnicas de fecundação e culturas embrionárias; de conservação de genes... supostamente para fins humanitários, mas também para acelerar a morte da moral tradicional e a animalização do Amor...

Um dos mais importantes laboratórios foi criado em 1980-1981, a TRANSGENE, em Estrasburgo, uma sociedade de pesquisa e desenvolvimento em biotecnologia. Os participantes são: o Banco Nacionalizado ParisBas, a B.S.N. Gervais-Danone de Riboud, muito próxima do P.S., a Sociedade Nacional Elf-Aquitaine e seu laboratório Sanofi e a Moët-Hennessy, com 75% do capital. O restante é dividido entre os laboratórios estatais: Pasteur, C.N.R.S., I.N.R.A., I.N.S.A. O CNRS foi reformado por Chevènement, ministro da Educação em 1984.

Numerosas outras unidades, menores, funcionam no mesmo sentido:

O C.E.C.O.S. (Centro de Estudo e Conservação do Sêmen Humano), do Professor G.David, O F.H.R. (Fundo de Pesquisa em Hormologia), O C.E.F.E.R. (Centro de Exploração Funcional e de Estudo da Reprodução), em Marselha,

O monopólio praticamente estatal sobre o Rádio e a Televisão, as estações periféricas controladas pelo dinheiro, uma enorme maioria dos jornais e revistas coagidos pela publicidade e pelas subvenções a obedecer, o sindicato do livro C.G.T. vigiando tudo; as técnicas modernas de difusão da informação audiovisual desempenharam plenamente seu papel de cúmplices multiplicadores!

"*Sob pretexto de liberdade de expressão... uma máfia do livro, do teatro e do filme que visa o leitor e o espectador pelo mais baixo... enriquece-se da maneira mais sórdida às custas do aviltamento das consciências e das crianças.*"

A privatização da TF1, realizada em 1987, ou seja, a passagem oficializada do canal sob a batuta do grande capital internacional, não mudou nada. É a confirmação visível da conluio existente, infelizmente natural, entre o ouro e a amoralidade!

**2. Meios psicológicos utilizados**

Enganos e falsificações de todos os tipos Editores, laboratórios, capitalistas... representam a revolução sexual direta, sensível.

Mas jornalistas, homens de Estado, políticos e cientistas aprovados pelo poder e pela mídia vigente multiplicaram a força e o impacto sobre o indivíduo das imagens, das palavras e dos textos, usando livremente meios tanto mais perniciosos porque apelavam para a não-informação, a desinformação, a manipulação de dados numéricos e a mentira. E isso continua!

Por exemplo, foi através de uma campanha de aculturação manipuladora, sem precedentes na história, que se espalhou em escala planetária, desde 1965, o arsenal anticoncepcional e antinatal.

Simultaneamente na França, foi feita uma publicidade estrondosa ao relatório realizado pelo Dr. Pierre Simon, J. Goudonneau, L. Mozoner e Anne-Marie Dourien-Rollier para o Movimento Planejamento Familiar (execução pelo I.F.O.P. em 1971) sobre o comportamento sexual dos franceses.

Se a esse tipo de questionário respondem apenas indivíduos bastante particulares, o prefácio assinado pelo Ministro da Saúde Robert Boulin oficializou a filosofia do texto de acompanhamento e facilitou sua penetração no espírito do público: tratava-se de construir e denunciar a priori um inimigo artificial: o mito de uma sociedade patriarcal e tradicional, repressiva, capitalista, alienante, inspirada por um judaico-cristianismo caricaturado.

As estatísticas relativas, por um lado, ao número de abortos e, por outro, aos números da população mundial e francesa foram falsificadas. Números de abortos clandestinos multiplicados por 3 ou 4 antes da votação da lei Veil, o termo desaparecendo pudicamente para se tornar I.V.G. - Os números oficiais do Ministério da Saúde referentes ao IVG foram divididos por 2 e o número de abortos clandestinos ou realizados na Inglaterra foi escandalosamente aumentado para exigir publicidade, abertura generalizada de Centros de Ortogenia e reembolso das despesas pela Seguridade Social para que os pobres pudessem usufruir da lei.

Quanto à mentira demográfica: para interromper os nascimentos no Ocidente, apresentações televisivas de imagens terríveis... e anunciadas pela ONU as previsões para o ano 2000, ou seja, 6690 milhões de homens tornando-se 15820 milhões em 2100. Prospecção implicando fome para toda a humanidade... Utilização de dados locais para cálculos em escala mundial e esquecimento voluntário de mencionar os números exatos da densidade humana nas regiões visadas: 11 habitantes por km² na África e 14 na América do Sul.

Na mesma ótica, foi silenciado o resultado da campanha malthusiana:

> *"O quarto mais industrializado da terra e as elites do terceiro mundo viram sua taxa de fecundidade cair pela metade..., a população em expectativa de vida desses setores havia diminuído tanto... que a humanidade desenvolvida não pode mais esperar sobreviver, sem, no sentido literal, um choque e um arrependimento."*

As Mídias utilizaram os progressos realizados pelas diferentes ciências e tecnologias para erigir esse Progresso em uma verdadeira religião moderna. O Deus Progresso assegurando a seus fiéis a felicidade... a saúde... e a imensa satisfação para o homem hoje de se acreditar moralmente superior a seus predecessores!

**A religião do Progresso ou**

**O mito do Progresso científico indefinido... que seria igualmente Progresso humano...!**

O Homem tornado cada vez mais poderoso, o Homo Faber, imagina que conseguirá amanhã a perfeita e total dominação sobre a Natureza, do cosmos ao menor ser vivo e sobre sua natureza biológica... O *Eritis sicut Dei* finalmente realizável... todos os poderes... e a imortalidade... *Homo Creator*!

A origem dessa ideologia encontra-se na obra do Jesuíta Teilhard de Chardin, cientista paleontólogo e pró-darwinista. Para o escritor colocado no Índice por Roma, *"se o Homem ainda não é Deus, é porque Deus não está na origem onde o animal precede o homem e onde a matéria inerte precede a Vida, mas que Deus está no fim do Progresso sem fim... É um Deus que se faz, que se cria a si mesmo pela evolução. Deus não é mais criador, mas o Homem em sua ascensão reencontra e se confunde com Deus.*"

É fácil entender por quais motivos, após a morte do grande homem, suas obras... mesmo póstumas foram publicadas pela rede Racionalistas - Ateus - Judeus e Maçons..

**A religião do Progresso tende a se tornar totalitária.**

A utilização dialética do aumento real e benéfico do poder da Ciência permitiu-lhe adquirir não apenas a autonomia em relação à filosofia do Ser, do Conhecimento do Sentido da vida, mas ainda se dissociar completamente dela e se opor aos dogmas da Religião Revelada:

> *"O Conhecimento científico, manejado por filósofos que ainda se acreditam sábios (e reciprocamente) tem uma visão do mundo... que é absurda acessoriamente, e, fundamentalmente, quando se toma consciência dela, invivível."*

A dissociação levou o orgulho dos aprendizes de feiticeiro a uma formulação dogmática de sua gnose divulgada e imposta pela mídia: essa atitude levou Henri Fresquet a refutar o documento "*Personna Humana*" publicado em 1976 pelo Vaticano sobre a moral sexual, em um artigo do *Le Monde:*

> "*A psicologia, a medicina, a sociologia e o conjunto das Ciências Humanas se inscrevem em falso (contra a doutrina pontifícia)... Não é mais possível hoje elaborar teorias filosóficas e antropológicas independentemente dos conhecimentos experimentais*."

"*Esse verdadeiro terrorismo científico que nega um sentido à vida*", Pierre Chaunu nos dá a fórmula-chefe extraída de "A Lógica do Vivente" de François Jacob: "*Em todos os casos, é a reprodução que funciona como operador principal do mundo vivo.*"... Será preciso então tomar nas mãos e organizar essa reprodução, chave da criação humana, já que, continua a citação "*ela constitui um objetivo para cada organismo... e que ela orienta a história sem objetivo dos organismos.*"

Para serem um dia definitivamente senhores da reprodução necessária à conservação de seu rebanho humano, os conspiradores precisavam realizar a separação total entre o prazer sexual e a transmissão da vida. Generosos para com seu sucesso, os novos senhores atribuíram oficialmente ao homem desorientado um único objetivo: gozar, usufruir de todos os prazeres possíveis numa festa permanente, sendo o mais fácil de obter o prazer sexual.

Para criar um clima ainda mais favorável, a mídia e os cientistas uniram esforços para entusiasmar as pessoas. Do ocultamento do discurso sobre a morte, passando pelo arsenal, oh tão lucrativo, da farmácia em tranquilizantes e ansiolíticos, por todos os ritos do culto hedonista do corpo, chega-se à drogação sistemática dos doentes incuráveis, dos idosos para conduzi-los à morte sem apreensão, sem possibilidade de retorno sobre si mesmos... eutanásia da consciência... morte do Homem.

Em seguida, a esse corpo liberto de sua consciência – dando-se por comparação boa consciência – é oferecido todo um feixe de técnicas variadas para permitir-lhe acesso ao poder e a todos os prazeres; o prazer sexual permanecendo o mais importante e privilegiado. Antibióticos para doenças sexuais, diafragmas, DIUs, pílulas bloqueadoras da ovulação, a chamada pílula do dia seguinte dando boa consciência às usuárias não suficientemente evoluídas, pílula contraceptiva para homens, método Kharman de aborto... esterilização... e paralelamente, simultaneamente, cuidados com o corpo para conservar o mais longo possível a apetência e o apetite pelo prazer sexual.

As noções de casal, amor, filho varridas; o acasalamento organizado preferido ao investimento no futuro, à imortalidade através do filho.

A manobra deveria ter sido desmascarada, desacreditada, combatida e certamente votada ao fracasso se as Igrejas Cristãs tivessem feito seu dever, tivessem exercido sua função.

O que desesperou a massa cristã da Europa, o povo Católico da França, o que tornou seus homens e mulheres codéis à moda e às leis, foi:

**A demissão e a corrupção dos Clérigos**

Obcecados, seduzidos e subjugados pelo marxismo que descobriram depois de todo mundo, os CLÉRIGOS, acreditando-se encarregados de fazer avançar o universo, aceitaram muito rapidamente a predominância dos Direitos Humanos sem referência a Deus-Criador e debruçaram-se mais especialmente sobre o direito à felicidade pela sexualidade. Fizeram suas as teorias do dominicano Stephan Pfürtner, antigo professor de moral na Universidade de Friburgo (casado desde 1974), de um Cardonnel (casado), de um abade-médico Marc Oraison, de Monsenhor Joseph Roziers, Bispo de Poitiers, hoje falecido.

Se o abade é muito direto: "*A moral sexual da Igreja opõe-se ao direito fundamental do Homem à felicidade.*" O último empregava uma linguagem esotérica dirigindo-se aos iniciados da nova igreja:

> "*A referência a estabelecer entre a sexualidade e a Fé não deve situar-se num plano periférico onde se está condenado aos impasses do moralismo, mas num plano fundamental que é o da busca de significado. Essa referência poderia formular-se na seguinte proposição: Jesus Cristo é aquele em quem o Verbo se fez carne. Ele é também Aquele em quem a carne é chamada a fazer-se verbo... A carne é tomada como o englobante de todas as dimensões da corporalidade e dos valores de encarnação que se prendem à condição humana... Que se faz significar à carne, à sexualidade? Eis todo o problema. A sexualidade, a esse nível, aparece como uma linguagem onde o homem expressa, revela algo do que ele é e do que é chamado a ser.*"

Muito impregnada de Freudismo e de psicanálise, uma parte agente da Igreja Católica recusou a mensagem dos Papas e fez-se apóstolo zeloso da aplicação libertária do "*Ama e faze o que quiseres*" de Santo Agostinho.

Foi assim que foi significado aos Cristãos e a todos que seguem mais ou menos os mesmos princípios, o fim da função das Igrejas que é dar aos homens "*uma resposta total, coerente, integrante de todas as dificuldades da existência... imutável como a verdade, apesar da infinita densidade de uma expressão sem cessar reajustada à riqueza, à diversidade do discurso humano.*"

Esse abandono, essa recusa de ensinar, dobrados de uma renúncia, ocorre "*no momento em que o mundo doente de mutação pedia intensamente às Igrejas uma mensagem imutável, uma afirmação da Transcendência, da Encarnação... que se situa fora do tempo; no além das aparências onde tantos homens sentem obscuramente e seguramente, hoje como ontem, que alguém os espera.*"

Da marxização dos movimentos de Ação Católica (operária, agrícola, estudantil...) aos sovietes diocesanos do Cardeal Etchegaray (Presente n° 59), passando pela participação de um padre no bureau nacional da C.G.T., a revolução ganhou para sua causa uma grande parte da Igreja e sua hierarquia paralela.

Mais precisamente, a Igreja da França, como todas as da Europa, tornou-se parte premente e operante na revolução sexual. Ela retoma para si a palavra do monge mexicano Ivan Illich ("Libertar o futuro - 1971"):

> *"Creio que, no mundo moderno, a função da Igreja, a função específica, é a celebração cristã da experiência da mudança."*

Indo até o fim de seu abandono, ela proclama sob a pena do Padre Antoine Delzant, responsável pelo Centro de Pastoral dos Sacramentos do Arcebispado de Paris:

> *"... Devemos abandonar a noção de Virtude, Justiça, Bem, Verdade, Ser... para só guardar as noções de relação e de devir: a adaptação e a mudança perpétua."*

O que pretende então mudar, ao dar seu aval a todos os seus inimigos, esta Igreja da França em crise de modernismo? Como seus cúmplices, ela ataca as bases do Amor Humano que N.S. Jesus Cristo havia definido e que os sucessores de Pedro sempre afirmaram.

> *"A coerência, ao longo de 2000 anos, de um sistema que liberta o Homem e a Mulher ao limitar ao estrito núcleo conjugal a relação interpessoal privilegiada e que assume a segurança recíproca necessária ao desenvolvimento das pessoas pela sacralização do núcleo matrimonial e da relação que ele permite."*
> 
> *"... a aceitação da herança é, aqui como em outros lugares, a condição do progresso... Ora, a herança é o casal estável, uma sexualidade ligada ao amor numa relação que se realiza totalmente na continuidade da vida..."*

Essa MORAL SEXUAL estabeleceu-se na Idade Média, de 1100-1150 a 1700-1750.

> *"Essa conquista não é resultado de algo imposto de fora pela Igreja, de uma Igreja estupidamente confundida com o estado clerical, como se a Igreja não fosse a totalidade dos batizados, mas sim o fato de uma grande reivindicação do pequeno povo leigo..."*

Em 5 a 600 anos, os Homens e as Mulheres gradualmente extraíram livremente os princípios de uma Ética do Amor Humano:

> *"O primado da Virgindade, sinal da absoluta disponibilidade...*
> 
> - *a ascética da adolescência e da juventude, um longo celibato educativo...*
> - *a aceitação do ato sexual no casamento para seu fim procriativo essencial, mas sem exaltação particular...*
> - *concessão sobre o casamento dos estéreis, sobre as relações infecundas em tempo de gravidez...*
> - *a recusa do ato sexual interrompido...*
> - *a fortiori, a recusa da pharmakeia, aborto..."*
> 
> *"Em cinco séculos, um sistema se consolidou que se identifica com a cristandade latina tradicional do mundo pleno e que marcou profundamente, até o horizonte dos anos 1960, nossos comportamentos; um sistema que, secularizado, transformado, midiatizado, acabou por, através da aculturação, impor-se ao conjunto do universo."*

Isso se traduziu, além disso, no sistema familiar cristão pela realização de uma "*igualdade dos sexos que nunca foi alcançada em outro lugar*" e na vocação educativa da nova estrutura familiar onde se percebe o sentido exato da vida e da morte:

> *"O desejo de sucesso da criança, de sua ascensão a um mundo melhor, é a condição de uma certa resignação, mesmo secularizada, à morte, a condição do fundamental ascetismo na duração. O laboratório da afetividade familiar permite o sacrifício da ilusão do presente em prol do tangível do futuro. Inversão capital, ela é a chave de uma condição de Homem verdadeiramente Homem."*

##### B) No nível internacional

Essa destruição do Homem é dirigida, supervisionada, orquestrada a nível internacional por potências supranacionais que, nas outras nações, fazem executar o mesmo trabalho por seus sequazes, mas de uma forma adaptada às características próprias dos habitantes. O esforço é muito menos intenso nos países de religião reformada e nos países nórdicos que permaneceram paganizados do que nas nações impregnadas pela fé católica: Portugal, Espanha, Itália e França!

Foi sob a égide do protestantismo que se fundou na Inglaterra (1717) a primeira loja maçônica, mãe de todas as outras.

Foi no meio anglo-americano que, no início, se cooptaram os homens e as mulheres decididos a travar o combate contra a Igreja de Roma e sua doutrina social... contra os direitos de Deus!

Os adeptos franceses agruparam-se na Grande Loja da França (1771), da qual mais tarde se separaram os mais virulentos para formar o Grande Oriente.

Portanto, foi a Gnose, e particularmente a de Adam Weishaupt, fundador da Ordem dos Illuminati da Baviera, que forneceu as ideias e o plano geral de ação a todos os atores dessa primeira fase.

