# DA ALMA HUMANA - I

### A FILOSOFIA DE SÃO TOMÁS DE AQUINO - FILOSOFIA DA IGREJA - E AS CONSEQUÊNCIAS DE SUA REPUDIAÇÃO

Por que a filosofia de São Tomás de Aquino é o critério de todas as filosofias e, a *fortiori*, das filosofias modernas, as quais são filosofias do fenômeno ou filosofias do devir? A razão é clara: é porque, precisamente, ela se fundamenta no ser, que é o objeto formal e adequado da inteligência enquanto inteligência (1). Como a de Aristóteles, na qual se apoia, a filosofia de São Tomás de Aquino não é senão a aplicação, melhor, a explicitação, pelo pensamento especulativo, desta constatação: não se pensa o nada: isso seria não pensar; PENSA-SE O SER.

Analisemos um pouco o que resulta desta constatação, da qual o pensamento moderno se desviou. E o pensamento moderno se desviou dela sobretudo desde o advento do cartesianismo, não apenas porque Descartes faz do "eu" o "primeiro conhecido", mas também e principalmente porque Descartes inverte a ordem natural e comum do pensar ao dar primazia ao espírito matemático sobre o espírito filosófico, metafísico (no sentido próprio de ontologia), o que equivale a fazer daquilo que é apenas uma disciplina do pensamento a ordem comum, única, universal do pensamento da inteligência.

Admitir que a inteligência tem por objeto o ser – aquilo "cujo ato é o ser" – e que o alcança, não é um postulado, como gostariam de crer e fazer crer os filósofos de hoje. Um postulado é livremente posto. Trata-se aqui da afirmação natural e necessária da inteligência em seu próprio ato de pensar: Pensar é realizar um ato de presença de inteligência, de espírito ao ser. E é por isso que o ser é a luz objetiva da inteligência, o princípio de universal inteligibilidade.

Admitir que, a partir do que se pensa do ser, a inteligência dele deduz a noção, a ideia de ser, que é, portanto, por isso mesmo, a primeira de todas no quadro universal, e que, por isso mesmo, deixada a si mesma, ela nada exprime de distinto, nada de apreensível, é ainda a afirmação natural e necessária da inteligência em sua relação viva com o ser. Não se pensa o nada, pensa-se o ser. O ser é "*o primeiro conhecido inteligível*", escreve Tomás de Aquino. E é verdade! "*Nada pode ser conhecido pela inteligência – nem mesmo o nada – a não ser sob a dependência desta ideia inicial que, à maneira de um vago e confuso receptáculo, encerra e reúne todas as outras*" (2).

Por isso entende-se que seja um erro querer realizar, reificar o ser da ideia de ser, o qual, como implica a constatação que lhe está na origem, não é, deixado a si mesmo, senão o ser em geral, portanto em si indistinto, inapreensível, e fazer dele o "primeiro Ser", Deus.

É tomar esse "todo do ser", que a ideia de ser implica, para fazer dele um ente, ou fazer dele o ser uno desse todo, quando, no entanto, o ser da ideia de ser, por sua própria fonte que é a constatação: não se pensa nada, pensa-se ser, só testemunha e exprime a abertura total da inteligência a todos os entes, a tudo que tem razão de ser.

Esse fenômeno de realização, de objetivação do ser da ideia de ser está na origem de todos os panteísmos. Ele procede do que se poderia chamar, mas desta vez com todo rigor, a "ilusão transcendental", a qual consiste em tomar a exigência de unidade da inteligência por uma exigência objetiva.

Seja como for, é por sujeição a essa "ilusão" que a inteligência é levada a absorver seja Deus no mundo, seja o mundo em Deus. É a isso, escreve Aristóteles, que se chega quando se confunde o ser da ideia de ser, portanto o ser em geral, com o ser divino.

Desse modo, como não chegar à conclusão de que o Ser divino, Deus, é cego e sem inteligência, que não é senão uma espécie de *Fatum*, de Destino, de Necessidade, ou, como quer Schopenhauer, de "vontade obscura" ou "Nada Superessencial", como quer Hegel, onde se fundem os contrários: o ser e o nada, o uno e o múltiplo, o finito e o infinito, o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, etc.?

Admitir que o objeto formal da inteligência é o ser, como o objeto formal da visão é a cor, o da audição o som, como diz Aristóteles, não é um postulado, mas a afirmação natural e necessária da inteligência em sua relação viva com o ser.

Admitir que a inteligência humana enquanto humana, portanto unida a sentidos, desde que desperta para o mundo, para a vida intelectual, **percebe os princípios que constituem a racionalidade do ser**, e que estes, porque ela adere a eles em razão de sua evidência objetiva, imprimem-se nela de maneira indelével, de modo que se tornam aqueles mesmos que regem a razão; pois a razão é isto: a inteligência assim chegada à posse dos princípios racionais (3), - não é um postulado.

É a afirmação natural da inteligência em sua viva relação com o ser. Por fim, o menor exame dessas três operações da inteligência, do espírito, que são a concepção, o juízo e o raciocínio, bastaria para o mostrar. Todas têm por objeto o ser; pois o ser é "aquilo em que se resolvem todas as nossas concepções", como escreve Tomás de Aquino. Não se pensa nada; pensa-se ser. Pensar é fazer ato de presença de espírito ao ser...

Recusar-se a reconhecer que nossa inteligência, desde que se abre ao mundo, percebe os princípios que constituem a racionalidade do ser, do real, e que eles se tornam por isso mesmo os princípios, as leis, que regem a razão participa, no mínimo, do desconhecimento do que é o homem em si mesmo e do que são, em si mesmas, as realidades naturais que nos cercam.

Não há outra origem para o racionalismo e o materialismo de ontem ou de hoje senão esse desconhecimento. Para falar apenas dos Tempos Modernos, basta examinar seu ponto de partida. Um e outro partem, com efeito, dessa teoria platônica, perpetuada pelo agostinianismo e trazida à tona pelo cartesianismo, da **distinção substancial da alma e do corpo**, enfim, dessa teoria segundo a qual o homem é uma associação de duas substâncias que bastam, cada uma, a si mesmas, e portanto pré-existentes à sua associação, à sua união: uma material, o corpo; outra imaterial - espiritual, a alma.

Eis aí algo que é absurdo: pois é necessariamente dever perguntar qual é, dessas duas substâncias, aquela que assegura o ser, o existir do homem: é a alma, e a alma sozinha? É a opção ideológico-racionalista e ideológico-mística; é o corpo, e o corpo sozinho? É a opção empiricista-materialista. Dessa vez, trata-se realmente de postulados!

Esses postulados, essas poções participam do desconhecimento, da incompreensão ou da recusa — recusa manifesta por parte dos pensadores modernos — da refutação vitoriosa dessa teoria dualista intemperante e de sua rejeição em favor **da doutrina da unidade substancial da alma e do corpo** com aquela mais ampla que lhe faz corpo, a saber, a doutrina do hilemorfismo (*hylé*: matéria; *morphé*: forma), isto é, **da unidade substancial da forma e da matéria** em todo ser natural e concreto. É a única doutrina que reconhece que toda realidade natural é, em si, **ao mesmo tempo sensível e inteligível**, e que torna inteligível **o fenômeno do conhecimento humano**.

