UM "ITINERÁRIOS" BORELLIANO?
No nº 292 da Revista ITINERÁRIOS, saiu sob a pena do Senhor Yves Daoudal uma recensão da obra recentemente publicada pelo Senhor Etienne Couvert, "Da Gnose ao Ecumenismo", a qual retomava um certo número de artigos passados do Boletim da Sociedade Augustin Barruel.
Que o cronista não tenha apreciado o livro é uma coisa, banal e totalmente lícita; que ele aproveite para fazer em "Itinerários" o panegírico de René Guénon e de Jean Borella não é de modo algum banal: é um fato escandaloso e que se torna altamente significativo da situação atual, tanto mais que o Senhor Daoudal é reincidente, pois dedicou, no sábado, 16 de abril de 1985, uma página inteira do diário "Presente" a fazer o mesmo elogio do Senhor Jean Borella.
Consideramos, portanto, útil para a edificação de nossos leitores, que não teriam lido esse artigo da revista, e para aqueles que ainda guardassem alguma dúvida sobre a penetração neognóstica nos meios católicos tradicionais, reproduzir abaixo o texto do Senhor Daoudal, seguido da resposta enviada pelo Senhor Etienne Couvert (com pedido de publicação a título de direito de resposta — o que foi recusado pelo Senhor Madiran numa carta das mais violentas), e acrescentar alguns comentários.
TEXTO DA RESENHA do Senhor Daoudal
O propósito de Etienne Couvert é ambicioso: oferecer em poucas páginas uma visão geral dos ataques da subversão anticatólica ao longo da história, mostrar que esses ataques têm como princípio diversos erros, sempre os mesmos, apresentados sob uma luz diferente, e que o ponto de partida, o reservatório de todos os erros subversivos é a gnose dos primeiros séculos do cristianismo.
* * *
O primeiro capítulo é, portanto, naturalmente dedicado à gnose. Mas nos deparamos aí com um problema de terminologia curiosamente ocultado por Etienne Couvert. De fato, se a gnose é o reservatório de todos os erros, parece estranho que a Igreja nunca a tenha condenado. Ora, isso é um fato. A explicação é simples: é que a verdadeira gnose é o verdadeiro cristianismo, e que as seitas que Etienne Couvert evoca pertencem à falsa gnose, ao gnosticismo. Tudo já está claro nas epístolas de São Paulo. São Paulo é, de fato, o primeiro autor a empregar a palavra gnosis em seu sentido especificamente cristão, e o primeiro também a denunciar a falsa gnose (na última frase da primeira epístola a Timóteo). Os Padres gregos, a seu exemplo, não fizeram outra coisa. Santo Irineu, cujo retrato adorna a capa do livro de Etienne Couvert, e que é citado várias vezes, não combateu a gnose, contrariamente ao que o autor dá a entender: o título original de seu livro, traduzido em latim por Adversus haereses, era: Refutação da falsa gnose. Sobre este assunto, ler-se-á com o maior proveito as belas páginas de Jean Borella nos números 193 e 203 de la Pensée catholique, com neste último número as confirmações de vários teólogos: pode-se usar o termo "gnose" para significar o conhecimento sobrenatural de Deus por Jesus Cristo, deve-se até mesmo fazê-lo para distinguir este conhecimento superior do conhecimento estritamente racional. O que a Igreja condenou foram as heresias professadas pelos "gnósticos": panteísmo, imanentismo, etc.
RESPOSTA DO AUTOR dirigida à Revista Itinéraires
O Senhor Daoudal me acusa de omitir a distinção entre falsa gnose e verdadeira gnose. É uma distinção à qual me recuso absolutamente, pois é o procedimento clássico usado pelos Gnósticos para fazer penetrar nos meios cristãos, com a palavra GNOSE, a heresia que ela subentende. No uso habitual da Igreja, a palavra GNOSE se aplica à heresia gnóstica e é esse o sentido que tem em minha obra. Todos os leitores apenas honestos o compreenderam muito bem. Não há qualquer equívoco possível. Meu texto é bastante claro e bastante firme sobre este assunto. O Senhor Daoudal também o compreendeu muito bem...
