A DESCOBERTA DO ISLÃ - IV
EVOLUÇÃO DO PODER POLÍTICO MUÇULMANO DO SÉCULO XV AO SÉCULO XX
Constantinopla caída nas mãos do Islã e, apesar dos apelos dos Papas, a Cristandade ocidental permaneceu amorfa. Ela acabava de sair da Guerra dos Cem Anos, terminada vitoriosamente pela França, em Castillon, no Dordogne, no ano em que Bizâncio sucumbia.
A tocha da reconquista seria retomada por aqueles que foram impregnados pela fé bizantina e sempre mantiveram relações contínuas com Constantinopla. Kiev, Novgorod e depois Moscou iriam, num primeiro momento, repelir os muçulmanos mongóis. Não foi sem dificuldade.
Apesar da vitória de Kulikovo em 1380, os mongóis, ajudados por Tamerlão e contingentes ocidentais – poloneses, alemães, genoveses, espanhóis – incendiaram Moscou.
Foi somente sob Ivan III (1462-1505), esposo da última Princesa Paleóloga, herdeira legítima de Bizâncio, que a vitória mudou de lado. Moscou tornou-se a sede do Metropolita ortodoxo. Toda essa igreja se associou à obra de reerguimento, evoluindo num sentido antiocidental e antirromano. Moscou substituiu Bizâncio.
Maomé II morreu em 1481. A sucessão não foi fácil. Provocou hesitações na autoridade do novo mestre, Bajazeto II. A frota pontifícia retomou bases muçulmanas, incluindo Otranto. O anúncio do fim do Reino muçulmano de Granada, em 1492, acentuou o mal-estar. Os mamelucos do Egito obtiveram alguns êxitos contra os otomanos.
Finalmente, o exército profissional depôs o Sultão e os janízaros o substituíram por Selim. Após ter afastado da sucessão um filho de Bajazeto, Selim I (1512-1520) mereceu seu apelido de Cruel ao mandar massacrar toda a sua família — a tranquilidade o exigia!
O Ocidente cristão havia se recomposto um pouco. Consolidara o "limes". Uma frota de guerra controlava o Danúbio. O novo Sultão preferiu voltar-se para a Ásia para restabelecer a unidade de seu império.
Sunita zeloso, Selim iniciou uma feroz perseguição contra os xiitas e tomou a Pérsia em 1513-1514. Ele anexou o Curdistão, a Alta Mesopotâmia, a Síria e as cidades santas da Arábia.
Em seguida, voltou-se contra os mamelucos do Egito, derrotando-os em Alepo em 1516, antes de tomar o Cairo em 1517. O califa abássida residente cedeu-lhe o poder espiritual, e Selim assumiu o título de Comandante dos Crentes. Os mamelucos continuaram a servi-lo sob a autoridade de um paxá e de vários beis.
No Norte da África...
O sultão e seus sucessores não tentaram restabelecer seu poder central sobre o Norte da África. As cidades costeiras da Cirenaica eram controladas por árabes. A Tunísia, nas mãos do Reino Háfida, que se manteve até 1574, testemunhou o fim da nona cruzada e a morte do rei da França, São Luís.
O país foi devastado por uma nova invasão dos nômades árabes beduínos Buni Sulaym, por volta de 1347-1350, e pela invasão oposta dos marroquinos, os merínidas, de 1357 a 1358. Foi, em suma, a revanche da anexação, no século XIII, de todo o oeste argelino: Argel em 1235 e Tremecém em 1247.
Finalmente, a unificação e a calma retornaram por volta de 1370. Foi preciso esperar quase dois séculos para ver Túnis tomada pelos corsários. Também eram numerosos os árabes instalados nos portos e nas cidades importantes, estrutura de uma administração latente.
Na outra extremidade, apenas o Marrocos havia escapado à penetração árabe. Uma tribo zenata, os Banû Marin (merínidas), conquistou todo o território a partir de 1230. O chefe Abû Yusuf Ya'Qûb se autodenominou Sultão do Marrocos e reinou de 1269 a 1286 sobre as planícies e vales.
Os merínidas exauriram-se em lutas contra os abdalwádidas de Tremecém e em expedições à Espanha. A partir de 1420, outra tribo zenata, os wattásidas, conseguiu suplantá-los. Um período de distúrbios internos e incursões europeias se estenderia por várias décadas. Já em 1492, muitos mouriscos emigrados ou expulsos da Espanha refugiaram-se no Marrocos. Recolhidos nos oásis do Sul, os marabutos pregaram a jihad.
Finalmente, por volta de 1554, a dinastia xarifiana do Suz, os sadianos, assumiu o controle do país. Eles recuperaram vários portos do Atlântico ocupados pelos portugueses, cujo exército derrotaram em 1578.
Sob o reinado do sadiano Al-Mansour, em 1591, os marroquinos expandiram-se para o Sul, em direção ao trecho do Níger, para controlar a rota do ouro, do sal e dos escravos negros. Tomaram Tombuctu. Com a morte de Al-Mansour em 1603, ocorreu uma fragmentação do território, mas os alauítas, tribo vinda do Tafilete, restauraram certa unidade ao dominar as planícies. Essa dinastia duraria até os dias atuais. Ela só conseguiu realmente fazer a unidade após reconhecer o poder dos grandes chefes do Atlas. Já em 1767, um acordo consular foi assinado com a França, mas os marroquinos tenderam a se aproximar das nações protestantes europeias, com a Inglaterra à frente...
As Principais Evoluções
Desde a interrupção das operações otomanas na Europa, uma calma aparente reinava no Ocidente. Enquanto a Cristandade entrava no período chamado Renascimento, cujo brilhante progresso artístico não compensou os distúrbios e desvios espirituais, intelectuais e morais, desenvolveram-se três fenômenos cujas consequências seriam muito importantes para o Islã e sua lança, o Império Otomano.
Em primeiro lugar, foi a rejeição dos maometanos para fora da Espanha e, paralelamente, a modificação do Magrebe central e de suas costas, a expansão comercial no Mediterrâneo e a aventura portuguesa, cortando a Porta de suas receitas do Extremo Oriente.
... Na Espanha
Na Espanha, Isabel de Castela casou-se com Fernando de Aragão em 1469. Dez anos depois, eles reinavam conjuntamente sobre seus domínios espanhóis e sobre as Ilhas Baleares, Sardenha e Sicília.
Os "Reis Católicos" retomaram a luta da "Reconquista", interrompida em 1248 com a tomada de Sevilha. Apenas o reino muçulmano de Granada havia subsistido, criado no século XI por um zirida vindo da África para servir ao Emir de Córdova. O poder passou em 1235 para os nasridas. Devido à sua situação excepcional e ao laxismo religioso de seus príncipes, o reino conheceu um notável desenvolvimento cultural, artístico e econômico. Por volta de 1480, eclodiu uma disputa entre os zegris reinantes e uma abencerragem Aixa que, pela força da espada, colocou no trono seu filho Boábdil. Essa foi a oportunidade. A guerra conduzida pelas tropas católicas durou de 1481 a 1492, ano em que, após um longo cerco, Granada foi ocupada.
Para a reorganização do país, Fernando e Isabel governaram vigorosamente: polícia real, controle do Rei sobre as grandes ordens religiosas militares, reorganização da administração e do exército, controle da Igreja.
Eles tiveram que resolver o difícil problema da presença na Espanha de duas minorias não católicas: os judeus, muito numerosos e bastante ricos, alguns dos quais convertidos (marranos) de forma mais ou menos segura; e os muçulmanos. Estes incluíam os fiéis ao Islã e os mouriscos, pseudoconvertidos ao catolicismo. Eram os habitantes dos subúrbios das cidades e das regiões montanhosas.
Já em 1478, os Soberanos intervieram em Roma. A seu pedido, o Papa Sisto IV confiou a Inquisição, então adormecida, ao poder temporal.