##### **A DOUTRINA HILEMÓRFICA DE ARISTÓTELES**

Não se deve confundir a **forma** com a **figura**, como quando se fala de um rosto — e é o que faz, de certa maneira, Descartes, nem tampouco, como ainda faz Descartes e, desde então, tantos de nossos contemporâneos, a **matéria** com a **extensão** ou, desde Leibniz, com a **energia**: são estas propriedades de uma matéria, não a essência mesma da matéria.

A **figura** é da ordem da **quantidade**; ela é em si o limite, a configuração de uma superfície, de uma extensão. A **forma** é aqui para ser entendida da ordem da **qualidade**. A forma qualifica, portanto determina o modo de ser de uma realidade: ela é, em si, o estatuto de existência. Ela é o que dá o ser — *forma dat esse*, dizem Aristóteles e Tomás de Aquino, seja absolutamente, seja sob algum aspecto. **Absolutamente**, chama-se forma substancial, forma de existência: ela dá o ser a uma matéria e, portanto, por isso mesmo, atualiza todo indivíduo natural e concreto: pedra, planta, animal, homem; **sob algum aspecto**, chama-se forma acidental: ela dá o ser, o existir a um "acidente", isto é, a uma maneira de ser de um indivíduo já em ato, em atualidade de existência.

Ficaremos aqui com a forma substancial, aquela que dá o ser absolutamente a todo ser natural e concreto. Todo ser natural e concreto, de fato, é um composto, um misto ontológico de forma e matéria, uma unidade substancial de forma e matéria. Prova: Mentalmente, suprima de um ser natural e concreto a sua matéria, ele não tem mais ser, existir; e, inversamente, suprima desse mesmo ser natural a sua forma de existência, que qualifica, determina tal ou qual essa matéria, da qual ela é o ato de existência, esse mesmo ser também não tem ser, existir.

Por exemplo, a galena, que é uma pedra. Suprima mentalmente da galena a sua matéria, não há ser, existir da galena; inversamente, suprima da galena a forma de existência galena, a qual imprime o status de existência galena à matéria da galena, também não haverá galena. Isso quer dizer que a matéria só existe como a matéria de algo que é determinado pela forma, e que a forma só existe como a forma (de existência) de uma matéria que ela determina.

Assim, a forma e a matéria são **dois princípios intrínsecos** do ser natural, e não duas substâncias: a substância é o composto matéria-forma. Matéria e forma só existem com uma existência correlativa, ao sabor de um composto, de um misto que só tem uma realidade **concreta**. Em suma, nem a forma nem a matéria têm existência **à parte** do composto matéria-forma.

A Matéria, a matéria com maiúscula, a matéria, tomada à parte, não tem existência concreta; ela só tem existência concreta por e sob uma forma de existência, que lhe dá o ser, e ser tal ou qual: átomo, argila, galena, metal, planta, animal, homem. Por isso, manifesta-se em si, em sua essência, a matéria não é senão isso: puro poder, pura faculdade, pura potência passiva para receber e revestir todas as formas de existência que, precisamente, lhe darão o ser, e ser isto ou aquilo, portanto, de fato, ser tal ou qual composto matéria-forma, enfim, ser tal ou qual indivíduo natural e concreto. Não tendo existência concreta, ela não é, portanto, em si, nem extensa nem dinâmica.

Isso quer dizer ainda que não é a matéria que dá o ser e a inteligibilidade às coisas, aos indivíduos naturais e concretos que povoam e assim fundam o nosso universo, mas sim a **forma**, pois é a forma que imprime a uma matéria o seu **status de existência**, e que, portanto, a atualiza, a atualiza como tal ou qual, e que é, por isso mesmo, o seu **ato de ser, de existência** - sua forma de existência. E isso quer dizer ainda que a forma é **ideia**, ideia encarnada numa matéria. Ela é, portanto, **princípio de inteligibilidade imanente** ao composto matéria-forma, de todo ser natural e concreto.

Por isso, compreende-se que o homem tenha o conhecimento intelectual das coisas. É, de fato, **porque as coisas sensíveis são inteligíveis em si mesmas** que a inteligência humana, enquanto humana, portanto unida a um corpo, a sentidos - os quais estão em contato com as coisas que se oferecem às suas apreensões, já que são da mesma natureza material que eles - que nossa inteligência, como toda inteligência, tendo por objeto **o ser - o ser inteligível**, tem o poder, a potência de extrair, abstrair das imagens mentais, elaboradas pelo trabalho dos sentidos sobre as coisas, **o ser inteligível das coisas sensíveis, sua essência**, como se diz, e isso é dizer **a ideia que elas encarnam**, e que é **o seu status de existência, sua racionalidade, sua inteligibilidade imanente**. E é por isso ainda que ela percebe os princípios que constituem a racionalidade do ser, do real, que, então, regem a razão.

Estamos longe de todas as teorias da inatividade das ideias e dos princípios racionais, sejam elas de forma platônica, agostiniana, cartesiana, kantiana, etc., reclamadas pela opção: "*a alma, e somente a alma, é o homem*". De fato, a opção as exige. A menos que se neguem os princípios racionais e a existência das ideias, como fazem os empirico-materialistas, é preciso encontrar-lhes uma origem; ora, essa origem não pode ser considerada como estando nas próprias coisas, visto que estas são entendidas como heterogêneas por natureza ao espírito - ao espírito puro que somos: "*a alma, e somente a alma, é o homem*" (4). Daí a conclusão: as ideias que temos das coisas e os princípios racionais são **inatos** - portanto, anteriores à experiência do mundo.

Estamos longe, igualmente, das teorias empirico-materialistas, exigidas desta vez pela opção inversa: "*o corpo, e somente o corpo, é o homem*". Aí, nega-se a realidade das ideias e dos princípios racionais: o homem, como o animal, é dotado apenas de conhecimento sensível. Daí a conclusão: o que chamamos **ideias** não são, em suma, senão **imagens mentais** - imagens associadas formando **imagens gerais**; e o que nomeamos princípios racionais não são senão "hábitos mentais", provocados pela repetição de experiências semelhantes. Quanto à inteligência, ela não é senão um "*sentido interno superior*", uma "memória-hábito".

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A forma, que atualiza uma matéria, portanto um corpo natural no modo de ser **vivo**, chama-se **alma**. A alma dá o ser, atualiza uma matéria, um **corpo organizado para a vida**; e, portanto, como tal, ela é, como toda forma, **o ato - o ato de existência** - desse corpo; pois "*é a mesma coisa para o corpo*, escrevem Aristóteles e Tomás de Aquino, ter uma alma, *que para a matéria desse corpo estar em ato*". - em ato de ser.

A alma é **forma de existência, ato de existência de um corpo organizado para a vida**. Sendo tal, **assim como não é fabricadora, também não é motriz do corpo do qual ela é o ato de ser**. O hilemorfismo não é o **vitalismo**, esta doutrina que participa do **hilozoísmo**, essa forma mais primitiva do panteísmo naturalista (hilé: matéria - zoé: vida = vida na matéria); o materialismo dinamista, aberto por Leibniz, não é senão uma ressurreição dele. Daí essa queda da filosofia alemã, luterana, no panteísmo naturalista. O vitalismo imagina uma força, um dinamismo, uma energia vital - que chama alma - imanente à matéria, potência motriz e fabricadora das coisas: tudo é vivo, tudo é vida. (5).

