Cadernos Barruel 14 - 1985 Original disponível em: http://virgo-maria.org/D-Gnose-et-Contre-Eglise/Cahiers_Barruel/index_cahiers_barruel.htm À DESCOBERTA DO ISLAMISMO - I DAS ORIGENS À MORTE DE MAOMÉ Como não abordar neste Boletim a questão do Islã, quando cada dia a mídia, e nossas ruas, estão submersos por sua presença? Além disso, o número de conversões de europeus, ex-cristãos ou outros, cresce sem cessar: cinquenta mil na Espanha, outros tantos na Inglaterra, cem mil na França, diz-se até... E, sobretudo, não é muito difícil discernir o toque islâmico por trás de toda uma parte do esoterismo que se derrama sobre o Ocidente há cerca de quinze anos e que, doravante, conseguiu se infiltrar no seio do catolicismo mais tradicional, aquele dos fiéis da missa tridentina. Que este último escândalo só tenha sido possível pela cumplicidade de algumas pessoas, clérigos especialmente, não muda nada na questão : a simples realidade de um fato tão extraordinário, que muitas pessoas sequer conseguem admitir, nos obriga, ao contrário, a nos debruçarmos sobre a questão do Islã, para conhecer primeiro seu quadro, geográfico, histórico e humano, depois as doutrinas, suas variantes e suas fontes - sem negligenciar, muito pelo contrário, os pontos de contato do Islã com o Cristianismo, tanto os encontros de fato quanto as aparências, os equívocos, esses preciosos equívocos que permitem aos esoteristas enganar os cúmplices demasiado ingênuos... Por mais que possa pretender, cada homem é sempre marcado por suas origens, seja seu destino dos mais humildes ou o conduza ao topo do sucesso e da fama. O meio que o viu nascer e crescer influencia, por sua geografia, seu clima, o modo de vida das populações, suas culturas e suas crenças, na formação de seu caráter e seu comportamento. É necessário, portanto, fixar este cenário, analisar da melhor forma o consenso no qual Maomé iria se manifestar para se tornar o fundador venerado de uma religião que agrupa milhões de fiéis de todas as raças. A) A ARÁBIA ANTES DO NASCIMENTO DE MAOMÉ 1) Geografia e história A geografia física da península arábica não é indiferente ao problema do Islã. Ela carece muito de homogeneidade, e, mesmo, na maioria das vezes de hospitalidade, o que a priori não era favorável ao desenvolvimento de uma religião e de uma cultura elaboradas e unitárias. Esta vasta plataforma de granito inclinada em direção ao Golfo Pérsico compreende uma planície costeira de largura variável, um rebordo montanhoso selvagem e um planalto de imensas extensões estépicas e desérticas, orientado de Norte a Sul. O clima é variado, sujeito a diversas influências. O sul, voltado para o Oceano Índico, conhece o regime das monções, favorável às culturas, e compreende o IÉMEN e o HADRAMOUT. O centro e o norte estão sujeitos aos caprichos de chuvas raras e escassas. Apenas os oásis do HEDJAZ, na fachada ocidental, gozam, na Arábia Central, de uma boa posição por estarem situados em uma região vulcânica antiga. Ali se desenvolveu um certo número de cidades, circundando Meca, capital mercantil e caravaneira, verdadeiro coração da Arábia do século VII. Tradicionalmente, distinguiam-se dois grupos de populações, rivais embora descendentes ambos de Abraão. Os Árabes do Sul ou Iemenitas e os Árabes do Norte ou Nizaritas. Esses dois grupos subdividiam-se em um grande número de tribos independentes, notadamente os Lacmidas e os Gassânidas entre os Iemenitas, os Qais e os Coraixitas entre os Nizaritas. A Arábia do Sul, favorecida pelas condições climáticas, conheceu muito cedo uma certa civilização. No século IX a.C., existia o Reino Mineu; depois, seguiram-se o Reino de Sabá, enriquecido pelo tráfico de aromas e pedras preciosas com a Índia, e o Reino Himiarita, que durou do século II a.C. ao século IV d.C. A Arábia do Norte manifestou-se mais tardiamente. Por muito tempo, os nômades que a povoavam, cameleiros e pastores de ovelhas, mal eram organizados, contentando-se em proteger os sedentários ou cobrar-lhes tributos. Muito antes de Cristo, a corrente comercial já estava estabelecida das Índias e da Pérsia em direção à Síria. As caravanas árabes nômades de que fala o Antigo Testamento circulavam entre o Eufrates e o Mar Morto, passando pela via direta que subia o vale do Eufrates e contornava o deserto sírio pelo norte. No século VI de nossa era, a situação mudou completamente. As rivalidades entre os Bizantinos e os Persas Sassânidas tornaram as rotas do norte incertas. Os comerciantes árabes passaram do norte para o sul. Foi doravante nas margens do Mar Vermelho que se acumularam os depósitos de mercadorias vindas da China, das Índias e da África em um sentido, e do Egito e da Síria no outro. Aproveitando a decadência Himiarita e as necessidades comerciais, a poderosa tribo dos Coraixitas organizou Meca como uma república mercantil. Fundou sua fortuna no tráfico entre o Oceano Índico, o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, por meio de caravanas regulares. Essa instituição é mencionada no Alcorão, na sura CVI, 1-2: "... Pela união dos Coraixitas, que se unem para as caravanas do inverno e do verão ." Ironia do destino, foi a expansão do Islã e, principalmente, o papel desempenhado pela dinastia dos Abássidas que, a partir de 750, teve Bagdá como capital e realizou a unidade do Oriente Próximo, tornando novamente praticável a antiga rota clássica das caravanas, o que precipitou a ruína econômica de Meca. Paralelamente, tribos do sul emigraram para o extremo norte, até os confins da Síria. Ali fundaram vários estados. O mais importante foi o Reino dos Nabateus, com capital em Petra, povo de condutores sedentários de caravanas. Existiram também o reino dos Lacmidas, fundado mais tardiamente com capital em Al-Hira, de 328 a 622, e o reino dos Gassânidas, encarregado pelos imperadores bizantinos de guardar a fronteira sírio-palestina no século IV. Deve-se notar que Lacmidas e Gassânidas se converteram ao Cristianismo, mas tornaram-se cismáticos, nestorianos ou monofisistas. 2) A vida religiosa Os outros árabes permaneceram pagãos na época do nascimento de Maomé. No entanto, na maioria das cidades encontravam-se estrangeiros judeus ou cristãos. Esse paganismo árabe era, na verdade, um polidemonismo; com efeito, as divindades não eram claramente individualizadas como nos velhos politeísmos grego ou romano. Havia uma multidão de gênios terrestres ou silvestres. Cada país, cada lugar tinha sua divindade própria, habitando geralmente em pedras, árvores ou fontes. É uma situação que se encontra em todo o paganismo, e, Deus sabe como o paganismo ocidental era rico desse aspecto, que deixou tantos vestígios em nossa cultura francesa. O particularismo do paganismo árabe era limitar-se a esse aspecto e não comportar grandes deuses no estilo dos cerca de trinta grandes deuses clássicos. A maioria dos santuários era composta pelo mesmo conjunto: uma pedra sagrada — o próprio deus —, rodeada por um recinto sagrado, contendo frequentemente algumas árvores e quase sempre uma fonte sagrada. Era exatamente o caso do centro religioso de Meca, que já existia no século II a.C. Local de peregrinações famoso, a Caaba era uma construção imperfeitamente retangular de doze metros de comprimento, por dez de largura e quinze de altura, coberta por um tapete preto trocado anualmente e fornecido hoje pelos egípcios. O santuário havia sido construído perto do poço de Zemzem, ponto de parada natural para os nômades. Mais tarde, ali se colocou uma pedra negra, objeto de adoração, sem que se tratasse de uma origem celeste. A pedra negra da Caaba ainda existe, selada no ângulo oriental do edifício, a um metro e meio acima do solo. Está em três pedaços e vários fragmentos cingidos de ferro. Na época, a Caaba era um museu de ídolos... Cada tribo nômade havia depositado ali os objetos de seu culto. Verdadeiro celeiro de divindades, bricabraque de pedras, algumas estátuas grosseiras, continha tantos ídolos quantos dias há no ano. Esse fenômeno era explicado pela vitalidade extraordinária concedida a Meca devido à sua ascensão como capital comercial. Sua população aumentou drasticamente, e todas as cores de pele, todas as raças se encontravam em uma multidão de miseráveis, pobres, futuros condutores de camelos, aventureiros, pessoas propensas a golpes aptas a defender as caravanas, agiotas e ricos comerciantes experientes... Apesar disso, muito antes de Maomé, já existiam certas regras gerais de oração. Assim, a maioria das prescrições relativas à peregrinação a Meca já estava codificada: peregrinação a Arafa, local situado a três quilômetros da cidade, com caminhada noturna, sacrifício ao amanhecer, corte de cabelo e vestimenta de roupas limpas... etc. Na massa de divindades reverenciadas, três deusas o eram de forma mais particular. Por isso, estavam destinadas a causar grandes problemas ao pregador de Meca. A sura LIII, 19-22 nos dá seus nomes: " Considerastes Al-Lāt e Al-‘Uzzā e Manāt, o terceiro ídolo? " Al-Lāt, segundo autores gregos como Heródoto, seria Vênus-Urânia, a Astarte dos fenícios, aquela que os cartagineses chamavam de Mãe dos deuses. Era, em todo o Oriente, a grande deusa da Maternidade e da Fecundidade. Também era venerada entre os nabateus do norte. Al-‘Uzzā era a mais honrada, a maior. Denominada "A Poderosa", parece muito próxima de Al-Lāt, pois seria o equivalente à Afrodite dos persas. Os árabes primitivos sacrificavam jovens a essa deusa, especialmente meninos imolados ao amanhecer, após uma expedição guerreira bem-sucedida. A história conta, testemunhando assim a importância da deusa, que Maomé enviou um de seus tenentes para destruir o principal santuário localizado a alguns quilômetros de Meca, em Hūrad, para o norte, na estrada para a Síria. Tendo este derrubado as três acácias sagradas que ali se encontravam, uma mulher negra avançou em sua direção. O sacerdote a incitava, dizendo: " Sê corajosa, Al-‘Uzzā, e defende-te! " O soldado, assustado a princípio, recompôs-se e lhe abriu a cabeça com um golpe de espada. A essa tríade feminina somavam-se deuses masculinos: Wadd (homem), deus do amor muito venerado no Hejaz e entre os nabateus; e outros citados na sura LXXI, 20-24: " Yagūth (leão), Ya‘ūq (cavalo) e Nasr (águia). " Entre os árabes pagãos, existia também um sentimento, uma noção evidenciada em todos os povos primitivos pelos historiadores das religiões: a crença em um deus principal, Ba’alshamīn, senhor dos céus, do mundo e da eternidade. A influência judaica do Deus (Elohim) criador é manifesta. Assim, muito antes da pregação mequiana, os árabes conheciam Alá, termo usado para designar o Deus dos judeus e pelos árabes cristãos para nomear seu Deus. O pregador, aliás, dirigiu-se aos politeístas criticando sua atitude para com Alá. Reconhecia, assim, que era adorado na Caaba uma divindade colocada acima das outras. Pode-se, portanto, estabelecer a hierarquia do panteão mequiano: Alá, o deus supremo (enoteísmo), as três deusas, filhas da grande divindade, e cinco figuras inferiores, incluindo Leão, Homem, Cavalo e Águia... É nesse consenso religioso que o pregador irá atuar para fazer desse povo, amontoado de tribos saqueadoras, de comerciantes ávidos e aventureiros incursores, um adepto de uma nova religião, fortemente marcada pelo Judaísmo e que reconhece apenas um Deus Único. B) MUḤAMMAD "O selo dos Profetas" Cor. 33, 40. (570 - 632). 1) Sua vida antes do início de sua pregação: 570 - 613. A história de Maomé antes de se tornar um homem público por sua pregação é muito mal conhecida. O Senhor Padre Joseph Bertuel, que estudou minuciosamente o Alcorão e suas origens, e à obra do qual serão feitos numerosos empréstimos, designa os biógrafos do Profeta sob o termo de "criadores da vida de Maomé". Não se deve, portanto, iludir sobre a exatidão do que se segue. A data de nascimento é incerta. Situa-se por volta de 570 d.C. Maomé pertencia a uma família da burguesia mercantil de Meca. Seu bisavô Hāshim era um homem importante, armador de caravanas de longo curso, em relações com o Negus da Abissínia e o Imperador de Bizâncio. O filho de Hāshim, ‘Abd al-Muṭṭalib, teria tido, segundo a tradição, uma visão anunciando o nascimento de um descendente destinado a se tornar um conquistador e um profeta. Era também um homem poderoso: fazia parte dos dez dignitários encarregados de distribuir aos peregrinos a água do poço sagrado de Zamzam. Um dos filhos desse notável, ‘Abd Allāh, casou-se com Āmina bint Wahb: estes são os pais do profeta. ‘Abd Allāh morreu em Medina durante uma viagem à Síria. A partilha da fortuna paterna com seus nove irmãos não lhe havia deixado uma situação brilhante. À sua jovem viúva, legou uma velha escrava e cinco camelos. Grávida por ocasião da morte do marido, a futura mãe teria ouvido advertências em seu sono. Uma voz lhe dizia: " O filho que esperas será o mestre e o profeta de seu povo ", e outra lhe intimava a ordem de dar à criança o nome de Aḥmad, que tem o mesmo sentido que Muḥammad, isto é, o ilustre, em grego Péricles. Pouco após seu nascimento, a criança foi confiada a uma família de beduínos do deserto, os Sad ibn Bakr, e mais particularmente a uma mãe adotiva chamada Halima. Quando completou cinco anos, ela o levou de volta a Meca. Aos sete anos, perdeu sua mãe e, a partir de então, foi criado por seu avô Abd-al-Mottalib. Este viveu por mais dois anos, e Maomé, aos nove anos, foi acolhido por um de seus tios, Abu Tálib, que cuidou dele com muito afeto. Aos doze anos, acompanhou seu tio em uma caravana que ia para a Síria. Uma anedota interessante é relatada pela lenda muçulmana sobre a viagem. Em Boçra, na Síria, a caravana passou em frente à cela de um monge cristão chamado Balina. Este convidou os árabes a entrar. Tendo observado o jovem Maomé, interrogou-o e depois disse a Abu Tálib: " Volte com seu sobrinho para sua terra e proteja-o dos judeus, pois, se eles o virem e souberem sobre ele o que eu sei, isto é, que ele é um futuro grande profeta, tentarão prejudicá-lo ". A veracidade dessa predição será examinada mais tarde... Ainda assim, é bastante plausível que Maomé tenha feito muitas viagens à Síria, senão na infância, pelo menos na idade adulta, como caravanista ou chefe de caravanas. Assim, pôde tomar conhecimento dos costumes e do culto cristão, mas de um culto cismático, monofisista, pois essa cristandade havia rompido com a Bizâncio católica. MAOMÉ SE CASA... Quando Maomé completou vinte e cinco anos (595), seu tio, de poucas posses, aconselhou-o a buscar uma situação melhor. Ele então entrou a serviço de uma rica judia, Khadija, viúva de um dos maiores comerciantes de Meca. Tornou-se condutor de caravanas. No retorno de uma expedição, a rica viúva, mais velha que ele, conquistada pela desenvoltura do jovem e sua aptidão para o comando, ofereceu-lhe casamento. Ele aceitou. Tornando-se um homem rico, dispôs assim de lazeres importantes, tornou-se um notável da cidade e viu aumentar sua autoridade sobre os habitantes. Alguns árabes pagãos costumavam se retirar nas encostas do Monte Hira, próximo a Meca, para meditar à vontade. Era, ao que parece, o hábito de Maomé, que fazia anualmente um retiro de um mês no monte. Foi nesse local que ocorreram os diversos fenômenos relatados a posteriori pela tradição muçulmana. Os relatos lendários da "revelação" feita a Maomé são todos bastante tardios. Eles fazem parte da "sira" ou Vida de Maomé e variam sensivelmente conforme os autores. O mais antigo conhecido, Ibn Ishaq, morreu em 768, isto é, quase dois séculos após o nascimento do Profeta. Outro historiador é Ibn Sa'd, que compôs no século IX uma enorme biografia de Maomé, de seus sucessores e seus companheiros. Finalmente, Al Bukhari, no século X, reuniu um conjunto de tradições e aforismos atribuídos ao pregador. Esta coletânea goza de grande autoridade, quase comparável à do Alcorão, entre os muçulmanos. Todos os autores seguintes, orientais e depois ocidentais, apenas beberam dessas três fontes... incontroláveis. MAOMÉ TEM VISÕES... Foi preciso esperar o ano de 610 para que o evento histórico ocorresse. Quinze anos dos quais ninguém fala...! Portanto, durante seu período de retiro no Monte Hira, com sua família, um enviado de Deus, Gabriel, o visitou. O enviado celestial segurava um estojo de brocado contendo um escrito. O anjo disse a Maomé: " Recita! " Este respondeu: " Não sei recitar ". Gabriel lhe pressionou esse escrito contra o peito com tanta força que Maomé se sentiu sufocar. Soltando-o, o anjo repetiu: " Recita ". Mesma resposta. A cena se repetiu três vezes. Finalmente, Maomé perguntou: " O que devo recitar? " O anjo respondeu: " Pregue em nome do Teu Senhor que criou, que criou o homem de uma coagulação. Pregue, pois Teu Senhor é o mais generoso, Aquele que ensinou pelo Calvário, que ensinou ao homem o que ele não sabia ". Maomé então despertou. Teve a sensação de que algo estava gravado em seu peito. Saiu da caverna onde dormia e partiu para a montanha. Ouviu então uma voz dizendo: " Ó! Maomé! Tu és o apóstolo de Alá e eu sou Gabriel !" Erguendo a cabeça para o Céu, Maomé viu o anjo sob a forma de um homem sentado no horizonte, com as pernas cruzadas e repetindo as mesmas palavras. Embora fixasse vários pontos do céu virando a cabeça, Maomé via sempre o anjo. A visão não era localizada e perseguia Maomé como uma obsessão interior. Finalmente, a visão desapareceu e o novo profeta se juntou aos seus. Esta cena ocorreu durante a noite dita " Noite do Destino " (Surata XCVII. 1-3), noite durante a qual Deus teria revelado a seu profeta a totalidade do Alcorão, com suas 114 suratas contendo 6 226 versículos. Os historiadores comentadores reconhecem, ao mesmo tempo, que as revelações teriam se escalonado ao longo de cerca de vinte anos. UMA PREDICAÇÃO SOTURNA... Maomé continuou sendo muito discreto... enquanto buscava entre seus próximos pessoas para converter. O primeiro alvo foi seu primo Ali, filho de seu tio Abu Tálib, que ele havia acolhido três anos antes. No entanto, para fazer adeptos fora de sua casa, Maomé, inquieto, mostrou habilidade, qualidade eminente nesse homem. Ele vai, muito astuciosamente, identificar a pessoa mais bem colocada para ser convertida. No santuário da Kaaba, os homens da cidade iam dar uma volta todas as noites. Cada um se prostrava diante do(s) ídolo(s) de sua escolha entre os trezentos e sessenta representados em pedra talhada. Em seguida, grupos se formavam em torno dos diversos notáveis, cada um tendo sua corte pessoal. O mais importante desses grupos era o reunido em torno de Abu Bakr. Maomé se misturava a ele com muita frequência. Percebera, durante as discussões, que esse notável não estava mais satisfeito com a idolatria politeísta vigente, embora permanecesse um praticante fiel. Foi, portanto, a ele que o astuto Maomé se dirigiu primeiro. Abu Bakr se converteu imediatamente, muito feliz em aderir a uma solução que correspondia aos seus desejos. Tornou-se assim o primeiro missionário público de Alá. No entanto, também prudente, apesar de sua posição, contentou-se em contatar individualmente aqueles que sabia próximos de suas ideias, por ter discutido com eles durante anos. Em seguida, levava o assunto bem-disposto a Maomé. É preciso admitir que Maomé e Abu Bakr tinham motivos para prudência. O ambiente de Meca era composto por homens duros, até cruéis, sem piedade e ávidos por lucro. A exigência, contida na predicação, de uma esmola voluntária ou legal apelava para uma generosidade que não era seu forte! Eles só poderiam ficar fortemente irritados contra o propagador de tais ideias, especialmente se estivessem em grupo. Os homens detectados por Abu Bakr recebiam em particular o ensinamento de Maomé que, em seguida, os fazia pronunciar a profissão de fé. Logo houve vinte e nove adeptos secretos que rezavam ora na casa de Maomé, ora no Monte Hira, pois não ousavam se apresentar ao santuário. A coisa, no entanto, acabou se espalhando. O primeiro a falar sobre isso com Maomé foi o pai de Ali, o tio Abu Tálib. Recusando-se a mudar de religião, ele admitiu que Maomé obedecesse ao pedido de seu Deus e prometeu-lhe sua proteção. Isso se mostrou muito necessário. No santuário da Caaba, as línguas tagarelavam, o tom subia. O chefe da tribo dos Banu Makhzum, Abu Jahl, afirmava publicamente que, se Maomé viesse ao santuário e não adorasse os ídolos, lhe estouraria os miolos! Outro de seus mais virulentos inimigos era Omar, o chefe da tribo dos Banu Adi. Mesmo em sua própria tribo dos Banu Hashim, ele contava com violentos opositores, incluindo alguns de seus tios. Aqueles que não lhe eram hostis, como Abbas, o futuro sucessor de Abu Tálib na liderança dos Banu Hashim, não ousavam dizer ou fazer nada em seu favor. Maomé, apesar de seus quarenta partidários, cuidava bem de não se colocar em evidência e, sobretudo, de não praticar ou pregar em público. A conversão de Omar mudou a situação. Este, visitando sua irmã casada, viu-a e ouviu-a recitar o Alcorão. Intrigado, questionou-a. Fornecidas todas as explicações, ele foi encontrar Maomé, que estava prudentemente em sua casa com Khadija. À primeira palavra, Omar declarou vir abraçar a nova religião. Pronunciou a fórmula de adesão. Prestes a iniciar a oração, Maomé tendo-lhe aconselhado a rezar em segredo, Omar respondeu: " Nós adoramos Al e Allat em público, e deveríamos adorar a Deus em segredo! Vem, saiamos! " Conhecendo o caráter de Omar e sua posição social, Maomé, sem dizer nada, o seguiu. Eles foram ao santuário, deram a volta no templo e oraram diante de todos os presentes. A presença de Omar e sua participação no novo culto impediram os notáveis coraixitas de protestar. A partir desse momento, Maomé e seus fiéis vinham livremente ao santuário para orar à sua maneira. No entanto, sempre prudente, Maomé não pregava no santuário. Foi apenas três anos depois, em 613, que Deus lhe ordenou tornar pública sua mensagem. 