Cadernos Barruel 17 - 1988

UM PADRE FALA SOBRE...

A penetração neognóstica nos meios católicos, sistemática há cerca de vinte anos, tornou-se oficial há oito anos, quando as Edições du Cèdre publicaram a obra de Jean Borella, A Caridade Profanada.

A falta de formação levou muitos cristãos a ignorar esse novo perigo, ainda mais que a Igreja se encontrava no auge da crise neomodernista, e foram necessários muitos trabalhos e explicações para que os olhos da maioria finalmente se abrissem.

Entre as pessoas que enxergaram com clareza há muito tempo estão alguns padres, em primeiro lugar o senhor padre Coache, que expressou advertências reiteradas e desenvolvidas ao longo dos últimos cinco anos.

Para aqueles de nossos leitores que não tiveram conhecimento, reproduzimos a seguir os dois últimos textos: o primeiro publicado no Combate da Fé n.º 78, de março de 1987; o segundo, no n.º 79, de junho de 1987.


PERIGO

Já chamamos a atenção, várias vezes, para o perigo que representa a nova gnose do Professor Borella. Ora, seja pelo atrativo da novidade, seja pela tentação de querer fazer erudição dentro da Tradição, algumas revistas e padres se deixam pegar por esse veneno que pretende manter a fidelidade da doutrina; e, no entanto, é a ressurreição da mais velha heresia da História da Igreja, o gnosticismo: religião natural, deísmo, esoterismo, explicação da revelação pela natureza, etc. Fica-se estupefato que uma revista tão teológica como O Pensamento Católico (muito teológica? Ela engole todas as heresias de João Paulo II!) possa se tornar a tribuna de um escritor tão falacioso! E padres sérios se deixam enganar.

Aliás, o próprio estilo de Borella, feito de fumaça e espelhos, que beira o charabia por sua complexidade e caráter abstruso, mostra bem que ele está nas antípodas do verdadeiro pensamento teológico. Um Santo Tomás ou um São Francisco de Sales, na profundidade de seus tratados, escreviam com simplicidade; eis, ao contrário, um exemplo do estilo borelliano: "Assim constituído, o ser adâmico não pode mais estar submetido às condições da adâmâh. Assim como o espírito de vida exigia, para ser recebido em sua substância corporal, que esta fosse quintessenciada, do mesmo modo, para viver, o Adão primordial exige um mundo, uma ambiência cósmica quintessenciada, que lhe seja submissa e da qual ele seja o rei. A relação de vida com a substância 'poeirenta' (haphar) de que é feito seu corpo se prolonga analogicamente na relação de Adão, alma vivente, com o paraíso que Deus plantou para ele no Oriente, traçando um 'recinto' (gan) no conjunto do plano humano de existência. Esse paraíso é, portanto, para ele, de certa maneira, como seu corpo cósmico, ou melhor, como uma irradiação luminosa de seu próprio corpo. É esse recinto paradisíaco, essa quintessência do cosmos humano, que o primeiro homem deve cultivar e guardar, como Deus lhe ordenou, e não diretamente a adâmâh."


... Estilo bombástico, incompreensível e pedante! Seria risível se não se escondesse sob essa verborragia o veneno de uma religião pagã – bem camuflada – que solapa os fundamentos da Revelação. Já denunciamos isso; tocamos o alarme (Combate da Fé n.º 76, 74, 67, 65, 63, 62), mas os melhores não querem levar em conta!

Assim, em 1969, denunciando a Nova Missa, afirmei que ela desagrada a Deus, leva ao Modernismo e que é melhor faltar à Missa do que ir a um rito pró-protestante; vários grandes defensores da Tradição (e não dos menores!) me asseguraram então que era melhor ir à Nova Missa do que faltar no domingo; alguns anos depois, eles aderiram à posição do Combate da Fé ("Falo como insensato", diria São Paulo!).

Ora, eis que um jornalista do Presente Daoudal dedica meia página (em 14 de fevereiro passado) ao louvor de Borella, sobre um de seus últimos livros: "um livro de uma densidade extraordinária... uma reflexão cuja riqueza é tal que..."; é realmente cair em êxtase por vento, inchaço, termos novos que impressionam: "o triforme Corpo de Cristo", Jesus "crucificado na cruz da finitude", etc. Se Molière estivesse presente! Na realidade, esse novo livro, a ler os comentários de Daoudal, empanturra-se de palavras e fervilha de distinções inadequadas que parecem retomar toda a teologia pelo fundamento, quando, na verdade, elas embaralham as definições e classificações da teologia tradicional, que já provou seu valor. Isso me faz pensar no Centro Pompidou, em Beaubourg, com todos os seus canos e cores agressivas: palavras, confusões nas distinções, relações que não se baseiam em nada real, uma mistura perpétua de realidades sobrenaturais que "dá vertigem" ao jornalista, mas contribui sobretudo para "impressionar" o leitor; não seria nada se, subjacente, não transparecesse a heresia de um racionalismo místico que mina o sobrenatural; assim, a definição que Borella dá do ato de fé! Não, isso não é "teologia do mais alto nível"; é uma massa que incha com um fermento envenenado.

Não esqueçamos que, para Borella, existe um Absoluto acima de Deus! Quanto ao "sentido do sobrenatural até a deificação", de que fala seu novo livro, São João, São Paulo, os Padres e todos os bons teólogos já o proclamaram, mas de maneira toda simples e clara (sem elidir o mistério por isso). Digo e repito que as elucubrações e a gnose de Borella constituem um grande perigo; essa linguagem abstrusa e esotérica ressuscita, sob uma forma moderna, os erros da gnose e do hermetismo; ela se aparenta ao panteísmo difuso de Teilhard; ela sujeita a Revelação à ciência; essa gnose é gnosticismo, apesar das protestações contrárias do autor. Além disso, Borella, em seus momentos, critica a Igreja, sua expansão nos séculos XIX e XX e... o pouco espaço que ela deu ao homem! Ele me escrevera, em 1982, que era necessário "responder às questões que os Modernistas colocavam, pois essas questões se colocam" (grifo dele!). É bem claro que sua simpatia vai para a filosofia modernista, quando ele fala, por exemplo, da "salvação cósmica" ou escreve: "não há nada antes do começo, nem mesmo Deus"!

Sou um dos únicos a denunciar esse grande perigo, perigo sobretudo para os jovens padres, que poderiam ser facilmente seduzidos pela pseudo-profundidade dessa teologia e correr o risco de ser contaminados. Quando a restauração da Igreja estiver cumprida, que uma nova heresia, partindo do seio da "Tradição", não venha estragá-la!

Muitos padres influentes veem, sabem e... calam-se! Paciência, terei cumprido meu dever. Mais tarde será tarde demais.

Padre Louis Coache Combate da Fé n.º 78, março de 1987


UMA NOVA HERESIA, DISFARÇADA

Fizemos no número 78 um artigo sobre o perigo da doutrina difundida pelo Senhor Borella. O mais espantoso é que jornais e revistas muito tradicionalistas ou responsáveis inteligentes e cheios de fé evitam denunciar esse erro. Do que têm medo?

E, no entanto, esse erro é grave porque é insidioso como o Modernismo. "Mas o Professor Borella comunga muito frequentemente!" - Talvez; Voltaire também comungava. "Como ousa comparar o Senhor Borella a Voltaire?" - No foro interno, sem dúvida não há comparação possível, pois o Senhor Borella é, suponho, sincero; mas no foro externo, isto é, no plano público e do bem comum, sua heresia é talvez mais perigosa do que o ódio à religião; o neognosticismo, de fato, como o Modernismo, mina a doutrina sob o pretexto de aprofundamento e engana os leitores; vejam os malefícios do Modernismo, toda a Igreja sucumbiu! Se a doutrina de Borella se espalhasse e triunfasse, seria toda a Igreja ainda fiel à Tradição que sucumbiria. Eles pretendem querer conservar os verdadeiros valores, mas os desnaturam ao impregná-los de uma religião pagã baseada no conhecimento humano e de toda uma filosofia com resquícios maçônicos e teilhardianos (ser supremo, hiperteos, centro cósmico, etc...). Para eles, o Deus da Bíblia - com toda a Revelação - se insere num contexto de cosmogonia antiga. Deus organizou à sua maneira a matéria pré-existente, uma maneira nem sempre feliz (dualidade do bem e do mal)...

Àqueles que se recusam a se interessar pela questão e levam na brincadeira a prosa esotérica de Borella, ou se sentem de alguma forma seduzidos, eu pergunto: "Vocês são católicos, prezam a Tradição e, portanto, a fé integral, sem compromisso. Então:

Se responderem sim a alguma dessas perguntas, são homens dúbios, que defendem a Tradição publicamente, mas cujo coração já escorregou para a heresia; enganam, portanto, seus leitores, pois cedo ou tarde se revelarão; são cúmplices de uma nova heresia que assumirá o lugar do Modernismo; são infiéis ao Cristo que pretendem servir.

L. C.

P.S.: Leia "De la gnose à l'oecuménisme" de Étienne Couvert, Edições de Chiré.

Combate da Fé nº 79, junho de 1987

O LEGADO DO PADRE LEFEVRE

O Senhor Padre Luc Lefevre, diretor da revista "O Pensamento Católico" e das Edições do Cedro, faleceu na terça-feira, 28 de abril de 1987, aos 92 anos. Formado no seminário francês de Roma, o do Padre Le Floch, sacerdote há mais de sessenta anos, ele encarnou após a guerra, e por muito tempo sozinho, o próprio tipo do verdadeiro pensador católico tradicional.

Infelizmente! Parece que relações preocupantes o levaram, durante os anos sessenta, ao caminho de uma Tradição ambígua e, em 1962, apareceu em sua revista um artigo agora famoso sobre René Guénon, assinado pela Senhora Maurice Bouley-Denis.

Essa mesma pessoa havia sido, quarenta anos antes, no final da guerra de 14-18, a intermediária entre Jacques Maritain e Guénon, um Guénon que, ao final de sua formação orientalista e maçônica, esforçava-se para penetrar o meio dos pensadores cristãos dos quais Maritain era então a joia da coroa (tanto mais que ainda não havia feito sua virada progressista). Graças à lucidez do mestre tomista, a manobra fracassou, mas Guénon conseguiu passar por tradicional junto a alguns antirrevolucionários, e não dos menores, os da Ação Francesa; o próprio Léon de Poncins ficou por um tempo deslumbrado por suas posições antimodernas.

As redes guenonianas perceberam bem todo o interesse desse novo amigo e daqueles que o cercavam como "cavalo de troia" no seio dos meios católicos opostos à Revolução na Igreja, tal como ela surgiu do Modernismo e do Concílio Vaticano II. Chegou-se assim a esse duplo escândalo: primeiro, a publicação de "A Caridade Profanada" pelas Edições do Cedro em 1979, e a participação regular de Jean Borella no Pensamento Católico; depois, a defesa desse livro e de seu autor por religiosos tradicionais, capuchinhos e dominicanos, contra a denúncia documentada que fizemos.

Esse escândalo produziu então, logicamente, seus frutos: jovens espíritos frágeis e indefesos deixaram-se seduzir pelas doutrinas neognósticas e seu autor; jovens vocações foram desviadas do verdadeiro Deus e, no entanto, conduzidas à ordenação sacerdotal, culminando na enormidade do artigo do jornal L'Est Républicain publicado no Boletim nº 16.

O padre Lefevre desapareceu, o neognosticismo perdeu um apoio sério, mas ganhou um legado precioso: Yves Daoudal, já conhecido de nossos leitores por suas posições guenonianas (nota), torna-se Editor-Chefe da revista "O Pensamento Católico", enquanto o fundo das Edições do Cedro é assumido pelas Edições Dominique Martin Morin. Esta última casa, muito próxima da revista "Itinerários", da qual é o duplo editorial, também assumiu há pouco uma pequena revista intitulada "Boletim do CICES", na qual Yves Daoudal recentemente publicou alguns artigos muito instrutivos!

A teia de aranha gnóstica se estende e, por isso, se revela um pouco mais a cada dia, para aqueles que são de boa fé, é claro!

P. R.

A PROPÓSITO DE DOIS JORNALISTAS

Alguns de nossos leitores ficaram surpresos com a participação de dois jornalistas do grupo de imprensa do Senhor HERSANT no colóquio guenoniano de Lyon em agosto de 1986: Jean-Jacques GABUT, diretor de "Lyon-Matin", e Michel-Henri COSTE, do "Jornal Rhône-Alpes".

Como indicamos no artigo publicado no Boletim nº 16, suas posições pessoais já eram publicamente conhecidas, e sua presença era, portanto, doutrinariamente lógica; com o objetivo de fornecer informações complementares, submetemos aos nossos leitores cinco artigos sobre eles, que permitirão a cada um formar uma ideia mais precisa de certa "Imprensa de direita"...


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Tradução:

Os Evangelhos Secretos

« EVANGELHOS SECRETOS ». Título chamativo. É verdade. O título original é mais fiel, mas claramente mais abstrato: « The Gnostic Gospels » (Os Evangelhos Gnósticos). Este livro de Elaine Pagels, professora da Universidade Columbia (Nova York), é o primeiro a fazer um amplo balanço do famoso caso dos manuscritos de Nag Hammadi. Este nome começa a ser tão célebre quanto o de Qumran, local onde foram encontrados os documentos essênios...

Numa jarra

Quase a mesma história, que também começa como um fato diverso. Em 1945, um camponês egípcio encontra uma jarra contendo treze volumes em papiro. A partir daí, como no caso de Qumran, é quase um romance policial. Venda no mercado negro, folhas queimadas, outros manuscritos retirados ilegalmente do Egito.

Depois, finalmente, após inúmeras peripécias bem contadas por Elaine Pagels, a "descoberta" surpreendente do professor holandês Gilles Quispel. Ele tem diante dos olhos o Evangelho de Tomé! E, junto com ele, toda uma biblioteca cristã gnóstica.

A "outra" Igreja contra a qual trovejou tão fortemente o bispo de Lyon, Irineu. E que, no entanto, poderia ter prevalecido sobre a nascente Igreja romana.

"Uma alternativa vigorosa"

Esses manuscritos de Nag Hammadi são um verdadeiro tesouro que escapou dos autos de fé da Igreja institucional de Roma. Eles remontam aos séculos II-III d.C. e, de repente, eis que o gnosticismo cristão, do qual só tínhamos raros escritos, frequentemente mutilados, aparece em toda a sua riqueza. Além disso, é "de primeira mão". Não são mais as críticas de seus adversários, às quais éramos obrigados a recorrer até então para conhecê-lo.

Reteremos a conclusão de Elaine Pagels: "Hoje em dia, nós os lemos com um olhar diferente, não apenas como 'loucura e blasfêmia', mas... como uma alternativa vigorosa ao que conhecemos como tradição cristã".

Mais iniciático

Então, descobrimos ao longo desses "Evangelhos Secretos" uma outra vida de Cristo, outro ensinamento. Mais voltado para o conhecimento, para a fé, mais intelectualista, mais elitista, mais iniciático. É uma constatação. Não um juízo de valor.

Os comentários de Elaine Pagels leem-se "como um romance". Então não pense que é indigesto. Vemos esses "outros" cristãos viverem e sua relação com a Igreja oficial. E percebemos que, desde a origem, desde o ano 60 d.C., havia "muitas moradas na casa do Pai".

M.-H. COSTE

Elaine Pagels — Os Evangelhos Secretos — Traduzido e anotado por Tanguy Kenec'hdu — Editora Gallimard — 235 páginas.

NOTA DE LEITURA

"Os Traçados de Luz"

Uma reedição, revista e corrigida, que se aguardava devido aos temas tratados no sentido tradicional. O autor, Jean Tourniac, originário de Lyon, foi um dos correspondentes de René Guenon.

Destaca-se especialmente o capítulo "O Todo-Poderoso no esoterismo maçônico e judaico-cristão". Jean Tourniac, em seus "Traçados de Luz", ilumina todos os "buscadores" que, partindo da fé, desejam empreender o caminho do Conhecimento, sem cair na armadilha do orgulho que poderia levá-los a menosprezar a religião em favor de uma pesquisa elitista no mau sentido do termo.

Sigamos, pois, Jean Tourniac por esta trilha, apoiada pelo simbolismo expresso pelos construtores de catedrais: uma lição reconfortante nesta era materialista.

M.-H. COSTE

Jean Tourniac.- Os Traçados de Luz: Simbolismo e Conhecimento - Editora Dervy-Livres - 12 pranchas fora do texto - 250 páginas.


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Tradução:

O "FIM DO ESOTERISMO"... OU SEU AGGIORNAMENTO?

Pode parecer paradoxal abrir tal crônica com a obra de um jovem e brilhante crítico do nosso velho mundo e da nossa cultura "morta": MICHEL LANCELOT, autor de "O Jovem Leão Dorme com seus Dentes" (1)... E, no entanto, Michel Lancelot, em sua saudável ira, em seus exageros calculados, reafirma, em nome da contracultura, em nome da jovem revolução, uma verdade tão fundamental quanto elementar: "Há uma transcendência e ela não é incompatível com o comportamento social". Entre a pesquisa esotérica, o underground, a pop music e a história em quadrinhos, ele percebeu muito bem o que havia de misteriosas afinidades. E percebeu muito bem o que está em jogo na luta que se iniciou. Uma luta pela dignidade, pela liberdade, pela responsabilidade do homem diante do "fascismo sem lágrimas" que nos preparam os cabeças-ocas — de direita ou de esquerda — para nossos amanhãs desencantados.

É paradoxalmente — tão distantes quanto as abordagens — um livro notável de RAYMOND ABELLIO, que responde em eco às preocupações de Michel Lancelot. "O fim do esoterismo" (2) faz-nos, de fato, tomar melhor consciência da importância da abordagem iniciática. Esta é a revelação da interdependência universal; é, precisamente, a passagem da razão natural para a razão transcendental. Práxis, mas também moral. Com sua vasta cultura, o grande estruturalista e racionalista que é Abellio fala-nos da "desocultação" que, hoje, se inicia e que provavelmente significa um novo nascimento para nossa civilização. Suas análises sobre o simbolismo da Cruz, o I Ching, a árvore das sefirot são penetrantes, difíceis, por vezes discutíveis, mas sempre enriquecedoras. Agora, será este, como ele pensa, o fim do esoterismo e o acesso de todos às verdades ocultas?... Ou não se trata antes de um "aggiornamento" em função de nossa evolução?...

Abellio também fala em seu ensaio sobre a astrologia, de suas relações com o poder profético, sob um ângulo muito "gnóstico".

No entanto, o cientista Abellio é estranhamente acompanhado por outro cientista, engenheiro físico de um centro internacional de pesquisas nucleares, GEORGES DE VILLEFRANCHE, que acaba de publicar um pequeno livro luminoso sobre "A Astrologia Esotérica Redescoberta" (3). Estamos, evidentemente, a mil léguas do charlatanismo astrológico. Penetramos nos arcanos simbólicos e míticos onde este brilhante engenheiro se move com desenvoltura. Recomendo calorosamente, com a certeza de não me enganar, este pequeno livro para a sua meditação.

DUAS NOVAS COLEÇÕES: MAME E DUMAS

O sucesso crescente de todas as obras relacionadas ao esoterismo levou mais duas editoras a lhes reservar coleções particulares. Assim, nas edições Mame, surgiu uma série de obras que precisamos mencionar tanto pelo rigor de seus autores quanto pela qualidade dos textos apresentados. Primeiramente, "Ritos e Iniciações das Sociedades Secretas", de PIERRE MARIEL (4). Ao lado de considerações gerais sobre iniciação, ritos e mitos, Pierre Mariel analisa e até cita como exemplo ritos maçônicos ou paramaçônicos pouco conhecidos. Seu capítulo sobre os "bons primos" e a Santa Vem contém insights interessantes. Uma obra rica, assim como a de JEAN-CLAUDE FRERE, dedicada especialmente aos "Rosacruzes" (5) e a todos os ramos que dele derivam, desde a "Rosacruz de Ouro" até a "Ordo Templi Orientis", passando pela "Ordem Cabalística da Rosacruz" e a "Societas Rosicruciana da Grã-Bretanha".

Precisamos citar ainda, na mesma série "Pensamentos e Sociedades Secretas", o trabalho muito difícil, mas bastante fabuloso, dedicado por MAURICE GUINGUAND a "Chartres" (6) e aos templários arquitetos. O Sr. Guinguand brinca com os números e é preciso ser um bom matemático para acompanhar todas as suas demonstrações. Seu livro, no entanto, fornece indicações muito valiosas sobre os mistérios das catedrais caros a Fulcanelli.

Na Robert Dumas, a coleção "Esoterismo Hoje" abre-se com um livro de LAURENT DAILLIEZ sobre "Jacques de Molay, último mestre do templo" (7). Um livro histórico extremamente documentado e imparcial, que nos mostra um grande mestre do Templo bem distante da lenda e que faz justiça a muitas fábulas que circulam sobre os templários.

JESUÍTAS E MAÇONS

Não é por acaso que ligamos estes "irmãos", que foram (às vezes) inimigos, para apresentar o livro de ALAIN GUICHARD sobre "Os Jesuítas" (8), e o de PIERRE CHEVALIER sobre "A História da Maçonaria Francesa" (9). Se seus caminhos são divergentes, o jesuíta e o maçom sofreram, de fato, ao longo dos séculos, as mesmas perseguições, foram estranhamente, pelas mesmas razões, os grandes caluniados da História.

Alain Guichard nos entrega, com o rigor que gostamos de lhe reconhecer, um estudo ao mesmo tempo psicológico e histórico que é do mais vivo interesse, pois incita ao diálogo e à abertura num espírito fraterno.

Da mesma forma — esperemos —, a história de Pierre Chevalier sobre a ordem maçônica na França contribuirá para dar a conhecer ao grande público esta "escola da igualdade" tão mal e tão injustamente compreendida pelos profanos que não têm acesso a ela. Professor na Universidade de Limoges, Pierre Chevalier (que não é maçom) é um dos primeiros "maçonólogos" franceses. Sua obra, que compreenderá três volumes e da qual apenas o primeiro volume foi publicado até agora — cobrindo o período que vai das constituições de Anderson até 1799 — é prefaciada por Pierre Gaxotte. É marcada por um rigor, uma elevação de pontos de vista e um rigor histórico incontestáveis. Apenas se lamenta que ela só comece com o nascimento da maçonaria especulativa, deixando na sombra — ainda bem densa — a longa marcha da maçonaria operativa desde as Lojas da Idade Média. Não deixará de ser um documento de base, geral, extremamente detalhado e ao qual será impossível não fazer referência.

Ainda na mesma família espiritual, citemos uma obra muito notável sobre "Goethe maçom", de ROLAND GUY (10): uma abordagem em profundidade do grande poeta que, amanhã, nenhum acadêmico, nenhum estudante poderá ignorar. Um trabalho único pelos anos e anos de pesquisa e estudo que exigiu. E que nos restitui o homem, o poeta, o filósofo com suas fraquezas e virtudes em sua verdadeira e serena grandeza.

No mesmo editor, uma pequena obra muito rica que recomendo a todos os amantes do simbolismo: "O Gabinete de Reflexão", de DANIEL BERESNIAK (11).

NO CAMINHO DO ORIENTE

Se nos voltamos para o lado do Oriente, encontramos dois livros banhados pela mais alta espiritualidade. O primeiro é curiosamente um romance, mas um romance iniciático, um romance onde transparece a biografia de seu autor, um ex-deportado que, após conhecer na América Latina os decepcionantes esplendores do "inferno verde", descobriu a verdadeira aventura interior com Sri Aurobindo, de quem permanece discípulo: SATPREM. "Pelo corpo da terra" (12) narra assim as tribulações de um Sannyasin em busca da luz. Trata-se de uma belíssima e poética história, maravilhosamente escrita, surpreendentemente cativante, mesmo que se negligencie seu fio condutor esotérico.

O segundo livro, que é quase seu prolongamento vivido, é "O ensinamento de Mâ Ananda Moyi" (13), relatado por JOSETTE E JEAN HERBERT. Trata-se de diálogos, reflexões relatadas juntamente com um retrato da "Mãe", da santa que está na origem dos "ashrams", que se considera ao mesmo tempo cristã, muçulmana, hindu e cuja irradiação — no sentido próprio como figurado — é literalmente, prova viva, encarnação de alegria, sabedoria e amor.

Por fim, num Oriente mais próximo, anunciamos a publicação pela primeira vez de um "Livro dos princípios cabalísticos" (14) devido ao eminente cabalista A.D. GRAD, professor de filosofia no Chile, cuja obra extraordinária sobre "As chaves secretas de Israel" já havíamos saudado aqui mesmo. Eis então, em sua surpreendente beleza, os mais puros e mais enigmáticos florões da sabedoria hebraica restituídos por aquele que será, sem dúvida, considerado amanhã como um dos pais da sinagoga universal.

J.-J. GABUT

  1. Albin Michel; 2) Flammarion; 3) Dervy-Livres; 4, 5, 6) Ed. Mame;
  2. Robert Dumas; 8) Grasset; 9) Fayard; 10 e 11): Ed. du Prisme; 12) R. Laffont; 13) Albin Michel; 14) R. Laffont.

Sr. Georges Marcou, Grão-Mestre da Grande Loja da França, em Lyon para a instalação de uma nova loja

O Sr. Georges Marcou, Grão-Mestre da Grande Loja da França para 1977, esteve ontem em Lyon, onde presidiu à "incorporação" na Grande Loja da França — ou seja, à instalação — de uma nova Loja desta obediência. Será a terceira em Lyon. Seus membros escolheram liderá-la como Venerável nosso confrade Jean-Jacques Gabut; e com sua presença, o Grão-Mestre — que fazia sua primeira viagem ao interior desde sua eleição e estava acompanhado pelos altos oficiais da Grande Loja e pelos principais membros do conselho geral — quis demonstrar seu apego pessoal e o reconhecimento de toda a Grande Loja a Jean-Jacques Gabut, que já ocupou funções insígnes na Grande Loja, sendo a última delas a de Grande Orador.

Mas o Grão-Mestre também quis marcar com esta viagem o interesse privilegiado que dedica aos maçons de Lyon, cuja reflexão muito contribuiu para a Grande Loja.

A nova Loja adotou o nome "os discípulos de Hórus".

Seus membros escolheram colocar-se sob o vocábulo do filho de Ísis e Osíris (mais frequentemente representado por um falcão, mas também por um olho que chora, pois este filho dos grandes deuses egípcios, vindo à terra para trabalhar e ajudar os homens, guarda a nostalgia do céu) porque essa simbologia de Hórus lhes pareceu expressar o lugar do maçom entre a matéria e o espírito, a terra e o céu, simbolizado pelo esquadro (a matéria, a terra) e o compasso (o espírito, o céu). Isso significa que um dos principais cuidados aos quais se dedicarão "os discípulos de Hórus" será o aprofundamento na pesquisa simbólica iniciática.


Pareceu-nos desnecessário sobrecarregar estas páginas com comentários inevitavelmente muito curtos, dada a massa de informações veiculadas por esses poucos artigos.

O último texto acima, com dez anos de idade, vale mais do que um longo comentário e deveria abrir os olhos dos últimos leitores duvidosos, especialmente dos clérigos, a menos que já estejam eles mesmos "iluminados" há muito tempo.

P. R.

O JANSENISMO, DA HERESIA À TERCEIRA VIA

A crise atual na Igreja nos mostra três tendências em conflito: os progressistas, os tradicionalistas e, entre ambos, um vasto pântano cujos elementos diversos têm em comum a recusa em tomar partido, como se fosse possível não escolher entre a verdade e o erro...

Essa atitude surpreendente, pois fundamentalmente impossível, não é nova e frequentemente teve adeptos que regularmente serviram ao erro, alguns por duplicidade, outros de boa-fé, pensando evitar o pior exatamente pela atitude que o assegurava.

Quando tal posição se torna obra de membros dirigentes da Igreja, até mesmo de bispos, a Revolução está próxima de triunfar, pois a luta contra o erro se torna apenas uma confusão onde a maioria não consegue se orientar.

Esta situação confusa que vivemos intensamente em 1987 foi suportada muitas vezes na história da Igreja, especialmente neste período do século XVIII, que viu os assaltos decisivos contra a Igreja e contra a Sociedade civil se articularem. O caso jansenista é muito instrutivo a esse respeito: teve, em seus primórdios, uma aparência de reforma, de reajuste de pensamentos e ações, e muitos de seus membros sempre o viveram como tal, e acabou por se tornar uma das quatro ou cinco maiores maquinações que a Igreja teve que suportar em vinte séculos.