COMENTÁRIO da Sociedade Augustin Barruel.
Resenhar uma obra é dar a conhecer aos leitores da revista o que realmente contém essa obra. Ora, nesta resenha, a pessoa que se esconde sob o pseudônimo de Yves Daoudal, curiosamente "ocultou" todo o conteúdo deste primeiro capítulo do livro. Não saberemos o que o autor nos diz sobre a GNOSE, em que ela consiste, qual é seu ensino... etc... etc. Parece que o censor prefere deixar na vagueza e na incerteza todo o ensino dos gnósticos.
Mas saberemos que existe um certo Jean Borella, grande escritor cujas "belas páginas" devem ser lidas com "grande proveito", ainda mais que são apoiadas pelo prestígio de grandes teólogos. Curiosamente também, Yves Daoudal empurra gentilmente os leitores da revista ITINERAIRES em direção à revista "LA PENSEE CATHOLIQUE".
Ora, conhecemos bem, na Sociedade Augustin Barruel, o Senhor Jean Borella. Sabemos bem que ele escreveu artigos em "Vers la tradition", revista esotérica e guenoniana, e que penetrou nos meios católicos para subverter-lhes a fé. Portanto, Yves Daoudal é bem seu cúmplice e começa sem dúvida na revista ITINERAIRES o mesmo trabalho de sabotagem da fé que o Senhor Jean Borella realiza tão bem na PENSEE CATHOLIQUE. Por outro lado, ainda não sabemos em quais revistas esotérico-maçônicas que difundem hoje a céu aberto o ensino dos Gnósticos veremos aparecer a assinatura do Senhor Yves Daoudal... ?
RESENHA
Desembaraçar o novelo gnóstico exige a máxima circunspeção. De fato, os hereges gnósticos desviavam de seu sentido fórmulas perfeitamente católicas, e nem sempre é fácil distinguir onde começa a heresia. Em todo caso, não é sem surpresa que se lê na página 14 que a expressão "o reino está dentro de vós" é uma "fórmula panteísta": trata-se de uma frase de Nosso Senhor: Regnum Dei intra vos est (Lucas XVII, 21). Ou que se lê em nota que a expressão "desperta, tu que dormes" tem um "sabor particularmente gnóstico": ela se encontra textualmente na epístola de São Paulo aos Efésios (V, 14) e em substância em diversos lugares da Escritura.
Não se lê também sem surpresa que a atitude cristã oposta ao imanentismo gnóstico é "conquistar pela força da ascese a semelhança com Deus". A vida cristã consiste em fazer - ou antes, deixar - crescer Deus em nós pela graça. A virtude da ascese é negativa: ela remove os obstáculos à graça, e ainda pela graça. Mas não se conquista nada pela ascese, e sobretudo não a semelhança com Deus. É Deus que nos conquista, se o deixamos agir, se permitimos que a graça opere em nós.
RESPOSTA
O Senhor Daoudal finge surpreender-se por eu atribuir aos Gnósticos fórmulas que se podem encontrar nos Evangelhos canônicos ou em São Paulo. É bem um fingimento, pois o Senhor Daoudal compreendeu muito bem que os Gnósticos usam essas fórmulas para subverter-lhes o sentido. É aliás todo o essencial do meu propósito no primeiro capítulo do meu livro.
COMENTÁRIO O Sr. Daoudal (?) se pergunta onde começa a heresia entre os Gnósticos. Mas ela começa já na primeira fórmula! e sobretudo se essa fórmula é totalmente católica. Foi Santo Ireneu quem nos disse isso. Assim que um Gnóstico abre a boca, é para mentir. E a fórmula mais católica é a melhor das armadilhas. Para um Gnóstico, é claro, o reino está dentro de nós, já que nosso "pneuma" é uma centelha da divindade-pleroma...