2) Sua vida, do início da pregação até sua morte: 613-632. Apesar de uma pregação renovada no santuário da Caaba e nos campos diante de grandes multidões, o sucesso não veio. Até mesmo um de seus tios, Aban Lahat, o amaldiçoou em público. Maomé organizou um grande banquete onde convidou toda a sua família, os Banu Hashim e os Banu Abd-Manaf. Disse-lhes: " Ó meus tios e primos, eu sou o apóstolo de Deus, enviado a todos os homens e a vós em particular! Crede em Deus e em minha missão, e Deus vos dará o Paraíso eterno!" O silêncio era geral. Apenas Abu Tálib respondeu: "Meu filho, tu falaste e nós ouvimos; deixa-nos partir e refletir até amanhã ". O profeta retomou: " Meus tios e primos, se não buscais o outro mundo, ao menos buscai a felicidade deste mundo, pois Deus espalhará minha religião, e o Império da Arábia, da Pérsia e de Roma me pertencerá. Há alguém que queira responder ao meu chamado e que eu possa nomear meu vigário? " Novamente o silêncio. Apenas Ali, seu sobrinho, levantou-se e disse: " Ó Apóstolo de Deus, se ninguém crê, eu sou crente! " Maomé disse: " Ó Ali, tu creste e és meu irmão e meu vigário ". Os outros se levantaram, zombando. PRIMEIRAS VERDADEIRAS DIFICULDADES A oposição cresceu na cidade. Os amigos do profeta foram agredidos e insultados. Finalmente, o próprio Maomé foi expulso do santuário. Os notáveis conciliadores fizeram intervir Abu Tálib para trazer Maomé à razão. Eles estavam dispostos a admitir muitas coisas, mas não o insulto a seus deuses. O tio tentou essa mediação. Diante da recusa de Maomé, manteve-lhe seu apoio moral, pois não ousava se converter. Os notáveis enviaram então diretamente a Maomé, um dos seus, Utba, para lhe propor dinheiro, mulheres, ou mesmo o poder político supremo em troca da manutenção da ordem na cidade, pois temiam sobretudo que a pregação causasse tumultos. Foi um fracasso. Os problemas continuaram para os fiéis do Profeta. As conversões permaneciam raras, exceto entre os árabes do deserto e os de outras cidades, encontrados durante a peregrinação de Arafa. Finalmente, um grave incidente ocorreu: um discípulo do profeta, tendo sido coberto de pedras durante sua oração no Monte Hira, pegou um osso de camelo, uma vez terminada a oração, e rachou o crânio de seu agressor, que voltou ensanguentado para Meca. Foi um clamor geral contra Maomé. Os coraixitas pediram sua cabeça a Abu Tálib, que recusou, renovando sua proteção. Sendo os notáveis convertidos inatacáveis, os opositores perseguiram as pessoas humildes, chegando até à tortura. Os fiéis do profeta pediram permissão para revidar... mas Deus ordenou paciência. Foi demais para alguns, especialmente para aqueles que não tinham proteção tribal. Solicitaram permissão para deixar a cidade, enquanto esperavam que Deus autorizasse a guerra. Foi assim que, no quinto ano da missão de Maomé (618), cerca de cem de seus fiéis emigraram para a Abissínia, cuja população cristã era conhecida por ser acolhedora. Foi a Primeira Hégira ou Pequena Hégira. Em Meca, as dificuldades aumentaram ainda mais: um dia, no Templo, alguém jogou uma corda em volta do pescoço do profeta e, apertando-a, fez com que ele saísse do santuário. Sem a intervenção de Abu Bakr, tudo teria terminado muito rapidamente. Os Banu Hashim e os Banu Makhzam estiveram a ponto de se matarem. A solidariedade tribal, de fato, favorecia Maomé, pois um certo número dos Banu Hashim havia se aliado à nova fé em oposição às outras tribos. UMA TENTATIVA DE CONCILIAÇÃO. Uma última tentativa de paz foi proposta pelos coraixitas sob a forma de um sincretismo estendido ao novo Deus de Maomé: esse Deus se tornaria uma divindade adicional na Caaba, cada um praticando o culto do outro. Maomé parece ter hesitado. No entanto, ele acabou recusando. Diante de sua oposição, os coraixitas concluíram um pacto para colocar os "crentes" no index e cessar toda relação com eles. O que foi feito. Após oito dias, a posição dos muçulmanos tornou-se muito penosa. Parece bem que, então, Maomé teve a tentação de aceitar a solução sincrética. A história não o diz claramente, mas a aventura da Sura da Estrela dá a entender: o profeta foi ao templo onde os coraixitas estavam reunidos. Ele recitou uma sura que Gabriel, dizia ele, acabara de lhe ensinar, e que afirmava que as três deusas Alate, Al-Uzza e Manat eram ilustres "gharâniq" cuja intercessão deveria ser esperada. Isso agradou aos coraixitas, que todos se prostraram. Maomé fez o mesmo. Diz-se no Alcorão que Gabriel, posteriormente, repreendeu Maomé pelo que teria sido um acréscimo pessoal. O profeta teve que voltar ao Templo, retratar-se e sofrer a ira das testemunhas não crentes. O mais engraçado é que o boato da conversão dos coraixitas chegou à Abissínia (o telefone árabe...). A maioria dos antigos exilados retornou a Meca, o restante se juntou posteriormente em Medina. MAOMÉ PERDE SEU PROTETOR A situação de crise continuou a se desenvolver. Pressionados por Maomé, seus primos os Banu Abd Manaf, muito felizes em humilhar os Banu Makhzam, arrancaram o ato de index afixado no Templo. Relações normais foram retomadas na cidade. Infelizmente, pouco depois, por volta de 620, sua esposa judia Khadija e seu tio Abul Talib morreram um após o outro, deixando-o em uma situação delicada. Abbas, irmão do falecido, homem indolente e sem firmeza, tornou-se o chefe dos Banu Hashim. Sabendo que ele era incapaz de proteger o profeta, os coraixitas se aproveitaram de sua fraqueza. Um dia, enquanto Maomé estava em oração, prostrado no templo, eles o cobriram de lama! Ele ainda suportou perseguições por dois anos e depois fugiu para Taif, uma grande aglomeração rural a três dias de caminhada de Meca. Os líderes da cidade zombaram dele e o repeliram. As pessoas de Meca, ao saberem disso, planejaram impedi-lo de retornar. Maomé teve que buscar apoios. Os textos mostram claramente que os contatos foram múltiplos e infrutíferos. Finalmente, ele se dirigiu a Mut'im, dos Banu Abd Manaf, seus primos, e aliado de um notável, Abu Jahl. Este concedeu sua proteção, embora não fosse muçulmano. Ele pôde então retornar ao templo e ali permanecer. Sua pregação não obteve mais sucesso entre os mecanos do que entre os membros das tribos árabes que vinham regularmente para a peregrinação. Os habitantes, aliás, encarregavam-se de dissuadi-los de ouvir o profeta. Apenas alguns habitantes de Medina mostraram-se receptivos... O APOIO DOS MEDINENSES Medina, não longe de Meca, era habitada por duas tribos árabes, os Khazraj e os Aus, e várias tribos judaicas que haviam fugido da Síria e da Palestina diante das tropas de Nabucodonosor. Os primeiros medinenses convertidos por Maomé foram seis khazrajitas, que vieram à peregrinação de Meca. Ao voltarem para casa, falaram a seus compatriotas e converteram um grande número deles. No ano seguinte, uma delegação de doze membros muçulmanos veio ao santuário e se comprometeu por juramento perante o profeta a servi-lo com corpo e bens. A partir desse instante, ele fez o projeto de partir para Medina. Sempre desconfiado, não disse nada e, a conselho de Abbas, enviou a Medina com os doze um de seus fiéis, Mus'ab. Durante um ano, este pregou. Apesar de grandes dificuldades, incluindo uma tentativa de assassinato, obteve conversões na maioria das famílias. Finalmente, o número de medinenses muçulmanos tornou-se importante. Ao fim do ano, Mus'ab retornou a Meca acompanhado de setenta notabilidades convertidas. O encontro com seu chefe foi marcado durante a noite, na colina de Aqaba, nos arredores da cidade. Lá, Abbas confiou Maomé aos medinenses, depois que eles novamente se comprometeram por juramento a servi-lo e defendê-lo, mesmo ao preço de suas vidas. Por sua vez, o profeta se comprometeu a não abandonar os medinenses, acontecesse o que acontecesse. Parecia, de fato, evidente que sua partida de Meca levaria à guerra. O clima de semi-segredo no qual essas espécies de negociações se desenrolaram impediu que os mecanos fossem exatamente informados. Melhor ainda, os medinenses que vieram em grande número para a peregrinação, exceto os setenta, ignoravam tudo. Eles puderam, portanto, responder com toda boa-fé às perguntas, permitindo assim que os iniciados mentissem de forma eficaz. Poucos dias depois, Maomé deixou Meca com alguns de seus fiéis e os peregrinos de Medina. Esse "exílio", em árabe hijra , é a Hégira (622), ponto de partida da era muçulmana. GUERRA SANTA... E PILHAGEM. Os coraixitas acreditaram ter se livrado bem dele com essa partida! Mas, logo ao chegar em Medina, Deus ordenou ao profeta que abandonasse a paciência... Gabriel ditou-lhe os seguintes versículos que eram, em suma, a declaração da Guerra Santa, do jihâd : "Matem os infiéis onde os encontrarem, façam-nos prisioneiros, cerquem-nos, embosquem-nos". "Ó Profeta, combate os infiéis e os hipócritas, trata-os com severidade". Maomé então enviou destacamentos para armar emboscadas às caravanas. Operações frutíferas cujos espólios ele distribuía a seus fiéis, pois percebera que os refugiados de Meca eram pobres. Essa nova tática não deixou de causar problemas, tanto para alguns muçulmanos chocados com esses atos de pirataria, quanto para outros árabes. Não é possível aprofundar a questão... mas, é preciso notar que o astuto profeta soube, mais uma vez, livrar-se de uma situação crítica graças a uma nova revelação divina...! A política das incursões pôde, então, se ampliar. Caravanas cada vez maiores foram atacadas, com as colunas muçulmanas agrupando até trezentos homens. As aldeias entre Medina e Meca foram todas assaltadas. No quinto ano da Hégira, ocorreu um fato de grande significado: o profeta atacou e tomou, após um cerco, a aldeia da tribo judia dos Banu Coraíza. Mandou degolar os oitocentos habitantes do sexo masculino... as mulheres e crianças foram, sem dúvida, levadas como escravas. "Os Cavaleiros de Alá" começavam a cuidar de sua reputação! É preciso esperar alguns anos para considerar o retorno a Meca. O intervalo permitirá examinar a situação particular que existia em Medina. A cidade era dividida entre duas tribos árabes e três tribos judias. Permanecia uma atmosfera de guerra civil. Isso facilitou o estabelecimento de Maomé e de suas ideias. Suas relações com os judeus eram complexas, mas certas. Casado com uma judia, instalado por ela na riqueza, tendo, no mínimo, vivido por quinze anos no conforto e na atmosfera religiosa judaica, ele não pôde fazer outra coisa, ao chegar em Medina, senão estabelecer Jerusalém como ponto de orientação da oração ritual e o dia de Ashura, festa da Propiciação judaica, como dia festivo. Aos poucos, os confrontos com os judeus se multiplicaram. Estes não deixavam de reprovar em Maomé o caráter muito pessoal de sua religião e as diferenças com o judaísmo. Era igualmente certo que a força em homens, a aspereza e a vontade de conquista, portanto os meios de expansão, estavam do lado dos árabes. Maomé, mais uma vez inspirado por Deus, decidiu mudar a direção da oração, que a partir de então seria voltada para a Caaba, portanto para Meca. Essa decisão marca, antes de tudo, uma tomada de posição essencial com repercussões ainda atuais: o Islã recusava suas origens – falaremos disso novamente –, apêndice doutrinário do judaísmo, separava-se definitivamente dele. Pela Caaba, ele se vinculava diretamente a Abraão, por cima dos judeus. Ela prova, além disso, que Maomé sempre teve a intenção oculta de retornar, triunfante, a Meca. A BATALHA DE BADR Os ataques às caravanas haviam atingido um nível tal que uma ação decisiva deveria ocorrer um dia: foi a batalha de Badr. Maomé soube que uma caravana muito importante de Meca, com setenta pessoas, incluindo vários notáveis, transportando uma quantidade considerável de mercadorias vindas da Síria, estava próxima do retorno. Decidiu, por ordem de Gabriel, armar-lhe uma emboscada perto do poço de Badr. Enviou para lá uma coluna de trezentos homens. Enquanto isso, a caravana escapara dos muçulmanos mudando de rota. Alguns mequenses, vendo-a a salvo, queriam voltar para Meca. O ódio contra Maomé e seu bando foi mais forte. O exército avançou em direção a Badr para ocupar primeiro o poço e assim provocar o inimigo. Maomé já havia chegado. Os dois exércitos acamparam não muito longe um do outro, separados por uma pequena colina. Desde o nascer do sol, a batalha começou. Maomé exortava seus homens, afirmando: " Para obter o paraíso, basta encontrar o martírio! " — palavra que se tornou uma das bases do jihâd . Os mecanos mataram um certo número de muçulmanos, cuja tropa começou a fraquejar. Maomé dirigiu-se ao seu Deus: " Ó Senhor, se esta tropa que está comigo perecer, todos os crentes abandonarão a verdadeira religião! " Gabriel anunciou-lhe o socorro de vinte mil anjos! Maomé reuniu-se aos seus homens para lhes anunciar a boa-nova: os anjos lutariam com eles. E assim aconteceu: os anjos perseguiam os mecanos, quebrando-lhes os ossos, de modo que os muçulmanos só precisavam abatê-los. Ao entardecer, foi a derrota. Os fiéis do profeta perseguiram-nos para fazer prisioneiros e acertar contas pessoais. Os muçulmanos vingavam-se da animosidade e da oposição mais ou menos violenta que haviam sofrido desde o início da pregação. Os laços de parentesco e as rivalidades tribais agravavam os ressentimentos. Maomé, vitorioso, retornou a Medina com setenta prisioneiros e um enorme butim. Maomé afirmava assim seu poder. Em Meca, o retorno dos vencidos semeou consternação... Os coraixitas aceitaram assinar um tratado de paz em Hudaibiya. Todos os historiadores situam nesse momento o início da ascensão que levaria o profeta ao topo do poder. MAOMÉ VITORIOSO... DOS MECANOS. Cerca de dois anos depois (630), um conflito eclodiu entre duas tribos dos arredores de Meca, os Banu Bakr, auxiliados pelos notáveis, e os Banu Khuza'a, protegidos do profeta. Estes pediram-lhe socorro. Enquanto isso, Gabriel havia advertido Maomé, intimando-lhe a ordem de atacar a cidade. Este reuniu um exército de dez mil homens, metade medinenses, metade recrutas das tribos árabes vizinhas. Era a época em que o novo imperador bizantino Heráclio, tendo proclamado oficialmente o monotelismo herético como lei do império, combatia vigorosamente os árabes. Maomé fez crer que convocava um exército para marchar sobre a Síria. Surpresa total, ele avançava em direção a Meca fazendo exibição de sua força. A intimidação funcionou. Os coraixitas cederam sem combate. O profeta, sempre prudente ou desconfiado, dividiu seu exército: uma vanguarda de dois mil homens passou pelo lado oriental da cidade, onde estavam concentradas as tropas aliadas dos mecanos; uma força idêntica penetrou na cidade pelo lado ocidental, enquanto o restante do exército, com Maomé, esperava em frente à cidade. A penetração das vanguardas tendo ocorrido sem confrontos sérios, ele entrou com o grosso das forças. Seu primeiro gesto foi dirigir-se à Caaba, onde os notáveis se haviam reunido. Mandando abrir as portas, penetrou a pé no santuário e mandou quebrar todos os ídolos. Os habitantes tremiam de medo, apesar das promessas de clemência. Apenas uma dezena de pessoas foram mortas... as outras, tendo-se convertido rapidamente ao Islã, salvaram suas cabeças. Consideradas como escravas, o profeta as alforriou todas juntas. O jihâd mais uma vez definira seu método: o infiel vencido, se não pronunciar a profissão de fé que o torna muçulmano, relegando-o à condição de escravo, deve ser morto. Para os membros das religiões monoteístas, o método tornou-se um pouco mais flexível: eles obtêm um estatuto dito de proteção e devem pagar regularmente um pesado tributo per capita. A necessidade de escravos, especialmente do sexo feminino, não permitiu a aplicação regular desse sistema. O juramento de aliança foi em seguida prestado a Maomé: durante três dias, a multidão mecana desfilou diante dele para dar, em suas mãos, testemunho de sua submissão. O triunfo de Maomé não acarretou, de modo algum, a adesão dos outros árabes. Assim que souberam da queda da capital, as tribos de toda a região pegaram em armas. Um certo número de homens já se preparara para socorrer os coraixitas. Um tal de Malik conseguiu reunir as tribos do deserto e agrupar trinta mil guerreiros em Hunaim. Maomé deixou a cidade com um exército de dez mil medinenses e dois mil mecanos, que colocou de lado no momento da batalha, pois sua confiança era limitada. Os muçulmanos foram rapidamente dispersados, restando apenas uma dezena ao redor do profeta. Abbas, seu tio, conseguiu reunir trezentos fiéis que se haviam escondido nas colinas e partiu com eles para o ataque. Eles romperam as fileiras das tribos árabes, cujos guerreiros começaram a fugir. Os anjos intervieram da mesma forma que na batalha de Badr! Cada muçulmano podia matar cinquenta infiéis de um só golpe! Note-se, contudo, que Maomé, naquele dia, colocou a mão em sua espada. Foi, diz-se, a única vez em que lutou em vez de ficar em oração. Com o restante de seu exército reagrupado, ele organizou a perseguição. Enviou mil e quinhentos homens em várias colunas pelo deserto. Mataram todos os fugitivos adultos do sexo masculino e trouxeram seis mil mulheres e crianças como escravos, assim como os rebanhos! OS ÚLTIMOS ANOS. Desconfiança ou não, Maomé não ficou em Meca. Retornou a Medina para trabalhar na organização da comunidade muçulmana, tanto do ponto de vista religioso quanto social. Ele finalmente teve que enfrentar o imperador Heráclio, em 631, na fronteira síria. Doente, o profeta enviou contra os bizantinos um exército comandado por Osama. Outra fonte de preocupação foi o surgimento, em diferentes pontos da Arábia, de vários outros profetas! Assim, no Iêmen, Aswad entre os beduínos Talaï'ha, da tribo dos Beni Asad. Eles haviam levado um grande número de pessoas a renegar o islamismo. Um terceiro, Massaïlima, assolava a região há cerca de vinte anos. Por sua influência junto aos príncipes iemenitas, Maomé conseguiu mandar assassinar Aswad. Talaï'ha, provocador, propôs-lhe escolher entre a partilha da Arábia ou a guerra. O profeta estava cada vez mais doente. Recolhido na casa de sua jovem esposa Aicha, prostrado pela febre, não podia mais ir à mesquita e encarregou Abû Bakr de dirigir a oração em seu lugar. Após algumas semanas de alternância entre agravamentos e remissões, durante as quais recebeu um grande número de seus fiéis para transmitir-lhes suas últimas recomendações, ele entregou a alma nos braços de Aicha, aos sessenta e dois anos, no ano de 632. Com a morte de Maomé, as revelações de Deus, feitas em uma noite ou em vinte anos, estavam terminadas. De uma forma ou de outra, o profeta as havia registrado por escrito. O conjunto, 114 suratas ou capítulos compostos por 6.200 versículos, forma o Alcorão (Qo'ran). Este termo, substantivo verbal de Qarad (ler), significa "o que se lê", ou seja, "a lei escrita para ser lida". Paralelamente, durante a vida do profeta, ao menos durante sua vida pública, fiéis teriam anotado cuidadosamente seus feitos, seus gestos e seus hábitos. Tudo isso forma a sunnat-al-nabî , maneira de viver e agir do profeta. Esta Sunna é a confirmação pura e simples do conjunto corânico. É, em suma, o comentário do Alcorão por Maomé. MAS DE ONDE VEM, ENTÃO, O ALCORÃO? Antes de continuar a evocação da expansão árabo-muçulmana, é imperativo debruçar-se mais sobre o conteúdo do Alcorão. Seu conhecimento, mesmo imperfeito e limitado, permitirá compreender melhor as motivações dos Crentes e entender as imensas e irreduzíveis diferenças existentes entre esta religião da suficiência e a religião católica do amor e da humildade. Anteriormente, é necessário fazer um balanço sobre a verdadeira origem do Alcorão. Parece que, entre todos os islamólogos, apenas dois estudiosos eruditos se debruçaram sobre o problema. O Padre Gabriel Théry, o.p., ajudado pelo Senhor Padre Joseph Bertuel, que terminou sozinho o trabalho, publicaram recentemente, sob o título " De Moisés a Maomé ", quatro volumes de estudos e análises dos textos conhecidos. Atualmente, o Padre Joseph Bertuel retoma, simplificando-a, a mesma investigação em " O Islã, suas verdadeiras origens ", cujos três livros já foram publicados. Como o autor assinala em seu prefácio, trata-se de um ensaio de crítica histórica rigorosa. Ele precisa: " a fé, mesmo recebida por uma longa tradição, não exclui nem a reflexão sobre suas fontes, nem a revisão de certas ideias recebidas até agora... a fé dos muçulmanos é um bem inestimável... saber como a receberam, e de quem, pode fazê-los compreender muitas coisas ". O mesmo se dará com todo ocidental interessado no Islã e, a priori , com todo cristão. Dos trabalhos do Padre Théry e do Padre Bertuel, resumem-se brevemente os seguintes pontos: Desde seu casamento com a judia Khadidja (595) até a noite "do destino" (610), Maomé recebeu o ensino de um eminente rabino judeu. Era um talmudista que possuía " o judaísmo ressecado dos tempos posteriores à ruína de Jerusalém profetizada por Cristo ". O que foi considerado como a noite da revelação do Alcorão não é senão a lembrança, pelo Rabino, da noite em que Deus, no Sinai, revelou a Moisés uma direção e um código de vida para a humanidade. (Sura XCVII 1-3). Maomé continuou a estudar, a aprender de cor para recitar em público as suratas, fossem elas transmitidas oralmente ou, o que parece aos autores ser a verdade, que o rabino as transcrevesse pouco a pouco no... Alcorão. Em 613, com o texto escrito e a lição aprendida, começou a pregação pública. Maomé, o Profeta, o Admoestador de Deus, era um homem hábil e inteligente... A história aprendida na escola do rabino, com os grandes exemplos da Bíblia, Noé, Abraão, Moisés, Josué e muitos outros, fará nascer em sua alma a ambição de se tornar o chefe de um povo que é o seu e de convertê-lo ao Judaísmo: o Deus Único revelado aos judeus é vitorioso em todas as batalhas. Da mesma forma, os povos que lhe são fiéis estão certos de triunfar sobre seus adversários... A história dos coraixitas e das tribos árabes pode mudar de rumo e assegurar a grandeza de seu destino se estes se submeterem ao verdadeiro Deus, adotando o Alcorão hebreu. Tomando para si a noção de "povo eleito", como um novo Josué, Maomé não podia manifestar em suas ordens às tropas senão dureza e crueldade. O massacre de toda a importante tribo judaica ou judaizada, no quinto ano da Hégira, permitiu-lhe afirmar sua independência, cortar-se definitivamente da influência rabínica, por um gesto irreparável, muito mais significativo do que uma mudança na direção da oração. UM MÉTODO CURIOSO... O Alcorão de Maomé foi destruído, perdido ou extraviado? Ninguém pode responder a essa pergunta. A edição conhecida foi realizada pelo terceiro califa Uthman, após a destruição por sua ordem de todas as cópias existentes dos textos corânicos, como uma recensão de Abû Bekr ou Ali. Essa edição definitiva não resiste à análise quanto à sua autenticidade. Ele ordenou que todas as folhas, exceto a primeira surata, que permaneceu como estava e se tornou a oração padrão do Islã, fossem organizadas de modo que o capítulo mais longo fosse colocado no início e os demais em sequência, conforme seu comprimento decrescente. Isso teve o efeito de tornar ininteligível, na leitura, a gênese e o desenvolvimento da pregação... Ele podia assim governar em nome de Alá sem ser contestado. Seus sucessores imediatos, provavelmente por razões idênticas de ordem política, nunca restauraram a ordem cronológica das suratas; isso não deveria apresentar grandes dificuldades. Este Alcorão aparece como uma coletânea de relatos de guerra ou de escaramuças locais, de complôs e disputas, de discursos apologéticos pontuados por juramentos e injúrias, de ensinamentos para a conduta pessoal e a organização social, de passagens de instruções religiosas mais didáticas, ilustradas por trechos da Bíblia e comentários rabínicos. Para os dois autores citados, o profeta durante sua vida teve poucos amigos íntimos capazes de anotar seu modo de viver, sua forma de agir, seus hábitos. Para os islamólogos sérios e críticos honestos, são contadores árabes de talento incontestável, desde Ibn-Ishaq, falecido em 772, até Al-Balâduri, falecido em 901, e At-Tabari, falecido em 923, que descobriram os mínimos detalhes da vida do Profeta e recolheram os ecos de suas menores palavras. O conjunto desses relatos não merece a confiança dos historiadores. Não obstante, a Sunna, confirmação pura e simples do conjunto corânico, tornou-se, pouco a pouco, mais impositiva do que o próprio Alcorão. O que impressiona de imediato no Alcorão é a afirmação da primazia da raça e da língua árabe. " Os árabes são os primeiros dos povos "; " Amai os árabes porque o Alcorão é árabe, porque eu sou árabe, porque a língua do Paraíso é árabe ", afirma Maomé. É preciso reconhecer, com o jornalista Peroncel-Hugoz, que o fato histórico da transmissão da mensagem do Céu em árabe a um árabe, espalhada por uma parte da terra por árabes, conferiu ao árabe um status de povo eleito... atualmente não contestado entre os muçulmanos. Entre os próprios árabes, os coraixitas, membros da tribo do Profeta, são " primus inter pares ". Maomé insistiu inúmeras vezes nessa supremacia do árabe. A associação de língua sagrada e dogma absoluto imutável levou os doutores da lei a erigir em dogma a intraduzibilidade do Alcorão. No máximo, ele pode ser interpretado em outra língua. O que obriga a pensar, já que " a revelação corânica tem valor universal, em todo lugar e em todo tempo... que a língua árabe deve se tornar o idioma único dos habitantes da terra, todos muçulmanos em potencial! ". C) AS GRANDES LINHAS DO ISLÃ Qual é, então, esta religião votada à universalidade? O Islã proclama solenemente um único Deus; e o faz, ao mesmo tempo, Incognoscível, Puro e Arbitrário, Todo-Poderoso. Duas consequências assustadoras se impõem então: — entre o homem e Deus, não há nenhuma mediação possível; pior, não há nenhum mediador sobrenatural ou natural; — na ordem da criação, não há nada de inteligível para o homem. Eis, portanto, o homem entregue ao arbitrário de um Deus inacessível. É a negação da natureza humana e do direito natural; É, em grande parte, a negação da inteligência e da razão humana e, portanto, o estabelecimento de um nominalismo prático; É a substituição da vida interior por um ritualismo prático que leva ao fanatismo. Encontramos assim no Islã uma forte influência judaica, desde o seu monoteísmo intransigente e a simplicidade quase total do seu dogma, até o rigor casuístico de suas prescrições práticas. A fé (Imân) muçulmana deve ser definida essencialmente como um testemunho prestado... Este testemunho é a condição de validade — exclusiva — do pacto de aliança concedido por Alá à "raça eleita". Para a conversão ao Islã, basta pronunciar diante de um Sheikh a declaração desse testemunho, ou seja, a shahâda: " La Ilaha illa Alla oua Mohamed rassoul Allah — Não há deus senão Deus e Maomé é seu mensageiro ", que o torna maometano em menos tempo do que leva para dizer. Essa fé implica, para cada indivíduo, cinco obrigações, os Pilares do Islã: Pronunciar a shahâda, A oração cultual, cinco vezes ao dia, voltado para Meca e terminada com a shahâda; essa oração tem valor purificador para as faltas leves e sua fiel observância assegura a entrada no Paraíso; mais ainda, está escrito que aquele que souber que a oração é obrigatória estará entre os eleitos; O jejum do Ramadã. É durante este mês, o nono do calendário islâmico, que entre o vigésimo sexto e o vigésimo sétimo dia se situa "a noite abençoada". Este jejum dura cerca de 28 a 29 dias, exclusivamente diurno, e também implica castidade. Nos países onde o Islã é religião de Estado, a vida social é como que suspensa da aurora ao pôr do sol. Cabe à polícia de costumes e até mesmo à polícia governamental impedir que se coma, beba ou fume em público; A esmola legal, a regulamentação dessa coleta voluntária ou obrigatória, destinada ao Chefe, assegura a purificação dos bens; A peregrinação a Meca, comemoração do sacrifício de Abraão, deve ser feita ao menos uma vez na vida por cada muçulmano. Tem valor purificador e engrandece a solidariedade dos crentes. Quem fala de purificação implica a existência de faltas, atos humanos realizados em oposição aos mandamentos do Deus reverenciado. A situação é simples na religião muçulmana. A tradição não se coloca a questão clara de uma lei moral natural como inscrita na natureza das coisas e que o homem deve progressivamente decifrar. Tudo está escrito no Alcorão, e o Deus que o ditou tem uma atitude muito especial: a falta do crente não atinge a Deus, não ofende a Deus, e