Em 1492, uma decisão radical expulsou da Espanha todos os judeus não convertidos. Muitos se refugiaram entre os muçulmanos e, mais particularmente, em Túnis, que se beneficiou de suas qualidades intrínsecas.
Em 1499, os muçulmanos de Granada foram convertidos por ordem do Cardeal Cisneros, grande inquisidor. Seguiu-se uma revolta, sufocada em 1502. O batismo forçado foi amplamente utilizado. Em 1526, Carlos V decidiu pela conversão... A revolta eclodiu em 1568 em Granada, em 1610 e 1614 em diversas regiões, sem qualquer vínculo entre os movimentos.
Em 1569, seu irmão Dom João da Áustria assumiu o comando militar para restabelecer a ordem. Os mouriscos foram deportados à força e substituídos por espanhóis.
Eles desfrutaram de uma certa trégua, pois a Espanha estava em conflito com a Inglaterra e a França. Além disso, conduzia a repressão nos Países Baixos contra a Reforma Protestante e a secessão. Desde o aparecimento das primeiras revoltas no início do século XVII, Filipe III ordenou a expulsão e o transporte para a "Berbéria".
Deste período, é preciso reter a conclusão do historiador Fernand Braudel:
"O mourisco permaneceu inassimilável. A Espanha não agiu por ódio racial... mas por ódio de civilização, de religião. A expulsão é a confissão de sua impotência... A prova de que o mourisco, após um, dois, três séculos, conforme o caso, permaneceu o mouro de outrora... Ele se recusou à civilização ocidental, e isso é o essencial do debate."
... O devir do Magrebe
O segundo fenômeno é a transformação sofrida pelo Magrebe central. Entre dois Estados relativamente organizados a Leste e a Oeste, o que viria a ser a Argélia conheceria uma profunda modificação socioeconômica.
O Marrocos, muito mais distante do Oriente, foi relativamente logo isolado dos árabes e dos turcos. A Tunísia, posição estratégica importante, estava ocupada há muito tempo pelos árabes e sua administração. Seu porto de Túnis, em frente à Sicília, plataforma católica desde 1072, rapidamente interessou aos corsários.
As grandes invasões foram obra de tribos nômades ou que se tornaram tais pela força das circunstâncias. Os beduínos árabes vindos da Cirenaica atravessaram a Tunísia para inundar as planícies e vales da Argélia. Os outros, berberes, subiram da mesma forma para o Marrocos.
Montados em cavalos e dromedários, os invasores evitaram os maciços montanhosos, onde se refugiaram os sedentários. A passagem direta do deserto para o Mediterrâneo através dos maciços argelinos era, na época, impossível. A beduinização, conquista árabe, ou os raides marroquinos, espalharam-se como uma inundação, cercando as terras altas como o mar cerca as ilhas.
Provocando a destruição das culturas e das pequenas aldeias, essas correntes saqueadoras rejeitaram a maioria das tribos para a montanha, como já havia ocorrido no Oriente Médio com os maronitas e os curdos. Seguiu-se uma espécie de estagnação das zonas montanhosas, que evoluíram muito lentamente, conservando um modo de vida arcaico mantido até os dias de hoje. A penetração do Islã e de seus representantes consagrados, árabes e depois turcos, só se deu muito lentamente. No século XIV, numerosos idólatras, pagãos, animistas ou cristãos, foram mencionados pelos autores árabes. As populações cabilas e berberes conservaram seus caracteres étnicos.
Na costa mediterrânea, ao contrário, cortada do interior por uma verdadeira zona de insegurança, os pequenos portos bem abrigados, onde vivia um pequeno povo de pescadores, artesãos e comerciantes necessários à vida dos piratas, receberam o acréscimo demográfico de algumas tribos expulsas pela invasão. Toda essa costa mediterrânea, desde as costas andaluzas até a passagem entre Túnis e a Sicília, foi um mar islâmico antes do fim de Boabdil.
À medida que o comércio marítimo se desenvolvia, a tonelagem dos navios aumentava e os armamentos melhoravam, os portos viram sua importância crescer. Muitos judeus e mouriscos expulsos da Espanha ali se estabeleceram. Os marinheiros franceses, italianos e venezianos, marinheiros mercantes ou corsários, tomaram o hábito de fazer escala nesses portos "francos". A vida dessa faixa costeira ocidentalizou-se rapidamente.
A frota muçulmana havia se desenvolvido para garantir a segurança das costas da Ásia Menor e a livre circulação no Mar Egeu. Paralelamente, os corsários muçulmanos, cada vez mais numerosos e audaciosos, participavam da guerra contra a grande rival marítima, a Espanha. Esses corsários gradualmente se tornariam os senhores desses portos do Magrebe central e, depois, da Tunísia. Suas atividades permitiram o rápido desenvolvimento de Argel, uma verdadeira cidade-fungo. Ela seria a base da retomada do controle de todo o interior pelos muçulmanos turcos.
Além disso, a abertura do Estreito de Gibraltar à navegação europeia, dos portugueses aos noruegueses, passando pelos dinamarqueses, as "naves" das Cidades Hanseáticas, dos Países Baixos e da Inglaterra, imporia gradualmente a superioridade ocidental e provocaria as diversas intervenções interessadas das "Potências".
... A rota das Índias
O terceiro evento capital foi a abertura da via marítima da Península Ibérica para as Índias Orientais, contornando o Cabo da Boa Esperança.
Se Fernando, o Católico, lançara seus navios contra os portos da "corsária" e as frotas muçulmanas para garantir a livre navegação com a Sicília, reservatório de grãos, com sucesso — tomada de Melilla (1497), de Mers el-Kébir, do Penon de Vélez (1508), de Orã (1509), do Penon de Argel, de Djerba (1510), de Trípoli da Barbária... — as forças espanholas nunca tentaram a conquista do interior.
A paz franco-espanhola de 1544 pôs fim a uma guerra durante a qual a frota otomana foi aliada dos franceses contra Carlos V. As esquadras liberadas foram usadas apenas para o reabastecimento dos "presídios" e para a manutenção da supremacia marítima, com uma nova tomada de Djerba em 1560, os ataques contra Túnis em 1573-1574, precedidos pela tomada de Malta (1565) e, como coroamento, a vitória de Lepanto em 1571. Nenhum soberano espanhol tentou se estabelecer no Magrebe e conquistá-lo, o que estava ao seu alcance.
Os portugueses participaram dessa guerra marítima. Senhores de Ceuta em 1415, depois da Madeira (1418), anexaram os Açores a partir de 1432. Não mais atraídos para o interior das terras marroquinas, lançaram-se na aventura marítima costeando a costa atlântica africana.
Aventura interessada: toda a Europa buscava o comércio com as Índias Orientais, mas a rota era, senão bloqueada, ao menos fortemente taxada pelas autoridades muçulmanas e pelas cidades italianas de Gênova ou Veneza. Além disso, Portugal queria participar do comércio de ouro e de escravos negros. O caminho africano se impunha.
Finalmente, em 1487, com Bartolomeu Dias, contornaram o Cabo da Boa Esperança e entraram no Oceano Índico. Vasco da Gama foi o primeiro a alcançar as Índias...
Os missionários católicos atuaram na África subsaariana: os jesuítas viram entronizar o primeiro bispo negro em 1518. Novas dioceses foram criadas em São Salvador e em Angola. Houve também muitos fracassos, como em Moçambique, e muitos mártires.
No Mar de Omã, os navios portugueses, vasos do Atlântico, não tiveram dificuldades em assegurar a dominação marítima. O comércio muçulmano, importante fonte de receita para os portos do Mediterrâneo e para o Sultão, foi arruinado.
Do bombardeio de Calicute (1502) à chegada a Macau (1557), a marcha triunfal passou por Socotorá, Diu, Mascate, Goa, onde foi instalado um vice-rei, Malaca, Ormuz, as Ilhas Molucas, o Sião, o Camboja, a China e o Japão.