Além disso, a fórmula "conquistar pela força da ascese a semelhança com Deus" é colocada pelo autor na boca de um Gnóstico; ele não a assume como sua. O Sr. Daoudal (?) precisa aprender a ler os textos e a compreendê-los em seu sentido óbvio, antes de lançar acusações.
RESENHA
Etienne Couvert mostra com pertinência como as teses gnósticas ressurgiram na maçonaria. Ainda seria conveniente distinguir entre os elementos tradicionais pervertidos (oriundos da maçonaria operativa e de ritos de cavalaria) e os elementos propriamente anti-tradicionais. É verdade que isso seria assunto para outro livro... Da mesma forma, é totalmente pertinente mostrar as afinidades da psicanálise com o gnosticismo. Mas Etienne Couvert negligencia um ponto importante: seu aspecto propriamente satânico de contra-tradição (no sentido de transmissão): não se pode ser psicanalista sem ter sido psicanalisado.
COMENTÁRIO
De fato, haveria um outro livro a ser escrito para explicar que essa distinção entre elementos tradicionais e anti-tradicionais é uma armadilha destinada a fazer penetrar a GNOSE na Tradição da Igreja. Voltaremos a isso.
RESENHA
Encontra-se em seguida, no subcapítulo intitulado O hinduísmo ocidentalizado, uma estranha mistura: a teosofia de Madame Blavatsky, que é "exposta por Allan Kardec no Livro dos Espíritos", e a obra de René Guénon. Seria ainda mais necessário aqui distinguir. Allan Kardec não expôs a "teosofia", mas o espiritismo. A teosofia de Madame Blavatsky é inegavelmente infestada de erros gnósticos, mas o espiritismo é um delírio próprio do final do século XIX. Quanto a Guénon, seu segundo livro intitulava-se: O teosofismo, história de uma pseudorreligião, livro publicado por recomendação de Maritain e que recebeu os mais vivos elogios de um grande número de jornais e revistas de teologia; e seu terceiro livro intitulava-se: O erro espírita. Não se vê, portanto, como se pode colocar Blavatsky, Kardec e Guénon no mesmo saco.
Além disso, parece temerário liquidar Guénon em duas páginas e meia, e concluir que sua doutrina não é nada além do antigo gnosticismo: "Essa deformação grega de ideias orientais mal compreendidas não me interessa o mínimo", dizia Guénon a Maritain. Guénon é um inimigo do gnosticismo, escrevia Noële Maurice-Denis Boulet (doutora em teologia), publicada em 1962 por La Pensée catholique. Lê-se ali, por exemplo: "Fora das questões de vocabulário, impossíveis de unificar, a posição de Guénon, em metafísica pura, era mais próxima da posição tomista do que qualquer posição professada por pensadores modernos, cristãos ou não".
RESPOSTA
O Sr. Daoudal vem em socorro de René Guénon e, citando fórmulas desse gnóstico nas quais ele rejeita as acusações contra ele, torna-se objetivamente seu cúmplice. Repito, portanto, que René Guénon e seus discípulos são os gnósticos mais perigosos porque revestem com um verniz aparentemente cristão um ensinamento totalmente subversivo da fé católica. Houve teólogos que apoiaram René Guénon na época em que ele flertava com os católicos. Infelizmente! Mas se o Sr. Daoudal sente alguma simpatia por Guénon, que siga seu itinerário religioso até o fim e que se converta ao Islã. Saberemos a qual religião ele realmente adere.
COMENTÁRIO
O autor explicou em seu livro que os Gnósticos sabem modificar as fórmulas de seu ensinamento conforme os ouvintes a quem se dirigem. Não se vai assim, de repente, explicar a um cristão a quem se quer fazer perder a fé. Assim, o espiritismo, o ocultismo, o guenonismo, a teosofia, a antroposofia são os múltiplos rostos de uma única e mesma Contra-Igreja, a de Satanás. "A mistura" de que fala o Sr. Daoudal (?) é obra dos Gnósticos, e não do autor.