Deus, a seu bel-prazer, perdoará em sua mansidão ou castigará segundo sua justiça... Não se trata (a falta) de um ato que faça perder a amizade divina, estado de graça dos católicos, mas que simplesmente decorre da não observância do pacto de aliança. Essa teologia permite negar a missão redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo, sua morte na Cruz, sua Ressurreição e transformá-la em uma operação de teatro grotesco. As duas grandes faltas são qualquer atentado à pura Unicidade divina — negação da Trindade — e a recusa deliberada da fé, a recusa de ouvir "o chamado do Islã", o que facilita o jihâd necessário para fazer os infiéis mudarem de opinião. Faltas menos graves são os insultos ou mentiras contra o Profeta, o assassinato de um ser humano, a fornicação ou o adultério, as torpezas contra a natureza, os maus-tratos contra os pais, a magia negra, a calúnia, a fuga no dia do ataque, a apostasia pública... esta, ou seja, o abandono do Islã por outra religião, deveria, segundo a tradição, acarretar na terra a condenação à morte. É preciso insistir no fato de que são as leis do Estado muçulmano que punem as desobediências. Em última análise, as faltas não comprometem a salvação do crente. Aliás, a peregrinação a Meca, a morte durante o jihad, a alforria de um escravo apagam as grandes faltas, inclusive a morte involuntária de um muçulmano. As faltas menos importantes que as duas primeiras citadas são apagadas pelo arrependimento sincero, ato interior exclusivamente pessoal, ou diretamente pela realização dos atos rituais. Nenhuma reparação deve ser considerada em relação a Deus, pois Deus não pode ser atingido pelo ato de sua criatura. A ressurreição, ou pelo menos uma vida após a morte, é admitida pelo Alcorão: uma eternidade passada no inferno ou no Paraíso. Testemunhando um "judaísmo evoluído", essa noção ultrapassa o estágio hebraico do "sheol", simplesmente morada dos mortos, vaga região de sombras, de trevas espessas onde a vida tem apenas uma forma, por assim dizer, larvar. No entanto, o raciocínio das duas religiões em relação a Deus no que tange ao além leva ao mesmo ponto: " Deus prometeu sua bênção a Israel, assim como a Maomé. Nada pode prevalecer contra essa promessa; portanto, já que não há bênção no sheol, é na terra que a recompensa prometida chegará... Mas os séculos se passaram, e Israel gemeu sobre sua sorte. Periodicamente os inimigos triunfavam... Então a verdadeira solução só pode ser esta: a bênção se realizará em um outro mundo. Foi essa a grande revelação recebida e concebida na desgraça, à qual o Cristo virá dar sua magnífica conclusão ". Os judeus crucificaram Nosso Senhor Jesus Cristo ao recusar suas palavras; os muçulmanos param na lei de Moisés... para eles, a recompensa nesta terra conserva todo o seu valor. Certamente, para o judeu e o muçulmano " Deus prometeu sua bênção... Mas ela só será dada àqueles que forem fiéis aos mandamentos de Moisés. Os rebeldes serão aniquilados; se, apesar dessa ameaça, eles permanecerem em plena prosperidade, seu castigo é apenas adiado, pois Deus não mente. Se não forem punidos neste mundo, o serão no outro ". Essa noção de "povo eleito" só poderia conduzir à guerra... eterna entre dois vizinhos...! O Inferno não será praticamente destinado aos muçulmanos, exceto aqueles que se converterem a outra religião. Nele se encontrarão automaticamente, no ferro e no enxofre, segundo uma certa progressão correspondente à gravidade de suas faltas, os adeptos da religião judaica que reconhecem o Deus Único sem admitir Maomé e, por conseguinte, acusados de falsificação das escrituras. Inferno garantido aos cristãos que negam a unicidade, creem na Encarnação e na Ressurreição de Jesus Cristo... os cristãos se desviaram da salvação prometida aos crentes. Sua fé não é uma fé salvadora, um círculo do inferno lhes é reservado, "o fogo devorador" mais duro que o segundo círculo prometido aos judeus. Judeus e, sobretudo, cristãos, os condenados da terra! Nenhuma piedade lhes será testemunhada. O PARAÍSO ISLÂMICO... O Paraíso é, portanto, reservado aos crentes. Está previsto em várias classes, sendo a melhor reservada aos Doutores da Lei. O pregador de Meca, instrutor de Maomé, conhecia bem os homens a quem se dirigia. Para encorajá-los a obedecer às suas diretrizes e torná-los seus guerreiros, para descrever o Paraíso, ele apela exclusivamente aos seus apetites sensíveis: " O primeiro prazer será comer, festejar nas salas de banquete... a companhia também será de muito boa qualidade, pois será a nata da humanidade... vestes de cerimônia, vestes de seda... de brocado verde... as joias mais preciosas servirão de adorno para os eleitos... duas refeições por dia serão servidas com um luxo inaudito, o 'cardápio' será um verdadeiro festival de pratos e bebidas magistralmente harmonizados... o amor sob todas as suas formas, as mais concretas e as mais carnais... entre os eleitos circularão efebos imortais, belos como pérolas raras (Surata LXXVI, 19 e Surata LII, 24, LVI 17)... (as mulheres) elas serão como vocês as amam, de grandes olhos negros, ardentes de paixão (Surata LVI, 15-39)... vosso prazer é deflorar virgens, vós vos gloriais disso. Pois bem! No Paraíso... as mulheres que lá encontrareis serão todas virgens (Surata LV, 74) e após vossa união, sua virgindade será restaurada, de modo que no dia seguinte, tereis o prazer de deflorá-las novamente... " Essa descrição é o reflexo dos gostos e desejos do macho árabe... médio, do nível cultural pré-maometano. Nunca, jamais em nenhum texto se "faz alusão" às alegrias intelectuais, espirituais que os muçulmanos poderiam experimentar no Paraíso. De pregação para trazer adeptos à nova religião, a descrição tornou-se dogma de fé. " Que se vá, portanto, contar aos muçulmanos de hoje, nos diversos países onde vivem segundo sua religião e suas leis, que não terão mulheres no Paraíso! Seria um verdadeiro golpe de marreta em sua fé !" AS DUAS ESPADAS? Diante das obrigações contidas no Alcorão e na Suna, vem à mente uma pergunta: Existe no Islã uma Igreja estruturada, encarregada da conservação, da explicitação, ou mesmo da adaptação aos tempos atuais da mensagem recebida por Maomé? Não. "Não há Igreja no Islã e o Islã não é uma Igreja. Não há poder espiritual vivo... Não há sacerdócio, nem hierarquia eclesial. Há o povo dos crentes 'unidos por e numa mesma fé e por princípios comuns de organização da cidade'". "O Islã é ao mesmo tempo religião e comunidade temporal; melhor ainda, uma comunidade que assume, num único e indissociável impulso, as relações de cada crente com Deus e as relações dos crentes entre si no plano moral, social e político." Daí decorre que, no interior da sociedade muçulmana, a separação, " a distinção cristã entre o espiritual e o temporal não existe. Uma tal distinção, que comportaria harmonia e hierarquização, não tem sentido no Islã. Pois a distinção significaria ruptura, no sentido do laicismo moderno. E essa ruptura, pelo próprio fato da não distinção corânica, comprometeria a própria existência do Islã como religião ." Resulta que " as bases da constituição política da cidade são a obediência a quem detém o comando, que é, por isso, instrumento de Deus... O chefe deve consultar seus subordinados... e os crentes devem consultar-se entre si ." Esse dever não impede que o modo político seja, em suma, um cesaropapismo integral, seja qual for, aliás, a sua estrutura. Louis Massignon, convertido ao Islã, comparava a cidade muçulmana a uma "teocracia laica e igualitária". Nesse plano muito geral, " o magistério legislativo pertence exclusivamente ao Corão; o magistério judiciário pertence a todo crente que, pela leitura assídua do Corão, adquire, com a memória das definições e a inteligência das sanções que ele edita, o direito de aplicá-las; o poder executivo... pertence somente a Deus, e só pode ser exercido por um intermediário, um chefe único ". UM CHEFE ÚNICO, TOTAL. Esse chefe será ora um Imã, ora um Califa. Imã significa aquele que marcha à frente, o guia que se imita. Aquele que dirige a oração comum é um Imã. O Imã por excelência é o Guia Supremo da Comunidade, encarregado por Deus do poder executivo. Os tratados de direito muçulmano afirmam atualmente: " É um dever grave para a comunidade ter à sua frente um Imã ". O Rei do Marrocos mantém, mas apenas para o seu povo, o título de Imã. O Califa é o tenente... o substituto do Profeta, com ênfase na transmissão sucessiva... e, portanto, na única perpetuidade possível, a da mensagem profética. O Califa não tem poder espiritual; ele é o chefe do executivo... seu poder vem de Deus, mas ele é mandatado pelas pessoas "que desatam e atam", escolhido e, de certa forma, delegado por elas para zelar para que "os direitos corânicos de Deus e dos homens" sejam observados nesta terra. Dessa noção de sucessão do Profeta nascerão as rivalidades que permitiram a formação das diversas correntes islâmicas. A Ummâ , a comunidade, só foi perfeita até a morte de Maomé. Posteriormente, o poder terreno desempenhou um papel importante, por uma certa laicização dos Poderes. As rivalidades fizeram crescer o número de Imãs, Califas ou Comandantes dos Crentes, sem que se pudesse estabelecer uma diferenciação muito nítida entre as três funções. Aliás, do ponto de vista do modo de governo, não há quadros bem definidos como intangíveis na cidade muçulmana. A evolução histórica levou a oscilações entre a monarquia absoluta ou constitucional, a república parlamentar, autoritária, a democracia social-popular, frequentemente máscaras da ditadura. Um único dogma é levado a sério pelo muçulmano e frequentemente o leva à revolta: a afirmação: " Todo muçulmano deve ser governado por um correligionário do sexo masculino ". Um grande desejo persiste nele: o retorno a uma verdadeira Ummâ , que também suscita diversos movimentos. A LEI MUÇULMANA. O que será a lei em país muçulmano? "A lei é concebida como uma decisão da Vontade e, em sentido rigoroso, só merece o nome de Lei se for decisão da Vontade divina. Deus é o único legislador. Consequentemente, não haverá lei positiva humana, obra da razão humana. A lei positiva humana, ou Sharia, será toda derivada da Lei divina, ou Shar, o que implica a não existência de um poder legislativo constituído. Nenhuma lei será promulgada. Se um caso novo a resolver se apresentar, seja canônico ou civil, será promulgado apenas um julgamento de conformidade ou não conformidade com o Shar." É a partir do Corão e da Sunna , elementos revelados e intangíveis, fontes exclusivas do Shar , que serão definidas as cinco "notas" ou "estatutos" dos atos: obrigatório, recomendável, repreensível, proibido e neutro. O Ijmâ , ato do consenso unânime da Comunidade interessada, será exigido através de seus representantes qualificados. A decisão desses representantes é obrigatoriamente fundada no Corão. Numa comunidade definida, esse julgamento prático será obra do Mufti , o homem que dá a solução do "caso de consciência". O Mufti poderá ser consultado individualmente por todo crente que tenha um problema a resolver. Poderá ser também funcionário oficial, conselheiro do poder vigente. Se o caso a resolver for posto por um processo em que duas partes se confrontam, se se tratar de uma falta pública, a sentença do processo, a condenação ou absolvição do réu, cabe ao juiz propriamente dito, o Qâdi , após o Mufti ter proferido a sentença. A definição das qualificações exigidas, tanto para designar "os doutores da lei" como para estabelecer o "consenso unânime", acarreta, para Louis Massignon, um modo de formação do consenso e do julgamento inorganizado, flutuante e fraco. Numerosas divergências, surgidas após a expansão muçulmana para fora da Arábia, levaram à formação de diversas escolas jurídicas. Em que consiste, então, essa Sharia ou Charia, essa lei positiva humana exclusivamente derivada do Alcorão e da Sunna, tradição? "Ela foi fielmente aplicada em todo o mundo do Islã até meados do século XIX. Desde então, sofreu em alguns países modificações mais ou menos substanciais; atualmente, está sendo reabilitada para reconstruir a Ummâ." Sem entrar em detalhes, é bom examinar pontos comparativamente muito importantes em relação à civilização cristã ocidental: a situação da mulher, a concepção do casamento e da sexualidade... e, noção indissociável do Islã, a condição dos escravos. O autor de " A Jangada de Maomé " resumiu muito bem a questão ao fixar a hierarquia ainda atualmente em vigor: "A lei religiosa impõe a necessidade, para uma sociedade islâmica digna desse nome, de respeitar a supremacia jurídica, fixa, imutável, de três categorias de pessoas: os homens, os muçulmanos, os senhores sobre outras três: as mulheres, os não-muçulmanos, os escravos." O Alcorão legisla sobre os laços conjugais. A família muçulmana é do tipo patriarcal agnático – filiação, religião, pertencimento clânico ou político dependendo apenas do pai – no casamento, o homem exibe sua supremacia. Se uma jovem esposa é vendida ao seu marido, este pode, na manhã seguinte à noite de núpcias, repudiá-la, afirmando que ela não era virgem. O casamento muçulmano é primeiramente considerado na perspectiva da fornicação legal. Para mostrar a importância " atribuída à união carnal pelos juristas islâmicos, o islamólogo tunisiano Abdelwahab Bouhdibaira chega a usar a expressão 'ética dos esfíncteres' ." O maometano tem o direito de desposar uma israelita ou uma cristã, mas um não-muçulmano não é digno de desposar uma muçulmana. O muçulmano tem o dever e o direito de dar sua própria religião aos seus filhos. O Alcorão autoriza uma poligamia limitada a quatro esposas legítimas. Permite a repudiação imediata sem apresentar motivo. Dá a guarda dos filhos que atingiram a idade da razão ao pai, e, se a mãe não for muçulmana, essa guarda é atribuída automaticamente. O marido tem o direito de bater na esposa à vontade, inclusive em público. Ele pode recorrer à força pública para trazer de volta ao lar conjugal a esposa espancada, refugiada na casa de parentes ou amigos. A mulher casada não tem nenhum direito, a não ser o de manter seu nome de solteira. Ela é mantida na mais completa ignorância. Em caso de herança, a lei é formal: uma disposição reserva aos homens uma parte dupla da atribuída às filhas; quanto à esposa não-muçulmana, ela não tem direito a nada. Diante de um tribunal, são necessários dois depoimentos femininos para contrabalançar o de um homem. Duas disposições particulares da Sharia, ao aparentemente proteger a mulher, concedem grande liberdade sexual ao homem. Primeiramente, a constatação de adultério: para que o adultério seja reconhecido, é necessária uma confissão não extorquida dos culpados ou a constatação do ato fornicatório por quatro testemunhas adultas, masculinas e sãs de espírito. Vem em seguida o costume da criança adormecida: ele permite que qualquer esposa, na ausência de seu cônjuge por até três anos, dê à luz a filhos perfeitamente legítimos aos olhos da lei corânica e sem que sua virtude possa ser minimamente suspeitada. A expansão guerreira permitiu, durante séculos excessivamente longos, que os árabes obtivessem mulheres de todas as raças para satisfazer e provar sua virilidade. Como em seu Paraíso, havia também entre os cativos os jovens garotos tão apreciados. Impelidos à guerra, ao saque por sua natureza e pela pregação, instigados contra os cristãos, que mantinham todo o mundo organizado e civilizado ao redor do Mediterrâneo e na Europa, pelo zeloso instrutor judeu, os Cavaleiros de Alá invadiriam, ocupariam e viveriam às custas de nações inteiras. As mulheres poupadas, vendidas em praça pública, encerradas nos haréns, os homens convertidos pela espada forneceriam aos novos senhores uma enorme quantidade de escravos. Estes são os seres menos considerados da sociedade islâmica. O Alcorão não proíbe formalmente a escravidão, mas incentiva, pode-se dizer, sua prática ao instituir a alforria como meio de perdão em caso de falta grave. O desenrolar da história, mesmo recente, provou o gosto dos árabes pelo tráfico de escravos. Com a cumplicidade de brancos inescrupulosos, eles foram os principais agentes do comércio do "ébano". A revolta do Mahdi, no Sudão anglo-egípcio, foi motivada principalmente pelas leis antiescravagistas promulgadas pelo governo inglês. Não faz muito tempo que a escravidão foi oficialmente proibida em alguns países muçulmanos, em 1962 pela Arábia Saudita, em 1980 pela Mauritânia. Se legalmente não há mais escravos, qual é a situação dos alforriados, dos pobres negros enganados pela peregrinação a Meca e dos novos escravos dos tempos modernos, os trabalhadores muçulmanos de todas as nacionalidades "explorados" nos países do Golfo... Conhecendo o essencial das ideias que seriam transportadas e semeadas pelos árabes, primeiro, e depois por maometanos sinceros ou interessados pelo poder, nos será possível continuar o histórico do Jihâd em um próximo artigo. L. D./P. R. (nota) Os trabalhos do Padre Théry e os do Padre Bertuel constituem uma soma considerável que permitiu precisar a participação judaica nas origens do Islã. A pesquisa, no entanto, está longe de estar encerrada, e seria conveniente conduzi-la em outras direções complementares: de fato, o período que separa o surgimento do cristianismo do do Islã se distingue por uma profusão de seitas separatistas que veiculam todas um corpo de doutrinas mais ou menos semelhantes, do qual o Islã tira parte de suas origens, tanto quanto do judaísmo. Seria de extrema importância fazer um balanço desse período na região do Oriente Próximo – tanto para o próprio Islã quanto para seus diversos aspectos esotéricos. OS DESENVOLVIMENTOS DA BIOPOLÍTICA NA FRANÇA Em um artigo anterior sobre os fundamentos doutrinários da Nova Direita, analisamos as fontes intelectuais e históricas da Biopolítica em diversos países europeus, bem como nos Estados Unidos. Cabe examinar aqui seus desenvolvimentos teóricos e práticos na França nos últimos quarenta anos. É evidente que, à semelhança dos países impregnados pelo catolicismo, a França estava razoavelmente bem armada para resistir à penetração das ideias eugênicas. De fato, a renúncia das Igrejas cristãs estava na lógica das coisas para os fiéis de Lutero e de Calvino, assim como para as numerosas seitas "oriundas do livre exame". Por outro lado, os Papas, Chefes e Pastores da Igreja Católica sempre proclamaram a intangibilidade da Doutrina e insistiram particularmente a cada instante sobre a obrigação de obediência concernente aos princípios enunciados relativos à Vida, ao Homem, sua natureza, seus direitos e deveres, ao Amor Humano... e à Caridade. Apesar de tudo, é preciso constatar que uma maioria de católicos se encontrou ou não praticante, ou de fé fraca, o que os deixava sem defesa diante das exigências do "Eu" e do conformismo. O terreno tornava-se, portanto, muito favorável para o adversário da "Ordem Cristã". Na primeira parte deste estudo, foi demonstrado que o esforço principal foi dirigido contra a Mulher, sua desestabilização acarretando a do casal, da família e da Sociedade. O Poder e todos os Mídia, desde 1945, impulsionaram nesse sentido, com algumas exceções, muito limitadas no tempo. Entre os Organismos enumerados anteriormente, o líder é o ramo francês, criado em 1956, da Family Planning Association americana, a M. F. P. F. Atuam conjuntamente um certo número de grupos que têm como objetivo "a libertação da Mulher", a liberalização das relações sexuais de todos os tipos, a liberdade de considerar o corpo como um material do qual se pode dispor segundo os humores do momento. É preciso citar, em complemento, a Associação pela Esterilização Voluntária, os grupamentos que reclamam abertamente a legalização da eutanásia... "por amor à Vida" e outros mais astutos, como o Centro Internacional de Gerontologia Social, que inocentemente pergunta: "Rumo à eutanásia legal?" em eco às declarações de personagens oficiais. O PRIMEIRO FATO ESSENCIAL é a conluio em todos os níveis, existente há trinta anos, entre o poder e os líderes do movimento eugênico. Ministros como J. Fontanet, Lenoir, R. Boulin, S. Veil, M. Pelletier, E. Sullerot, J. Ralite, Beregovoy, Roudy, Attali... etc... juntaram suas vozes às dos médicos, mais ou menos científicos, mas escolhidos pela mídia como partidários, para avalizar a excelência e a necessidade das transformações. O bom povo, republicanizado, recebendo a verdade das palavras e leis de seus representantes e da Ciência, seguiu docilmente, bem contente no geral. Em janeiro de 1974, ocorreu a criação do Conselho Superior de Informação Sexual, Regulação de Nascimentos e Educação Familiar . Este Conselho, presidido pelo Ministro da Saúde e financiado pelo Estado, integrou o M. F. P. F. em suas redes de ação popular. Além disso, o Centro de Informação sobre Vida Sexual, Maternidade e Regulação de Nascimentos — uma extensão do Conselho Superior, instalado no mesmo edifício — também oferece seu apoio ao M. F. P. F., que vê assim multiplicado seu poder e impacto sobre a população. * * * Conjuntamente à ofensiva contra o Amor e os costumes, por meio do laxismo e da legislação, ocorria um processo de transformação radical do Homem. A conjunção dos dois empreendimentos e suas interferências ajudavam na criação de um clima eugenista aguardando sua verdadeira consagração legal; as principais linhas da Biopolítica ali se encontram facilmente. Deixemos a palavra ao filósofo Marcel de Corte, especialista na análise da deriva do Homem: NEM METAFÍSICA, NEM VERDADES ABSOLUTAS " A recusa em aceitar 'a primazia do VERDADEIRO e do BEM' leva o homem moderno não apenas ao subjetivismo e a todas as suas sequelas individualistas, liberais, libertárias, coletivistas e comunistas... mas também a se encontrar... diante de um mundo cujas profundezas inteligíveis ele já não penetra e cuja finalidade última, e consequentemente todas as finalidades intermediárias, tornaram-se opacas para ele ." " Por ter banido suas duas atividades propriamente humanas — a atividade contemplativa, apanágio de sua inteligência, e a atividade prática ou moral, domínio de sua vontade — o homem é forçado a se tornar o demiurgo do mundo.. ." O HOMEM EM DEVIR ... "demiurgo do mundo, não para contemplá-lo e amá-lo em sua beleza acabada... mas para transformá-lo ao infinito por sua vez. Marx deu a carta desse novo humanismo do trabalho: 'O homem é o futuro do homem': pelo trabalho apreendido em sua radicalidade metafísica, o homem se torna, conforme a profecia de Marx ainda, 'a mais alta divindade' — ele é um deus que se faz, um deus em devir." UM ÚNICO CRITÉRIO: A AÇÃO "Ao contrário de todas as civilizações do passado, as mais rudes como as mais elevadas, e sobretudo em oposição àquela que nasceu em Atenas, em Jerusalém e nas duas Romas, a época moderna está colocada sob o signo da ação, entendida... como operação produtora de um efeito externo que empreende modelar uma matéria situada no espaço fora do agente, exercendo sobre ela uma coerção transformadora capaz de satisfazer as necessidades do próprio agente. Em sua bandeira está inscrita a fórmula de Fausto: 'No princípio era a Ação'." O HOMEM — CRIADOR "Seu equivalente é 'no princípio era a Força', o Poder do homem criador que se substitui a toda causa criadora transcendente. Isso é normal, se assim se pode dizer: o novo deus não deve ser mais poderoso do que Aquele que ele expulsa do palco do mundo?" OBRIGAÇÃO ÚNICA E TOTAL: TRABALHAR E/OU CONSUMIR "O Trabalho torna-se assim a primeira virtude do homem, mais precisamente sua única virtude, aquela que substitui todas as outras e as torna inúteis. Ele não é mais sentido como uma necessidade física cujo ciclo implacável se impõe ao homem... Ele é a qualidade humana por excelência, a força pela qual o homem tende ao bem, ao único verdadeiro bem: a realização de seu ser. Ele é a própria essência do homem que se atualiza, a lei moral suprema... O Trabalho hoje absorveu toda a Moral, toda a Política. O único homem digno desse nome é o Trabalhador. A única cidade verdadeira é a comunidade dos Trabalhadores." UMA NOVA SOCIEDADE? "Em uma 'sociedade' onde reina despoticamente o fetichismo do Trabalho, não há mais o menor espaço para a justiça geral. Trabalhar é sempre trabalhar para si, para assegurar a própria subsistência e para viver. Aquele que apenas trabalha e cujo horizonte se limita ao seu trabalho se fecha em sua subjetividade. Uma sociedade de trabalhadores é contraditória: ela só poderia ser composta por indivíduos justapostos... A 'sociedade' industrial, submetida à supremacia da atividade laboriosa, na qual entramos de má vontade... tem da 'sociedade' apenas o nome. Ela é, por sua fixação no bem particular dos indivíduos, produtores e consumidores que a compõem, uma DISSOCIAÇÃO, que oscila incessantemente entre a disputa acirrada e a choldra, com uma propensão, lenta ou rápida conforme o caso, para a galera e o Knout." * * * A exatidão da análise assim feita leva a ver os fatos realmente: O Indivíduo-deus não pode evitar o egoísmo e o orgulho. Eles conduzem a buscar o lucro e o prazer por todos os meios e a recusar responsabilidades e restrições que possam prejudicar o consumo. O indivíduo-deus leva ao "Eu" - aproveitador