Os muçulmanos reagiram rapidamente. Uma frota estava baseada no fundo do Golfo Pérsico, em Baçorá. Outra foi lançada ao mar em Suez, após o transporte por caravanas das galeras desmontadas. Eram apenas navios a remo, projetados para o Mediterrâneo e muito inferiores às embarcações portuguesas ou espanholas.
Os maometanos tomaram Áden em 1538, mas fracassaram diante de Diu, na costa do Indostão. A campanha marítima de 1554 resultou em fracasso, pois os navios europeus eram poderosos demais. Em 1556, a frota de Baçorá atacou as costas da península de Guzerate. Em 1585, ocorreu um ataque liderado por Mirali Beg contra as posições portuguesas na costa oriental africana. Os portos de Mogadíscio (Somália), Barawa, e Jumbo, no Equador, foram tomados. O Príncipe de Mombaça (Quênia) declarou-se vassalo da Porta. No ano seguinte, os otomanos invadiram todos os outros pontos, exceto Melinde, Patta e Kelife, que permaneceram portugueses. Os turcos decidiram fortificar Mombaça, porto que comandava o acesso às minas de ouro. A frota portuguesa interveio, bloqueando os navios turcos no rio de Mombaça. Todos foram destruídos e os sobreviventes feitos prisioneiros. A guerra marítima estava terminada!
... O surto missionário católico no século XVI
Aproveitando as velas lusitanas, os jesuítas intervieram na Etiópia. O Negus havia apelado várias vezes, seja aos Franciscanos da Terra Santa, seja a Roma, para ser ajudado em sua luta contra o Islã. Embora monofisistas, os abissínios foram ouvidos. Chegaram um contingente de soldados portugueses e uma verdadeira missão jesuíta, lançada em 1555 pelo Papa Júlio III e Santo Inácio de Loyola. Apesar do fracasso e da pressão muçulmana no Mar Vermelho, uma nova missão foi enviada em 1589. Finalmente, em 1613, o Rei dos Reis aderiu oficialmente ao Catolicismo.
São Francisco Xavier desembarcou em 1542 em Goa com o Vice-Rei. Ele tinha o posto de Núncio Apostólico. Evangelizou nas Índias, na Malásia, nas Molucas e foi plantar a Cruz no Japão em 1549. O mais eficaz de seus sucessores, o Padre de Nobilis, deixou, à sua morte em 1656, uma catolicidade indiana muito florescente. Deve-se acrescentar, para glória da Igreja Católica em sua luta contra os Infiéis, que os Franciscanos e os Dominicanos, sob proteção espanhola, evangelizaram as Filipinas na mesma época.
Uma oportunidade se ofereceu novamente à Cristandade para combater a Porta Otomana, durante essa penetração pastoral, comercial e pouco militar. A oposição muito viva entre sunitas e xiitas levou a Pérsia, fiel ao Imam oculto, a conquistar sua independência. Em guerra quase incessante com os turcos, o Xá Abbas (1559-1612) reconquistou dos sunitas duas províncias cristãs, a Geórgia e a Armênia. Ao apelo deste grande soberano, o Papa Clemente VIII enviou, por volta de 1600, a Ispaã, um grupo de Carmelitas Descalços. Em 1608, pela primeira vez, o rito sagrado dos católicos foi celebrado publicamente na capital da Pérsia.
A Cruz e o Ocidente testemunhavam assim suas forças. Desde meados do século XIV, o enfraquecimento do mundo islâmico se inscrevia pouco a pouco nos fatos, apesar de suas vitórias na Europa. A desagregação do Império, a inversão da corrente comercial que, a partir de 1492 e da descoberta da América, se ampliaria, o fosso científico e tecnológico que se aprofundava entre o Islã imóvel e o Ocidente fervilhante de ideias, a obrigação para as nações europeias de encontrar escoadouros para seus produtos manufaturados, todas essas pressões não poderiam levar senão à derrota total, à tutela dos poderes muçulmanos. A evolução espiritual da Europa, os diversos protestantismos, o surto do mercantilismo e das finanças não permitiram a única verdadeira vitória: a conversão ou a reconversão dos maometanos à única verdadeira fé.
O avanço otomano nos séculos XVI e XVII
Para chegar a esse ponto, seriam necessários muitos anos, e os Cavaleiros de Alá ainda tinham tempo de fazer tremer o mundo cristão, aproveitando, infelizmente, suas divisões.
Os Sultões, Selim I e seu sucessor Solimão (1520-1566), possuíam uma temível frota de guerra, cuja construção nos arsenais de Constantinopla com as madeiras das florestas do Mar Negro e do Golfo de Nicomédia não apresentava problema algum. Muitos emigrantes vindos da Europa – o Oriente exercia um verdadeiro atrativo –, fossem judeus, muçulmanos expulsos ou homens aventureiros, renegados ou sem religião, trouxeram seus conhecimentos técnicos e permitiram um certo aperfeiçoamento dos navios e de seus armamentos. Os muçulmanos, aliás, eram os únicos que conheciam o fogo grego, primeira utilização do petróleo!
Os otomanos puderam assim travar a batalha em duas frentes: guerra marítima com esquadras ou corsários, e guerra terrestre a partir dos territórios ocupados e fortificados na Europa Central e no Norte da Rússia.
A guerra no mar
Já em 1515, dois irmãos, Baba Arudj e Khair al-Din, corsários turcos, estabeleceram-se em Argel. O segundo, apelidado Barba-Ruiva, em nome de todos os corsários do porto, os Raïs, proclamou-se vassalo da Porta em 1518. Em 1519, repeliu um ataque espanhol. Tomou o ilhéu do Peñón, que atrapalhava a circulação no porto. A tomada da ilha de Rodes desobstruiu a entrada do Mar Egeu, em 1522.
A guerra entre a França e o Império Romano Germânico estava a todo vapor. Após sua derrota em Pavia em 1525 e seu cativeiro, Francisco I buscou a aliança do Sultão, cujas tropas acampavam na fronteira do império de Carlos V, com o objetivo de dificultar as comunicações marítimas de seu adversário. Este iria retomar aos corsários de Argel o porto de Túnis, ocupado em 1534, socorrendo no ano seguinte o soberano haféssida.
Solimão assinou, em 1536, o tratado dito das "Capitulações". As frotas muçulmanas, sob o comando de Barba-Ruiva, nomeado Kapudan Paxá em 1534, vieram, em 1543, juntar-se à frota francesa, em Marselha.
Esses acordos, qualquer que tenha sido seu resultado positivo, mostravam a que nível as nações cristãs haviam descido. As sequelas da Guerra dos Cem Anos, o Grande Cisma, as heresias de Lutero e Calvino, as guerras internas na Inglaterra, na Itália, as Guerras de Religião fizeram com que os homens e seus líderes perdessem o sentido de "Deus, servido em primeiro lugar".
A vontade dos grandes monarcas Henrique VIII, Francisco I, Carlos V de dominar a Europa, seu orgulho, suas rivalidades, seu nacionalismo agudo os levaram a cometer atos verdadeiramente sacrílegos: erigir-se como Chefe de sua própria Igreja, aliar-se aos Infiéis, deixar as tropas imperiais do Condestável de Bourbon saquear Roma!
Solimão concedia ao Rei da França o direito de proteção sobre os Lugares Santos. Ele permitiu a restauração das Igrejas e a realização das cerimônias religiosas. Os cristãos não católicos se beneficiaram das mesmas vantagens. Dois séculos depois, as "Capitulações" foram renovadas pelo Sultão Mustafá III.
Os corsários Barba-Ruiva e Dragute travaram o combate contra a Espanha. Vencedores dos cristãos em Prevesa, na costa dálmata, eles deram, em 1538, o domínio dos mares ao Islã, graças à atividade de suas bases: Valona e Durazzo no Adriático, Trípoli da Barbária, Túnis, La Goulette, Bizerta, Argel, Tétouan, Vélez no Mediterrâneo, Larache e Salé no Atlântico.