Finalmente, conhecemos bem na Sociedade Barruel Noëlle Maurice Denis-Boulet, a filha do pintor Maurice Denis; sabemos bem que desde sua juventude ela nada nas águas guenonianas, apesar dos esforços de Maritain para afastá-la disso. Ela foi, portanto, na Pensée Catholique, a precursora do Sr. Borella, já há muitos anos.
Pretender que Guénon é um anti-gnóstico é zombar do mundo, pelo menos do leitor distraído ou superficial. Foi René Guénon quem aderiu já antes da Primeira Guerra Mundial à IGREJA GNÓSTICA e a primeira revista que publicou então chamava-se "A Gnose". Era preciso também uma doutora em teologia para escrever essa enormidade, de que Guénon é o melhor metafísico tomista do nosso século...
RESENHA
Etienne Couvert conclui essas visões sobre "alguns herdeiros modernos da gnose" com Hegel e o marxismo. Mas as relações do marxismo com o gnosticismo são muito vagas, enquanto o marxismo é muito mais claramente uma inversão da doutrina cristã, uma contrafação satânica do cristianismo. É outro assunto, certamente, mas teria sido bom assinalá-lo.
Por outro lado, surpreende-se por não ver nenhuma alusão nem ao novo gnosticismo proclamado por um certo número de cientistas de hoje (a "gnose de Princeton"), nem ao nazismo, cujas origens ocultistas e "gnósticas" são, no entanto, conhecidas. Surpreende-se também por ver "a nova direita", no entanto claramente "gnóstica", despachada em poucas linhas muito estranhas: o objetivo da "nova direita" seria apresentar sua doutrina como "o cumprimento do cristianismo, com todas as aparências da ortodoxia" (sic), daí a "benevolência" (sic) da "nova direita" para com a Igreja! Ora, quem quer que tenha ouvido falar da "nova direita", por pouco que seja, sabe ao menos que sua primeira característica é ser ferozmente anticristã!
Etienne Couvert dedica um capítulo inteiro a Descartes, e isso é justificado, pois Descartes é de fato o promotor da subversão filosófica. O autor insiste num ponto geralmente deixado na sombra e, no entanto, da maior importância: as relações muito estreitas de Descartes com os "Rosacruzes", desvio gnóstico (e protestante) de elementos católicos, como será mais tarde a maçonaria.
SEM COMENTÁRIO:
Haveria muito a dizer, e isso nos desviaria do essencial.
RESENHA
O quarto capítulo, o mais longo do livro, intitula-se: Um mito destruidor do cristianismo. Trata-se dos Essênios. Etienne Couvert tenta provar que os Essênios, como seita judaica pré-cristã, nunca existiram. Na verdade, não vejo como esse mito, se é que é um mito, seria "destruidor" do cristianismo. Compreende-se bem que na expressão de Renan: "o cristianismo é um essenismo que deu certo", há algo de blasfemo, mas a ideia de que Deus tenha suscitado uma seita judaica pré-cristã para tentar preparar os judeus para a revelação cristã não tem nada de anticristã: os fariseus seriam apenas mais responsáveis por sua cegueira, tendo rejeitado todas as indicações proféticas, até São João Batista e os Essênios.
A tese de Étienne Couvert é que os essênios nada mais são do que os ebionitas (os "pobres"), judeu-cristãos que viviam em comunidade e praticavam a pobreza voluntária. Mas essas explicações são extremamente confusas. Se os essênios eram esses pré-cristãos, não nos surpreenderia encontrar neles textos que não coincidem com a revelação cristã e podem, portanto, a posteriori, ser considerados "heréticos". Mas, uma vez que para Étienne Couvert os essênios são judeus cristãos que chegam a observar os "conselhos" evangélicos, é necessário que sua doutrina seja ortodoxa. Assim, ele se recusa a considerá-los hereges (nota p. 171), a única coisa que se pode reprovar neles sendo a continuação das práticas mosaicas, o que não é heresia no sentido próprio. Mas ele cita um texto do Cardeal Daniélou que nos informa que os ebionitas "consagravam" pão ázimo e água (enquanto, por outro lado, cita um texto essênio onde se fala do sacerdote que abençoa o pão e o vinho!), que os ebionitas acreditavam na natureza angélica de Cristo (o qual era um profeta anunciando os dois messias vindouros – rei e sacerdote –) e professavam uma doutrina dualista. Se isso não constitui heresias caracterizadas, as palavras não têm mais sentido.