A alma, não cessam de repetir Aristóteles e Tomás de Aquino, não é nem fabricadora, nem motriz do corpo. Expliquemo-nos: Dissemos: a alma atualiza, atualiza um corpo organizado para a vida, e isso quer dizer que a alma é a forma, o ato de existência dele. Portanto, sendo tal, a alma não pode preceder o corpo que ela atualiza e, portanto, do qual ela é o ato de ser, de existência: a matéria só existe por e sob uma forma de existência. **A alma - como toda forma - o segue**, dizem Aristóteles e Tomás de Aquino, como resultado normal de sua constituição.

Um exemplo permitirá compreender. Uma casa que não está construída não é uma casa; ela não está em atualidade, em ato de casa; uma casa **que se constrói** também não o é. A casa construída, portanto que está em ato de existência casa, é a casa cujos materiais - a matéria - que a constituem (permitam-nos a expressão) o "corpo", receberam e revestiram **a forma de existência casa**, enfim, que passaram da potência ao ato - ao ato de ser casa. **A forma casa não precede, portanto, a casa construída; ela a segue, como resultado normal de sua construção**, - construção da qual ela foi então a "ideia diretriz". Se ela não tivesse sido a "ideia diretriz", a construção nunca teria resultado na casa.

A alma não precede o corpo; ela o segue como resultado normal de sua constituição. Quando a matéria do corpo for levada à **última disposição** que a substância vivente em devir requer para subsistir, esta receberá sua forma - sua forma de existência no gênero de ser vivente, seu ato de existência. E essa forma é a alma: chama-se alma a forma que atualiza uma matéria, um corpo organizado para a vida.

Assim, a alma é o **termo** da geração; ela é o acabamento natural do processo gerador. A alma eclode como elemento de um ser natural gerado por outro ser natural da mesma espécie, com a colaboração das forças gerais do mundo - daí a expressão de Aristóteles, retomada por São Tomás de Aquino: "*A matéria do corpo é gerada pelo homem e pelo sol*", - de modo que ela é o termo de uma geração.

Para o homem, não é diferente, embora sua alma, como inteligência, seja de natureza espiritual: ela é forma de existência, ato de ser de um corpo organizado para a vida. Isso significa dizer que não há ali nenhuma chegada de fora, nenhuma união de uma alma preexistente com um corpo preexistente. Tampouco há milagre. Há um **desabrochar interior** da alma, em continuidade tão perfeita, fenomenalmente falando, com os antecedentes físicos, como se a alma fosse o resultado desses antecedentes. (6)

Ela não é o resultado deles, no sentido preciso de que há **descontinuidade metafísica**; pois o resultado é destinado a superar a ação, já que o gerado deve participar do mundo do espírito. É por isso que Aristóteles diz que a alma humana, por ser racional, vem de outro lugar: a matéria não pode fabricar o espírito. É por isso ainda que Tomás de Aquino diz que é necessária uma colaboração divina – não direta, pois Deus não está em potência em relação a nada: Deus é Ato puro, o Próprio Ser subsistente.

O que é preciso compreender é que essa colaboração divina está incluída no próprio fato tal como é previsto pela **natureza naturante** – pelas causas segundas imanentes à Natureza, e que não são outras senão a própria Natureza: o que Aristóteles dizia nesta fórmula: a matéria do corpo é gerada pelo homem e pelo sol – que compreende Deus, precisamente a título de Causa Primeira. Assim, essa colaboração divina ocorre ***ipso facto***, também ela, de modo que o resultado é plenamente natural, de modo algum milagroso, como dissemos acima.

O ser gerado tem uma alma porque a matéria que deveria formar seu corpo se organizou, ou seja, passou da potência ao ato; pois a alma é "*o ato imediato (primus actus: ato primeiro = ato de ser) de um corpo organizado para a vida*" e que "*é a mesma coisa para o corpo ter uma alma, que para a matéria desse corpo estar em ato*".

Assim, a alma não precede o corpo para constituí-lo; **ela o segue**, como resultado normal de sua constituição, da qual foi a "ideia diretriz". O que precede é a alma dos geradores, princípio do dinamismo vital em obra neles e no que emana deles, visando a uma vida nova. E, por isso, compreende-se a hereditariedade.

Sendo o termo da geração, o acabamento – enteléquia – do processo gerador, a alma não é, portanto, fabricadora. Ela é a base da fabricação, como forma de existência do ovo fecundado, o qual é a substância viva nova em via de tornar-se, e no qual está concretizado o dinamismo vital dos geradores, pois é ele com "o sol" que é a causa agente, a causa operária do processo gerador. Em suma, sendo o termo do processo gerador, a alma não é fabricadora. Ela é a base da fabricação como forma de existência dos geradores e de sua obra visando a uma vida nova; ela se encontra no fim, como termo do trabalho, na hora em que o corpo se anima e em que a hominização ocorre, como dizem alguns; mas não é ela que fornece o trabalho. Ela não é operante.

Lembremo-nos do exemplo da casa. Durante a construção desta, a forma de existência casa está presente à construção como ideia real, "ideia diretriz" desta – portanto imanente àqueles que a constroem, que são a causa agente, a causa operária, senão nunca haveria construção, portanto casa construída – casa em ato de existência. A forma de casa não fabrica a casa; ela a segue, como resultado normal de sua construção. Enfim, a forma de casa não está em potência. O que está em potência são os materiais. A forma de casa aparece no termo do processo de construção. Ela o seguiu e resulta dele: ela desabrocha dele.

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Assim como não é fabricadora, a alma também não é motriz, como imaginam Platão, Agostinho, Descartes, que fazem da alma e do corpo duas substâncias, e da alma o motor do corpo. **A alma não é um motor, é um constituinte.** A alma não é uma realidade distinta do corpo como um sujeito à parte; ela é coisa do corpo, embora, como inteligência, no homem, seus poderes o ultrapassem. Ela faz com que o homem seja, e que seja o que é. Em consequência disso, o homem se desenvolve segundo seu ser.

Tratando dessa questão num clima intelectual plato-agostiniano, para quem a alma é motor do corpo, São Tomás de Aquino observa que, se a alma move o corpo, **não é por si mesma, é por seus poderes**, os quais não residem somente nela, mas pertencem ao corpo animado, segundo seus diferentes elementos e seus diferentes órgãos especializados. De tal sorte que, finalmente, o poder motor que se atribui à alma não é, a título executivo, senão "a disposição do móvel", e a expressão a alma move o corpo torna-se então esta: **o corpo animado se move a si mesmo graças à sua organização, da qual a alma, ideia real de organização, "ideia diretriz", forneceu a fórmula.** A descoberta do DNA e de seu papel no processo gerador o testemunha. Seja como for, é muito diferente do que a imaginação fisicista, mecanicista, vitalista representa.