Propomos abaixo um excelente estudo publicado recentemente pela revista italiana "Sodalitium" (que agradecemos pela compreensão) - A tradução foi feita por nós.

Como se sabe, a Revolução Francesa foi o resultado de uma preparação ideológica profunda que, desde o Renascimento e o protestantismo, passando pelo deísmo e o iluminismo, chegou à impiedade completa, expressa com toda clareza nas realizações políticas e religiosas da insurreição republicana de 1792.

A HERESIA JANSENISTA, QUINTA COLUNA NA IGREJA:

Num primeiro exame, a luta do final do século XVIII pareceria circunscrever-se a limites muito nítidos: de um lado, a Igreja; do lado oposto, o conjunto de correntes e seitas que se proclamavam abertamente ímpias – protestantismo, filosofismo, iluminismo, etc. – que se poderiam chamar de contra-Igreja. Na realidade, o panorama era muito mais complexo. Todos os partidários da contra-Igreja não estavam situados nos clãs heterodoxos; na verdade, ela encontrara o meio de dispor seus elementos em grande número dentro das próprias fileiras católicas. Esses elementos não estavam isolados uns dos outros e não agiam separadamente. Constituíam toda uma rede de atividades executadas com pleno conhecimento, que visavam fazer, dentro da Igreja, o jogo de seus adversários; em suma, o que hoje se chamaria "uma quinta coluna".

O objetivo desta quinta coluna era minar a reação católica. Para tanto, tinha uma dupla missão. Em primeiro lugar, a de propagar, sob o pretexto de autêntico catolicismo, sistemas teológicos e morais errôneos, que levariam os fiéis a tendências ímpias e os afastariam dos ensinamentos de Roma. Em segundo lugar, a de se introduzir, na medida do possível, em cargos-chave: cátedras universitárias, direção espiritual de seminários e comunidades religiosas, tronos e governantes, paróquias importantes e, acima de tudo, as sedes episcopais. Foi assim que a heresia buscava infiltrar-se o mais profundamente possível no seio da própria Igreja e das monarquias cristãs, obtendo o resultado de desorientar e perder os fiéis, ensinando-lhes, quase com a autoridade da própria Igreja, os erros que esta condenava.

Tal foi o Jansenismo, nefasta heresia que, por meio de cínicos subterfúgios, zombava das diversas condenações lançadas contra ela pelo Magistério infalível, e sempre buscou manter-se no seio do Catolicismo para corromper suas fontes vitais.

NATUREZA DO JANSENISMO

A obediência e a docilidade ao Santo Padre, a fidelidade à Escolástica — essa admirável síntese da filosofia e da Revelação —, o fervor dos fiéis, a assiduidade à confissão e à mesa eucarística, a devoção à Virgem, asseguram na Igreja a conservação daquela energia que a torna a pedra viva contra a qual se quebram as armas do inferno.

Os jansenistas, inimigos da Igreja, tentam permanecer aparentemente em seu seio para acabar com tudo isso. Seu rigorismo farisaico afasta os fiéis dos sacramentos. A crítica sofista à qual submetiam as decisões pontificais deu origem ao "opinionismo", ao "liberalismo católico", à liberdade para cada um pensar o que quer, já que se trata apenas de opiniões que podem ser verdadeiras ou falsas; a exaltação da Patrística e da Igreja primitiva, abalando a confiança na escolástica — teologia mais clara, mais precisa, mais definida — deu origem às incertezas da inteligência a trabalhar em um campo ainda nebuloso, e confirma profundamente os espíritos na convicção de que se trata sempre de opiniões igualmente respeitáveis.

Tais são os objetivos do jansenismo, conforme se pode deduzir de sua história. Na realidade, apresentava-se como defensor da teologia de Santo Agostinho, interpretada num sentido protestantizado, como se o Doutor da Graça tivesse admitido a dupla predestinação como fruto necessário da graça divina ou de sua ausência. De fato, para os jansenistas, existem preceitos divinos para cujo cumprimento faltam ao homem as energias necessárias; e se ele recebe essas energias, ou seja, a graça de Deus, então não é mais livre para praticar as boas obras: o auxílio divino move necessariamente sua vontade.

A QUINTA COLUNA JANSENISTA DESMASCARADA

Compreende-se facilmente que esta seita herética teria realizado seu empreendimento infernal se tivesse conseguido permanecer completamente oculta no interior dos meios católicos. Mas não foi assim. Vigorosamente combatida por teólogos e polemistas de valor, foi forçada a se defender. E ao se impor à luz do dia, colocou em evidência não apenas suas garras, mas todos os seus músculos. Seu objetivo essencial foi, portanto, assim, ao menos em parte, fracassado. Roma, posta em guarda, condenara o sistema. Os fiéis estavam, portanto, prevenidos. Os jansenistas, que se diziam católicos, já não podiam mais agir nas sombras, como uma quinta coluna.

Restava-lhes, manifestando a aparência do catolicismo, edificar uma espécie de "igreja dentro da Igreja", reunindo os espíritos mais orgulhosos, mais temerários, mais dissipados, para combater sem trégua os filhos da luz numa guerrilha incessante de argúcias e sofismas contra os católicos autênticos. Desse modo, era mais fácil tramar a conspiração dos filhos das trevas fora do campo da Igreja.

A TERCEIRA FORÇA: ENTRE JANSENISTAS E ORTODOXOS

Na revista Annales — atualmente, sabe-se, um dos melhores órgãos especializados em história —, Emile Appolis publica um artigo de valor e de grande interesse no qual, reunindo fatos já conhecidos e novos documentos por ele mesmo coletados, consegue demonstrar, com impressionante clareza, que o jansenismo, descoberto, condenado, perseguido, mas sempre enraizado nos meios católicos, gerou por sua vez uma espécie de terceira força — um terceiro partido, diz Appolis — constituído de eclesiásticos de diversos escalões, que assumiram a tarefa muito delicada de fornecer aos jansenistas condições de existência aceitáveis no seio da Igreja, apesar das pressões contrárias. Em primeiro lugar, esses eclesiásticos não se declaravam jansenistas. Ao contrário, como regra geral, suas maneiras de agir davam a impressão de que estavam de acordo com Roma. Contudo, na realidade, não combatiam o jansenismo; sustentavam a tese de que este desapareceria tranquilamente se os antijansenistas cessassem toda campanha contra ele e se a Santa Sé se abstivesse de toda medida de rigor de caráter pessoal.

Esta posição, do ponto de vista doutrinal, não era a dos jansenistas, nem a dos antijansenistas militantes; era favoravelmente recebida por numerosos espíritos eminentes, desejosos de empregar toda sua influência para enfraquecer a luta contra a heresia.

A partir do momento em que essa tática insidiosa triunfa, três atitudes se manifestam nas fileiras católicas: a dos jansenistas em luta aberta contra os partidários de Roma; a da terceira força, também ela oposta aos partidários de Roma, a quem acusava de exagero, de intransigência, de fomentar oposições, de serem inimigos da caridade; finalmente, a dos partidários de Roma, isolados, incompreendidos, desencorajados porque contra eles se voltavam não apenas os jansenistas, mas também numerosas personagens ilustres pelos cargos que assumiam, dignas por sua piedade e pela austeridade de sua vida, alistadas na terceira força.

O grande mérito do estudo de Appolis é pôr em relevo o fato de que os homens da terceira força, sob o pretexto de neutralidade, eram agentes dedicados da causa jansenista e prestavam à seita os mais preciosos serviços.

Esse ponto importante da história eclesiástica recebe assim uma nova luz. Nossa revista, em cujo programa se insere o estímulo ao interesse pela história da Igreja, oferece a seus leitores as principais passagens do estudo de Emile Appolis... Será inútil recordar às pessoas instruídas que a grande interferência, então em uso, do poder temporal na nomeação dos bispos prejudicava gravemente a liberdade de movimento da Santa Sé, bem como a escolha de Pastores autenticamente imbuídos do espírito de fidelidade integral a Roma.

Appolis tem como objeto de estudo a França do século XVIII. O Jansenismo, enquanto seita, estava em sua fase final de existência (posteriormente, ele sobrevive a si mesmo no espírito liberal que ainda hoje infecta muitas mentalidades de movimentos católicos). Naquela época, seu grande líder era Pasquier Quesnel, cuja obra "Reflexões Morais sobre o Novo Testamento" foi, após muitas vicissitudes, fulminada pela bula UNIGENITUS de Clemente XI, datada de 8 de setembro de 1713. Mas o jansenismo, graças à negligência do poder secular, já havia fortalecido suas raízes na França. Assim, embora registrada pelo parlamento e acolhida pela Assembleia do clero, esta bula papal não obteve a obediência pacífica de todo o país; diante dela, os bispos franceses se dividiram em três grupos: uma parte acolheu plenamente a palavra de Roma e aplicou com ardor as disposições da bula; Appolis os chama de "Constitucionais", em virtude de sua perfeita adesão à constituição apostólica. Outra parte, soberbamente jansenista, recusou-se a submeter-se à decisão da Santa Sé e apelou ao futuro concílio geral: são os "apelantes" que, em 1717, eram quatro, depois chegaram a vinte. Uma terceira parte escolheu uma posição intermediária, subscreveu a bula, mas nada fez para aplicá-la: são aqueles que Appolis nomeia como a terceira força.

O PRINCÍPIO DA TERCEIRA FORÇA: SALVAR A UNIDADE

A razão invocada por este último grupo de prelados é a manutenção da paz entre os fiéis e da caridade para com todos. Assim, eles não tomam partido e não se preocupam em saber se há jansenistas em sua diocese. Tal foi Monsenhor Pierre Clément, bispo de Périgueux, que, em sua morte, mereceu este elogio: "Monsenhor o bispo havia, até sua morte, contribuído para nossa paz; ninguém havia tomado partido (a favor ou contra a bula) e absolutamente nada nos foi exigido".

Idêntica foi a atitude de vários outros prelados: do sucessor de Monsenhor Clément em Périgueux; de Monsenhor Denis-Alexandre Le Blanc, da diocese de Sarlat; de Monsenhor Louis-Charles des Alrys de Rousset, que durante quarenta anos conservou em sua diocese uma calma inexistente nos bispados vizinhos; de Monsenhor J.A. Phélypeaux, bispo de Lodève, absolutamente indiferente às bulas e às declarações reais. Quando uma destas últimas, em junho de 1722, impôs a aceitação das fórmulas antijansenistas por todos aqueles que recebessem as ordens sacras ou benefícios eclesiásticos, Monsenhor Phélypeaux não hesitou em conferir ordens a vários de seus subordinados que haviam recusado subscrever o formulário, assim como em conceder prebendas eclesiásticas sem exigir dessas pessoas que cumprissem essa formalidade preliminar.

Mas não são esses indivíduos que constituem a terceira força propriamente dita. Por sua falta de zelo e uma coloração de espírito cético, eles constituem um grupo pouco digno dos cargos que ocupam. Os homens da terceira parte têm uma atitude análoga, mas não são movidos pela negligência, e sim por uma questão de doutrina, pelo princípio de que a paz é um valor supremo e que é, portanto, desejável conservá-la a todo custo, mesmo quando, agindo assim, se enfraquecem as forças dos defensores da verdade e se abre a porta aos propagadores do erro.

Mantendo entre si relações muito cordiais, diz Appolis, eles formam um autêntico partido intermediário entre os "apelantes" e seus adversários. Sem recorrer a um futuro concílio e sempre afirmando sua submissão à bula de Clemente XI, esses prelados recusam, apesar de tudo, alinhar-se com os "constitucionais", integralmente dóceis a Roma. Como os jansenistas, também eles esperam o fim das discussões por "amor à paz" e "ódio ao cisma". Eles não querem considerar os "apelantes" como suspeitos de heresia, desde que estes queiram condenar as cinco proposições do jansenismo e sustentar a doutrina de Santo Agostinho sobre a graça, teses pelas quais também professam grande veneração. Dessa forma, esses bispos querem simplesmente enterrar o problema. "Os partidários deste terceiro partido – conclui Appolis – aspiram, portanto, a restaurar a unidade da Igreja, não pela retratação dos jansenistas, mas pela instauração de uma tolerância da qual estes últimos seriam os beneficiários."

Com esse objetivo, em sua carta pastoral de 8 de fevereiro de 1715, Monsenhor Honoré de Quiqueran de Beaujeu, bispo de Castres, após fazer uma declaração de deferência à Santa Sé e após falar em termos emocionantes "do respeito da submissão que devemos a 'Cefas'", declara que pretende conservar uma posição equilibrada entre os dois grupos adversos: "Prelados respeitáveis por seu saber e por sua piedade consideraram dever apelar ao futuro concílio... Outros prelados, para os quais somos obrigados a igual respeito, condenaram este apelo e o declararam cismático". Por amor à paz, Monsenhor de Beaujeu se mantém fora das discussões e dá a seus diocesanos ordens de acordo com esse fim. Em sua diocese, ele deseja apenas a paz e a caridade: "... deixemos a outros o cuidado de esclarecer e defender a verdade obscurecida ou abalada pelas discussões que lesam a caridade, na qual somente queremos permanecer firmes e a vós firmar Conosco".

Sua caridade é particularmente transbordante para com os "apelantes". "É para nós um grande peso ver nossos irmãos – e que irmãos, ó Deus! – é para nós um grande peso vê-los acusados de rebelião, é-nos duro vê-los tratados de cismáticos e sabemos que abominam o cisma como o maior dos delitos. É-nos duro vê-los acusados de 'heresia', pois sabemos que condenam as cinco proposições de Jansênio e sustentam sobre a questão da graça, nem mais nem menos, a doutrina de Santo Tomás e de Santo Agostinho..."

Não é, portanto, surpreendente que os bispos "apelantes" mantenham relações de grande cordialidade com os homens do partido intermediário.

O CARDEAL FLEURY APOIA A TERCEIRA FORÇA

Quando o Cardeal Fleury foi chamado a exercer o cargo de ministro de Luís XV (1726) e teve a responsabilidade de prover os benefícios eclesiásticos, ele se alegrou com a existência do terceiro partido. Nele, o ministro via os homens da paz, que evitariam toda perturbação no reino. Assim, embora desejasse a submissão a Roma, considerava mais urgente preservar a tranquilidade pública. Essa preocupação orientou toda a política eclesiástica do Cardeal Fleury. Os "constitucionais" não lhe agradavam. Ele também não apoiava abertamente os "apelantes". Suas preferências iam para os da terceira força, embora reconhecesse neles simpatias e tendências jansenistas. O Cardeal Fleury recrutou os candidatos ao episcopado nas fileiras da terceira força e, com a prudência necessária, substituiu gradualmente, no governo das dioceses, os "constitucionais" por elementos do grupo intermediário. Em Carcassonne, no posto de Monsenhor L.-J. de Châteauneuf de Rochebonne, que havia confiado seu seminário aos Jesuítas, o Cardeal Fleury colocou Monsenhor Bazin de Bezons; em Châlons-sur-Marne, a Monsenhor Tavannes, que havia proibido as ursulinas jansenistas de receber os sacramentos, sucede Monsenhor Choiseul-Beaupré; em Mirepoix, Monsenhor Ch.-Jo. de Quinqueran de Beaujeu, sobrinho do outro Quinqueran de Beaujeu, então considerado criptojansenista, substitui o teatino Monsenhor Boyes, ardente "constitucional" chamado a tornar-se preceptor do Delfim; em Soissons, Monsenhor Fitz-James é o segundo sucessor de Monsenhor Languet de Gergy, outro partidário ardente da Unigenitus.

Para avaliar o grau de ortodoxia desses elementos – eles não foram os únicos, estes são apenas alguns exemplos – basta lembrar que o Cardeal de Fleury teve que vencer escrúpulos (de consciência) no caso de algumas dessas nomeações, como a de Monsenhor Souillac, bispo de Lodève, por exemplo, sobre quem pesavam suspeitas, não sem fundamento, de heresia.

É muito possível que esses rumores negativos sobre a ortodoxia dos partidários da paz a qualquer preço tenham sido uma das razões que lhes exigiu o apoio do Cardeal ministro. O Cardeal Fleury estava certo de que, em qualquer eventualidade, eles recorreriam a ele, o que lhe daria praticamente a direção de toda a Igreja da França. Assim foi. Quando o Jansenismo desviou para fatos milagrosos, ou mirabolantes, transes, curas, etc., todos esses bispos sufocaram os fatos, evitando qualquer rumor e seguindo docilmente as instruções de calma absoluta do Cardeal.

A terceira força teve um movimento de pânico quando, com a morte do Cardeal Fleury (1743), ele foi substituído pelo próprio Monsenhor Boyes, afastado de Mirepoix por suas ideias ardentemente favoráveis à bula Unigenitus. Se Monsenhor Boyes não tivesse morrido em 1755, em pouco tempo a Igreja da França teria sido libertada dos "apelantes" e dos intermediários, com um episcopado inteiramente dócil às instruções de Roma. Infelizmente, seus dois sucessores, primeiro o Cardeal de la Rochefoucauld, morto em 1757, depois Monsenhor Jarente de la Bruyère, bispo de Orléans, retomaram a política de Fleury e carregam a responsabilidade pela nomeação de numerosos prelados da terceira força.

AS VIRTUDES DOS CRIPTOJANSENISTAS

Quão útil este partido intermediário foi para a causa jansenista é evidente para quem considera as possibilidades excepcionais de que dispunham os prelados que a ele aderiam para difundir uma mentalidade de inação diante do erro e da heresia, possibilidades reforçadas pelo modo de vida de seus bispos, de aparência austera, zelosos e piedosos, o que os tornava ainda mais recomendáveis.

Na verdade, todos apresentam características mais ou menos comuns. Se nem todos são oratorianos (a congregação do Oratório, do Cardeal de Bérulle, foi um grande baluarte do jansenismo), quase todos estudaram em institutos confiados aos Oratorianos. Alguns são ex-alunos dos Doutrinários.

Essas origens, que poderiam torná-los suspeitos, eram contrabalançadas por outras qualidades capazes de influenciar poderosamente o espírito do povo. Em geral, eles tinham uma concepção elevada de seus deveres como bispos. Observadores escrupulosos da lei de residência, assíduos e incansáveis em suas visitas pastorais, nunca negligenciavam instruir o povo por meio de sermões e catequese. Monsenhor Souillac, em 20 de novembro de 1735, permaneceu duas horas e quinze minutos no púlpito para encerrar a missão de Lodève.

Outro aspecto capaz de fortalecer a veneração do povo consiste nas práticas de caridade. Monsenhor La Châtre, Monsenhor Souillac, Monsenhor Beauteville e Monsenhor Bazin de Bezons instituíram os hospitais de suas respectivas sedes episcopais como herdeiros de seus bens.

Em matéria de dinheiro, mostraram-se absolutamente desinteressados. Renunciam a outros benefícios para se contentar exclusivamente com as receitas de sua própria cúria. Severos consigo mesmos, também o são com o povo. Appolis os acusa de serem rigoristas. O capítulo da catedral de Alès, anunciando aos fiéis a morte de Monsenhor de Beauteville, destaca que "ele tinha uma opinião muito severa sobre os deveres dos homens para com Deus e pensava que o caminho do céu era estreito e difícil." Monsenhor Souillac, durante seus primeiros quatro anos de episcopado, recusou-se a conferir as ordens sacras por medo de errar na escolha dos candidatos. Monsenhor Bazin de Bézons preparava-se para as ordenações com jejuns, mortificações e orações contínuas. Esse mesmo prelado é o terror de seu clero pela excessiva rigidez em suas visitas pastorais. Nos bispos da corrente intermediária, essa severidade é geral. Eles também se levantam contra os desregramentos de Luís XV, até mesmo nas publicações destinadas à divulgação, como as instruções pastorais.

Coberto pela inércia dos bispos da terceira força, não é surpreendente que o surto do jansenismo tenha sido enorme. Em meados do século XVIII, as condições eram tais que Luís XV concluiu com Bento XIV, não a revogação da bula Unigenitus, como querem alguns, mas uma atenuação do rigor na aplicação das penas que ela havia estabelecido.

A TÁTICA DA TERCEIRA FORÇA PARA FAVORECER A HERESIA

É necessário salientar que os prelados do terceiro partido não apoiavam o jansenismo apenas por sua atitude pacifista, não fazendo nada que fosse no sentido de reprimir a seita ou de seguir as medidas impostas pela Santa Sé e pelas ordens do Rei; eles eram soldados preciosos da heresia por todo o seu modo de ação.

Eles não aceitavam os erros do jansenismo, condenavam as cinco proposições, aceitavam a bula Unigenitus, mas apoiavam tudo o que manifestava simpatia pela seita e propagava seu espírito.

Um dos princípios táticos do jansenismo consistia no exagero do espírito paroquial: Missa e sacramento unicamente na igreja matriz. O conciliábulo de Pistóia deu forte ênfase a essa tendência jansenista, que se concretizaria no futuro por uma autêntica campanha contra as igrejas das Ordens e Congregações. Consequentemente, todos esses bispos são "paroquialistas" em excesso. Monsenhor Bazin de Bezons e Monsenhor Tourouvre perseguem os fiéis que, no domingo, não assistem à Missa na igreja paroquial. Monsenhor Tourouvre, desde sua primeira visita pastoral, fecha uma capela e proíbe a celebração do Santo Sacrifício em várias outras. Monsenhor Souillac excomunga os fiéis que não assistem à Missa na igreja paroquial por três domingos consecutivos. Monsenhor Bazin de Bezons, por um ato de 3 de dezembro de 1753, condena um professor de teologia – jesuíta – porque ensinava que a Missa na paróquia não é nem preceito nem obrigação. Monsenhor Tourouvre só admite neoconversos ao casamento sob a condição de terem provado catolicidade assistindo assiduamente, durante um mês, à Missa, às instruções e aos outros ofícios paroquiais.

Outra característica do jansenismo era sua luta feroz contra os Jesuítas. Nessa ofensiva, os homens da terceira força são seus aliados. Vimos como se comportou Monsenhor Bazin de Bezons com o Jesuíta, professor de seu Seminário. Ao mesmo tempo que ele, os bispos Fitz-James, Rastignac e Souillac entram em luta contra o livro do jesuíta Pichon, que defende a comunhão frequente. Fitz-James e Montazet levantam-se por escrito contra a "História do Povo de Deus" do Jesuíta Berruyer. Essa fobia em relação aos Padres da Companhia de Jesus lhes vale, por parte da Corte, condenações análogas às que haviam sido dirigidas contra os "apelantes". Na parte que dedica ao espírito jansenista, Appolis observa que os prelados da terceira força adotam publicamente, nas liturgias diocesanas, os princípios característicos da seita.

Mas, sobretudo, no ensino do catecismo, vê-se claramente que esses bispos eram favoráveis à heresia. Nenhuma arma é tão eficaz para a difusão do erro quanto esses pequenos livros colocados nas mãos ingênuas das crianças. Nos catecismos das dioceses dirigidas por adeptos da terceira força, encontramos, mais diluído e, portanto, mais perigoso, o vírus jansenista. Souillac adota em sua diocese o catecismo do jansenista Colbert. Mas, enquanto este destaca o mistério da dupla predestinação, sustentado pelos hereges, Souillac o insinua no final de uma frase. Colbert diz:

"- Deus dá as mesmas graças a todos os homens?

Souillac suprime a segunda resposta, na qual o pensamento jansenista aparece claramente. No entanto, ele apenas a desloca, insinuando-a no final da resposta à pergunta anterior, que está redigida da seguinte forma:

"- Não. Deus dá mais graças aos cristãos do que aos outros homens; e entre os cristãos, alguns recebem mais graças do que outros, por efeito de sua misericórdia e de sua justiça."

Não é de surpreender, portanto, que os "apelantes" tenham expressado os mais vivos elogios aos estudos realizados no mesmo sentido por Souillac e Rastignac: Conferências de Lodève e instruções pastorais sobre a justiça cristã.

"Não há nenhum apelante", diz o jansenista Fourquevaux, "que não reconheça nesses escritos sua forma de pensar."

O AUTÊNTICO PENSAMENTO DOS CRIPTO-JANSENISTAS

A sinceridade desses prelados da terceira força na aceitação da bula Unigenitus também pode ser posta em dúvida.

É certo que todos a acolheram e a fizeram aceitar por seu clero e pelo povo. Houve, inclusive, entre eles alguns que, para isso, usaram de meios violentos. Contentaram-se, no entanto, com a assinatura do documento. Não foram além. Tratava-se de uma obediência "pura e simplesmente formal".

O espírito e a sinceridade dessa obediência transparecem em mais de um escrito. Dom Souillac, em seu testamento, explica a razão pela qual aceitou a bula Unigenitus:

"Aceitei sinceramente a bula, desde que me pareceu ser geralmente promulgada e aceita pelo corpo episcopal unido ao Papa, chefe visível da Igreja e primeiro vigário de Jesus Cristo." 

Nessas palavras, insinua-se que o exercício do pontificado supremo está submetido à aceitação dos bispos, exatamente como pensavam os "apelantes".

Mais explícito, Dom Beauteville – que durante toda a sua vida nunca se levantou contra a bula – tira a máscara e confia ao seu testamento esta afirmação textual:

"Estou muito longe de considerar a constituição 'Unigenitus', publicada sob o nome do papa Clemente XI, como uma decisão da Igreja. Declaro, ao contrário, aderir de todo o coração ao apelo ao futuro concílio, interposto pelos bispos de Mirepoix, de Senez, de Montpellier e de Boulogne..."

Explicando por que, pessoal e formalmente, não havia feito publicamente apelo ao concílio, ele diz:

"Considerei a lei do silêncio como uma reprovação autêntica e legal da constituição Unigenitus, que retira desta o caráter de julgamento da Igreja, suspende os efeitos que em vão se tentou dar-lhes e torna, por conseguinte, inútil, ou pelo menos não necessária e indispensável, uma apelação que, de outra forma, teria sido de rigor e dever absoluto, como quando foi levantada, no momento em que se impunha a execução da bula".

Ele termina esclarecendo seu pensamento de que, durante todo o tempo em que permaneceu em função, fez observar religiosamente a lei do silêncio sobre a Unigenitus.

Isso pode ser considerado um caso limite. Em geral, os partidários da posição intermediária deixavam transparecer sua maneira de considerar a obediência devida ao Papa, através da negligência na aplicação das ordens, tanto reais quanto pontifícias.

Dom Montazet não se preocupa em exigir dos candidatos à ordenação que subscrevam o formulário antijansenista de Alexandre VII e ordena padre François Jacquemont, que mais tarde seria o famoso cura jansenista de Saint-Médard, no Forez. Outros têm o mesmo comportamento que ele. Dom Souillac, por exemplo, usa de diversos artifícios: umas vezes cala-se a respeito do formulário; outras, afirma que o candidato já subscreveu; outras, declara que o fará mais tarde. Assim, confere a jansenistas benefícios vacantes. Em suma, esses bispos praticam, para fazer o mal, essas sutilezas que a seita imputa aos jesuítas, que têm o bem em vista.

As suspeitas sobre a lealdade desses prelados para com Roma nascem, além disso, das explicações reiteradas que se sentem obrigados a fornecer. Dom Souillac declara ao Cardeal Fleury: "Não recebi uma alma tão vil para representar o papel de que querem me fazer suspeitar." Fitz-James escreve a Bento XIV: "Nunca, graças a Deus, dissimulei minha maneira de pensar, e ouso dizer que nunca tive na sociedade a reputação de um homem dissimulado." Numa carta ao mesmo pontífice, repete a velha lamentação jansenista, a saber, que a Santa Sé está mal informada: "Todos os que conhecem este país e julgam as coisas sem paixão estão absolutamente persuadidos de que não há heresia nem hereges." Em consequência, dá uma interpretação tendenciosa da bula Unigenitus: sob pretexto de que esta não comportava pena, com a maior leviandade admite os jansenistas à recepção dos sacramentos. Como se o documento pontifício tivesse condenado alguém, mas entre outro povo e em outros países.

Em 1755, na Assembleia do clero, a terceira força aparece ao lado daqueles que julgam leve a desobediência dos jansenistas, e em 1765, quatro bispos desse partido, os Srs. Montazet, Bezin de Bezons, Beauteville e Noé recusam sua adesão aos atos da assembleia do clero que declaram os jansenistas indignos de receber os sacramentos.