O resultado será a Revolução Francesa, simples momento da história a ser registrado, que permitiu a eliminação dos católicos capetianos do governo da França.

Os novos ocupantes da América do Norte (quakers, protestantes, puritanos...) deixar-se-ão facilmente aliciar. Industriais, magnatas da imprensa, políticos, diplomatas e banqueiros povoaram as lojas e outros organismos. Os judeus, sempre preocupados com sua especificidade, agruparam-se desde 1843 na obediência dos B'Naï B'rith (os Filhos da Aliança).

As ideias desenvolvidas em todos esses meios eram as de apoio ao socialo-marxismo, à democracia social, ao pacifismo, tudo misturado com ateísmo e materialismo. Tratava-se de "*preparar os Estados Unidos, não apenas da Europa, mas de toda a terra*" (Convento F.M. de 1893) e realizar assim "*a grande república continental*" cara ao Mago Hugo.

O objetivo assim afirmado não era o anticatolicismo por excelência? Curvar, por todos os meios, a humanidade inteira sob a vara de algumas centenas de iniciados de alto grau era bem o método satânico que deveria ser aplicado para fazer fracassar a Realeza de Amor de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para esse combate, diversos agrupamentos surgiram no mundo anglo-saxão. Serão assinaladas, aqui, apenas as sociedades mais conhecidas – isto é, as menos secretas e as mais antigas, origem de todas as seguintes, distribuídas pelo mundo inteiro e adaptadas às populações locais, entre as quais é preciso citar as criações mais recentes: Bilderberg (1954), Pugwash (1955) e Trilateral (1973). Nessas, sentam-se notáveis políticos, economistas, industriais e banqueiros franceses de todas as obediências políticas.

Aos leitores interessados, desejosos de aprofundar seus conhecimentos, as obras dos senhores Jacques Bordiot, Henry Coston e Yann Moncombre trarão todas as informações desejáveis.

Foi primeiramente a muito socializante Sociedade Fabiana em 1884, ainda em atividade, cuja membro Sra. J. Addams obteve em 1931 o Prêmio Nobel da Paz.

Depois, retomando as ideias de John Ruskin, socialista imbuído de platonismo, o industrial e capitalista Cecil Rhodes, associado a banqueiros judeus, incluindo Rothschild, fundou em 1902 a Pilgrim Society. Ao mesmo tempo, graças ao seu financiamento, nascia a *ROUND TABLE*, da qual sairia em 1919 o Royal Institute of International Affairs (R.I.I.A.) de Londres e o Council on Foreign Relations (C.F.R.) nos EUA, autônomo em 1921.

Financeiros judeus e filossocialistas participaram ativamente da eliminação do católico Habsburgo e da substituição do ortodoxo Romanov pelos Bolcheviques, sempre considerados parceiros úteis.

Essas sociedades, mais ou menos secretas, espalharam-se nas zonas de influência anglo-saxãs e depois atacaram o velho continente.

Muito rapidamente, pois muito poderosas financeiramente, os iniciados e seus asseclas assumiram a direção dos diversos sistemas nacionais existentes, todos socialistas ou democrata-socialistas, dos grandes organismos europeus, incluindo a C.E.E., ou internacionais, da ONU ao Fundo Monetário Internacional.

Era lógico que todos tomassem para si a revolução sexual, pedra angular da subversão da moral cristã.

Desde muito tempo, a alta finança apátrida, principalmente protestante e judia, através das múltiplas fundações Carnegie, Rockefeller, financiava, organizava, orientava as Universidades e os Grandes Institutos de Pesquisa farmacêutica, genética, embriológica, médica e cirúrgica.

Todos os grupos malthusianos internacionais, do protestante Conselho Populacional ao Planejamento Familiar, foram apoiados financeira e politicamente...

A ONU difundiu diretrizes precisas e financiou campanhas de intervenção em países populosos do Terceiro Mundo que serviram como cobaias, de Porto Rico à Índia.

A OMS, em uma declaração oficial, afirmou os novos direitos sexuais:

> *"Cada um tem o direito de considerar a sexualidade tanto na perspectiva do prazer quanto na da procriação... "lamenta que a noção de pecado ligada à sexualidade-prazer culpe os usuários dos métodos contraceptivos... "destaca que os tabus e os mitos, a vergonha ou o segredo que atingem o fato sexual são importantes obstáculos à educação nessa matéria..."*

A UNESCO, criada em 1946 por iniciativa da Sociedade Fabiana, teve como primeiro Presidente Léon Blum e como primeiro Diretor o biólogo Julian Huxley.

Este último imediatamente explicitou a ideologia do organismo:

> *"Não precisamos mais recorrer à revelação teológica ou a um absoluto metafísico: Freud e Darwin bastam, juntos, para nos dar nossa visão filosófica do Mundo..."*

Mais perto de nós, em 18 de junho de 1970, o Presidente em exercício declarou:

> *"A batalha de hoje é a da edificação de um modelo de homem novo..."*

O Conselho da Europa se destacou por diretrizes e recomendações relativas à abolição da pena de morte e ao uso da eutanásia.

O Banco Mundial impõe aos países africanos o uso de meios contraceptivos antes de conceder ajuda financeira, como sinalizou Dom Paul Zoungrana, Arcebispo do Alto Volta.

L. D.

# GNOSE E HUMANISMO 2

##### Os temas gnósticos na literatura

Finalmente, os gnósticos entenderam bem que para penetrar na sociedade cristã e perturbar toda a sua mentalidade, eles não poderiam dispensar os homens de letras, principalmente os poetas. Eles assediaram estes últimos, eles os educaram, instruíram em todas as ciências ocultas, na alquimia, na Cabala, na filosofia platônica, sobretudo. Em seguida, eles lhes explicaram que eles eram os verdadeiros sacerdotes de uma nova religião, que sua poesia deveria aparecer como uma revelação divina, já que a inspiração vem diretamente da Divindade. Não será, portanto, surpresa encontrar nos poemas do Renascimento todas as ideias desenvolvidas nas páginas anteriores.

Joachim du Bellay deixou sonetos impregnados do idealismo platônico, repousando sobre uma concepção nova do amor e da beleza. O amor pela beleza terrestre, diz ele, traduz a aspiração sublime da alma, prisioneira aqui na terra, em direção à Beleza divina ideal. Este deve ser um amor casto e puro, na verdade um amor estéril, desviado de sua finalidade própria, a procriação. É até mesmo um amor que exalta a Morte, que a chama, que a provoca até.

Já, antes dele, Clément Marot havia apresentado esse amor pela beleza como um chamado ao suicídio:

> “*A alma é o fogo, o corpo é o tição,*  
> *A alma é do alto, e o corpo inútil*  
> *Não é outro caso senão uma baixa prisão*  
> *Em que definha a alma nobre e gentil.*  
> *De tal prisão, tenho a chave sutil;*  
> *É o meu dardo, à alma gracioso,*  
> *Pois ele a tira de sua prisão vil,*  
> *Para aqui embaixo a enviar aos céus.*”

A morte é boa, é preciso desejá-la, é fácil se dar a ela, pois ela é libertadora. Encontra-se a mesma concepção da morte libertadora neste poema de Joachim du Bellay, intitulado

> <div class="center">*A IDEIA*</div>“*Se nossa vida é menos do que um dia*  
> *No Eterno, se o ano que faz a volta*  
> *Expulsa nossos dias sem esperança de retorno,*  
> *Se perecível é toda coisa nascida,*  
> *O que pensas, minha alma aprisionada?*  
> *Por que te agrada a obscuridade de nossos dias,*  
> *Se, para voar para uma morada mais clara,*  
> *Tens nas costas a asa bem empenada?*  
> *Ali está o bem que todo espírito deseja,*  
> *Ali o repouso para o qual todo mundo aspira,*  
> *Ali está o amor, ali o prazer ainda.*  
> *Ali, ó minha alma, ao mais alto céu guiada,*  
> *Poderás reconhecer a Ideia*  
> *Da beleza que neste mundo adoro.*”

Nota-se, no final, que a Beleza tomou o lugar de Deus, que o amor é sinônimo de prazer e de liberdade, que a alma levada pela asa empenada é angelical. Finalmente, como “voar para a morada mais clara” sem se dar a morte? Este poema é, portanto, também um chamado ao suicídio. Não se deve igualmente iludir sobre a qualidade cristã de tal amor. Jamais o Cristianismo ensinou que o amor deveria ser estéril, o que é a consequência de um amor dito “casto e puro”: é uma invenção da Serpente, “homicida e mentirosa”. Nós a reencontraremos em toda a poesia romântica. Essa impaciência de escapar da “prisão” terrestre, essa aspiração em direção a um absoluto de Beleza, que não é Deus, anuncia todas as extravagâncias românticas…

Mas ouçamos Ronsard .

Ele estabelece primeiro o dogma do sacerdócio dos poetas:

> “*Deus está em nós e por nós faz milagre,*  
> *De modo que os versos de um poeta escrevendo*  
> *São dos deuses os segredos e oráculos*  
> *Que por sua boca eles impulsionam adiante.*”

“Por que, então, vocês fazem padres?” perguntará mais tarde Victor Hugo. O poeta é o verdadeiro sacerdote da religião gnóstica. Ronsard se quer e se diz cristão, mas todo o seu pensamento é panteísta. O próprio Deus, segundo ele, é a energia vital que circula no universo, geradora dos seres que o povoam. Ele é a víscera central, o foco do ardor do mundo, a Alma do Mundo que o envolve e da qual todas as criaturas são os acidentes. Ouçamos essa Gnose:

> “*Deus está em todo lugar, em todo lugar Deus se mistura,*  
> *Começo, o fim e o meio*  
> *Do que vive e cuja alma está encerrada*  
> *Em todos os lugares e mantém em vigor todas as coisas...*  
> *Dos elementos dessa alma infusa*  
> *Nós nascemos. O corpo mortal, que se desgasta*  
> *Pelo passar do tempo, é feito de elementos;*  
> *De Deus vem a alma, e como ele é perfeito,*  
> *A alma é perfeita, intocável, imortal,*  
> *Como vindo de uma essência eterna:*  
> *A Alma não tem, portanto, começo nem fim,*  
> *Pois a parte sempre segue o todo.*  
> *Pela virtude dessa alma misturada*  
> *Gira o céu até a abóbada estrelada.*  
> *O mar ondula e a terra produz*  
> *Pelas estações, ervas, folhas e frutos.*  
> *Pérolas, safiras, têm daí sua essência,*  
> *E por tal alma, elas têm força e potência,*  
> *Mais ou menos, conforme elas estão cheias,*  
> *O mesmo acontece conosco, pobres humanos...*”

Eis um bom resumo da cosmologia gnóstica: Deus é identificado à Alma do mundo que dá vida e força a todos os seres. Ele é o começo, o meio e o fim\[1\]<sup id="bkmrk-1"></sup>. Essa expressão é tirada de Hermes Trismegisto. A Alma humana é um elemento da alma divina infusa na natureza. Trata-se, portanto, de uma emanação. Ela é eterna, não teve começo, como Deus, já que “a parte segue o todo”. A Alma divina percorre o mundo e passa de um ser a outro, como o elã vital de Bergson. Ela é o princípio animador de tudo, até mesmo dos seres não animados, como as pérolas e as safiras. Assim, todos os reinos, vegetal, animal, mineral, são animados pelo mesmo sopro.

Esse animismo universal é comum a todos os poetas do Renascimento. Até mesmo o austero calvinista, Agrippa d'Aubigné, parafraseia antecipadamente o “Tudo vive, tudo está cheio de almas.” de Victor Hugo. Ele descreve assim a ressurreição:

> “*Aqui uma árvore sente dos braços de sua raiz*  
> *Agitar-se um chefe vivo, sair um peito*  
> *Lá, a água turva borbulha e depois, se espalhando*  
> *Sente em si cabelos e um chefe despertando*…”

Ronsard , em uma de suas mais célebres “Elegias”, resume bem o problema:

> “*Ó deuses, como é verdadeira a filosofi*a  
> *Que diz que tudo no fim perecerá,*  
> *E que ao mudar de forma outra vestirá!*  
> …  
> *A matéria permanece e a forma se perde.*”

A matéria, aqui, no pensamento do poeta, é divinizada, já que ela carrega em si mesma em potência todas as formas possíveis e produz a variedade. Essa matéria é, portanto, a Alma do mundo. Os seres não são senão manifestações provisórias e sucessivas de um mesmo princípio vital “encerrado, infuso” na Natureza.

Finalmente, Ronsard , como todo bom gnóstico, pratica o culto do demônio. Ele estudou as ciências ocultas e praticou a demonologia. Ele empresta sua história dos devaneios neoplatônicos de Jâmblico, do cronista bizantino Psellos, dos grimórios dos ocultistas.

Ele publicou o “Hino dos Daimons”, dedicado ao bispo de Riez, Lancelot de Carle, grande apreciador da filosofia secreta, com a intenção, aliás, de escapar aos raios da Inquisição abrigando-se por trás de um prelado. Esse poema se conecta às mais exatas tradições das ciências ocultas da época.

Nesse poema, Ronsard relata que os daimons foram concebidos pelas mulheres da terra pelos Anjos (“Vejam que potência tem a beleza das mulheres”) e que Deus, tendo castigado os culpados, perdoou os filhos inocentes:

> “*Que, não sendo culpados pelo ato de seus pais,*  
> *Tendo mais da parte do pai do que da mãe*,  
> *Voaram para o ar como coisa leve*”.

Eis uma torção um pouco forte no dogma do pecado original. Esses daimons animaram os diversos planetas que governam por eles os atos e os caracteres dos mortais:

> “*Segundo o astro do céu sob o qual nasceram,*  
> *Os de Saturno fazem o amor melancólico,*  
> *Os de Marte, coléricos, os de Vênus, luxuriosos…*  
> *Os do sol, amados, felizes, os jovianos…*”

Por onde se vê ainda que a Astrologia é uma ciência demoníaca, pois pretende determinar os atos humanos por uma influência astral que lhes tira toda a liberdade.

Compreende-se também que esses “daimons” não são outra coisa senão os Arcontes dos gnósticos ou os Sefirots dos cabalistas; eles são bem as perfeitas emanações do Grande Todo que comandam a marcha do Universo e controlam as vontades humanas. Vê-se ainda aparecer em filigrana através deste poema a reabilitação de Satanás, tornado Lúcifer e mestre do céu, como os Românticos em breve o exaltarão.

##### Alguns humanistas

##### Cornélio Agripa

Cornélio Agripa von Mettersheim (nascido em Colônia em 1486, morto em Grenoble em 1533) é um bom exemplo de humanista. Ele foi iniciado na Cabala e no Ocultismo pelo padre Jean Tritêmio (Johann Trithémius). Este último é o tipo perfeito do padre “modernista” antes da letra. Ele havia reunido em torno de si seus discípulos em Wurzburgo. Ele foi o mestre de Paracelso, a quem havia iniciado na Magia.

Cornélio Agripa compôs aos 25 anos um livro sobre a filosofia oculta, impregnado de Cabala judaica. Ele ensinava a alta teologia, anunciando aos eleitos o segredo do Evangelho. Seguindo o exemplo de Tritêmio, ele atacava violentamente os monges. Em 1509, ele foi para Dole, onde foi aceito como membro da Academia e onde deu lições públicas sobre o tratado de Reuchlin, *De Verbo mirifico*. Reuchlin reunia as doutrinas da Cabala e de Pitágoras.

Ao ir para Dole, no Franco-Condado da Borgonha, ele esperava ganhar a benevolência de Margarida da Áustria. Ele escreveu com esse objetivo um discurso sobre “A Nobreza e Excelência do sexo feminino” e o dedicou a ela. Foi impresso em 1529:

> “*O homem, escreve ele, é Adão, é a Natureza, a carne, a matéria. A mulher, é Eva, é a Vida, a Alma, é o misterioso tetragrama da inefável onipotência divina. A mulher teve como berço o Paraíso, o Homem recebeu o dia no meio dos brutos. A mulher é superior ao Homem, pelo espírito tanto quanto pela Beleza, esse reflexo da divindade, esse raio da luz celestial, mais ainda, a Mulher, é o próprio Deus…*”

Reconhece-se sob essas enormes e absurdas bajulações, algumas noções bem gnósticas, o “tetragrama sagrado” em particular e a ideia da Sofia, sabedoria feminina do divino, a ideia também do “eterno feminino”, bem conhecido dos Teilhardianos.

Este discurso não agradou Margarida da Áustria, pois o provincial dos Franciscanos, Jean Catelinet, pregando a Quaresma em 1510, diante da governanta dos Países Baixos, denunciou Cornélio Agripa como “um herege judaizante”.

Mas sempre impulsionado por Trithème, ele \[Cornélio Agripa\] explicou que todas as doutrinas sobre a Magia, a Astrologia e a Alquimia deveriam ser compreendidas segundo um sentido místico. Ele se deu bem. Em 1512, ele se tornou conselheiro imperial do imperador Maximiliano. Em 1515, ele deu aulas sobre Hermes Trismegisto em Pavia, casou-se, foi recebido como doutor em direito e em medicina. Ele se tornou respeitável, honrado, acarinhado. Em seguida, em 1529, Margarida da Áustria o nomeia seu conselheiro, seu indicário e seu historiador. Resultado de uma hábil ascensão progressiva, fruto de uma longa paciência e coroamento de uma carreira. Doravante, ele poderá escrever com toda segurança, protegido por tão altos patrocínios contra os tribunais eclesiásticos.