Isto, é necessário dizer, vale evidentemente quando o vivente tiver de crescer, regenerar-se, reparar-se em caso de dano: não é obra da alma tomada à parte. Nem a alma sem o corpo, nem o corpo sem a alma são aqui o próprio agente, mas o corpo animado que, em virtude de sua atualidade ontológica incluindo sua organização, move-se a si mesmo.

Enfim, se se deseja compartilhar os papéis sem romper a unidade substancial da alma e do corpo, deve-se dizer: na nutrição, no crescimento, na reparação do vivente, a alma age **PELAS** propriedades corpóreas; as propriedades corpóreas, ou o corpo, agem **SEGUNDO** a alma.

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No fundo de tudo isso, o erro de todos os platonizantes participa dessa tentação quase incoercível de imaginar um lugar particular de existência da alma no corpo, uma "sede da alma". É o que faz Descartes ao falar da glândula pineal – a hipófise – e tantos outros ao falar do coração, do pulmão, do sangue, ou do DNA. Sendo o ato de existência de um corpo organizado para a vida, ela está inteiramente no corpo e em cada uma de suas partes. Quanto aos seus poderes, eles pertencem ao todo do composto, do misto de corpo e alma, mesmo que lhe pertença a ela, e a ela somente, ser dotada de uma atividade intelectual e volitiva.

A alma humana, por mais intelectual que seja como inteligência, é primeiro e antes de tudo forma de existência, ato de existência de um corpo natural organizado para a vida, no sentido biológico da palavra **vida**, pois não há corpo sem alma, nem alma sem corpo. Todavia, por sua atividade e faculdade próprias, **que a define toda,** ela é princípio intelectual, isto é, princípio de **vida intelectual**, a qual se manifesta como tal desde que a organização de seu cônjuge, o corpo (7), lhe permita operar segundo a atividade que lhe convém por essência, e da qual o corpo não tem parte.

Por isso, diz São Tomás de Aquino, a alma humana não está totalmente "imersa" na matéria corporal da qual é forma de existência, o ato de existência, pois é uma realidade incorpórea, por um lado (8), e por outro, é uma realidade **subsistente** – o que não significa de modo algum que seja uma substância: a substância é o composto, o misto ontológico de alma e corpo. *"A alma humana comunica à matéria corporal o ser pelo qual esta é uma realidade subsistente: **a alma intelectual não forma com ela senão um único ser, de modo que o ser do composto todo é igualmente o ser da alma.** Isso não ocorre com as formas que não são subsistentes. Consequentemente, a alma humana, por ser intelectual, mas não as outras formas substanciais dos outros compostos, conserva seu ser quando o corpo é destruído*": só ela não está totalmente imersa na matéria corporal que atualiza.

Certamente, sendo um ser natural organizado para a vida, o homem é, como tal, um vegetante, um animal, e isso ainda se subdivide. Mas isso não significa de modo algum que haja pluralidade de formas substanciais nele: o homem é uno, e o que lhe dá o ser e a unidade é sua alma intelectual, enquanto **forma substancial**. De modo que, como dizem Aristóteles e São Tomás de Aquino, dando o ser absolutamente, ela contém em sua perfeição a alma vegetativa, a alma sensitiva e, além disso, todas as formas inferiores, e realiza sozinha todas as operações que as formas menos perfeitas realizam nos outros seres onde essas formas são substanciais, como se vê nos seres inanimados e nos outros seres animados.

Isso permite compreender que, para que a alma humana realize as operações que lhe são próprias como inteligência, espírito, foi necessário que ela tivesse operado, como ***a radice*** – na raiz – uma constituição total do corpo do qual é o ato de ser, que ela tenha modificado fisicamente sua matéria e organizado, do nível mineral ao nível vegetativo, deste ao nível da sensibilidade, para que apareçam, nos cumes da vida corporal, essas sensações, imagens, experiências, memórias nas quais a alma encontra o apoio de suas operações intelectuais, enfim, o suporte de sua vida intelectual.

Assim, a alma humana, embora sendo forma substancial, forma de existência de um ser natural, não deixa de ser, como revela sua atividade própria, que a especifica toda, **inteligência, espírito**, ou como ainda se diz na Escola, "forma pura", e como tal é uma realidade incorpórea e subsistente.

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O que prova que a alma humana seja inteligência, espírito e, portanto, uma realidade incorpórea e subsistente, dir-se-á? Simplesmente seu objeto formal: **o ser inteligível – o ser inteligível conhecido**, portanto na inteligência sob a forma de "espécie inteligível", como diz São Tomás de Aquino, tendo os sentidos relação apenas com o sensível e realizando neles apenas a "espécie sensível", a imagem mental. Todas as operações que lhe convêm essencialmente testemunham isso: todas têm por objeto o ser inteligível. Ela é, portanto, necessariamente da mesma natureza que seu objeto, o inteligível, a saber, imaterial-espiritual; "*pois a natureza de uma realidade é revelada por sua operação*", como não cessam de repetir Aristóteles e São Tomás de Aquino.

E isso significa não apenas que a alma humana é, por sua atividade e faculdade, uma realidade incorpórea e subsistente, mas também que ela é **imortal**. Sendo incorpórea, imaterial, portanto não composta de elementos materiais, como seu objeto o inteligível, ela é **simples** e, por conseguinte, **indecomponível, incorruptível – imortal**.

**A alma humana é imortal...** Sim, mas a alma, e a alma sozinha, não é o homem, assim como o corpo, e o corpo sozinho, não é o homem. O homem é um ser natural e, como todo ser natural no modo de ser vivente, um composto, um misto ontológico de alma e corpo.

"A alma humana comunica à matéria corporal o ser pelo qual esta é uma realidade subsistente: **a alma intelectual não forma com ela senão um único ser, de modo que o ser do composto todo é igualmente o ser da alma**". É por isso que São Tomás de Aquino não hesita em escrever que, para o homem, a morte é um escândalo de ordem ontológica, uma violência à sua natureza de misto ontológico. Com efeito, sendo a alma **imortal** e forma que atua um corpo, o homem não deveria conhecer a ruptura de sua unidade substancial de alma e corpo, enfim, conhecer a morte. Sendo imaterial e espiritual e, por isso, imortal, a alma humana, enquanto forma que atua uma matéria, um corpo, deveria "espiritualizar" este a ponto de torná-lo incorruptível.

Essa fórmula "espiritualizar uma matéria, um corpo" pode surpreender. E no entanto a alma vegetal "vegetaliza" uma matéria no gênero de ser planta; uma alma sensitiva "animaliza" uma matéria no gênero de ser animal. A alma intelectual, que é a alma humana, ao fazer tudo isso, como vimos, não deixa de "espiritualizar" a matéria da qual é o ato de ser, precisamente em vista de sua atividade própria: a vida intelectual. O trabalho orgânico dos sentidos externos e internos é todo ordenado a esse fim (9).

Certamente as imagens mentais que ele elabora não são **ideias**: a imagem é de ordem sensível, a ideia é de ordem inteligível. Uma não é a outra, uma não é igual à outra, pois uma está ligada ao tempo, ao movimento, portanto nunca idêntica em dois instantes, enquanto a outra é imutável, independente do tempo, estranha ao movimento. As imagens mentais são apenas "símbolos de ideias"; mas, por isso mesmo, já ordenadas, coordenadas pelos sentidos internos, para outra coisa. O pensamento é preparado, mas não é produzido. O pensamento é um fato novo; é uma criação original, que pertence ao espírito, e ao espírito sozinho – é por isso que se deve admitir que a alma racional, a alma humana, é inorganizada, imaterial, subsistente. Não confundamos as condições do pensamento com o pensamento em si.