RESPOSTA
O senhor Daoudal considera meu capítulo sobre os essênios muito confuso. Se ele tivesse pessoalmente que tratar dessa questão, teria sido submerso sob as hipóteses mais extravagantes. Se meu capítulo é de leitura árdua, isso decorre do fato de os eruditos terem complicado as coisas por prazer. E todo o meu esforço foi colocar clareza num assunto bem emaranhado. Aplico os Manuscritos do Mar Morto à primeira comunidade ebionita de Jerusalém. Sustento que essa comunidade não era herética. Estava sob a autoridade de São Tiago Menor, que seria descabido tratar de herege. Mas havia entre eles alguns ebionitas que hesitavam sobre alguns pontos importantes da fé cristã. É a estes últimos que se dirige o autor da Epístola aos Hebreus. Posteriormente, após a queda de Jerusalém e a dispersão dessa comunidade no Oriente, os ebionitas caíram em várias heresias, e é por isso que seus manuscritos foram retirados e jogados no lixo. Num ponto particular, o senhor Daoudal tem razão ao notar uma contradição entre este trecho de um texto do Padre Daniélou afirmando que os Ebionitas usavam pão e água na sua Eucaristia, enquanto o texto de Qumran fala de pão e vinho. Após verificação, é de fato o Padre Daniélou quem se engana. Os Ebionitas usavam sim o pão e o vinho. Mas creio entender seu erro devido a uma interpretação abusiva de uma passagem de Santo Ireneu explicando que os Ebionitas, ao recusar reconhecer a divindade de Jesus Cristo, preferiam a Água, símbolo de sua humanidade, ao Vinho, símbolo de sua divindade.
RESENHA
O capítulo que apresenta o problema mais grave é o intitulado Fé ou razão. O desígnio de Étienne Couvert é refutar o fideísmo e o imanentismo. Mas, para se opor a esses erros, ele acaba rejeitando, não mais o gnosticismo, mas a verdadeira gnose cristã, a de São Paulo, e apresentando a fé como ato da inteligência natural. Em nenhum lugar se fala da graça, a não ser para rejeitá-la, pois são os protestantes que afirmam que a fé provém de um influxo da graça... Eis duas surpreendentes citações perfeitamente representativas de todo o capítulo: "Podemos conhecer, com nossa inteligência, as verdades religiosas naturais e reveladas"; "Deus não reside em nossa alma e só podemos alcançá-lo indiretamente pelo raciocínio". A definição da fé católica é: uma adesão da inteligência a verdades recebidas.
Isso não é uma definição da fé católica. A primeira definição da fé é a que dá São Paulo: a substância das coisas que se esperam. Quando São Tomás de Aquino aborda a questão, é essa definição que ele retém. São Pio X, em seu catecismo, dá uma definição teológica muito precisa que resume admiravelmente os desenvolvimentos de São Tomás: "A fé é uma virtude sobrenatural, infundida por Deus em nossa alma, pela qual, apoiados na autoridade do próprio Deus, cremos tudo o que Ele revelou e nos propõe crer por sua Igreja." A fé é uma virtude teologal e não o resultado de um raciocínio. Ela nos é dada no batismo, quando somos incapazes de raciocinar. A fé é intrinsecamente sobrenatural, e não naturalmente racional. A adesão da inteligência é o ato de fé, e não a fé em si mesma. E se trata de uma adesão a verdades recebidas, portanto impossíveis de alcançar pelo raciocínio. Nenhum raciocínio pode nos levar ao conhecimento de um Deus em três pessoas. Pela graça da fé, temos um conhecimento de Deus mais elevado do que pela razão natural (São Tomás Ia, q. XII, art. 13).