amoral. A Mulher, Indivíduo-deus , deve, para "existir", trabalhar fora de casa - Ela pode assim "comunicar", "florescer", "realizar-se". O aborrecimento maior é sua feminilidade: sua possibilidade de reprodução - sua possibilidade de existir e perdurar através da maternidade física. Esse conjunto de fatores - aos quais se somam egoísmo e orgulho - concorrem para a recusa do casamento, a recusa do filho... para a união livre, o aumento do número de divórcios, o adiamento da idade do casamento, se ele ocorrer... para o número muito reduzido de filhos, seu abandono aos órgãos estatais, da creche à cantina e às colônias de férias... Isso resulta em contracepção, aborto, esterilização... e disponibilidade quase permanente para a aventura física, para a mudança de parceiro e de biótopo... A Criança , na maioria das vezes única, é a Criança-deus, adorada por seus genitores; culto que se explica pelo próprio fato da evolução e do devir: a criança é, em potência, um deus muito superior àqueles que a conceberam... e à sua geração. A Criança-deus é a criança-rei consumidora. A adoração não se concebe sem liberdade, decisão pessoal e oferendas. Quando os dois indivíduos-deus decidem procriar e a natureza não se curva ao seu desejo, Drama do orgulho, crime de lesa-majestade: tudo deve ser feito para obter satisfação: Inseminação, Implantação, aluguel de útero... Se a Criança-deus não for satisfatória – não for tão bela, inteligente... quanto a qualidade divina dos pais deveria garantir... Viva a ciência e a técnica para diagnosticar e eliminar essa ofensa, essa blasfêmia que demonstra claramente que as mutações e a dança dos cromossomos na noite da fecundação nem sempre trazem resultados benéficos. Os não-Trabalhadores da Terceira Idade e além, sob uma vigilância de coloração filantrópica, são impulsionados ao consumo por todos os tipos de atividades – mais ou menos organizadas, animadas e supervisionadas. Para que continuem lucrativos para a economia, é necessário fazê-los esquecer a ideia da morte inevitável, que poderia acalmar a fome artificial que os agita. Quando recolhidos em si mesmos, impotentes, hospitalizados, seu consumo médico e paramédico já não fazia peso... será astuciosamente colocado em destaque seus sofrimentos físicos e psíquicos, a dor de seus entes próximos, o fardo econômico insuportável que representam para a sociedade, para que o soro "libertador" lhes seja injetado. * * * Essa deriva dos costumes acarreta modificações radicais conforme a ideologia do GRECE: DISSOCIAÇÃO ENTRE AMOR – PRAZER SEXUAL E FECUNDIDADE A VIDA É UM SIMPLES MATERIAL que o homem-deus utiliza de acordo com seus humores e gostos. A vida, elemento como o ar, a água, o oxigênio, deve ter sua qualidade monitorada... pelo usuário e, se necessário, por um terceiro. O que implica: UMA NOVA MEDICINA , não mais baseada no respeito à vida, torna-se medicina mecânica, reparando o indivíduo – contrariado em sua felicidade... pela criança, pelo sexo, pela esterilidade, pelos pais idosos... Ela se torna a medicina da NÃO-VIDA. UMA NOVA CONCEPÇÃO DO PAPEL DO ESTADO , mais exatamente uma extensão do papel ao domínio da vida. O Estado já se tornou " o fornecedor, o contador e o responsável pelos bens materiais particulares de que cada indivíduo precisa para garantir sua subsistência. Do nascimento à morte, ele assegura a esses súditos o viver, a alimentação, a subsistência, a saúde, o bem-estar físico, e acrescenta, como requinte supremo, a difusão da cultura e dos conhecimentos necessários a essa existência quase animal, incluindo a organização do lazer, assim como distribui água e gás em domicílio " e eletricidade, televisão, telefone, mini-computadores, muitas vezes aquecimento..., o Estado deverá fazer ainda mais para atender aos desejos de seus administrados. Deverá assegurar a felicidade física, a ausência de preocupações e conflitos morais. Animalizar completamente o rebanho do qual é o pastor, colocando-se como juiz da qualidade de vida ... * * * O fato essencial terminal é a ativação do COMITÊ NACIONAL DE ÉTICA PARA AS CIÊNCIAS DA VIDA E DA SAÚDE , no início de dezembro de 1983. Suas origens remontam às recomendações do Doutor Pierre Simon (M. F. P. F. e Grão-Mestre da Grande Loja da França): " A vida é um elemento, como o ar, a água... etc. O Homem e a sociedade devem proteger este elemento de toda poluição... O Homem tem direito a uma vida qualitativamente satisfatória... A Sociedade - o Estado - deverá zelar por preservar essa qualidade: por intermédio de certos membros políticos, médicos, geneticistas, poderá emitir um juízo de valor sobre a vida de cada homem e, consequentemente, sobre o próprio homem. " Assim como o desejo de Valéry Giscard d'Estaing expresso diante de 170 cientistas de 19 países, em 18 de setembro de 1974 - reunidos para um colóquio sobre a Biologia e o futuro do Homem: "instaurar uma moral da espécie... aos novos poderes da Ciência devem corresponder novos deveres do Homem". Sua Criação foi realizada por um decreto do Ministério da Pesquisa e da Indústria , datado de 23 de fevereiro de 1983. Do ponto de vista de sua Constituição , reúne trinta e seis personalidades pertencentes, ao setor de pesquisa: 15, às principais famílias filosóficas e espirituais: 5, ou escolhidos em razão de sua competência ou interesse pelos problemas de ética: 15. Entre estas últimas: Jean Dausset, Paul Milliez, Jacques Ruffié, Léon Schwarzenberg, Henri Laborit, Nicole Questiaux... O 36º é o Presidente: Professor Jean Bernard, membro do grupo 85 entre outros: J. Monod (Acaso e Necessidade), B. de Jouvenal, Jacques Delors, J. Saint-Geours, Levi-Strauss... portanto, homem bem consciente da evolução programada. Ele, aliás, fez suas as palavras de Valéry Giscard d'Estaing em 1974. Entre os representantes das principais famílias filosóficas e espirituais, cinco foram nomeados pelo governo: Jean Gélamur, diretor do jornal " La Croix ", católico, Senhora France Quéré, escritora protestante, Henri Atlan, Professor de Medicina no CHU Broussais, judeu, Ahmed Somia, muçulmano, médico, e Lucien Sève, filósofo marxista do P. C. Sua Missão é " dar seu parecer sobre os problemas morais que são suscitados pela pesquisa nos domínios da biologia, da medicina e da saúde, quer esses problemas concernam ao Homem, a grupos sociais ou à sociedade inteira ." Trata-se realmente de " afirmar a independência do Homem em relação a Deus-criador - o Estado quer impor sua ética e nossa conduta - justa inversão das coisas... à morte de Deus sucede a morte do Homem, animal racional, e o desaparecimento da liberdade ." O Comitê deverá, portanto, definir uma moral da Ciência: definir os atos científicos - pesquisas e intervenções médico-cirúrgicas variadas - que podem e poderão ser autorizadas, tendo em conta a evolução dos conhecimentos e a vontade do poder, e designar as pessoas ou grupos de pessoas que deverão se submeter às suas diretrizes. O comitê não poderá senão seguir "uma moral de situação" e dar boa consciência aos cientistas que fazem coisas das quais verdadeiramente pensam que ofendem a moral. O fato de não ter designado, entre as personalidades do Comitê (os Sábios da Biopolítica), representantes das instâncias oficiais — tradicionais — que são, de um lado, a Academia de Ciências Morais e Políticas e, de outro, a Ordem dos Médicos, é uma prova adicional da intenção de orientar as decisões. O Estado dará força de lei às decisões do Comitê e as imporá a toda a Sociedade — os principais meios de coerção sendo a Seguridade Social (cobertura dos custos) para cerca de 83% da população — a vinculação ao serviço público (sanções contra o corpo médico dos Hospitais Universitários e outros centros) e, para os profissionais autônomos (Trabalhadores Não Assalariados), pressão pelos diversos ministérios de supervisão das caixas. * * * Agora, é preciso fazer duas perguntas e fazer o possível para dar a resposta correta a elas. Primeiramente, saber quais são os "novos poderes" da Ciência e, em seguida, julgar a utilidade do Comitê. Quais são os "Novos Poderes" da Ciência? A Ciência é neutra. As descobertas e suas aplicações práticas não têm conotação moral — no sentido tradicional de bem e mal. É o uso pelo Homem, sujeito da moral, que dá o significado bom ou mau à ação. Será Bem toda ação que se conforme ao julgamento tradicional sobre o Homem, reconhecendo sua dignidade, sua respeitabilidade intangível, o valor sagrado de sua vida... Será Mal tudo o que atentar contra esses princípios. A dificuldade reside no fato de que a passagem do bem ao mal se dá na mera e simples continuidade das pesquisas, das experiências, das tentativas, na maioria das vezes necessárias ao progresso. É necessário colocar placas de sinalização ao longo do caminho percorrido pelos pesquisadores para lhes mostrar as passagens perigosas (pisca-alerta laranja) e os caminhos proibidos (sinal vermelho). Aqui estão algumas "avenidas" e suas sinalizações. Fica claro que a enumeração não é exaustiva, muito menos verdadeiramente científica. REPRODUÇÃO Fecundação e Cultura embrionária in vitro (bebê de proveta por três a seis dias). Reimplantação no útero (esterilidade por obstrução das trompas). Coleta de ovócitos. Conservação de espermatozoides, ovócitos fecundados, embriões pelo frio. Técnica de Inseminação Artificial reservada ao casal. pisca-alerta laranja... e depois sinal vermelho Bancos de esperma de "Nobel", de "homens selecionados segundo certos critérios preestabelecidos, obrigados a fornecer um certo número de centímetros cúbicos de sua preciosa semente". Inseminação de qualquer mulher – chegando a favorecer o rompimento e a dissolução de todo casamento. Seleção de mulheres – doadoras de ovócitos – para cultura in vitro de embriões destinados à reimplantação. Cultura-criação do embrião sem reimplantação – em um meio artificial – o verdadeiro bebê de proveta. Manutenção da vida de fetos retirados vivos e intactos por cesariana. Armazenamento de embriões humanos: banco onde as mulheres poderiam se abastecer... catálogo fornecendo as principais características hereditárias do embrião cobiçado... GESTAÇÃO – EMBRIOLOGIA Monitoramento da gravidez bastante aprimorado: Ultrassonografia... Diagnóstico precoce no embrião de malformações físicas, de embriopatias causadas por rubéola, radiação, certos produtos químicos ingeridos pela mãe... Através da análise do líquido amniótico , detecção de aberrações cromossômicas compatíveis com a sobrevivência; de certas doenças metabólicas, causadas por bloqueios enzimáticos... daí a possibilidade de tratamento precoce. luz laranja piscando... sinal vermelho Diagnóstico permitindo o aborto precoce, a eliminação de futuros doentes... ou eliminação de anormais que poderiam se inserir bem na sociedade... ou de futuros (?) delinquentes. - TRANSPLANTES DE ÓRGÃOS – COLETAS - Os problemas de rejeição do enxerto pelo organismo receptor parecem resolvidos. Como obter mais enxertos e órgãos inteiros? por doação voluntária: na Alemanha Ocidental, a carteira de identidade de quem se comprometeu com a doação é marcada com um W para evitar todas as complicações familiares e operar no menor prazo possível. Pesquisa de fabricação de órgãos artificiais: coração. luz laranja piscando ou sinal vermelho Coleta de órgãos de cadáveres : diagnóstico preciso da morte? Facilidades para não "recuperar" o acidentado muito grave para aproveitar as "peças boas"... Eutanásia. Coleta de órgãos de embriões vivos extraídos por cesariana (pâncreas... etc). - GENÉTICA - Aplicações dos avanços da microcirurgia... Melhor conhecimento da estrutura físico-química dos cromossomos e dos genes (unidades hereditárias) " formados, cada um, por um segmento mais ou menos longo de DNA, e é o encadeamento linear de um certo número de genes que constitui um cromossomo ." Melhor conhecimento da estrutura do DNA, " dupla hélice semelhante a uma escada de corda enrolada à maneira de uma espiral em torno de um eixo imaginário;... em um organismo superior, todo o DNA contido no núcleo de uma célula permitiria, se cada par de bases (constituintes) correspondesse a uma letra da nossa escrita, compor uma enciclopédia em doze volumes ". Manipulações de organismos inferiores para impor-lhes a fabricação de hormônios úteis para a saúde humana: somatostatina no crescimento, Insulina para o diabetes, Interferon na proteção geral e combate ao câncer... laranja piscando e sinal vermelho Predeterminação do sexo da criança... diagnóstico e aborto se os pais não concordarem! Manipulação in vitro nos cromossomos X e Y. Estimulação da reprodução sexuada por uma reprodução assexuada ou clonagem. Operação (bem-sucedida em camundongos) que permite iniciar um organismo inteiro a partir de qualquer célula de um organismo escolhido como parental: (todos os produtos seriam idênticos entre si e em relação ao fornecedor da célula inicial) duplicação . " Não haveria limite teórico para a dimensão do clone resultante, ou seja, para o número de indivíduos idênticos assim derivados de um único parental. " Modificação das células somáticas incorporando nas células do organismo genes humanos sintetizados... Modificação das células germinativas : transformação pela introdução de genes estranhos... "Mutações dirigidas" pela ação de substâncias que induzem mutações específicas (rumo ao super-homem...) ou mutações "reversas" que trariam de volta ao normal mutações patológicas (parabéns... mas as doenças genéticas conhecidas são cerca de 1500). Manipular micróbios para fazê-los fabricar toxinas terríveis ou para desenvolver cepas de extrema virulência... (guerra bacteriológica). - BIOQUÍMICA - Descobertas e pesquisas relativas às substâncias químicas secretadas pelo cérebro e conhecimento exato da parte que as secreta. Possibilidade de tratamento de certas doenças (Parkinson) ou melhora no combate à dor (encefalinas). laranja piscante e sinal vermelho Pesquisas sobre produtos que destroem a personalidade e tornam os indivíduos "dóceis". Pesquisa e uso de "euforizantes" para grandes doentes e idosos, com o objetivo de fazê-los perder a consciência da gravidade do seu estado e da proximidade da morte. Estudos do metabolismo em fetos vivos de 11 a 20 semanas, extraídos por cesariana. * * * Qual é o verdadeiro objetivo de um comitê como este? Nada mais do que remover os sinais de trânsito: nem laranja, nem vermelho, nem proibido. Há mais de trinta anos, o poder só tem ratificado o uso público das descobertas científicas impostas aos costumes pela propaganda e pela mentira. O Estado , sob o pretexto de filantropia, soube aproveitar os baixos instintos do homem, levando-o pelo caminho da facilidade e do individualismo, solicitando e recompensando seu apetite pelo prazer imediato. O Comitê é criado para assumir a responsabilidade das decisões, desempenhar um papel de "Grande organizador infalível" e isso em dois níveis: 1° Ele fará legalizar todos os excessos já tolerados em hospitais, clínicas, laboratórios, centros de pesquisa; interromperá, assim, todas as reclamações ou investigações judiciais em andamento; permitirá todas as experiências previstas acima... 2° Ele aceita emitir um juízo de valor sobre o Homem , " diante dos desenvolvimentos da biologia moderna e da possibilidade de detectar e eliminar in utero (e após o nascimento) um organismo considerado defeituoso ". Diante dos prejuízos morais (sic), afetivos dos genitores de sujeitos deficientes, conscientes (resic) dos encargos econômicos suportados pelos ativos para cuidar, manter, educar, sustentar jovens e adultos de todas as idades não produtivos. Ele aceita estabelecer uma classificação dos sujeitos in utero e dos vivos observáveis. A partir de um certo nível, " valor do Q. I., número de malformações graves, cariótipos (conjunto de cromossomos) anormais a serem considerados ", o aborto precoce ou a eutanásia serão indicados. Observe que será necessário reconsiderar a classificação a cada ano. O Comitê não pode ter sido criado para outra missão, pois os Membros Científicos sabem QUE a erradicação das doenças provocadas por aberrações cromossômicas compatíveis com a sobrevivência " in utero " e, por isso, observáveis após o nascimento, por meio da eliminação física dos sujeitos afetados É UMA UTOPIA A maioria das aberrações ocorre de novo , ou seja, no momento da recombinação dos genes na fusão dos núcleos das duas células reprodutoras, perfeitamente normais, aliás. Um exemplo: No mongolismo, apenas 2% dos casos são devidos à hereditariedade, sendo que um dos pais "carrega" a aberração do cromossomo, sem modificação visível em sua aparência física. A primeira medida deveria ser complementada pelo exame sistemático de todos os indivíduos em idade reprodutiva e de aparência normal para detectar a aberração cromossômica responsável pela transmissão da doença, mongolismo ou outra. Seria necessário proibir a reprodução das pessoas assim identificadas: eliminação, esterilização - ou entregá-las às manipulações genéticas. De qualquer forma, as novas mutações compensariam as supressões. QUE o exame sistemático do líquido amniótico com estudo dos cromossomos e das enzimas em todas as mulheres grávidas É UMA UTOPIA e sua promessa, uma ilusão. Atualmente, só é possível realizar cerca de um centésimo do número previsível de nascimentos. " Além disso, é um método muito recente, sujeito a erros, e que exige altíssima competência por parte do especialista". "Não pode ser feito antes do início do quarto mês de gravidez. Os prazos necessários para a pesquisa são de aproximadamente um mês. Trata-se de eliminar uma criança de pelo menos cinco meses (por cesariana)... idade em que se empregam esforços consideráveis para manter vivos recém-nascidos prematuros ". "Num país como a França, o exame do líquido amniótico realizado em casos de gestações de risco levaria à detecção, por ano, de cerca de uma centena de crianças portadoras de uma anomalia congênita". A ponta extrema do iceberg! "Entre 5 e 19 anos de idade, a deficiência mental afeta 5% da população, ou seja, mais de 700 mil indivíduos... Os deficientes mentais chamados 'idiopáticos', isto é, os 'não-cromossômicos' e aqueles para os quais não se pode detectar déficit enzimático; os doentes com malformações viscerais, cardíacas, dos membros; as crianças surdas, mudas, cegas... todos estes constituem a grande massa submersa do iceberg." "Entre os mongoloides, alguns atingem um Quociente Intelectual de 80. 02,5% da população dita normal tem um Q.I. igual ou inferior a 80. A lógica gostaria que essa fração também fosse condenada." QUE essa seleção dos indivíduos teria eficácia nula ou praticamente nula na escala das populações humanas. QUE a interrupção da seleção natural graças aos progressos da medicina tradicional, acarretando a degenerescência genética da espécie, não passa de um ARGUMENTO PSICOLÓGICO de manipulação da opinião e, cientificamente, UMA ENORME PIADA. "Os equilíbrios genéticos, aqueles que permitem a transmissão de doenças por intermédio de sujeitos que são, ou doentes, ou saudáveis, são tais que as mudanças de frequência ocorrem com uma lentidão extrema... O fato de haver um perigo imediato é perfeitamente estúpido. O acúmulo que vai ocorrer de doenças genéticas devido aos progressos da medicina se fará sentir em uma população... em três a trinta mil anos. E em dez mil anos (ou antes, se pagarmos o preço) talvez já tenhamos controlado esse equilíbrio do patrimônio genético sem eliminar nenhuma criança, sem matar ninguém." QUE a manipulação genética não é de forma alguma uma questão simples. Seja com um objetivo terapêutico, para permitir modificar o sexo da criança, para fabricar super-homens: A TÉCNICA NÃO EXISTE. Portanto, escondendo o mal verdadeiro sob as aparências do falso bem , o comitê não pode fazer nada além de regulamentar e expandir o uso da Inseminação Artificial, o empréstimo de útero, a venda de esperma e embriões, o comércio de transplantes e a eutanásia em todas as suas formas... Como consequência lógica, os progressos realizados, os de amanhã, nas técnicas de manipulação do "ovo humano", no controle de natalidade, " terão consequências tais que um dia será necessário gerenciar a reprodução na escala das nações, e criar em cada país um verdadeiro INSTITUTO NACIONAL de DEMOGRAFIA CONTROLADA " sob a tutela dos organismos internacionais e graças ao financiamento das Fundações e dos Estados, os cientistas realizarão suavemente, com a aprovação da massa "condicionada", o mesmo trabalho que os Nazistas, que, no fim das contas, só terão tido o erro de terem sido precursores... os sucessores de Lênin e Stalin poderão fornecer documentações e técnicas... L. D. RUDOLF STEINER, DA TEOSOFIA À ANTROPOSOFIA O artigo já foi traduzido pela Ação Restauracionista anteriormente e pode ser lido aqui . DA ALMA HUMANA - I A FILOSOFIA DE SÃO TOMÁS DE AQUINO - FILOSOFIA DA IGREJA - E AS CONSEQUÊNCIAS DE SUA REPUDIAÇÃO Por que a filosofia de São Tomás de Aquino é o critério de todas as filosofias e, a fortiori , das filosofias modernas, as quais são filosofias do fenômeno ou filosofias do devir? A razão é clara: é porque, precisamente, ela se fundamenta no ser, que é o objeto formal e adequado da inteligência enquanto inteligência (1). Como a de Aristóteles, na qual se apoia, a filosofia de São Tomás de Aquino não é senão a aplicação, melhor, a explicitação, pelo pensamento especulativo, desta constatação: não se pensa o nada: isso seria não pensar; PENSA-SE O SER. Analisemos um pouco o que resulta desta constatação, da qual o pensamento moderno se desviou. E o pensamento moderno se desviou dela sobretudo desde o advento do cartesianismo, não apenas porque Descartes faz do "eu" o "primeiro conhecido", mas também e principalmente porque Descartes inverte a ordem natural e comum do pensar ao dar primazia ao espírito matemático sobre o espírito filosófico, metafísico (no sentido próprio de ontologia), o que equivale a fazer daquilo que é apenas uma disciplina do pensamento a ordem comum, única, universal do pensamento da inteligência. Admitir que a inteligência tem por objeto o ser – aquilo "cujo ato é o ser" – e que o alcança, não é um postulado, como gostariam de crer e fazer crer os filósofos de hoje. Um postulado é livremente posto. Trata-se aqui da afirmação natural e necessária da inteligência em seu próprio ato de pensar: Pensar é realizar um ato de presença de inteligência, de espírito ao ser. E é por isso que o ser é a luz objetiva da inteligência, o princípio de universal inteligibilidade. Admitir que, a partir do que se pensa do ser, a inteligência dele deduz a noção, a ideia de ser, que é, portanto, por isso mesmo, a primeira de todas no quadro universal, e que, por isso mesmo, deixada a si mesma, ela nada exprime de distinto, nada de apreensível, é ainda a afirmação natural e necessária da inteligência em sua relação viva com o ser. Não se pensa o nada, pensa-se o ser. O ser é " o primeiro conhecido inteligível ", escreve Tomás de Aquino. E é verdade! " Nada pode ser conhecido pela inteligência – nem mesmo o nada – a não ser sob a dependência desta ideia inicial que, à maneira de um vago e confuso receptáculo, encerra e reúne todas as outras " (2). Por isso entende-se que seja um erro querer realizar, reificar o ser da ideia de ser, o qual, como implica a constatação que lhe está na origem, não é, deixado a si mesmo, senão o ser em geral, portanto em si indistinto, inapreensível, e fazer dele o "primeiro Ser", Deus. É tomar esse "todo do ser", que a ideia de ser implica, para fazer dele um ente, ou fazer dele o ser uno desse todo, quando, no entanto, o ser da ideia de ser, por sua própria fonte que é a constatação: não se pensa nada, pensa-se ser, só testemunha e exprime a abertura total da inteligência a todos os entes, a tudo que tem razão de ser. Esse fenômeno de realização, de objetivação do ser da ideia de ser está na origem de todos os panteísmos. Ele procede do que se poderia chamar, mas desta vez com todo rigor, a "ilusão transcendental", a qual consiste em tomar a exigência de unidade da inteligência por uma exigência objetiva. Seja como for, é por sujeição a essa "ilusão" que a inteligência é levada a absorver seja Deus no mundo, seja o mundo em Deus. É a isso, escreve Aristóteles, que se chega quando se confunde o ser da ideia de ser, portanto o ser em geral, com o ser divino. Desse modo, como não chegar à conclusão de que o Ser divino, Deus, é cego e sem inteligência, que não é senão uma espécie de Fatum , de Destino, de Necessidade, ou, como quer Schopenhauer, de "vontade obscura" ou "Nada Superessencial", como quer Hegel, onde se fundem os contrários: o ser e o nada, o uno e o múltiplo, o finito e o infinito, o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, etc.? Admitir que o objeto formal da inteligência é o ser, como o objeto formal da visão é a cor, o da audição o som, como diz Aristóteles, não é um postulado, mas a afirmação natural e necessária da inteligência em sua relação viva com o ser. Admitir que a inteligência humana enquanto humana, portanto unida a sentidos, desde que desperta para o mundo, para a vida intelectual, percebe os princípios que constituem a racionalidade do ser , e que estes, porque ela adere a eles em razão de sua evidência objetiva, imprimem-se