Vejamos seu ensinamento. Em seu tratado *De incertitudine et vanitate scientium*, ele entra em guerra contra a razão humana, professa um ceticismo generalizado sobre o qual constrói sua mística. Ele ensina a união mística de nosso espírito com a Natureza e com Deus. Ele ataca Aristóteles e sua lógica, é claro. Ele acha ridículo que esta queira nos ensinar a concluir:

> “*Pensa-se”, escreve ele, “que nossos conhecimentos devem partir dos sentidos, mas os sentidos são enganadores, eles não podem conhecer as causas, onde, no entanto, é preciso buscar todos os nossos conhecimentos.*”

Daí a conclusão de que cada homem deve se convencer de que a verdade só pode ser apreendida pela livre adesão da Fé:

> “*A bondade do homem não repousa senão sobre o livre-arbítrio, que se prova pela fé, na qual nos voltamos para Deus, fonte de toda a verdade. Não é a língua, mas o coração que é a sede de toda a verdade. Não é a razão, é a vontade que nos une a Deus.*”

Eis uma bela definição do Fideísmo, com um culto da vontade, privada de sua norma, a razão, e colocada na fonte do conhecimento. É Modernismo…

Cornélio edifica a Teologia sobre a Sagrada Escritura e ele se ressente muito dos teólogos por terem privado o povo desta única fonte da religião. Mas não é preciso compreender a Escritura literalmente. Ela só revela seu verdadeiro sentido pela Iluminação divina do Espírito Santo. Somente Deus é verdadeiro, os homens são todos mentirosos. Pela nossa razão que especula a torto e a direito, não podemos compreender o sentido místico da Palavra revelada:

> “*Nossa fé,” diz ele, “deve ser dirigida por Deus. Somente Deus é verdadeiro, é com ele que estamos conectados pela Fé. Ele nos revela tudo, ele nos faz ver tudo nele.*”

Evidentemente, se a alma humana é uma parcela divina, centelha luminosa mergulhada em um corpo, não há necessidade de um instrumento natural, como o é a razão, para atingir penosamente, com muito esforço e riscos de erros, uma Verdade que já possuímos em nós mesmos, já que nossa alma já está cheia de todos os conhecimentos, que ela é a própria fonte de todas as ideias, que ela está em conexão com a Natureza de Deus. Daí esse desprezo pela razão, que é comum a toda a Gnose desde sempre e que reencontraremos em Lutero, assim como nos Românticos e nos tradicionalistas do século passado.

Em sua obra *De occulta philosophia*, Cornélio Agripa retoma o ensinamento dos neoplatônicos. À maneira dos humanistas do século XVI, que expusemos anteriormente, ele fala dos deuses, afirma que os pecadores e os pagãos foram tomados pelo Espírito, angélico ou divino:

> “*Além disso,” diz ele, “todas as religiões são boas, ainda que a cristã seja a melhor.*” “*A religião”, escreve ele ainda, “purifica o espírito e o torna divino; por meio dela também aumenta as forças da natureza…*” “*Uma força universal anima o mundo e se revela nele, mas tudo deve ser reconduzido às ideias de Deus, que são umas nele mas múltiplas na Alma do mundo; esta as verte nas coisas inferiores por meio dos astros, na matéria elas só existem como sombras. Elas também estão em nosso espírito, são inatas a nós, como ensina Platão. As coisas materiais são ocupadas por forças ocultas. Os elementos estão cheios de vida e de alma. Um espírito os põe em movimento. Daí a necessidade de uma fonte universal de vida, ou seja, da Alma do mundo, seguindo Platão.*”

Vê-se por estes trechos de sua *Filosofia Oculta* que Cornélio Agripa era profundamente panteísta. Todos esses temas são comuns, de fato, tanto a Platão quanto à Gnose. Não se pergunta mais como ele pôde escapar aos raios da Igreja, agora que se conhece seus poderosos protetores.

##### O ecumenismo segundo Thomas More

Thomas More ou Morus (1485-1535), grande chanceler da Inglaterra sob o rei Henrique VIII, foi decapitado por ordem do rei, em 6 de julho de 1535, por ter se recusado a renegar sua fé católica. Ele foi, portanto, realmente mártir. O relato de seu cativeiro e de sua morte é admirável. A Igreja romana o canonizou muito justamente em 1935. Mas isso não deve nos iludir. Ele foi, por toda a sua vida, um humanista profundamente paganizado e amigo íntimo de Erasmo, de quem falaremos em breve. Sua conversão final permanece o fruto da graça divina e da liberdade humana.

Não se pode encontrar uma explicação simplesmente humana e nada em sua vida passada nem em sua atividade intelectual poderia deixar prever tal conversão.

Seu livro célebre *Utopia*, inspirado na *República* de Platão, é uma obra verdadeiramente subversiva da fé cristã. Já mostramos que o ideal de vida expresso em todas as páginas do livro é totalmente pagão, que não há lugar em Utopia para nenhuma religião, já que os utopianos são belos, bons, perfeitos, plenamente felizes na satisfação de todos os seus instintos e na exaltação de seus prazeres.

A ilha de Utopia tem a forma oval: terra bem protegida por rochas bordeadas por águas mornas e tranquilas, fértil e acolhedora. Sua capital Amarante, no deságue do rio, tem a posição exata do embrião no seio materno. Utopia é previdente, nutridora, maternal. Ela é o ovo primitivo de onde saíram todos os mundos que povoam o universo, ela é a célula original, a matriz do mundo. Ela é Deus espalhado por emanação em todos os seres. A inspiração do livro é claramente panteísta.

Mas continuemos nossa exploração através da ilha de Utopia. Como na *República* de Platão, como no Estado soviético, tudo ali é regulamentado com precisão de relojoeiro. Todas as atividades privadas e públicas são minuciosamente reguladas. Não há lugar para a menor espontaneidade, para um equilíbrio pessoal e social, deixado ao livre jogo das iniciativas pessoais. Uma única liberdade foi proclamada no início pelo rei Utopus: a liberdade religiosa. Isso poderia ser a confissão de que a religião é sem importância na vida da Cidade, enquanto todas as outras atividades são reguladas porque necessárias e fundamentais.

Mas o motivo invocado pelo rei Utopus é notável:

> “*Ele não visava apenas a manutenção da paz, recentemente perturbada por combates incessantes e ódios implacáveis, ele pensava também que o interesse da religião exigia essa medida. Jamais ele ousou legislar em matéria de Fé, não sabendo se Deus não inspirava ele mesmo nos homens crenças diversas a fim de provar essa multiplicidade de cultos. Além disso, uma intuição providencial o levava a crer que, se todas as religiões fossem falsas, à exceção de uma única, chegaria um tempo em que, com a ajuda da brandura e da razão, a verdade se revelaria por si mesma, como um caminho luminoso em meio a uma noite de erros entrelaçados. Mas, enquanto isso, quem poderia dizer se Deus não se comprazeria nessa multiplicidade colorida de homenagens, nesse jogo sincero e aplicado de crianças que vão em sua busca?*”

Isso é admirável. A multiplicidade das religiões é uma homenagem colorida e um jogo sincero, ela é, além disso, inspirada por Deus. A Verdade se revela por si mesma pelo livre pensamento dos homens. É claro, já que a alma é uma “centelha divina”, que ela possui em si mesma a Verdade, que ela a faz brotar de seu próprio fundo. Ela não precisa de um apoio externo, como de uma revelação. Estamos aqui na lógica da Gnose.

Como então explicar essa multiplicidade que parece, a nós, pobres humanos comuns, uma contradição insolúvel? A resposta é bem simples. Todas as religiões são verdadeiras, mas de uma verdade relativa e complementar, todas são formas particulares e respeitáveis de uma Única Religião Universal, aquela que foi ensinada pela Serpente a nossos primeiros pais: é o Ecumenismo, e é uma revelação satânica: *Eritis sicut dei*”.

Quando o rei Utopus nos diz: “Se todas as religiões fossem falsas”, nós entendemos bem que essa condição era irreal, já que é Deus quem inspirou a diversidade de crenças.

Ora, nós sabemos bem que nossa alma não é divina, nossa razão é simplesmente natural. Ela está orientada em si para a Verdade, mas, desde a falta original, ela só pode atingi-la por um esforço sustentado e difícil. Os riscos de erro são múltiplos. É por isso que se precisa de autoridades naturais, a do Pai, a do Príncipe, a do Padre. Ora, os humanistas proclamaram a rejeição de todas as autoridades. Em seu *Momus*, escrito em 1443, Leone Baptista Alberti se elevava contra o princípio de autoridade em matéria de pensamento e terminava por este aforismo do qual se podem tirar as mais graves consequências: “Nada repele mais a Verdade na sombra do que a Autoridade.”

Além disso, a Felicidade já está instalada em Utopia. Um dia, no entanto, um dos discípulos de Hythlodée chegou a Amarante, a capital. Ele exaltou incontinente a religião cristã, a existência de um Salvador, em algum lugar. Para salvar quem, meu Deus, já que tudo vai muito bem no reino de Utopia? Ele chegou até mesmo a ter a audácia de vociferar contra os sectários dos mistérios pagãos, tratando-os de ímpios e de condenados. Evidentemente, ele foi expulso imediatamente. Em Utopia, como no regime soviético, todas as religiões são autorizadas, exceto a de Jesus Cristo. Ali proclamou-se primeiro a liberdade religiosa, depois a liberdade de propaganda antirreligiosa, mas não a propaganda religiosa, o que é lógico. Por que reivindicar a liberdade religiosa, em um Estado cristão onde o conjunto da população permaneceu fiel à sua Fé? Não se quer por isso reivindicar o direito de adorar o verdadeiro Deus, já que ele já está assegurado. Só se pode, portanto, reivindicar o direito de recusar essa adoração.

E a sequência da história da Inglaterra nos demonstra. Uma vez dono do poder político, a Serpente manda passear “a ajuda da brandura e da razão” e organiza a perseguição mais violenta contra tudo o que se quer católico, a pilhagem e a destruição dos monastérios, o massacre em massa das populações revoltadas e dois séculos de violências sanguinárias na Inglaterra e na Irlanda contra os padres da Igreja católica e seus fiéis. São páginas de história que nossos escritores protestantes tiveram o cuidado de colocar entre parênteses.

No entanto, estamos aqui em plena hipocrisia. Proclamar um igual respeito por todas as religiões é mostrar com isso mesmo que se despreza todas igualmente. Pois, de fato, na Cidade de Utopia, existe uma religião oficial e obrigatória. Construiu-se um templo no centro da Cidade onde tudo é calculado para favorecer o recolhimento. Todos os utopianos se dirigem a ele regularmente e dirigem um culto “ecumênico” a uma única divindade “eterna, imensa, incompreensível” que eles chamam de MitrA\[2\]<sup> </sup><sup id="bkmrk-2"></sup>e cuja natureza se espalha por todo o universo. Assim, os utopianos se adoram a si mesmos no espelho de seu Mitra. Não se pode ser mais panteísta. Thomas More não se contentou em expor seu pensamento sobre a sociedade ideal, em *Utopia*. Ele tentou, como chanceler da Inglaterra, colocar em prática seu ensinamento:

> “*Se os turcos, os sarracenos e os pagãos”, explica seu porta-voz em Utopia, “permitissem que a fé católica fosse pregada pacificamente entre eles, e se nós, cristãos, aceitássemos que em nossa cidade todas as seitas pregassem entre nós, toda violência deixada de lado e de comum acordo, não duvido em absoluto que a fé em Cristo, longe de sofrer uma diminuição, dela retiraria um imenso proveito.*”

E para pôr em acordo seu pensamento e seus atos, ele se tornou o cúmplice ativo dos hereges. Ele nos explicou isso, perto do fim de sua carreira de chanceler:

> “*Quanto ao herege, eu odeio seu erro e não sua pessoa, gostaria de bom grado que um fosse exterminado e o outro salvo. Esses “irmãos” benditos, professores e pregadores de heresia, podem gritar em voz alta suas mentiras, não tenho outra conduta para com eles. E se soubessem de quanta indulgência e piedade dei provas, eu juro que ninguém me contradiria.*"

Isso define um estado de espírito humanista.

Quando More foi nomeado chanceler, a Inglaterra praticava uma mesma regra de Fé. Ora, ao mesmo tempo, a heresia estava em plena expansão, os hereges luteranos multiplicavam os panfletos por todo o país. Mas a polícia do chanceler fechava os olhos. Não se falava de tribunais, nem da fogueira em Smithfield. Quando ele recebe alguns desordeiros, ele os ouve, ele os questiona, ele tenta suscitar neles um movimento de conversão ou de remorso. Ele lhes pede para renunciar a difundir sua doutrina. Enfim, ele se mostra cheio de piedade e indulgência para com eles, como ele mesmo diz. Ponto, é tudo! Erasmo, seu amigo íntimo, pôde escrever ao bispo de Viena que, durante a passagem de More pela chancelaria, nenhuma execução havia ocorrido. Sabe-se a sequência e como “a fé em Cristo retirou um imenso proveito”!

##### Um padre “modernista”: Erasmo

Erasmo nasceu em 28 de outubro de 1467 em Rotterdam. Seu pai, Geart Praet, era eclesiástico e não pôde legitimar seu filho. Ele se chamou “Geert Geerts”, ou seja, “Geraldo, filho de Geraldo”, Ele tomou, como escritor, o pseudônimo de Desiderius erasmus (do grego ερασµιος, amável). Ele foi ordenado padre em 25 de fevereiro de 1492 pelo bispo de Cambrai, Henri de Bergues, que foi para ele um fiel protetor. Ele viveu muito tempo em Londres, na casa de Thomas More, depois, em 1521, se instalou em Basileia.

A última palavra de toda a sua filosofia é a Liberdade. Ele apoia eficazmente os esforços de Lutero para reformar a Igreja. Em 1519, em resposta a uma carta afetuosa deste último, ele lhe precisa:

> “*Sua carta respira uma alma cristã… Parece-me que se avança mais por uma doce moderação do que por importunação; não foi assim que Cristo trouxe o mundo sob sua lei?*”

Eis um conselho que não poderia moderar o ardor impetuoso e violento do Reformador.

Erasmo quer mostrar a seus amigos protestantes que os libelos e caricaturas espalhadas por eles na Europa só podem prejudicar sua causa:

> “*Vocês creem que por tais meios abrem caminho para o Evangelho? Temo, antes, que tola malícia e maliciosa tolice, ao derrubar os homens letrados e o Evangelho mesmo se isso fosse possível, não os façam cair vocês mesmos em descrédito.*”

Em seguida, ele se volta para a corte de Roma, ele suplica ao papa Adriano IV que se mostre tolerante:

> “*O mal é muito profundo”, explica ele, “para poder ser curado pelo ferro e pelo fogo. Concessões mútuas são necessárias, a doutrina sobre a qual repousa a fé permanece intacta. Seria preciso, além disso, oferecer ao mundo a esperança de ver mudar certas coisas que dão lugar a queixas legítimas. Ao doce nome de Liberdade, os corações se abrirão.*” “*No coração de Lutero, acrescenta ele, brilham centelhas da verdadeira doutrina evangélica, mas em vez de colocá-lo em guarda, de lhe apresentar a verdade com doçura e bondade, os teólogos que não o compreendem, que frequentemente não o leram, o denunciam ao povo com clamores insensatos, o ferem com ataques violentos, não têm na boca senão as palavras heresia, heresiarca, cisma e anticristo. Condena-se em Lutero, como heresia, o que se encontra ortodoxo em São Bernardo de Claraval e em Santo Agostinho. Muitos se espalham em injúrias contra Lutero, que não acreditam eles mesmos na imortalidade da alma.*”

Ele escreveu, em 1º de novembro de 1519, ao arcebispo de Mainz:

> “*Teólogos aos quais a mansidão conviria acima de tudo, parecem não respirar senão sangue humano, tanto eles aspiram à prisão de Lutero e à sua perda.*”

Finalmente, quando a bula de excomunhão foi publicada:

> “*Essa bula,” escreveu ele, “que cheira a crueldade, em vez de ao pensamento doce e benevolente de nosso Leão X.*”

Mas vejamos as “coisas que é preciso mudar, porque elas dão lugar a queixas legítimas”. Erasmo critica o jejum, as indulgências, os dias de festa, o culto das imagens, os votos monásticos e a confissão auricular. Ele se pronuncia pela dissolução do casamento. Ele zomba da Imaculada Conceição da Virgem, ele defende a causa do Arianismo; emite dúvidas sobre a divindade de Cristo, sobre a Santíssima Trindade. Ele nega a eternidade das penas. Ele quer que as crianças, ao atingir a idade da razão, ratifiquem os compromissos do batismo. Ele pede ao papa para conceder o cálice aos leigos e o casamento aos padres. É tudo? É mais até do que o programa implementado pela reforma luterana. Muitas dessas reivindicações tiveram de esperar o Concílio Vaticano II. Vemos hoje o afinco com o qual nossos modernos reformadores se esforçam para demolir o que resta da fé cristã, ao implementar as reclamações de Erasmo. O “modernismo” permaneceu o mesmo desde o Renascimento.