Porque é um ser natural, portanto um composto ontológico de alma e corpo, todo conhecimento, para o homem, começa pelos sentidos – ***omnis cognitio a sensu***, mas para se concluir pela e na inteligência, já que seu objeto próprio é o ser – o ser inteligível das coisas sensíveis, e ela o extrai, abstrai das imagens mentais. E isso é possível porque a alma humana, por mais intelectual que seja, é forma substancial, forma de existência de um corpo, e portanto lhe imprime o estatuto de existência do qual ela é o princípio.

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**A alma humana é imortal...** Portanto, sendo forma de existência, ato de existência do composto que ela atua, resulta que esse composto, em direito, deveria ser **imortal**: "*a alma humana comunica à matéria corporal o ser pelo qual esta é uma realidade subsistente: **a alma intelectual não forma com ela senão um único ser, de modo que o ser do composto todo é igualmente o ser da alma***", escreve São Tomás de Aquino em seu Comentário ao *De Anima* de Aristóteles e em sua Suma Teológica. Daí a célebre conclusão: para o homem, a morte é um escândalo de ordem ontológica.

Se, portanto, o homem conhece a morte, isto é, a ruptura da unidade substancial da alma e do corpo, portanto o processo de divisão, de "decomposição" dos elementos materiais constitutivos do corpo, é porque a alma humana, embora sendo "forma pura", portanto imortal, **perdeu essa capacidade de manter essa unidade**, é porque se tornou impotente para dominar o polizoísmo anárquico que é o processo de "decomposição" desse composto fabuloso de elementos e órgãos vitais que é o corpo. Sob o assalto de agentes externos, esses elementos tentam se subtrair ao poder tutelar da alma que os mantém sob seu governo e determina suas propriedades a agir segundo o estatuto de existência que ela lhes impõe. Isso é a corrupção, a morte.

De onde procede essa impotência da alma, em sua natureza ou essência, **imortal**, portanto tendo, por si mesma, capacidade por seus poderes de manter em sua unidade os elementos constitutivos da matéria corporal, da qual ela é a forma, o ato de existência?

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**Como devemos falar do Pecado Original...**

Lembremo-nos! O objeto formal e adequado da inteligência enquanto inteligência é o ser – o ser quanto à sua inteligibilidade. Se a inteligência humana, portanto unida a um corpo, a sentidos, tem como objeto primeiro o ser inteligível das coisas sensíveis, não deixa de ser que, por sua abertura a todo o real, seu objeto último e necessário é, como escreve Aristóteles, "o primeiro inteligível", Deus, o qual é Ato puro, o que São Tomás de Aquino traduz como "o próprio Ser subsistente", isto é, o Ser em plenitude infinita de ser e de inteligibilidade.

Se, portanto, a alma, por mais humana que seja, tem por objeto "o primeiro inteligível" – primeiro por excelência, o próprio Ser, Deus –, esta é, portanto, sua última razão de ser. Esta é, portanto, sua **alimentação natural e necessária**, enquanto inteligência, espírito. Assim, como ocorre com o grão de trigo, para alcançar sua plenitude, portanto ser espiga, de pastar a luz do sol, é próprio do homem pastar essa "luz da luz" que é Deus.

Ora, se o homem se subtrai a ela, sendo esta sua alimentação necessária, ele não pode alcançar sua plenitude, assim como o grão de trigo, subtraído à luz do sol, não pode alcançar a sua, de modo que é atentado, por isso, contra sua capacidade de tornar-se plenamente espiga, e, portanto, é atentado contra sua descendência.

Isso é o que fez o homem original. Ele se subtraiu à "luz, em quem estava a vida". E é isso que se chama **pecado original**, cuja noção se encontra na memória de todos os povos.

Tendo se subtraído ao seu objeto último, tendo se desviado da "luz em quem estava a vida", o homem atentou contra si mesmo – contra sua razão de ser. Um animal é ateu, o homem não pode sê-lo sem atentar contra sua natureza. Se é dotado dessa inteligência que o distingue do animal, é para algo, e esse algo não pode ser senão Deus, "primeiro inteligível", "luz da luz", e viver dela, como é próprio do grão de trigo viver do sol.

Tendo a inteligência do homem se desviado de seu objeto último e necessário, a vontade, que é de certo modo o seu peso, é desviada de seu objeto, o Sumo Bem, Deus – essa "felicidade" para a qual o homem é feito, como diz Aristóteles – e, por isso, busca a felicidade no sensível, pois a inteligência, tendo se desviado de seu objeto próprio e último, a si mesma se submeteu a ele.

O homem foi feito para pastar a luz, em quem estava a vida; fez-se para pastar a sombra... Como sua alma, embora permanecendo segundo sua natureza, intelectual, imortal, subsistente, não teria perdido, ao subtrair-se ao seu objeto último e necessário, à sua razão de ser, seu poder, sua potência de "espiritualizar" em plenitude a matéria corporal da qual é o ato, a forma de existência, e, por conseguinte, comunicar-lhe sua própria imortalidade? É por isso que o homem veio a conhecer essa trágica ruptura de sua unidade substancial, a morte, esse escândalo ontológico.

A ressurreição dos corpos é o **restabelecimento sobrenatural** dessa unidade, rompida pelo pecado original; pois a alma sem o corpo e o corpo sem a alma não são o homem.

**Onde devemos falar da Encarnação do Verbo...**

A encarnação do Verbo, em quem e por quem vive o Cristo, que não faz com ele senão uma só pessoa, que é Filho-do-homem-Filho-de-Deus, e seu igual, é o Verbo que se oferece em holocausto ao Pai para restituir o homem à "*Luz, em quem estava a vida dos homens*", e que, "*luz nascida da luz, Deus verdadeiro nascido do Deus verdadeiro*", se oferece como alimento aos homens. E isso é o mistério da Eucaristia.

***Per ipsum, et cum ipso, et in ipso***... Sim, por Cristo, com Cristo e em Cristo, os homens são convidados a reconquistar as condições de sua razão de ser e vivê-las. É a preparação necessária para participar, além dessa ruptura da unidade substancial da alma e do corpo consecutiva ao pecado original, além da morte, do festim inaudito que é o "face a face" da alma com o próprio Deus. Nesse "face a face", Deus, por um dom inaudito de si mesmo à alma em que Se compraz, faz explodir seus limites para Se dar a conhecer tal como Se conhece a Si mesmo, e tal como quer ser conhecido e amado, Ele que ama suas criaturas mais do que estas jamais saberão amar a si mesmas.