OS GRANDES RESPONSÁVEIS PELA DIFUSÃO DO JANSENISMO

Todos esses fatos justificam a conclusão de Appolis:

"(...) devido à sua (dos bispos do terceiro partido) tolerante simpatia pelos adversários da bula, um grande número desses prelados tem uma considerável parcela de responsabilidade no desenvolvimento do jansenismo dentro de suas dioceses. Para nos limitarmos a alguns exemplos, a diocese de Lyon teria contado, por ocasião da morte de Monsenhor Montazet, sessenta padres "apelantes". O próprio vigário-geral de Monsenhor Bazin de Bezons, o jansenista Guillaume Besaucèle, será tão popular entre os inimigos da Igreja que será eleito, na época da revolução, bispo constitucional do Aude. Com esse terceiro partido, muito mais do que com os jansenistas propriamente ditos, é preciso aproximar, no final do Antigo Regime, os reformadores do concílio de Pistoia - pelo menos em sua grande maioria; a esse mesmo partido pertencerá também o Padre Grégoire, o famoso bispo revolucionário que nunca se levantará contra a bula e o formulário, apesar de sua reputação de port-royalista."

Como observou bem o autor jansenista Grazier, 'ele será jansenista apenas à maneira de Rastignac, de Fitz-James, de Montazet.'"

RETIFICAÇÃO NECESSÁRIA

Por seu estudo, Appolis contribuiu muito para esclarecer a situação religiosa da França no século XVIII.

No entanto, em seu estudo, uma passagem nos parece exigir uma explicação de nossa parte. Appolis, ao querer demonstrar, à luz dos documentos, a evolução da questão jansenista após a bula UNIGENITUS, evolução num sentido liberal para uma tolerância sempre maior em relação ao erro, sustenta que os próprios papas Bento XIII e Bento XIV teriam se deixado levar pela corrente intermediária.

Eles teriam sido, eles próprios, ilustres representantes da terceira força.

Ora, embora ambos tenham sido homens inclinados às concessões, embora em graus diferentes, nem um nem outro chegou ao ponto de transigir com a heresia, como dá a entender, sem contudo afirmar, Appolis em seu estudo (1).

Bento XIII, fervoroso dominicano (mesmo tendo se tornado Papa, beijava as mãos do geral de sua Ordem), sustentou, sem dúvida alguma, a posição teológica dos dominicanos. Não, no entanto, em detrimento das outras doutrinas com iguais direitos de cidadania na Santa Igreja. O breve DEMISSAS PRECES de 6 de novembro de 1724, solicitado pelo Geral dos Dominicanos, ao qual é endereçado, contém uma exortação para não dar importância, por magnanimidade, às calúnias dirigidas contra suas opiniões doutrinais, especialmente a respeito da graça eficaz por si mesma, e da predestinação anterior à previsão dos méritos.

Contudo, ele não declara nem que a posição de Molina deva ser condenada, nem que os autores das calúnias contra os Dominicanos sejam os molinistas. O breve deixa entrever suficientemente que os caluniadores da Ordem aos quais se refere são os jansenistas. Não se pode, portanto, apelar para este breve como implicando uma condenação dos molinistas.

Quanto ao elogio da doutrina de Santo Agostinho e São Tomás sobre a graça, é oportuno notar que o Papa distinguia bem a doutrina tradicional da Igreja que, desde Bonifácio II, vê em Santo Agostinho o Doutor da graça, e as deformações do Augustinus do Jansenismo que os "Port-Royalistas" faziam passar pela doutrina do Santo Bispo de Hipona. Talvez seja também essa a razão pela qual o breve de Bento XIII contém um elogio da bula UNIGENITUS, que ele qualifica como uma sentença extremamente salutar e sábia de Clemente XI.

Bento XIV, também, acolhe, como medida disciplinar, as exigências da Corte da França, de suavizar a aplicação das penas incorridas por aqueles que desobedeciam à bula UNIGENITUS. Por importantes que tenham sido, no entanto, as concessões do Papa, elas não cederam às instâncias do Rei, a ponto de proclamar que a bula UNIGENITUS não deveria ser considerada como "regra de fé". E, de fato, na circular endereçada pelo Papa à Assembleia do Clero, mesmo que não se encontre a expressão "regra de fé", a mesma ideia é apresentada em outros termos. Diz-se ali que a autoridade da dita bula é tão grande, que exige um respeito, uma aceitação e uma obediência de uma sinceridade tal que nenhum fiel pode lhe negar uma submissão obrigatória e se opor a ela, de qualquer maneira que seja, sem perigo para sua salvação eterna. Segue-se a punição contra as pessoas notoriamente desobedientes à bula UNIGENITUS.

Luís XV não concluiu nada mais com Bento XIV. É verdade que no próprio decreto real, sobre a circular de Bento XIV, o Rei, motu proprio, declarava que a bula UNIGENITUS não era "regra de fé". Isso foi feito, no entanto, sem o consentimento do Papa, e contra sua intenção, como se pode concluir das negociações entre a Corte da França e a Corte Pontifícia. Não se pode, portanto, deduzir que o Papa pretendesse sustentar a terceira força, ou mesmo a heresia, uma vez que Appolis demonstra muito bem que a terceira força era cripto-jansenista.

E se alguém observasse que o Pontífice se calou após um comportamento tão desleal do monarca, é necessário lembrar que Bento XIV estava doente, e que provavelmente não foi informado da maneira pouco régia com que Luís XV havia agido. Também é possível que ele tenha julgado melhor não reavivar toda uma questão que ele só poderia ter conduzido muito dificilmente até seu termo, no estado extremo em que se encontrava.

FRACASSO DA CONCILIAÇÃO A TODO CUSTO

Essas observações demonstram quão nefastas são as consequências de uma política de "paz de pântano". A paz só é real quando é alimentada pela seiva da verdade. No caso contrário, é uma fina camada de verniz sob a qual a divisão das inteligências alimenta e reaviva convulsões por vezes vulcânicas. Para manter a paz na França, Fleury evitou o máximo possível o triunfo da verdade sobre o erro, por uma política de pseudo-equilíbrio entre uma e outra. Pouco mais de vinte anos depois, a situação era tal que não pareceu mais possível ao Rei e ao Papa aplicar pura e simplesmente os ensinamentos pontifícios. De fato, havia nascido o liberalismo em matéria de religião. Fleury havia alimentado no seio da França a víbora que deveria envenená-la em 1789.

A. C. M.


(1) "Parece que ele prossegue de bom grado a política de concessões que Bento XIII, ao que parece, havia antes suportado." (Histoire Générale de l'Eglise, Ancien Régime. Paris 1920, pp. 127-128).

O NEOPLATONISMO E A REAÇÃO ANTICRISTÃ DOS PRIMEIROS SÉCULOS

DA DOUTRINA DE PLATÃO AO Vº SÉCULO ANTES DE JESUS-CRISTO...

É difícil expor metodicamente o pensamento de Platão, disperso numa infinidade de diálogos socráticos. Vamos, no entanto, resumir o essencial de seu ensinamento.

Platão estabelece, no princípio, dois mundos antinômicos, o mundo das Ideias, incriadas, eternas, e o mundo da Matéria. Esta última é informe, indeterminada e ininteligível; ela é apenas o receptáculo de todas as formas possíveis, capaz de recebê-las, mas não de as dar a si mesma. Diz-se, contudo, que é eterna, ingerável, incriada; ela carrega, portanto, em si mesma um caráter divino, como as ideias.

A questão é então saber qual é o deus de Platão. A resposta é obscura e indecisa. A palavra "Deus" (ό θεός) nele designa ordinariamente o Demiurgo, um "obreiro divino", um arquiteto construtor (δημιουργός, obreiro), gênio mediador, encarregado de estabelecer a ordem e a harmonia num caos primitivo. Não há, portanto, em Platão a menor ideia de criação: eis uma noção totalmente estranha ao seu pensamento.

O homem é duplo e pertence aos dois mundos. Essa dualidade é o efeito de uma queda, é uma expiação. A alma provém do mundo das Ideias, portanto preexistia ao nascimento do homem neste mundo de matéria e lhe sobreviverá após a morte do corpo. É inclusive essa preexistência das almas antes do nascimento que é usada como o principal argumento da imortalidade da alma no "Fédon". A alma está encarcerada num corpo, entre os corpos, e a lembrança das ideias se obscureceu nela.

A alma comporta três partes:

O filósofo cuida de sua alma. Desprendendo-se do corpo tanto quanto pode, passa a vida a desligar a alma, isto é, a morrer. O corpo é um entrave para a inteligência. Ele a atrapalha na busca da verdade. Suas sensações a enganam e perturbam seus raciocínios. Quanto mais ela está desprendida dele, mais ela é ela mesma, melhor raciocina. Quem, portanto, alcançará a verdade, senão aquele que estiver livre de seu corpo? Assim, enquanto estivermos enredados num corpo, só poderemos possuir imperfeitamente a verdade, objeto de nosso amor.

O conhecimento não vem do sensível. É apenas por ocasião da percepção sensível que a alma empreende a busca da verdade, retornando a si mesma. A percepção das aparências sensíveis é para ela uma ocasião de reencontrar em si, à maneira de uma lembrança esquecida e como uma reminiscência, o conhecimento inteligível do mundo das Essências ou Ideias. As percepções são o estímulo e não a origem da Ciência. A dialética ascendente, longe de ser um movimento pelo qual o pensamento sairia da alma para ir buscar o ser, é, ao contrário, o movimento pelo qual o pensamento retorna à alma para nela reencontrar a ciência do ser, que a alma traz em si inata.

O mestre não ensina nada a seu discípulo. Ele se contenta em despertar nele o conhecimento que ele carrega em sua alma, mas como que velado, obscurecido, enegrecido pelo corpo. O mestre é um parteiro da verdade. Assim como o parteiro faz sair a criança do seio de sua mãe, assim o mestre faz sair a verdade do seio da alma. É toda a "maiêutica" de Sócrates.

Por fim, Platão, em "O Banquete", concebe o Amor unicamente como um desejo, um apetite do Bem, para si, uma démarche para adquirir ou aperfeiçoar aquilo que, em nossa alma, é deficiente em consequência de nossa queda neste mundo de matéria, um esforço para reconquistar a Beleza perfeita do mundo das Ideias. É um Amor captativo, voltado sobre si mesmo, que ignora a doação aos outros. Chama-se amor platônico.

Sempre que o platonismo irrompe em nossa civilização cristã, vê-se surgir esse Amor (ἔρως) que recusa a construção de um lar estabilizado pelo casamento, que recusa os filhos e, portanto, a Vida, um amor estéril, que se devora a si mesmo, aparentado à morte. É o mito de Isolda, é o amor cortês dos trovadores, é o amor platonizante dos humanistas, é, enfim, o amor romântico, essa doença da alma que Denis de Rougemont tão bem expôs em sua obra "O Amor e o Ocidente" e que envenenou toda a nossa literatura.

... A UMA LEITURA GNÓSTICA DO PLATONISMO NO SÉCULO II DEPOIS DE JESUS CRISTO

Por volta do século II depois de Jesus Cristo, surgiu uma nova escola filosófica, a dos neoplatônicos. A partir do ensinamento de Platão, PLOTINO, PORFÍRIO, JÂMBLICO, PROCLO, HIEROCLES e seus amigos reconstruíram um platonismo no qual introduziram os mitos de Orfeu e de Pitágoras. Com essa amalgama erudita, apresentaram Platão como o discípulo iniciado nos mistérios órficos e na seita pitagórica. "O que Orfeu promulgou por obscuras alegorias, diz Proclo, Pitágoras ensinou após ter sido iniciado nos mistérios órficos, e Platão teve pleno conhecimento disso pelos escritos órficos e pitagóricos."

Nada mais fácil! Bastava encontrar em Platão as diferentes partes da doutrina esotérica dos mistérios e descobrir as fontes onde ele bebeu. A doutrina das "Ideias arquétipas das Coisas" exposta no "Fedro" é aproximada da doutrina dos "Números sagrados" de Pitágoras. O "Timeu" dá uma exposição bastante confusa e muito emaranhada de uma cosmogonia; a doutrina da alma, de suas migrações e de sua evolução atravessa toda a obra de Platão, mas principalmente "O Banquete" e o "Fédon". Nossos filósofos neoplatônicos constituem então a Escola de Alexandria. Eles afirmam uma filiação das ideias platônicas por meio de um estudo comparado das tradições órficas e pitagóricas. "Essa filiação, diz-nos Edouard Schuré, em "Os Grandes Iniciados", mantida em segredo por séculos, só foi revelada pelos filósofos alexandrinos, porque foram os primeiros a publicar o sentido esotérico dos Mistérios."

O que acontece com o ensinamento de Platão, após essa maravilhosa amalgama?

Outrora, para os fiéis de Dionísio, a alma era aparentada ao divino e o iniciado, tomando consciência desse parentesco, entrava em êxtase, em embriaguez, em loucura divina. O Orfismo desenvolveu essa intuição divina em um "discurso sagrado" que elaborou uma sabedoria filosófica. Eis os temas retidos por nossos filósofos neoplatônicos:

Plotino expõe essa enfermidade da alma, essa doença da alma decaída: "O tempo (isto é, nosso mundo corporal) é o fruto de uma dissociação da vida da alma." (Διάστασις οὖν ζωῆς χρόνος εἶχε). Ela deve, portanto, fugir para o Eterno: "Fujamos, diz ele, para essa querida Pátria". (Enéadas), "evadamo-nos da vida, do tempo, da história para reencontrar nossa condição divina e imutável".

Não apenas os filósofos neoplatônicos constituíram uma nova escola filosófica, a Escola de Alexandria, mas também estabeleceram uma liturgia para seus fiéis discípulos, desejosos de ascender à morada divina. Jerônimo CARCOPINO descreveu-nos recentemente essa basílica pitagórica da Porta Maggiore em Roma, onde os iniciados utilizavam os mitos religiosos do paganismo antigo como símbolos de retorno ao mundo divino. Estudaram-se até mesmo os túmulos neoplatônicos no Império Romano.

Diante dessa nova filosofia platônica, não se pode deixar de ficar impressionado com sua semelhança com a doutrina dos Gnósticos da mesma época, tal como a expusemos anteriormente. (Cf. Etienne COUVERT: "Da Gnose ao Ecumenismo" cap. I). Os temas metafísicos são os mesmos, mas despojados da extravagante mitologia dos Gnósticos e de toda referência a Jesus Cristo e ao ensinamento do Evangelho.

O que é, pois, essa ascensão da alma platônica à morada dos deuses pelo êxtase, senão o retorno à "Unidade primordial" de nossos Gnósticos? E poder-se-ia prosseguir assim o paralelo entre os dois ensinamentos.

Mas coloca-se então a questão fundamental: Essa destinação imortal no mundo divino é uma imortalidade pessoal? A alma não perde sua personalidade precisamente na hora em que alcança seu destino? Sabemos pelo ensinamento dos Gnósticos que a alma divinizada se perde no "Pleroma", no Grande Todo, retorna, portanto, ao Nada. Estamos em pleno Panteísmo.

A DITADURA INTELECTUAL DE PLATÃO

No momento da maior difusão do Cristianismo no mundo greco-romano, Platão reinava como mestre sobre as mentes. Quando filósofos e intelectuais se convertiam ao Cristianismo, introduziam nele os modos de pensamento e os pressupostos metafísicos do platonismo, sem perceber que existiam oposições fundamentais entre eles e o ensinamento de Jesus Cristo. Daí surgia uma ambiguidade em suas respostas aos ataques lançados pelos filósofos pagãos: como manifestar simultaneamente sua admiração pela filosofia pagã e seu apego ao ensino do Evangelho? Veremos que essa mistura é impossível e que, segundo a vigor de sua inteligência ou a firmeza de sua fé, uns e outros tiveram que escolher entre Platão e Jesus Cristo.

Eugène de Faye, em seu "ORÍGENES", escreve: "A partir do século II da era cristã, todos — filósofos, gnósticos, eruditos, teólogos cristãos — retornam ao Deus de Platão."

O próprio Orígenes, apesar de sua oposição às teses de Celso, adere aos ensinamentos de Platão. Ele aceita a dualidade alma-corpo, a queda da alma na matéria corporal considerada como uma prisão. Mantém grande respeito pelos Astros, considerados como seres inteligentes e capazes de agir sobre as almas (são as teses dos astrólogos). Apenas pede que não os adorem. Esforça-se desajeitadamente e de forma bastante artificial para encontrar analogias entre a linguagem de Platão e os dados bíblicos. Mas também se esforça para defender Deus da acusação de ser o autor do mal. Diz, como Celso, que o Mal é inerente à matéria (ὕλη πρόσκειται). Portanto, é constantemente constrangido em sua polêmica contra Celso, pois precisa marcar sua admiração pela filosofia pagã ao mesmo tempo que denuncia suas consequências quando estas colidiam com o ensino cristão.

"Orígenes", nos diz PORFÍRIO, "vivia como cristão e contra as leis, mas nas crenças relativas às coisas e à divindade, era grego e transportava a arte dos Gregos para as fábulas estrangeiras (isto é, para o Cristianismo). Frequentava, de fato, incessantemente Platão. As obras de Numênio, de Nicômaco, de Krônio, de Apolófanes, de Longino, de Moderato e de homens instruídos nas doutrinas pitagóricas eram seu entretenimento... Foi junto a eles que conheceu o método alegórico dos Mistérios dos Gregos. Adaptou-o em seguida às escrituras dos Judeus." Numênio de Apameia chamava Platão de "um Moisés aticizante" (Μωσῆς ἀττικίζων); para ele também a matéria era a obra má de um demiurgo.

Mesmo os filósofos neoplatônicos contra os quais lutavam gozavam de um imenso prestígio. Porfírio era admirado pelos apologistas cristãos. O próprio São Jerônimo era seu admirador na juventude. Santo Agostinho fala dele com grande respeito: "philosophus nobilis, magnus gentilium philosophus doctissimus philosophorum". Coloca-o no mesmo nível de Pitágoras e Platão.

Somente mais tarde, após madura reflexão e melhor inteligência da Fé cristã, manifestará sua inquietação e lamentará tal admiração: "Laus ipsa, qua Platonem vel platonicos seu Academicos philosophos tantum extuli quantum impios homines non opportuit, non immerito mihi diplicuit." Ou seja: "Louvei e admirei esses filósofos, embora fossem homens ímpios, e tive muita dificuldade em me desvincular deles." O que é a exata verdade. Santo Agostinho nunca se desvinculou completamente do Platonismo e, mesmo quando o rejeitava explicitamente, permanecia impregnado por ele.

A RECUPERAÇÃO E A SISTEMATIZAÇÃO DO PAGANISMO ANTIGO

Os filósofos neoplatônicos, Porfírio, Jâmblico, Hiérocles e seus discípulos, assim como os da Escola de Alexandria, esforçar-se-ão por conciliar o monoteísmo dos filósofos gregos com o politeísmo popular, para dar a este último uma aparência razoável.

Os deuses do paganismo, dizem-nos em substância, constituem uma cadeia incalculável de seres intermediários cujas perfeições decrescem na proporção de seu afastamento do princípio criador.

"No século IV de nossa era", escreve J. DENIS ("História das teorias e das ideias morais na Antiguidade"), "pode-se dizer que todos os pagãos esclarecidos, embora obstinassem em conservar deuses e demônios, não reconheciam mais senão o Ser supremo. Segundo JÂMBLICO, essa crença é um sentimento necessário, inato em nós, inseparável da essência de nossa alma, que está unida a Deus como o raio ao astro."

Assim, esses filósofos opor-se-ão fortemente a CÍCERO. Este, em seu "DA NATUREZA DOS DEUSES", esforçou-se por aplicar sua inteligência aos deuses do politeísmo e proferiu sobre a religião popular de seu tempo um juízo notavelmente esclarecido: contestou a multiplicidade dos deuses, suas imperfeições; mostrou, com algumas hesitações e incertezas sem dúvida, que Deus não poderia ser senão UM, senão PERFEITO e que as incoerências da mitologia eram indignas de uma inteligência razoável. Por isso, foi alvo das censuras dos neoplatônicos.

ARNÔBIO nos assinala que "um bom número se desvia dos livros que escreveu sobre essas questões, fogem deles e recusam qualquer audiência a uma leitura que abala seus preconceitos... Declaram que o Senado deveria baixar um decreto de aniquilamento contra essas obras, onde a religião cristã encontra confirmação e que anulam a autoridade das antigas tradições. Mas ao suprimir os escritos de Cícero, querer fazer desaparecer textos já divulgados ao público, não é defender os deuses, é temer o testemunho da Verdade!"

Finalmente, os neoplatônicos constituirão um "corpus" doutrinal de elementos heteróclitos, mas cimentados por um simbolismo sistemático, para opô-lo à doutrina cristã. Servir-se-ão dele como de uma máquina de guerra muito eficaz contra os polemistas cristãos.

J. SIMON (em sua tese sobre o comentário do Timeu de Platão por PROCULO) expõe bem seu método: "Era o objetivo confessado dos Alexandrinos mostrar nos mais antigos sistemas os germes de sua própria filosofia e apresentá-la como uma doutrina revelada pelos deuses aos Sábios dos tempos antigos e transmitida sem alteração até eles, sob as formas mais diversas. Hermes é o primeiro elo dessa corrente de ouro. Os antigos sacerdotes egípcios, os teólogos e os poetas da Grécia, os discípulos de Pitágoras e de Platão são os elos, até a Escola de Alexandria e Proclo. As mesmas doutrinas que os teólogos do Egito e da Grécia expressaram por mitos e Pitágoras por Símbolos, Platão as expõe sem véu. A escola de Alexandria, vindo por último, abraça todos os métodos ao mesmo tempo. Sua tarefa principal é fazer ressaltar a Unidade das doutrinas no meio dessa diversidade aparente e ensiná-las ao mundo com a tríplice autoridade da religião, da História e da Razão."

Isso é realmente notável. Não se deve imaginar os filósofos neoplatônicos como pensadores sedentos de verdade, perdidos na contemplação das essências eternas. Não! Foram combatentes ferrenhos de uma verdadeira guerra religiosa. Para eles, todos os argumentos e todos os meios foram empregados contra os cristãos, para destruir a nova religião, que chamavam de "doença".

Basta ler "A Reação Pagã" de Pierre de Labriolle para se convencer disso. Perceber-se-á que seu ensino segue muito de perto o dos gnósticos, mas dele se distingue por uma argumentação racional que apela à inteligência; enquanto os gnósticos pretendiam ensinar as mesmas doutrinas, mas impondo-as por meio de uma iniciação secreta e do recurso a uma Mitologia delirante que podia satisfazer o desejo de maravilhoso e de mistério de certas almas, mas que devia necessariamente repelir os espíritos preocupados com objetividade e bom senso.

OS FALSOS CRISTOS PAGÃOS

A primeira ferramenta de guerra contra o Cristianismo que os filósofos neoplatônicos usaram foi forjar, quase que por completo, falsos cristos para opor ao Verdadeiro.

Porfírio, Jâmblico, Hiérocles leram os Evangelhos. Leram-nos avidamente, poder-se-ia dizer com lupa. Buscaram neles as contradições, as incoerências ao menos aparentes para usá-las contra os apologistas cristãos. Discutiram a genealogia de Jesus, os milagres, o nascimento virginal, as trevas da Sexta-Feira Santa, a suposta Ressurreição, etc. Mas, ao mesmo tempo, compreenderam a força conquistadora do ensinamento de Jesus. Guardaram dele a beleza moral, a simplicidade benevolente, a penetração psicológica.

Concluíram que não se podia opor à nova religião apenas pela perseguição violenta ou legal, mas que era preciso recuperar as almas atraídas por ela, apresentando-lhes um equivalente quase tão digno no paganismo. Era difícil branquear os deuses pagãos e retirar-lhes a auréola de vulgaridade e grosseria, de violência e adultério. Era preciso encontrar algo melhor.

Felizmente, tinham Pitágoras, cuja vida era quase lendária e sobre quem pouco se sabia; um certo mago pouco conhecido chamado Apolônio de Tiana, sobre quem também seria possível bordar. Não se tratava de torná-los deuses, mas enviados, intermediários divinos do Ser Supremo. Melhor ainda, atribuir-lhes a maioria das ações e milagres de Jesus. Foi uma operação bem-sucedida, que ainda hoje engana alguns eruditos (Mas alguns destes não seriam, hoje, os últimos discípulos dos neoplatônicos?)

APOLÔNIO DE TIANA

A vida de Apolônio de Tiana foi escrita por FILÓSTRATO a pedido de Júlia Domna, esposa do imperador Sétimo Severo, uma síria, filha de um sacerdote do Sol. O próprio Sétimo Severo era gnóstico e venerava em seu larário Abraão, Pitágoras, Jesus, Apolônio, etc. Filóstrato conhecia os Evangelhos. Toma-lhes emprestadas cenas, retratos, fatos miraculosos. Segundo ele, Apolônio subiu ao céu depois de se fazer reconhecer por seus discípulos. Tornar-se-á, segundo a palavra de Renan: "uma reencarnação divina que ousaram comparar a Jesus". Mas Filóstrato é muito hábil. Nunca nomeia o Cristianismo. Contentar-se em dar a seu personagem ares crísticos, frequentemente sugeridos. Encontra-se em sua vida vários episódios que outros escritores atribuíram a Pitágoras. Ele será honrado como um ser divino por Sétimo Severo e Aureliano. Chegar-se-á mesmo a desenhar-lhe uma auréola de modéstia e sabedoria para opô-lo a Jesus, que pretendia orgulhosamente ser filho de Deus.

"HIÉROCLES, diz-nos LACTÂNCIO, tentava enfraquecer a importância dos milagres de Cristo, sem contudo negá-los, e quis demonstrar que Apolônio havia feito milagres semelhantes e até maiores. Admiro-me que ele tenha silenciado sobre esse APULEIO, de quem se citam comumente tantos prodígios! Mas por que, ó cabeça louca, ninguém adora Apolônio como um deus, salvo tu, talvez, bem digno de tal deus, com quem serás punido eternamente pelo Deus verdadeiro. Se Cristo era um mago, porque realizou prodígios, Apolônio mostrou-se ainda mais hábil, pois, segundo tu crês, no momento em que Domiciano se dispunha a puni-lo, ele desapareceu subitamente de seu tribunal, enquanto Cristo, ao contrário, deixou-se prender e pregar na cruz! Esse polemista (Hiérocles) quis talvez incriminar o orgulho de Cristo por se apresentar como um deus, a fim de realçar a modéstia de Apolônio que, maior taumaturgo, de modo algum reivindicou sua deificação."

Mesmo os cristãos foram atraídos por essa imagem fabricada de Apolônio e lhe reservaram simpatia. Santo Agostinho nos conta: "Quem não riria ao ver nossos contraditores pagãos comparar ou mesmo preferir a Cristo Apolônio, Apuleio e outros hábeis mágicos? É, aliás, mais tolerável que comparem a ele tais homens do que seus deuses; pois é preciso admitir, Apolônio valia mais do que aquele personagem carregado de adultério que chamam de Júpiter."

PITÁGORAS

Apolônio de Tiana teria escrito uma vida de Pitágoras, mas nada nos resta dela. Além disso, JÂMBLICO esforçou-se por introduzir na sua vida de Pitágoras um grande número de cenas evangélicas. Segundo ele, Pitágoras teria nascido de uma virgem, teria fugido para o Egito, teria constituído um grupo de doze discípulos, pescadores é claro, teria feito numerosos milagres à imitação de Cristo; enfim, ter-se-ia elevado nos ares.

"Os pitagóricos, diz Porfírio, contavam Pitágoras entre o número dos deuses e, todas as vezes que queriam revelar a outros os segredos de sua ciência, juravam pela Quaternidade, como se invocassem Pitágoras como um deus". "Por veneração a seu mestre, diz também JÂMBLICO, os pitagóricos não nomeavam Pitágoras, temiam usar seu nome como o dos deuses. Citavam-no chamando-o de inventor da Quaternidade". Daí vem que, quando juravam por ele, nunca o designavam, mas diziam simplesmente: Juro por ele mesmo, juro por aquele que transmitiu à nossa alma a sagrada Quaternidade. Inclinavam-se diante de seu ensinamento dizendo: "O Mestre disse" ou simplesmente: "Ele disse" (αὐτὸς ἔφη). "Em vida, acrescenta JÂMBLICO, seus discípulos o chamavam de divino; quando ele morreu, citavam-no dizendo: esse Homem, e nunca o nomeavam pelo nome". "O mestre" falava a seus noviços escondido por uma cortina.