Um controvertista dos mais célebres, Josse Clichtove de Nieuport, publicou em 1519 um escrito intitulado *Propugnaculum fidei*, onde ele reprovava Erasmo por rejeitar a lei canônica que impunha a continência ao clero. Erasmo lhe deu uma curta e rápida resposta onde sustentou que a Igreja podia permitir o casamento àqueles dos eclesiásticos aos quais não fosse possível viver no celibato. Os teólogos de Lovaina o trataram de porta-estandarte da facção luterana, de livre-pensador que fazia o mesmo caso da batina de um monge que do manto de um velhaco, que teria dado toda a escolástica por um único tratado de Cícero e que teve dificuldade em não dizer: “São Sócrates, rogai por nós”!

Erasmo faleceu em Basileia na noite de 11 para 12 de julho de 1536, aos sessenta e nove anos. Ele morreu sem a assistência de um padre e na recusa dos últimos sacramentos. Conclusão lógica de uma vida toda consagrada à demolição da fé cristã.

##### Do humanismo à Reforma

É sabida a aversão ferrenha dos humanistas em relação à Filosofia escolástica. Eles criticavam, sobretudo, seu apelo à razão natural para assentar as verdades da Fé sobre bases inabaláveis. Erasmo partiu para a guerra contra os teólogos da Idade Média:

> “*Todo o seu esforço”, escreve ele no Elogio da Loucura, “consiste em interrogar, dividir, distinguir, definir. Uma parte é dividida em três, a primeira das três em quatro e cada uma das quatro novamente em três. O que há de mais distante do estilo dos profetas, de Cristo e dos apóstolos?*”

Mas sua ironia se perde e se engana. O que ele denuncia ali com tanta veemência é o uso natural de nossa inteligência. Ela é comum a todos aqueles que querem se dar ao trabalho de refletir. Ela não pretende se substituir à palavra e ao estilo de Jesus ou dos profetas, ela pretende apenas compreender o seu mérito e a razão de ser.

Ora, os Protestantes vão acentuar esse ódio da razão e de seu uso na filosofia escolástica, que receberam dos humanistas. Eles proclamaram a necessidade de ler a Bíblia no texto, sem nenhum comentário, já que a alma do leitor está em contato direto com a divindade que o inspira. É preciso, portanto, desenvolver os estudos linguísticos, estudar o hebraico e o grego, mas rejeitar a Teologia. Daí o desprezo manifestado contra a Sorbonne, “mestra do erro”, e o entusiasmo pelos colégios reais onde podiam se dar livre curso as novas modas intelectuais, sem riscos de condenação, já que esses colégios eram protegidos pelo rei.

Em 1535, em uma “Epístola ao rei no tempo de seu exílio em Ferrara”, dirigida a Francisco I , Clément Marot escreve:

> “*Assim como eles, sem causa que seja boa,*  
> *Me quer mal a ignorante Sorbonne,*  
> *Bem ignorante ela é de ser inimiga*  
> *Da trilíngue e nobre Academia*  
> *Que criaste. É manifesto*  
> *Que ali dentro, contra tua vontade celeste,*  
> *É proibido que se veja alegando*  
> *Hebraico, nem grego, nem latim elegante,*  
> *Dizendo que é língua de hereges.*  
> *Ó pobres pessoas de saber tão éticas,*  
> *Bem fazem ver este provérbio corrente:*  
> *A ciência não tem inimigo senão o ignorante..*”

O humanista Ramus, professor no Colégio Real, futuro Collège de France, criticava na Universidade seu imobilismo, o *status quo* de seus métodos. Ele era a favor das humanidades, do grego, do hebraico e, portanto, do protestantismo, contra a Sorbonne, contra a escolástica, no fundo da qual se encontrava, no entanto, a ortodoxia.

A Renascença humanista preparou o caminho para o Protestantismo, permitindo o exercício do livre exame na leitura dos textos bíblicos, sem referência a um ensinamento autorizado da Teologia. Em seu *Praemium reformandae academiae parisiensis*, Ramus pretendia impor o hebraico, como base necessária de toda teologia. Ele foi também a alma do Colégio Real, cujos professores em sua maioria passaram para o Protestantismo: o próprio Ramus, Vatable, Mercier, Palma Cayet, que ocupava a cátedra de hebraico…

Quando Inácio de Loyola veio a Paris, com seus futuros companheiros, para se preparar para a Teologia, ele foi para a Sorbonne; ele desaconselhou seus amigos a frequentar os cursos de línguas antigas, ministrados pelos leitores reais, origens do Collège de France, que o rei havia acabado de instituir em 1530. Seu companheiro, Bobadilla, escreve que

> “*a heresia luterana começava a se espalhar em Paris; naquela época se queimavam muitos na praça Maubert e aqueles que “greizavam” “luteranizavam” (“qui graecisabant lutheranisabant”)*.

Seu outro companheiro, Xavier, em uma carta ao seu irmão, em 1535, diz que tem grande reconhecimento a Inácio, a quem deve ter se desprendido das “más companhias” que sua pouca experiência não lhe permitia reconhecer como tais:

> “*Agora que as heresias se desencadearam em Paris, eu não quereria de forma alguma ter relações com essas pessoas.*”

E mais adiante ele acrescenta que esses homens dos quais Inácio o afastou “exteriormente pareciam bons, mas interiormente estavam cheios de erros, como o seguimento deixou claro”.

Com base nas palavras dos humanistas e, sobretudo, de Erasmo, continuou-se a afirmar em todos os manuais de história, que a Sorbonne estava em plena decadência, que a Escolástica estava ultrapassada, que era necessária uma grande reforma do ensino. Essa não era a opinião de Inácio de Loyola, que encontrou, ao contrário, nessa velha Sorbonne, tão criticada pelos humanistas, o ponto de apoio fundamental de toda a sua formação intelectual e espiritual.

Ele fez da Escolástica aristotélica e tomista a base de todo o ensino dos Jesuítas. Em suas Constituições da Companhia de Jesus, ele recomenda a doutrina de São Tomás de Aquino, até que apareça “uma outra teologia mais adaptada aos tempos modernos” e mais útil, mas na continuidade daquela de São Tomás. Em sua *Ratio studiorum*, ele especifica que é preciso ensinar filosofia e física “não apenas em conformidade com a verdade, mas também no sentido de Aristóteles e de seu espírito”, com proibição “de jamais se afastar de Aristóteles, quando se trata de pontos de alguma importância”. Não se deve jamais utilizar, a não ser com extrema prudência, comentários não cristãos e “se houver algo de bom a ser tirado de suas obras”, pelo menos é preciso citá-los “sem fazer elogios”. No apêndice de seus Exercícios espirituais, Inácio recomenda “ter em alta estima a teologia positiva e a teologia escolástica”, pois “é o dever dos teólogos escolásticos denunciar, combater e refutar os erros religiosos, os falsos raciocínios e as opiniões perigosas de sua época”. Isso é claro. São Inácio de Loyola havia compreendido muito bem que o Humanismo platonizante de sua época conduzia necessariamente à heresia protestante e lutou toda a sua vida contra esse movimento em direção à heresia, e a Sociedade de Jesus em seu seguimento.

Como se opera essa passagem do Platonismo dos humanistas para a heresia protestante? É o que nos resta demonstrar.

Os gnósticos sempre afirmaram que a alma humana era “uma centelha divina”, parcela da Alma do Mundo, que nada mais é que o Deus imanente no Universo. Essa doutrina foi retomada pelos místicos alemães a partir do século XV e passou através de Mestre Eckhart para o pensamento dos Reformadores. Eles viram nisso a prova de que nossa alma estava em contato imediato e permanente com Deus, eles compreenderam que em cada consciência residia uma “certeza”, que a voz da consciência era a voz de Deus residindo em nós mesmos.

Nossa alma não é, portanto, em nós senão um instrumento passivo nas mãos de Deus, cuja influência irresistível a arrasta em todas as direções. O homem é, de fato, segundo a expressão dos Reformadores, “um bloco de madeira ou de pedra”, ele sofre uma força universal e única que se substitui à sua própria ação. A individualidade é fundida em uma totalidade animada por um movimento perpétuo e divino. É Deus quem, em nós, é o princípio de causalidade em todos os nossos atos, é Deus quem opera em nós tanto o Bem quanto o Mal.

Zwingli, mais ousado e mais lógico do que Lutero, tira as conclusões, em 1530, em seu tratado da Providência:

> “*Uma força criada”, escreve ele, “não é outra coisa senão a força universal que se manifesta em um novo sujeito e sob uma nova forma.*” “*O ser de Deus”, acrescenta ele, “é o próprio ser de todas as coisas, etc.*”

Eis as fórmulas em latim:

> « *Omnium esse numinis Esse. --- Certum est quod, quantum ad Esse et Existere attinet, nibil sit quod numen sit, id enim est verum universarum Esse. --- Jam constat, extra infinitum hoc Esse nullum Esse posse. --- Creata virtus dicitur, eo quod in novo subjecto et nova specie universalis aut generalis ista virtus exhibitur*. »

Encontramos nessas expressões todo Spinoza e todo Hegel. De uma só vez, a Reforma leva ao panteísmo pela absorção da atividade humana na operação divina e a negação do livre-arbítrio.

Kant é o filósofo dos Reformadores. Para ele, precisamente, como para Platão, como para Mestre Eckhart, a consciência é “a participação” imediata do homem na Ideia do Bem e, por meio disso, a garantia de sua autonomia moral. É por isso que, em sua Religião dentro dos limites da simples razão, lemos, no início do capítulo intitulado: “Do fio condutor da consciência nos assuntos da fé”:

> “*A questão não é saber como a consciência deve ser dirigida, pois ela não quer fio condutor; basta ter uma consciência. A consciência moral é uma consciência psicológica, que se obriga a si mesma. Portanto, se a consciência psicológica me diz que uma ação que quero empreender é justa, sua palavra é um imperativo absoluto.*”

Em outras palavras: minha consciência, sendo a própria voz do Absoluto que reside em mim, é totalmente autônoma e não tem direção a receber de uma regra de moralidade heterônoma, ou seja, de uma lei divina se impondo a mim de fora. É a consciência divinizada, porque participa de uma única consciência universal. Não há mais lugar para uma livre escolha, diante de uma regra recebida. Não há mais, portanto, nem bem nem mal, já que é justo tudo o que minha consciência me diz para empreender.

##### Conclusão

Por um movimento contínuo de vaivém, percorremos a Gnose, a Cabala, o Humanismo e o Protestantismo e encontramos homens apaixonados, voltados para sua deificação. Podemos, contudo, sentir, nessa busca por uma felicidade perfeita, como uma inquietação subjacente: E se todos esses esforços levassem ao inverso do objetivo buscado?!

O homem que aceita sua condição natural de criatura, que adora seu Deus, lhe presta homenagem e se submete à sua lei, possui uma felicidade, imperfeita sem dúvida, mas pacífica. Ele é livre, mas de uma liberdade de filho de Deus. Ele pode escolher entre os múltiplos bens que o criador colocou à sua disposição. É o livre-arbítrio. Ele pode também, sem dúvida, usá-lo de forma razoável ou desarrazoada, ou seja, usando-o de maneira inadequada: é a escolha possível entre um mal e um bem. É também uma responsabilidade.

O homem revoltado que rejeita Deus, recusa essa responsabilidade. De repente, ele perde seu livre-arbítrio. Não lhe resta mais do que erguer sua Humanidade sobre um pedestal, como um deus Panteísta e adorar a si mesmo. Eis que está dissolvido numa divindade “total”, perdido no Grande Todo Pleroma, do qual não é mais do que uma parcela, indeterminada, intercambiável. Ele perdeu sua livre vontade. Não há mais para ele nem bem, nem mal, já que tudo se torna determinado e necessário. A Cidade da Utopia, como a República de Platão, como o Estado soviético, é um mundo fechado, voltado para uma humanidade deificada. O homem, “centelha divina”, está inteiramente prisioneiro da Cidade até na satisfação de seus menores prazeres. A liberdade religiosa, proclamada no início, é finalmente realizada, já que não há mais religião. O homem está definitivamente “liberado” de Deus.

Tal é a revelação da Serpente. Ele havia dito a nossos primeiros pais:

“Vocês serão como deuses”, mas não havia acrescentado: “Assim, vocês se tornarão meus escravos, pois eu sou o mestre deste mundo”. Por um momento, Adão e Eva se deixaram convencer. Mas a divinização não aconteceu. A escravidão, essa sim, tornou-se a realidade quotidiana e é o Inferno.

E.C.

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**O "SERPENTE" DE BARROUX**

A propósito do *culto da serpente*, parece-nos oportuno assinalar aqui a curiosa pintura que Dom Gérard, prior do Mosteiro tradicional de Barroux, mandou colocar no abside da cripta, e na qual aparece uma serpente enrolada sobre si mesma, mordendo a própria cauda, colocada sobre uma pedra de altar. Constata-se que os monges se curvam, com as mãos afastadas, diante desta representação da serpente, escondida atrás do altar do coro. A revista "*Sous la bannière*" publicou a fotografia desta pintura e lembrou, nessa ocasião, que os Gnósticos Ofitas adoravam a serpente desde as origens da Igreja (Cf. "*De la Gnose à l'Oecuménisme*" \[Da Gnose ao Ecumenismo\], de Étienne Couvert, p. 21).

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<section class="footnotes" id="bkmrk-notas-sem-d%C3%BAvida%2C-de">### Notas

1. Sem dúvida, Deus é o começo do Universo, pois Ele é o seu criador; Ele é o fim, pois o Universo foi criado para a sua glória, mas Ele não é o meio, pois o universo não é Deus.
2. Sabemos que o culto de Mitra foi oposto, nos primeiros séculos cristãos, ao de Jesus Cristo. Mitra é o sol invencível (*Sol invictus*). Ele quase se tornou o culto oficial do Império sob Aureliano. Os humanistas do Renascimento retomaram esse culto, mas em segredo, em seus conventículos íntimos. O sistema heliocêntrico, ensinado por Copérnico e retomado por Galileu , é uma manifestação da adoração ao Sol. Copérnico escreve em *De revolutionibus orbium coelestium*: “*In mundo vere omnium residet Sol. Quis enim in hoc pulcherrimo templo lampadem hanc in alio vel meliori loco poneret, quam unde totum simul possit illuminare. Siquidem non inepte quidam lucernam mundi, alii mentem, alii rectorem vocant. Trismegistus visibilem deum.*” O sol é, portanto, segundo Copérnico, o Espírito do Mundo, o reitor dos mundos, um deus visível. A referência a Hermes Trismegisto é significativa. O Sol reside, tem sua morada, sua sede, em todas as coisas do mundo e o mundo é seu templo. Não é essa uma definição do Panteísmo? Galileu especifica: “Parece-me que na natureza existe uma substância muito volátil, muito tênue, muito rápida, que, ao se espalhar no Universo, penetra tudo sem obstáculo, aquece, dá vida e torna férteis todas as criaturas animadas. Parece que os sentidos nos mostram que o corpo do Sol é o receptáculo deste “espírito”, fora do qual se espalha sobre todo o universo uma imensa luz acompanhada deste espírito calorífico e penetrante que todos os corpos capazes de serem animados, lhes dão vida e fecundidade…” O Sol é um deus visível no centro do Universo, imóvel; ele penetra todas as criaturas. Ele é fonte de vida, ele anima tudo. É um culto solar que Copérnico e Galileu praticavam. Foi à luz desses textos que os juízes do Santo Ofício condenaram Galileu. Isso nos abre novas perspectivas sobre o “complexo Galileu ”!

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# O ISLAM, RELIGIÃO SOB O VENTO POLÍTICO - I

##### DESAPARIÇÃO DO PODER UNITÁRIO: Da Umma real ao Estado nacional

É essencialmente a partir de Bernard Lewis que serão emprestados os termos da análise do fenômeno.

Os árabes, distribuídos em nível elementar em grupos familiares, tribais e clânicos, aceitaram por muito tempo o princípio da dominação turca, em nome de sua pertença à Comunidade Islâmica Universal.

Os quedivas do Cairo, embora reconhecessem a autoridade de Constantinopla, rapidamente se emanciparam. A obediência das populações se dividiu entre a casa do quediva e a Porta, à qual se vinculava todo o Crescente Fértil. A autoridade do Cairo se manteve muito depois da chegada dos britânicos.

##### I - INFLUÊNCIA DAS IDEIAS OCIDENTAIS

O enfraquecimento do Império Otomano, a emancipação do Norte da África, as reconquistas europeias facilitaram a penetração no Egito, no Oriente Médio e além, no Golfo Pérsico, das potências ocidentais. Suas intervenções política, financeira, comercial e cultural se ampliavam a cada dia. As ideias, os esquemas de organização social vindos da França, em particular, encontravam ouvidos atentos no local, enquanto muçulmanos iam se informar ou estudar em Paris.

O atrativo inicial das ideias de 1789 se explica por seu caráter laico.

> "*Esse movimento europeu não cristão, mesmo anticristão, sobretudo anticatólico romano (parecia) capaz de trazer ao mundo muçulmano as receitas do poder e das riquezas ocidentais sem comprometer suas próprias crenças e sentimentos religiosos...*"
> 
> *"Uma nova classe de políticos e juristas que não eram ulemás ou agentes do poder califal... se estabeleceu... em nome da liberdade, para lutar ao mesmo tempo contra o despotismo interno e o imperialismo estrangeiro."*

##### II - O PANARABISMO

Seus mais importantes teóricos foram o afegão JAMAL-al-DIN al-Afghani (1839-1897), o sírio Abd al-Rahmân al-Kawâkibi (1849-1902) e o maronita Negib Azoury (morto em 1916).