nela de maneira indelével, de modo que se tornam aqueles mesmos que regem a razão; pois a razão é isto: a inteligência assim chegada à posse dos princípios racionais (3), - não é um postulado. É a afirmação natural da inteligência em sua viva relação com o ser. Por fim, o menor exame dessas três operações da inteligência, do espírito, que são a concepção, o juízo e o raciocínio, bastaria para o mostrar. Todas têm por objeto o ser; pois o ser é "aquilo em que se resolvem todas as nossas concepções", como escreve Tomás de Aquino. Não se pensa nada; pensa-se ser. Pensar é fazer ato de presença de espírito ao ser... Recusar-se a reconhecer que nossa inteligência, desde que se abre ao mundo, percebe os princípios que constituem a racionalidade do ser, do real, e que eles se tornam por isso mesmo os princípios, as leis, que regem a razão participa, no mínimo, do desconhecimento do que é o homem em si mesmo e do que são, em si mesmas, as realidades naturais que nos cercam. Não há outra origem para o racionalismo e o materialismo de ontem ou de hoje senão esse desconhecimento. Para falar apenas dos Tempos Modernos, basta examinar seu ponto de partida. Um e outro partem, com efeito, dessa teoria platônica, perpetuada pelo agostinianismo e trazida à tona pelo cartesianismo, da distinção substancial da alma e do corpo , enfim, dessa teoria segundo a qual o homem é uma associação de duas substâncias que bastam, cada uma, a si mesmas, e portanto pré-existentes à sua associação, à sua união: uma material, o corpo; outra imaterial - espiritual, a alma. Eis aí algo que é absurdo: pois é necessariamente dever perguntar qual é, dessas duas substâncias, aquela que assegura o ser, o existir do homem: é a alma, e a alma sozinha? É a opção ideológico-racionalista e ideológico-mística; é o corpo, e o corpo sozinho? É a opção empiricista-materialista. Dessa vez, trata-se realmente de postulados! Esses postulados, essas poções participam do desconhecimento, da incompreensão ou da recusa — recusa manifesta por parte dos pensadores modernos — da refutação vitoriosa dessa teoria dualista intemperante e de sua rejeição em favor da doutrina da unidade substancial da alma e do corpo com aquela mais ampla que lhe faz corpo, a saber, a doutrina do hilemorfismo ( hylé : matéria; morphé : forma), isto é, da unidade substancial da forma e da matéria em todo ser natural e concreto. É a única doutrina que reconhece que toda realidade natural é, em si, ao mesmo tempo sensível e inteligível , e que torna inteligível o fenômeno do conhecimento humano . A DOUTRINA HILEMÓRFICA DE ARISTÓTELES Não se deve confundir a forma com a figura , como quando se fala de um rosto — e é o que faz, de certa maneira, Descartes, nem tampouco, como ainda faz Descartes e, desde então, tantos de nossos contemporâneos, a matéria com a extensão ou, desde Leibniz, com a energia : são estas propriedades de uma matéria, não a essência mesma da matéria. A figura é da ordem da quantidade ; ela é em si o limite, a configuração de uma superfície, de uma extensão. A forma é aqui para ser entendida da ordem da qualidade . A forma qualifica, portanto determina o modo de ser de uma realidade: ela é, em si, o estatuto de existência. Ela é o que dá o ser — forma dat esse , dizem Aristóteles e Tomás de Aquino, seja absolutamente, seja sob algum aspecto. Absolutamente , chama-se forma substancial, forma de existência: ela dá o ser a uma matéria e, portanto, por isso mesmo, atualiza todo indivíduo natural e concreto: pedra, planta, animal, homem; sob algum aspecto , chama-se forma acidental: ela dá o ser, o existir a um "acidente", isto é, a uma maneira de ser de um indivíduo já em ato, em atualidade de existência. Ficaremos aqui com a forma substancial, aquela que dá o ser absolutamente a todo ser natural e concreto. Todo ser natural e concreto, de fato, é um composto, um misto ontológico de forma e matéria, uma unidade substancial de forma e matéria. Prova: Mentalmente, suprima de um ser natural e concreto a sua matéria, ele não tem mais ser, existir; e, inversamente, suprima desse mesmo ser natural a sua forma de existência, que qualifica, determina tal ou qual essa matéria, da qual ela é o ato de existência, esse mesmo ser também não tem ser, existir. Por exemplo, a galena, que é uma pedra. Suprima mentalmente da galena a sua matéria, não há ser, existir da galena; inversamente, suprima da galena a forma de existência galena, a qual imprime o status de existência galena à matéria da galena, também não haverá galena. Isso quer dizer que a matéria só existe como a matéria de algo que é determinado pela forma, e que a forma só existe como a forma (de existência) de uma matéria que ela determina. Assim, a forma e a matéria são dois princípios intrínsecos do ser natural, e não duas substâncias: a substância é o composto matéria-forma. Matéria e forma só existem com uma existência correlativa, ao sabor de um composto, de um misto que só tem uma realidade concreta . Em suma, nem a forma nem a matéria têm existência à parte do composto matéria-forma. A Matéria, a matéria com maiúscula, a matéria, tomada à parte, não tem existência concreta; ela só tem existência concreta por e sob uma forma de existência, que lhe dá o ser, e ser tal ou qual: átomo, argila, galena, metal, planta, animal, homem. Por isso, manifesta-se em si, em sua essência, a matéria não é senão isso: puro poder, pura faculdade, pura potência passiva para receber e revestir todas as formas de existência que, precisamente, lhe darão o ser, e ser isto ou aquilo, portanto, de fato, ser tal ou qual composto matéria-forma, enfim, ser tal ou qual indivíduo natural e concreto. Não tendo existência concreta, ela não é, portanto, em si, nem extensa nem dinâmica. Isso quer dizer ainda que não é a matéria que dá o ser e a inteligibilidade às coisas, aos indivíduos naturais e concretos que povoam e assim fundam o nosso universo, mas sim a forma , pois é a forma que imprime a uma matéria o seu status de existência , e que, portanto, a atualiza, a atualiza como tal ou qual, e que é, por isso mesmo, o seu ato de ser, de existência - sua forma de existência. E isso quer dizer ainda que a forma é ideia , ideia encarnada numa matéria. Ela é, portanto, princípio de inteligibilidade imanente ao composto matéria-forma, de todo ser natural e concreto. Por isso, compreende-se que o homem tenha o conhecimento intelectual das coisas. É, de fato, porque as coisas sensíveis são inteligíveis em si mesmas que a inteligência humana, enquanto humana, portanto unida a um corpo, a sentidos - os quais estão em contato com as coisas que se oferecem às suas apreensões, já que são da mesma natureza material que eles - que nossa inteligência, como toda inteligência, tendo por objeto o ser - o ser inteligível , tem o poder, a potência de extrair, abstrair das imagens mentais, elaboradas pelo trabalho dos sentidos sobre as coisas, o ser inteligível das coisas sensíveis, sua essência , como se diz, e isso é dizer a ideia que elas encarnam , e que é o seu status de existência, sua racionalidade, sua inteligibilidade imanente . E é por isso ainda que ela percebe os princípios que constituem a racionalidade do ser, do real, que, então, regem a razão. Estamos longe de todas as teorias da inatividade das ideias e dos princípios racionais, sejam elas de forma platônica, agostiniana, cartesiana, kantiana, etc., reclamadas pela opção: " a alma, e somente a alma, é o homem ". De fato, a opção as exige. A menos que se neguem os princípios racionais e a existência das ideias, como fazem os empirico-materialistas, é preciso encontrar-lhes uma origem; ora, essa origem não pode ser considerada como estando nas próprias coisas, visto que estas são entendidas como heterogêneas por natureza ao espírito - ao espírito puro que somos: " a alma, e somente a alma, é o homem " (4). Daí a conclusão: as ideias que temos das coisas e os princípios racionais são inatos - portanto, anteriores à experiência do mundo. Estamos longe, igualmente, das teorias empirico-materialistas, exigidas desta vez pela opção inversa: " o corpo, e somente o corpo, é o homem ". Aí, nega-se a realidade das ideias e dos princípios racionais: o homem, como o animal, é dotado apenas de conhecimento sensível. Daí a conclusão: o que chamamos ideias não são, em suma, senão imagens mentais - imagens associadas formando imagens gerais ; e o que nomeamos princípios racionais não são senão "hábitos mentais", provocados pela repetição de experiências semelhantes. Quanto à inteligência, ela não é senão um " sentido interno superior ", uma "memória-hábito". * * * A forma, que atualiza uma matéria, portanto um corpo natural no modo de ser vivo , chama-se alma . A alma dá o ser, atualiza uma matéria, um corpo organizado para a vida ; e, portanto, como tal, ela é, como toda forma, o ato - o ato de existência - desse corpo; pois " é a mesma coisa para o corpo , escrevem Aristóteles e Tomás de Aquino, ter uma alma, que para a matéria desse corpo estar em ato ". - em ato de ser. A alma é forma de existência, ato de existência de um corpo organizado para a vida . Sendo tal, assim como não é fabricadora, também não é motriz do corpo do qual ela é o ato de ser . O hilemorfismo não é o vitalismo , esta doutrina que participa do hilozoísmo , essa forma mais primitiva do panteísmo naturalista (hilé: matéria - zoé: vida = vida na matéria); o materialismo dinamista, aberto por Leibniz, não é senão uma ressurreição dele. Daí essa queda da filosofia alemã, luterana, no panteísmo naturalista. O vitalismo imagina uma força, um dinamismo, uma energia vital - que chama alma - imanente à matéria, potência motriz e fabricadora das coisas: tudo é vivo, tudo é vida. (5). A alma, não cessam de repetir Aristóteles e Tomás de Aquino, não é nem fabricadora, nem motriz do corpo. Expliquemo-nos: Dissemos: a alma atualiza, atualiza um corpo organizado para a vida, e isso quer dizer que a alma é a forma, o ato de existência dele. Portanto, sendo tal, a alma não pode preceder o corpo que ela atualiza e, portanto, do qual ela é o ato de ser, de existência: a matéria só existe por e sob uma forma de existência. A alma - como toda forma - o segue , dizem Aristóteles e Tomás de Aquino, como resultado normal de sua constituição. Um exemplo permitirá compreender. Uma casa que não está construída não é uma casa; ela não está em atualidade, em ato de casa; uma casa que se constrói também não o é. A casa construída, portanto que está em ato de existência casa, é a casa cujos materiais - a matéria - que a constituem (permitam-nos a expressão) o "corpo", receberam e revestiram a forma de existência casa , enfim, que passaram da potência ao ato - ao ato de ser casa. A forma casa não precede, portanto, a casa construída; ela a segue, como resultado normal de sua construção , - construção da qual ela foi então a "ideia diretriz". Se ela não tivesse sido a "ideia diretriz", a construção nunca teria resultado na casa. A alma não precede o corpo; ela o segue como resultado normal de sua constituição. Quando a matéria do corpo for levada à última disposição que a substância vivente em devir requer para subsistir, esta receberá sua forma - sua forma de existência no gênero de ser vivente, seu ato de existência. E essa forma é a alma: chama-se alma a forma que atualiza uma matéria, um corpo organizado para a vida. Assim, a alma é o termo da geração; ela é o acabamento natural do processo gerador. A alma eclode como elemento de um ser natural gerado por outro ser natural da mesma espécie, com a colaboração das forças gerais do mundo - daí a expressão de Aristóteles, retomada por São Tomás de Aquino: " A matéria do corpo é gerada pelo homem e pelo sol ", - de modo que ela é o termo de uma geração. Para o homem, não é diferente, embora sua alma, como inteligência, seja de natureza espiritual: ela é forma de existência, ato de ser de um corpo organizado para a vida. Isso significa dizer que não há ali nenhuma chegada de fora, nenhuma união de uma alma preexistente com um corpo preexistente. Tampouco há milagre. Há um desabrochar interior da alma, em continuidade tão perfeita, fenomenalmente falando, com os antecedentes físicos, como se a alma fosse o resultado desses antecedentes. (6) Ela não é o resultado deles, no sentido preciso de que há descontinuidade metafísica ; pois o resultado é destinado a superar a ação, já que o gerado deve participar do mundo do espírito. É por isso que Aristóteles diz que a alma humana, por ser racional, vem de outro lugar: a matéria não pode fabricar o espírito. É por isso ainda que Tomás de Aquino diz que é necessária uma colaboração divina – não direta, pois Deus não está em potência em relação a nada: Deus é Ato puro, o Próprio Ser subsistente. O que é preciso compreender é que essa colaboração divina está incluída no próprio fato tal como é previsto pela natureza naturante – pelas causas segundas imanentes à Natureza, e que não são outras senão a própria Natureza: o que Aristóteles dizia nesta fórmula: a matéria do corpo é gerada pelo homem e pelo sol – que compreende Deus, precisamente a título de Causa Primeira. Assim, essa colaboração divina ocorre ipso facto , também ela, de modo que o resultado é plenamente natural, de modo algum milagroso, como dissemos acima. O ser gerado tem uma alma porque a matéria que deveria formar seu corpo se organizou, ou seja, passou da potência ao ato; pois a alma é " o ato imediato (primus actus: ato primeiro = ato de ser) de um corpo organizado para a vida " e que " é a mesma coisa para o corpo ter uma alma, que para a matéria desse corpo estar em ato ". Assim, a alma não precede o corpo para constituí-lo; ela o segue , como resultado normal de sua constituição, da qual foi a "ideia diretriz". O que precede é a alma dos geradores, princípio do dinamismo vital em obra neles e no que emana deles, visando a uma vida nova. E, por isso, compreende-se a hereditariedade. Sendo o termo da geração, o acabamento – enteléquia – do processo gerador, a alma não é, portanto, fabricadora. Ela é a base da fabricação, como forma de existência do ovo fecundado, o qual é a substância viva nova em via de tornar-se, e no qual está concretizado o dinamismo vital dos geradores, pois é ele com "o sol" que é a causa agente, a causa operária do processo gerador. Em suma, sendo o termo do processo gerador, a alma não é fabricadora. Ela é a base da fabricação como forma de existência dos geradores e de sua obra visando a uma vida nova; ela se encontra no fim, como termo do trabalho, na hora em que o corpo se anima e em que a hominização ocorre, como dizem alguns; mas não é ela que fornece o trabalho. Ela não é operante. Lembremo-nos do exemplo da casa. Durante a construção desta, a forma de existência casa está presente à construção como ideia real, "ideia diretriz" desta – portanto imanente àqueles que a constroem, que são a causa agente, a causa operária, senão nunca haveria construção, portanto casa construída – casa em ato de existência. A forma de casa não fabrica a casa; ela a segue, como resultado normal de sua construção. Enfim, a forma de casa não está em potência. O que está em potência são os materiais. A forma de casa aparece no termo do processo de construção. Ela o seguiu e resulta dele: ela desabrocha dele. * * * Assim como não é fabricadora, a alma também não é motriz, como imaginam Platão, Agostinho, Descartes, que fazem da alma e do corpo duas substâncias, e da alma o motor do corpo. A alma não é um motor, é um constituinte. A alma não é uma realidade distinta do corpo como um sujeito à parte; ela é coisa do corpo, embora, como inteligência, no homem, seus poderes o ultrapassem. Ela faz com que o homem seja, e que seja o que é. Em consequência disso, o homem se desenvolve segundo seu ser. Tratando dessa questão num clima intelectual plato-agostiniano, para quem a alma é motor do corpo, São Tomás de Aquino observa que, se a alma move o corpo,  não é por si mesma, é por seus poderes , os quais não residem somente nela, mas pertencem ao corpo animado, segundo seus diferentes elementos e seus diferentes órgãos especializados. De tal sorte que, finalmente, o poder motor que se atribui à alma não é, a título executivo, senão "a disposição do móvel", e a expressão a alma move o corpo torna-se então esta: o corpo animado se move a si mesmo graças à sua organização, da qual a alma, ideia real de organização, "ideia diretriz", forneceu a fórmula. A descoberta do DNA e de seu papel no processo gerador o testemunha. Seja como for, é muito diferente do que a imaginação fisicista, mecanicista, vitalista representa. Isto, é necessário dizer, vale evidentemente quando o vivente tiver de crescer, regenerar-se, reparar-se em caso de dano: não é obra da alma tomada à parte. Nem a alma sem o corpo, nem o corpo sem a alma são aqui o próprio agente, mas o corpo animado que, em virtude de sua atualidade ontológica incluindo sua organização, move-se a si mesmo. Enfim, se se deseja compartilhar os papéis sem romper a unidade substancial da alma e do corpo, deve-se dizer: na nutrição, no crescimento, na reparação do vivente, a alma age PELAS propriedades corpóreas; as propriedades corpóreas, ou o corpo, agem SEGUNDO a alma. * * * No fundo de tudo isso, o erro de todos os platonizantes participa dessa tentação quase incoercível de imaginar um lugar particular de existência da alma no corpo, uma "sede da alma". É o que faz Descartes ao falar da glândula pineal – a hipófise – e tantos outros ao falar do coração, do pulmão, do sangue, ou do DNA. Sendo o ato de existência de um corpo organizado para a vida, ela está inteiramente no corpo e em cada uma de suas partes. Quanto aos seus poderes, eles pertencem ao todo do composto, do misto de corpo e alma, mesmo que lhe pertença a ela, e a ela somente, ser dotada de uma atividade intelectual e volitiva. A alma humana, por mais intelectual que seja como inteligência, é primeiro e antes de tudo forma de existência, ato de existência de um corpo natural organizado para a vida, no sentido biológico da palavra vida , pois não há corpo sem alma, nem alma sem corpo. Todavia, por sua atividade e faculdade próprias, que a define toda, ela é princípio intelectual, isto é, princípio de vida intelectual , a qual se manifesta como tal desde que a organização de seu cônjuge, o corpo (7), lhe permita operar segundo a atividade que lhe convém por essência, e da qual o corpo não tem parte. Por isso, diz São Tomás de Aquino, a alma humana não está totalmente "imersa" na matéria corporal da qual é forma de existência, o ato de existência, pois é uma realidade incorpórea, por um lado (8), e por outro, é uma realidade  subsistente – o que não significa de modo algum que seja uma substância: a substância é o composto, o misto ontológico de alma e corpo. "A alma humana comunica à matéria corporal o ser pelo qual esta é uma realidade subsistente: a alma intelectual não forma com ela senão um único ser, de modo que o ser do composto todo é igualmente o ser da alma. Isso não ocorre com as formas que não são subsistentes. Consequentemente, a alma humana, por ser intelectual, mas não as outras formas substanciais dos outros compostos, conserva seu ser quando o corpo é destruído ": só ela não está totalmente imersa na matéria corporal que atualiza. Certamente, sendo um ser natural organizado para a vida, o homem é, como tal, um vegetante, um animal, e isso ainda se subdivide. Mas isso não significa de modo algum que haja pluralidade de formas substanciais nele: o homem é uno, e o que lhe dá o ser e a unidade é sua alma intelectual, enquanto forma substancial . De modo que, como dizem Aristóteles e São Tomás de Aquino, dando o ser absolutamente, ela contém em sua perfeição a alma vegetativa, a alma sensitiva e, além disso, todas as formas inferiores, e realiza sozinha todas as operações que as formas menos perfeitas realizam nos outros seres onde essas formas são substanciais, como se vê nos seres inanimados e nos outros seres animados. Isso permite compreender que, para que a alma humana realize as operações que lhe são próprias como inteligência, espírito, foi necessário que ela tivesse operado, como a radice – na raiz – uma constituição total do corpo do qual é o ato de ser, que ela tenha modificado fisicamente sua matéria e organizado, do nível mineral ao nível vegetativo, deste ao nível da sensibilidade, para que apareçam, nos cumes da vida corporal, essas sensações, imagens, experiências, memórias nas quais a alma encontra o apoio de suas operações intelectuais, enfim, o suporte de sua vida intelectual. Assim, a alma humana, embora sendo forma substancial, forma de existência de um ser natural, não deixa de ser, como revela sua atividade própria, que a especifica toda, inteligência, espírito , ou como ainda se diz na Escola, "forma pura", e como tal é uma realidade incorpórea e subsistente. * * * O que prova que a alma humana seja inteligência, espírito e, portanto, uma realidade incorpórea e subsistente, dir-se-á? Simplesmente seu objeto formal: o ser inteligível – o ser inteligível conhecido , portanto na inteligência sob a forma de "espécie inteligível", como diz São Tomás de Aquino, tendo os sentidos relação apenas com o sensível e realizando neles apenas a "espécie sensível", a imagem mental. Todas as operações que lhe convêm essencialmente testemunham isso: todas têm por objeto o ser inteligível. Ela é, portanto, necessariamente da mesma natureza que seu objeto, o inteligível, a saber, imaterial-espiritual; " pois a natureza de uma realidade é revelada por sua operação ", como não cessam de repetir Aristóteles e São Tomás de Aquino. E isso significa não apenas que a alma humana é, por sua atividade e faculdade, uma realidade incorpórea e subsistente, mas também que ela é imortal . Sendo incorpórea, imaterial, portanto não composta de elementos materiais, como seu objeto o inteligível, ela é simples e, por conseguinte, indecomponível, incorruptível – imortal . A alma humana é imortal... Sim, mas a alma, e a alma sozinha, não é o homem, assim como o corpo, e o corpo sozinho, não é o homem. O homem é um ser natural e, como todo ser natural no modo de ser vivente, um composto, um misto ontológico de alma e corpo. "A alma humana comunica à matéria corporal o ser pelo qual esta é uma realidade subsistente: a alma intelectual não forma com ela senão um único ser, de modo que o ser do composto todo é igualmente o ser da alma ". É por isso que São Tomás de Aquino não hesita em escrever que, para o homem, a morte é um escândalo de ordem ontológica, uma violência à sua natureza de misto ontológico. Com efeito, sendo a alma  imortal e forma que atua um corpo, o homem não deveria conhecer a ruptura de sua unidade substancial de alma e corpo, enfim, conhecer a morte. Sendo imaterial e espiritual e, por isso, imortal, a alma humana, enquanto forma que atua uma matéria, um corpo, deveria "espiritualizar" este a ponto de torná-lo incorruptível. Essa fórmula "espiritualizar uma matéria, um corpo" pode surpreender. E no entanto a alma vegetal "vegetaliza" uma matéria no gênero de ser planta; uma alma sensitiva "animaliza" uma matéria no gênero de ser animal. A alma intelectual, que é a alma humana, ao fazer tudo isso, como vimos, não deixa de "espiritualizar" a matéria da qual é o ato de ser, precisamente em vista de sua atividade própria: a vida intelectual. O trabalho orgânico dos sentidos externos e internos é todo ordenado a esse fim (9). Certamente as imagens mentais que ele elabora não são ideias : a imagem é de ordem sensível, a ideia é de ordem inteligível. Uma não é a outra, uma não é igual à outra, pois uma está ligada ao tempo, ao movimento, portanto nunca idêntica em dois instantes, enquanto a outra é imutável, independente do tempo, estranha ao movimento. As imagens mentais são apenas "símbolos de ideias"; mas, por isso mesmo, já ordenadas, coordenadas pelos sentidos internos, para outra coisa. O pensamento é preparado, mas não é produzido. O pensamento é um fato novo; é uma criação original, que pertence ao espírito, e ao espírito sozinho – é por isso que se deve admitir que a alma racional, a alma humana, é inorganizada, imaterial, subsistente. Não confundamos as condições do pensamento com o pensamento em si. Porque é um ser natural, portanto um composto ontológico de alma e corpo, todo conhecimento, para o homem, começa pelos sentidos – omnis cognitio a sensu , mas para se concluir pela e na inteligência, já que seu objeto próprio é o ser – o ser inteligível das coisas sensíveis, e ela o extrai, abstrai das imagens mentais. E isso é possível porque a alma humana, por mais intelectual que seja, é forma substancial, forma de existência de um corpo, e portanto lhe imprime o estatuto de existência do qual ela é o princípio. * * * A alma humana é imortal... Portanto, sendo forma de existência, ato de existência do composto que ela atua, resulta que esse composto, em direito, deveria ser imortal : " a alma humana comunica à matéria corporal o ser pelo qual esta é uma realidade subsistente: a alma intelectual não forma com ela senão um único ser, de modo que o ser do composto todo é igualmente o ser da alma ", escreve São Tomás de Aquino em seu Comentário ao De Anima