NOTA SOBRE A SAGRADA QUATERNIDADE

Fornecemos um comentário desenvolvido sobre esta definição da divindade em "De la Gnose à l'Oecuménisme", páginas 41 e 42.

É preciso acrescentar que a Pirâmide é a representação figurada dessa quaternidade. De fato, diz HIEROCLES: "No Quaternário se vê a primeira Pirâmide; sua base triangular supõe o número três e o vértice que a termina impõe a unidade." Na Pirâmide, os triângulos são em número de quatro, de modo que, vista de lado, a pirâmide é o triângulo de nossos maçons e, vista de cima, é o quadrado dos Gnósticos. Já sabíamos que o Mal é, em Deus, a perfeição do Bem, que Satã faz parte integrante da divindade. Ele é esta parcela de divindade que ensinou aos homens que eles eram divinos.

É muito notável constatar hoje como nossos poderes maçônicos se esforçam para colocar pirâmides no topo de torres e em lugares públicos. É a marca de Satã em nosso mundo paganizado.

Os neoplatônicos também reescreveram as vidas de Sócrates, Hércules, Mitra (Maitreya na Índia), Hélio, emprestando cenas, retratos e fatos milagrosos dos Evangelhos. Se quiséssemos prosseguir nossa investigação fora do movimento neoplatônico, encontraríamos plágios semelhantes na vida lendária de Buda e Krishna (cf. Monsenhor de HARLEZ: "A Bíblia na Índia").

Para concluir esta afirmação de Gaston BOISSIER: "A partir de Marco Aurélio, o paganismo tenta se reformar no modelo da religião que o ameaça e contra a qual luta."

DA ALMA SEGUNDO OS NEOPLATÔNICOS

Partimos de Platão: "É nossa alma sozinha, diz ele nas 'Leis', que constitui o que somos. Nosso corpo é apenas uma imagem que acompanha cada um de nós... Nossa verdadeira pessoa é uma substância, imortal por sua natureza, chamada alma." "Enquanto vivermos aqui embaixo, diz ele ainda no Fédon, nos aproximaremos, creio, o mais perto possível do saber à medida que, na medida de nossos meios, não tivermos nenhuma relação nem nenhum comércio com o corpo, a não ser na absoluta necessidade, e na medida em que não permitirmos que ele nos encha de sua própria natureza, mas trabalharmos para nos purificar dele até que o próprio Deus venha nos libertar."

Estes são textos que os neoplatônicos usam abundantemente, especialmente JÂMBLICO e HIEROCLES. Ouçamo-los.

HIEROCLES, em seu comentário dos Versos de Ouro de Pitágoras, escreve: "O que te faz o que és de fato é tua alma. Teu corpo não és tu; ele é apenas teu, e as coisas exteriores são o que é teu, isto é, de teu corpo. Graças a essa distinção, nunca confundirás essas diversas naturezas, saberás descobrir qual é a essência do homem e, nunca considerando como a ti mesmo nem teu corpo nem as coisas exteriores, não te preocupando com eles como se fossem tua verdadeira pessoa, evitarás assim cair num amor demasiado grande pelo corpo e pelas riquezas."

"O objetivo da filosofia de Pitágoras, escreve DACIER, em sua vida de Pitágoras, era desvencilhar dos laços do corpo o espírito sem o qual é impossível ver e aprender qualquer coisa; pois, como ele disse primeiro, é o espírito sozinho que vê e ouve, todo o resto sendo surdo e cego" (Vida de Pitágoras por JÂMBLICO).

Vê-se por estas citações que os neoplatônicos se contentaram em levar às últimas consequências os ensinamentos de Platão.

Mas o senso comum nos ensina, ao longo da existência, exatamente o contrário. Nosso corpo somos bem nós mesmos e nossa alma é bem o princípio de animação desse corpo. O que é uma alma que não anima um corpo? Não é mais uma alma. Não é nada.

Platão pretende que nos aproximaremos do saber renunciando ao corpo. Jâmblico nos assegura que o espírito sozinho vê e ouve.

Mas o senso comum nos diz o contrário. O pequeno homem que acaba de nascer ignora tudo. Ele toma conhecimento do mundo com seus olhos, seus ouvidos, etc. Essa tomada de conhecimento é difícil, lenta, árdua, passa por numerosos erros, tropeços. É necessário um esforço de educação muito sustentado para que a criança atinja uma visão razoável das coisas. É a experiência comum da Humanidade.

Aliás, Platão marca por alguma fórmula restritiva o absurdo de sua tese: "A não ser na absoluta necessidade". Mas é ao longo da vida que essa necessidade se impõe. Somos um corpo animado. É bem nosso corpo que se move, age, pensa, vê, sabe, etc., porque ele tem uma forma animante, chamada alma. Não se deveria reificar essa alma e fazer dela uma substância. Uma substância é o que se coloca debaixo para sustentar o ser todo.

E são os próprios platônicos que nos dirão isso pela incoerência de suas imaginações. Afirmam que a alma existia desde toda a eternidade antes da geração. Afirmação gratuita, insustentável. Como um princípio de ser pode ser concebido sem o ser que ele anima?

Impossível, então eles vão imaginar uma aparência de corpo, algo sólido, consistente, uma substância, em suma, para sustentar essa alma antes da geração. Eles não conseguem apreender uma alma suspensa no vazio. São realistas apesar de si mesmos.

Dizem-nos: "Todas as almas, (é PROCLUS quem fala) antes de cair na geração, eram Homens anteriormente. Elas tinham um veículo em relação com sua natureza, veículo invisível, inafetável, eterno, como produto imediato de uma causa imóvel. Esse veículo não é outra coisa senão um corpo imortal, está unido à alma e a dispõe, por sua presença, a se unir mais tarde a um corpo mortal. É o intermediário que a aproxima do envoltório material que ela terá que sofrer. Também parece receber algo dele..."

Pitágoras o chama de carro espiritual, corpo luminoso, veículo da alma. É bem a prova de que a alma não é uma substância, pois precisa de um suporte, mesmo no mundo divino. E o que é esse veículo imortal que não veicula mais nada quando a alma caiu em um corpo mortal? Já não é mais um veículo, suporte tornado inútil, substância vazia...!

A fé católica nos ensina algo totalmente diferente. Nosso corpo faz parte integrante de nós mesmos, constitui a substância de nosso ser. É o homem todo, corpo e alma, que será salvo ou condenado. A Igreja ensina até a ressurreição dos corpos, "Templos do Espírito Santo", diz ela. Que escândalo! Essa podridão, essa carapaça, essa prisão, etc... também será participante da visão beatífica. Eis um Dogma da Fé católica que se opõe completamente à filosofia de Platão, de modo que não pode haver nenhuma conciliação possível entre eles.

Nossa alma, sendo princípio de animação do nosso corpo, não é um princípio intercambiável, capaz de animar qualquer corpo. Nossa alma é o que dá forma corporal ao nosso ser, ela é, portanto, a própria forma do nosso corpo, não do do nosso vizinho. Seu papel próprio é bem animar um corpo, mesmo na eternidade. É-lhe bem impossível passar de um corpo a outro, porque então ela não seria mais a mesma forma, mas uma outra forma, portanto uma outra alma. A reencarnação é um absurdo.

Por isso se vê a dificuldade que há em fazer coabitar nos espíritos as verdades da Fé católica com as teses de uma filosofia platônica: elas sempre se chocarão, e é bem o problema que envenenou os espíritos até as grandes sínteses escolásticas.

Continuemos: "Nós carregamos, diz EPICTETO, um Deus conosco e em nós e o ignoramos! Não refletimos que o profanamos por ações más e por pensamentos impuros! Não ousaríamos fazer o que fazemos diante de uma vã imagem, e é na presença do próprio Deus, é na presença do Deus que está em nossa consciência que não nos envergonhamos de fazer, de pensar as coisas mais vergonhosas. Oh! Como conhecemos mal a celeste dignidade de nossa natureza!"

Somos divinos, dizem os neoplatônicos, mas não o sabemos. Se não sabemos que carregamos em nós um Deus, como podemos afirmá-lo? É bem uma pretensão gratuita, inverificável. De onde nos vem essa ignorância?

Santo Irineu não hesita em interpelar Platão sobre esse assunto em uma época em que todos os espíritos cultos o veneravam: "Platão fez intervir a bebida do esquecimento... sem fornecer a menor prova. Declarou peremptoriamente que as almas, entrando nesta vida, são embebidas de esquecimento, antes de entrar nos corpos... Se a bebida do esquecimento basta, uma vez bebida, para apagar a lembrança, como sabes então, ó Platão, já que tua alma está presentemente em um corpo, que antes de entrar neste corpo, ela foi embebida por um demônio do remédio do esquecimento? Se te lembras do 'demônio', da bebida e da entrada, deves saber também todo o resto.

Se o ignoras, é que nem o demônio é verdadeiro, nem o resto dessa teoria relativa à bebida do esquecimento..."

Somos divinos, dizem os neoplatônicos, mas não nos comportamos segundo um modo divino: más ações, pensamentos impuros, etc. O texto de EPICTETO se quer moralizador; mas, de fato, é contraditório e absurdo. Se somos divinos, como podemos nos comportar assim? Por nossa natureza divina, a coisa é impossível; ora, ela é verdadeira: logo, não somos divinos...

Mas existe outra consequência imprevista que os Gnósticos modernos terão o maligno prazer de desenvolver.

Nós nos envergonhamos de fazer coisas vergonhosas diante das estátuas dos deuses, vãs imagens, nos diz Epicteto, e ele tem razão. Não nos envergonhamos diante do deus que está em nós, que é nós mesmos. Claro! Para se envergonhar, é preciso estar diante de alguém que nos julgue segundo seu critério de julgamento próprio ao qual aderimos, ao menos exteriormente.

Mas se Deus está em nós constituindo nossa natureza celeste, não temos mais observador exterior a nós mesmos; tornamo-nos inteiramente livres de nossos atos. É nosso próprio julgamento que é o critério supremo do Bem e do Mal. Para um ser divino, tudo é Bem. Não há mais nenhuma vergonha possível. A psicanálise moderna, ao querer nos desculpabilizar, não faz senão levar as teses de Platão às suas últimas consequências.

Essa contradição enorme entre nossa natureza supostamente divina e nosso comportamento tão medíocre continuará sendo a pedra de tropeço dos platônicos e dos gnósticos que os seguem.

QUEDA E REINTEGRAÇÃO ENTRE OS NEOPLATÔNICOS

Partimos sempre de Platão; "O ardente desejo, diz HIEROCLES, daquele que quer fugir deste prado da infelicidade é apressar-se para chegar ao prado da Verdade. Se não chega lá, a queda de suas asas o precipita num corpo terrestre e o priva da perpétua bem-aventurança. Platão concorda aqui conosco quando diz a respeito dessa descida: 'Quando a alma, impotente para seguir os deuses, não consegue chegar à contemplação e, entregando-se à infelicidade, perde suas asas e cai na terra, então uma lei divina lhe prescreve vir animar o corpo de um ser mortal' (Excerto do Fedro)."

A alma humana é um "gênio decaído" (δαίμων) que teve que descer à terra para expiar faltas cometidas. "Os antigos teólogos e videntes, escreve FILOLAU (em Clemente de Alexandria, Os Stromata), atestam que é como punição de certas faltas que a alma está ligada ao corpo e nele está sepultada como num túmulo." A vida é um castigo e a morte uma libertação. Mas como então é que nossa alma, gênio divino, transportada por um carro luminoso, um corpo espiritual, etc., pôde cometer a menor falta, não estando corrompida nem degradada pela matéria antes de ter caído nesta terra de infelicidade e nesta carapaça-prisão? Seria possível, então, que a celeste dignidade de nossa natureza divina pudesse convir a uma alma faltosa ou impura? Há aí uma incoerência de grande porte. Além disso, nossos filósofos platônicos estão bem atrapalhados para nos explicar de que falta se trata, onde foi cometida e por quê. Tudo isso é pura invenção à qual nada corresponde na realidade. E vamos ver a que consequências extravagantes tais pressupostos vão levar.

Segundo PROCLO: "A oração não é uma invocação aos deuses para obter favores, ela é pura de toda esperança. É o impulso da alma virtuosa em direção ao divino, fonte de toda perfeição. O que procede dos deuses, embora se distinguindo deles, não está totalmente separado. Em virtude da afinidade que ainda o une ao seu princípio, tende a retornar a ele, e o ato de amor e inteligência que o leva a um deus é a oração. A essência da oração é a conversão da alma para a divindade; seu efeito imediato, uma maior virtude; seu termo supremo, a absorção em Deus. Os homens se enganam estranhamente, imaginam que Deus se afasta deles ou que se aproxima e que a força da oração é atraí-lo ou fazê-lo descer até eles. Deus está sempre presente em toda parte. Ele é íntimo às nossas almas, ou antes, nossas almas estão nele. Quando acreditamos que ele se aproxima de nós, somos nós que, pela virtude, pelo amor e pela oração, nos aproximamos dele, unindo-nos mais intimamente à sua pura essência pela parte de nossa alma que se assemelha a ele. Deus não desce até a alma, é a alma que se eleva até ele."

Eis um belo exemplo de desprezo pela Providência. A divindade é apresentada pelos neoplatônicos como uma pura essência, impassível, imóvel, sem personalidade ("o divino"). Nossas almas são parcelas suas caídas, decaídas. Mas elas são divinas e pertencem a essa essência por sua natureza. Têm, portanto, em si mesmas a força, a "virtude" de remontar à sua fonte. Não há necessidade alguma de uma força sobrenatural, enviada por Deus para "elevar" nossa natureza a uma ordem que a ultrapassa. Nossa alma se eleva sozinha, sem ajuda, sem "graça", por seu próprio movimento: é uma "reintegração", um Retorno à Unidade.

Os homens se enganam, nos diz PROCLO, quando imaginam atrair Deus e fazê-lo descer até eles pela oração. Mas esse "erro" é comum a toda a humanidade, está inscrito em nossa natureza humana. Todo homem compreende muito bem que é fraco e frequentemente impotente, atingido ao longo da vida por dificuldades, obstáculos, sofrimentos de todos os tipos, que precisa de uma ajuda.

Dizer-lhe que a divindade suprema é impassível, impessoal; portanto, indiferente à sua infelicidade, é mergulhá-lo no desespero e no suicídio. É matar nele a virtude da Esperança. Na verdade, nossa oração é sempre um apelo por socorro; ela pressupõe um Deus pessoal, capaz de se inclinar sobre nós, de condescender à nossa súplica. Eis o ensinamento da Fé católica. Ela está em oposição radical com o Platonismo.

Finalmente, o Retorno à Divindade é apresentado por nossos filósofos como uma deificação, uma Teurgia. Uma operação que nos recoloca em contato com o Ser Supremo, que nos reúne à Essência da Alma Universal, como diz PLOTINO. Era praticada em ritos secretos, mágicos, durante os quais o teurgo se sentia tornar-se Deus. Profunda ilusão! É fácil acreditar-se divino na euforia de uma cerimônia exaltante. A queda no cotidiano é bem o sinal manifesto de que essa deificação não ocorreu realmente.

UMA CENA DE TEURGIA

Como sentir em si a natureza divina de nosso ser? Não basta acreditar-se divino, é preciso ainda ter o sentimento positivo disso, se não se quer viver na ilusão.

JÂMBLICO nos dá a resposta em seu "Tratado sobre os Mistérios", Jâmblico a quem Marino de Nápoles chamava de "o divino Jâmblico", o grande taumaturgo neoplatônico do século IV. Ele descreve a possessão do ser humano pelo divino:

"O Teagogo (aquele que faz aparecer a divindade, que a torna presente entre os homens) vê o sopro descer e entrar nele e percebe sua grandeza e qualidade. Aquele que o recebe vê aparecer antes a imagem do fogo. Às vezes essa imagem é visível a todos os assistentes, na chegada e na partida do deus. A partir disso, pode-se determinar exatamente a veracidade, a potência e, sobretudo, o posto, e aqueles que conhecem essa ciência podem dizer acerca do que ele é capaz de dizer a verdade, que potência ele pode desdobrar e que atos pode realizar."

Mais adiante, Jâmblico prossegue: "O Teurgo, pela potência das coisas inefáveis, não comanda mais os seres cósmicos como um homem usando uma alma humana, mas, enquanto preeminente na hierarquia dos deuses, usa ameaças superiores à sua própria essência... Usando tais palavras, ele dá a conhecer, em sua extensão, qualidade e modo de ser, a potência que lhe dá a união com os deuses, que lhe foi proporcionada pelo conhecimento dos símbolos inefáveis..."

Estamos aqui em pleno ritual mágico, em plena ciência oculta, o que é próprio de todo esoterismo.

Eis um belo exemplo notável de conversão neoplatônica. O imperador Juliano, o Apóstata, foi aluno do gramático LIBÂNIO. Este o colocou em contato com Máximo de Éfeso e nos conta sua conversão ao neoplatonismo. Segundo ele, o jovem Juliano foi conquistado apenas pelo esplendor do Verdadeiro: "Juliano, diz ele, ficou possuído quando encontrou homens imbuídos da doutrina de Platão, quando ouviu falar dos deuses e dos demônios, quando aprendeu com eles o que é a alma, de onde vem, para onde vai, o que a faz decair, o que a eleva, o que a define, o que a exalta, o que são para ela o cativeiro e a Liberdade, como pode evitar um e alcançar a outra. Então rejeitou as tolices em que acreditara (o Cristianismo, evidentemente) até então para instalar em sua vida o esplendor da Verdade, como se num grande povo se restabelecessem estátuas dos deuses antes ultrajadas pela lama."

Isso não é totalmente falso: o próprio Máximo foi um filósofo autor de um comentário das "Categorias" de Aristóteles, mas não foi apenas isso; ele também foi um teurgo e veremos que o passo decisivo de Juliano em sua conversão reversa não teve como único motivo o amor à Verdade, mas antes e sobretudo a impaciência de se sentir divino e de receber em si mesmo uma força sobre-humana. Um de seus mestres, Eusébio, contou-lhe um dia uma sessão maravilhosa na qual apareceu Máximo, cujo prestígio e relações íntimas com os deuses então suscitavam a admiração de seus devotos:

"Fui convocado, há algum tempo, com vários amigos por Máximo ao templo de Hécate. Ele acabou reunindo muitas testemunhas contra si mesmo. Quando saudamos a deusa, Máximo exclamou: 'Sentem-se, meus amigos, observem bem o que vai acontecer e vejam se sou superior aos outros homens.' Todos nos sentamos. Então Máximo queimou um grão de incenso, cantou para si mesmo não sei que hino e levou sua exibição tão longe que, de repente, a imagem de Hécate pareceu sorrir, depois rir em voz alta. Como parecêssemos emocionados, Máximo nos disse: 'Que nenhum de vocês se perturbe. Daqui a pouco, as tochas que a deusa segura em suas mãos se acenderão.' Mal terminou de falar, o fogo já brilhava nas pontas das tochas. Retiramo-nos, momentaneamente estupefatos diante desse teatral fazedor de maravilhas, e nos perguntávamos se havíamos visto de fato aquelas belas coisas. Mas, acrescenta Eusébio, não se admirem de antemão de nenhum fato desse tipo, assim como eu mesmo não me admiro, e acreditem que só tem importância a purificação que procede da razão. Então o divino Juliano se levantou: 'Adeus, disse ele, mergulhem em seus livros; vocês acabam de me revelar o homem que eu procurava.'"

Eusébio acreditava desviar seu discípulo da magia. Ocorreu o efeito contrário; o atrativo do poder sobrenatural e divino foi mais decisivo do que os escritos filosóficos na conversão neoplatônica de Juliano.

Santo Hipólito nos conta em "Os Philosophoumena" como se procedia para persuadir espíritos ingênuos e crédulos de que o deus lhes havia verdadeiramente aparecido: "Eis como o teurgo faz aparecer a divindade em traços de fogo. Depois de desenhar na parede a silhueta que quer mostrar, ele unta secretamente a superfície com uma droga composta da seguinte mistura: púrpura lacônia e betume de Zante; então, como num delírio extático, aproxima da parede uma tocha acesa e a droga pega fogo, lançando uma grande luz."

Por fim, Juliano tornou-se imperador e o Neoplatonismo reinou sobre o Império; mas não foi por muito tempo.

A seus amigos que choravam ao redor do leito onde ele iria dar o último suspiro, ele censurou sua fraqueza: "É uma humilhação para todos nós, disse, que choreis um príncipe cuja alma logo subirá ao céu e ali se confundirá com o fogo das estrelas." O silêncio se estabeleceu ao seu redor; ele aproveitou para iniciar com Prisco e Máximo uma conversa sobre a vida futura e a nobreza infinita da alma... Foi com alegria que ele entregou sua alma ao seu deus que a havia por um tempo aprisionado num corpo mortal.

PLATÃO E SANTO AGOSTINHO

Numa exposição sobre o Neoplatonismo, é necessário terminar com um exame atento do itinerário espiritual de Santo Agostinho. De fato, um teólogo recente, Gustave BARDY, pôde escrever: "Por si mesmo, o Neoplatonismo não é necessariamente pagão e o exemplo de Santo Agostinho, que logo encontrará nos livros neoplatônicos a revelação das realidades espirituais, bem como o caminho mais seguro para o Cristianismo, basta para mostrá-lo."

Não é possível escrever uma contra-verdade tão manifesta. Por toda a exposição que precede, demonstramos a incompatibilidade radical que existe entre Platonismo e Cristianismo. Mostramos também que os filósofos neoplatônicos constituíram sua escola de pensamento como uma máquina de guerra contra o Cristianismo nascente.

Infelizmente! Santo Agostinho foi de fato atraído pelo Neoplatonismo e todo o seu itinerário mostra com evidência que ele teve que rejeitar todas as teses platônicas uma após a outra para permanecer fiel à sua fé cristã, à medida que a aprofundava.

Vejamos isso. Após uma longa estadia entre os Maniqueus, Agostinho retornou à fé cristã de sua infância e à prática religiosa sob a influência de Santo Ambrósio em Milão, cujos sermões ele ouvia atentamente e após uma conversa pessoal com esse grande bispo.

Simultaneamente, Agostinho descobriu a filosofia de Platão nos escritos neoplatônicos. Leu então os tratados de Plotino na tradução latina de Mário Vitorino, que os colocou diretamente em suas mãos. Certamente leu também Porfírio, como assinala Pierre de LABRIOLLE, embora esse autor fosse muito abertamente anticristão. Foi para ele um deslumbramento, uma espécie de nova conversão, simultânea ao seu retorno à fé cristã. Ele fala dessas obras com entusiasmo como se sua leitura tivesse sido uma graça divina. Os "livros platônicos" acenderam nele um "incrível incêndio" ("etiam mihi de meipso incredibile incendium concitarunt"). Ele pressentiu sua concordância com a fé cristã e a luz que dela esperava. "Depois de ler alguns livros de Plotino, escreve ele no 'De Beata Vita', e depois de compará-los o melhor que pude com a autoridade daqueles que nos transmitiram os divinos mistérios, me incendiei." ("sic exarsi").

No entanto, ele notou algumas hesitações: era um pecador, um "homem de um orgulho imenso" que lhe havia colocado esses livros nas mãos. Ele até manifestou uma inquietação: "Se eu tivesse sido primeiro formado em tuas Santas Letras e familiarizado com sua doçura e depois tivesse encontrado os escritos platônicos, talvez eles me tivessem arrancado do sólido fundamento da piedade, ou então, se tivesse permanecido nessa disposição de salvação, não teria acreditado que só essas obras poderiam conduzir ao mesmo ponto."

Sabemos, portanto, que Santo Agostinho não conheceu as obras de Platão, mas que absorveu Platão através dos filósofos neoplatônicos, na sistematização que eles haviam feito para erguer um obstáculo intransponível à expansão do Cristianismo entre as mentes cultas. Santo Agostinho chegou a ver em São Paulo visões platônicas, quando ele opõe a carne e o espírito, por exemplo...


A primeira dificuldade encontrada por Santo Agostinho no Platonismo é a condenação da matéria, da carne e do corpo, esse pessimismo sombrio, esse verdadeiro dualismo entre a alma e o corpo que os neoplatônicos sistematizaram; a doutrina cristã do pecado lhe abriu os olhos. Em "A Cidade de Deus", ele reprovará Platão e Virgílio por terem colocado a causa do pecado na carne em vez de buscá-la na alma: "Pois a corrupção do corpo, que sobrecarrega a alma, não é a causa do primeiro pecado, mas a pena; nem a carne corruptível tornou a alma pecadora, mas a alma pecadora tornou a carne corruptível."

Ele encontra também o dogma da ressurreição dos corpos, esse dogma tão pouco grego, escândalo para os platônicos, que afirma que nosso corpo, essa podridão, essa casca odiosa, será um dia participante da visão beatífica, como São Paulo disse: "a reabilitação da carne e a recapitulação de todas as coisas em Cristo." A preocupação que Plotino manifesta de evadir-se do mundo sensível e fugir para o eterno lhe parece um erro sobre a natureza do mundo sensível e manifesta um pessimismo ou mesmo um dualismo que Santo Agostinho não compreendeu no início, mas que denunciará mais tarde, sobretudo em "A Cidade de Deus".


A segunda dificuldade encontrada por Santo Agostinho nos Platônicos é a concepção do ἔρως, do Amor platônico, um desejo do Bem para si, determinado pela busca da Felicidade para si, um Amor, portanto, voltado sobre si mesmo, que recusa o dom generoso, um amor puramente ascendente. Ele lhe opõe o ἀγάπη, amor que difunde o Bem aos seres amados, movimento em direção aos outros, renúncia a si mesmo, amor descendente, tal como o de um Pai por seus filhos. E é a essa definição do amor-dom que Santo Agostinho aplica a Liberdade: um amor que se dá pode se recusar. É essa possibilidade que entra na natureza do dom e é a realização dessa possibilidade que constitui o pecado. O Mal não está nas coisas, nem na matéria, nem no conjunto dos seres criados, mas na recusa do dom. E isto é a antítese do Platonismo.


A terceira dificuldade encontrada por Santo Agostinho foi a pretensão que os Platônicos emitiram de poder, por suas próprias forças, realizar sua divinização. De fato, para Plotino, como para Platão, a alma é de natureza divina (θεῖον), ela possui em si mesma essa divindade de origem, mas velada, obscurecida pelo corpo e pela matéria. A teurgia não é outra coisa senão essa ascensão em direção aos astros, em direção ao céu originário, é o "retorno à unidade primordial" de nossos gnósticos. Plotino propõe um êxtase realmente divino.

Essa operação de retorno ao divino é denunciada por Santo Agostinho como um "orgulho incrível": "Com uma vaidade surpreendente, quiseram ser felizes aqui em baixo e fazer eles mesmos sua felicidade." ("Nec beati esse et a seipsis beati fieri mira vanitate voluerunt"). Ele condena, nas "Confissões", a busca da "visão curiosa" da divindade, porque ela comporta uma prática de magia e, portanto, necessariamente a mediação dos demônios. ("Adduxerunt sibi per similitudinem cordis suis conspirantes et socias potestates aeris hujus, a quibus per potentias magicas deciperentur, quaerentes mediatorem per quem purgarentur").

Enfim, por uma consequência necessária, Santo Agostinho condenou nos Platônicos o Panteísmo implícito de toda sua construção intelectual. E aí suas fórmulas são impressionantes: as criaturas conduzem a Deus, não porque são divinas, mas pelo que lhes falta: "Interroguei a terra, diz Agostinho, e ela me disse: não sou eu. Interroguei os mares, os abismos, os répteis de almas viventes e eles responderam: Não somos teu Deus. Questionei o sol, a lua; as estrelas: nós também não, nós não somos o Deus que procuras." ("Interrogavi terram et dixit: non sum. - Interrogavi mare et abyssos et reptilia animarum vivarum et responderunt: non sumus Deus tuus, quaere super nos... Interrogavi caelum, solem, lunam, stellas: neque nos sumus Deus quem quaeris, inquiunt").