##### A) AFGHANI

Foi participando do combate contra o inglês que se formou esse pensador-agitação ativo e violento, sempre considerado o teórico do pan-islamismo revolucionário.

Em 1860, ele deixou seu país para pregar a boa palavra. De Constantinopla, onde suas ideias não agradaram aos conservadores, foi para o Egito em 1871. Por suas conferências em Al-Azhar e sua habilidade em falar sobre a dominação dos europeus, exerceu grande influência sobre muitos jovens escritores ou jornalistas, incluindo o Sheikh Muhammad 'Abduh, que se tornou seu discípulo. Sob pressão dos britânicos, o quediva o expulsou em 1879. Ele foi se estabelecer na Índia, onde passou a criticar violentamente a colaboração muçulmano-inglesa. Levantou-se contra o desenvolvimento do ensino ao estilo ocidental. Reprovava-o por provar a superioridade do estudo das ciências para alcançar o desenvolvimento à europeia de uma nação, sobre o apego aos valores religiosos e aos costumes tradicionais, incitando assim ao ateísmo. Considerava, além disso, a aceitação da ajuda inglesa como um erro imperdoável.

Foi durante sua estada na Índia que eclodiu a primeira revolta nacionalista egípcia visando obter uma nova constituição. Nesse ano de 1882, a intervenção das tropas inglesas rapidamente trouxe a calma.

Após esse fracasso, Sheikh 'Abduh e seu mestre Al-Afghani foram para Paris. Lá, fundaram uma associação islâmica internacional, provavelmente a primeira do gênero. Ao mesmo tempo, lançaram a revista "*O Vínculo Indissolúvel*" em 1883. Os objetivos declarados eram restabelecer a Lei do Islã e fundar um governo islâmico conforme o ideal do Califado primitivo. A estrutura era a de uma sociedade secreta, do tipo confraria. Os textos publicados nos dezoito fascículos ainda constituem a base teórica de todos os movimentos nacionalistas reformistas: despertar a confiança dos muçulmanos em sua religião e civilização tradicional — exortá-los à união contra a dominação ocidental — trabalhar pela aquisição das ciências e técnicas modernas.

Tudo terminou em 1884, e Abduh retornou ao Oriente Médio, enquanto al-Afghani continuava, viajando, seu trabalho de ativista. Ele permaneceu por um tempo em Londres, acompanhando a evolução da situação no Egito e no Sudão. Depois, foi para a Rússia, onde sua intervenção teria garantido um pouco mais de liberdade para seus correligionários.

Certamente chamado pelo Xá, Al-Afghani foi para a Pérsia em 1889. O país sofria forte pressão da Rússia, sua vizinha, e da Inglaterra, senhora do Golfo Pérsico. O Xá concedeu, mediante pagamento, o monopólio do tabaco a uma companhia inglesa. A indignação popular resultante marcou o início da revolução. Al-Afghani se opôs ao Xá e foi expulso. Em um texto preservado até hoje, ele pediu a um religioso de alto escalão que emitisse uma fatwa (decisão jurídica) para proibir o cultivo do tabaco. Ele retornou a Londres e depois voltou a Constantinopla. O assassinato do Xá em 1896 foi executado por um homem, membro de um grupo "Jovens Persas", discípulo de al-Afghani, agindo conforme suas diretrizes. Este morreu em 1897.

##### **B) KAWAKIBI**

Funcionário público e jornalista, após passar pela prisão, foi se estabelecer no Egito, como muitos outros opositores da Porta. Provavelmente encarregado de uma missão pelo Khedive, fez uma longa viagem pela África e pela Ásia.

Kawâkibi expôs suas ideias em um livro intitulado "*As Características do Despotismo*" e em artigos publicados pelo jornal cairota Al-Manâr, de Rashid Rida.

Na linha direta dos reformadores muçulmanos, Kawâkibi constatava o declínio da Umma, a falta de laços verdadeiros entre os crentes. Os otomanos eram acusados de ter corrompido a religião ao criar uma hierarquia religiosa. (A mesma coisa seria, mais tarde, censurada ao Xá).

O único remédio eficaz para salvar a Umma: retornar às fontes! Uma única raça, a árabe, fundadora e criadora da cultura islâmica; uma única língua, aquela usada por Gabriel ao se dirigir a Maomé, o árabe literário; um único poder religioso verdadeiro para toda a Umma, um Califa — árabe — residente em Meca.

Esta última ideia, a constituição de uma única autoridade religiosa islâmica, separada de todo poder político, era realmente original.

Esse "papa" poderia, assim, permitir a criação de Estados independentes, cujo governo e política seriam exercidos por uma autoridade laica, senhora de suas decisões e ações.

É certo que a influência das ideias europeias transparece nessa proposta pouco fundamentalista.

Se a evolução histórica da região se realizou no sentido dos Estados Nacionais, nenhuma autoridade religiosa suprema foi estabelecida e não parece estar em vias de sê-lo.

##### **C) AZOURY**

Estudou em Istambul e Paris, depois tornou-se funcionário público. Condenado à morte, refugiou-se em 1904 em Paris... onde encontrou os vestígios de Afghani e Abduh.

Após publicar um livro, "*O Despertar da Nação Árabe*", formou uma organização, "*A Liga da Pátria Árabe*", e publicou uma revista mensal, "*A Independência Árabe*", da qual saíram dezoito números.

Ele foi o apóstolo do antissemitismo, da luta contra o poder judeu mundial.

Também foi partidário da separação dos dois poderes, da liberdade religiosa e da igualdade cívica. A constituição do futuro estado libanês seria, de certa forma, a concretização desse pensamento.

##### III - O NACIONALISMO

Os nacionalistas muçulmanos agitavam-se cada vez mais. Numerosos exemplos lhes eram dados pela Europa.

- Unificação da Alemanha e da Itália graças ao dinamismo da Prússia, por um lado, e da Casa de Piemonte, por outro;
- Recuo do Império Otomano, cujas derrotas permitiram o nascimento dos Estados nacionais gregos, sérvios, búlgaros e romenos.

Além disso, as intervenções estrangeiras permitiriam a penetração da cultura ocidental sob formas muito diversas. As missões católicas e protestantes desempenhariam um papel importante. Os jesuítas e os presbiterianos americanos fundaram escolas no Líbano e na Síria, bem como instituições de ensino superior: a Universidade São José em Beirute em 1875, e o Colégio Sírio Protestante, futura universidade americana, em 1866.

Pouco a pouco, as populações eram sensibilizadas pelas novas ideias.

Chamados erroneamente de teólogos, pois eram essencialmente especialistas em jurisprudência derivada do Alcorão, os pensadores muçulmanos, sob a influência de seus próprios mestres e dos europeus, orientaram-se para a elaboração de doutrinas políticas que afirmavam ser todas conformes à tradição.

Essas teorias destinavam-se, antes de tudo, a conduzir, em um prazo mais ou menos longo, as populações assim trabalhadas ao confronto contra seus próprios governos para se libertarem em um primeiro momento, e depois a se erguerem contra os ocidentais, Estados ou nacionais designados globalmente como exploradores em um segundo momento.

Para os europeus, seria reatualizado o antigo rito bíblico dos dois bodes expiatórios: funcionários, comerciantes, artesãos, clérigos de todas as confissões cristãs... todos colonos e o que representavam, o colonialismo, foram considerados responsáveis e carregados com a totalidade das misérias, fraquezas, faltas e carências dos Filhos de Ismael. COLONO, bode a ser imolado, imolado a Alá!

COLONIALISMO, bode a ser expulso para o deserto para morrer de fome e sede, ou seja, fazer com que seja despojado até mesmo de seus lucros mais justos e forçado à humilhação diante da Umma.

Esses pensadores de novo estilo haviam avaliado a tranquilidade e a passividade dos povos muçulmanos, governados por uma hierarquia árabe-islâmica assalariada pelo poder otomano, quedival ou mesmo europeu e que se beneficiava amplamente de sua posição social.

Eles também consideravam que os Doutores da Lei, pelo imobilismo de seu Direito, não podiam ajudar no despertar de homens submetidos ao poder absoluto de um chefe infalível, encarnação de um Deus inacessível... Um século depois, os chefes são mais numerosos, mas continuam igualmente infalíveis!

Aos jovens árabes, muçulmanos ou cristãos, como Narf'Yazizi ou Brutus Bustani, nacionalistas sinceros, a bagagem cultural dispensada pelo Ocidente permitiu sua integração na elite intelectual e política pronta para liderar o combate pela independência em relação a todos os poderes não árabes.

Pouco a pouco, os ânimos se exaltavam... a violência inerente ao islamismo estava prestes a ressurgir. É preciso reconhecer, de fato, que, durante doze séculos, o assassinato de imames, califas, sultões e outras notabilidades afirmou-se como método usual. As matanças e massacres acompanhados de torturas requintadas, as destruições de túmulos, lugares santos, cidades, o aniquilamento de regiões inteiras provocando o retorno à estepe ou ao deserto de áreas cultiváveis foram de tal magnitude que a inquisição governamental espanhola, as repressões da época luterana na Alemanha, as guerras religiosas europeias, todas as acusações feitas... aos católicos são, comparativamente, apenas simples fatos anedóticos.

O pan-arabismo já se fazia sentir entre os egípcios, mas diante dos persas, que ainda tinham a audácia de recusar o sunismo, o islamismo supostamente ortodoxo, ele reagiria violentamente.

Os xiitas duodecimanos foram, desde o início do islamismo, os mais perseguidos. Entre o povo persa xiita, herdeiro de um passado prestigioso que remonta a Ciro II, o Grande, em 559 a.C., tornado o bastião de uma variante minoritária no mundo muçulmano, e os árabes, identificados com o sunismo, acumulou-se ao longo dos séculos um enorme potencial de ódio e desejo de vingança, do qual a atual guerra Irã-Iraque é apenas um aspecto.

##### IV - O FIM DO MONOLITISMO

O desenrolar da história provaria a impossibilidade de o cesaropapismo islâmico sobreviver.

Nem César, nem papa! A religião muçulmana só se espalhou e se manteve em um nível primário: um culto mínimo elementar, ritos usuais simples e, sobretudo, uma visão orgulhosa e falsa do social.

Sob a dura orientação do Profeta e dos primeiros Califas, no calor de uma ação violenta e necessária na realização de uma expansão que, aliás, trazia grandes satisfações materiais aos seus autores, o islamismo pôde fazer crer em seu poder unificador totalitário.

Cada variante islâmica, sempre imbuída de si mesma, só pôde obter obediência temporal e espiritual na medida da dureza, da intolerância, da força policial e militar do chefe escolhido ou que chegou por si mesmo, obediência sempre limitada pelas dimensões territoriais.

Não se trata mais da difusão de uma religião, mas da criação de um Estado paraditatorial que, ao longo dos séculos, se fragmentou, por força do nacionalismo, em múltiplos poderes igualmente totalitários e policiais. Não serão a Arábia Saudita, os Emirados do Golfo, os dois Iêmemes, o Iraque, a Síria, o Paquistão, a Líbia, a Argélia ou o Irã que provarão o contrário, assim como os Estados muçulmanos da África Negra!

##### V - AS DUAS CORRENTES IDEOLÓGICAS

Era, portanto, inevitável que no século XIX o pseudomonolitismo islâmico cedesse sob diversas pressões. As mudanças, definitivamente bem-sucedidas ou abortadas mais ou menos rapidamente, obedeceram a critérios que podem ser esquematicamente classificados em duas grandes categorias:

1. Aqueles cujos pensadores e combatentes se diziam, em todos os aspectos, fiéis à tradição islâmica, o que lhes permitia evitar o anátema dos religiosos estabelecidos ou particularmente venerados e apelar à unidade dos Crentes...
2. Aqueles que praticavam a análise crítica da teocracia vivida e desejavam assimilar certos conceitos ocidentais. Esses modernos constatavam que a secularização não pode ocorrer no islamismo, já que ele não comporta nem igreja, nem religiosos, mas exclusivamente leigos, dos quais alguns usam o religioso para fazer política. Propuseram a flexibilização das estruturas do Estado e uma certa separação da Religião, sempre reconhecida oficialmente.

Eis os principais líderes dessas diversas tentativas de tirar o islamismo de sua letargia. Alguns conheceram o sucesso em vida, poucos conseguiram manter e transmitir sua visão da sociedade muçulmana.

##### OS TRADICIONALISTAS

ou que se afirmam como tais

##### I - TRÊS INDUS

Esses homens, muito conscientes da exploração descarada de sua pátria pelo ocupante britânico, agiram sobretudo para defender sua religião diante do poder do hinduísmo.

A Índia era um dos países mais antigamente penetrados pelo Ocidente, já que o Tratado de Paris, em 1763, consagrava o domínio inglês sobre o território; ao mesmo tempo em que o Império Muçulmano dos Grãos Mogóis se desintegrava definitivamente.

Pequenos Estados se constituíram. Eram numerosos os governos nem hinduístas nem islâmicos, como os dos Sikhs. Levantes de diversas importâncias ocorreram. A revolta dos Cipaios (1857) resultou em uma severa repressão pelas forças britânicas e em uma desconfiança ainda maior em relação à minoria muçulmana.

A) Em 1824, fundou-se o mais antigo movimento islâmico sob a direção de um bengali. Este último havia permanecido em Meca, onde se constituía o primeiro Estado Wahhabita. De lá, ele extraiu a doutrina que deveria inspirar seus fiéis: por um lado, a desobediência civil em relação ao poder ocupante e, por outro, a aplicação pelos camponeses muçulmanos de Bengala, contra seus ricos proprietários hindus, de um versículo do Alcorão que afirmava: "*Todo homem ameaçado pela penúria, encontrando-se em estado de necessidade, pode tomar do supérfluo alheio os bens necessários à sua própria subsistência*."

O movimento terminou em 1860, com a morte do filho do fundador.

B) Saiyid Ahmed de BAREILLY (1784-1831), considerando que a conquista dos infiéis ingleses havia transformado a Índia em "um território de guerra", pregou resolutamente a guerra santa!

A partir de 1818, suas ideias se espalharam sobretudo em Bengala. Após retornar de uma peregrinação a Meca em 1821, ele lançou o jihad contra... os Sikhs! Encontrou a morte em combate. Sua sucessão mostrou-se difícil. Por volta de 1863, a agitação estava definitivamente aniquilada.

C) Sir Saiyid Ahmad Shan BEHADUR, aristocrata nascido em 1810, serviu a Companhia das Índias e depois tornou-se funcionário público.

Sua ação marcou profundamente seus correligionários. Ele colocou em destaque o urdu, língua do vale do Indo, e desenvolveu seu uso.

Consciente do risco que os muçulmanos corriam de serem submersos pela maioria hinduísta, ele desejou uma interpretação moderna do Alcorão e da Suna. Incentivou os hindus ao estudo das ciências ocidentais.

No início, pensou em realizar a união entre muçulmanos, hinduístas e cristãos, mas, logo, diante da ascensão do nacionalismo hindu, exortou seus irmãos a fortalecerem sua comunidade.

Ele pode ser considerado o verdadeiro chefe do modernismo muçulmano na Índia e o precursor do comunitarismo que resultou na partição territorial de acordo com as duas religiões mais difundidas.

##### II - TRÊS EGÍPCIOS

A) Muhammad 'ABDUH (1848-1906) Xeque egípcio, companheiro-discípulo de Jamal al-Din al-Afghani. Ele orientou a contestação em um sentido reformista, isento de violência. Tradutor para o árabe das principais obras de seu mestre, permaneceu na Síria. Lá, insistiu na necessidade de reformar o islamismo em suas aplicações sociais, modificando prioritariamente o ensino e a estrutura dos tribunais religiosos.

Em seguida, retornou ao seu país de origem, onde publicou numerosos artigos na revista *"Le Manar"*, que pretendia ser herdeira de *"O Vínculo Indissolúvel"*, sua antiga publicação parisiense.

A retomada do movimento nacionalista fez com que fosse nomeado em 1899 Grão-Mufti e membro do Conselho de Administração da Universidade Al-Azhar. Sua obra tornou-se apologética:

> *"A religião muçulmana é racional, tolerante e liberal. O Islã foi para a Europa um fator de progresso pela influência que exerceu sobre as origens da Reforma e do Renascimento!"*

Além disso, o Grão-Mufti tomou várias decisões (fatwas) que liberalizavam a lei religiosa.

Segundo os islamólogos, ele foi um dos que mais incentivaram os muçulmanos a se abrirem amplamente à civilização europeia, permanecendo, no entanto, firmemente apegados à sua religião.

Há nessa proposta muitos elementos contraditórios, dados inconciliáveis... Se o progresso técnico pôde – de forma muito desigual segundo os estados – ser um tanto assimilado, nada mudou fundamentalmente nas estruturas sociais e nos costumes!

**B) Rashid RIDA (1865-1935).** Nascido em Trípoli, no Líbano, fixou-se no Egito a partir de 1897. Foi discípulo do anterior e fundou o periódico *Al-Manar*, muito lido no mundo islâmico.