de Aristóteles e em sua Suma Teológica. Daí a célebre conclusão: para o homem, a morte é um escândalo de ordem ontológica. Se, portanto, o homem conhece a morte, isto é, a ruptura da unidade substancial da alma e do corpo, portanto o processo de divisão, de "decomposição" dos elementos materiais constitutivos do corpo, é porque a alma humana, embora sendo "forma pura", portanto imortal, perdeu essa capacidade de manter essa unidade , é porque se tornou impotente para dominar o polizoísmo anárquico que é o processo de "decomposição" desse composto fabuloso de elementos e órgãos vitais que é o corpo. Sob o assalto de agentes externos, esses elementos tentam se subtrair ao poder tutelar da alma que os mantém sob seu governo e determina suas propriedades a agir segundo o estatuto de existência que ela lhes impõe. Isso é a corrupção, a morte. De onde procede essa impotência da alma, em sua natureza ou essência, imortal , portanto tendo, por si mesma, capacidade por seus poderes de manter em sua unidade os elementos constitutivos da matéria corporal, da qual ela é a forma, o ato de existência? * * * Como devemos falar do Pecado Original... Lembremo-nos! O objeto formal e adequado da inteligência enquanto inteligência é o ser – o ser quanto à sua inteligibilidade. Se a inteligência humana, portanto unida a um corpo, a sentidos, tem como objeto primeiro o ser inteligível das coisas sensíveis, não deixa de ser que, por sua abertura a todo o real, seu objeto último e necessário é, como escreve Aristóteles, "o primeiro inteligível", Deus, o qual é Ato puro, o que São Tomás de Aquino traduz como "o próprio Ser subsistente", isto é, o Ser em plenitude infinita de ser e de inteligibilidade. Se, portanto, a alma, por mais humana que seja, tem por objeto "o primeiro inteligível" – primeiro por excelência, o próprio Ser, Deus –, esta é, portanto, sua última razão de ser. Esta é, portanto, sua alimentação natural e necessária , enquanto inteligência, espírito. Assim, como ocorre com o grão de trigo, para alcançar sua plenitude, portanto ser espiga, de pastar a luz do sol, é próprio do homem pastar essa "luz da luz" que é Deus. Ora, se o homem se subtrai a ela, sendo esta sua alimentação necessária, ele não pode alcançar sua plenitude, assim como o grão de trigo, subtraído à luz do sol, não pode alcançar a sua, de modo que é atentado, por isso, contra sua capacidade de tornar-se plenamente espiga, e, portanto, é atentado contra sua descendência. Isso é o que fez o homem original. Ele se subtraiu à "luz, em quem estava a vida". E é isso que se chama pecado original , cuja noção se encontra na memória de todos os povos. Tendo se subtraído ao seu objeto último, tendo se desviado da "luz em quem estava a vida", o homem atentou contra si mesmo – contra sua razão de ser. Um animal é ateu, o homem não pode sê-lo sem atentar contra sua natureza. Se é dotado dessa inteligência que o distingue do animal, é para algo, e esse algo não pode ser senão Deus, "primeiro inteligível", "luz da luz", e viver dela, como é próprio do grão de trigo viver do sol. Tendo a inteligência do homem se desviado de seu objeto último e necessário, a vontade, que é de certo modo o seu peso, é desviada de seu objeto, o Sumo Bem, Deus – essa "felicidade" para a qual o homem é feito, como diz Aristóteles – e, por isso, busca a felicidade no sensível, pois a inteligência, tendo se desviado de seu objeto próprio e último, a si mesma se submeteu a ele. O homem foi feito para pastar a luz, em quem estava a vida; fez-se para pastar a sombra... Como sua alma, embora permanecendo segundo sua natureza, intelectual, imortal, subsistente, não teria perdido, ao subtrair-se ao seu objeto último e necessário, à sua razão de ser, seu poder, sua potência de "espiritualizar" em plenitude a matéria corporal da qual é o ato, a forma de existência, e, por conseguinte, comunicar-lhe sua própria imortalidade? É por isso que o homem veio a conhecer essa trágica ruptura de sua unidade substancial, a morte, esse escândalo ontológico. A ressurreição dos corpos é o restabelecimento sobrenatural dessa unidade, rompida pelo pecado original; pois a alma sem o corpo e o corpo sem a alma não são o homem. Onde devemos falar da Encarnação do Verbo... A encarnação do Verbo, em quem e por quem vive o Cristo, que não faz com ele senão uma só pessoa, que é Filho-do-homem-Filho-de-Deus, e seu igual, é o Verbo que se oferece em holocausto ao Pai para restituir o homem à " Luz, em quem estava a vida dos homens ", e que, " luz nascida da luz, Deus verdadeiro nascido do Deus verdadeiro ", se oferece como alimento aos homens. E isso é o mistério da Eucaristia. Per ipsum, et cum ipso, et in ipso ... Sim, por Cristo, com Cristo e em Cristo, os homens são convidados a reconquistar as condições de sua razão de ser e vivê-las. É a preparação necessária para participar, além dessa ruptura da unidade substancial da alma e do corpo consecutiva ao pecado original, além da morte, do festim inaudito que é o "face a face" da alma com o próprio Deus. Nesse "face a face", Deus, por um dom inaudito de si mesmo à alma em que Se compraz, faz explodir seus limites para Se dar a conhecer tal como Se conhece a Si mesmo, e tal como quer ser conhecido e amado, Ele que ama suas criaturas mais do que estas jamais saberão amar a si mesmas. A Ressurreição dos corpos... Por aí, por esse "face a face" desconcertante, compreende-se em que consiste a Ressurreição dos corpos, essa restituição ao homem de sua unidade substancial, sem a qual ele não é homem. Com efeito, quando essa ressurreição ocorrer, a alma, assim regenerada, enquanto forma que atualiza uma matéria, terá a capacidade de "espiritualizar" essa matéria corporal e, portanto, torná-la imortal . E é este "o corpo glorioso", anunciado pelas Escrituras e já manifestado aos homens pela Ressurreição de Cristo. * * * Claro, estamos resumindo ao extremo. Por isso, remetemos à obra de São Tomás, em especial à Suma Teológica . O que simplesmente quisemos mostrar é que a doutrina hilomórfica de Aristóteles e, por conseguinte, a doutrina do "composto humano", é a única , como tão bem compreendeu São Tomás de Aquino, que por si mesma permite acessar alguma compreensão dos mistérios cristãos, sem atentar contra sua natureza divina, sem atentar contra a transcendência de Deus e seu mistério, pois ela afirma ambas as coisas, e sem atentar de modo algum contra o pensamento de Aristóteles. O que é admirável e único é que a filosofia de Aristóteles, nascida da especulação grega, inscrita na ordem do pensamento monoteísta, iniciada por Anaxágoras (500-428 a.C.), perpetuada por Sócrates (470-399 a.C.) e Platão (427-347 a.C.), e sistematizada por Aristóteles (384-322 a.C.) de maneira exaustiva, é hostil por si só não apenas a todos os politeísmos e a todos os panteísmos, mas também a certas formas do próprio monoteísmo, sejam elas platônicas, neoplatônicas, muçulmanas, etc., e até às heresias cristãs antigas ou modernas, pois denuncia sua petição de princípio. Ela é a única filosofia capaz de se encerrar na revelação divina. Só ela o pode, pois é a única filosofia que não hesita em ir até o fim de cada noção, para esgotá-la em tudo que contém de verdade e de ser, já que sua visada é o Ser todo. Como, partindo do ser inteligível das coisas sensíveis, não acederia ela ao próprio Ser subsistente — o "primeiro inteligível" por excelência? Tudo não é racional pela racionalidade de Deus? Certamente, por mais perene que seja, essa filosofia é apenas um esclarecimento de baixo para cima, de modo que o supremo, ou seja, o fundamental, permanece na obscuridade, enquanto a revelação ilumina de cima para baixo e, por isso mesmo, primeiro os mais altos cumes: Deus, o espírito, a alma, as origens primeiras e os destinos últimos. Entre uma e outra, não há, portanto, medida alguma: quem diz revelação diz aporte transcendente. Mas há um apelo recíproco; e, por isso, há relação. Só Deus pode falar de Deus! Mas como sua Palavra, seu Verbo, pelo qual tudo foi feito, não seria mais audível para quem invoca essa Palavra? (1) Objeto formal, absolutamente simples, por sua própria natureza de inteligível, que a inteligência não pode falsear, e objeto adequado, fora dos limites do qual ela não pode sair: seria, para ela, deixar de pensar. O ser é o objeto formal e adequado da inteligência enquanto inteligência (divina, angélica, humana). Contudo, o objeto próprio da inteligência humana enquanto humana, portanto unida a um corpo, a sentidos, é o ser das coisas sensíveis — o ser inteligível, portanto a essência, das coisas sensíveis, no espelho das quais conhecemos aqui embaixo as realidades espirituais, nossa alma e Deus. Isso significa que Deus é o objeto último da razão de ser deste dom da inteligência, concedido ao homem, e que o distingue do animal: o animal só se relaciona com o sensível, não com o inteligível — com o ser. O homem se relaciona, pelos sentidos, com o sensível, e, pela inteligência, com o inteligível — com o ser. E é porque a inteligência se relaciona com o ser — com o inteligível, que, desde aqui embaixo, ela pode atingir Deus, não por uma apreensão direta. Deus não é uma coisa sensível, escondendo em si sua inteligibilidade, de modo que a inteligência pudesse abstrair esta das imagens mentais que lhe fornece o trabalho dos sentidos sobre uma coisa. Deus não é uma coisa e, com muito mais razão, sensível. Trata-se de outro movimento racional, aquele mesmo pelo qual se atinge e conhece nossa alma, através de suas operações, como princípio dessas operações. É por esse mesmo movimento que nossa inteligência, aqui embaixo, atinge e conhece Deus. Remonta-se do efeito à causa; parte-se das coisas enquanto são e enquanto são em si inteligíveis e remonta-se à fonte única ao mesmo tempo de seu ser e de sua inteligibilidade. Atinge-se a Ele, precisamente, porque, como escreve Aristóteles, Deus é "o Primeiro inteligível" (por excelência); pois Ele é o próprio Ser, não um ser entre os seres, mas o próprio Ser, o próprio Ser subsistente, como diz São Tomás de Aquino, portanto plenitude absoluta, infinita, de ser e de inteligibilidade. E tal é a razão de ser deste dom da inteligência ao homem, pois o objeto formal da inteligência é o ser. (2) R. P. Sertillanges, em A Filosofia de São Tomás de Aquino , T. I. (3) Em apêndice – ao final do artigo – veja os princípios racionais e sua breve análise. Talvez fosse bom ler neste momento, para uma melhor compreensão da sequência do texto. (4) Para lançar uma ponte – sem a qual a objetivação de nossas ideias não teria nenhum suporte real – entre a alma racional que é a alma humana, da qual, como Platão, eles fazem uma substância e do corpo outra substância, e as coisas , os agostinianos chegaram a negar a natureza puramente imaterial, incorpórea – espiritual – da alma, em suma, que ela seja espírito puro ; e, por referência ao hilemorfismo aristotélico, fizeram dela um composto de matéria e forma . Aqui, portanto, materializa-se a alma para não desmaterializar os corpos, as coisas, tanto se entendem estas no sentido mais empírico da palavra coisa; não se pode admitir que elas sejam ao mesmo tempo sensíveis e inteligíveis , em suma, "ideias encarnadas" em uma matéria, e, por isso mesmo, o poder abstrativo da inteligência, sua capacidade de abstrair das coisas sua inteligibilidade imanente . São Tomás de Aquino refutará esta teoria: o hilemorfismo já não é hilemorfismo, se se concebe a forma, a alma, como um composto de matéria e forma, em suma, uma substância material – por mais sutil que se a entenda. Se fosse assim, o que é então a matéria? Hoje em dia, esquecendo a origem e o porquê desta teoria agostiniana, alguns pensadores, embora se pretendendo tomistas, aderem a esta teoria, na preocupação de diferenciar absolutamente a alma, o espírito humano e angélico, do espírito divino, Deus. A intenção é louvável, a solução insustentável. Sempre a mesma tentação imaginativa de substancializar a alma... Enfim, as provas da transcendência divina não repousam sobre tais argumentos. (5) A doutrina vitalista nasceu por sujeição ao hilozoísmo primitivo, ou mesmo ao mecanicismo, elaborado por Demócrito, e por reação contra o espiritualismo, elaborado por Platão. Como admitir, com Platão, que a alma seja imaterial, incorpórea, e que se a entenda, no entanto, como o motor do corpo? Como, se a alma é assim, sustentar uma ação do corpo sobre a alma e da alma sobre o corpo? Digamos que o mesmo raciocínio será sustentado a respeito de Deus e de sua pretensa ação fabricadora e motora do mundo. Epicuro dizia contra os defensores da imaterialidade da alma: " Propriamente incorpóreo, nada se pode conceber, a não ser o vazio. E o vazio não pode nem agir nem sofrer, ele permite apenas ao corpo mover-se através dele. Por conseguinte, dizer que a alma é incorpórea é um absurdo. Se a alma fosse tal, ela não poderia nem agir nem sofrer, o que, no entanto, vemos ela fazer com evidência ". Os Enciclopedistas não dirão outra coisa. Daí a conclusão vitalista: é necessário conceber a alma como material, isto é, como uma força, uma energia vital de natureza física. Mais tarde, embora concordando com a realidade da alma racional, da qual fazem uma substância, alguns pensadores colocarão uma segunda alma, de natureza material, fabricadora e motora do corpo. No século XIX, outros, para suprimir esta anomalia de duas almas no corpo, sustentarão que há continuidade entre a atividade vital (no sentido biológico) e a atividade intelectual: trata-se, dirão, de uma mesma força, de uma mesma energia, de um mesmo "élan vital", como o chama Bergson, após os neoplatônicos de Alexandria (Plotino), e após Schelling, Ravaisson, etc., simplesmente transformada. Como? Mistério. Tanto vale dizer com os Enciclopedistas e seus sucessores que "a matéria pode pensar" e, com Marx, que a "matéria pensante" não é senão um "salto quantitativo brusco": a matéria bruta passando ao estado de matéria viva, depois pensante. O que está longe de explicar seja o que for. (6) Não como a rosa para o roseiral. A rosa não é o roseiral. Ela é seu produto precisamente com vistas a uma vida nova. (7) Segundo a fórmula: Duo in carne una ... portanto aqui: Duo in substantia una . (8) "Quanto mais a forma substancial é um grau elevado, mais ela tem domínio sobre a matéria corporal, menos está imersa nela – immergitur – e mais a ultrapassa por seus poderes. Assim, a forma de um corpo animado possui uma atividade que não depende das propriedades dos elementos materiais que o compõem. Quanto mais se sobe no grau dos seres, mais se encontra que a capacidade da forma ultrapassa a matéria: a alma vegetal mais que o metal, a alma sensitiva mais que a alma vegetal. Ora, a alma humana é a forma substancial mais elevada em perfeição nos seres naturais. Seu poder ultrapassa de tal modo a matéria corporal que ela possui uma atividade e uma faculdade nas quais esta matéria não entra de maneira alguma. Esta faculdade é a inteligência". (São Tomás de Aquino in  S. Théol. Ia. 76/1). (9) A análise aristotélica e tomista dos sentidos externos e internos e, mais particularmente dos sentidos internos, onde Aristóteles e São Tomás de Aquino distinguem a  estimativa , própria ao animal, e sua semelhante a " cogitativa ", própria ao homem, mostra perfeitamente a "espiritualização" desta última – no sentido de que ela opera " sínteses de representações individuais, como a razão propriamente dita faz sínteses de representações universais ". (Remetemos ao De Anima de Aristóteles e ao seu comentário por Tomás de Aquino, e à Suma Teológica Ia. 78/4). APÊNDICE: Breve lembrança dos princípios racionais. A inteligência percebe primeiramente no ser a verdade do princípio de identidade, este é o primeiro de todos; os outros se ligam a ele. O princípio de identidade se expressa por esta fórmula: " o que é, é; o que não é, não é ", daí a fórmula breve: " A é A ". Ele expressa, portanto, uma identidade objetiva , um modo que convém ao ser, ao que é (ou pode ser), ao ser considerado em si mesmo antes de toda relação com outra coisa . É o princípio analítico por excelência: o atributo não está apenas contido no sujeito, ele é idêntico ao sujeito . Compreende-se por isso que a fórmula explícita do princípio de identidade é: " todo ser é e é por si mesmo de uma natureza determinada que o constitui em próprio ". Daí as expressões: um gato é um gato; um cachorro é um cachorro. O que não é de modo algum uma tautologia, como Kant gostaria de crer. Todo juízo afirmativo exprime, pelo verbo ser , a identidade que há entre o ser que significa o sujeito e o ser que significa o predicado; mas esta identidade não é lógica, ela é objetiva, real . Assim, quando se diz "um gato é um gato, um cachorro é um cachorro", não se trata de uma evidência lógica, mas de uma evidência objetiva . Enfim, o princípio de identidade, embora exprimindo uma identidade objetiva, e a primeira de todas, ensina algo ; ele afirma que o ser sujeito e o ser predicado são um e o mesmo . Dizer Sócrates é andante é dizer Sócrates é o mesmo ser que Sócrates que é andante . O princípio de não contradição é a forma negativa e mais usual do princípio de identidade – é por ser sua forma mais usual que Aristóteles o chamava de "princípio supremo"; contudo, ele não é primeiro, pois a negação se fundamenta em uma afirmação; portanto, em si, o primeiro princípio é o princípio de identidade. O princípio de não contradição formula-se: um mesmo ser não pode ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto ser o que é e não ser o que é . Daí a expressão: "uma porta não pode estar ao mesmo tempo aberta e fechada". De duas proposições contraditórias, uma é verdadeira, a outra é falsa; duas proposições contraditórias não podem ser nem verdadeiras ao mesmo tempo, nem falsas ao mesmo tempo. Ao contrário, Hegel e todos os partidários do evolucionismo e do "materialismo dialético" (Marx) pretendem que a contradição é lei tanto do real quanto do pensamento. A essência das coisas é sua própria mudança: o ser não é, ele é apenas o devir. O princípio do terceiro excluído é a forma disjuntiva do princípio de não contradição. Ele se formula: " Uma coisa é ou não é: não há meio-termo " – ou seja, terceira hipótese. (Este princípio é, obviamente, negado pelos defensores do "materialismo dialético" e do evolucionismo: o ser não é, ele é apenas o devir.) O princípio de substância é uma determinação do princípio de identidade; ele se formula: " Aquilo que é uno é o mesmo sob suas maneiras de ser múltiplas e transitórias ". O múltiplo só é inteligível em função do uno, o transitório só o é em função do permanente e do idêntico, se o ser é de si uno e o mesmo. Assim que os dados de cada um dos sentidos externos são centralizados pelo primeiro sentido interno, o "senso comum", como o chamam Aristóteles e Tomás de Aquino, a inteligência apreende seu objeto próprio, o ser, e aquilo que é ser em si, a substância, e isso antes mesmo de apreender a maneira de ser, o fenômeno, o acidente. O princípio de razão de ser ou de razão suficiente (1): " Tudo o que é tem sua razão de ser ", " tudo é inteligível ". O princípio de razão de ser ou de razão suficiente vincula-se ao princípio de identidade por uma redução ao impossível – raciocínio por absurdo: todo ser tem sua razão de ser, o que é necessário para ser; negá-lo seria identificar o que é com o que não é. A formulação explícita do princípio de razão de ser é esta: todo ser tem a razão de ser daquilo que lhe convém, seja em si, seja em outro . EM SI, se isso lhe convém segundo o que o constitui propriamente; EM OUTRO, se isso não lhe convém segundo o que o constitui propriamente – em outras palavras, segundo seu ser depende de outro. Este princípio é evidente por si – per se notum . Pode-se demonstrá-lo por absurdo. Dizer que o quadrado não tem aquilo pelo qual é quadrado com tais propriedades, em vez do círculo com tais propriedades, é dizer que o quadrado pode ser círculo. Dizer que o contingente (o que é sem ser por si, pois, embora sendo, poderia não ser) não tem aquilo pelo qual é, é identificá-lo com o que não é. Negar essa relação de dependência ( ab alio – por outro), é negar que o ser contingente seja condicionado ou relativo, é afirmar que ele é não-condicionado, não-relativo, ou seja, absoluto. Em suma, dizer: o que é, sem ser por si, é por si. Tomemos um exemplo: toda maneira de ser (fenômeno, acidente) não tem o ser por si, mas por outro. Ele não é o branco de nada, o vermelho de nada, o quente de nada, o grande de nada, etc., mas de algo . Toda maneira de ser (todo fenômeno, todo "acidente" (no sentido aristotélico e tomista)) não é ser por si; não é ser substancial, em suma, um ser. Ela só tem ser do ser ao qual sobrevém essa maneira de ser, esse fenômeno, esse acidente. O verde da cereja não é a cereja, senão tudo que é verde seria cereja. Vê-se que negar seria identificar o verde (fenômeno, acidente, maneira de ser) seja com o absoluto, seja com o nada. Seria dizer que a maneira de ser, o fenômeno, o acidente – o contingente – incausado pode existir, em suma, que aquilo que não tem sua razão de ser, seja em si, seja em outro, pode existir. Conclusão: a razão de ser é intrínseca ou extrínseca. Os princípios de causalidade e finalidade . Eles se formulam: toda mudança, todo devir tem uma causa . De fato, a mudança, o devir é união do diverso; exige, portanto, uma razão de ser extrínseca, a qual é dupla: eficiente e final . A mudança, o devir é união do diverso; ele comporta, de fato, dois elementos: não-ser e ser ou, como se diz: potência e ato. A mudança, o devir é isso mesmo: a passagem do não-ser ao ser, da potência ao ato. Tomemos um exemplo: Um estudante de medicina é um não-ser médico: ele está em potência médico, pois não é médico. Quando ele for médico, portanto médico em ato, é porque terá passado da potência ao ato de ser médico. Isto posto, o que é não se torna : ele é, por um lado, e por outro, nada pode vir do nada : o nada não se torna ser. Portanto, o que se torna só pode vir de algo que é intermediário entre o ser determinado, portanto em ato, e o puro nada. Esse intermediário entre o puro nada e o ser determinado chama-se potência . É ser indeterminado, mas em aptidão, em capacidade, EM POTÊNCIA de uma determinação . Isso não é um puro não-ser, um puro nada. Sigamos nosso exemplo do estudante de medicina; ele não é médico, ele é um não-ser médico, um indeterminado médico; mas ele está em aptidão, em capacidade, em potência médico, portanto de determinação médico – isso não é nada; não é um puro não-ser estar em potência médico. A potência de ser médico é, portanto, bem um intermediário entre o puro nada e o ser. Platão já o compreendera: para que haja devir, mudança, é preciso que haja entre o puro não-ser, o puro nada, e o ser – o ser em atualidade de ser – "um não-ser que é". Contudo, por si mesmo, esse "não-ser que é", esse "não-ser determinado a ser" – e que Aristóteles chamará potência – não pode por si mesmo passar da potência ao ato, do indeterminado que é ao estado determinado, portanto ao ato. Por si mesma, a potência não passa ao ato: é necessário, portanto, um princípio extrínseco que seja causa dessa passagem do indeterminado à determinação, da potência ao ato. Esse princípio, dirá Aristóteles, é necessariamente duplo: eficiente e final . Causa eficiente : o devir é, para o ser, a passagem da indeterminação à determinação, da potência, portanto, ao ato; e como a indeterminação, a potência por si não é o determinado, o ato, é necessário um princípio extrínseco que o determine ou atualize. Esse princípio extrínseco determinante ou ativo é chamado de causa eficiente. Causa final : o princípio eficiente, a causa eficiente, agente, operante, deve ter uma razão para agir — suprima essa razão, esse fim do agir, não há agir. Em suma, a causa eficiente deve ter uma razão para agir e para fazer isto em vez daquilo. Quanto à potência sobre a qual ela age, é necessário, também ela, que seja suscetível de receber tal determinação e não outra, senão a causa produziria tudo ou nada, portanto seria qualquer, e o qualquer não tem mais realidade para o ser do que para o pensamento; em suma, é necessário que a causa possa produzir tal efeito. Assim, se tudo tem razão de ser, o efeito deve ser predeterminado. E isso significa que a potência ativa — a causa agente, eficiente, operante — e a potência passiva — o que está em potência, portanto à espera de determinação — ambas pré-contêm a determinação de seu efeito. O que está em potência não pode, certamente, pré-conter em ato, atualmente, a determinação de seu efeito: senão o que está em potência estaria em ato: o carvalho estaria em ato na bolota, e então a bolota não estaria em devir de ser carvalho adulto. A potência não pré-contém a determinação de seu efeito senão na medida em que é ordenada a tal ato e não a outro, como à sua perfeição e ao seu acabamento, em suma, na medida em que a potência tem em si sua razão de ser . Exemplifiquemos: o estudante de medicina está em potência para ser médico — nele, essa potência de ser médico é ordenada à determinação, ao ato de ser médico, e não a outra coisa, por exemplo, a ser sapateiro ou arquiteto. É necessário, portanto, para que ele