Foi então que o Papa Paulo III (1534-1549), eficaz restaurador da fé pela reorganização da Inquisição, criação do Índex, e da cristandade ao conseguir, em 1538, reconciliar Francisco I e Carlos V, afirmou em uma bula endereçada ao Concílio de Trento que a dominação muçulmana sobre mar e terra era a manifestação da ira divina contra todos os cristãos, todos pecadores!
O Imperador germânico, exasperado pelos barbarescos, enviava de tempos em tempos suas frotas contra os corsários, mas sem bons resultados. Argel tornava-se a capital da frota de combate e corso do Sultão. De 1560 a 1570, foram verdadeiras esquadras que atacaram navios mercantes ou de guerra, as cidades das costas espanhola, italiana e francesa. Desembarques e incursões através dos países ocorreram, na Provença e no Languedoc. Os corsários bloquearam Nápoles em 1561. Um sobressalto espanhol fechou o porto de Vélez, com a tomada do ilhéu de Penón em 1564.
O primeiro choque sério ocorreu em Malta. Uma verdadeira esquadra foi construída em Constantinopla, com o objetivo de atingir um dos postos avançados da cristandade: Malta, Túnis, La Goulette ou a Sicília. Os espiões se movimentaram. Partida no início de abril, viajando muito rapidamente, a frota otomana alcançou em 18 de maio de 1564 a ilha de Malta, defendida pelos Cavaleiros da Ordem e seu Grão-Mestre. O cerco e os assaltos para tomar os fortes foram terríveis. Quase quatro meses depois, em 7 de setembro, Malta ainda resistia. Filipe II, sucessor de Carlos V, havia enviado sua frota em socorro dos Cavaleiros. Ela se reagrupou lentamente em Messina. Estimulado por André Doria, o desembarque de socorro foi bem-sucedido em 8 de setembro. Quatro dias depois, Malta era libertada dos muçulmanos.
Argel continuava seu desenvolvimento. Um renegado calabrês, Euldj Ali, marinheiro experiente e fino estrategista, foi nomeado seu rei em 1568. Como seus predecessores, ele acalentava o projeto de conquistar a península africana. Por via terrestre, com um exército de vários milhares de janízaros, engrossado pelos contingentes recolhidos ao longo da rota na Cabília, tomou Túnis em janeiro de 1570. Os espanhóis se refugiaram no forte de La Goulette. Com o anúncio da preparação de uma frota destinada a socorrer os mouriscos revoltados desde o Natal de 1568, a Espanha inquieta e Veneza, sempre pouco franca, iniciaram negociações sob a autoridade pontifícia para agir em conjunto contra o Infiel. Entrementes, Dom João d'Áustria havia debelado a revolta, expulsando barbarescos e mouriscos no início de 1570.
Constantinopla havia tentado, sem sucesso, aproximar-se da França. Sua nova frota liberada lançou-se no Adriático para fazer Veneza ceder. Os postos da costa dálmata foram tomados e saqueados já em janeiro de 1571. Em julho, um desembarque muçulmano ocorreu em Chipre. Filipe II enviou sua frota sob o comando de André Doria para socorrer a ilha.
O enérgico Papa Pio V, desde o ano anterior, colocara em construção uma frota de guerra. Ele conseguiu fazer assinar um acordo entre Veneza, a Espanha e os Estados da Igreja em 20 de maio de 1571. A Liga deveria durar pelo menos doze anos e era dirigida contra as possessões turco-muçulmanas do Norte da África. Veneza não jogava um jogo muito claro e a França, para se opor à Espanha, tentava um arranjo entre o Sultão e o Doge.
Finalmente, o Almirante-Chefe designado, Dom João d'Áustria, reuniu as três frotas em Messina em julho. Ele soube perfeitamente integrar entre si as tripulações e os soldados embarcados.
Eudj Ali e sua frota argelina juntaram-se, na ilha de Cândia (Creta), ao grosso dos navios de Selim II. Aguardando a vinda do adversário, os muçulmanos saquearam e pilharam a costa e as ilhas dálmatas, a cidade de Zra, o próprio golfo de Veneza e tomaram a ilha de Corfu. Enquanto seu inimigo se cansava, Dom João partiu de Messina em 16 de setembro e navegou ao encontro dos otomanos. Estes, concentrados no golfo de Lepanto, zarparam rumo a Corfu para não serem bloqueados.
O encontro ocorreu em 7 de outubro de 1571 ao nascer do sol: 230 navios de guerra muçulmanos contra 208 cristãos. A vitória da Liga foi total. Duzentas galeras otomanas perdidas, trinta mil maometanos mortos e três mil prisioneiros. O hábil Euldj Ali conseguiu escapar com cerca de trinta velas. Em 1º de novembro, Dom João retornou a Messina.
Moralmente, a vitória foi importante, mas não trouxe qualquer solução para o problema otomano, que só seria resolvido pelas operações terrestres. Nos anos seguintes, a frota da Liga buscou em vão o contato com a frota muçulmana reconstituída. A Espanha se viu oposta à Inglaterra e à França. O dinâmico Papa Pio V morreu após ter organizado mais uma operação no Levante. Na primavera de 1573, Dom João e seus navios levaram a guerra marítima à costa ocidental da Moreia, do Golfo de Corinto ao Cabo Matapão. Euldj Ali e suas duzentas e vinte galeras conseguiram escapar dele.
Na primavera de 1573, Veneza, graças ao parlamentar francês, Monsenhor o Bispo de Dax, assinou a paz com o Sultão. Ela aceitava a perda de Chipre, a limitação do número de seus navios de guerra e o aumento de certos tributos. A Liga estava enterrada. A frota turca passeava pelo Mediterrâneo...
O Papa Gregório XIII conseguiu despertar o espírito combativo dos espanhóis. Dom João lançou-se contra Túnis. La Goleta foi tomada em outubro de 1573, e ele recolocou no trono o haféssida Muley Mahamet. No final de outubro, Bizerta foi ocupada, a guarnição reforçada com tropas frescas, e a frota retornou a Palermo. No verão seguinte, Euldj Ali e suas galés apresentaram-se diante de Túnis. Em dois meses, a reconquista estava concluída. Essa vitória não serviu para nada. Provou, infelizmente, que a Espanha havia se afastado do Mediterrâneo. Ela voltava os olhos para o Atlântico. Logo se engajou na conquista de Portugal, uma espécie de guerra civil, e na conquista da América do Sul.
Os otomanos desejavam voltar-se contra seu velho inimigo, o persa xiita. Essas diversas prioridades permitiram o estabelecimento de uma trégua entre as duas partes, em 1577, e depois em 1578. A própria Roma abandonou toda ideia de luta contra o Islã... Em 1581, uma trégua definitiva foi assinada, abrangendo, para os turcos, o Reino da França, o Império Germânico, Veneza e o Reino da Polônia; para a Espanha, todas as Repúblicas Italianas e o Reino de Portugal. Renovada em 1584 e 1587, essa trégua fez com que a maior parte das galés fosse posta em repouso, apodrecendo nos ancoradouros otomanos.
Apenas o "curso", a pirataria, continuou, graças à capital de Euldj Ali, Argel. A partir de 1580, a atonia das grandes potências favoreceu sua atividade. Pouco a pouco, a ordem janízara se espalhou por toda a cidade e pelo interior. Um representante oficial da França e da Inglaterra se instalou ali.
Mais ainda, marinheiros ingleses e neerlandeses juntaram-se ao "rais" com seus excelentes veleiros, muito superiores às pesadas galés. Graças a esses novos recrutas nórdicos, os barbarescos puderam cruzar o estreito de Gibraltar. Saquearam a Madeira em 1617 e, de 1627 a 1631, realizaram incursões contra as costas inglesas, a Islândia, a Terra Nova e até mesmo no Báltico.