Muçulmano sincero, recusou-se a fazer do Islã a manifestação do gênio árabe, mas insistia no papel primordial dessa etnia na emancipação e expansão dos povos convertidos.

Moderado, não fez campanha alguma pela separação do Egito e da Porta. Embora tenha apoiado por certo tempo o movimento "Jovens Turcos", desaprovou muito rapidamente suas ações antirreligiosas e anti-islâmicas. Após o golpe militar de janeiro de 1913, Ridâ e sua revista orientaram-se para o wahabismo.

Tornou-se apologista do Islã primitivo e conduziu o reformismo num sentido mais conservador do que o imaginado por Afghani e Abduh.

A ideia árabe, pan-árabe, havia encontrado um grande defensor. O centro pensante dessa sinergia árabe-muçulmana era a Universidade Al-Azhar, e o difusor, o *Al-Manar*. Essa influência fez-se sentir no Norte da África.

Os ulemás reformistas, entre as duas guerras, despertaram um sentimento nacional que pretendia ser ao mesmo tempo árabe e muçulmano.

**C) Hasan al-BANNA (morto em 1949),** modesto professor primário, mais inclinado ao sufismo, movido por uma vontade de reforma moral estrita da comunidade muçulmana, criou nesse espírito o movimento **"OS IRMÃOS MUÇULMANOS"**, verdadeira irmandade ainda poderosa e ativa atualmente.

##### III – OS IRMÃOS MUÇULMANOS

Um primeiro núcleo existiu desde 1928 em Ismailiya. A associação surgiu oficialmente no Cairo em abril de 1929 e, quatro anos depois, Hasan al-Banna ali se estabeleceu. Em 1936, tornou-se permanente. Pouco depois, saiu o primeiro número do jornal dos Irmãos. Dois outros teóricos, o líder religioso Hudaybi e Abd al-Qadir al-Uda, tornaram-se os guias ideológicos após a execução do líder.

Este tinha o título de "Guia Supremo". A atividade da irmandade foi inicialmente exclusivamente religiosa, educacional e beneficente.

A partir de 1936, tomando partido dos árabes palestinos contra o sionismo e o ocupante inglês, sua luta tornou-se política. Organizaram uma espécie de exército, bastante poderoso, cujos elementos foram engajados em diversos lugares.

Em 1948, um Irmão assassinou o Primeiro-Ministro que tentava quebrar sua influência. No ano seguinte, a polícia do rei Farouk eliminou o "Guia".

A Irmandade tinha laços estreitos com o Comitê Secreto, diretor do grupo dos "oficiais livres" que, em 1952, com o Coronel Abd al-Naser, tomaram o poder. A boa harmonia não durou, o regime se afirmava moderno demais.

A partir de 1953, após a execução de al-Uda, os Irmãos entraram na clandestinidade.

Eles souberam infiltrar-se na administração e no exército de muitos Estados árabo-muçulmanos. Assassinato e subversão são suas principais armas para tentar derrubar governos e estadistas considerados ímpios.

Eles eliminaram Sadat no Egito e condenam à morte os infiéis como o alauíta sírio Hafez al-Assad e o iraquiano Saddam Hussein... Eles estão muito presentes no Golfo com a Organização da Revolução Islâmica; na Jordânia com o Partido da Libertação Islâmica, que teria sua sede na Alemanha Ocidental.

O Fatah de Yasser Arafat, a mais importante das organizações palestinas, está politicamente ligada aos Irmãos. O Exército de Libertação Palestina carrega sua marca...

No Irã, eles se espalharam sob a forma da organização Fidayan-e Islam, de atividade terrorista e da qual Khomeini era próximo.

Eles se manifestaram no Sudão, na Tunísia, na Líbia... etc. É pensando neste Estado dirigido pelo Coronel Kadafi que é interessante deter-se na ideologia do visionário Hasan e de seus discípulos.

##### A DOUTRINA DOS IRMÃOS MUÇULMANOS

Eles pedem aos muçulmanos que superem suas divisões dogmáticas e suas querelas. Eles os convidam a uma vasta reunião comunitária e à realização de novas tarefas.

Primeiramente, a ação nacionalista: libertar integralmente os países muçulmanos da dominação estrangeira em todos os seus aspectos e recuperar a Palestina vendida aos judeus pelos ingleses. Ele englobava nesta luta de libertação o Turquestão e as Repúblicas muçulmanas da URSS, bem como o Afeganistão, que sentia ser cobiçado por Moscou. Poderia assim ser criado para os muçulmanos da Diáspora um Estado independente, poderoso, cujo Islã seria a religião e ao qual poderiam pedir ajuda e proteção.

Hasan imagina então o que será esta pátria muçulmana assim reencontrada e inalienável: Um Estado independente capaz de se libertar das influências ocidentais (os EUA ainda não eram estigmatizados!) para retornar ao espírito do Islã como Deus e seu Profeta o definiram...

Um Estado pluralista ou unitário que não será propriamente um estado teocrático. Hasan o vê como uma república califal: o líder livremente escolhido pelos membros da Comunidade (que conteúdo ele dá a este termo?) deverá ter as qualidades exigidas pela tradição sunita, com exceção da linhagem coraixita.

Estado totalitário, mas também Estado comunitário e cooperativo, onde governantes e governados, ligados por uma mesma fidelidade ao Alcorão, devem trabalhar em conjunto para os mesmos fins comuns. Os detentores da autoridade deverão recorrer à consulta de seus administrados, que devem expressar, sob a forma de bons conselhos, seus sentimentos pessoais visando o bem comum. Os líderes devem ordenar o bem e proibir o mal...!

O Estado modelo não é nem um Estado submetido à ditadura marxista ateia, nem um Estado capitalista baseado na busca do lucro por particulares e que busca fazer de seus bens e de seu poder o fim último de sua ação. É um Estado socialista (utópico) onde o rico é amigo e associado do pobre. Submetido à ética imposta pelo Alcorão e pela Suna, assumido por um ideal de paz e reconciliação, exige de todos os seus membros uma vontade de abnegação e pureza moral, da qual apenas o Islã, ao retornar às suas fontes, pode dar o exemplo salvador em um mundo cada vez mais invadido pelo materialismo e pelo mercantilismo.

Sem colocar em dúvida a fé e a sinceridade de Hasan, é patente que este Estado ideal, objetivo atribuído à atividade dirigida dos crentes por chefes, emanação de Deus, únicos autorizados e infalíveis para designar o caminho a seguir e para definir, segundo seu humor e a busca de eficácia, o bem e o mal do momento, pertence à mesma categoria de engodo, de promessas irrealizáveis, mas mobilizadoras, expressas pelos marxistas. Já Marx e Engels, em seu Manifesto, anunciavam a realização... a prazo, de um sistema associativo onde "*o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos*"... Bukharian precisava: na sociedade de amanhã, "*não há proletários, nem capitalistas, nem operários assalariados; há apenas simples humanos, camaradas... Tudo será supérfluo. Os produtos serão abundantes... Cada um retirará do depósito comunal o que precisa e tudo estará dito... Cada um poderá pegar o que lhe for necessário, além disso, o dinheiro não terá valor...*"

A ambição de realizar o Estado idílico foi a de quase todos os chefes de governo árabes e muçulmanos. Devido à religião, sempre andou de mãos dadas com a esperança de ser o congregador e o guia supremo da comunidade. Era o sonho de Gamal Abdel Nasser, que confiava em 1957 a Benoît Méchin sua certeza da unidade do mundo árabe, apesar da diversidade de raças, dialetos e seitas, reprovando ao Ocidente por ter feito uma espécie de balcanização, uma brasa de discórdia! Esse sonho, ele o transcreveu em sua "*Filosofia da Revolução*". Ele se via mestre de um Império composto por três círculos: o Egito como zona central, ao redor dele o mundo árabe e, em seguida, o mundo islâmico. Se pôde realizar por um tempo a fusão com a Síria de Choukri Kouatly, o sonho durou apenas três anos! Ele teve ao menos a franqueza de suas ideias, pois é certo que todo chefe árabe de um Estado militarmente poderoso será sempre tentado a fazer o papel de Califa. O Rei da Arábia não é o protetor de toda a península e o fiscal do respeito à sharia em outros Estados aos quais faz esmola? Os Generais no poder no Iraque e, sobretudo, na Síria, não têm essa intenção oculta? Hafez al-Assad já se vê à frente de uma grande Síria. O Coronel Khadafi, por sua vez, soube realizar uma estrutura administrativa próxima da imaginada por Hassan. Ávido por fusão com uns ou outros, ele se vê um dia unificador do Norte da África, dos muçulmanos negros do Sul e vingador da afronta que representa, para todo muçulmano coerente, a existência de um Estado judeu na Palestina. Isso dá muitos candidatos ao poder supremo. A luta será acirrada!

##### IV - UM SUDANÊS

Muhammad Ahmed b. Abd Allah (1843-1885) e a confraria dos Ansares.

Este homem, que não podia imaginar seu triunfo... um século depois, era súdito do Quediva do Cairo.

Este, de fato, após sua vitória sobre os Wahhabitas, havia constituído um pequeno império africano, estendendo seu domínio para a costa do Mar Vermelho e a bacia superior do Nilo. Seus colaboradores eram frequentemente europeus. Cartum, capital do Sudão, fundada em 1822, Charles Gordon, britânico, foi nomeado governador do novo estado em 1874. Ele conquistou o sul, em direção a Darfur e aos pântanos do Bahr al Ghazal, campanha onde a República abandonou os intrépidos Marchand e Baratier...

Provavelmente sob pressão dos europeus, o Quediva havia começado a lutar contra o tráfico de negros, comércio para o qual os muçulmanos nômades e os beduínos das grandes tendas se tornaram, desde 666, verdadeiros especialistas.

Amar b. Abd Allah, homem de condição muito humilde, filiou-se aos dezoito anos a uma confraria sufi cujo superior morava em Cartum. Retirou-se para uma ilha do Nilo Branco e, declarando-se o Mahdi, começou a pregar, afirmando ter voltado à Terra para libertar o país dos egípcios e dos ocidentais. Tendo encontrado numerosos adeptos, sendo o medo de ver o tráfico terminar um motivo para muitos deles, a insurreição armada começou em 1881. Após inegáveis sucessos, incluindo o saque de Cartum, onde Gordon Paxá encontrou a morte, o Mahdi sucumbiu durante um confronto. Seu sucessor, árabe sudanês, Abd Allah, dedicou-se a difundir a religião. A reconquista começou com a vitória dos anglo-egípcios em Toski, em 1889. O general Kitchener encerrou as operações com a tomada da capital em 1898. O Califa Abd Allah morreu em combate um ano depois.

Segundo os especialistas, o Mahdi descendia não apenas dos dois filhos de Fátima e Ali, mas também de Abas, tio de Maomé. Sua doutrina era uma mistura de sufismo, xiismo e wahhabismo. Pregando, como todos esses chefes, o retorno à unidade, a união ao seu redor de todos os que se revoltavam contra a corrupção do regime visado, ele foi o defensor de uma Lei revelada puritana e estritamente aplicada... Com seu desaparecimento, o Sudão não havia terminado de ouvir falar da sharia pura e dura.

O filho do Mahdi, Abdul Rahman, Xeique da Confraria dos Ansares, conseguiu manter a influência das ideias fundamentalistas. O Presidente General Nimeiry teve que manter a rigidez da Lei.

Recentemente, após a queda do General em 1985, as eleições gerais de 1986 levaram à presidência do Estado o bisneto do Mahdi e Xeique dos Ansares.

##### V - UM ARGELINO

Muhammad ben Si Ali ben Senoussi (1791-92-1892); seu reino e sua confraria.

Ele nasceu na douar Thorah, entre os Ouled Sidi Yousef, perto de Mostaganem.

Sua família descenderia de Maomé através de Hasan, filho de Fátima e Ali, e depois de Idris, que chegou ao Marrocos por volta de 786 e cujo filho fundou o primeiro reino em Fez.

Aos trinta anos, deixou a Argélia para essa cidade, onde estudou por sete anos antes de fazer a peregrinação a Meca. Ao longo do caminho, foi iniciado em diversas Irmandades, especialmente na dos Khadiriya.

A doutrina dessa Ordem teria sido revelada diretamente por Alá ao Xarife marroquino de Fez, Si Abd el Aziz ben Debbar, no final do século XVII, início do século XVIII. O terceiro sucessor do fundador, tendo ido a Meca, lá ensinou por trinta e seis anos, até sua morte em 1835.

Si Muhammad ben Senoussi havia sido notado na Universidade Al-Azhar pela ousadia e intransigência de suas ideias. Seu tema fundamental era a luta contra as invasões europeias e os meios considerados, da hostilidade latente ao Jihad.

Diante dessa atitude, o Xeique egípcio El Harrich lançou contra ele um verdadeiro anátema e até tentou envenená-lo. Si Senoussi guardou por toda a vida o ódio ao Egito.

Com a morte do Xeique dos Khadiriya, fundou sua própria Irmandade na Zawiya de Abu-Qubais. Em 1843, foi para o Djebel Lakhdar, na Tripolitânia, onde construiu em El Beïda uma nova Zawiya. Tornou-se o verdadeiro soberano de um território limitado ao norte pelo Mediterrâneo, de Alexandria a Gabès, estendendo-se ao sul até os países negros.

Por volta de 1885, enfrentando a animosidade ativa dos otomanos, dos Ulemás de Constantinopla, dos egípcios e de Meca, desceu mais ao sul e instalou a capital de sua Ordem em Djerboud, perto do oásis de Siuá. Formou muitos missionários que subjugaram toda a África Central à Ordem. Em sua morte, quatro anos depois, foi enterrado em sua capital.

A doutrina dos Senoussiya é profundamente influenciada pelo Wahhabismo e pelas ideias de Al-Afghani e de seu discípulo Mohamed Abdu, que foi Grande Mufti do Egito. Ela busca devolver ao Islã a pureza literal dos tempos primitivos, portanto, reaplicar as grandes leis religiosas, morais e sociais instituídas pelo profeta, defendê-las e propagá-las. A influência e o poder da Ordem são imensos. Um fato testemunha exatamente isso: no início deste século, a Província do Hejaz (Medina, Meca...) na Arábia Saudita era considerada uma província espiritual do Imamato de Djerboud.

A Senoussiya se queria e ainda se quer a barreira que, em nome de Alá, o Islã regenerado opõe à invasão das ideias e costumes europeus. Essa oposição se estende não apenas às elucubrações das seitas maçônicas, mas a todo o conjunto socialista-marxista.

Essa vontade teocrática pan-islâmica ainda se afirma nas doutrinas de todas as Ordens religiosas, em todo o ensino oficial, normal e ortodoxo das escolas públicas muçulmanas.

A priori infiltrada em todos os movimentos fundamentalistas, a Senoussiya, no entanto, sempre se recusou a se deixar arrastar para a luta aberta contra uma nação europeia.

Recusou a ajuda solicitada pelo Mahdi em sua luta contra os ingleses, não mobilizou o conjunto muçulmano para ajudar o Emir Abd el Kader, finalmente capturado pelos franceses, embora seu pai fosse o Xeique da importante irmandade dos Qadriya, e não participou no Marrocos da Guerra do Rife.

É certo que a Irmandade dos Rahmaniya, muito próxima dos Senoussiya, desempenhou um grande papel na insurreição de 1871 na Cabília. Ela foi provocada pelo injusto decreto do judeu Adolphe Crémieux, ministro da justiça após a partida de Napoleão III, que naturalizava franceses seus correligionários argelinos, proclamando assim a superioridade do judeu nativo sobre o berbere ou o árabe muçulmano, enquanto, ao mesmo tempo, em Wissembourg, no Exército do Reno, como nos Exércitos do Loire e do Leste, os muçulmanos davam milhares de vidas pela França.

A terrível repressão, confisco em massa dos bens dos nativos muçulmanos concedidos aos judeus residentes, envio para a prisão na Nova Caledônia dos notáveis, incluindo o velho Xeique El Haddad e seu filho Si Aziz, que escapou em 1881 e se refugiou em Meca, não levaram o Xeique dos Senoussiya, principal irmandade, única capaz de proclamar a jihad e ser obedecida, a convocar a guerra santa.

Desde as Cruzadas, o Estandarte Verde do Profeta não se desdobrou em nenhum campo de batalha...!

Mas é necessário voltar a Si Muhammad. Com sua morte, seu filho mais velho, Si el Mahdi ben Si Ali ben Senoussi, chamado pelos europeus de Xeque Senoussi e pelos muçulmanos de Xeque el Mahdi, o sucedeu.

Ele deslocou ainda mais ao sul a capital da Ordem: para Kufra em 1895 e depois, em 1899, para Gouro, abaixo do Trópico de Câncer. Esse deslocamento para o sul manifestava a vontade de expansão do Islã e dos afiliados em direção a Borkou, Fezzan, Tibesti, Karem e à África negra, opondo-se à penetração saariana e católica.

Essas forças obrigaram Ahmad al-Sharif, novo Xeque desde 1902, a recuar para Kufra. A partir de 1911, os italianos iniciaram a ocupação da Tripolitânia e do Fezzan. Em seus combates contra os soldados europeus, franceses, italianos ou ingleses, o Xeque recebeu a ajuda dos otomanos, aliados dos alemães. O episódio sangrento do assassinato do Padre de Foucauld foi atribuído aos Senussi. Isso parece um erro. Trata-se, mais simplesmente, de um ato terrorista cometido pelos primeiros fellaghas de Si Mohammed Labed.