"Procurei, continua Santo Agostinho, procurei meu Deus em todos os corpos, na terra e nos céus e não o encontro lá. Procurei sua substância em minha alma e também não a encontro lá e não me resta nada a tocar, senão o próprio Deus." Eis uma afirmação solene da transcendência de Deus. Em nenhum lugar Santo Agostinho marca com tanta firmeza a diferença fundamental que opõe sua fé a Plotino e a toda a filosofia platônica. Basta comparar essas afirmações, por exemplo, ao Evangelho gnóstico de Tomé: "Racha a madeira, eu estou lá, levanta a pedra e tu me encontrarás..." ou ainda a algum cântico moderno: "Ele está em cada pedra... no centro da terra, no fundo dos oceanos, faz germinar as sementes, dirige os riachos, etc...".

A ILUMINAÇÃO DIVINA SEGUNDO SANTO AGOSTINHO

Resta uma última dificuldade com a qual Santo Agostinho irá se deparar, o problema da origem do conhecimento. De onde nos vêm nossas ideias?

Claro, Santo Agostinho, por fidelidade à fé cristã, devia rejeitar a reminiscência platônica, segundo a qual nossas ideias são a lembrança de uma vida anterior no mundo divino, essa preexistência das almas da qual Sócrates se servia para explicar a imortalidade da alma no "Fédon". Devia rejeitar também essa concepção do conhecimento segundo a qual nossas ideias são inatas em nós, já que a percepção sensível se contenta em despertar uma alma adormecida, em excitar o espírito e fazer aparecer, desvelando-a, um conhecimento enterrado em nós mesmos.

Mas Santo Agostinho guardou da "revelação platônica" essa noção de uma luz eterna e divina, cara a Platão, como a Plotino, que reside no mundo das Ideias. Evidentemente para ele, esse mundo não é outra coisa senão o próprio Deus, e portanto, essa luz divina, absoluta, imutável, não pode se confundir com a de nossa alma cambiante e incerta.

Nos "livros platônicos", ele acreditou encontrar o Verbo eterno, exemplar da criação, luz da Inteligência, sem ficar outro tanto surpreso por encontrar num pagão esse termo de Verbo, que parecia implicar um certo conhecimento do mistério da Santíssima Trindade em Platão. (Ele emite a hipótese, que rejeita bem depressa, aliás, de que Platão poderia ter conhecido o profeta Jeremias no Egito!)

Assim como o eterno e o divino são fonte do ser no Platonismo, também Deus em Santo Agostinho será regra de conhecimento e norma da ação. Por esta reflexão sobre a Verdade, ele acreditou captar, seguindo os neoplatônicos, a presença e a ação iluminadora de Deus no fundo mesmo de nosso espírito.

É à ação do Verbo que ele vincula explicitamente, desde então, a iluminação do espírito e a regra da Verdade. A verdade não pode ser recebida de fora. O título de mestre é um título usurpado pelos homens. Há um único mestre, que é Jesus Cristo. Ele nos é interior e preside nossa atividade espiritual. ("Deus qui humanis mentibus nulla natura interposita praesidet"). Nenhuma natureza pode interpor-se entre Deus e nossa alma. É no santuário íntimo da alma que o homem julga e proclama a verdade. O ensino e a experiência não passam de "evocadores" do conhecimento das profundezas ocultas de nossa alma. ("Remota et retrusa quasi in caveis abditioribus").

Não recebi as ideias por intermédio de outrem, reconheci-as em meu próprio espírito e fui eu quem as sancionou como verdadeiras... Elas estavam em mim antes que as aprendesse. ("Cum ea didici non credidi alieno cordi, sed in meo recognovi et vera esse approbavi...Ibi ergo erant et antequam ea didicissem"). Compreender uma verdade é reconhecê-la e declará-la conforme nosso ideal interior, não é adquirir algo novo, é trazer à consciência clara uma ideia até então implícita. "Se minha alma permanecesse em si mesma, nada veria além de si, e vendo a si mesma, certamente não veria a Deus... Entrei em meu interior, continua ele, e vi com o olho de minha alma, por mais turvo que estivesse, acima desse mesmo olho, acima de meu entendimento, a luz imutável. Ela não estava acima de meu espírito, como o óleo se mantém acima da água, como o céu se estende acima da terra. Quem conhece a verdade, a conhece". ("Qui novit veritatem, novit eam"!).

Sob que forma se exerce essa iluminação divina em nossa alma, é o que Santo Agostinho não explica, e por boas razões...

Mas filósofos escolásticos, discípulos de Santo Agostinho, tentarão suprir o silêncio de seu mestre.

Segundo alguns, Deus, criador, é também o modelo que expressa luminosamente e representa expressivamente todas as coisas. Devemos, portanto, considerá-lo como um espelho da criação, como um livro vivo, naturalmente posto diante de nosso olhar intelectual, no qual podemos ler os primeiros princípios da ciência e da moral. Daí esta conclusão: É o próprio Deus que é o livro próprio e natural do intelecto humano. ("Creator ipse liber est naturalis et proprius intellectus humani"). A profecia confirma, diz-se, esta explicação, pois Deus é novamente representado como sentado, segurando um livro que abre na página que deseja, para nos deixar ler a linha ou mesmo a palavra que ele quer colocar sob nosso olhar.

Se supusermos que a alma possui em si o conjunto de seus conhecimentos em estado inato, recaímos fatalmente na reminiscência platônica. É preciso admitir, segundo outros, que a inteligência divina fornece aos homens as ideias, segundo a ordem de suas necessidades. Tão instantaneamente quanto Deus pode criar as coisas, ele pode produzir no homem uma virtude própria, análoga àquela de uma semente capaz de gerar subitamente raízes, caules, folhas e sementes que dela devem provir. Nossa faculdade de conhecer seria tal que, sob a menor excitação do sensível, poderia gerar instantaneamente em si as ideias das coisas exteriores, aplicando-se a elas espontaneamente por uma espécie de mimetismo análogo ao do macaco ou do camaleão. Aptidão inata à produção súbita e indivisível das ideias. Deus fertilizaria nossa alma e, assim, desempenharia esse papel de "educador", esse adjuvante exterior, segundo a fórmula de Santo Agostinho. "Deus lumen cordis mei et panis intus animae meae et virtus maritans mentem meam et sinum cogitationis meae" ("Confissões"). O que deixa frente a frente apenas Deus e uma faculdade de conhecimento impotente para agir por si mesma.

TANDEM VENIT THOMAS

Por fim, veio São Tomás de Aquino.

Sua atitude em relação a Santo Agostinho é muito interessante. Ele sempre demonstra um grande respeito por este "Pai da Igreja", referência obrigatória de toda a escolástica de seu tempo. No entanto, ele mantém toda sua liberdade de espírito. Quando se depara com uma afirmação que não pode aprovar, começa por extrair do texto incriminado tudo o que pode ser aceito como verdadeiro; em seguida, refuta o erro que o texto poderia conter se alguém pretendesse interpretá-lo de outra forma. Nesse momento, expõe sua resposta à segunda interpretação, que é, de fato, a verdadeira resposta ao erro de Santo Agostinho. Assim, o respeito devido à pessoa é preservado, mas o erro é desmascarado.

Santo Agostinho já havia rejeitado todo o Platonismo pelo qual se entusiasmara em sua juventude. Restava uma única dificuldade: o problema do conhecimento. A tese da iluminação divina era tudo o que ele podia manter, acreditava ele, do pensamento neoplatônico.

"Deus é a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo". Isso é verdadeiro, de uma verdade sobreeminente. Que nossa inteligência seja iluminada por Deus e totalmente aberta à influência divina, é evidente, pois ela é uma inteligência criada "à imagem de Deus". Mas como nossa alma pode ser iluminada, isto é, informada pelo mundo natural dos seres que nos cercam, eis a pedra de tropeço de todo o Agostinismo. É sempre a Platão que São Tomás visa quando examina uma afirmação de Santo Agostinho. Ele é o pai de todos aqueles que "rebus naturalibus proprias substrahunt actiones", que recusam às coisas naturais suas operações próprias; e São Tomás denuncia o Platonismo em Santo Agostinho: "Augustinus autem Platonem secutus quantum fides catholica patiebatur", na medida em que a fé cristã permitia, Agostinho seguiu Platão; ou seja, rejeitou Platão sempre que compreendeu sua incompatibilidade com sua Fé.

São Tomás afirma que há nos seres sensíveis, compostos de matéria, um elemento de estabilidade; e é por isso que os sentidos não se enganam quando julgam os objetos que lhes são próprios. As coisas sendo, elas são realmente inteligíveis no que são, e eficazes nas operações que realizam. Não se pode negar a cada indivíduo a inteligência que lhe é própria. Não se pode negar à alma racional o princípio ativo sem o qual essa alma não poderia realizar sua operação natural. Admitir que Deus é a única Inteligência que opera em todos os homens é supor que Deus criou uma alma racional incapaz de usar sua razão. Por isso, São Tomás conclui: "Deus ilumina nossas almas na medida em que as dotou da luz natural graças à qual conhecem, que é a do intelecto agente (isto é, a inteligência quando opera)". Deus está presente em toda operação de toda criatura e, no entanto, cada uma delas permanece a causa eficaz de sua ação. Essa onipresença de Deus não despoja as coisas naturais de suas ações próprias.

Criar seres incapazes de agir, sem o poder de transmitir uns aos outros algo de sua ação própria, privados do que os torna naturezas distintas, diminuir sua dignidade, não é tirar algo da Glória de Deus?

São Tomás não encontrou antes dele outra filosofia que ensinasse que a inteligência criada é a razão suficiente do conhecimento humano, eliminada toda iluminação divina especial. Mas essa afirmação, ele a sustentará constantemente ao longo de sua vida, e a Igreja a reconheceu como verdadeira, consagrando seu autor como "o Doutor Comum" e "o Anjo da Escola".

E. C.

AS REAÇÕES DOS PODERES PÚBLICOS DIANTE DA PROLIFERAÇÃO DAS SEITAS

OS PERTURBADOS DO OCULTISMO

Frequentemente chamamos a atenção para a proliferação da literatura gnóstica. Sob o nome de "Gnose Universal", partidários e adversários concordam cada vez mais em reunir todo um conjunto de doutrinas esotéricas, ocultistas, cabalísticas, alquímicas, hinduístas, iranianas, sufistas e, de modo geral, orientalistas. Essa produção superabundante tem seus leitores mais ou menos profundamente interessados e convencidos. Há aí uma rede de influência, um verdadeiro movimento de pensamento de grande importância e, no entanto, difuso.

Mas o orientalismo e suas variantes também têm suas pequenas igrejas pontualmente definidas e seus praticantes bem disciplinados. O fato não é novo. Lembramo-nos das obras pré-guerra, como "Paris, capital das Religiões", dos irmãos Izoulat, "Pequenas Igrejas de Paris" e tantas outras. Mas o que é novo é o aumento explosivo do número de seitas desde a guerra de 39-45 e, sobretudo, desde 1968. O formigamento das seitas oculto-gnósticas tornou-se o que hoje se chama de FENÔMENO DE SOCIEDADE.

Essas seitas, umas muito antigas e bastante conhecidas, outras recentes, umas esqueléticas, outras mundialmente difundidas, empregam métodos de meditação, chamados pomposamente de "vias contemplativas", que estão longe de ser inofensivos. Seus perigos são conhecidos há muito tempo, não apenas por seus adversários, mas por seus próprios praticantes. Os líderes de escola dedicam todo o cuidado para barrar o caminho aos deslizes da suposta "contemplação", mas nem sempre conseguem. No estudo que dedicamos à "Iniciação aos Pequenos Mistérios na Antroposofia de Rudolf Steiner" (boletim nº 15, página 30), examinamos as precauções tomadas, nessa escola, para evitar, na medida do possível, por meio de treinamento e exercícios apropriados, a ocorrência do desequilíbrio mental. Mas muitas pequenas igrejas não tomam tantas precauções, de modo que se registra considerável "quebra".

A expansão das seitas trouxe, portanto, a formação de um subproduto: OS PERTURBADOS do ocultismo. A origem de seu transtorno mental deve ser buscada, evidentemente, nas técnicas de meditação a que são submetidos. Não podemos nos estender, neste estudo, sobre a natureza desses métodos. Digamos apenas que todos pertencem ao que a Igreja chama muito justamente de FALSA MÍSTICA, ou seja, a mística que, sob o pretexto de elevar a alma a Deus, a coloca, em última análise, em contato com o mundo dos espíritos infernais. Compreende-se facilmente que os demônios, uma vez em contato com a alma, produzem nela efeitos patológicos que nada mais são do que verdadeiras psicoses, com todos os seus sintomas naturais. O perigo, bem conhecido, repetimos, dos métodos contemplativos heterodoxos, é a loucura. E os líderes de escola não o negam; essa noção do "perigo contemplativo" é encontrada até mesmo em René Guénon, que, no entanto, preconizava a meditação "puramente intelectual", ou seja, a menos nociva de todas; e ele a julgava, contudo, eventualmente perigosa também.

Seja qual for a origem e o mecanismo psicológico da loucura mística, o certo é que, nas seitas, a "quebra" é tão frequente que se criaram, um pouco por todo o mundo, associações para acolher essas infelizes vítimas da falsa contemplação. Citemos apenas como exemplo, para a França, a A.D.F.I. (Associação de Defesa da Família e do Indivíduo - 4 rue Fléchier, 75009 PARIS). Alguns psiquiatras chegaram a desenvolver técnicas de DESPROGRAMAÇÃO para reequilibrar mentalmente esses pobres traumatizados. A uma primeira lavagem cerebral sofrida na seita, eles acrescentam uma segunda, que também não deixa de deixar marcas.

Aqueles que conseguiram arrancar da seita são, muitas vezes, filhos menores ou recém-maiores de idade. Seus pais apresentam queixas cujos motivos se distribuem em torno de quatro temas: sequestro, envio ao exterior, extorsão de quantias em dinheiro, traumas psíquicos. Eis algumas frases colhidas nas declarações dos pais: "Minha filha entrou, enfeitiçada, na comunidade de Krishna" - "É uma escravização de seres humanos" (ainda Krishna) - "Uma psicose parece ser mantida entre os adeptos" (Os Filhos de Deus) - "Essas pessoas parecem ter descoberto o meio de mudar o caráter dos indivíduos" (Nova Acrópole) - "Nossos filhos são robôs a soldo do Reverendo" (Moon) - "É um estupro da consciência" (Gerphir).

A IMPRENSA E OS PODERES PÚBLICOS SE COMOVEM

Em 1978, um escândalo de grande magnitude colocou a questão das seitas na praça pública. Foi o famoso massacre da Guiana, onde cerca de mil pessoas se mataram por imitação de Jim Jones, o líder da seita. Mediu-se então o grau de loucura a que se podia chegar.

Foi nessa época que, nos EUA, a Câmara dos Representantes provocou o estabelecimento de um relatório parlamentar sobre o "fenômeno sectário" em geral: foi o Relatório FRASER.

É interessante notar que o Parlamento Europeu também se interessou pelo problema das seitas. Mas só muito mais tarde. O parlamentar britânico Richard Cottrel foi encarregado por essa assembleia de investigar as atividades de certos movimentos religiosos novos que operavam no interior da Comunidade Europeia. O "Relatório COTTREL" data de 2 de abril de 1984.

Veremos mais adiante quais foram as reações do Parlamento e da Administração na França.

Aqueles pais prejudicados que tinham facilidade com a escrita (sua proporção não deve ser enorme) escreveram livros indignados. O primeiro, que se sabe, foi Arrancadas dos Demônios, de Doreen Irvine (Edições "L'Eau Vive", Genebra, 1973). Depois veio As Novas Seitas, de Alain Woodrow (Edições du Seuil, Paris, 1977). Também Eu Apresento Queixa, de Roger Ikor (Edições Albin Michel, Paris, 1981). E, num estilo filosoficamente bastante "orientado", O Fanatismo, História e Psicanálise, obra coletiva (Edições Stock, Paris, 1980).

Os infelizes pais recorrem primeiro às associações de pais de alunos já existentes (como a U.N.A.F.), mas que não estão muito bem equipadas para prestar socorro efetivo nem às famílias nem aos adeptos. Acabam por se criar organismos especializados, como a já citada A.D.F.I. Ao mesmo tempo, institutos de sondagem como o I.F.O.P. e a S.O.F.R.E.S. realizam pesquisas porque começam a ser interrogados e um certo público se forma para eles nesse "nicho". A partir de 1976, institutos de pesquisas sociológicas como a C.O.F.R.E.M.C.A. também começam a escrutinar o mundo das seitas. Mas todo esse trabalho de investigação é feito num espírito unicamente sociológico. As preocupações religiosas não têm qualquer participação nele.

Passemos agora aos Poderes Públicos. Eles são chamados a tratar desses tipos de casos em situações específicas, mas, curiosamente, não apenas pelos pais lesados ou pelos ex-adeptos traumatizados, mas sim pelos líderes das seitas nas quais alguns pais foram recuperar seus filhos organizando comandos musculosos. Os líderes das seitas, com uma ousadia monumental, consideram ter sofrido, devido ao desaparecimento de seus adeptos, um prejuízo e uma ilegalidade.

Mas os Poderes Públicos só podem aplicar o direito comum, pois não existe legislação especial que regule a atividade das seitas religiosas. É por isso que os questionamentos parlamentares se sucedem sem obter respostas satisfatórias. E os casos rumorosos se multiplicam. O caso "Chateau" (23 de novembro de 1978): uma jovem, adepta da seita Moon, é objeto de um sequestro organizado, sem sucesso, aliás, por seus pais com a ajuda da A.D.F.I. O caso "Taupin" (3 de março de 1982): pais organizam, e conseguem, o sequestro de seu filho maior de idade, adepto de Krishna, e o conduzem a um hospital psiquiátrico para fins de "desprogramação".

Uma vez que a tendência de fazer justiça com as próprias mãos se acentua, a Administração vê tudo vermelho. Por seu lado, a Assembleia Nacional começa a perceber que as seitas gozam de um verdadeiro estatuto protetor e são praticamente intocáveis. Para tentar desatolar esse tipo de caso que irrita a opinião pública, uma comissão de inquérito foi solicitada pela Assembleia Nacional já em 1978. Mas esse pedido foi recusado pela "Comissão de Leis" da mesma Assembleia, que sugeriu, de preferência, a criação, em seu seio, de uma missão de informação. Os trabalhos dessa missão foram presididos pelo deputado Philippe Marchant. Mas foram interrompidos, em junho de 1981, pela dissolução da Assembleia Nacional de maioria de direita. A "Missão MARCHANT" não foi reconduzida pela nova legislatura de maioria socialista.

O Primeiro-Ministro do governo socialista, Pierre Mauroy, vendo que o Parlamento é falho, mas desejoso, por sua parte, de chegar a uma nova legislação, cria uma "Missão Interministerial Interior-Saúde", da qual confia a direção a Jean Ravail, inspetor geral de administração. O "Relatório RAVAIL" é entregue ao Primeiro-Ministro em janeiro de 1982. Ele faz uma constatação importante. Quase todas as novas seitas escolheram o estatuto jurídico de "Associação simplesmente declarada". Portanto, estão sujeitas ao regime da lei de 1º de julho de 1901, que é eminentemente protetora da LIBERDADE DE ASSOCIAÇÃO. Certamente, sociedades desse tipo têm incapacidade para receber legados e doações. Mas é uma incapacidade totalmente teórica no caso das seitas, pois, de fato, essa incapacidade é sempre contornada.

Ao contrário, as grandes religiões oficiais, ditas "Grandes Confissões" (católica, protestante e judaica) estão sujeitas ipso facto à lei de 9 de dezembro de 1905, conhecida como "Lei de separação da Igreja e do Estado", que é uma lei de desconfiança em relação à Igreja e é muito restritiva de suas capacidades.

O Relatório Ravail produz em Pierre Mauroy o efeito que buscava: persuade-o de que é necessária uma legislação mais adequada do que o simples direito comum para conter o arbítrio das seitas. Mas um relatório administrativo não basta ao Primeiro-Ministro para suscitar uma lei: é necessário um relatório parlamentar. Tal é a origem do famoso "Relatório Vivien", que examinaremos agora.

O RELATÓRIO VIVIEN

Em 1º de setembro de 1982, Pierre Mauroy envia ao Vice-Presidente da Assembleia Nacional, Alain Vivien, deputado por Seine-et-Marne, uma carta na qual lhe diz, nomeadamente:

"...Você é encarregado de estudar os problemas colocados pelo desenvolvimento das seitas religiosas e pseudo-religiosas. Cabe a você, mais particularmente, examinar seu estatuto jurídico e financeiro, tanto na França quanto no exterior, e propor medidas próprias para garantir a liberdade de associação no seio dessas seitas, preservando ao mesmo tempo as liberdades fundamentais do indivíduo...".

O Relatório Vivien foi publicado na "Documentação Francesa" em fevereiro de 1983, sob o título As seitas na França, Expressão da Liberdade Moral ou Fator de Manipulação. Título que já indica o embaraço de seu redator.

Para reunir os materiais de seu relatório, Alain Vivien empreende interrogar todos os organismos, oficiais ou privados, que realizaram pesquisas nos últimos dez anos. Ele se dirige primeiro às ASSOCIAÇÕES FAMILIARES já confrontadas com casos concretos e que, por conseguinte, possuem documentação:

O deputado-relator também ouviu os representantes das GRANDES CONFISSÕES:

Ele também pediu pareceres a organismos muito interessados no problema das seitas, as OBEDIÊNCIAS MAÇÔNICAS e as associações a elas aparentadas:

Compreende-se também que ele tenha solicitado o parecer dos MINISTÉRIOS mais ou menos diretamente interessados na atividade das seitas. Ele interrogou assim nove ministérios. E constata-se que não se esqueceu da Presidência da República.

Como Vice-Presidente da Assembleia, cabia-lhe interrogar as grandes FORMAÇÕES POLÍTICAS: o Partido Socialista, o Partido Comunista, o PSU, a UDF, o RPR. Foi o que fez.

Quanto às próprias SEITAS, que eram objeto da investigação, ele não parece ter ido interrogá-las no local. Simplesmente utilizou os depoimentos que lhe foram trazidos por testemunhas ou queixosos: Krishna, a Igreja da Cienciologia, Izo Zen, Espaço Futura, os Cavaleiros do Lótus Dourado, Ecovie. Quanto às outras seitas (ele catalogou 116), ele só as conhece pelas informações fornecidas pelos Ministérios e pelos Serviços de Informações Gerais.

Alain Vivien dedicou-se a um estudo unicamente SOCIOLÓGICO das seitas. Conhecem-se os títulos dos capítulos que precisam ser preenchidos para esse tipo de investigação: estudo do meio social. – Distribuição geográfica. – Recrutamento por faixas etárias e por nível de instrução. – Relação das Seitas com as "Grandes Confissões". – Classificação por importância numérica. – Relações ou não com o Exterior.

Duas particularidades bastante marcantes em todo esse trabalho:

1 – Ausência total de inventário da LITERATURA emanada das seitas. E, no entanto, haveria matéria para um estudo fácil, já que muitas dessas seitas possuem sua própria editora e enviam seu catálogo mediante solicitação. Esse exame da literatura teria permitido uma classificação das seitas por afinidades DOUTRINÁRIAS. Parece que é precisamente isso que Vivien quis evitar, para não ter que se aventurar no terreno das famílias espirituais.

2 – Também não é feita nenhuma menção a algumas seitas, entre as mais importantes, que surpreende não ver ao menos citadas. Citamos três como exemplo, mas facilmente se encontrariam outras: a ARMOC (Organização Rosacruz Mundial), a Sociedade de Teosofia e a Sociedade Antroposófica.

Omissões dessa importância são forçosamente intencionais. Por que imperativo foram ditadas? Quaisquer que sejam as razões que o inspiraram, o certo é que Vivien fez sua investigação recair sobre um lote de seitas pré-selecionadas. Veremos ao final deste estudo que sua pré-seleção só pode vir de uma ordem da maçonaria.

A SÍNTESE SOCIOLÓGICA do relatório Vivien se estabelece da seguinte forma: ele catalogou e estudou 116 seitas diferentes, entre as quais 48 se situam na esfera orientalista, 45 são inspiradas por uma ideia de síntese das religiões e 23 são classificadas por ele como racistas, fascistas (e diversas). Ele estima, portanto, que as seitas assim catalogadas totalizam na França cerca de 500 mil adeptos.

Os órgãos dirigentes dessas diversas seitas estão longe de estar todos em solo nacional. A maioria obedece a uma direção estrangeira. E surpreende saber que três quartos das seitas que estão na esfera orientalista recebem seu impulso, não do Oriente, mas dos EUA ou da América do Sul. Infelizmente, ele dá apenas alguns exemplos: Krishna (cuja sigla é mais frequentemente AICK) conta principalmente com estrangeiros em sua direção central. – A Associação para a Unificação do Cristianismo Mundial é dirigida pelo Reverendo Moon, que é coreano. – O "Sokka Gakkai" tem vínculos diretos com uma seita japonesa. – As "Testemunhas do Graal" dependem de um responsável polonês. – A A.A.O. tem sua sede central na Áustria. – A "Aliança 2000" opera na França, mas todos os seus membros são holandeses. – A Associação "Equilíbrio e Desenvolvimento Humano" é dirigida por um certo Silo, que é argentino. – "A Igreja do Novo Entendimento" (antigamente chamada de "Igreja da Cienciologia") tem um fundador americano, Ron Hubbard. – A "Nova Acrópole" tem sua sede social em Buenos Aires, na Argentina.

A. Vivien tentou classificar as seitas por suas doutrinas ou, antes, por suas espiritualidades. Pertencem à espiritualidade SINCRÉTICA os seguintes agrupamentos: "Missão da Luz Divina", cujo guru é Maharaji. – "A Igreja do Novo Entendimento". – O centro "Oriente-Ocidente". – "A Religião Universal do Deus Único".

Outras organizações são animadas principalmente pela ideia central do ENTENDIMENTO MÚTUO. Eis as mais características dessa categoria: "A Fraternidade Branca Universal". – "A Associação para a Unificação do Cristianismo Mundial" (este é o verdadeiro nome da seita Moon). – "A Reunião dos Amigos" (que também se dá um nome em inglês, "Fellowship of Friends").

Entre os agrupamentos que declaram buscar prioritariamente o DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE, citamos o mais típico: a "Meditação Transcendental".

Uma boa proporção dessas seitas organiza uma vida comunitária da qual participam casais com FILHOS. Na maioria das vezes, a seita cuida ela mesma da instrução dessas crianças e prepara instalações escolares para elas. A. Vivien observou atentamente essa particularidade, pois ela lhe permitiu, como veremos adiante, tirar conclusões sobre as obrigações escolares.

ALGUMAS INFORMAÇÕES INÉDITAS

O Relatório Vivien faz um estudo bastante detalhado de algumas seitas que lhe pareceram mais características dos defeitos que ele quer destacar.

Ele começa pela seita MOON, uma daquelas contra as quais nutre a mais viva animosidade. Ela é, constata, constituída por múltiplas sociedades que dependem umas das outras e que, de 1968 a 1986, não pararam de proliferar e prosperar. O conjunto forma uma verdadeira MULTINACIONAL, juridicamente bastante inatingível. Ele repete o que todos sabem, ou seja, que a ideologia atinge o grau de um verdadeiro arregimentação e que o trabalho dos adeptos rende, às suas sociedades, quantias fabulosas.

Ele não deixa de assinalar que a orientação geral da seita Moon é fundamentalmente anticomunista. É assim que uma das filiais da Moon chama particularmente sua atenção, a organização "CAUSA". Em vez de recrutar entre estudantes e jovens, a "Causa" busca incorporar personalidades influentes, não apenas civis, mas militares, que já são de tendência anticomunista.

A FAMÍLIA DO AMOR (originalmente chamada de "Filhos de Deus") apresenta duas particularidades: ela preconiza a prostituição como meio de recrutamento e publica histórias em quadrinhos, digamos, "bastante leves", em harmonia com esse modo de recrutamento. Nasce um número considerável de crianças nessa "Família do Amor" porque o pessoal feminino é orientado para a prostituição ao mesmo tempo em que os meios contraceptivos são proibidos.

O Centro FUTURA (anteriormente "Izo-Zen") está instalado em um grande local de 400 metros quadrados, chamado "Espaço-Futura". No nível básico, é um grupo de dança moderna, Yoga e Teatro. Mas é provável que, acima desse primeiro grau, graus mais esotéricos venham completar o sistema, como se tem o direito de supor pela leitura de um documento que a "Missão Vivien" recebeu em dezembro de 1982, documento sem data e sem assinatura. Ele reproduz as fichas descritivas pessoais estabelecidas pelos líderes do grupo para caracterizar os membros femininos. Por nossa vez, reproduzimos aqui quatro dessas fichas:

"Martine: sensibilizadora de quadro energético. Serve para decodificar um quadro energético quando este ainda está comprimido demais para ser manuseado normalmente.