**A Ressurreição dos corpos...**

Por aí, por esse "face a face" desconcertante, compreende-se em que consiste a Ressurreição dos corpos, essa restituição ao homem de sua unidade substancial, sem a qual ele não é homem. Com efeito, quando essa ressurreição ocorrer, a alma, assim regenerada, enquanto forma que atualiza uma matéria, terá a capacidade de "espiritualizar" essa matéria corporal e, portanto, torná-la **imortal**. E é este "o corpo glorioso", anunciado pelas Escrituras e já manifestado aos homens pela Ressurreição de Cristo.

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Claro, estamos resumindo ao extremo. Por isso, remetemos à obra de São Tomás, em especial à *Suma Teológica*. O que simplesmente quisemos mostrar é que a doutrina hilomórfica de Aristóteles e, por conseguinte, a doutrina do "composto humano", é a **única**, como tão bem compreendeu São Tomás de Aquino, que por si mesma permite acessar alguma compreensão dos mistérios cristãos, sem atentar contra sua natureza divina, sem atentar contra a transcendência de Deus e seu mistério, pois ela afirma ambas as coisas, e sem atentar de modo algum contra o pensamento de Aristóteles.

O que é admirável e único é que a filosofia de Aristóteles, nascida da especulação grega, inscrita na ordem do pensamento monoteísta, iniciada por Anaxágoras (500-428 a.C.), perpetuada por Sócrates (470-399 a.C.) e Platão (427-347 a.C.), e sistematizada por Aristóteles (384-322 a.C.) de maneira exaustiva, é hostil por si só não apenas a todos os politeísmos e a todos os panteísmos, mas também a certas formas do próprio monoteísmo, sejam elas platônicas, neoplatônicas, muçulmanas, etc., e até às heresias cristãs antigas ou modernas, pois denuncia sua petição de princípio.

Ela é a única filosofia capaz de se encerrar na revelação divina. Só ela o pode, pois é a única filosofia que não hesita em ir até o fim de cada noção, para esgotá-la em tudo que contém de verdade e de ser, já que sua visada é o Ser todo. Como, partindo do ser inteligível das coisas sensíveis, não acederia ela ao próprio Ser subsistente — o "primeiro inteligível" por excelência? Tudo não é racional pela racionalidade de Deus?

Certamente, por mais perene que seja, essa filosofia é apenas um esclarecimento de baixo para cima, de modo que o supremo, ou seja, o fundamental, permanece na obscuridade, enquanto a revelação ilumina de cima para baixo e, por isso mesmo, primeiro os mais altos cumes: Deus, o espírito, a alma, as origens primeiras e os destinos últimos. Entre uma e outra, não há, portanto, medida alguma: quem diz revelação diz aporte transcendente. Mas há um apelo recíproco; e, por isso, há relação. Só Deus pode falar de Deus! Mas como sua Palavra, seu Verbo, pelo qual tudo foi feito, não seria mais audível para quem invoca essa Palavra?

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(1) Objeto formal, absolutamente simples, por sua própria natureza de inteligível, que a inteligência não pode falsear, e objeto adequado, fora dos limites do qual ela não pode sair: seria, para ela, deixar de pensar. O ser é o objeto formal e adequado da inteligência enquanto inteligência (divina, angélica, humana).

Contudo, o objeto próprio da inteligência humana enquanto humana, portanto unida a um corpo, a sentidos, é o ser das coisas sensíveis — o ser inteligível, portanto a essência, das coisas sensíveis, no espelho das quais conhecemos aqui embaixo as realidades espirituais, nossa alma e Deus.

Isso significa que Deus é o objeto último da razão de ser deste dom da inteligência, concedido ao homem, e que o distingue do animal: o animal só se relaciona com o sensível, não com o inteligível — com o ser. O homem se relaciona, pelos sentidos, com o sensível, e, pela inteligência, com o inteligível — com o ser.

E é porque a inteligência se relaciona com o ser — com o inteligível, que, desde aqui embaixo, ela pode atingir Deus, não por uma apreensão direta. Deus não é uma coisa sensível, escondendo em si sua inteligibilidade, de modo que a inteligência pudesse abstrair esta das imagens mentais que lhe fornece o trabalho dos sentidos sobre uma coisa.

Deus não é uma coisa e, com muito mais razão, sensível. Trata-se de outro movimento racional, aquele mesmo pelo qual se atinge e conhece nossa alma, através de suas operações, como princípio dessas operações. É por esse mesmo movimento que nossa inteligência, aqui embaixo, atinge e conhece Deus. Remonta-se do efeito à causa; parte-se das coisas enquanto são e enquanto são em si inteligíveis e remonta-se à fonte única ao mesmo tempo de seu ser e de sua inteligibilidade.

Atinge-se a Ele, precisamente, porque, como escreve Aristóteles, Deus é "o Primeiro inteligível" (por excelência); pois Ele é o próprio Ser, não um ser entre os seres, mas o próprio Ser, o próprio Ser subsistente, como diz Tomás de Aquino, portanto plenitude absoluta, infinita, de ser e de inteligibilidade. E tal é a razão de ser deste dom da inteligência ao homem, pois o objeto formal da inteligência é o ser.

(2) R. P. Sertillanges, em *A Filosofia de São Tomás de Aquino*, T. I.

(3) Em apêndice – ao final do artigo – veja os princípios racionais e sua breve análise. Talvez fosse bom ler neste momento, para uma melhor compreensão da sequência do texto.

(4) Para lançar **uma ponte** – sem a qual a objetivação de nossas ideias não teria nenhum suporte real – entre **a alma racional** que é a alma humana, da qual, como Platão, eles fazem uma substância e do corpo outra substância, **e as coisas**, os agostinianos chegaram a negar a natureza puramente imaterial, incorpórea – espiritual – da alma, em suma, que ela seja **espírito puro**; e, por referência ao hilemorfismo aristotélico, fizeram dela **um composto de matéria e forma**. Aqui, portanto, materializa-se a alma para não desmaterializar os corpos, as coisas, tanto se entendem estas no sentido mais empírico da palavra coisa; não se pode admitir que elas sejam ao mesmo tempo sensíveis e **inteligíveis**, em suma, "ideias encarnadas" em uma matéria, e, por isso mesmo, o poder abstrativo da inteligência, sua capacidade de abstrair das coisas sua inteligibilidade **imanente**.

Tomás de Aquino refutará esta teoria: o hilemorfismo já não é hilemorfismo, se se concebe a forma, a alma, como um composto de matéria e forma, em suma, uma substância material – por mais sutil que se a entenda. Se fosse assim, o que é então a matéria? Hoje em dia, esquecendo a origem e o porquê desta teoria agostiniana, alguns pensadores, embora se pretendendo tomistas, aderem a esta teoria, na preocupação de diferenciar absolutamente a alma, o espírito humano e angélico, do espírito divino, Deus. A intenção é louvável, a solução insustentável. Sempre a mesma tentação imaginativa de substancializar a alma... Enfim, as provas da transcendência divina não repousam sobre tais argumentos.

(5) A doutrina vitalista nasceu por sujeição ao hilozoísmo primitivo, ou mesmo ao mecanicismo, elaborado por Demócrito, e por reação contra o espiritualismo, elaborado por Platão. Como admitir, com Platão, que a alma seja imaterial, incorpórea, e que se a entenda, no entanto, como o motor do corpo? Como, se a alma é assim, sustentar uma ação do corpo sobre a alma e da alma sobre o corpo? Digamos que o mesmo raciocínio será sustentado a respeito de Deus e de sua pretensa ação fabricadora e motora do mundo.