De qualquer forma, a morte do grande marabu francês acrescentou muito à notoriedade de Ahmad al-Sharif, que foi, por esse motivo, simbolicamente designado em 1921, em Ancara, como rei do Iraque. O Xeque morreu em 1933 em Medina.

Desde 1914, o Mestre da Ordem era seu primo Sayed Idriss. Após múltiplas peripécias, a formação do Eixo para a 2ª Guerra Mundial lhe deu uma chance; refugiado no Egito, teve, no entanto, que esperar o final de 1951 para se tornar o 1º rei constitucional da Líbia independente.

Dezoito anos depois, o Coronel Kadafi o derrubou.

Mas a SENOUSSIYA continuou, tornando-se a principal força oculta do Islã.

# RECORDAÇÕES SOBRE A MAÇONARIA

##### ESTRUTURA E ATIVIDADES MAÇÔNICAS

##### I - A ESTRUTURA MAÇÔNICA

##### A - Retrospectiva Histórica

A Maçonaria: religião universal, mistura luterano-judaica?

Em fevereiro de 1717, em Londres, reuniram-se o antiquário G. Payne, o teólogo protestante James Anderson, o Reverendo Jean-Théophile Désaguliers e alguns outros para criar a Grande Loja da Inglaterra.

Muito antes dessa fundação, J. Anderson buscou fazer passar suavemente a maçonaria católica de outrora (Idade Média) sob a égide do protestantismo.

A Inglaterra hanoveriana, protestante e liberal, constitui a base territorial ideal para o desenvolvimento do espírito novo.

O 1º Grão-Mestre, o Duque de Wharton, ordena a redação das Constituições – ditas de Anderson – mas em cuja redação trabalhou principalmente Désaguliers.

**1. Três pontos importantes**

**a) Religião universal**

Não há religião de Estado, e nem mesmo religião alguma. Deve-se deixar a cada um suas próprias opiniões, e as opiniões religiosas, em particular, estão em igualdade de direitos... O caráter místico da loja, seus ritos estranhos permitem que todos esses espíritos diversos convivam, colaborem sem atritos e sem dar aos participantes a impressão de se comprometerem...

**b) Uma certa lei moral**

A observância da lei moral como verdadeiro NOÁQUIDA, pois todos os Homens concordam com os três grandes artigos de NOÉ – Ora, esses artigos não são bíblicos; são conhecidos apenas pela tradição rabínica, o Talmude; somente teólogos e filósofos judeus, como Maimônides, os mencionam.

Do ponto de vista do Judaísmo, o Noaquismo é a única religião sempre em vigor para toda a humanidade não-judaica. Os judeus exercem a função de sacerdotes da humanidade e estão sujeitos, para esse fim, às regras sacerdotais que lhes diziam respeito exclusivamente: a Lei de Moisés.

A Maçonaria seria apenas os Leigos de Israel" (1)

**c) O segredo**

Eis o que o futuro irmão, durante sua iniciação, deve jurar sobre as ferramentas simbólicas do trabalho maçônico (esquadro e compasso), sobre a espada e a Bíblia, aberta na primeira página do Evangelho de São João:

> *"Comprometo-me a guardar o segredo maçônico..."*

Além disso, compromete-se a comunicar tudo à sua Loja sobre seus trabalhos, suas relações... informações... obedecendo-lhe cegamente, independentemente de sua posição social ou política.

Em troca, a Maçonaria sempre defenderá o irmão!

**2. Conclusão**

A Maçonaria, com um Deus aceitável para todos (o Grande Arquiteto do Universo) ou sem Deus; tolerante em relação às seitas, com o segredo permitindo discussões livres, naturalmente se tornaria o ponto de encontro de todos aqueles que se recusavam a obedecer a DEUS e – na época – ao poder: a Monarquia de Direito Divino.

Grande coletora de todas as heresias e rebeliões, a Loja tornou-se a oposição e, com a Revolução consumada, o cadinho de ideias e a eminência parda do poder liberal ou socialista...

> *"Não se deve nem superestimar a ação da maçonaria desde o século XVIII, nem subestimá-la. Ela não explica toda a história, mas a história não se explica sem ela. Acima de tudo, ela constitui um fator secreto, uma ação oculta na vida dos povos que falseia toda a vida social."* (2)

##### B – As diversas obediências existentes na França (3)

**1. O Grande Loja da França desde 1771 – 1º Grão-Mestre: Philippe Égalité.**

Esta loja é Deísta, afirma trabalhar "*para a glória do Grande Arquiteto do Universo*."

Em 1976, contava com aproximadamente 13.000 membros ativos em 298 Lojas. Cite-se alguns Grão-Mestres recentes: Mestre Richard Dupuy – Doutor Pierre Simon – Georges Marcou (Diretor da Elf Aquitaine...) ... em 1978: Michel de Just (filho de um espanhol vermelho antifranquista refugiado na França).

**2. O Grande Oriente da França, separado do Grande Oriente, muito mais laico.**

Desde o Convento de 1877, quando o Irmão Frédéric Desmons, pastor protestante desafrontado, fez riscar a fórmula fundamental do Grande Arquiteto, a tolerância tornou-se regra: Associação essencialmente filantrópica, filosófica e progressista... em busca da Verdade!

Seu lema: Liberdade – Igualdade – Fraternidade.

Em 1976, encontra-se ali cerca de 25.000 membros ativos e 450 Lojas. Entre seus Grão-Mestres, destacamos: Fred Zeller, Paul Anxionnaz, Michel Baroin, J. P. Prouteaux, Serge Béhar, Paul Gourdot...

Esta loja é bastante de esquerda e tem uma forte influência comunista com o Irmão Jacques Mitterand (sem laço de parentesco com François...)

Em 1980, no centenário da Comuna (Louise Michel), os dignitários do Grande Oriente, com o Grão-Mestre em exercício, Zeller, cantaram a Internacional.

**3. A Grande Loja Nacional Francesa – Cisma da Grande Loja,**

Declara-se abertamente deísta, é a única loja reconhecida pela Grande Loja da Inglaterra... não reconhece (?) as outras obediências francesas.

**4. Grande Loja Nacional Francesa (OPERA)**

Separada da anterior desde 1958; mantém relações com a Grande Loja da França e o Grande Oriente. Em 1976, conta com aproximadamente 800 membros ativos, distribuídos em 40 lojas.

**4. Ordem Mista Francesa e Internacional do Direito Humano**

Esta ordem foi fundada em 1893 pela escritora Marie Deraismes. Em 1976, possui cerca de 5.000 membros ativos, homens e mulheres, em 60 lojas.

**5. Ordem Hermética do Rito Memphis-Misraim**

Ordem internacional e de síntese, conta com aproximadamente 5.000 membros filiados no mundo. Em 1976, conhece-se cerca de 15 lojas, com algumas centenas de membros que praticam uma Maçonaria de forma espiritual, altamente esotérica e ocultista. A ela aderem os Irmãos de Altos Graus das três primeiras obediências... Entre os primeiros membros, destacam-se o famoso Cagliostro (protegido do Príncipe-Arcebispo de Estrasburgo, o Cardeal de Rohan) e W.A. Mozart, que, nesse contexto, escreveu "*A Flauta Mágica*"; a Marcha dos Grandes Sacerdotes de Osíris ainda é executada durante as cerimônias da Maçonaria!

**6. Grande Loja Feminina da França** – independente da Grande Loja da França desde 1952.

Exclusivamente feminina: mulheres e filhas de maçons de todas as obediências. Em 1976: aproximadamente 2.200 membros ativos em 60 lojas.

**7. Grande Loja Mista Universal.**

Ela foi criada desde 1973, por cisão da Ordem Mista. Em 1976, compreendia cerca de uma centena de membros.

**8. A Antiga e Mística Ordem Rosacruz**

Parece ser uma versão atualizada da muito antiga (1614?) Ordem dos Rosa-Cruzes. Sua sede central única para todos os países francófonos encontra-se no Château d'Ormonville - Le Tremblay.

**NO PLANO INTERNACIONAL**

Um agrupamento de todas as obediências foi lançado em 1961: o Centro de Ligação das Potências Maçônicas Signatárias do Apelo de Estrasburgo (CLIPSAS). Um convento ocorreu naquele ano. Desde 1980, a Presidência cabe ao Grande Oriente Belga e a primeira Vice-presidência ao Grande Oriente Francês. Não participam dele as obediências anglo-saxônicas, que se dizem cristãs.

**Seção Francesa da Ordem Internacional B'Nai B'rith**

É uma Ordem Maçônica exclusivamente reservada aos membros de confissão hebraica: os filhos da Aliança.

O Presidente do Conselho Internacional é, desde 1974, J. P. Block, membro desde 1929 e antigo Presidente da Loja da França. A estrutura desta ordem é mundialista.

Na França, conhecem-se 2 ou 3 lojas em Paris e 14 lojas provinciais, incluindo a de Marselha, onde está fixada a Secretaria permanente das lojas francófonas. Existe também uma União das Associações Francesas dos B'Nai B'rith.

**C) As correias de transmissão**

Cada um de nós constatará que o domínio onde exerce sua atividade está infiltrado e vigiado por indivíduos mascarados que se reconhecem entre si, sem que lhe seja possível adivinhar quem o vigia, quem pode afastá-lo, destruir sua situação ou seu futuro.

**1. As FRATERNIDADES**

Elas reúnem, em nível local ou regional, bem como profissionalmente, os Irmãos e Irmãs de todas as Obediências maçônicas. A Unidade da Maçonaria encontra-se no nível das "Fraternidades"

Elas vão desde as mais inofensivas (?), as Fraternidades de bairro que permitem conhecer os Irmãos e as Irmãs, até as mais influentes: as Fraternidades Parlamentar, dos Altos Funcionários, do Ministério do Interior, da Prefeitura de Polícia, das Finanças e dos Assuntos Econômicos, do Exército, dos jornalistas... etc., passando pelas dos grandes clubes como Rotary e Lions.

**2. O ENCONTRO DA AMIZADE**

É um verdadeiro Rotary Maçom, recebendo maçons de todas as obediências, mas dominado pela Grande Loja Nacional.

**3. AS AMIZADES RADICAIS**

É a fachada das Lojas onde atua Gabriel Peronnet do Grande Oriente.

**4. OS CÍRCULOS DE ESTUDOS** filosóficos e sociais. Círculo Republicano dos Jornalistas, Círculo do Planejamento Familiar, do Livro e da Edição...

##### II - AS "ATIVIDADES" DA MAÇONARIA

A Ordem dos Rosa-Cruz, a mais antiga, permitiu, no início da Reforma, o agrupamento secreto de todos os príncipes alemães e dos pequenos senhores feudais — bem como a passagem para o protestantismo, em poucos meses, da metade da Alemanha.

A grande obra dos Rosa-Cruz chamava-se Reformação,... e Lutero trazia o emblema rosa-cruz em seu selo...!

Os Pastores Desaguliers, Anderson e outros Desmons apenas pagaram sua dívida...

**A - As Bases Doutrinárias (4)**

É através do estudo minucioso dos escritos, dos arquivos de cúmplices ou de membros ativos da Maçonaria e também pela prática (iniciação surpresa, ultra-rápida em poucas horas nos três primeiros graus: aprendiz, companheiro e mestre) e pela amizade de homens pertencentes a todos os níveis da Maçonaria que o Senhor padre A. BARRUEL, S.J., nos anos de 1773 a 1792, quando teve que fugir da França, pôde analisar os desdobramentos e consequências dessa sociedade secreta.

**1. Tomaremos emprestado dele os elementos descobertos na atividade pré-revolucionária da seita:**

a) Transformação e preparação da opinião pública pela mídia (na época, as publicações: Pascal, Voltaire, Montesquieu, Diderot, d'Alembert e a Enciclopédia).

b) Revolução e laicização do Ensino (na época, eliminação dos Jesuítas que detinham a maior parte dos estabelecimentos escolares.)

c) Luta contra a Religião Católica

(na época, reforma das Ordens Religiosas... feita por Arcebispos sob a liderança de Brienne: 1.500 conventos suprimidos e ataque contra os conventos femininos... etc. Projeto de espoliação dos bens eclesiásticos, insidiosos apelos à violência...)

**2. Os meios empregados para chegar à Revolução**

Foram numerosos; destaquemos entre estes aqueles que podem ser facilmente transpostos para o nosso tempo, aqueles que continuam a ser utilizados desde 1789:

a) Primazia dada à corrupção das elites sociais: Os homens que detêm o poder; aqueles que têm posição, poder, riquezas; as pessoas chamadas instruídas; os literatos; os educadores...

- pela multiplicação dos clubes filosóficos,
- pela importância dada ao controle sobre a formação da juventude, dos jovens príncipes às crianças mais humildes – graças ao surgimento de economistas que falam em pôr ordem na administração e se ocupam em aliviar o povo... Criação de uma rede de distribuição de livros em todas as classes, literatura gratuita, atribuída aos amigos e selecionada em Paris por uma espécie de academia secreta...

b) As sanções: São honrarias ou recompensas diversas para os adeptos ou cúmplices (Na época pré-revolucionária: nomeações para a Academia Francesa, que era um baluarte da Fé...)

Dedicação sem limites a um irmão e sua família, mesmo que este seja perseguido pelo Poder vigente; mas também punições terríveis em caso de descumprimento da lei do segredo e da lei de obediência incondicional às diretrizes das lojas.

**B - O Princípio Diretor**

Único para todas as obediências, serve principalmente para manter, sem fornecer explicações, a grande massa de irmãos que não ultrapassam o grau de mestre (3°).

Resume-se nestas palavras: Igualdade e Liberdade; todos os Homens são iguais e livres; todos os Homens são irmãos. Este é o segredo confiado ao novo irmão: desde sua iniciação no grau de aprendiz (1°).

O que há de mais admirável, de mais digno de seguir e pôr em prática; mas também que astúcia (satânica) deixar assim à maior parte dos maçons o encargo de uma explicação que não contradiz seus princípios.

Para estes, o lento trabalho das lojas trará uma transformação completa, útil ao espírito da Maçonaria, seja por esquecimento, passividade, interesse ou aceitação total, graças à dinâmica de grupo.

Será entre aqueles que tiverem dado provas que, por cooptação, serão escolhidos os iniciados de grau superior que, progressivamente, em cada nível terão direito aos esclarecimentos para finalmente compreender, tornando-o seu, o verdadeiro sentido das tão famosas palavras: Igualdade e Liberdade!

- Não reconhecer nenhum superior na terra.
- Nem trono, nem altar - nem chefe, nem igreja, mas cada indivíduo mestre e pontífice.
- nenhuma verdade se impondo ao homem - a mais completa tolerância - o mesmo valor para tudo, ou seja, nenhum valor.
- rejeição e recusa de tudo que possa, de fora, ordenar a ação humana, agir ou se impor em seu comportamento...
- nada superior à razão autônoma e à vontade humana, exclusivamente aplicadas ao uso da vida terrena.
- nada melhor do que a simples lei da natureza que, sob o olhar de um DEUS-GRANDE-TUDO-VISÃO, tornou "nossos primeiros pais os mortais mais felizes."
- aceitação deísta do Grande Arquiteto para muitas obediências, recusa e laicidade estrita no Grande Oriente, mas para todos, ódio da encarnação, de Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus feito Homem, que, interrompendo o estado de natureza, veio dar aos homens a Revelação.
- Para todos os iniciados superiores, será necessário, portanto, "excluir Cristo do pensamento e da alma dos homens; bani-lo da vida pública e dos costumes dos povos para substituir seu regime pelo que se chama o puro reinado da razão e da natureza."

O regime político perfeito será aquele em que se confiará na opinião da maioria: a opinião (que se manipula e se fabrica).

É a democracia de numeralismo eleitoral (Charles Maurras).

Nesse sistema, o segredo maçônico terá todas as facilidades para dirigir a sociedade através de suas lojas, fontes de inspiração para os legisladores, frequentemente membros da Maçonaria.

O Grande Oriente laico, esquerdista, representa sozinho mais de 2/3 do efetivo global das lojas de todas as obediências. Desde sempre, ele é a peça-chave da transformação de nossa sociedade... É, portanto, mais precisamente a ele que pensaremos ao fazer um balanço sucinto dos resultados obtidos por essa subversão.

**C - Atividades na política: As Etapas**

As etapas da ascensão da Maçonaria ao poder (notemos que não é possível separar a marcha rumo ao Poder da Maçonaria daquela do Socialismo...)

**1. O ato fundamental**

A derrubada pela Revolução de 1789 da Monarquia muito Cristã - resultado de muitos anos de um trabalho obscuro sobre as mentes das pessoas esclarecidas: nobres, clérigos, burgueses, funcionários, políticos, escritores... e da deterioração dos membros da Família real, como a Princesa de Lamballe e o Duque de Orléans, Philippe-Égalité, ambos Grão-Mestres...

Era necessário passar do reinado do Rei, de Direito Divino, ao reinado do povo pelo sufrágio universal, ou seja, ao reinado de seus representantes.