"Visto que o homem, pelo seu assentimento ao que é de fé, eleva-se acima de sua natureza, é necessário que este movimento nele provenha de um princípio sobrenatural que o move interiormente, e este princípio é Deus" (IIa IIae, q. VI, art. 2). Pretender que a razão natural basta para conhecer Deus é pelagianismo.
Num artigo em que defende o uso do termo gnose para combater o racionalismo (Pensée catholique, n° 203), o padre Luc Lefèvre expressa a mesma realidade que São Tomás e não teme usar a palavra imanência que faz Étienne Couvert saltar:
"No conhecimento de fé, o objeto é sobrenatural e não natural. Ele não é observado pelos sentidos nem pelas forças da inteligência do sujeito. Ele é dado pelo próprio Deus que se revelou. Portanto, é exterior ao sujeito, mas lhe é também interior e imanente, e a tal ponto que é ele quem torna o espírito cada vez mais capaz de conhecer seu objeto."
O imanentismo é um erro, mas a imanência de Deus na alma do fiel é uma verdade que se encontra claramente exposta no Evangelho (São João, 14).
Sobre este assunto, é preciso ler o capítulo sobre a fé de Os Mistérios do Reino da Graça, do Padre Calmel (DMM). As proposições do Padre Calmel, apoiadas na Tradição, são exatamente contrárias às de Étienne Couvert. A fé é intrinsecamente sobrenatural "tanto pelo título de seu conteúdo, que não é outro senão os segredos, os mistérios de Deus, e não um objeto de ordem racional e demonstrável, quanto pelo título de seu motivo formal, que não é outro senão uma luz recebida de Deus, o testemunho de Deus dentro de nós (...), o testemunho de Deus no interior de nossa alma, a luz que está além das capacidades naturais de nosso entendimento, que só vem de Deus e só é recebida por graça".
E isso é simplesmente a doutrina católica. Pode-se acrescentar que, se a Igreja em sua liturgia utiliza a poesia e o simbolismo, e não o discurso racional, é porque sabe que assim as verdades da fé, que são mistérios sobrenaturais, se imprimirão na alma dos fiéis. As liturgias protestantes e modernistas levam a um empobrecimento da fé, porque apelam mais à razão do que à gnose, que é "conhecimento amoroso dos mistérios" (padre Lefèvre).
RESPOSTA
Quando o senhor Daoudal chega ao meu capítulo sobre "a Fé ou a Razão", ele utiliza um procedimento bem estranho e muito cômodo que consiste em dizer que, já que o autor não diz isto ou aquilo, é que não acredita nisso. Isso lhe permite colocar em dúvida, aos olhos de seus leitores, a ortodoxia do meu texto. Não tratei neste capítulo da natureza da Fé: não era meu propósito. Por isso é perfeitamente vão opor-me textos de São Pio X, de São Tomás de Aquino ou do Padre Calmel, que assino com ambas as mãos, pois são a expressão mais perfeita da fé católica. Meu estudo versava essencialmente sobre a psicologia do ato de fé e sobre as relações entre a inteligência e a vontade na submissão à revelação divina. O que me permitia fazer compreender o sentido profundo das definições do Concílio Vaticano I. Não falei da Imaculada Conceição, nem da Assunção da Santíssima Virgem em meu livro. Segundo o procedimento utilizado pelo senhor Daoudal, ele deve concluir que rejeito o culto da Santíssima Virgem...
O senhor Daoudal cita uma passagem do padre Luc Lefèvre bem equívoca, onde se vê reaparecerem fórmulas da imanência vital, tais como as denunciei a propósito de Maurice Blondel.
COMENTÁRIO
Chegamos aqui ao ponto central do debate. Para um fiel leitor da revista ITINERAIRES, era preciso primeiro e sobretudo colocar em causa a ortodoxia do autor e fazer duvidar de sua boa fé. Isso é essencial para aqueles que são justamente apegados à fé católica. Um leitor simplesmente honesto e culto ficará perturbado pelo texto do recenseador; mas não verá as múltiplas armadilhas que ele contém.