O corso barbaresco, "flagelo de Deus", foi uma verdadeira calamidade, mas a honestidade intelectual obriga a assinalar que os marinheiros cristãos também praticaram essa forma de guerra e que, no Mediterrâneo, as tempestades e outros incidentes de navegação causaram tantas perdas quanto o corso.
É interessante assinalar que, no início do século XIX, ocorrerá o primeiro incidente grave entre os jovens Estados Unidos da América e os otomanos, por intermédio dos barbarescos.
Em 1803, a primeira esquadra dos EUA penetrou no Mediterrâneo. Posteriormente, o navio "Filadélfia" foi capturado por piratas muçulmanos e trezentos e oito marinheiros foram feitos prisioneiros. A frota americana interveio. Os corsários encontraram refúgio em Trípoli, no Líbano.
Em 1805, na primavera, ocorreu o primeiro desembarque dos "Fuzileiros Navais"...!
A guerra em terra
Apesar das necessidades de homens e material de suas frotas, os muçulmanos continuaram seu avanço na Europa. O rei da Polônia, Luís II, filho do derrotado de Varna, foi derrotado em 1526 e encontrou a morte em combate. A conquista da Hungria estava quase completa já em 1529.
O território montanhoso, com a cidade fortificada de Buda como capital, foi confiado ao vassalo dos otomanos, Zápolya, que permaneceu chefe da Transilvânia. Os turcos se apossaram da planície danubiana. Apenas uma estreita faixa do país permaneceu nas mãos dos Habsburgos, a verdadeira família real.
Para melhor lutar contra os católicos, os muçulmanos e a administração turca favoreceram o protestantismo e fizeram amigos entre os calvinistas. Desde então, uma calma relativa reinou na região.
A paralisação, em 1577, das grandes operações no Mediterrâneo acabou liberando tropas para que o Sultão pudesse mais uma vez se explicar com "os cães xiitas, esses renegados e hereges de barretes vermelhos". A cruzada religiosa sunita era uma excelente desculpa para tentar a anexação de territórios ricos em homens, mulheres, possibilidades de tributos e abrir uma janela para o mar Cáspio.
O momento era bem escolhido. A Pérsia passava por um período difícil. O xá Talasq, que reinava desde 1522, foi assassinado em 1576. Muito rapidamente, dois soberanos o sucederam. Finalmente, subiu ao trono Mohammed Khodabandeh, o pai do futuro Abas, o Grande. Às voltas com as tribos georgianas, circassianas, turcomanas e curdas, a Pérsia enfraquecida representava uma forte tentação para os chefes do exército de terra, um pouco invejosos da glória dos marinheiros.
O poder otomano ainda era enorme. O que poderia ter acontecido se a unidade islâmica, o senso da Umma, tivesse impedido essa guerra fratricida e permitido concentrar os esforços na Europa? Esta não teria conseguido encontrar a coesão e o senso religioso necessários.
A Inglaterra, onde se consumara a submersão da Escócia católica pelo calvinista Knox graças ao abandono de Maria Stuart pelo Papa, pela Espanha e pela França, viu-se impor o anglicanismo como religião por Isabel I em 1563.
A Espanha católica, apesar de Álva e D. João, não conseguira impedir a secessão das províncias setentrionais dos Países Baixos, que passaram ao protestantismo com Guilherme de Orange, e o fim do século as veria fascinadas pelo ouro dos Incas.
A França, que entrara nas Guerras de Religião desde Vassy em 1562, só reencontraria a paz com a mudança de dinastia. O primeiro Bourbon, protestante convertido, tornou-se Henrique IV e promulgou o Édito de Nantes em 1598. Essas três grandes potências, esquecidas de seu verdadeiro dever, não teriam conseguido se opor a uma nova ofensiva islâmica.
Tão sectário quanto os europeus, o Sultão lançou seus exércitos contra a Pérsia em 1578. Com a ajuda dos bons dias, quase toda a Geórgia foi anexada. O inverno favoreceu os persas e os otomanos sofreram grandes reveses. Na primavera, retomaram a vantagem e começaram a fortificar sua conquista. Em 1583, Baku, no Mar Cáspio, foi ocupada. Euldj Ali interveio com suas galeras no Mar Negro. As tribos de Coração tornando-se ameaçadoras, Abbas, que exercia o poder com seu pai, preferiu abandonar ao Sultão Murade o Cáucaso e a Transcaucásia, com uma ampla janela sobre o Cáspio, em troca da paz assinada em 1590.
Três anos antes, o Capitão Paxá Euldj Ali morrera. Seu desaparecimento marcou o início de uma série de revoltas em todo o império otomano e o retorno das galeras ao Mediterrâneo. A autoridade dos governadores turcos se diluíra muito. Até mesmo em Constantinopla, os militares mal ou não pagos se agitaram. O novo chefe da frota teve que intervir em Trípoli da Barbária, contra os mouros sublevados por um Marabuto. A frota retornou em estado lastimável a Constantinopla e a revolta continuou.
Ela se estendeu a Túnis. Túnis, onde se instalaram muitos marselheses após o tratado das Capitulações, era desde 1590 a sede da província otomana, sob a administração de um Dei, auxiliado por um Bei. Em 1612, o Bei, um Murânida, tomou o poder e se declarou soberano hereditário em 1710. Entretanto, recebera ajuda da França contra os corsários de Argel. A Argélia não tardaria a ser contaminada pelo vento da independência, pois em 1711 o Dei se emanciparia por sua vez.
Nesse período delicado para o poder otomano, apenas o Czar moscovita interviria. Ivã, o Terrível (1533-1584), fundador do exército profissional, vira seu título de Czar confirmado pelo Patriarca ortodoxo de Constantinopla. Ele expandira seu Império ao norte até Arcangel, no Mar Branco; a leste, muito além dos Urais e do rio Ienissei; a sudeste, aniquilou o Canato de Cazã. O Volga e o Don tornaram-se rios russos a partir de 1552. A estepe dos Nogais foi conquistada, assim como Astracã, na foz do Volga, no Cáspio, em 1554. Uma trégua com os turcos foi assinada em 1568, por oito anos, e renovada em 1579 e 1583, para liberar estes últimos contra os persas. Essa trégua foi muito mal respeitada.
Em 1588, o Patriarca de Constantinopla erigiu Moscou em Patriarcado independente. A "Terceira Roma" havia nascido definitivamente. O início do século XVII verá, após os distúrbios que se seguiram à morte do famoso Boris Godunov, fortificador das linhas do Terek e do Don em frente ao Cáucaso, a ascensão ao trono da dinastia dos Romanov.
Durante a campanha turca contra a Pérsia, na frente da Europa Central, os ataques muçulmanos não haviam cessado. As represálias cristãs acabaram por devastar a Hungria. Em 1593, os europeus esmagaram o exército do turco Hassan em Sissek, na Croácia. Essa derrota levaria o Sultão Amurates III a seguir os conselhos de seu grão-vizir, Sinan Paxá... Seria o início da Guerra da Hungria, que durou de 1593 a 1606. Por ordem do Imperador da Áustria, o sino dos turcos, destinado a lembrar diariamente que a guerra estava em andamento contra o grande inimigo, soou todos os dias ao meio-dia. Os imperiais receberam ajuda do Papado e da rica Itália. Veneza, a Polônia e a Moscóvia permaneceram neutras.
Os territórios ocupados, Transilvânia, Valáquia e Moldávia, ou seja, aproximadamente a atual Romênia, se rebelaram contra os muçulmanos. O novo Sultão, Maomé III, engajou firmemente suas tropas e cruzou o Danúbio. Tomou Bucareste e avançou mais ao norte. Foi derrotado pelo príncipe valáquio Miguel, o Valente. Foi um desastre; apenas destroços do exército otomano cruzaram o Danúbio de volta.
Em uma nova batalha, em Keresztes em 1596, o Sultão restabeleceu a situação. O esgotamento dos adversários, a reviravolta da Transilvânia, que se juntou novamente aos infiéis vitoriosos, levaram as partes a assinar, em 1606, uma paz que restabelecia o status quo do início das hostilidades.