possa passar ao ato de médico, logo para que aceda à sua perfeição, ao seu acabamento, que a causa eficiente seja ela mesma ordenada, predeterminada a agir sobre essa potência: a ação do mestre sapateiro ou do mestre arquiteto não terá nenhuma eficiência sobre essa passagem do estudante de medicina, portanto em potência de médico, ao ato de ser médico. É necessário, portanto, uma causa extrínseca predeterminada para permitir essa passagem: só pode ser um médico ele mesmo em ato de médico, e é isso que se chama então de professor de medicina. Conclusão: os dois princípios de causalidade fundamentam-se em um só : " tudo o que devém exige uma causa eficiente e final ". (Não podemos abordar aqui o problema em sua consequência, a teologia natural ou teodicéia. No entanto, é por aí que se fundamenta a necessidade de uma Causa primeira, Deus). H. P. (1) Não confundamos a razão e a causa: a razão é um princípio de conhecimento ; a causa é um princípio de existência . Uma pane de eletricidade tem sempre uma causa; não tem razão, porque a eletricidade não sabe por que ela cessa de existir. A razão da pane está apenas naquele que conhece sua causa. UM "ITINERÁRIOS" BORELLIANO? No nº 292 da Revista ITINERÁRIOS, saiu sob a pena do Senhor Yves Daoudal uma recensão da obra recentemente publicada pelo Senhor Etienne Couvert, "Da Gnose ao Ecumenismo", a qual retomava um certo número de artigos passados do Boletim da Sociedade Augustin Barruel. Que o cronista não tenha apreciado o livro é uma coisa, banal e totalmente lícita; que ele aproveite para fazer em "Itinerários" o panegírico de René Guénon e de Jean Borella não é de modo algum banal: é um fato escandaloso e que se torna altamente significativo da situação atual, tanto mais que o Senhor Daoudal é reincidente, pois dedicou, no sábado, 16 de abril de 1985, uma página inteira do diário "Presente" a fazer o mesmo elogio do Senhor Jean Borella. Consideramos, portanto, útil para a edificação de nossos leitores, que não teriam lido esse artigo da revista, e para aqueles que ainda guardassem alguma dúvida sobre a penetração neognóstica nos meios católicos tradicionais, reproduzir abaixo o texto do Senhor Daoudal, seguido da resposta enviada pelo Senhor Etienne Couvert (com pedido de publicação a título de direito de resposta — o que foi recusado pelo Senhor Madiran numa carta das mais violentas), e acrescentar alguns comentários. TEXTO DA RESENHA do Senhor Daoudal O propósito de Etienne Couvert é ambicioso: oferecer em poucas páginas uma visão geral dos ataques da subversão anticatólica ao longo da história, mostrar que esses ataques têm como princípio diversos erros, sempre os mesmos, apresentados sob uma luz diferente, e que o ponto de partida, o reservatório de todos os erros subversivos é a gnose dos primeiros séculos do cristianismo. * * * O primeiro capítulo é, portanto, naturalmente dedicado à gnose. Mas nos deparamos aí com um problema de terminologia curiosamente ocultado por Etienne Couvert. De fato, se a gnose é o reservatório de todos os erros, parece estranho que a Igreja nunca a tenha condenado. Ora, isso é um fato. A explicação é simples: é que a verdadeira gnose é o verdadeiro cristianismo, e que as seitas que Etienne Couvert evoca pertencem à falsa gnose, ao gnosticismo . Tudo já está claro nas epístolas de São Paulo. São Paulo é, de fato, o primeiro autor a empregar a palavra gnosis em seu sentido especificamente cristão, e o primeiro também a denunciar a falsa gnose (na última frase da primeira epístola a Timóteo). Os Padres gregos, a seu exemplo, não fizeram outra coisa. Santo Irineu, cujo retrato adorna a capa do livro de Etienne Couvert, e que é citado várias vezes, não combateu a gnose, contrariamente ao que o autor dá a entender: o título original de seu livro, traduzido em latim por Adversus haereses , era: Refutação da falsa gnose . Sobre este assunto, ler-se-á com o maior proveito as belas páginas de Jean Borella nos números 193 e 203 de la Pensée catholique , com neste último número as confirmações de vários teólogos: pode-se usar o termo "gnose" para significar o conhecimento sobrenatural de Deus por Jesus Cristo, deve-se até mesmo fazê-lo para distinguir este conhecimento superior do conhecimento estritamente racional. O que a Igreja condenou foram as heresias professadas pelos "gnósticos": panteísmo, imanentismo, etc. RESPOSTA DO AUTOR dirigida à Revista Itinéraires O Senhor Daoudal me acusa de omitir a distinção entre falsa gnose e verdadeira gnose. É uma distinção à qual me recuso absolutamente, pois é o procedimento clássico usado pelos Gnósticos para fazer penetrar nos meios cristãos, com a palavra GNOSE, a heresia que ela subentende. No uso habitual da Igreja, a palavra GNOSE se aplica à heresia gnóstica e é esse o sentido que tem em minha obra. Todos os leitores apenas honestos o compreenderam muito bem. Não há qualquer equívoco possível. Meu texto é bastante claro e bastante firme sobre este assunto. O Senhor Daoudal também o compreendeu muito bem... COMENTÁRIO da Sociedade Augustin Barruel. Resenhar uma obra é dar a conhecer aos leitores da revista o que realmente contém essa obra. Ora, nesta resenha, a pessoa que se esconde sob o pseudônimo de Yves Daoudal, curiosamente "ocultou" todo o conteúdo deste primeiro capítulo do livro. Não saberemos o que o autor nos diz sobre a GNOSE, em que ela consiste, qual é seu ensino... etc... etc. Parece que o censor prefere deixar na vagueza e na incerteza todo o ensino dos gnósticos. Mas saberemos que existe um certo Jean Borella , grande escritor cujas "belas páginas" devem ser lidas com "grande proveito", ainda mais que são apoiadas pelo prestígio de grandes teólogos. Curiosamente também, Yves Daoudal empurra gentilmente os leitores da revista ITINERAIRES em direção à revista " LA PENSEE CATHOLIQUE ". Ora, conhecemos bem, na Sociedade Augustin Barruel, o Senhor Jean Borella. Sabemos bem que ele escreveu artigos em " Vers la tradition ", revista esotérica e guenoniana, e que penetrou nos meios católicos para subverter-lhes a fé . Portanto, Yves Daoudal é bem seu cúmplice e começa sem dúvida na revista ITINERAIRES o mesmo trabalho de sabotagem da fé que o Senhor Jean Borella realiza tão bem na PENSEE CATHOLIQUE . Por outro lado, ainda não sabemos em quais revistas esotérico-maçônicas que difundem hoje a céu aberto o ensino dos Gnósticos veremos aparecer a assinatura do Senhor Yves Daoudal... ? RESENHA Desembaraçar o novelo gnóstico exige a máxima circunspeção. De fato, os hereges gnósticos desviavam de seu sentido fórmulas perfeitamente católicas, e nem sempre é fácil distinguir onde começa a heresia. Em todo caso, não é sem surpresa que se lê na página 14 que a expressão "o reino está dentro de vós" é uma "fórmula panteísta": trata-se de uma frase de Nosso Senhor:  Regnum Dei intra vos est (Lucas XVII, 21). Ou que se lê em nota que a expressão "desperta, tu que dormes" tem um "sabor particularmente gnóstico": ela se encontra textualmente na epístola de São Paulo aos Efésios (V, 14) e em substância em diversos lugares da Escritura. Não se lê também sem surpresa que a atitude cristã oposta ao imanentismo gnóstico é "conquistar pela força da ascese a semelhança com Deus". A vida cristã consiste em fazer - ou antes, deixar - crescer Deus em nós pela graça. A virtude da ascese é negativa: ela remove os obstáculos à graça, e ainda pela graça. Mas não se conquista nada pela ascese, e sobretudo não a semelhança com Deus. É Deus que nos conquista, se o deixamos agir, se permitimos que a graça opere em nós. RESPOSTA O Senhor Daoudal finge surpreender-se por eu atribuir aos Gnósticos fórmulas que se podem encontrar nos Evangelhos canônicos ou em São Paulo. É bem um fingimento, pois o Senhor Daoudal compreendeu muito bem que os Gnósticos usam essas fórmulas para subverter-lhes o sentido. É aliás todo o essencial do meu propósito no primeiro capítulo do meu livro. COMENTÁRIO O Sr. Daoudal (?) se pergunta onde começa a heresia entre os Gnósticos. Mas ela começa já na primeira fórmula! e sobretudo se essa fórmula é totalmente católica. Foi Santo Ireneu quem nos disse isso. Assim que um Gnóstico abre a boca, é para mentir . E a fórmula mais católica é a melhor das armadilhas. Para um Gnóstico, é claro, o reino está dentro de nós, já que nosso "pneuma" é uma centelha da divindade-pleroma... Além disso, a fórmula "conquistar pela força da ascese a semelhança com Deus" é colocada pelo autor na boca de um Gnóstico ; ele não a assume como sua. O Sr. Daoudal (?) precisa aprender a ler os textos e a compreendê-los em seu sentido óbvio, antes de lançar acusações. RESENHA Etienne Couvert mostra com pertinência como as teses gnósticas ressurgiram na maçonaria. Ainda seria conveniente distinguir entre os elementos tradicionais pervertidos (oriundos da maçonaria operativa e de ritos de cavalaria) e os elementos propriamente anti-tradicionais. É verdade que isso seria assunto para outro livro... Da mesma forma, é totalmente pertinente mostrar as afinidades da psicanálise com o gnosticismo. Mas Etienne Couvert negligencia um ponto importante: seu aspecto propriamente satânico de contra-tradição (no sentido de transmissão): não se pode ser psicanalista sem ter sido psicanalisado. COMENTÁRIO De fato, haveria  um outro livro a ser escrito para explicar que essa distinção entre elementos tradicionais e anti-tradicionais é uma armadilha destinada a fazer penetrar a GNOSE na Tradição da Igreja. Voltaremos a isso. RESENHA Encontra-se em seguida, no subcapítulo intitulado  O hinduísmo ocidentalizado , uma estranha mistura: a teosofia de Madame Blavatsky, que é "exposta por Allan Kardec no Livro dos Espíritos ", e a obra de René Guénon. Seria ainda mais necessário aqui distinguir. Allan Kardec não expôs a "teosofia", mas o espiritismo. A teosofia de Madame Blavatsky é inegavelmente infestada de erros gnósticos, mas o espiritismo é um delírio próprio do final do século XIX. Quanto a Guénon, seu segundo livro intitulava-se: O teosofismo, história de uma pseudorreligião , livro publicado por recomendação de Maritain e que recebeu os mais vivos elogios de um grande número de jornais e revistas de teologia; e seu terceiro livro intitulava-se: O erro espírita . Não se vê, portanto, como se pode colocar Blavatsky, Kardec e Guénon no mesmo saco. Além disso, parece temerário liquidar Guénon em duas páginas e meia, e concluir que sua doutrina não é nada além do antigo gnosticismo: " Essa deformação grega de ideias orientais mal compreendidas não me interessa o mínimo ", dizia Guénon a Maritain. Guénon é um inimigo do gnosticismo , escrevia Noële Maurice-Denis Boulet (doutora em teologia), publicada em 1962 por La Pensée catholique . Lê-se ali, por exemplo: " Fora das questões de vocabulário, impossíveis de unificar, a posição de Guénon, em metafísica pura, era mais próxima da posição tomista do que qualquer posição professada por pensadores modernos, cristãos ou não ". RESPOSTA O Sr. Daoudal vem em socorro de René Guénon e, citando fórmulas desse gnóstico nas quais ele rejeita as acusações contra ele, torna-se objetivamente  seu cúmplice . Repito, portanto, que René Guénon e seus discípulos são os gnósticos mais perigosos porque revestem com um verniz aparentemente cristão um ensinamento totalmente subversivo da fé católica. Houve teólogos que apoiaram René Guénon na época em que ele flertava com os católicos. Infelizmente! Mas se o Sr. Daoudal sente alguma simpatia por Guénon, que siga seu itinerário religioso até o fim e que se converta ao Islã . Saberemos a qual religião ele realmente adere. COMENTÁRIO O autor explicou em seu livro que os Gnósticos sabem  modificar as fórmulas de seu ensinamento conforme os ouvintes a quem se dirigem. Não se vai assim, de repente , explicar a um cristão a quem se quer fazer perder a fé. Assim, o espiritismo, o ocultismo, o guenonismo, a teosofia, a antroposofia são os múltiplos rostos de uma única e mesma Contra-Igreja, a de Satanás. " A mistura " de que fala o Sr. Daoudal (?) é obra dos Gnósticos, e não do autor. Finalmente, conhecemos bem na Sociedade Barruel Noëlle Maurice Denis-Boulet, a filha do pintor Maurice Denis; sabemos bem que desde sua juventude ela nada nas águas guenonianas , apesar dos esforços de Maritain para afastá-la disso. Ela foi, portanto, na Pensée Catholique , a precursora do Sr. Borella, já há muitos anos. Pretender que Guénon é um anti-gnóstico é zombar do mundo, pelo menos do leitor distraído ou superficial. Foi René Guénon quem aderiu já antes da Primeira Guerra Mundial à IGREJA GNÓSTICA e a primeira revista que publicou então chamava-se " A Gnose ". Era preciso também uma doutora em teologia para escrever essa enormidade , de que Guénon é o melhor metafísico tomista do nosso século... RESENHA Etienne Couvert conclui essas visões sobre "alguns herdeiros modernos da gnose" com Hegel e o marxismo. Mas as relações do marxismo com o gnosticismo são muito vagas, enquanto o marxismo é muito mais claramente uma inversão da doutrina cristã, uma contrafação satânica do cristianismo. É outro assunto, certamente, mas teria sido bom assinalá-lo. Por outro lado, surpreende-se por não ver nenhuma alusão nem ao novo gnosticismo proclamado por um certo número de cientistas de hoje (a "gnose de Princeton"), nem ao nazismo, cujas origens ocultistas e "gnósticas" são, no entanto, conhecidas. Surpreende-se também por ver "a nova direita", no entanto claramente "gnóstica", despachada em poucas linhas muito estranhas: o objetivo da "nova direita" seria apresentar sua doutrina como "o cumprimento do cristianismo, com todas as aparências da ortodoxia" ( sic ), daí a "benevolência" ( sic ) da "nova direita" para com a Igreja! Ora, quem quer que tenha ouvido falar da "nova direita", por pouco que seja, sabe ao menos que sua primeira característica é ser ferozmente anticristã! Etienne Couvert dedica um capítulo inteiro a Descartes, e isso é justificado, pois Descartes é de fato o promotor da subversão filosófica. O autor insiste num ponto geralmente deixado na sombra e, no entanto, da maior importância: as relações muito estreitas de Descartes com os "Rosacruzes", desvio gnóstico (e protestante) de elementos católicos, como será mais tarde a maçonaria. SEM COMENTÁRIO : Haveria muito a dizer, e isso nos desviaria do essencial. RESENHA O quarto capítulo, o mais longo do livro, intitula-se:  Um mito destruidor do cristianismo . Trata-se dos Essênios. Etienne Couvert tenta provar que os Essênios, como seita judaica pré-cristã, nunca existiram. Na verdade, não vejo como esse mito, se é que é um mito, seria "destruidor" do cristianismo. Compreende-se bem que na expressão de Renan: "o cristianismo é um essenismo que deu certo", há algo de blasfemo, mas a ideia de que Deus tenha suscitado uma seita judaica pré-cristã para tentar preparar os judeus para a revelação cristã não tem nada de anticristã: os fariseus seriam apenas mais responsáveis por sua cegueira, tendo rejeitado todas as indicações proféticas, até São João Batista e os Essênios. A tese de Étienne Couvert é que os essênios nada mais são do que os ebionitas (os "pobres"), judeu-cristãos que viviam em comunidade e praticavam a pobreza voluntária. Mas essas explicações são extremamente confusas. Se os essênios eram esses pré-cristãos, não nos surpreenderia encontrar neles textos que não coincidem com a revelação cristã e podem, portanto, a posteriori , ser considerados "heréticos". Mas, uma vez que para Étienne Couvert os essênios são judeus cristãos que chegam a observar os "conselhos" evangélicos, é necessário que sua doutrina seja ortodoxa. Assim, ele se recusa a considerá-los hereges (nota p. 171), a única coisa que se pode reprovar neles sendo a continuação das práticas mosaicas, o que não é heresia no sentido próprio. Mas ele cita um texto do Cardeal Daniélou que nos informa que os ebionitas "consagravam" pão ázimo e água (enquanto, por outro lado, cita um texto essênio onde se fala do sacerdote que abençoa o pão e o vinho!), que os ebionitas acreditavam na natureza angélica de Cristo (o qual era um profeta anunciando os dois messias vindouros – rei e sacerdote –) e professavam uma doutrina dualista. Se isso não constitui heresias caracterizadas, as palavras não têm mais sentido. RESPOSTA O senhor Daoudal considera meu capítulo sobre os essênios muito confuso. Se ele tivesse pessoalmente que tratar dessa questão, teria sido submerso sob as hipóteses mais extravagantes. Se meu capítulo é de leitura árdua, isso decorre do fato de os eruditos terem complicado as coisas por prazer. E todo o meu esforço foi colocar clareza num assunto bem emaranhado. Aplico os Manuscritos do Mar Morto à primeira comunidade ebionita de Jerusalém. Sustento que essa comunidade não era herética. Estava sob a autoridade de São Tiago Menor, que seria descabido tratar de herege. Mas havia entre eles alguns ebionitas que  hesitavam sobre alguns pontos importantes da fé cristã. É a estes últimos que se dirige o autor da Epístola aos Hebreus. Posteriormente, após a queda de Jerusalém e a dispersão dessa comunidade no Oriente, os ebionitas caíram em várias heresias, e é por isso que seus manuscritos foram retirados e jogados no lixo. Num ponto particular, o senhor Daoudal tem razão ao notar uma contradição entre este trecho de um texto do Padre Daniélou afirmando que os Ebionitas usavam pão e água na sua Eucaristia, enquanto o texto de Qumran fala de pão e vinho . Após verificação, é de fato o Padre Daniélou quem se engana. Os Ebionitas usavam sim o pão e o vinho . Mas creio entender seu erro devido a uma interpretação abusiva de uma passagem de Santo Ireneu explicando que os Ebionitas, ao recusar reconhecer a divindade de Jesus Cristo, preferiam a Água , símbolo de sua humanidade, ao Vinho , símbolo de sua divindade. RESENHA O capítulo que apresenta o problema mais grave é o intitulado  Fé ou razão . O desígnio de Étienne Couvert é refutar o fideísmo e o imanentismo. Mas, para se opor a esses erros, ele acaba rejeitando, não mais o gnosticismo, mas a verdadeira gnose cristã, a de São Paulo, e apresentando a fé como ato da inteligência natural. Em nenhum lugar se fala da graça, a não ser para rejeitá-la, pois são os protestantes que afirmam que a fé provém de um influxo da graça... Eis duas surpreendentes citações perfeitamente representativas de todo o capítulo: " Podemos conhecer, com nossa inteligência, as verdades religiosas naturais e reveladas "; " Deus não reside em nossa alma e só podemos alcançá-lo indiretamente pelo raciocínio ". A definição da fé católica é: uma adesão da inteligência a verdades recebidas. Isso não é uma definição da fé católica. A primeira definição da fé é a que dá São Paulo: a substância das coisas que se esperam. Quando São Tomás de Aquino aborda a questão, é essa definição que ele retém. São Pio X, em seu catecismo, dá uma definição teológica muito precisa que resume admiravelmente os desenvolvimentos de São Tomás: " A fé é uma virtude sobrenatural, infundida por Deus em nossa alma, pela qual, apoiados na autoridade do próprio Deus, cremos tudo o que Ele revelou e nos propõe crer por sua Igreja ." A fé é uma virtude teologal e não o resultado de um raciocínio. Ela nos é dada no batismo, quando somos incapazes de raciocinar. A fé é intrinsecamente sobrenatural, e não naturalmente racional. A adesão da inteligência é o ato de fé, e não a fé em si mesma. E se trata de uma adesão a verdades recebidas , portanto impossíveis de alcançar pelo raciocínio. Nenhum raciocínio pode nos levar ao conhecimento de um Deus em três pessoas. Pela graça da fé, temos um conhecimento de Deus mais elevado do que pela razão natural (São Tomás Ia, q. XII, art. 13). "Visto que o homem, pelo seu assentimento ao que é de fé, eleva-se acima de sua natureza, é necessário que este movimento nele provenha de um princípio sobrenatural que o move interiormente, e este princípio é Deus" (IIa IIae, q. VI, art. 2). Pretender que a razão natural basta para conhecer Deus é pelagianismo. Num artigo em que defende o uso do termo gnose para combater o racionalismo ( Pensée catholique , n° 203), o padre Luc Lefèvre expressa a mesma realidade que São Tomás e não teme usar a palavra imanência que faz Étienne Couvert saltar: " No conhecimento de fé, o objeto é sobrenatural e não natural. Ele não é observado pelos sentidos nem pelas forças da inteligência do sujeito. Ele é dado pelo próprio Deus que se revelou. Portanto, é exterior ao sujeito, mas lhe é também interior e imanente, e a tal ponto que é ele quem torna o espírito cada vez mais capaz de conhecer seu objeto. " O imanentismo é um erro, mas a imanência de Deus na alma do fiel é uma verdade que se encontra claramente exposta no Evangelho (São João, 14). Sobre este assunto, é preciso ler o capítulo sobre a fé de Os Mistérios do Reino da Graça , do Padre Calmel (DMM). As proposições do Padre Calmel, apoiadas na Tradição, são exatamente contrárias às de Étienne Couvert. A fé é intrinsecamente sobrenatural " tanto pelo título de seu conteúdo, que não é outro senão os segredos, os mistérios de Deus, e não um objeto de ordem racional e demonstrável, quanto pelo título de seu motivo formal, que não é outro senão uma luz recebida de Deus, o testemunho de Deus dentro de nós (...), o testemunho de Deus no interior de nossa alma, a luz que está além das capacidades naturais de nosso entendimento, que só vem de Deus e só é recebida por graça ". E isso é simplesmente a doutrina católica. Pode-se acrescentar que, se a Igreja em sua liturgia utiliza a poesia e o simbolismo, e não o discurso racional, é porque sabe que assim as verdades da fé, que são mistérios sobrenaturais, se imprimirão na alma dos fiéis. As liturgias protestantes e modernistas levam a um empobrecimento da fé, porque apelam mais à razão do que à gnose, que é "conhecimento amoroso dos mistérios" (padre Lefèvre). RESPOSTA Quando o senhor Daoudal chega ao meu capítulo sobre " a Fé ou a Razão ", ele utiliza  um procedimento bem estranho e muito cômodo que consiste em dizer que, já que o autor não diz isto ou aquilo, é que não acredita nisso. Isso lhe permite colocar em dúvida, aos olhos de seus leitores, a ortodoxia do meu texto. Não tratei neste capítulo da natureza da Fé : não era meu propósito. Por isso é perfeitamente vão opor-me textos de São Pio X, de São Tomás de Aquino ou do Padre Calmel, que assino com ambas as mãos, pois são a expressão mais perfeita da fé católica. Meu estudo versava essencialmente sobre a psicologia do ato de fé e sobre as relações entre a inteligência e a vontade na submissão à revelação divina. O que me permitia fazer compreender o sentido profundo das definições do Concílio Vaticano I. Não falei da Imaculada Conceição, nem da Assunção da Santíssima Virgem em meu livro. Segundo o procedimento utilizado pelo senhor Daoudal, ele deve concluir que rejeito o culto da Santíssima Virgem... O senhor Daoudal cita uma passagem do padre Luc Lefèvre bem equívoca, onde se vê reaparecerem fórmulas da imanência vital , tais como as denunciei a propósito de Maurice Blondel. COMENTÁRIO Chegamos aqui ao  ponto central do debate . Para um fiel leitor da revista ITINERAIRES , era preciso primeiro e sobretudo colocar em causa a ortodoxia do autor e fazer duvidar de sua boa fé . Isso é essencial para aqueles que são justamente apegados à fé católica. Um leitor simplesmente honesto e culto ficará perturbado pelo texto do recenseador; mas não verá as múltiplas armadilhas que ele contém. Esclareçamos então nossas ideias. O senhor Yves Daoudal (?) é um verdadeiro gnóstico ; isso se vê pelas posições que já tomou em relação a Guénon e à GNOSE em geral. Mas ele o é ainda mais pela maneira como expõe a fé católica. Como todo bom gnóstico que se preza, ele começa por "enunciar a fé em fórmulas perfeitamente ortodoxas", depois as acompanha de reflexões equívocas e, finalmente, se esforça para introduzir sub-repticiamente fórmulas heréticas, no caso, a da Imanência vital . " A adesão da Inteligência a verdades recebidas ", isso não é uma definição da fé católica, nos diz o senhor Daoudal (?): afirmação peremptória, segura, sobre a qual não há como voltar atrás... Mas é uma mentira impudente! Pois o senhor Daoudal (?) conhece bem a fórmula do juramento antimodernista: " Afirmo com toda certeza e professo sinceramente que a fé não é um sentimento religioso cego... etc... mas sim que ela é um verdadeiro assentimento da inteligência à verdade adquirida extrinsecamente pelo ensino recebido ex auditu ..." Para um gnóstico, é necessário progressivamente apagar o papel da inteligência no ato de fé, de modo a tornar suas fórmulas indistintas e vagas e poder introduzir nelas os símbolos cosmológicos do Panteísmo , sem que sua aproximação choque violentamente os espíritos. Por outro lado, é preciso manifestar através de fórmulas contundentes uma oposição entre as verdades reveladas e a inteligência do homem, como se Deus, ao querer nos revelar um "Mistério" sobre sua natureza íntima, se dirigisse aos nossos pés ou ao nosso ventre, e não à nossa Inteligência. A alusão ao batismo de bebês é muito sugestiva. O senhor Daoudal se guardaria bem de nos explicar que a virtude teologal da fé é dada ao bebê para permitir-lhe, por uma graça especial, abrir