Esclareçamos então nossas ideias. O senhor Yves Daoudal (?) é um verdadeiro gnóstico; isso se vê pelas posições que já tomou em relação a Guénon e à GNOSE em geral. Mas ele o é ainda mais pela maneira como expõe a fé católica. Como todo bom gnóstico que se preza, ele começa por "enunciar a fé em fórmulas perfeitamente ortodoxas", depois as acompanha de reflexões equívocas e, finalmente, se esforça para introduzir sub-repticiamente fórmulas heréticas, no caso, a da Imanência vital.
"A adesão da Inteligência a verdades recebidas", isso não é uma definição da fé católica, nos diz o senhor Daoudal (?): afirmação peremptória, segura, sobre a qual não há como voltar atrás... Mas é uma mentira impudente! Pois o senhor Daoudal (?) conhece bem a fórmula do juramento antimodernista: "Afirmo com toda certeza e professo sinceramente que a fé não é um sentimento religioso cego... etc... mas sim que ela é um verdadeiro assentimento da inteligência à verdade adquirida extrinsecamente pelo ensino recebido ex auditu..."
Para um gnóstico, é necessário progressivamente apagar o papel da inteligência no ato de fé, de modo a tornar suas fórmulas indistintas e vagas e poder introduzir nelas os símbolos cosmológicos do Panteísmo, sem que sua aproximação choque violentamente os espíritos. Por outro lado, é preciso manifestar através de fórmulas contundentes uma oposição entre as verdades reveladas e a inteligência do homem, como se Deus, ao querer nos revelar um "Mistério" sobre sua natureza íntima, se dirigisse aos nossos pés ou ao nosso ventre, e não à nossa Inteligência. A alusão ao batismo de bebês é muito sugestiva. O senhor Daoudal se guardaria bem de nos explicar que a virtude teologal da fé é dada ao bebê para permitir-lhe, por uma graça especial, abrir mais tarde, quando atingir a idade da razão, sua inteligência a um mistério que a supera infinitamente, mas ao qual ela é essencialmente ordenada...
"Pretender que a razão natural basta para conhecer Deus é pelagianismo", ele nos diz. Perdão, essa é a doutrina católica mais fundamental.
Por fim, o senhor Daoudal (?) se esforça para reintroduzir na exposição da fé católica as fórmulas mais equívocas. Aqui, trata-se da Imanência vital, condenada pela Encíclica PASCENDI de São Pio X. O imanentismo, ele nos diz, é um erro, mas sua definição, a imanência de Deus na alma do fiel, é uma verdade. Não é possível zombar mais impudentemente de seu leitor. Ainda mais que o senhor Daoudal (?) pretende que essa imanência vital seja ensinada pelo próprio Padre Calmel. Evidentemente, este está morto e não poderá protestar. Mas "o testemunho de Deus dentro de nós não é a 'presença real' de Deus em nós"; é uma presença formal, como a de toda pessoa que ensinou uma Verdade. É a Verdade que está presente no espírito e não a Pessoa que a enunciou. São Tomás de Aquino tem, assim, algumas páginas luminosas sobre os diferentes modos de presença de um ser em outro. Só que o senhor Daoudal usa o Doutor Comum apenas como uma armadilha para enganar seus leitores.
Finalmente, ele também e curiosamente "ocultou" todo o conteúdo do capítulo intitulado "FÉ OU RAZÃO"
RESENHA
O último capítulo do livro de Étienne Couvert é um interessante estudo do "movimento de Oxford" e de suas "armadilhas ecumênicas". Trata-se da constituição da high Church, porção da Igreja Anglicana de aparência quase católica – mas à qual faltava o essencial: os sacramentos. Daí toda uma série de discussões "ecumênicas" ambíguas e fadadas ao fracasso. O ecumenismo atual é inverso: são os católicos que querem se assemelhar aos protestantes, sempre com o objetivo de uma união factícia e sacrílega.