Durante essa longa e cruel guerra, o Papado fez o impossível para estender o conflito ao mar. A frota muçulmana saqueara as costas da Calábria em 1593, retomando a prática de golpes de mão, não ficando os marinheiros italianos atrás para se vingar com eficácia. A frota turca vigiava suas costas. Filipe II e Andréa Doria não se moveram. A guerra de Henrique IV contra a Saboia despertou os espanhóis em 1601. Eles reuniram uma poderosa armada. Em vez de levar a guerra aos turcos, foi Argel que sofreu o ataque em setembro. Fracasso total. Nenhuma das duas frotas desejava realmente o combate.
A paz entre o Habsburgo e o Sultão foi facilitada pela retomada da guerra contra os persas. A ameaça dos uzbeques levara o pai do safávida Abbas a assinar a paz de 1587. Este último, xá ao mesmo tempo, apressou-se em repelir os nômades para além do Amu Dária. Terminado o assunto em 1697, esse grande rei expandiu seu domínio em todas as direções: a leste anexou o Afeganistão; ao sul, retomou Ormuz dos portugueses e a costa do Golfo Pérsico; a oeste, recuperou o Iraque. Abbas morreu em 1629. Os otomanos, apesar de seu enfraquecimento militar, de uma crise financeira interna e de novos distúrbios no exército, resistiram. Murade IV retomou a Mesopotâmia em 1638 e, no ano seguinte, assinou a paz com o xá sucessor de Abbas.
A crise otomana não durou. A partir de 1660, o grão-vizir do Sultão Maomé IV, o albanês Köprülü, reorganizou o império. Contendo os persas, preferiu lançar uma violenta ofensiva contra a Europa. Os janízaros, os cossacos e os tártaros devastaram e saquearam a Morávia e a Silésia: mais de oitenta mil cristãos foram vendidos nos mercados de escravos de Constantinopla. O sino dos turcos voltou a soar, todos os dias ao meio-dia, em toda a Alemanha.
O Papa Alexandre VII pregou a união dos Estados Cristãos para deter os muçulmanos. Apesar das boas relações existentes desde Francisco I entre a França e a Porta, Luís XIV preferiu a aliança dos batizados. Sem engajar oficialmente seu exército, enviou um contingente francês de seis mil jovens nobres. Eles foram os principais artífices do sucesso dos aliados, comandados por Montecuccoli, em São Gotardo, no rio Raab, em 1664.
O sul da Polônia ainda invadido, o Grande Hetmã, João Sobieski, empreendeu contra os muçulmanos uma guerra difícil. Ele era filho de um ucraniano, governador da Rutênia, e conhecia bem os infiéis. Chegando ao topo da hierarquia militar, conquistou em 1673, no dia seguinte à morte de seu Rei, uma grande vitória em Chocim, às margens do Dniester. Três dias depois, foi eleito Rei da Polônia. Casou-se com uma francesa, Maria Casimira Luísa de La Grange d'Arquien.
Durante a campanha polonesa, a frota otomana desembarcou em Creta, possessão veneziana. Apesar do envio de socorros franceses, Cândia capitulou em 1669.
O Papado tentou realizar o acordo sagrado. Infelizmente, Luís XIV preferiu realizar a anexação de Estrasburgo e, durante a nova ofensiva muçulmana de 1683, nenhum contingente francês participou da guerra. O muito agressivo Grão-Vizir Kara Mustafá havia respondido ao apelo dos calvinistas húngaros ameaçados de esmagamento pela reconquista católica dos Cavaleiros Teutônicos. Em 1683, os muçulmanos acampavam sob os muros de Viena. Foram derrotados graças ao heroísmo dos poloneses e à inteligência tática de seu Rei, João III Sobieski, em 12 de setembro, na batalha de Kahlenberg, extremidade oriental dos Alpes Estírios.
Luís XIV, inimigo da Casa da Áustria, aliado secreto da Porta, recusou qualquer participação nesta cruzada, mas chegou a pressionar a Rainha da Polônia, que considerava sua súdita. Por não ter assumido a liderança da luta, o Rei "muito Cristão" da "Filha Primogênita da Igreja" permitiu a ascensão do poder dos Habsburgos, que continuariam a reconquista.
É importante recordar um fato que vincula esta vitória à história atual da Catolicidade e à da Polônia, histórias inseparáveis uma da outra.
Indo para a batalha, João III partiu de Czestochowa, no dia da Assunção. Quando voltou vitorioso, fez uma nova parada ali para agradecer a Nossa Senhora... Antes de morrer, legou todos os seus diamantes a Nossa Senhora de Czestochowa. Serviram para confeccionar para o ícone o manto mais rico que ela jamais teve.
Viena salva, a Cruzada praticamente não cessou mais. Em 1686, a fortaleza de Buda, o escudo do Islã que os infiéis mantinham há cento e quarenta e cinco anos, foi-lhes arrancada.
Uma santa liga cristã, organizada por Roma e à qual o Czar Pedro, o Grande se associou, levou a guerra ao império otomano. As ilhas Jônicas foram invadidas, Corinto tomada e Atenas bombardeada.
Os primórdios da queda otomana no século XVIII
O poder dos osmanlis enfraquecia cada vez mais. A dinastia sofria das mesmas doenças que as anteriores, embora tivesse resistido por mais tempo. Delegações de poder aos Pachás, verdadeiros soberanos locais, entidades geográficas e étnicas muito diferentes e demasiado distantes, transferência, com a aprovação do Sultão, da autoridade administrativa ou militar para Deys, Janízaros ou Mamelucos demasiado poderosos, diferenças religiosas, tudo concorria para a desagregação do império e para a vitória dos europeus.
Infelizmente, esta vitória já não era vivida como reconquista espiritual, conversão ou reconversão das populações islamizadas à força... No século XVIII, todos os Soberanos se queriam "iluminados", todas as crenças, todas as seitas, mesmo as cristãs, combatiam Roma; a Maçonaria implantava-se em solo francês e espalhava-se rapidamente apesar da condenação de Clemente XII; a subversão dos espíritos atingiria seu ponto culminante com a Revolução de 1789; a disseminação da desordem filosófica, intelectual e moral tornava-se a atividade primordial da República; a ponta de lança da ação católica, a Companhia de Jesus, era suprimida em Portugal, na França e até em Roma. O objetivo da guerra tornava-se exclusivamente a anexação territorial, o aumento do poder dos chefes.
Apesar de um sobressalto dos otomanos, que em 1714 atacaram Veneza, a paz de Passarowitz, em 1718, fez-lhes ceder a Pequena Valáquia, o norte da Sérvia, o Banato de Temesvar (margem esquerda do Danúbio na Hungria). O império Austro-Húngaro tomava forma.
O Czar Pedro, o Grande, novo Basileu, afirmava sua vontade de absolutismo suprimindo o Patriarcado e a independência da igreja ortodoxa russa.
Já em 1736, os moscovitas partiram novamente ao ataque, seguidos muito rapidamente pelos austríacos. A aliança francesa, que durou até Bonaparte, permitiu a parada da ofensiva, tanto mais que o exército muçulmano reformado por quadros franceses se recompunha sob o comando de Mehmet Paxá. A paz de Belgrado, em 1739, fez o Sultão recuperar uma parte dos territórios perdidos.
Mustafá III (1757-1774) renovou com a França o tratado das "Capitulações". No momento do desmembramento da Polônia, declarou guerra à Rússia. Apesar da ajuda técnica dos alemães, foi uma nova derrota.