"Arielle: sustentadora de plano. Trama energética que permite manter o contato com outra dimensão, mesmo que esta esteja distante por razões de contenção de plano difícil.

"Mali: interceptora de nemeação. Partícula que serve para desfazer certos laços materiais muito pesados e reconectá-los ao circuito interno sob outra forma.

"Reine: metalizadora sutil. Seus quadros energéticos a colocam em relação com zonas de energia muito sutis que seu corpo físico metaliza.

Os TRÊS SANTOS CORAÇÕES. Entre os líderes, notaram-se Roger Melchior e Isabelle Westphal. Esse grupo se apresenta como uma "comunidade monástica com finalidade desinteressada". Os adeptos de base são submetidos a restrições ascéticas com uma intenção religiosa e dolorista. Os superiores conduzem seus adeptos transmitindo-lhes mensagens supostamente divinas que ditam suas diversas atividades. Muitas dessas mensagens contêm injunções divinas para que entreguem aos superiores quantias em dinheiro sob pena de danação. Além disso, os adeptos são obrigados a trabalhos pelos quais recebem folhas de pagamento; mas os salários não lhes são pagos.

A Igreja da CIENTOLOGIA, também chamada de "Igreja da Nova Compreensão", pertence à categoria das seitas que prometem o reequilíbrio do indivíduo. Ela pretende ajudar seus adeptos, mediante a assistência regular a cursos pagos, a tornarem-se "seres felizes e saudáveis". Mas exige a assinatura de um contrato de ASSIDUIDADE aos cursos magistrais por um período de cinco anos. Se o adepto abandonar a seita e interromper os cursos antes do fim do contrato, é obrigado a pagar uma multa rescisória muito elevada. Além disso, o resultado positivo e benéfico do reequilíbrio que lhe foi prometido ao entrar na seita não é nada garantido. Ele, de fato, raramente se realiza.

A Igreja da "Cientologia", cujo um dos principais líderes é um americano chamado Ron Hubbard, deu origem a algumas filiais, das quais aqui estão as duas mais importantes:

1° O GAME (Grupo para a Melhoria dos Métodos de Ensino) 2° O NARCONON, que tem como objetivo a reabilitação de drogados.

AICK ou Associação Internacional para a Consciência de KRISHNA. Esta seita é organizada em comunidades fechadas que recebem solteiros e casais, mesmo com filhos. O dia do devoto compreende onze horas de trabalho. Deve incluir também a recitação do Japa. O Japa é uma espécie de rosário constituído por 108 contas, em cada uma das quais se deve recitar o mantra. É preciso recitar dezesseis Japas por dia.

Os exercícios de piedade dentro dos locais da comunidade são complementados pelo "Sankitran". É uma manifestação em equipe, na via pública, onde se canta e dança e durante a qual se distribui o "Prasada", alimento virtual que tem dois efeitos: serve para dar da seita uma impressão de hospitalidade e amabilidade e, ao mesmo tempo, constitui uma espécie de sacramental, pois todo profano que consome o Prasada torna-se puro por uma operação inconsciente.

A MEDITAÇÃO TRANSCENDENTAL propõe a seus adeptos um objetivo essencial: reverter o processo de envelhecimento. Ela pretende alcançá-lo pela normalização da hipertensão, a melhora da coordenação entre corpo e mente, a melhora geral dos fatores de longevidade... A esses procedimentos de ordem médica juntam-se práticas de meditação de tipo oriental.

Os fundadores da "Meditação Transcendental" visam a liderança político-religiosa da sociedade. Uma espécie de governo filosófico foi criado, cujos ministérios já têm seus titulares e primeiras atividades: o Ministério do Desenvolvimento da Consciência, o Ministério da Lei Natural e da Ordem, o Ministério da Integridade Cultural, da Invencibilidade e da Harmonia Mundial, o Ministério da Educação e da Iluminação, o Ministério das Celebrações, o Ministério da Prosperidade e do Progresso, o Ministério da Informação e da Inspiração, o Ministério de Todas as Possibilidades, o Ministério das Capitais da Era da Iluminação, o Ministério da Saúde e da Imortalidade.

A "Meditação Transcendental" esforça-se para se introduzir nos liceus por meio dos PAE (Projeto de Ação Educativa). Estes são clubes que frequentemente recebem o nome de "Clube de Yoga Mental". Em Paris, o centro da Meditação Transcendental está localizado na Praça Lesage, 4, no XIIº. Existe um boletim trimestral da "Federação Francesa de Meditação". A impregnação mórbida consequente à frequência dos círculos da Meditação Transcendental é uma das mais difíceis de eliminar.

A NOVA ACROPOLE pertenceria, segundo a maioria dos observadores, à esfera nazista. Seus fundadores são de nacionalidade argentina. A "Nova Acrópole" é essencialmente um centro de formação filosófica. Ela recruta por meio de conferências. Declara "inscrever-se na abordagem socrática" (daí seu nome de Nova Acrópole). Busca "a revalorização do pensamento tradicional".

A "Nova Acrópole" deu origem a um agrupamento que reúne os instrutores e os adeptos avançados, agrupamento chamado OINAF, para o qual é publicado o jornal "Nova Acrópole". Existe também um "Corpo de Segurança", que é uma espécie de serviço de ordem e que também é dotado de um boletim interno intitulado "C.S.".

O fundador argentino, Jorge Angel Livraga, publicou um manual reservado aos instrutores e que se apresenta em dois volumes: "O Machado de Ouro" e "O Labirinto de Lápis-Lazúli". Eis primeiro alguns trechos de "O Machado de Ouro":

"Em relação ao Comandante central, o Instrutor deve ser diligente mais em atos do que em palavras e deve abster-se de julgar, mesmo no fundo de seu coração, aqueles que suportam encargos quase inconcebíveis para ele... A partir do momento em que é nomeado dirigente, deve compreender, de maneira clara e concisa, que sua entrega ao Ideal deve ser total, que deve apagar de sua vida tudo o que a complicaria, por mais duro que possa parecer... Os choramingos da sensibilidade devem ser esmagados sem piedade... O dirigente deve ser duro e não fazer concessões... E se o desgaste de vários anos de trabalho o esgotar, que confesse isso apenas a seu comandante imediato, e que aceite sua decisão, pois a partir do momento em que o consulta, perdeu o direito moral de decidir por si mesmo."

Eis agora um trecho do segundo volume do manual interno:

"A Nova Acrópole é uma estrutura que se alimenta de homens e que transmuta os mais aptos em seu grande corpo e em sua grande alma, transformando-os em super-homens; os inaptos são deixados para trás. Tal é a dolorosa lei. Eles serão acolhidos por alguma estrutura hiena onde, em alguma medida, se realizarão: mas cuidemos de não envenenar, por falsos sentimentalismos, a Águia de Ouro, senão esta, inexoravelmente, morrerá." (página 11).

O que é essa "Águia de Ouro"? Os textos de que dispomos não o revelam. Mas um editorial do Boletim do "C.S." pode nos colocar na pista; este editorial exorta os membros do corpo de segurança a demonstrarem disciplina para que este corpo, que ainda é apenas um "embrião da guarda da Roma imperial e do exército napoleônico", se torne "um grande exército, uma grande força... um metal de fogo que fará vibrar os diferentes povos numa mesma frequência." É evidente que a "Nova Acrópole" é de inspiração fascista.

O grupo da NICHIREN SHOSHU pertence a todo um conjunto de organizações japonesas como a "Soka Gakkai internacional" e o Komeito. As posições relativas de todas essas organizações são difíceis de deslindar. A "Nichiren Shoshu francesa" é, em princípio, de confissão budista. Infelizmente, ela mantém más relações com a "Associação dos Budistas da França", cujo Presidente Daniel-Léonard Blanc lhe reprova sua estrutura totalitária, sua dinâmica de infiltração (redes econômicas, científicas e culturais) e suas atividades de subversão popular (pacifismo de inspiração soviética). Essas reprovações geram a impressão de que os soviéticos utilizam a "Nichiren Shoshu" como suporte de uma rede de informações científicas e econômicas.

Das 116 seitas que catalogou, A. Vivien estuda detalhadamente apenas aquelas (em número de nove) que acabamos de citar. Vê-se que seu relatório não falta em minúcia e que contém informações impossíveis de encontrar em outro lugar.

AS SEITAS PERANTE A LEI FRANCESA

Os Poderes Públicos não estão totalmente desarmados para sancionar os delitos de direito comum que se podem atribuir às seitas. Elas podem ser objeto de ações repressivas em dois tipos de infrações: as infrações ao código penal e as infrações aos regulamentos de administração pública.

Tentemos medir qual é a frequência dos delitos penais cometidos no interior das seitas. A. Vivien fez ele mesmo o cômputo durante um período de sete anos. As infrações das seitas ao código penal durante o período de 1975 a 1982 foram de oitenta e quatro. Fica-se surpreso com o magro resultado das queixas a que deram origem. Dessas 84 queixas, 35 foram imediatamente arquivadas sem seguimento; o Ministério Público as considerou, portanto, sem fundamento.

E dessas 24 condenações, é preciso notar que vinte foram proferidas por infrações totalmente menores: duas por algazarra noturna, quatro por distribuição de panfletos a motoristas na via pública, quatorze por regulamentos administrativos como, por exemplo, interpelações de transeuntes na via pública ou a disposições sanitárias em locais frequentados pelo público.

Esta recapitulação, que extraímos do relatório Vivien, termina com uma conclusão que citamos na íntegra: "Apenas quatro delas sancionaram delitos de gravidade indiscutível (duas por estelionato, uma por provocação à discriminação racial, e outra finalmente por não apresentação de criança)." Assim, Vivien considera que a provocação à discriminação racial é um delito "de gravidade incontestável", o que é surpreendente para alguém que se propõe a chegar ele mesmo à discriminação entre as "boas seitas" que se devem proteger e as "más" que se devem dissolver, como veremos a seguir.

As infrações das seitas aos regulamentos de administração pública são objeto, no relatório Vivien, de um estudo muito completo. Elas são classificadas por ministérios envolvidos, e há doze páginas. Para concluir, ele estima que, em sua opinião, em caso de acumulação de infrações caracterizadas a essas disposições regulamentares, as condições para a aplicação do procedimento judicial de DISSOLUÇÃO estão reunidas: "Toda associação... contrária às leis... é nula e de nenhum efeito". A dissolução deve então ser pronunciada pelo tribunal de grande instância.

O Primeiro-Ministro Pierre Mauroy havia pedido a A. Vivien que conduzisse sua investigação não apenas na França, mas também no exterior. O relator dedicou-se longamente a esse trabalho (dezesseis páginas). Ele constata que os países de legislação liberal não dispõem de nenhuma lei específica contra as seitas. Limitam-se, como a França atualmente, a aplicar-lhes o direito comum das associações com mais ou menos severidade. Os únicos países que dispõem de uma legislação específica em relação às seitas são os países totalitários; e trata-se de uma legislação eminentemente repressiva.

AS PROPOSTAS DE VIVIEN

Pierre Mauroy pediu a Alain Vivien que formulasse propostas. Eis o resumo:

Primeira proposta: "Assegurar um acompanhamento pertinente do fenômeno sectário". Ele constata, primeiramente, que não é possível suprimir um "fenômeno social". É preciso contentar-se em domá-lo. Ademais, o direito de associação pertence aos direitos humanos.

Para domesticar as seitas, ele preconiza uma ESTRUTURA INTERMINISTERIAL que exerça sobre elas uma dupla função: de tutela para ajudar as "boas" seitas e de vigilância para circunscrever as "más" e, se necessário, dissolvê-las. Essa estrutura interministerial desempenharia, em relação às seitas, o papel que outrora o Ministério dos Cultos exercia para as "Grandes Confissões".

Segunda proposta: "Prevenir e Informar com Imparcialidade." O relator quer, primeiro, reunir uma DOCUMENTAÇÃO TEÓRICA sobre as seitas e, para isso, obter informações tanto de organismos privados competentes quanto de organismos universitários que, cada vez mais, se especializam nesse estudo. As informações assim obtidas seriam divulgadas nas instituições escolares e nas associações de juventude e de pais de alunos para informá-los, assim como para alertá-los, eventualmente.

Terceira proposta: "Uma laicidade aberta". Alain Vivien mostra-se aqui um perfeito aluno da maçonaria, da qual repercute os temas e o vocabulário. Ele lamenta que, desde sua vitória sobre o monopólio da escola confessional, no século XIX, a LAICIDADE tenha sofrido uma degradação; tornou-se uma simples e passiva NEUTRALIDADE. "Essa degradação da laicidade em neutralidade só poderia levar a eliminar a dimensão metafísica inerente à pessoa humana, mesmo no caso em que essa dimensão se expressa pela recusa de toda transcendência." Aqui estamos em plena terminologia maçônica. Ele explica que as seitas se aproveitaram do vazio metafísico que a laicidade militante, degradada em simples neutralidade, não conseguiu preencher: "É preciso, portanto, chegar a uma laicidade aberta que deveria permitir uma confrontação das diversas ideologias religiosas e filosóficas."

Para esse fim, ele aconselha ao alto funcionário encarregado da "estrutura interministerial" de tutela que entre em contato com as fontes da UNESCO e com a Liga dos Direitos Humanos.

Quarta proposta: "Superar o Quadro Nacional". Seria desejável que a "Estrutura interministerial" obtivesse o estatuto das OING (Organizações Internacionais Não Governamentais).

Quinta proposta: "Informar melhor o grande Público". Aqui ele se lança na técnica da televisão e da imprensa. O que diz não tem interesse fundamental.

Sexta proposta: Reside em uma palavra: "Mediatizar". Alain Vivien propõe estabelecer um organismo intermediário, ou seja, mediador, entre, de um lado, a família e o adepto que estão separados por uma série de mal-entendidos e, de outro lado, a seita e o adepto que já não tem vontade suficiente para se desvencilhar. O relator confia essa tarefa mediadora a um magistrado cujo papel seria análogo ao "juiz da família". Esse magistrado asseguraria um ALOJAMENTO provisório ao adepto que tivesse deixado a seita.

Sétima proposta: "Adaptar o Código da Seguridade Social". As seitas negligenciam inscrever na seguridade social os adeptos que trabalham. É preciso encontrar um meio de corrigir essa lacuna que entrava a livre decisão do adepto.

Oitava proposta: "Socorrer os franceses expatriados". Aqui é de técnica administrativa.

Nona proposta: "Afirmar os direitos da Criança". Nesta última proposta, Alain Vivien reivindica, primeiro, os direitos do Estado sobre a criança; o Estado tem o direito de opinar na educação familiar. Em seguida, ele condena o princípio da ESCOLA CONFESSIONAL quando escreve: "Tais estruturas escolares, na medida em que escolhem enclausurar os alunos em um MEIO UNÍVOCO, sem nenhuma abertura para o pluralismo metafísico, filosófico e religioso, constituem PSEUDOESPAÇOS EDUCATIVOS, pois atentam contra a liberdade de escolha ou de confirmação dos alunos neles reunidos."

Vê-se que o relatório Vivien data da época em que o novo governo de Pierre Mauroy tomava todas as disposições para a edificação do socialismo. Ele acrescenta, de fato, ao falar das escolas confessionais: "Elas deveriam desaparecer, no âmbito da reflexão atualmente conduzida sobre o sistema educacional francês com base na LAICIDADE ABERTA e no pluralismo das convicções e dos projetos pedagógicos." E as escolas confessionais assim submetidas a esse regime de "laicidade aberta" são as escolas organizadas pelas seitas para os filhos dos adeptos, mas são também as escolas católicas. O relatório Vivien data da época da luta dos Poderes Públicos pela laicização da escola.

QUEIXAS DE DUPLA FACE

Vimos que o relatório Vivien resume a opinião das diversas instâncias públicas e privadas junto às quais ele investigou. Ora, todas essas instâncias se situam na órbita maçônica, isso é incontestável. Certamente, o relator consultou representantes da Igreja Católica conciliar, mas eles só puderam expressar, em matéria de direitos humanos, tolerância, livre pensamento e ecumenismo, as teses da maçonaria, às quais a Igreja Conciliar está totalmente convertida.

Consequentemente, a opinião expressa por Alain Vivien não é apenas a do Parlamento, da Administração e das "Confissões religiosas", é antes de tudo a da maçonaria. O Dr. E. Corcos, no número de abril-maio de 1980 da revista "Humanisme", que expressa o ponto de vista do Grande Oriente da França, resume assim as QUEIXAS da maçonaria contra as seitas: "O que podem trazer aos jovens do nosso mundo moderno as mascaradas dessas associações que só retiveram do Budismo a renúncia ao mundo material, para ESPOLIAR financeiramente seus adeptos, da meditação apenas sessões de DOUTRINAÇÃO, do autoconhecimento apenas um CONDICIONAMENTO por litanias esvaziadas de todo contexto?"

Recapitulemos as QUEIXAS de Alain Vivien (que são também, em última análise, as da maçonaria) contra as 116 seitas pré-selecionadas que ele colocou em sua mira.

Primeira queixa: Ele as acusa de se entregarem, sob o pretexto de meditação oriental e contemplação, a um verdadeiro CONDICIONAMENTO mental. Elas praticam uma desconexão do indivíduo de sua família, sua profissão de origem e da sociedade como um todo. Essas lavagens cerebrais são condenáveis, não apenas porque colocam o adepto em risco de desequilíbrios psíquicos, mas também porque são, por si só, atentatórias à liberdade individual, mesmo que não resultem em um transtorno mental. Desse tipo de condicionamento resulta uma verdadeira SEQUESTRAÇÃO MORAL.

Apressemo-nos em reconhecer que há, nessas críticas de Alain Vivien, uma grande parte de verdade. Ocorre uma violação do livre-arbítrio que poderíamos chamar de "camisa de força psicológica", por analogia com a "camisa de força química" realizada pelos neurolépticos.

Segunda queixa: ele também acusa as seitas de suas IDEOLOGIAS TOTALITÁRIAS. Em sua opinião, as seitas (pelo menos as 116 que ele pré-selecionou) praticam o FANATISMO. Elas não são pluralistas, não são tolerantes. Compartilham um pensamento de tipo DOGMÁTICO, pretendendo ser as únicas detentoras da verdade.

Terceira queixa: Nas escolas das seitas, nenhuma liberdade de julgamento é deixada à criança. O ensino lhes é imposto sem que possam fazer a menor comparação com ensinamentos diferentes e, assim, realizar uma escolha livre e pessoal. Essa orientação obrigatória é, segundo Alain Vivien, contrária aos DIREITOS DA CRIANÇA.

Quarta queixa: o trabalho dos adeptos, nas seitas, é organizado segundo o princípio do VOLUNTARIADO. Exige-se um trabalho não remunerado (vimos que, mesmo que existam folhas de pagamento, elas correspondem apenas a pagamentos fictícios).

Essas são as quatro queixas essenciais que Vivien formula contra as seitas. Quatro fontes de delitos que não estão positivamente previstas no código penal e nos regulamentos administrativos e que, portanto, justificam a elaboração de uma legislação específica "antisseita". - Não incluímos as malversações financeiras porque, em primeiro lugar, elas não são específicas das seitas e, em segundo lugar, podem ser reprimidas pela legislação penal.

A enumeração dessas queixas nos sugere imediatamente uma reflexão. Essas quatro críticas de sequestro moral, ideologia intolerante, instrução não pluralista e exploração do voluntariado são precisamente aquelas que a maçonaria sempre dirigiu às CONGREGAÇÕES CATÓLICAS. Os conventos e as escolas católicas sempre foram acusados de sequestrar os monges com votos perpétuos, de expor um dogma que pretende ser o único detentor da verdade, de enclausurar os alunos em um ensino autoritário e de se aproveitar do trabalho voluntário de uma multidão de pobres ingênuos.

O DELITO DE INTOLERÂNCIA

Se, portanto, os Poderes Públicos vierem um dia a estabelecer uma DEFINIÇÃO LEGAL DE SEITA, podemos ter a certeza de antemão que essa definição será tal que possa ser aplicada, sem qualquer alteração, às congregações católicas e, muito particularmente, às tradicionalistas que não quiserem aceitar as adaptações legais-canônicas que lhes estão sendo preparadas. As congregações tradicionais serão classificadas entre as seitas e, fatalmente, tratadas como tal.

Uma segunda reflexão se impõe a nós ao final deste estudo. A ofensiva da maçonaria e dos Poderes Públicos contra as seitas tem algo de surpreendente, à primeira vista, mesmo que se trate de seitas pré-selecionadas. Pois, afinal, os grupos que se colocarão assim em risco de dissolução inspiram-se todos na mesma RELIGIÃO GNÓSTICA que constitui o fundamento do ensino maçônico desde suas origens. É o mesmo ódio ao catolicismo, a mesma mística egocêntrica, o mesmo panteísmo cósmico, o mesmo sincretismo, a mesma "Religião Universal".

Contudo, refletindo, descobre-se que esse parentesco doutrinário é precisamente o motivo da hostilidade que a princípio surpreende. Com efeito, a proliferação explosiva dos grupos ocultistas e orientalistas multiplicou o número de charlatães, mercenários, vigaristas, aventureiros mais ou menos iluminados, de modo que se criou uma franja de seitas no limite da legalidade, que DESCREDITAM a religião gnóstica da qual se inspiram. Essa franja é prejudicial para a própria gnose porque a faz aparecer ao grande público sob uma luz desfavorável. É preciso, portanto, tentar se livrar desses grupos comprometedores.

Para isso, é absolutamente indispensável elaborar uma legislação especial? O direito penal comum é realmente impotente para limpar essa franja de seitas que constantemente beira a infração? Há realmente necessidade de uma lei especial para afrouxar os laços da "camisa de força psicológica"? Alain Vivien diz que sim. Não é absolutamente evidente. O fato é que o essencial da lei antisseita consistirá na criação do DELITO DE INTOLERÂNCIA e, portanto, na obrigação do pluralismo.

Mas veja como isso cai bem: a lei antisseita se aplicará perfeitamente às execráveis e execradas congregações católicas que, também elas, são culpadas de intolerância e não pluralismo, pois ensinam uma lei intransigente e impõem disciplina a seus fiéis.

É exatamente isso que o relatório Vivien faz, sem dizê-lo abertamente. Mas seria preciso ser o último dos ingênuos para não perceber a manobra.

De fato, a legislação antisseita não vingou porque sua elaboração foi interrompida. O governo socialista, que havia começado a desenvolvê-la, foi impedido pela vitória da Escola Livre e pelo retorno eleitoral da direita. Mas não percamos a esperança. Quando virmos a lei sobre as seitas reaparecer, poderemos dizer que os grupos tradicionalistas não estão longe de se tornarem ilegais.

J. V.

A DESCOBERTA DO ISLÃ - IV

EVOLUÇÃO DO PODER POLÍTICO MUÇULMANO DO SÉCULO XV AO SÉCULO XX

Constantinopla caída nas mãos do Islã e, apesar dos apelos dos Papas, a Cristandade ocidental permaneceu amorfa. Ela acabava de sair da Guerra dos Cem Anos, terminada vitoriosamente pela França, em Castillon, no Dordogne, no ano em que Bizâncio sucumbia.

A tocha da reconquista seria retomada por aqueles que foram impregnados pela fé bizantina e sempre mantiveram relações contínuas com Constantinopla. Kiev, Novgorod e depois Moscou iriam, num primeiro momento, repelir os muçulmanos mongóis. Não foi sem dificuldade.

Apesar da vitória de Kulikovo em 1380, os mongóis, ajudados por Tamerlão e contingentes ocidentais – poloneses, alemães, genoveses, espanhóis – incendiaram Moscou.

Foi somente sob Ivan III (1462-1505), esposo da última Princesa Paleóloga, herdeira legítima de Bizâncio, que a vitória mudou de lado. Moscou tornou-se a sede do Metropolita ortodoxo. Toda essa igreja se associou à obra de reerguimento, evoluindo num sentido antiocidental e antirromano. Moscou substituiu Bizâncio.

Maomé II morreu em 1481. A sucessão não foi fácil. Provocou hesitações na autoridade do novo mestre, Bajazeto II. A frota pontifícia retomou bases muçulmanas, incluindo Otranto. O anúncio do fim do Reino muçulmano de Granada, em 1492, acentuou o mal-estar. Os mamelucos do Egito obtiveram alguns êxitos contra os otomanos.

Finalmente, o exército profissional depôs o Sultão e os janízaros o substituíram por Selim. Após ter afastado da sucessão um filho de Bajazeto, Selim I (1512-1520) mereceu seu apelido de Cruel ao mandar massacrar toda a sua família — a tranquilidade o exigia!

O Ocidente cristão havia se recomposto um pouco. Consolidara o "limes". Uma frota de guerra controlava o Danúbio. O novo Sultão preferiu voltar-se para a Ásia para restabelecer a unidade de seu império.

Sunita zeloso, Selim iniciou uma feroz perseguição contra os xiitas e tomou a Pérsia em 1513-1514. Ele anexou o Curdistão, a Alta Mesopotâmia, a Síria e as cidades santas da Arábia.

Em seguida, voltou-se contra os mamelucos do Egito, derrotando-os em Alepo em 1516, antes de tomar o Cairo em 1517. O califa abássida residente cedeu-lhe o poder espiritual, e Selim assumiu o título de Comandante dos Crentes. Os mamelucos continuaram a servi-lo sob a autoridade de um paxá e de vários beis.

No Norte da África...

O sultão e seus sucessores não tentaram restabelecer seu poder central sobre o Norte da África. As cidades costeiras da Cirenaica eram controladas por árabes. A Tunísia, nas mãos do Reino Háfida, que se manteve até 1574, testemunhou o fim da nona cruzada e a morte do rei da França, São Luís.

O país foi devastado por uma nova invasão dos nômades árabes beduínos Buni Sulaym, por volta de 1347-1350, e pela invasão oposta dos marroquinos, os merínidas, de 1357 a 1358. Foi, em suma, a revanche da anexação, no século XIII, de todo o oeste argelino: Argel em 1235 e Tremecém em 1247.

Finalmente, a unificação e a calma retornaram por volta de 1370. Foi preciso esperar quase dois séculos para ver Túnis tomada pelos corsários. Também eram numerosos os árabes instalados nos portos e nas cidades importantes, estrutura de uma administração latente.

Na outra extremidade, apenas o Marrocos havia escapado à penetração árabe. Uma tribo zenata, os Banû Marin (merínidas), conquistou todo o território a partir de 1230. O chefe Abû Yusuf Ya'Qûb se autodenominou Sultão do Marrocos e reinou de 1269 a 1286 sobre as planícies e vales.

Os merínidas exauriram-se em lutas contra os abdalwádidas de Tremecém e em expedições à Espanha. A partir de 1420, outra tribo zenata, os wattásidas, conseguiu suplantá-los. Um período de distúrbios internos e incursões europeias se estenderia por várias décadas. Já em 1492, muitos mouriscos emigrados ou expulsos da Espanha refugiaram-se no Marrocos. Recolhidos nos oásis do Sul, os marabutos pregaram a jihad.

Finalmente, por volta de 1554, a dinastia xarifiana do Suz, os sadianos, assumiu o controle do país. Eles recuperaram vários portos do Atlântico ocupados pelos portugueses, cujo exército derrotaram em 1578.

Sob o reinado do sadiano Al-Mansour, em 1591, os marroquinos expandiram-se para o Sul, em direção ao trecho do Níger, para controlar a rota do ouro, do sal e dos escravos negros. Tomaram Tombuctu. Com a morte de Al-Mansour em 1603, ocorreu uma fragmentação do território, mas os alauítas, tribo vinda do Tafilete, restauraram certa unidade ao dominar as planícies. Essa dinastia duraria até os dias atuais. Ela só conseguiu realmente fazer a unidade após reconhecer o poder dos grandes chefes do Atlas. Já em 1767, um acordo consular foi assinado com a França, mas os marroquinos tenderam a se aproximar das nações protestantes europeias, com a Inglaterra à frente...

As Principais Evoluções

Desde a interrupção das operações otomanas na Europa, uma calma aparente reinava no Ocidente. Enquanto a Cristandade entrava no período chamado Renascimento, cujo brilhante progresso artístico não compensou os distúrbios e desvios espirituais, intelectuais e morais, desenvolveram-se três fenômenos cujas consequências seriam muito importantes para o Islã e sua lança, o Império Otomano.