Epicuro dizia contra os defensores da imaterialidade da alma: "Propriamente incorpóreo, nada se pode conceber, a não ser o vazio. E o vazio não pode nem agir nem sofrer, ele permite apenas ao corpo mover-se através dele. Por conseguinte, dizer que a alma é incorpórea é um absurdo. Se a alma fosse tal, ela não poderia nem agir nem sofrer, o que, no entanto, vemos ela fazer com evidência". Os Enciclopedistas não dirão outra coisa. Daí a conclusão vitalista: é necessário conceber a alma como material, isto é, como uma força, uma energia vital de natureza física.

Mais tarde, embora concordando com a realidade da alma racional, da qual fazem uma substância, alguns pensadores colocarão uma segunda alma, de natureza material, fabricadora e motora do corpo. No século XIX, outros, para suprimir esta anomalia de duas almas no corpo, sustentarão que há continuidade entre a atividade vital (no sentido biológico) e a atividade intelectual: trata-se, dirão, de uma mesma força, de uma mesma energia, de um mesmo "élan vital", como o chama Bergson, após os neoplatônicos de Alexandria (Plotino), e após Schelling, Ravaisson, etc., simplesmente transformada. Como? Mistério. Tanto vale dizer com os Enciclopedistas e seus sucessores que "a matéria pode pensar" e, com Marx, que a "matéria pensante" não é senão um "salto quantitativo brusco": a matéria bruta passando ao estado de matéria viva, depois pensante. O que está longe de explicar seja o que for.

(6) Não como a rosa para o roseiral. A rosa não é o roseiral. Ela é seu produto precisamente com vistas a uma vida nova.

(7) Segundo a fórmula: *Duo in carne una*... portanto aqui: *Duo in substantia una*.

(8) "Quanto mais a forma substancial é um grau elevado, mais ela tem domínio sobre a matéria corporal, menos está imersa nela – *immergitur* – e mais a ultrapassa por seus poderes. Assim, a forma de um corpo animado possui uma atividade que não depende das propriedades dos elementos materiais que o compõem. Quanto mais se sobe no grau dos seres, mais se encontra que a capacidade da forma ultrapassa a matéria: a alma vegetal mais que o metal, a alma sensitiva mais que a alma vegetal. Ora, a alma humana é a forma substancial mais elevada em perfeição nos seres naturais. Seu poder ultrapassa de tal modo a matéria corporal que ela possui uma atividade e uma faculdade nas quais esta matéria não entra de maneira alguma. Esta faculdade é a inteligência". (Tomás de Aquino in *S. Théol.* Ia. 76/1).

(9) A análise aristotélica e tomista dos sentidos externos e internos e, mais particularmente dos sentidos internos, onde Aristóteles e Tomás de Aquino distinguem a **estimativa**, própria ao animal, e sua semelhante a "**cogitativa**", própria ao homem, mostra perfeitamente a "espiritualização" desta última – no sentido de que ela opera "sínteses de representações individuais, como a razão propriamente dita faz sínteses de representações universais". (Remetemos ao *De Anima* de Aristóteles e ao seu comentário por Tomás de Aquino, e à *Suma Teológica* Ia. 78/4).

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**APÊNDICE: Breve lembrança dos princípios racionais.**

A inteligência percebe primeiramente no ser a verdade do princípio de identidade, este é o primeiro de todos; os outros se ligam a ele.

O **princípio de identidade** se expressa por esta fórmula: "o que é, é; o que não é, não é", daí a fórmula breve: "A é A". Ele expressa, portanto, uma **identidade objetiva**, um modo que convém ao ser, ao que é (ou pode ser), ao ser considerado em si mesmo **antes de toda relação com outra coisa**. É o princípio analítico por excelência: o atributo não está apenas contido no sujeito, **ele é idêntico ao sujeito**. Compreende-se por isso que a fórmula explícita do princípio de identidade é: "todo ser é e é por si mesmo de uma natureza determinada que o constitui em próprio". Daí as expressões: um gato é um gato; um cachorro é um cachorro. O que não é de modo algum uma tautologia, como Kant gostaria de crer. Todo juízo afirmativo exprime, pelo verbo **ser**, a identidade que há entre o ser que significa o sujeito e o ser que significa o predicado; mas esta identidade não é lógica, ela é **objetiva, real**. Assim, quando se diz "um gato é um gato, um cachorro é um cachorro", não se trata de uma evidência lógica, mas de uma **evidência objetiva**. Enfim, o princípio de identidade, embora exprimindo uma identidade objetiva, e a primeira de todas, **ensina algo**; ele afirma que o ser sujeito e o ser predicado são **um e o mesmo**. Dizer Sócrates é andante é dizer **Sócrates é o mesmo ser que Sócrates que é andante**.

O **princípio de não contradição** é a forma negativa e mais usual do princípio de identidade – é por ser sua forma mais usual que Aristóteles o chamava de "princípio supremo"; contudo, ele não é primeiro, pois a negação se fundamenta em uma afirmação; portanto, em si, o primeiro princípio é o princípio de identidade.

O princípio de não contradição formula-se: *um mesmo ser não pode ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto ser o que é e não ser o que é*. Daí a expressão: "uma porta não pode estar ao mesmo tempo aberta e fechada". De duas proposições contraditórias, uma é verdadeira, a outra é falsa; duas proposições contraditórias não podem ser nem verdadeiras ao mesmo tempo, nem falsas ao mesmo tempo.

Ao contrário, Hegel e todos os partidários do evolucionismo e do "materialismo dialético" (Marx) pretendem que a contradição é lei tanto do real quanto do pensamento. A essência das coisas é sua própria mudança: o ser não é, ele é apenas o devir.

O **princípio do terceiro excluído** é a forma disjuntiva do princípio de não contradição. Ele se formula: "*Uma coisa é ou não é: não há meio-termo*" – ou seja, terceira hipótese. (Este princípio é, obviamente, negado pelos defensores do "materialismo dialético" e do evolucionismo: o ser não é, ele é apenas o devir.)

O **princípio de substância** é uma determinação do princípio de identidade; ele se formula: "*Aquilo que é uno e o mesmo sob suas maneiras de ser múltiplas e transitórias*". O múltiplo só é inteligível em função do uno, o transitório só o é em função do permanente e do idêntico, se o ser é de si uno e o mesmo. Assim que os dados de cada um dos sentidos externos são centralizados pelo primeiro sentido interno, o "senso comum", como o chamam Aristóteles e Tomás de Aquino, a inteligência apreende seu objeto próprio, o ser, e aquilo que é ser em si, a substância, e isso antes mesmo de apreender a maneira de ser, o fenômeno, o acidente.

O **princípio de razão de ser ou de razão suficiente** (1): "*Tudo o que é tem sua razão de ser*", "*tudo é inteligível*". O princípio de razão de ser ou de razão suficiente vincula-se ao princípio de identidade por uma redução ao impossível – raciocínio por absurdo: todo ser tem sua razão de ser, o que é necessário para ser; negá-lo seria identificar o que é com o que não é.