Os demais muçulmanos, do lado do mar Cáspio, também enfrentavam o avanço russo. Um golpe de teatro havia ocorrido na Pérsia. O safávida, descendente de Abas, foi expulso por um sunita afegão. Por sua vez, este foi deposto por um chefe tribal do Coração, Nader. Tendo conquistado toda a Pérsia, fez-se nomear xá em 1736. Tomou dos otomanos a Mesopotâmia, o Azerbaijão em 1738 e a Armênia. Ao norte, também repeliu os russos das províncias cáspias. Chegou a conquistar o Afeganistão, tornou vassalo o Turquestão e penetrou na Índia até Délhi. Assassinado em 1747, um período de turbulências semeou a anarquia.
Finalmente, foi novamente um turco da tribo dos Qajars que se tornou rei em Teerã em 1786. Ele enfrentou as tropas da czarina Catarina II (1762-1796), que expulsou da Geórgia. Sua morte marcou a desagregação do império persa e o estabelecimento, em 1801, dos ingleses nas costas do golfo. A Grande Czarina continuava suas intervenções contra a Sublime Porta. Sob o reinado do sultão Abdulamide I (1774-1789), foi proclamada oficialmente "protetora dos ortodoxos do Império Otomano".
A expedição de Bonaparte ao Egito (1798) aproximou o sultão do czar. Alexandre I aproveitou para anexar a Bessarábia e se instalar no Danúbio. A paz de Bucareste (1812) proibiu o acesso dos franceses aos estreitos e permitiu ao czar voltar-se contra Napoleão.
Para restabelecer sua autoridade, o novo sultão Mamude II (1808-1839) teve que se livrar dos janízaros e fazer seu exército ser reorganizado por instrutores europeus.
Os gregos, há muito afastados das operações, conheciam desde o século XVII um verdadeiro renascimento econômico em torno de seu patriarca. Eles se revoltaram contra o sultão. As frotas aliadas (Inglaterra, Rússia e França), sob o comando de um almirante, destruíram a frota otomana na baía de Navarino em 1827. As tropas russas avançaram até Adrianópolis, a menos de trezentos quilômetros de Constantinopla. Todos os principados danubianos e a Sérvia tornaram-se livres. Três anos depois, a Grécia alcançou a independência e as tropas de Carlos X desembarcaram em Argel. Se a paz assinada em Adrianópolis interrompeu as hostilidades contra a Europa, o sultão teve que novamente enfrentar outros muçulmanos.
O Egito, com Ali Bey (1757-1773), estava quase independente. Desde 1775, abriu aos ingleses a passagem através de seu território para chegar ao mar Vermelho e seguir para as Índias. Após o assassinato de Kléber em 1800, ocorreu um desembarque turco-inglês. Constantinopla reconhece como Paxá, em 1803, o chefe das tropas albanesas, Mehmet Ali (1805-1852). Em 1811, o Paxá eliminou fisicamente quatrocentos e setenta beis mamelucos e enviou os albaneses para conquistar o Sudão. Criou um exército de fellahs, liderado por instrutores franceses.
O reformismo wahhabita no século XVIII
Durante a última metade do século XVIII, desenvolveu-se uma nova abordagem jurídica da religião do Profeta. Maomé ibne Abedal Uaabe e o emir Maomé ibne Saud estudaram as obras de Ibn Taymiyya, falecido em 1320. Este "reformador" reintroduziu as ideias de ibn Hanbal (hanbalismo), que no século III da Hégira defendia, no plano jurídico, a aplicação estrita das tradições do Profeta e dos primeiros companheiros.
Os wahhabitas, agrupados principalmente no Négede, em comunidades puritanas, condenavam todas as inovações, o culto aos santos e as visitas aos túmulos. Proibiam tabaco, música e terços. Preconizavam a simplicidade das mesquitas e o uso da barba. Finalmente, seu líder pregou a jihad. Eles conquistaram toda a Arábia e tomaram Meca em 1803. Compreendendo que ameaçavam a autoridade central, o Paxá do Egito se opôs aos seus intentos. Recuperou as cidades sagradas da Arábia. O exército do sultão também foi vitorioso em 1819. Os wahhabitas se dispersaram. Finalmente, puderam se reconstituir em Riad e tomaram o poder em 1902, com a família de ibne Saud.
O Egito ajudou o sultão na luta contra os gregos revoltados. Pouco depois, para reconstruir sua frota destruída, o Paxá lançou-se na conquista da Síria, a partir de 1831. Repelindo os exércitos otomanos, venceu a guerra na batalha de Cônia, no planalto da Anatólia, em 1832. O sultão havia apelado aos russos. O czar aproveitou para obter a exclusividade da passagem nos Estreitos.
A união sírio-egípcia durou até 1839, ano em que as hostilidades recomeçaram contra os turcos. Diante do colapso militar destes, as potências intervieram e obrigaram os egípcios a restituir a Síria.
A Rússia desencadeou a Guerra da Crimeia (1853-1855). As forças franco-britânicas intervieram ao lado dos turcos.
No Congresso de Paris, em 1856, o Império Otomano foi colocado sob a tutela das potências. Os financistas franceses aproveitaram as vantagens concedidas pelas "Capitulações" para obter privilégios exorbitantes.
Na política interna, o sultão decretou no mesmo ano a igualdade legal e fiscal entre todos os cidadãos.
A seita drusa
Devido à mistura de populações — árabes, judeus, drusos, gregos... — e à multitude de confissões religiosas, a Síria permitiu uma forte agitação social em duas direções opostas.
Em primeiro lugar, é necessário examinar as relações entre maronitas e drusos, infelizmente sempre atuais. Pequeno grupo étnico de cerca de trezentas mil almas, os drusos, adoradores do sexto califa, descendente de Ali e Fátima, Al-Hakim, seguiam um rito particular do Islã... a Hákimiyah, doutrina secreta! Al-Hakim teria adotado "o que havia de melhor em cada religião"! De Sócrates, Platão, Aristóteles, Pitágoras, Moisés, Jesus e do Alcorão, ele teria extraído um concentrado sincrético. Acrescenta-se a crença em uma metempsicose particular: seus mortos só se reencarnavam em novos drusos; conclusão: o estrangeiro só pode ser a reencarnação de um infiel! Segundo Al-Hakim, no juízo final, os cristãos serão condenados aos piores castigos; os judeus estarão em melhor posição que os muçulmanos. Vale notar que, se a mulher drusa não pode sair do lar familiar antes do casamento e deve se casar com um druso, no geral sua condição é, no entanto, melhor que a das outras muçulmanas.
A doutrina foi pregada na Síria e no Líbano por um egípcio, Al-Darazi. Sua pregação alcançou árabes, persas, berberes, curdos e hindus.
A comunidade drusa é altamente hierarquizada. As estruturas ancestrais são marcadas pela coexistência das autoridades religiosas e políticas. Os uqqal são os depositários da identidade e da sabedoria drusa. Os feudais encarregam-se da proteção da comunidade. As dinastias históricas desses feudais — os Arsians, os Abd-el-Malek, os Yarbek e os Joumblatt — dividem a preeminência.
Essa família Joumblatt, grandes feudais curdos, tornou-se, no século XIII, drusa por não se sabe qual artifício teológico, e instalou-se na região do Chouf libanês.
A era de ouro dos drusos começou em 1585 com o reinado de Fakhredine II sobre o Emirado druso-maronita do Chouf e do Monte Líbano. Os drusos eram os proprietários de terras, agricultores e militares; os maronitas contribuíam com seu artesanato e comércio. O poder passou para a dinastia dos Chihab em 1635. O Emir Youssouf Chihab pôs fim à boa entente com os maronitas, e ocorreram os dois massacres de 1842 e 1846.
Aproveitando-se do decreto do Sultão, os maronitas, a partir de 1856, tentaram contestar o sistema agrário feudal imposto pelos drusos... Imediatamente, o massacre dos maronitas começou, com a bênção da administração turca e da protestante Inglaterra, que apoiava os drusos...