Em primeiro lugar, foi a rejeição dos maometanos para fora da Espanha e, paralelamente, a modificação do Magrebe central e de suas costas, a expansão comercial no Mediterrâneo e a aventura portuguesa, cortando a Porta de suas receitas do Extremo Oriente.

... Na Espanha

Na Espanha, Isabel de Castela casou-se com Fernando de Aragão em 1469. Dez anos depois, eles reinavam conjuntamente sobre seus domínios espanhóis e sobre as Ilhas Baleares, Sardenha e Sicília.

Os "Reis Católicos" retomaram a luta da "Reconquista", interrompida em 1248 com a tomada de Sevilha. Apenas o reino muçulmano de Granada havia subsistido, criado no século XI por um zirida vindo da África para servir ao Emir de Córdova. O poder passou em 1235 para os nasridas. Devido à sua situação excepcional e ao laxismo religioso de seus príncipes, o reino conheceu um notável desenvolvimento cultural, artístico e econômico. Por volta de 1480, eclodiu uma disputa entre os zegris reinantes e uma abencerragem Aixa que, pela força da espada, colocou no trono seu filho Boábdil. Essa foi a oportunidade. A guerra conduzida pelas tropas católicas durou de 1481 a 1492, ano em que, após um longo cerco, Granada foi ocupada.

Para a reorganização do país, Fernando e Isabel governaram vigorosamente: polícia real, controle do Rei sobre as grandes ordens religiosas militares, reorganização da administração e do exército, controle da Igreja.

Eles tiveram que resolver o difícil problema da presença na Espanha de duas minorias não católicas: os judeus, muito numerosos e bastante ricos, alguns dos quais convertidos (marranos) de forma mais ou menos segura; e os muçulmanos. Estes incluíam os fiéis ao Islã e os mouriscos, pseudoconvertidos ao catolicismo. Eram os habitantes dos subúrbios das cidades e das regiões montanhosas.

Já em 1478, os Soberanos intervieram em Roma. A seu pedido, o Papa Sisto IV confiou a Inquisição, então adormecida, ao poder temporal.

Em 1492, uma decisão radical expulsou da Espanha todos os judeus não convertidos. Muitos se refugiaram entre os muçulmanos e, mais particularmente, em Túnis, que se beneficiou de suas qualidades intrínsecas.

Em 1499, os muçulmanos de Granada foram convertidos por ordem do Cardeal Cisneros, grande inquisidor. Seguiu-se uma revolta, sufocada em 1502. O batismo forçado foi amplamente utilizado. Em 1526, Carlos V decidiu pela conversão... A revolta eclodiu em 1568 em Granada, em 1610 e 1614 em diversas regiões, sem qualquer vínculo entre os movimentos.

Em 1569, seu irmão Dom João da Áustria assumiu o comando militar para restabelecer a ordem. Os mouriscos foram deportados à força e substituídos por espanhóis.

Eles desfrutaram de uma certa trégua, pois a Espanha estava em conflito com a Inglaterra e a França. Além disso, conduzia a repressão nos Países Baixos contra a Reforma Protestante e a secessão. Desde o aparecimento das primeiras revoltas no início do século XVII, Filipe III ordenou a expulsão e o transporte para a "Berbéria".

Deste período, é preciso reter a conclusão do historiador Fernand Braudel:

"O mourisco permaneceu inassimilável. A Espanha não agiu por ódio racial... mas por ódio de civilização, de religião. A expulsão é a confissão de sua impotência... A prova de que o mourisco, após um, dois, três séculos, conforme o caso, permaneceu o mouro de outrora... Ele se recusou à civilização ocidental, e isso é o essencial do debate."

... O devir do Magrebe

O segundo fenômeno é a transformação sofrida pelo Magrebe central. Entre dois Estados relativamente organizados a Leste e a Oeste, o que viria a ser a Argélia conheceria uma profunda modificação socioeconômica.

O Marrocos, muito mais distante do Oriente, foi relativamente logo isolado dos árabes e dos turcos. A Tunísia, posição estratégica importante, estava ocupada há muito tempo pelos árabes e sua administração. Seu porto de Túnis, em frente à Sicília, plataforma católica desde 1072, rapidamente interessou aos corsários.

As grandes invasões foram obra de tribos nômades ou que se tornaram tais pela força das circunstâncias. Os beduínos árabes vindos da Cirenaica atravessaram a Tunísia para inundar as planícies e vales da Argélia. Os outros, berberes, subiram da mesma forma para o Marrocos.

Montados em cavalos e dromedários, os invasores evitaram os maciços montanhosos, onde se refugiaram os sedentários. A passagem direta do deserto para o Mediterrâneo através dos maciços argelinos era, na época, impossível. A beduinização, conquista árabe, ou os raides marroquinos, espalharam-se como uma inundação, cercando as terras altas como o mar cerca as ilhas.

Provocando a destruição das culturas e das pequenas aldeias, essas correntes saqueadoras rejeitaram a maioria das tribos para a montanha, como já havia ocorrido no Oriente Médio com os maronitas e os curdos. Seguiu-se uma espécie de estagnação das zonas montanhosas, que evoluíram muito lentamente, conservando um modo de vida arcaico mantido até os dias de hoje. A penetração do Islã e de seus representantes consagrados, árabes e depois turcos, só se deu muito lentamente. No século XIV, numerosos idólatras, pagãos, animistas ou cristãos, foram mencionados pelos autores árabes. As populações cabilas e berberes conservaram seus caracteres étnicos.

Na costa mediterrânea, ao contrário, cortada do interior por uma verdadeira zona de insegurança, os pequenos portos bem abrigados, onde vivia um pequeno povo de pescadores, artesãos e comerciantes necessários à vida dos piratas, receberam o acréscimo demográfico de algumas tribos expulsas pela invasão. Toda essa costa mediterrânea, desde as costas andaluzas até a passagem entre Túnis e a Sicília, foi um mar islâmico antes do fim de Boabdil.

À medida que o comércio marítimo se desenvolvia, a tonelagem dos navios aumentava e os armamentos melhoravam, os portos viram sua importância crescer. Muitos judeus e mouriscos expulsos da Espanha ali se estabeleceram. Os marinheiros franceses, italianos e venezianos, marinheiros mercantes ou corsários, tomaram o hábito de fazer escala nesses portos "francos". A vida dessa faixa costeira ocidentalizou-se rapidamente.

A frota muçulmana havia se desenvolvido para garantir a segurança das costas da Ásia Menor e a livre circulação no Mar Egeu. Paralelamente, os corsários muçulmanos, cada vez mais numerosos e audaciosos, participavam da guerra contra a grande rival marítima, a Espanha. Esses corsários gradualmente se tornariam os senhores desses portos do Magrebe central e, depois, da Tunísia. Suas atividades permitiram o rápido desenvolvimento de Argel, uma verdadeira cidade-fungo. Ela seria a base da retomada do controle de todo o interior pelos muçulmanos turcos.

Além disso, a abertura do Estreito de Gibraltar à navegação europeia, dos portugueses aos noruegueses, passando pelos dinamarqueses, as "naves" das Cidades Hanseáticas, dos Países Baixos e da Inglaterra, imporia gradualmente a superioridade ocidental e provocaria as diversas intervenções interessadas das "Potências".

... A rota das Índias

O terceiro evento capital foi a abertura da via marítima da Península Ibérica para as Índias Orientais, contornando o Cabo da Boa Esperança.

Se Fernando, o Católico, lançara seus navios contra os portos da "corsária" e as frotas muçulmanas para garantir a livre navegação com a Sicília, reservatório de grãos, com sucesso — tomada de Melilla (1497), de Mers el-Kébir, do Penon de Vélez (1508), de Orã (1509), do Penon de Argel, de Djerba (1510), de Trípoli da Barbária... — as forças espanholas nunca tentaram a conquista do interior.

A paz franco-espanhola de 1544 pôs fim a uma guerra durante a qual a frota otomana foi aliada dos franceses contra Carlos V. As esquadras liberadas foram usadas apenas para o reabastecimento dos "presídios" e para a manutenção da supremacia marítima, com uma nova tomada de Djerba em 1560, os ataques contra Túnis em 1573-1574, precedidos pela tomada de Malta (1565) e, como coroamento, a vitória de Lepanto em 1571. Nenhum soberano espanhol tentou se estabelecer no Magrebe e conquistá-lo, o que estava ao seu alcance.

Os portugueses participaram dessa guerra marítima. Senhores de Ceuta em 1415, depois da Madeira (1418), anexaram os Açores a partir de 1432. Não mais atraídos para o interior das terras marroquinas, lançaram-se na aventura marítima costeando a costa atlântica africana.

Aventura interessada: toda a Europa buscava o comércio com as Índias Orientais, mas a rota era, senão bloqueada, ao menos fortemente taxada pelas autoridades muçulmanas e pelas cidades italianas de Gênova ou Veneza. Além disso, Portugal queria participar do comércio de ouro e de escravos negros. O caminho africano se impunha.

Navegadores e missionários católicos embarcaram. O Cabo Bojador foi dobrado em 1434 e o Rio del Oro alcançado em 1436. Sob a influência de Henrique, o Navegador, os portos marroquinos foram conquistados: Tânger e Arzila (1471), Santa Cruz de Aguer (1505), Mazagão, Safim (1508). As naus portuguesas chegaram à Serra Leoa; depois às Ilhas de Cabo Verde; cruzaram o Equador, criaram um forte em Gana em 1482, e então tocaram o Zaire e Angola.

Finalmente, em 1487, com Bartolomeu Dias, contornaram o Cabo da Boa Esperança e entraram no Oceano Índico. Vasco da Gama foi o primeiro a alcançar as Índias...

Os missionários católicos atuaram na África subsaariana: os jesuítas viram entronizar o primeiro bispo negro em 1518. Novas dioceses foram criadas em São Salvador e em Angola. Houve também muitos fracassos, como em Moçambique, e muitos mártires.

No Mar de Omã, os navios portugueses, vasos do Atlântico, não tiveram dificuldades em assegurar a dominação marítima. O comércio muçulmano, importante fonte de receita para os portos do Mediterrâneo e para o Sultão, foi arruinado.

Do bombardeio de Calicute (1502) à chegada a Macau (1557), a marcha triunfal passou por Socotorá, Diu, Mascate, Goa, onde foi instalado um vice-rei, Malaca, Ormuz, as Ilhas Molucas, o Sião, o Camboja, a China e o Japão.

Os muçulmanos reagiram rapidamente. Uma frota estava baseada no fundo do Golfo Pérsico, em Baçorá. Outra foi lançada ao mar em Suez, após o transporte por caravanas das galeras desmontadas. Eram apenas navios a remo, projetados para o Mediterrâneo e muito inferiores às embarcações portuguesas ou espanholas.

Os maometanos tomaram Áden em 1538, mas fracassaram diante de Diu, na costa do Indostão. A campanha marítima de 1554 resultou em fracasso, pois os navios europeus eram poderosos demais. Em 1556, a frota de Baçorá atacou as costas da península de Guzerate. Em 1585, ocorreu um ataque liderado por Mirali Beg contra as posições portuguesas na costa oriental africana. Os portos de Mogadíscio (Somália), Barawa, e Jumbo, no Equador, foram tomados. O Príncipe de Mombaça (Quênia) declarou-se vassalo da Porta. No ano seguinte, os otomanos invadiram todos os outros pontos, exceto Melinde, Patta e Kelife, que permaneceram portugueses. Os turcos decidiram fortificar Mombaça, porto que comandava o acesso às minas de ouro. A frota portuguesa interveio, bloqueando os navios turcos no rio de Mombaça. Todos foram destruídos e os sobreviventes feitos prisioneiros. A guerra marítima estava terminada!

... O surto missionário católico no século XVI

Aproveitando as velas lusitanas, os jesuítas intervieram na Etiópia. O Negus havia apelado várias vezes, seja aos Franciscanos da Terra Santa, seja a Roma, para ser ajudado em sua luta contra o Islã. Embora monofisistas, os abissínios foram ouvidos. Chegaram um contingente de soldados portugueses e uma verdadeira missão jesuíta, lançada em 1555 pelo Papa Júlio III e Santo Inácio de Loyola. Apesar do fracasso e da pressão muçulmana no Mar Vermelho, uma nova missão foi enviada em 1589. Finalmente, em 1613, o Rei dos Reis aderiu oficialmente ao Catolicismo.

São Francisco Xavier desembarcou em 1542 em Goa com o Vice-Rei. Ele tinha o posto de Núncio Apostólico. Evangelizou nas Índias, na Malásia, nas Molucas e foi plantar a Cruz no Japão em 1549. O mais eficaz de seus sucessores, o Padre de Nobilis, deixou, à sua morte em 1656, uma catolicidade indiana muito florescente. Deve-se acrescentar, para glória da Igreja Católica em sua luta contra os Infiéis, que os Franciscanos e os Dominicanos, sob proteção espanhola, evangelizaram as Filipinas na mesma época.

Uma oportunidade se ofereceu novamente à Cristandade para combater a Porta Otomana, durante essa penetração pastoral, comercial e pouco militar. A oposição muito viva entre sunitas e xiitas levou a Pérsia, fiel ao Imam oculto, a conquistar sua independência. Em guerra quase incessante com os turcos, o Xá Abbas (1559-1612) reconquistou dos sunitas duas províncias cristãs, a Geórgia e a Armênia. Ao apelo deste grande soberano, o Papa Clemente VIII enviou, por volta de 1600, a Ispaã, um grupo de Carmelitas Descalços. Em 1608, pela primeira vez, o rito sagrado dos católicos foi celebrado publicamente na capital da Pérsia.

A Cruz e o Ocidente testemunhavam assim suas forças. Desde meados do século XIV, o enfraquecimento do mundo islâmico se inscrevia pouco a pouco nos fatos, apesar de suas vitórias na Europa. A desagregação do Império, a inversão da corrente comercial que, a partir de 1492 e da descoberta da América, se ampliaria, o fosso científico e tecnológico que se aprofundava entre o Islã imóvel e o Ocidente fervilhante de ideias, a obrigação para as nações europeias de encontrar escoadouros para seus produtos manufaturados, todas essas pressões não poderiam levar senão à derrota total, à tutela dos poderes muçulmanos. A evolução espiritual da Europa, os diversos protestantismos, o surto do mercantilismo e das finanças não permitiram a única verdadeira vitória: a conversão ou a reconversão dos maometanos à única verdadeira fé.

O avanço otomano nos séculos XVI e XVII

Para chegar a esse ponto, seriam necessários muitos anos, e os Cavaleiros de Alá ainda tinham tempo de fazer tremer o mundo cristão, aproveitando, infelizmente, suas divisões.

Os Sultões, Selim I e seu sucessor Solimão (1520-1566), possuíam uma temível frota de guerra, cuja construção nos arsenais de Constantinopla com as madeiras das florestas do Mar Negro e do Golfo de Nicomédia não apresentava problema algum. Muitos emigrantes vindos da Europa – o Oriente exercia um verdadeiro atrativo –, fossem judeus, muçulmanos expulsos ou homens aventureiros, renegados ou sem religião, trouxeram seus conhecimentos técnicos e permitiram um certo aperfeiçoamento dos navios e de seus armamentos. Os muçulmanos, aliás, eram os únicos que conheciam o fogo grego, primeira utilização do petróleo!

Os otomanos puderam assim travar a batalha em duas frentes: guerra marítima com esquadras ou corsários, e guerra terrestre a partir dos territórios ocupados e fortificados na Europa Central e no Norte da Rússia.

A guerra no mar

Já em 1515, dois irmãos, Baba Arudj e Khair al-Din, corsários turcos, estabeleceram-se em Argel. O segundo, apelidado Barba-Ruiva, em nome de todos os corsários do porto, os Raïs, proclamou-se vassalo da Porta em 1518. Em 1519, repeliu um ataque espanhol. Tomou o ilhéu do Peñón, que atrapalhava a circulação no porto. A tomada da ilha de Rodes desobstruiu a entrada do Mar Egeu, em 1522.

A guerra entre a França e o Império Romano Germânico estava a todo vapor. Após sua derrota em Pavia em 1525 e seu cativeiro, Francisco I buscou a aliança do Sultão, cujas tropas acampavam na fronteira do império de Carlos V, com o objetivo de dificultar as comunicações marítimas de seu adversário. Este iria retomar aos corsários de Argel o porto de Túnis, ocupado em 1534, socorrendo no ano seguinte o soberano haféssida.

Solimão assinou, em 1536, o tratado dito das "Capitulações". As frotas muçulmanas, sob o comando de Barba-Ruiva, nomeado Kapudan Paxá em 1534, vieram, em 1543, juntar-se à frota francesa, em Marselha.

Esses acordos, qualquer que tenha sido seu resultado positivo, mostravam a que nível as nações cristãs haviam descido. As sequelas da Guerra dos Cem Anos, o Grande Cisma, as heresias de Lutero e Calvino, as guerras internas na Inglaterra, na Itália, as Guerras de Religião fizeram com que os homens e seus líderes perdessem o sentido de "Deus, servido em primeiro lugar".

A vontade dos grandes monarcas Henrique VIII, Francisco I, Carlos V de dominar a Europa, seu orgulho, suas rivalidades, seu nacionalismo agudo os levaram a cometer atos verdadeiramente sacrílegos: erigir-se como Chefe de sua própria Igreja, aliar-se aos Infiéis, deixar as tropas imperiais do Condestável de Bourbon saquear Roma!

Solimão concedia ao Rei da França o direito de proteção sobre os Lugares Santos. Ele permitiu a restauração das Igrejas e a realização das cerimônias religiosas. Os cristãos não católicos se beneficiaram das mesmas vantagens. Dois séculos depois, as "Capitulações" foram renovadas pelo Sultão Mustafá III.

Os corsários Barba-Ruiva e Dragute travaram o combate contra a Espanha. Vencedores dos cristãos em Prevesa, na costa dálmata, eles deram, em 1538, o domínio dos mares ao Islã, graças à atividade de suas bases: Valona e Durazzo no Adriático, Trípoli da Barbária, Túnis, La Goulette, Bizerta, Argel, Tétouan, Vélez no Mediterrâneo, Larache e Salé no Atlântico.

Foi então que o Papa Paulo III (1534-1549), eficaz restaurador da fé pela reorganização da Inquisição, criação do Índex, e da cristandade ao conseguir, em 1538, reconciliar Francisco I e Carlos V, afirmou em uma bula endereçada ao Concílio de Trento que a dominação muçulmana sobre mar e terra era a manifestação da ira divina contra todos os cristãos, todos pecadores!

O Imperador germânico, exasperado pelos barbarescos, enviava de tempos em tempos suas frotas contra os corsários, mas sem bons resultados. Argel tornava-se a capital da frota de combate e corso do Sultão. De 1560 a 1570, foram verdadeiras esquadras que atacaram navios mercantes ou de guerra, as cidades das costas espanhola, italiana e francesa. Desembarques e incursões através dos países ocorreram, na Provença e no Languedoc. Os corsários bloquearam Nápoles em 1561. Um sobressalto espanhol fechou o porto de Vélez, com a tomada do ilhéu de Penón em 1564.

O primeiro choque sério ocorreu em Malta. Uma verdadeira esquadra foi construída em Constantinopla, com o objetivo de atingir um dos postos avançados da cristandade: Malta, Túnis, La Goulette ou a Sicília. Os espiões se movimentaram. Partida no início de abril, viajando muito rapidamente, a frota otomana alcançou em 18 de maio de 1564 a ilha de Malta, defendida pelos Cavaleiros da Ordem e seu Grão-Mestre. O cerco e os assaltos para tomar os fortes foram terríveis. Quase quatro meses depois, em 7 de setembro, Malta ainda resistia. Filipe II, sucessor de Carlos V, havia enviado sua frota em socorro dos Cavaleiros. Ela se reagrupou lentamente em Messina. Estimulado por André Doria, o desembarque de socorro foi bem-sucedido em 8 de setembro. Quatro dias depois, Malta era libertada dos muçulmanos.

Argel continuava seu desenvolvimento. Um renegado calabrês, Euldj Ali, marinheiro experiente e fino estrategista, foi nomeado seu rei em 1568. Como seus predecessores, ele acalentava o projeto de conquistar a península africana. Por via terrestre, com um exército de vários milhares de janízaros, engrossado pelos contingentes recolhidos ao longo da rota na Cabília, tomou Túnis em janeiro de 1570. Os espanhóis se refugiaram no forte de La Goulette. Com o anúncio da preparação de uma frota destinada a socorrer os mouriscos revoltados desde o Natal de 1568, a Espanha inquieta e Veneza, sempre pouco franca, iniciaram negociações sob a autoridade pontifícia para agir em conjunto contra o Infiel. Entrementes, Dom João d'Áustria havia debelado a revolta, expulsando barbarescos e mouriscos no início de 1570.

Constantinopla havia tentado, sem sucesso, aproximar-se da França. Sua nova frota liberada lançou-se no Adriático para fazer Veneza ceder. Os postos da costa dálmata foram tomados e saqueados já em janeiro de 1571. Em julho, um desembarque muçulmano ocorreu em Chipre. Filipe II enviou sua frota sob o comando de André Doria para socorrer a ilha.

O enérgico Papa Pio V, desde o ano anterior, colocara em construção uma frota de guerra. Ele conseguiu fazer assinar um acordo entre Veneza, a Espanha e os Estados da Igreja em 20 de maio de 1571. A Liga deveria durar pelo menos doze anos e era dirigida contra as possessões turco-muçulmanas do Norte da África. Veneza não jogava um jogo muito claro e a França, para se opor à Espanha, tentava um arranjo entre o Sultão e o Doge.

Finalmente, o Almirante-Chefe designado, Dom João d'Áustria, reuniu as três frotas em Messina em julho. Ele soube perfeitamente integrar entre si as tripulações e os soldados embarcados.

Eudj Ali e sua frota argelina juntaram-se, na ilha de Cândia (Creta), ao grosso dos navios de Selim II. Aguardando a vinda do adversário, os muçulmanos saquearam e pilharam a costa e as ilhas dálmatas, a cidade de Zra, o próprio golfo de Veneza e tomaram a ilha de Corfu. Enquanto seu inimigo se cansava, Dom João partiu de Messina em 16 de setembro e navegou ao encontro dos otomanos. Estes, concentrados no golfo de Lepanto, zarparam rumo a Corfu para não serem bloqueados.

O encontro ocorreu em 7 de outubro de 1571 ao nascer do sol: 230 navios de guerra muçulmanos contra 208 cristãos. A vitória da Liga foi total. Duzentas galeras otomanas perdidas, trinta mil maometanos mortos e três mil prisioneiros. O hábil Euldj Ali conseguiu escapar com cerca de trinta velas. Em 1º de novembro, Dom João retornou a Messina.

Moralmente, a vitória foi importante, mas não trouxe qualquer solução para o problema otomano, que só seria resolvido pelas operações terrestres. Nos anos seguintes, a frota da Liga buscou em vão o contato com a frota muçulmana reconstituída. A Espanha se viu oposta à Inglaterra e à França. O dinâmico Papa Pio V morreu após ter organizado mais uma operação no Levante. Na primavera de 1573, Dom João e seus navios levaram a guerra marítima à costa ocidental da Moreia, do Golfo de Corinto ao Cabo Matapão. Euldj Ali e suas duzentas e vinte galeras conseguiram escapar dele.

Na primavera de 1573, Veneza, graças ao parlamentar francês, Monsenhor o Bispo de Dax, assinou a paz com o Sultão. Ela aceitava a perda de Chipre, a limitação do número de seus navios de guerra e o aumento de certos tributos. A Liga estava enterrada. A frota turca passeava pelo Mediterrâneo...

O Papa Gregório XIII conseguiu despertar o espírito combativo dos espanhóis. Dom João lançou-se contra Túnis. La Goleta foi tomada em outubro de 1573, e ele recolocou no trono o haféssida Muley Mahamet. No final de outubro, Bizerta foi ocupada, a guarnição reforçada com tropas frescas, e a frota retornou a Palermo. No verão seguinte, Euldj Ali e suas galés apresentaram-se diante de Túnis. Em dois meses, a reconquista estava concluída. Essa vitória não serviu para nada. Provou, infelizmente, que a Espanha havia se afastado do Mediterrâneo. Ela voltava os olhos para o Atlântico. Logo se engajou na conquista de Portugal, uma espécie de guerra civil, e na conquista da América do Sul.

Os otomanos desejavam voltar-se contra seu velho inimigo, o persa xiita. Essas diversas prioridades permitiram o estabelecimento de uma trégua entre as duas partes, em 1577, e depois em 1578. A própria Roma abandonou toda ideia de luta contra o Islã... Em 1581, uma trégua definitiva foi assinada, abrangendo, para os turcos, o Reino da França, o Império Germânico, Veneza e o Reino da Polônia; para a Espanha, todas as Repúblicas Italianas e o Reino de Portugal. Renovada em 1584 e 1587, essa trégua fez com que a maior parte das galés fosse posta em repouso, apodrecendo nos ancoradouros otomanos.

Apenas o "curso", a pirataria, continuou, graças à capital de Euldj Ali, Argel. A partir de 1580, a atonia das grandes potências favoreceu sua atividade. Pouco a pouco, a ordem janízara se espalhou por toda a cidade e pelo interior. Um representante oficial da França e da Inglaterra se instalou ali.

Mais ainda, marinheiros ingleses e neerlandeses juntaram-se ao "rais" com seus excelentes veleiros, muito superiores às pesadas galés. Graças a esses novos recrutas nórdicos, os barbarescos puderam cruzar o estreito de Gibraltar. Saquearam a Madeira em 1617 e, de 1627 a 1631, realizaram incursões contra as costas inglesas, a Islândia, a Terra Nova e até mesmo no Báltico.

O corso barbaresco, "flagelo de Deus", foi uma verdadeira calamidade, mas a honestidade intelectual obriga a assinalar que os marinheiros cristãos também praticaram essa forma de guerra e que, no Mediterrâneo, as tempestades e outros incidentes de navegação causaram tantas perdas quanto o corso.

É interessante assinalar que, no início do século XIX, ocorrerá o primeiro incidente grave entre os jovens Estados Unidos da América e os otomanos, por intermédio dos barbarescos.

Em 1803, a primeira esquadra dos EUA penetrou no Mediterrâneo. Posteriormente, o navio "Filadélfia" foi capturado por piratas muçulmanos e trezentos e oito marinheiros foram feitos prisioneiros. A frota americana interveio. Os corsários encontraram refúgio em Trípoli, no Líbano.

Em 1805, na primavera, ocorreu o primeiro desembarque dos "Fuzileiros Navais"...!

A guerra em terra

Apesar das necessidades de homens e material de suas frotas, os muçulmanos continuaram seu avanço na Europa. O rei da Polônia, Luís II, filho do derrotado de Varna, foi derrotado em 1526 e encontrou a morte em combate. A conquista da Hungria estava quase completa já em 1529.

O território montanhoso, com a cidade fortificada de Buda como capital, foi confiado ao vassalo dos otomanos, Zápolya, que permaneceu chefe da Transilvânia. Os turcos se apossaram da planície danubiana. Apenas uma estreita faixa do país permaneceu nas mãos dos Habsburgos, a verdadeira família real.

Para melhor lutar contra os católicos, os muçulmanos e a administração turca favoreceram o protestantismo e fizeram amigos entre os calvinistas. Desde então, uma calma relativa reinou na região.

A paralisação, em 1577, das grandes operações no Mediterrâneo acabou liberando tropas para que o Sultão pudesse mais uma vez se explicar com "os cães xiitas, esses renegados e hereges de barretes vermelhos". A cruzada religiosa sunita era uma excelente desculpa para tentar a anexação de territórios ricos em homens, mulheres, possibilidades de tributos e abrir uma janela para o mar Cáspio.

O momento era bem escolhido. A Pérsia passava por um período difícil. O xá Talasq, que reinava desde 1522, foi assassinado em 1576. Muito rapidamente, dois soberanos o sucederam. Finalmente, subiu ao trono Mohammed Khodabandeh, o pai do futuro Abas, o Grande. Às voltas com as tribos georgianas, circassianas, turcomanas e curdas, a Pérsia enfraquecida representava uma forte tentação para os chefes do exército de terra, um pouco invejosos da glória dos marinheiros.