A formulação explícita do princípio de razão de ser é esta: **todo ser tem a razão de ser daquilo que lhe convém, seja em si, seja em outro**. EM SI, se isso lhe convém segundo o que o constitui propriamente; EM OUTRO, se isso não lhe convém segundo o que o constitui propriamente – em outras palavras, segundo seu ser depende de outro. Este princípio é evidente por si – *per se notum*.

Pode-se demonstrá-lo por absurdo. Dizer que o quadrado não tem aquilo pelo qual é quadrado com tais propriedades, em vez do círculo com tais propriedades, é dizer que o quadrado pode ser círculo. Dizer que o contingente (o que é sem ser por si, pois, embora sendo, poderia não ser) não tem aquilo pelo qual é, é identificá-lo com o que não é. Negar essa relação de dependência (*ab alio* – por outro), é negar que o ser contingente seja condicionado ou relativo, é afirmar que ele é não-condicionado, não-relativo, ou seja, absoluto. Em suma, dizer: o que é, sem ser por si, é por si.

Tomemos um exemplo: toda maneira de ser (fenômeno, acidente) não tem o ser por si, mas por outro. Ele não é o branco de nada, o vermelho de nada, o quente de nada, o grande de nada, etc., **mas de algo**. Toda maneira de ser (todo fenômeno, todo "acidente" (no sentido aristotélico e tomista)) não é ser por si; não é ser substancial, em suma, um ser. Ela só tem ser do ser ao qual sobrevém essa maneira de ser, esse fenômeno, esse acidente. O verde da cereja não é a cereja, senão tudo que é verde seria cereja. Vê-se que negar seria identificar o verde (fenômeno, acidente, maneira de ser) seja com o absoluto, seja com o nada. Seria dizer que a maneira de ser, o fenômeno, o acidente – o contingente – **incausado** pode existir, em suma, que aquilo que não tem sua razão de ser, seja em si, seja em outro, pode existir.

Conclusão: a razão de ser é intrínseca ou extrínseca.

Os **princípios de causalidade e finalidade**. Eles se formulam: *toda mudança, todo devir tem uma causa*.

De fato, a mudança, o devir é união do diverso; exige, portanto, uma razão de ser extrínseca, a qual é dupla: **eficiente e final**.

A mudança, o devir é união do diverso; ele comporta, de fato, dois elementos: não-ser e ser ou, como se diz: potência e ato. *A mudança, o devir é isso mesmo: a passagem do não-ser ao ser, da potência ao ato.* Tomemos um exemplo: Um estudante de medicina é um não-ser médico: ele está em potência médico, pois não é médico. Quando ele for médico, portanto médico em ato, é porque terá passado da potência ao ato de ser médico.

Isto posto, **o que é não se torna**: ele é, por um lado, e por outro, **nada pode vir do nada**: o nada não se torna ser. **Portanto, o que se torna só pode vir de algo que é intermediário entre o ser determinado, portanto em ato, e o puro nada.** Esse intermediário entre o puro nada e o ser determinado chama-se **potência**. É ser indeterminado, **mas em aptidão, em capacidade, EM POTÊNCIA de uma determinação**. Isso não é um puro não-ser, um puro nada. Sigamos nosso exemplo do estudante de medicina; ele não é médico, ele é um não-ser médico, um indeterminado médico; mas ele está em aptidão, em capacidade, em potência médico, portanto de determinação médico – isso não é nada; não é um puro não-ser estar em potência médico. A potência de ser médico é, portanto, bem um intermediário entre o puro nada e o ser.

Platão já o compreendera: para que haja devir, mudança, é preciso que haja entre o puro não-ser, o puro nada, e o ser – o ser em atualidade de ser – "um não-ser que é". Contudo, por si mesmo, esse "não-ser que é", esse "não-ser determinado a ser" – e que Aristóteles chamará **potência** – não pode por si mesmo passar da potência ao ato, do indeterminado que é ao estado determinado, portanto ao ato.

Por si mesma, a potência não passa ao ato: é necessário, portanto, um princípio **extrínseco** que seja causa dessa passagem do indeterminado à determinação, da potência ao ato. Esse princípio, dirá Aristóteles, é necessariamente duplo: **eficiente e final**.

**Causa eficiente**: o devir é, para o ser, a passagem da indeterminação à determinação, da potência, portanto, ao ato; e como a indeterminação, a potência por si não é o determinado, o ato, é necessário um princípio extrínseco que o determine ou atualize. Esse princípio extrínseco determinante ou ativo é chamado de causa eficiente.

**Causa final**: o princípio eficiente, a causa eficiente, agente, operante, deve ter uma razão para agir — suprima essa razão, esse fim do agir, não há agir. Em suma, a causa eficiente deve ter uma razão para agir e para fazer isto em vez daquilo. Quanto à potência sobre a qual ela age, é necessário, também ela, que seja suscetível de receber tal determinação e não outra, senão a causa produziria tudo ou nada, portanto seria qualquer, e o qualquer não tem mais realidade para o ser do que para o pensamento; em suma, é necessário que a causa possa produzir tal efeito. Assim, se tudo tem razão de ser, o efeito deve ser predeterminado. E isso significa que a **potência ativa** — a causa agente, eficiente, operante — e a **potência passiva** — o que está em potência, portanto à espera de determinação — ambas pré-contêm a determinação de seu efeito.

O que está em potência não pode, certamente, pré-conter em ato, atualmente, a determinação de seu efeito: senão o que está em potência estaria em ato: o carvalho estaria em ato na bolota, e então a bolota não estaria em devir de ser carvalho adulto. A potência não pré-contém a determinação de seu efeito senão na medida em que é **ordenada** a tal ato e não a outro, como à sua perfeição e ao seu acabamento, em suma, na medida em que a potência tem em si **sua razão de ser**.

Exemplifiquemos: o estudante de medicina está em potência para ser médico — nele, essa potência de ser médico é ordenada à determinação, ao ato de ser médico, e não a outra coisa, por exemplo, a ser sapateiro ou arquiteto. É necessário, portanto, para que ele possa passar ao ato de médico, logo para que aceda à sua perfeição, ao seu acabamento, que a causa eficiente seja ela mesma ordenada, predeterminada a agir sobre essa potência: a ação do mestre sapateiro ou do mestre arquiteto não terá nenhuma eficiência sobre essa passagem do estudante de medicina, portanto em potência de médico, ao ato de ser médico. É necessário, portanto, uma causa extrínseca predeterminada para permitir essa passagem: só pode ser um médico ele mesmo em ato de médico, e é isso que se chama então de professor de medicina.

Conclusão: **os dois princípios de causalidade fundamentam-se em um só**: "*tudo o que devém exige uma causa eficiente e final*".

(Não podemos abordar aqui o problema em sua consequência, a teologia natural ou teodicéia. No entanto, é por aí que se fundamenta a necessidade de uma Causa primeira, Deus).

H. P.

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(1) Não confundamos a razão e a causa: a razão é um **princípio de conhecimento**; a causa é um **princípio de existência**. Uma pane de eletricidade tem sempre uma causa; não tem razão, porque a eletricidade não sabe por que ela cessa de existir. A razão da pane está apenas naquele que conhece sua causa.