Se as duas primeiras matanças não haviam suscitado comoção na Europa, esta desencadeou a intervenção francesa. Uma breve campanha militar terminou com os acordos de 1861, e depois de 1864, garantindo a autonomia do "Monte Líbano". Uma segunda intervenção teve que ocorrer em 1916. A conferência de San Remo, em 1920, confiou à França um mandato sobre a Síria e o Grande Líbano. Os drusos não perdoaram nem os maronitas, nem a França... mas a Internacional Socialista permitiu a aproximação atual do Estado com os degoladores...
O Renascimento Cultural no Século XIX
Em outra ordem de ideias, um movimento cultural começou na Síria por volta de 1840, quando muçulmanos e cristãos se reconheceram como pertencentes à mesma etnia árabe, sob o domínio dos turcos.
Em 1847, fundação de uma Sociedade de Artes e Ciências, seguida, em 1850, pela criação, pelos jesuítas, de uma Sociedade Oriental. A Sociedade Científica Síria, aberta a cristãos e muçulmanos, iniciou-se em 1867. Já em 1870, foram publicados um dicionário árabe, revistas e jornais.
O Sultão Abdul Hamid II (1876-1909) teve que reagir contra as consequências dos fracassos militares e da redução territorial do Império, tanto no interior da própria Turquia quanto nesta Síria tentada pela emancipação. Todas as tentativas autonomistas foram severamente reprimidas durante todo o seu reinado.
Seguiu-se o exílio de um grande número de intelectuais sírios na Europa e no Egito. Formaram-se também sociedades secretas, a primeira delas por iniciativa de cinco jovens cristãos, ex-alunos do Colégio Protestante de Beirute. Muçulmanos, civis e militares árabes participaram desse movimento. O mais conhecido foi Al-Kawâkibi (1869-1903). Alguns exilados viviam na Europa, e foi em Paris, em 1904, que foi fundada a Liga da Pátria Árabe, reivindicando a independência da Síria e do Iraque.
Na Turquia, manifestou-se um movimento nacionalista, os "Novos Otomanos", do qual participaram muitos oficiais. Graves distúrbios acabaram por eclodir. Em 1908, o Sultão teve que transformar seu modo de governo e dar uma constituição ao Império, o que favoreceu ainda mais a criação de partidos ou movimentos clandestinos.
As nações europeias continuaram a dividir os despojos dos otomanos: a Áustria tomou a Bósnia-Herzegovina, a Rússia as margens do Cáspio, a Grécia a Tessália e a Inglaterra o Chipre. A Sérvia e a Romênia tornaram-se independentes.
O massacre dos católicos armênios, verdadeiro genocídio perpetrado nos anos de 1893 a 1896, não provocou qualquer intervenção por parte das potências europeias, a não ser a ocupação de Creta pela Grã-Bretanha, sinal evidente de seu definhamento espiritual!
O Sultão reorganizou seu exército mais uma vez. Ele foi reestruturado e modernizado pelos alemães. Essa colaboração com Guilherme II foi consequência da política da Tríplice Entente. Foi por ocasião da viagem de Guilherme II a Constantinopla, em outubro de 1898, que a questão da criação de um Estado judeu na Palestina foi oficialmente levantada. O Imperador tornou-se, de fato, o porta-voz de Theodor Herzl, fundador do "Sionismo" e zeloso propagandista a favor de um reagrupamento hebraico para dar aos israelitas um Estado próprio. A ideia consistia em fazer o Sultão aceitar esse estabelecimento, organizado como um protetorado alemão. Apesar de várias tentativas, o projeto não foi aceito.
A Agonia do Império Otomano no Século XX
Apesar da importante ajuda técnica e econômica alemã, o Sultão teve que abdicar sob a pressão dos nacionalistas, os futuros "Jovens Turcos" e dos militares.
Seu substituto, Mehmet V, testemunhou um recrudescimento da agitação social. Um movimento, "União e Progresso", chegou a defender o recurso à ditadura militar. Para conter uma das causas de perturbação, uma política de "turquificação" brutal foi aplicada às populações alógenas...
O Império agonizante atraiu um novo predador. A Itália, cujos numerosos cidadãos haviam emigrado para a Tunísia e o Egito, atacou em 1911. Visou a Cirenaica, pouco povoada, e ocupou Trípoli e Benghazi. Anexou também o Dodecaneso, incluindo Rodes.
Na Europa, os Estados Balcânicos, reunidos em uma Liga, tentaram dar o golpe final. Dois anos de guerra, 1912-1913, deixaram aos turcos apenas a borda europeia dos Estreitos. A guerra de 1914-1918 fez dos otomanos, sem que realmente quisessem, aliados da Alemanha.
Imediatamente, os patriotas árabes da Síria retomaram suas reivindicações autonomistas. Na Arábia, o Xeque Husayn proclamou a revolta árabe ao lado dos Aliados. Foi a época da guerrilha de Faysal, filho de Husayn, rei do Hejaz, da família Hachemita, na companhia do inglês Lawrence. Em 1918, o exército árabe ocupou Damasco.
Os ingleses, que há cento e quarenta anos se agitavam perto de Suez, estavam prestes a ser recompensados. De fato, um acordo secreto chamado "Tratado Sykes-Picot", datado de maio de 1916, dividiu o Levante entre a Inglaterra e a França. O sionismo de Herzl havia sobrevivido, e muito, à sua morte em 1904. Foi criado em Jaffa, em 1908, um Escritório de Planejamento da Imigração...
No ano seguinte, a primeira colônia judaica (Tel Aviv) foi fundada. Lá se reuniram David Gryn (Ben Gurion), Haim Weizmann, Goda Mayerson (Golda Meir). Um comitê americano de reivindicação judaica foi criado em 1916 nos EUA, seguido pela fundação em 1917 do Comitê Britânico da Palestina pelos banqueiros da City, coração judeu e maçom da Inglaterra.
Como agradecimento, Wilson fez os americanos entrarem na guerra. Finalmente, sob a pressão das altas finanças internacionais, o "coronel" House, eminência parda do presidente dos EUA, fez com que o gabinete britânico decidisse publicar, pelo ministro das relações exteriores, Lord Balfour... a promessa de criação de um Estado judeu na Palestina.
Deixando, portanto, seu mandato sobre a Síria e o Líbano para a França, a Inglaterra obteve para si a proteção do Iraque, do qual Faysal será o primeiro rei, e da Palestina. Em dezembro de 1917, os ingleses entraram em Jerusalém, abandonada pelos turcos, acompanhados por uma comissão sionista internacional, presidida por Haim Weizmann (futuro primeiro presidente do Estado de Israel), encarregada de administrar a Palestina. Um acordo foi assinado em 1919 entre Weizmann e Faysal, acordo que não teve seguimento. Os árabes reagiram e os primeiros distúrbios eclodiram...!
O último Sultão otomano, Mehmet VI, aceitou o desmembramento do Império pelo Tratado de Sèvres em 1920. Os territórios árabo-muçulmanos formaram-se em estados independentes: Líbano, Síria, Iraque (rei Faysal I), Transjordânia (rei seu irmão Abd Allah) e Palestina (Sir Herbert Samuel, israelita, Alto Comissário).
Restava a Turquia, onde o General Mustafa Kemal, chefe das forças nacionalistas, tomou o poder em 1920. Ele aboliu o tratado das "Capitulações", o Sultanato em 1922, o Califado em 1924, um ano após ter proclamado a República; a Turquia moderna havia nascido.
A Jihad havia terminado! Os Cavaleiros de Alá, que, por quase treze séculos, haviam cruzado espadas com os europeus, veriam grande parte de suas conquistas e territórios próprios tornarem-se protetorados ou colônias de seus velhos inimigos. Quanto tempo durará sua paciência? Tanto mais que seu Profeta podia se orgulhar de seus discípulos. Embora seu estandarte verde estivesse enrolado em seu estojo, sua religião reinava sobre três quartos da conquista e a Europa dos materialistas políticos, banqueiros e homens de negócios se importava muito pouco em fazê-la recuar, muito pelo contrário!
L.D.