O poder otomano ainda era enorme. O que poderia ter acontecido se a unidade islâmica, o senso da Umma, tivesse impedido essa guerra fratricida e permitido concentrar os esforços na Europa? Esta não teria conseguido encontrar a coesão e o senso religioso necessários.

A Inglaterra, onde se consumara a submersão da Escócia católica pelo calvinista Knox graças ao abandono de Maria Stuart pelo Papa, pela Espanha e pela França, viu-se impor o anglicanismo como religião por Isabel I em 1563.

A Espanha católica, apesar de Álva e D. João, não conseguira impedir a secessão das províncias setentrionais dos Países Baixos, que passaram ao protestantismo com Guilherme de Orange, e o fim do século as veria fascinadas pelo ouro dos Incas.

A França, que entrara nas Guerras de Religião desde Vassy em 1562, só reencontraria a paz com a mudança de dinastia. O primeiro Bourbon, protestante convertido, tornou-se Henrique IV e promulgou o Édito de Nantes em 1598. Essas três grandes potências, esquecidas de seu verdadeiro dever, não teriam conseguido se opor a uma nova ofensiva islâmica.

Tão sectário quanto os europeus, o Sultão lançou seus exércitos contra a Pérsia em 1578. Com a ajuda dos bons dias, quase toda a Geórgia foi anexada. O inverno favoreceu os persas e os otomanos sofreram grandes reveses. Na primavera, retomaram a vantagem e começaram a fortificar sua conquista. Em 1583, Baku, no Mar Cáspio, foi ocupada. Euldj Ali interveio com suas galeras no Mar Negro. As tribos de Coração tornando-se ameaçadoras, Abbas, que exercia o poder com seu pai, preferiu abandonar ao Sultão Murade o Cáucaso e a Transcaucásia, com uma ampla janela sobre o Cáspio, em troca da paz assinada em 1590.

Três anos antes, o Capitão Paxá Euldj Ali morrera. Seu desaparecimento marcou o início de uma série de revoltas em todo o império otomano e o retorno das galeras ao Mediterrâneo. A autoridade dos governadores turcos se diluíra muito. Até mesmo em Constantinopla, os militares mal ou não pagos se agitaram. O novo chefe da frota teve que intervir em Trípoli da Barbária, contra os mouros sublevados por um Marabuto. A frota retornou em estado lastimável a Constantinopla e a revolta continuou.

Ela se estendeu a Túnis. Túnis, onde se instalaram muitos marselheses após o tratado das Capitulações, era desde 1590 a sede da província otomana, sob a administração de um Dei, auxiliado por um Bei. Em 1612, o Bei, um Murânida, tomou o poder e se declarou soberano hereditário em 1710. Entretanto, recebera ajuda da França contra os corsários de Argel. A Argélia não tardaria a ser contaminada pelo vento da independência, pois em 1711 o Dei se emanciparia por sua vez.

Nesse período delicado para o poder otomano, apenas o Czar moscovita interviria. Ivã, o Terrível (1533-1584), fundador do exército profissional, vira seu título de Czar confirmado pelo Patriarca ortodoxo de Constantinopla. Ele expandira seu Império ao norte até Arcangel, no Mar Branco; a leste, muito além dos Urais e do rio Ienissei; a sudeste, aniquilou o Canato de Cazã. O Volga e o Don tornaram-se rios russos a partir de 1552. A estepe dos Nogais foi conquistada, assim como Astracã, na foz do Volga, no Cáspio, em 1554. Uma trégua com os turcos foi assinada em 1568, por oito anos, e renovada em 1579 e 1583, para liberar estes últimos contra os persas. Essa trégua foi muito mal respeitada.

Em 1588, o Patriarca de Constantinopla erigiu Moscou em Patriarcado independente. A "Terceira Roma" havia nascido definitivamente. O início do século XVII verá, após os distúrbios que se seguiram à morte do famoso Boris Godunov, fortificador das linhas do Terek e do Don em frente ao Cáucaso, a ascensão ao trono da dinastia dos Romanov.

Durante a campanha turca contra a Pérsia, na frente da Europa Central, os ataques muçulmanos não haviam cessado. As represálias cristãs acabaram por devastar a Hungria. Em 1593, os europeus esmagaram o exército do turco Hassan em Sissek, na Croácia. Essa derrota levaria o Sultão Amurates III a seguir os conselhos de seu grão-vizir, Sinan Paxá... Seria o início da Guerra da Hungria, que durou de 1593 a 1606. Por ordem do Imperador da Áustria, o sino dos turcos, destinado a lembrar diariamente que a guerra estava em andamento contra o grande inimigo, soou todos os dias ao meio-dia. Os imperiais receberam ajuda do Papado e da rica Itália. Veneza, a Polônia e a Moscóvia permaneceram neutras.

Os territórios ocupados, Transilvânia, Valáquia e Moldávia, ou seja, aproximadamente a atual Romênia, se rebelaram contra os muçulmanos. O novo Sultão, Maomé III, engajou firmemente suas tropas e cruzou o Danúbio. Tomou Bucareste e avançou mais ao norte. Foi derrotado pelo príncipe valáquio Miguel, o Valente. Foi um desastre; apenas destroços do exército otomano cruzaram o Danúbio de volta.

Em uma nova batalha, em Keresztes em 1596, o Sultão restabeleceu a situação. O esgotamento dos adversários, a reviravolta da Transilvânia, que se juntou novamente aos infiéis vitoriosos, levaram as partes a assinar, em 1606, uma paz que restabelecia o status quo do início das hostilidades.

Durante essa longa e cruel guerra, o Papado fez o impossível para estender o conflito ao mar. A frota muçulmana saqueara as costas da Calábria em 1593, retomando a prática de golpes de mão, não ficando os marinheiros italianos atrás para se vingar com eficácia. A frota turca vigiava suas costas. Filipe II e Andréa Doria não se moveram. A guerra de Henrique IV contra a Saboia despertou os espanhóis em 1601. Eles reuniram uma poderosa armada. Em vez de levar a guerra aos turcos, foi Argel que sofreu o ataque em setembro. Fracasso total. Nenhuma das duas frotas desejava realmente o combate.

A paz entre o Habsburgo e o Sultão foi facilitada pela retomada da guerra contra os persas. A ameaça dos uzbeques levara o pai do safávida Abbas a assinar a paz de 1587. Este último, xá ao mesmo tempo, apressou-se em repelir os nômades para além do Amu Dária. Terminado o assunto em 1697, esse grande rei expandiu seu domínio em todas as direções: a leste anexou o Afeganistão; ao sul, retomou Ormuz dos portugueses e a costa do Golfo Pérsico; a oeste, recuperou o Iraque. Abbas morreu em 1629. Os otomanos, apesar de seu enfraquecimento militar, de uma crise financeira interna e de novos distúrbios no exército, resistiram. Murade IV retomou a Mesopotâmia em 1638 e, no ano seguinte, assinou a paz com o xá sucessor de Abbas.

A crise otomana não durou. A partir de 1660, o grão-vizir do Sultão Maomé IV, o albanês Köprülü, reorganizou o império. Contendo os persas, preferiu lançar uma violenta ofensiva contra a Europa. Os janízaros, os cossacos e os tártaros devastaram e saquearam a Morávia e a Silésia: mais de oitenta mil cristãos foram vendidos nos mercados de escravos de Constantinopla. O sino dos turcos voltou a soar, todos os dias ao meio-dia, em toda a Alemanha.

O Papa Alexandre VII pregou a união dos Estados Cristãos para deter os muçulmanos. Apesar das boas relações existentes desde Francisco I entre a França e a Porta, Luís XIV preferiu a aliança dos batizados. Sem engajar oficialmente seu exército, enviou um contingente francês de seis mil jovens nobres. Eles foram os principais artífices do sucesso dos aliados, comandados por Montecuccoli, em São Gotardo, no rio Raab, em 1664.

O sul da Polônia ainda invadido, o Grande Hetmã, João Sobieski, empreendeu contra os muçulmanos uma guerra difícil. Ele era filho de um ucraniano, governador da Rutênia, e conhecia bem os infiéis. Chegando ao topo da hierarquia militar, conquistou em 1673, no dia seguinte à morte de seu Rei, uma grande vitória em Chocim, às margens do Dniester. Três dias depois, foi eleito Rei da Polônia. Casou-se com uma francesa, Maria Casimira Luísa de La Grange d'Arquien.

Durante a campanha polonesa, a frota otomana desembarcou em Creta, possessão veneziana. Apesar do envio de socorros franceses, Cândia capitulou em 1669.

O Papado tentou realizar o acordo sagrado. Infelizmente, Luís XIV preferiu realizar a anexação de Estrasburgo e, durante a nova ofensiva muçulmana de 1683, nenhum contingente francês participou da guerra. O muito agressivo Grão-Vizir Kara Mustafá havia respondido ao apelo dos calvinistas húngaros ameaçados de esmagamento pela reconquista católica dos Cavaleiros Teutônicos. Em 1683, os muçulmanos acampavam sob os muros de Viena. Foram derrotados graças ao heroísmo dos poloneses e à inteligência tática de seu Rei, João III Sobieski, em 12 de setembro, na batalha de Kahlenberg, extremidade oriental dos Alpes Estírios.

Luís XIV, inimigo da Casa da Áustria, aliado secreto da Porta, recusou qualquer participação nesta cruzada, mas chegou a pressionar a Rainha da Polônia, que considerava sua súdita. Por não ter assumido a liderança da luta, o Rei "muito Cristão" da "Filha Primogênita da Igreja" permitiu a ascensão do poder dos Habsburgos, que continuariam a reconquista.

É importante recordar um fato que vincula esta vitória à história atual da Catolicidade e à da Polônia, histórias inseparáveis uma da outra.

Indo para a batalha, João III partiu de Czestochowa, no dia da Assunção. Quando voltou vitorioso, fez uma nova parada ali para agradecer a Nossa Senhora... Antes de morrer, legou todos os seus diamantes a Nossa Senhora de Czestochowa. Serviram para confeccionar para o ícone o manto mais rico que ela jamais teve.

Viena salva, a Cruzada praticamente não cessou mais. Em 1686, a fortaleza de Buda, o escudo do Islã que os infiéis mantinham há cento e quarenta e cinco anos, foi-lhes arrancada.

Uma santa liga cristã, organizada por Roma e à qual o Czar Pedro, o Grande se associou, levou a guerra ao império otomano. As ilhas Jônicas foram invadidas, Corinto tomada e Atenas bombardeada.

Os primórdios da queda otomana no século XVIII

O poder dos osmanlis enfraquecia cada vez mais. A dinastia sofria das mesmas doenças que as anteriores, embora tivesse resistido por mais tempo. Delegações de poder aos Pachás, verdadeiros soberanos locais, entidades geográficas e étnicas muito diferentes e demasiado distantes, transferência, com a aprovação do Sultão, da autoridade administrativa ou militar para Deys, Janízaros ou Mamelucos demasiado poderosos, diferenças religiosas, tudo concorria para a desagregação do império e para a vitória dos europeus.

Infelizmente, esta vitória já não era vivida como reconquista espiritual, conversão ou reconversão das populações islamizadas à força... No século XVIII, todos os Soberanos se queriam "iluminados", todas as crenças, todas as seitas, mesmo as cristãs, combatiam Roma; a Maçonaria implantava-se em solo francês e espalhava-se rapidamente apesar da condenação de Clemente XII; a subversão dos espíritos atingiria seu ponto culminante com a Revolução de 1789; a disseminação da desordem filosófica, intelectual e moral tornava-se a atividade primordial da República; a ponta de lança da ação católica, a Companhia de Jesus, era suprimida em Portugal, na França e até em Roma. O objetivo da guerra tornava-se exclusivamente a anexação territorial, o aumento do poder dos chefes.

Apesar de um sobressalto dos otomanos, que em 1714 atacaram Veneza, a paz de Passarowitz, em 1718, fez-lhes ceder a Pequena Valáquia, o norte da Sérvia, o Banato de Temesvar (margem esquerda do Danúbio na Hungria). O império Austro-Húngaro tomava forma.

O Czar Pedro, o Grande, novo Basileu, afirmava sua vontade de absolutismo suprimindo o Patriarcado e a independência da igreja ortodoxa russa.

Já em 1736, os moscovitas partiram novamente ao ataque, seguidos muito rapidamente pelos austríacos. A aliança francesa, que durou até Bonaparte, permitiu a parada da ofensiva, tanto mais que o exército muçulmano reformado por quadros franceses se recompunha sob o comando de Mehmet Paxá. A paz de Belgrado, em 1739, fez o Sultão recuperar uma parte dos territórios perdidos.

Mustafá III (1757-1774) renovou com a França o tratado das "Capitulações". No momento do desmembramento da Polônia, declarou guerra à Rússia. Apesar da ajuda técnica dos alemães, foi uma nova derrota.

Os demais muçulmanos, do lado do mar Cáspio, também enfrentavam o avanço russo. Um golpe de teatro havia ocorrido na Pérsia. O safávida, descendente de Abas, foi expulso por um sunita afegão. Por sua vez, este foi deposto por um chefe tribal do Coração, Nader. Tendo conquistado toda a Pérsia, fez-se nomear xá em 1736. Tomou dos otomanos a Mesopotâmia, o Azerbaijão em 1738 e a Armênia. Ao norte, também repeliu os russos das províncias cáspias. Chegou a conquistar o Afeganistão, tornou vassalo o Turquestão e penetrou na Índia até Délhi. Assassinado em 1747, um período de turbulências semeou a anarquia.

Finalmente, foi novamente um turco da tribo dos Qajars que se tornou rei em Teerã em 1786. Ele enfrentou as tropas da czarina Catarina II (1762-1796), que expulsou da Geórgia. Sua morte marcou a desagregação do império persa e o estabelecimento, em 1801, dos ingleses nas costas do golfo. A Grande Czarina continuava suas intervenções contra a Sublime Porta. Sob o reinado do sultão Abdulamide I (1774-1789), foi proclamada oficialmente "protetora dos ortodoxos do Império Otomano".

A expedição de Bonaparte ao Egito (1798) aproximou o sultão do czar. Alexandre I aproveitou para anexar a Bessarábia e se instalar no Danúbio. A paz de Bucareste (1812) proibiu o acesso dos franceses aos estreitos e permitiu ao czar voltar-se contra Napoleão.

Para restabelecer sua autoridade, o novo sultão Mamude II (1808-1839) teve que se livrar dos janízaros e fazer seu exército ser reorganizado por instrutores europeus.

Os gregos, há muito afastados das operações, conheciam desde o século XVII um verdadeiro renascimento econômico em torno de seu patriarca. Eles se revoltaram contra o sultão. As frotas aliadas (Inglaterra, Rússia e França), sob o comando de um almirante, destruíram a frota otomana na baía de Navarino em 1827. As tropas russas avançaram até Adrianópolis, a menos de trezentos quilômetros de Constantinopla. Todos os principados danubianos e a Sérvia tornaram-se livres. Três anos depois, a Grécia alcançou a independência e as tropas de Carlos X desembarcaram em Argel. Se a paz assinada em Adrianópolis interrompeu as hostilidades contra a Europa, o sultão teve que novamente enfrentar outros muçulmanos.

O Egito, com Ali Bey (1757-1773), estava quase independente. Desde 1775, abriu aos ingleses a passagem através de seu território para chegar ao mar Vermelho e seguir para as Índias. Após o assassinato de Kléber em 1800, ocorreu um desembarque turco-inglês. Constantinopla reconhece como Paxá, em 1803, o chefe das tropas albanesas, Mehmet Ali (1805-1852). Em 1811, o Paxá eliminou fisicamente quatrocentos e setenta beis mamelucos e enviou os albaneses para conquistar o Sudão. Criou um exército de fellahs, liderado por instrutores franceses.

O reformismo wahhabita no século XVIII

Durante a última metade do século XVIII, desenvolveu-se uma nova abordagem jurídica da religião do Profeta. Maomé ibne Abedal Uaabe e o emir Maomé ibne Saud estudaram as obras de Ibn Taymiyya, falecido em 1320. Este "reformador" reintroduziu as ideias de ibn Hanbal (hanbalismo), que no século III da Hégira defendia, no plano jurídico, a aplicação estrita das tradições do Profeta e dos primeiros companheiros.

Os wahhabitas, agrupados principalmente no Négede, em comunidades puritanas, condenavam todas as inovações, o culto aos santos e as visitas aos túmulos. Proibiam tabaco, música e terços. Preconizavam a simplicidade das mesquitas e o uso da barba. Finalmente, seu líder pregou a jihad. Eles conquistaram toda a Arábia e tomaram Meca em 1803. Compreendendo que ameaçavam a autoridade central, o Paxá do Egito se opôs aos seus intentos. Recuperou as cidades sagradas da Arábia. O exército do sultão também foi vitorioso em 1819. Os wahhabitas se dispersaram. Finalmente, puderam se reconstituir em Riad e tomaram o poder em 1902, com a família de ibne Saud.

O Egito ajudou o sultão na luta contra os gregos revoltados. Pouco depois, para reconstruir sua frota destruída, o Paxá lançou-se na conquista da Síria, a partir de 1831. Repelindo os exércitos otomanos, venceu a guerra na batalha de Cônia, no planalto da Anatólia, em 1832. O sultão havia apelado aos russos. O czar aproveitou para obter a exclusividade da passagem nos Estreitos.

A união sírio-egípcia durou até 1839, ano em que as hostilidades recomeçaram contra os turcos. Diante do colapso militar destes, as potências intervieram e obrigaram os egípcios a restituir a Síria.

A Rússia desencadeou a Guerra da Crimeia (1853-1855). As forças franco-britânicas intervieram ao lado dos turcos.

No Congresso de Paris, em 1856, o Império Otomano foi colocado sob a tutela das potências. Os financistas franceses aproveitaram as vantagens concedidas pelas "Capitulações" para obter privilégios exorbitantes.

Na política interna, o sultão decretou no mesmo ano a igualdade legal e fiscal entre todos os cidadãos.

A seita drusa

Devido à mistura de populações — árabes, judeus, drusos, gregos... — e à multitude de confissões religiosas, a Síria permitiu uma forte agitação social em duas direções opostas.

Em primeiro lugar, é necessário examinar as relações entre maronitas e drusos, infelizmente sempre atuais. Pequeno grupo étnico de cerca de trezentas mil almas, os drusos, adoradores do sexto califa, descendente de Ali e Fátima, Al-Hakim, seguiam um rito particular do Islã... a Hákimiyah, doutrina secreta! Al-Hakim teria adotado "o que havia de melhor em cada religião"! De Sócrates, Platão, Aristóteles, Pitágoras, Moisés, Jesus e do Alcorão, ele teria extraído um concentrado sincrético. Acrescenta-se a crença em uma metempsicose particular: seus mortos só se reencarnavam em novos drusos; conclusão: o estrangeiro só pode ser a reencarnação de um infiel! Segundo Al-Hakim, no juízo final, os cristãos serão condenados aos piores castigos; os judeus estarão em melhor posição que os muçulmanos. Vale notar que, se a mulher drusa não pode sair do lar familiar antes do casamento e deve se casar com um druso, no geral sua condição é, no entanto, melhor que a das outras muçulmanas.

A doutrina foi pregada na Síria e no Líbano por um egípcio, Al-Darazi. Sua pregação alcançou árabes, persas, berberes, curdos e hindus.

A comunidade drusa é altamente hierarquizada. As estruturas ancestrais são marcadas pela coexistência das autoridades religiosas e políticas. Os uqqal são os depositários da identidade e da sabedoria drusa. Os feudais encarregam-se da proteção da comunidade. As dinastias históricas desses feudais — os Arsians, os Abd-el-Malek, os Yarbek e os Joumblatt — dividem a preeminência.

Essa família Joumblatt, grandes feudais curdos, tornou-se, no século XIII, drusa por não se sabe qual artifício teológico, e instalou-se na região do Chouf libanês.

A era de ouro dos drusos começou em 1585 com o reinado de Fakhredine II sobre o Emirado druso-maronita do Chouf e do Monte Líbano. Os drusos eram os proprietários de terras, agricultores e militares; os maronitas contribuíam com seu artesanato e comércio. O poder passou para a dinastia dos Chihab em 1635. O Emir Youssouf Chihab pôs fim à boa entente com os maronitas, e ocorreram os dois massacres de 1842 e 1846.

Aproveitando-se do decreto do Sultão, os maronitas, a partir de 1856, tentaram contestar o sistema agrário feudal imposto pelos drusos... Imediatamente, o massacre dos maronitas começou, com a bênção da administração turca e da protestante Inglaterra, que apoiava os drusos...

Se as duas primeiras matanças não haviam suscitado comoção na Europa, esta desencadeou a intervenção francesa. Uma breve campanha militar terminou com os acordos de 1861, e depois de 1864, garantindo a autonomia do "Monte Líbano". Uma segunda intervenção teve que ocorrer em 1916. A conferência de San Remo, em 1920, confiou à França um mandato sobre a Síria e o Grande Líbano. Os drusos não perdoaram nem os maronitas, nem a França... mas a Internacional Socialista permitiu a aproximação atual do Estado com os degoladores...

O Renascimento Cultural no Século XIX

Em outra ordem de ideias, um movimento cultural começou na Síria por volta de 1840, quando muçulmanos e cristãos se reconheceram como pertencentes à mesma etnia árabe, sob o domínio dos turcos.

Em 1847, fundação de uma Sociedade de Artes e Ciências, seguida, em 1850, pela criação, pelos jesuítas, de uma Sociedade Oriental. A Sociedade Científica Síria, aberta a cristãos e muçulmanos, iniciou-se em 1867. Já em 1870, foram publicados um dicionário árabe, revistas e jornais.

O Sultão Abdul Hamid II (1876-1909) teve que reagir contra as consequências dos fracassos militares e da redução territorial do Império, tanto no interior da própria Turquia quanto nesta Síria tentada pela emancipação. Todas as tentativas autonomistas foram severamente reprimidas durante todo o seu reinado.

Seguiu-se o exílio de um grande número de intelectuais sírios na Europa e no Egito. Formaram-se também sociedades secretas, a primeira delas por iniciativa de cinco jovens cristãos, ex-alunos do Colégio Protestante de Beirute. Muçulmanos, civis e militares árabes participaram desse movimento. O mais conhecido foi Al-Kawâkibi (1869-1903). Alguns exilados viviam na Europa, e foi em Paris, em 1904, que foi fundada a Liga da Pátria Árabe, reivindicando a independência da Síria e do Iraque.

Na Turquia, manifestou-se um movimento nacionalista, os "Novos Otomanos", do qual participaram muitos oficiais. Graves distúrbios acabaram por eclodir. Em 1908, o Sultão teve que transformar seu modo de governo e dar uma constituição ao Império, o que favoreceu ainda mais a criação de partidos ou movimentos clandestinos.

As nações europeias continuaram a dividir os despojos dos otomanos: a Áustria tomou a Bósnia-Herzegovina, a Rússia as margens do Cáspio, a Grécia a Tessália e a Inglaterra o Chipre. A Sérvia e a Romênia tornaram-se independentes.

O massacre dos católicos armênios, verdadeiro genocídio perpetrado nos anos de 1893 a 1896, não provocou qualquer intervenção por parte das potências europeias, a não ser a ocupação de Creta pela Grã-Bretanha, sinal evidente de seu definhamento espiritual!

O Sultão reorganizou seu exército mais uma vez. Ele foi reestruturado e modernizado pelos alemães. Essa colaboração com Guilherme II foi consequência da política da Tríplice Entente. Foi por ocasião da viagem de Guilherme II a Constantinopla, em outubro de 1898, que a questão da criação de um Estado judeu na Palestina foi oficialmente levantada. O Imperador tornou-se, de fato, o porta-voz de Theodor Herzl, fundador do "Sionismo" e zeloso propagandista a favor de um reagrupamento hebraico para dar aos israelitas um Estado próprio. A ideia consistia em fazer o Sultão aceitar esse estabelecimento, organizado como um protetorado alemão. Apesar de várias tentativas, o projeto não foi aceito.

A Agonia do Império Otomano no Século XX

Apesar da importante ajuda técnica e econômica alemã, o Sultão teve que abdicar sob a pressão dos nacionalistas, os futuros "Jovens Turcos" e dos militares.

Seu substituto, Mehmet V, testemunhou um recrudescimento da agitação social. Um movimento, "União e Progresso", chegou a defender o recurso à ditadura militar. Para conter uma das causas de perturbação, uma política de "turquificação" brutal foi aplicada às populações alógenas...

O Império agonizante atraiu um novo predador. A Itália, cujos numerosos cidadãos haviam emigrado para a Tunísia e o Egito, atacou em 1911. Visou a Cirenaica, pouco povoada, e ocupou Trípoli e Benghazi. Anexou também o Dodecaneso, incluindo Rodes.

Na Europa, os Estados Balcânicos, reunidos em uma Liga, tentaram dar o golpe final. Dois anos de guerra, 1912-1913, deixaram aos turcos apenas a borda europeia dos Estreitos. A guerra de 1914-1918 fez dos otomanos, sem que realmente quisessem, aliados da Alemanha.

Imediatamente, os patriotas árabes da Síria retomaram suas reivindicações autonomistas. Na Arábia, o Xeque Husayn proclamou a revolta árabe ao lado dos Aliados. Foi a época da guerrilha de Faysal, filho de Husayn, rei do Hejaz, da família Hachemita, na companhia do inglês Lawrence. Em 1918, o exército árabe ocupou Damasco.

Os ingleses, que há cento e quarenta anos se agitavam perto de Suez, estavam prestes a ser recompensados. De fato, um acordo secreto chamado "Tratado Sykes-Picot", datado de maio de 1916, dividiu o Levante entre a Inglaterra e a França. O sionismo de Herzl havia sobrevivido, e muito, à sua morte em 1904. Foi criado em Jaffa, em 1908, um Escritório de Planejamento da Imigração...

No ano seguinte, a primeira colônia judaica (Tel Aviv) foi fundada. Lá se reuniram David Gryn (Ben Gurion), Haim Weizmann, Goda Mayerson (Golda Meir). Um comitê americano de reivindicação judaica foi criado em 1916 nos EUA, seguido pela fundação em 1917 do Comitê Britânico da Palestina pelos banqueiros da City, coração judeu e maçom da Inglaterra.

Como agradecimento, Wilson fez os americanos entrarem na guerra. Finalmente, sob a pressão das altas finanças internacionais, o "coronel" House, eminência parda do presidente dos EUA, fez com que o gabinete britânico decidisse publicar, pelo ministro das relações exteriores, Lord Balfour... a promessa de criação de um Estado judeu na Palestina.

Deixando, portanto, seu mandato sobre a Síria e o Líbano para a França, a Inglaterra obteve para si a proteção do Iraque, do qual Faysal será o primeiro rei, e da Palestina. Em dezembro de 1917, os ingleses entraram em Jerusalém, abandonada pelos turcos, acompanhados por uma comissão sionista internacional, presidida por Haim Weizmann (futuro primeiro presidente do Estado de Israel), encarregada de administrar a Palestina. Um acordo foi assinado em 1919 entre Weizmann e Faysal, acordo que não teve seguimento. Os árabes reagiram e os primeiros distúrbios eclodiram...!

O último Sultão otomano, Mehmet VI, aceitou o desmembramento do Império pelo Tratado de Sèvres em 1920. Os territórios árabo-muçulmanos formaram-se em estados independentes: Líbano, Síria, Iraque (rei Faysal I), Transjordânia (rei seu irmão Abd Allah) e Palestina (Sir Herbert Samuel, israelita, Alto Comissário).

Restava a Turquia, onde o General Mustafa Kemal, chefe das forças nacionalistas, tomou o poder em 1920. Ele aboliu o tratado das "Capitulações", o Sultanato em 1922, o Califado em 1924, um ano após ter proclamado a República; a Turquia moderna havia nascido.

A Jihad havia terminado! Os Cavaleiros de Alá, que, por quase treze séculos, haviam cruzado espadas com os europeus, veriam grande parte de suas conquistas e territórios próprios tornarem-se protetorados ou colônias de seus velhos inimigos. Quanto tempo durará sua paciência? Tanto mais que seu Profeta podia se orgulhar de seus discípulos. Embora seu estandarte verde estivesse enrolado em seu estojo, sua religião reinava sobre três quartos da conquista e a Europa dos materialistas políticos, banqueiros e homens de negócios se importava muito pouco em fazê-la recuar, muito pelo contrário!

L.D.