Mas por que atacar "Newman envelhecido", que teria tido antes de morrer "algumas hesitações sobre pontos fundamentais da doutrina católica"? E por que explicar essas "hesitações" pelo agostinianismo do qual estava "impregnada" sua ordem do Oratório?
Santo Agostinho é o maior dos primeiros doutores da Igreja Latina. Sua doutrina é um rio de luz divina, e sabe-se com que reverência São Tomás podia citá-lo. Quanto à carta do Cardeal Newman (a um amigo anglicano), é verdade que ela pode parecer criticável, especialmente no final, quando o ilustre convertido avalia que os anglicanos da high Church desempenham o papel de São João Batista. Daí a suspeitar que Newman estivesse "em retração" em relação às suas posições anteriores, há uma margem. Essas questões são muito complexas e misteriosas (é o que essencialmente transparece da carta). Na mesma ordem de ideias, embora se trate de realidades diferentes, o predecessor do atual patriarca de Antioquia (Igreja Melquita) dizia que em teoria se podia perguntar se a constituição de Igrejas uniatas tinha sido uma boa coisa e não havia retardado a união. Colocar em dúvida o catolicismo de Máximos IV a partir de tal questionamento seria um julgamento de intenção.
Em conclusão, pergunto-me apenas por que nosso amigo Jean Auguy quis publicar estas páginas, das quais várias são gravemente deficientes e outras são, elas, tão manifestamente em retração da grande doutrina católica.
Yves Daoudal.
RESPOSTA
As observações a respeito do Movimento de Oxford mostram que o senhor Daoudal ignora tudo sobre a questão. Mas de que autoridade ou de que competência goza o senhor Daoudal para denunciar as deficiências graves do meu livro?
COMENTÁRIO
Nota-se nestas últimas linhas que os Gnósticos são grandes admiradores de Santo Agostinho, mesmo quando fingem se dizer inspirados por São Tomás de Aquino, referência em teologia. Vimos isso na obra "A Caridade Profanada" do senhor Jean Borella. Certamente, São Tomás de Aquino cita com respeito Santo Agostinho como é de se esperar, mas esse respeito não o impede de marcar muito frequentemente sua oposição em pontos importantes de filosofia ou de metafísica (cf. Étienne Gilson: "Por que São Tomás criticou Santo Agostinho, seguido de Avicena e o ponto de partida de Duns Scot", Vrin 1981).
Finalmente, o leitor simplesmente honesto talvez se pergunte por que essa alusão ao Patriarca Máximos IV, que claramente não tem nada a ver com o assunto. Isso permitiria ao senhor Daoudal (?) sugerir ao leitor, sem lhe dizer, que o autor do livro colocava em dúvida o catolicismo do Cardeal Newman e lhe fazia um julgamento de intenção, sendo, portanto, totalmente de má-fé, C. Q. D.
S. A. B.
UM LIVRO A LER...
Richard BERGERON, o. f. m.
"A Corte dos Loucos de Deus", "Um cristão examina as novas religiões" (Edições Paulinas e Apostolado das Edições, 1982)
Richard Bergeron é um religioso canadense preocupado com o crescente domínio das seitas sobre as famílias cristãs. Em sua exposição muito concreta, ele mostra, na primeira parte, que o vazio deixado por uma Igreja que abandona seu ensino é rapidamente ocupado pelas seitas; na segunda parte, ele mostra que as formas carismáticas que atualmente penetram na Igreja Católica são uma invasão progressiva do espírito sectário no catolicismo. Por fim, ele remonta à Gnose primitiva e às influências hinduístas e orientais para explicar o conteúdo dos diversos movimentos carismáticos; em seguida, explica que estes últimos são incapazes, por deficiência de natureza, de fundar uma religião universalista que conduza a alma ao verdadeiro Deus.
* * *
Índice Lógico:
- As seitas de inspiração cristã
- Os grupos orientalistas
- As gnoses ocidentais
- Os grupos de potencial humano
- O esquema da Gnose contemporânea
- Os grandes eixos da Gnose contemporânea
- Atração das Gnoses
- Ambiguidades das Gnoses
- Miragens das Gnoses
E. C.