**2. A implementação progressiva (5)**

- 1793: Philippe-Égalité renuncia ao seu cargo, será decapitado. A Maçonaria adormece, mas continua a avançar seus peões tanto internamente quanto externamente com os emigrados.
- 1804: A tomada do poder por Napoleão I dá-lhe a oportunidade de retornar ou reaparecer oficialmente. O Imperador, desejoso de usar o poder da seita, impõe-lhe que entregue aos altos dignitários do regime os altos graus das obediências.

Em 1814, havia 905 Lojas Maçônicas, das quais 73 eram militares, que trabalhavam no progresso das ideias de 1789 nos países ocupados.

A Restauração, com Luís XVIII, nada fez para impedir o aumento do poder: Decazes, membro do Supremo Conselho do Rito Escocês, era o conselheiro íntimo do Rei.

Após Waterloo, as manobras dos iniciados levaram a Maçonaria, após a abdicação de Carlos X e sua partida para o exílio com o herdeiro da coroa, seu neto o Duque de Bordeaux.

- 1830: a dar o poder a Luís Filipe, Duque de Orleães, tenente-general do Reino, cercado pelos Irmãos Laffitte, La Fayette, Soult... Luís Filipe substituiu o título de Rei da França pelo de Rei dos Franceses, rompendo assim com a tradição secular da monarquia de Direito Divino - mesmo combinada com uma carta para substituí-la por uma monarquia de consentimento popular.

Embora Luís Filipe tenha recusado a Maestria do Grande Oriente, os Maçons foram numerosos nos governos.

No entanto, as Lojas maçônicas republicanas, numerosas sociedades secretas, incluindo a Liga dos Justos (comunistas), cujos chefes foram exilados em 1839 por Guizot, prepararam a queda da monarquia burguesa e fomentaram atentados e insurreições.

Em 1845, Guizot expulsa Karl Marx e dois de seus amigos.

A revolução eclode pouco após a publicação pela Liga dos Justos (de Londres, onde estavam refugiados) do Manifesto do Partido Comunista, aperfeiçoado e atualizado por Karl Marx a partir das doutrinas iluministas.

- 1848: Em 24 de fevereiro, abdicação de Luís Filipe I.

Um governo provisório, do qual 9 dos 11 membros eram Maçons, proclama a II República.

Apresentação do primeiro programa de Frente Popular por Barbès, Blanqui... e aprovado por Louis Blanc, ministro diretor da comissão do trabalho.

As eleições gerais de abril deram apenas 100 assentos à esquerda em cerca de 800...

Em maio, tentativa de golpe socialista reprimida duramente pelo General Cavaignac.

A constituição foi promulgada em novembro. Ela decidia o recrutamento de todas as autoridades pelo sufrágio universal...

O príncipe Luís Napoleão Bonaparte, carbonário desde 1831, é eleito presidente da República em 10 de dezembro de 1848!

Como? Pela ação da maçonaria de esquerda (favorável aos partilhistas e aos jacobinos) em desacordo passageiro com o Grande Oriente da França. As sociedades secretas (Sociedade dos Direitos do Homem, a Sociedade das Famílias do comunista Luís Blanc; a Carbonária do Irmão Philippe Buchez) adaptavam-se mal ao regime burguês. Elas apoiaram, em toda a França, a candidatura de Luís Napoleão Bonaparte, embora o candidato republicano fosse o Irmão Ledru-Rollin.

Concessão ao poder, armadilha para os católicos, seguros de sua força? A Maçonaria permite promulgar, em 15 de março de 1850, a lei Falloux, admitindo a liberdade de ensino.

O plebiscito de 21 de novembro de 1852 restabelece a dignidade imperial hereditária. Napoleão III poderá, na política externa, colocar em prática sua teoria das nacionalidades, inspirada pelos Carbonários e visando especialmente à unificação da Itália e à aniquilação do poder temporal do Papa (Pio IX. O *Syllabus*).

O Grande Oriente da França ofereceu o Grão-Mestrado ao príncipe Luciano Murat, primo-irmão do Imperador — mas, após um desacordo dentro da obediência sobre a questão da Itália, o Imperador nomeou e fez aceitar como Grão-Mestre o General Magnan.

Os Maçons republicanos aproveitaram para aumentar sua influência nas Lojas. Em 1854, o Grande Oriente da França torna-se totalmente laico.

Nas eleições de 1863, a oposição, com 38 deputados, incluindo Jules Favre, Jules Simon, Berryer, Carnot..., tornou-se novamente mais visível. Thiers assumiu sua liderança.

Após a reforma ministerial, os ministérios da Justiça e dos Cultos, e o Ministério da Instrução Pública foram dados a dois anticlericais que iniciaram a laicização progressiva do Ensino.

Fevereiro de 1864: Publicação em Paris do "Manifesto dos Sessenta", onde se expressava a consciência de classe de uma parte do proletariado parisiense. Esse manifesto corroborava os princípios da Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em Londres na mesma época e animada por Karl Marx. O primeiro escritório da Internacional abre em Paris em 1865.

1866: o Irmão Jean Macé funda a Liga do Ensino, filha e filial da Maçonaria.

Nessa época, destaca-se a oposição das Lojas ao projeto Niel de reforma do Exército: os Maçons republicanos, socialistas e comunistas, tradicionalmente hostis ao exército permanente, propunham a criação de uma milícia nacional.

Nas eleições de 1869, o Maçom Gambetta apresentava o programa da ala esquerda do Grande Oriente da França; o sucesso da oposição levou seu chefe, Ollivier Émile, à presidência do governo em 1870.

18 de julho de 1870 — foi a Guerra — Thiers, Gambetta e seus amigos tentaram se opor à votação dos créditos militares; muitos desejavam a derrota, que levaria ao fim do Império. Jules Guesde, em seu jornal "*Os Direitos do Homem*", também fez campanha contra a guerra e apoiou vigorosamente a Comuna.

Em 3 de setembro de 1870, a capitulação do Marechal Mac-Mahon em Sedan e a partida para o cativeiro de Napoleão III são conhecidas em Paris. Após numerosas vicissitudes, devido às rivalidades internas da oposição, um governo provisório de Defesa Nacional foi estabelecido no dia 4, governo formado pela esquerda do Grande Oriente da França, sob a presidência do General Trochu.

**D - O sucesso visível: A República dos Maçons**

Neste governo provisório, os Maçons: E. Arago; Isaac, dito Crémieux; os três Jules: Favre, Ferry, Simon; Léon Gambetta; E. Pelletan; E. Picard, Garnier Leuges.

**1. A IIIª República é proclamada..." (final de 5)**

Ela durará até 1940. Durante 70 anos, as obediências Maçônicas, e mais particularmente a mais virulenta e politicamente engajada, o Grande Oriente da França, governariam a França.

O Grande Oriente da França, que havia tomado dos revolucionários de 1848 o lema Liberdade, Igualdade, Fraternidade, faria deste o lema da República.

Através da constituição do verdadeiro governo que ocorreu após as eleições de 8 de fevereiro de 1871, é fácil descobrir

a) o que os Maçons chamam de um governo de união nacional...

b) que eles reservam para si os ministérios-chave do manejo das mentes...

O Presidente da Assembleia, o Maçom Jules Ferry, nomeou chefe do governo o ex-carbonário A. Thiers, que designou

- dois monarquistas: vice-presidência do Conselho e justiça - obras públicas.
- dois conservadores: finanças - Agricultura e comércio.
- Os Maçons: Negócios Estrangeiros. Instrução Pública e Cultos. Interior e guerra. Marinha e Colônias.

Ao longo dos 70 anos, a Maçonaria fez questão de conservar

**2. O Ministério do Interior**

pelo qual se controla a Polícia e as Informações Gerais, que permite nomear os Prefeitos... ou os Comissários da República, bem como inúmeros Altos Funcionários que podem, em seguida, pressionar as forças vivas da França e dificultar seus progressos...

Pelo mundialismo dos Maçons, esses Altos Funcionários frequentemente se encontram em organismos internacionais, inclusive à sua frente.

**3. O Ministério da Instrução Pública e dos Cultos**

É o equivalente ao atual Ministério da Educação Nacional.

É neste ministério que se desenvolveria a ação para "*combater o catolicismo... preparando os espíritos... a exigir o regime da liberdade (sic), a supressão do orçamento dos padres, a separação do Estado das Igrejas...*" (F.: Ferdinand Buisson em 1869) para finalmente "*tomar rapidamente as medidas destinadas à construção de um grande serviço público unificado e laico de educação pela integração dos estabelecimentos escolares que só poderiam continuar a beneficiar da ajuda do Estado perdendo suas características próprias.*" (Paul Gourdot, Grão-Mestre do Grande Oriente da França 1982), ou seja, "*precipitar no abismo do passado a educação confessional*." (Gambetta e Ferry).

**4. O Ministério da Guerra**

Bem infiltrados no Estado-Maior, os Maçons praticamente controlaram o ministério após o caso Dreyfus.

A Presidência da República, assim como a Presidência do Conselho, estiveram frequentemente nas mãos da Maçonaria.

É importante notar que, por exemplo, de 1873 a 1932, o Ministério do Interior pertenceu 32 vezes aos Maçons, o da Educação Nacional 28 vezes (Jules Ferry, que conhecia sua importância, sendo duas vezes presidente do Conselho, reservou o cargo para si); a Presidência do Conselho 44 vezes e a Presidência da República (6) 6 vezes.

Durante todo esse período, observa-se um paralelismo quase perfeito entre as decisões tomadas nos Conventos anuais do Grande Oriente da França e as leis votadas no ano seguinte...

A Maçonaria entrou na sombra sob o Estado Francês e a ocupação alemã. Graças ao governo do Marechal e ao Professor Bernard Fay, um certo número de segredos foi revelado e tornado público. O que resta disso hoje?

Laval e o ministro do Interior Peyrouton, Maçons, evitaram que muitos Maçons fossem presos pelos alemães e deportados.

L.D.

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##### ANEXO: PROGRESSÃO INICIÁTICA

Segundo o Senhor padre Barruel s. j.

a) O grande segredo que a Maçonaria diz ter em vista... é... iniciar seus adeptos na luz, libertá-los das trevas em que os profanos estão enterrados; e esses profanos são todos os outros homens.

Essa promessa por si só anuncia que, para os maçons, existe uma moral, uma doutrina, diante da qual toda a de Jesus Cristo e de seu Evangelho não passa de erro e trevas.

b) A era maçônica não é a do Cristianismo: o ano da luz data para eles dos primeiros dias do mundo...

... toda a sua luz, sua moral, sua ciência religiosa é anterior à revelação evangélica, até mesmo à de Moisés e dos Profetas...

... Ela será tudo o que aprouver à incredulidade chamar de religião da natureza.

c) A loja não passa de um templo feito para representar o universo... Nela se admite com a mesma indiferença Homens de toda religião, de toda seita... todos veem ali a luz...

Receio que tanto zelo para reunir o erro e a mentira não seja outra coisa senão a arte de sugerir a indiferença por todas as religiões até que chegue o momento de destruí-las todas no coração dos adeptos.

d) ... o segredo!... Quem ama se esconder pratica o mal...

e) ... os maçons não escondem seu espírito de fraternidade, de benevolência geral, de beneficência...

... apenas a predileção pelo segredo sobre estas primeiras palavras da maçonaria: igualdade, liberdade; o juramento de jamais revelar nessas duas palavras a base da doutrina maçônica anunciava que deveria haver uma explicação dessas palavras, tal que importava à seita ocultar sua doutrina aos homens de Estado ou da Religião.

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O Grau de Mestre (III°) permite ao iniciado aprender a história alegórica de Adonirão (Hiram), arquiteto construtor do templo de Salomão e morto por três companheiros por não lhes ter dado a senha: A PALAVRA.

No grau de Eleito, é revelado ao adepto que se trata de vingar a morte de Hiram... Golpeai tudo o que vos resistir!

Em seguida, o adepto e seus confrades oferecem o pão e o vinho: o sacerdócio universal... (o que designa o culpado) a religião de Moisés e de Jesus Cristo, pela distinção entre Sacerdotes e leigos, violou os direitos naturais da liberdade e da igualdade religiosa.

Os três graus da cavalaria escocesa: o iniciado pronuncia um novo juramento de nunca trair os segredos que lhe forem confiados.

No primeiro nível de Sumo Sacerdote, ele recebe uma espécie de bênção em nome do imortal e invisível JEOVÁ, é doravante sob este nome que deve adorar a Divindade...

A ciência maçônica ainda lhe é dada apenas como a de Salomão e Hiram, renovada pelos Cavaleiros do Templo...

No segundo grau, é-lhe revelado que esta ciência tem como pai Adão. Adão, Noé, Ninrode, Salomão, Hugo de Payens, fundador dos Templários, e Jacques de Molay, seu último Grão-Mestre, (são-lhe revelados como) os grandes sábios da Maçonaria, os favoritos de Jeová.

No terceiro grau: Cavaleiro de Santo André, ele aprende que a famosa palavra, por tanto tempo esquecida e perdida desde a morte de Hirão, era o nome de Jeová... reencontrado pelos Templários em Jerusalém...

Neste grau, os iniciados são todos sumo sacerdotes de Jeová...

A liberdade e a felicidade que a seita fazia consistir no retorno ao Deísmo, dizia de forma bastante explícita aos adeptos o que deveriam pensar do cristianismo e de seu divino fundador.

O grau de Cavaleiro Rosa-Cruz permite descobrir quem é o verdadeiro assassino de Adonirão – quem é aquele que destruiu o deísmo na terra – quem é o raptor da famosa palavra.

Em um cenário sombrio, deixando entrever três cruzes, todos os irmãos sentados no chão, com ar triste e aflito... o acontecimento que os entristece é nada menos que a morte do Filho de Deus, vítima de nossos crimes...

"O instante em que o véu do templo se rasgou... (é aquele) em que a palavra foi perdida", é-lhe revelado... o novo Cavaleiro Rosa-Cruz vê que o dia em que a palavra Jeová foi perdida foi precisamente aquele em que Jesus Cristo, este Filho de Deus morrendo pela salvação dos homens, consumou o grande mistério da religião cristã e destruiu toda outra religião, seja judaica, seja natural e filosófica.

É de Jesus Cristo e de seu evangelho que é preciso vingar os irmãos, os pontífices de Jeová.

Então é revelada a palavra que, na boca do iniciado e na de seus co-adeptos, lembra habitualmente a blasfêmia do desprezo e do horror contra o Deus do Cristianismo:

É a palavra tomada na Cruz: INRI. Essas iniciais que significam Jesus Nazareno, Rei dos Judeus, o Rosa-Cruz aprende a substituir pela interpretação: Judeu de Nazaré conduzido por Rafael à Judeia: um judeu comum levado pelo judeu Rafael a Jerusalém para ser punido por seus crimes.

É por essa palavra INRI que os Rosa-Cruzes se reconhecem! Outro significado (J. P. d'Assac) para o 33º grau: *Igné Natura Renovatur Integra*: pelo fogo (o Espírito) a natureza é renovada por inteiro.

Se o adepto manifestasse grande desejo de ir mais longe, se fosse considerado apto a suportar as provas, então, finalmente, era admitido ao grau em que o véu se rasga, ao de Kadosh, o homem regenerado. A iniciação é uma prova muito penosa... O mestre dos irmãos a vingar já não é Hirão, é Molay, o Grão-Mestre dos Templários; e aquele que é preciso matar é um rei, é Filipe, o Belo...

O adepto aprende... que essa liberdade e essa igualdade, cuja palavra lhe fora dada desde sua entrada na maçonaria, consistem em não reconhecer nenhum superior na terra... etc.

É-lhe ensinado que o último dever de um maçom, para construir templos à igualdade e à liberdade, é buscar livrar a terra desse duplo flagelo (os príncipes e os padres), destruindo todos os altares que a credulidade e a superstição ergueram; todos os tronos, onde não se veem senão tiranos reinando sobre escravos...

(A Maçonaria percorre o mundo há muito tempo – século IX? – sob aspectos diferentes – foi preciso o século XVIII para que a Ordem maçônica tomasse corpo e obtivesse seu primeiro grande resultado: o fim da Monarquia muito cristã...)

Reunião dos sofistas ímpios

 com os sofistas da rebelião

e os sofistas da anarquia,

(Ela continuou durante séculos, e ainda continua a dissolver as estruturas, os costumes católicos nas diversas sociedades, para melhor dominar e comandar os povos).

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Desde os Rosa-Cruzes de Andrae, a Maçonaria conduz o mundo em direção à "*República cristanopolitana: nesta cidade perfeita, DEUS é o grande metafísico eleito pelo povo e que governa por intermédio de seus ministros. Força, Sabedoria e Amor. O egoísmo individual cede ao interesse geral, o que leva à supressão da propriedade privada e à instalação de uma espécie de comunismo integral*."

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(1) Jacques Ploncard d'Assac - *Os Segredos dos Maçons*, p. 15-16.

(2) Jacques Ploncard d'Assac - *Os Segredos dos Maçons*, p. 50.

(3) Le Crapouillot - H.S.M. 1440 -81 -02 (1976)

(4) Padre Augustin Barruel: *História do Jacobinismo*.

(5) Jacques Bordiot - *O Poder Oculto, precursor do Comunismo*, p. 36-38, p. 72-89, p. 151-171.

(6) Historia H.S. 30 - 1973 p. 15 e 61.