mais tarde, quando atingir a idade da razão, sua inteligência a um mistério que a supera infinitamente, mas ao qual ela é essencialmente ordenada ... " Pretender que a razão natural basta para conhecer Deus é pelagianismo ", ele nos diz. Perdão, essa é a doutrina católica mais fundamental . Por fim, o senhor Daoudal (?) se esforça para reintroduzir na exposição da fé católica as fórmulas mais equívocas. Aqui, trata-se da Imanência vital, condenada pela Encíclica PASCENDI de São Pio X. O imanentismo, ele nos diz, é um erro, mas sua definição , a imanência de Deus na alma do fiel, é uma verdade. Não é possível zombar mais impudentemente de seu leitor. Ainda mais que o senhor Daoudal (?) pretende que essa imanência vital seja ensinada pelo próprio Padre Calmel. Evidentemente, este está morto e não poderá protestar. Mas "o testemunho de Deus dentro de nós não é a 'presença real' de Deus em nós"; é uma presença formal, como a de toda pessoa que ensinou uma Verdade. É a  Verdade que está presente no espírito e não a Pessoa que a enunciou. São Tomás de Aquino tem, assim, algumas páginas luminosas sobre os diferentes modos de presença de um ser em outro. Só que o senhor Daoudal usa o Doutor Comum apenas como uma armadilha para enganar seus leitores. Finalmente, ele também e curiosamente " ocultou " todo o conteúdo do capítulo intitulado " FÉ OU RAZÃO " RESENHA O último capítulo do livro de Étienne Couvert é um interessante estudo do "movimento de Oxford" e de suas "armadilhas ecumênicas". Trata-se da constituição da  high Church , porção da Igreja Anglicana de aparência quase católica – mas à qual faltava o essencial: os sacramentos. Daí toda uma série de discussões "ecumênicas" ambíguas e fadadas ao fracasso. O ecumenismo atual é inverso: são os católicos que querem se assemelhar aos protestantes, sempre com o objetivo de uma união factícia e sacrílega. Mas por que atacar "Newman envelhecido", que teria tido antes de morrer "algumas hesitações sobre pontos fundamentais da doutrina católica"? E por que explicar essas "hesitações" pelo agostinianismo do qual estava "impregnada" sua ordem do Oratório? Santo Agostinho é o maior dos primeiros doutores da Igreja Latina. Sua doutrina é um rio de luz divina, e sabe-se com que reverência São Tomás podia citá-lo. Quanto à carta do Cardeal Newman (a um amigo anglicano), é verdade que ela pode parecer criticável, especialmente no final, quando o ilustre convertido avalia que os anglicanos da high Church desempenham o papel de São João Batista. Daí a suspeitar que Newman estivesse "em retração" em relação às suas posições anteriores, há uma margem. Essas questões são muito complexas e misteriosas (é o que essencialmente transparece da carta). Na mesma ordem de ideias, embora se trate de realidades diferentes, o predecessor do atual patriarca de Antioquia (Igreja Melquita) dizia que em teoria se podia perguntar se a constituição de Igrejas uniatas tinha sido uma boa coisa e não havia retardado a união. Colocar em dúvida o catolicismo de Máximos IV a partir de tal questionamento seria um julgamento de intenção. Em conclusão, pergunto-me apenas por que nosso amigo Jean Auguy quis publicar estas páginas, das quais várias são gravemente deficientes e outras são, elas, tão manifestamente em retração da grande doutrina católica. Yves Daoudal. RESPOSTA As observações a respeito do Movimento de Oxford mostram que o senhor Daoudal ignora tudo sobre a questão. Mas  de que autoridade ou de que competência goza o senhor Daoudal para denunciar as deficiências graves do meu livro? COMENTÁRIO Nota-se nestas últimas linhas que os Gnósticos são grandes admiradores de Santo Agostinho, mesmo quando  fingem se dizer inspirados por São Tomás de Aquino, referência em teologia. Vimos isso na obra " A Caridade Profanada " do senhor Jean Borella. Certamente, São Tomás de Aquino cita com respeito Santo Agostinho como é de se esperar, mas esse respeito não o impede de marcar muito frequentemente sua oposição em pontos importantes de filosofia ou de metafísica (cf. Étienne Gilson: " Por que São Tomás criticou Santo Agostinho, seguido de Avicena e o ponto de partida de Duns Scot ", Vrin 1981). Finalmente, o leitor simplesmente honesto talvez se pergunte por que essa alusão ao Patriarca Máximos IV, que claramente não tem nada a ver com o assunto. Isso permitiria ao senhor Daoudal (?) sugerir ao leitor, sem lhe dizer, que o autor do livro colocava em dúvida o catolicismo do Cardeal Newman e lhe fazia um julgamento de intenção, sendo, portanto, totalmente de má-fé , C. Q. D. S. A. B. UM LIVRO A LER... Richard BERGERON, o. f. m. " A Corte dos Loucos de Deus ", " Um cristão examina as novas religiões " (Edições Paulinas e Apostolado das Edições, 1982) Richard Bergeron é um religioso canadense preocupado com o crescente domínio das seitas sobre as famílias cristãs. Em sua exposição muito concreta, ele mostra, na primeira parte, que o vazio deixado por uma Igreja que abandona seu ensino é rapidamente ocupado pelas seitas; na segunda parte, ele mostra que as formas carismáticas que atualmente penetram na Igreja Católica são uma invasão progressiva do espírito sectário no catolicismo. Por fim, ele remonta à Gnose primitiva e às influências hinduístas e orientais para explicar o conteúdo dos diversos movimentos carismáticos; em seguida, explica que estes últimos são incapazes, por deficiência de natureza, de fundar uma religião universalista que conduza a alma ao verdadeiro Deus. * * * Índice Lógico: As seitas de inspiração cristã Os grupos orientalistas As gnoses ocidentais Os grupos de potencial humano O esquema da Gnose contemporânea Os grandes eixos da Gnose contemporânea Atração das Gnoses Ambiguidades das Gnoses Miragens das Gnoses E. C. NAS FONTES DO RECENTRAMENTO APÓS O CONCÍLIO VATICANO II Há pelo menos um século e meio, digamos 1830 para ser breve, a Igreja e toda a sociedade cristã têm sido submetidas, por parte de um número crescente de clérigos e leigos, a um projeto de transformação radical: gradualmente, este se estendeu das relações com a sociedade civil e política à doutrina religiosa e às estruturas eclesiais, e até mesmo aos recônditos íntimos da vida espiritual. Esta empreitada, que se pode classificar globalmente como a do "Catolicismo Liberal", e que teve um impulso decisivo após 1880, baseava-se fundamentalmente em uma mentalidade racionalista e numa intenção de Alinhamento ao mundo moderno oriundo do pensamento cartesiano e da Revolução. Ela culminou e triunfou no Concílio Vaticano II, após a morte do Papa Pio XII, sob os pontificados de João XXIII e Paulo VI, produzindo rapidamente os frutos lógicos de suas premissas, ou seja, a decomposição das estruturas institucionais e doutrinárias do catolicismo. Viu-se então um certo número de fiéis protestar e até mesmo se levantar contra essa demolição que se podia bem qualificar, em certo sentido, de autodemolição, e é a essa corrente que se deu o rótulo, que se queria injurioso, de integrista e tradicionalista. Enganar-se-ia, no entanto, gravemente quem imaginasse essa reação simples e unívoca . Um exame não superficial, que ultrapasse o mero sentimento, a revela, ao contrário, como complexa e muito equívoca, e, quanto mais os anos passam, mais esses traços se tornam visíveis, evidentes até para quem não fecha voluntariamente os olhos. É, portanto, a este exame que devemos proceder, pois tornou-se indispensável e até mesmo urgente para quem quiser evitar ser arrastado, entre tantos outros, para as areias movediças do pseudo-tradicionalismo. * * * Desde os primórdios dessa reação, entre 1965 e 1970, pôde-se constatar uma dualidade entre duas correntes doutrinariamente diferentes, embora em estreito contato pela franja de seus adeptos. Encontramos, por um lado , os grupos que contestavam radicalmente a orientação conciliar, bem como suas fontes pré-conciliares, e foram se organizando gradualmente para suprir as defecções eclesiásticas, sobretudo no plano dos sacramentos, com a instalação de capelas, escolas e casas religiosas autônomas. Em quinze anos, essas microrredes se desenvolveram a ponto de oferecer a quase todos que realmente desejam a possibilidade de continuar uma vida católica verdadeira, ao preço de mil dificuldades, sem dúvida, mas real, no entanto, o que, no meio da dissolução das instituições eclesiais oficiais, aparece como algo inteiramente providencial. Existe, por outro lado , um certo número de realizações diversas, apresentando uma tendência diferente que quer, não mais contestar e recusar , mas lamentar e reivindicar . Muitas organizações foram assim criadas para protestar junto à hierarquia legal contra os novos catecismos, ou contra o abandono do Latim e do Gregoriano na liturgia, por exemplo. Os partidários dessa linha, no entanto, continuavam em geral a participar da práxis da "Nova Igreja", mesmo que criticassem incessantemente o que chamavam de "excessos". Foi assim que se viu desenhar-se rapidamente uma sutil distinção entre o Concílio e o para-Concílio, entre os textos do Concílio e o espírito do Concílio, etc. Queria-se, assim, tranquilizar-se estabelecendo um fosso entre um Concílio que teria promulgado reformas limitadas e sábias e um pós-Concílio que teria realizado uma revolução intensa e louca. Essas noções logo se viram repercutidas e difundidas amplamente pelos meios de comunicação de massa, tornando-se bastante difícil conhecer sua origem e fonte exata. Certamente é verdade que essa "análise" correspondia em larga medida ao desejo, ao sonho de muitos elementos tradicionais autênticos. De fato, tomados nessa tormenta da Revolução na Igreja, onde viam desaparecer tanto as bases fundamentais do cristianismo quanto seus mais caros e antigos costumes, muitos tradicionalistas recusaram então ver a verdade sobre a revolução em curso e preferiram embalar-se com explicações lenientes que os tranquilizavam, tanto em relação ao passado e ao presente quanto ao futuro. Mas, na verdade, se aprofundarmos mais a questão, percebemos que essa corrente de protesto "contra os excessos" reunia também pessoas e grupos substancialmente diferentes, e que ao lado dos tradicionalistas "sonhadores" se encontravam pessoas muito mais seguras de suas posições, mas bem menos tradicionais , e cuja presença neste ponto é até das mais surpreendentes, como veremos em breve. O ano de 1968, de que todos se lembram, desempenhou um papel de catalisador, de acelerador do processo revolucionário, tanto no âmbito religioso quanto no civil, desenvolvendo uma atmosfera de anarquia mais do que de revolução, uma anarquia negadora das instituições, mesmo que estas fossem portadoras de revolução, como tantas vezes se tornara o caso na Igreja desde, pelo menos, 1943/1945. Esse fenômeno gerou, nos dois anos seguintes a 1968, um pouco por toda parte e em diversos domínios, um certo número de correntes de reação contra a desestabilização , a desorganização. Esse movimento foi particularmente sensível no meio universitário, onde favoreceu grandemente o surgimento da "Nova Direita", mas manifestou-se também no seio da Igreja, onde, a partir de 1970, reuniram-se alguns dos mais célebres defensores da Revolução Conciliar: os incendiários descobriam de repente uma vocação de bombeiros. Como explicar tal reviravolta? A tese clássica dos revolucionários moderados ultrapassados pelos extremistas, a dos girondinos contra os jacobinos, é insuficiente aqui em matéria religiosa, e explicaria mal o atrativo que tal empreendimento pôde exercer simultaneamente sobre cristãos tidos como não progressistas, ou mesmo tradicionais. É preciso buscar mais profundamente na natureza da mensagem cristã, em suas relações com o mundo, e especialmente convém situar essa reviravolta na evolução dos espíritos, mesmo fora do cristianismo, nesse vasto e turvo movimento de rejeição do racionalismo e retorno ao espiritualismo, a um certo espiritualismo , que se fez notar há quase um século e começou a se impor nos últimos vinte anos (nota 1). Nossos leitores habituais não se surpreenderão em reencontrar aí o tom e, talvez, a influência do neotradicionalismo guenoniano, com sua crítica ao mundo moderno e racionalista e seu panegírico da religião tradicional, que se traduz pelo respeito a certas constantes religiosas indispensáveis ao homem, mas também pela abertura a uma transcendência muito amplamente compreendida e diretamente negadora dos fundamentos do cristianismo. Fidelidade e abertura! de certa forma. É precisamente o tema de uma reunião que ocorreu no final do ano de 1971 e que marcou a primeira manifestação de um grande movimento de "recentralização" que se prosseguiu depois de forma mais ou menos discreta e que está a todo vapor há mais de três anos. Esse colóquio europeu de intelectuais católicos, em Estrasburgo, em novembro de 1971, reuniu mais de uma trintena de participantes sob a direção daquele que foi seu promotor com o cardeal Daniélou, Gérard Soulages. Sob o risco de ser fastidioso, o melhor é dar a lista, por si só muito esclarecedora: Além de Soulages e Daniélou, Dom Elchinger, o bispo de Estrasburgo, Jean Guitton, o Professor Cullman (teólogo luterano, observador oficial no Vaticano II, e que enviou uma carta de aprovação), o cardeal Villot (que enviou um telegrama de encorajamento como secretário de Estado do Papa Paulo VI), o cardeal Journet, Dom Maurice Nédoncelle, ex-deão da Faculdade de Teologia de Estrasburgo, Dom Bruno de Solages, ex-reitor do Instituto Católico de Toulouse, Pe. de Lubac SJ, Pe. Congar OP, Olivier Lacombe, professor do Collège de France, o cardeal Pellegrino, arcebispo de Turim, Gabriel Marcel, Henri Hours, Pe. Holloway, Jacques Perret, da Sorbonne, Jean de Fabrègues, Claude Bruaire, René Pillorget, Padre Feuillet PSS, e Rémi Brague, das equipes Ressurreição de Montmartre (de onde mais tarde sairia o futuro cardeal Lustiger). Esse colóquio era diretamente oriundo do "Movimento dos Silenciosos" e, se não trazia ostensivamente essa etiqueta, era com a intenção compreensível, e aliás confessada, de não comprometer seus participantes. Por outro lado, situava-se explicitamente na linha da mensagem endereçada ao Papa Paulo VI por um certo número de intelectuais católicos em dezembro de 1968, mensagem de fidelidade lançada por Maurice Vaussard e Henri Rollet (as duas tendências misturadas, já!) e assinada, entre outros, por Étienne Gilson, Gabriel Marcel e André Piettre. Os Atos do Colóquio foram publicados numa obra intitulada " Fidelidade e Abertura ", cuja leitura é muito enriquecedora, pois nela se encontram a maioria dos temas desenvolvidos desde então pelos partidários da "Recentralização". É indispensável para cada um consultar esses textos, e nos contentaremos em citar aqui as linhas introdutórias: "Este livro é oriundo do Colóquio europeu de intelectuais cristãos que se realizou em Estrasburgo em novembro de 1971. Filósofos, pensadores, teólogos, todos os que ele reuniu estavam unidos pela mesma preocupação: provocar uma reflexão sobre a responsabilidade e os deveres dos cristãos na crise atual que abala as Igrejas, particularmente a Igreja Católica: degradação do sentido dos sacramentos, desalento dos meios sacerdotais, desorganização das estruturas eclesiais, perversão da linguagem teológica. ... Sua atitude se resume em duas palavras: fidelidade e abertura. Fidelidade que não poderia ser assimilada à saudade nostálgica do passado, abertura que se recusa a ser uma canonização sistemática da mudança. ... Como repensar a Verdade cristã e reformulá-la para dar resposta aos novos apelos dirigidos à Igreja, mas seguindo o fio direito da longa e lenta tradição que é a própria essência da vida, tal é o cerne do debate aqui iniciado. (nota 2). Uma segunda iniciativa , muito importante, foi a criação em 1975 da revista " Communio ", sob o patrocínio do Padre Urs von Balthazar e por impulso de Monsenhor Joseph Ratzinger, futuro cardeal e futuro chefe do Santo Ofício. Já no primeiro número, em setembro de 1975, encontramos um certo número de participantes do Colóquio de Estrasburgo, bem como nomes muito reveladores, os de dois gnósticos convictos, Costa de Beauregard e Philippe Nemo, e o de um jesuíta, o RP Caillaux, dirigente da importante comunidade carismática do Caminho Novo em Lyon. Reunindo uma elite de teólogos e intelectuais, muitos dos quais jovens jesuítas, esta revista rapidamente alcançou difusão internacional, sendo editada em sete idiomas: alemão, francês, inglês, italiano, espanhol, croata e neerlandês, com edições em árabe, português e polonês já anunciadas. Desde seu lançamento, esta revista foi apresentada como o contrapeso, a antítese da revista hiperprogressista " Concilium ", maestro da guerra contra a Tradição católica durante o Concílio Vaticano II, e há dez anos ela difunde um pensamento teológico de alto nível propício ao recentramento. No início de 1982, um terceiro elemento revelador surgiu na própria França, parecendo testemunhar um progresso e uma diversificação dos temas do Recentramento. A revista "Integração" é, na verdade, uma emanação da revista Communio , uma espécie de prolongamento francês em direção a outros meios aos quais a revista alemã não podia se dirigir diretamente, e, aliás, o título "Integração" foi retirado de Communio . Percebe-se na revista francesa a mesma inspiração de certos jesuítas, nomeadamente do RP de Finance, bem como uma abertura não dissimulada para os meios católicos tradicionais, seja através de uma entrevista com Monsenhor Ducaud-Bourget e outra com o Padre de Nantes, e por referências a certas revistas como Itinéraires, Una Voce, la Pensée Catholique, Défense de l'Occident, Lecture et Tradition , etc. Encontra-se também um artigo de Jean Borella sobre " Modernismo e Modernidade " no número de julho-agosto de 1982, assim como várias referências a redes neo-gnósticas: citemos o Centro de Estudos Evola dirigido por Léon Colas (cujo poema é publicado pela Integração) e que edita um boletim de estudos evolianos na região parisiense; ou ainda a revista italiana " Labrys " editada em Perúgia pelo Instituto de Estudos Tradicionais e que publica textos muçulmanos, hindus, budistas japoneses, persas e espanhóis (de Santa Teresa). Entre os outros colaboradores da revista, podemos citar ainda: Michel Bertrand, diretor de uma coleção na Albin Michel e autor de um artigo sobre " Amor e Contemplação ", que publicou estudos de Simbolismo e Espiritualidade gnósticos, " Os místicos do Sol " e " Julius Evola, o visionário fulminado " pelas edições Copernic; assim como Béatrice Clémentine, autora de trabalhos sobre Mestre Eckhart cuja publicação na revista foi anunciada. Por fim, não se deveria esquecer aquele que foi o mestre de obras, Yves Chiron, autor de um artigo favorável à obra de Evola sobre o Tantrismo " Cavalgar o Tigre ". Integração não deveria durar muito tempo, apenas um ano, apesar de uma qualidade certa, ou talvez por causa disso, a cor sendo demasiado claramente anunciada para o meio visado, cedo demais, sem dúvida. Não nos surpreenderá encontrar Yves Chiron entre os redatores da Revista " Rebis " consagrada a "Revolução sexual e Tradição", editada pelas Edições Pardès , importante centro de difusão gnóstica; nem vê-lo assinar em 1985 um artigo sobre Astrologia na revista guenoniana " Vers la Tradition " da qual falamos em um dos nossos últimos números. Ao final deste panorama rápido, vê-se que este movimento do "Recentramento" realiza, na verdade, a conjunção em uma única corrente de três meios cujos temas favoritos se misturam de forma sutil, de modo que muitos católicos tradicionais não viram nada, habituados que estão a reagir favoravelmente a algumas palavras-chave. A primeira corrente é composta de progressistas, de várias espécies, aliás: desde os progressistas moderados que querem simplesmente "modernizar" a Igreja e que se assustam ao vê-la demolir, até os progressistas extremos que queriam mudar tudo na Igreja, mas que se inquietam ao ver suas estruturas mais elementares postas em perigo, enquanto sabem que a manutenção do quadro institucional é indispensável para seu empreendimento (à maneira daqueles citadinos que, tendo comprado uma velha fazenda, a reconstroem de alto a baixo guardando apenas as grossas paredes...). Os membros desta corrente, já complexa em si mesma, com motivações múltiplas e diversas, querem doravante evitar os excessos, e buscam estabelecer uma média entre as posições extremas, tradicionais e progressistas: eles querem, segundo sua expressão, " voltar ao centro ". A segunda corrente é a dos neo-gnósticos, isto é, daqueles que, há pelo menos cinquenta anos, se desviaram do racionalismo ambiente (seja dentro ou fora da Igreja) e se esforçam para construir um novo espiritualismo; na maioria das vezes, eles apelam para uma das múltiplas variantes orientais, mas, na verdade, como já estudamos muitas vezes, trata-se apenas de dar vida ao velho panteísmo universal, à velha gnose pagã, vestindo-a um pouco de novo. Lá também se encontram múltiplas tendências, algumas mais místicas, outras mais cientificistas, que podem por vezes se desentender, o que não nos deve iludir. A terceira corrente é a desses católicos tradicionais que podemos qualificar como moderados (ou, se quisermos ser mais precisos, como "moderadamente tradicionais") e que não entenderam grande coisa da crise na Igreja nem do seu ambiente. Geralmente oriundos de meios liberais que acompanharam com mais ou menos entusiasmo as primeiras evoluções da Igreja, desde o final do século XIX, em matéria social, política e até intelectual, ficaram incomodados quando o santos dos santos da religião foi atingido e colocado em grave perigo: sacramentos, vida religiosa, paróquia e até dogmas. Não estando habituados a contestar a evolução eclesial nas suas primeiras etapas, seguiram a orientação conciliar até sentirem náuseas, contentando-se em protestar e reclamar precisamente aquilo que lhes havia sido deliberadamente tirado. Ficaram, portanto, muito felizes por encontrar em seu caminho os membros das duas primeiras correntes, entre os quais muitos teólogos totalmente conciliares e até, como vimos, bispos, com a bênção romana (de Paulo VI já!) por cima. Para seu uso, aliás, surgiu há alguns anos uma revista internacional de grande difusão, Famille Chrétienne , publicada em vários países da Europa, que constitui, de forma totalmente visível e até muitas vezes gritante, uma verdadeira colcha de retalhos de noções e temas tradicionais e progressistas. É importante entender bem a tripla composição desse movimento do Recentramento para compreender a sequência dos eventos que temos vivido nos últimos três anos: isso permitirá compensar em parte a falta de distanciamento de que sofre forçosamente uma boa análise. O elemento novo, extraordinário, no desenvolvimento do processo de Recentramento foi a adesão de uma quarta corrente , a de uma parte, talvez a maior parte, dos grupos que se opuseram radicalmente à revolução conciliar e dos quais falávamos no início deste estudo para distingui-los precisamente dos outros. Três elementos nos parecem garantir essa certeza, três elementos cujos laços profundos ainda são misteriosos, mas cuja conexão grita alto demais para não ser ouvida: A chegada ao trono pontifício de novos pontífices, e sobretudo a de João Paulo II. As negociações de paz entre Roma e os católicos tradicionais sobre esta dupla base: "Deixem-nos fazer a experiência da Tradição" e "interpretemos o Concílio Vaticano II à luz da Tradição", sendo o último fruto dessa manobra o Indulto para a missa tradicional. A infestação dos meios católicos tradicionais, ou pelo menos dos seus núcleos dirigentes, por um número crescente de elementos neognósticos: a Revista La Pensée Catholique primeiro, depois o Instituto São Pio X e as Edições Fideliter , o jornal diário Présent e a revista Itinéraires hoje, e outros, sabemos, que acabarão por levantar a máscara. Um percurso longo e subterrâneo, que temos anunciado e denunciado há anos diante de uma incredulidade quase geral, conduziu-nos assim a uma situação nova, em pleno movimento, que será preciso analisar. No n.º 3 deste boletim, em 1980, publicámos um artigo intitulado " Cristianismo e Revolução: primeiras abordagens ", recentemente reproduzido no n.º 11. Panorama histórico dos ataques à Igreja, ele pedia uma continuação sobre a situação de hoje, considerada não como fruto dos séculos passados, mas enquanto está grávida do futuro. Este segundo estudo, esta segunda parte, poderá doravante aparecer sob um título que todos compreenderão: " Cristianismo e Revolução: a pseudo-síntese. " Pois, além dessas diversas reconciliações, desse "retorno ao centro", é o Ecumenismo que é o objetivo final, a meta profunda, do atual pontificado e daqueles que ele seduziu. O número 4/5 da Revista guenoniana " Vers la Tradition ", publicada durante o verão de 1983, foi muito instrutivo a esse respeito, e nós o citamos e comentamos longamente em nosso Boletim nº 12, " Gnose e Gnosticismo na França no Século XX ", especialmente nas páginas 11 e 12. O Sr. Borella defendia ali que o Catolicismo, a Ortodoxia, o Protestantismo e o Anglicanismo eram quatro estilos religiosos que o encontro de uma mesma revelação com temperamentos culturais diferentes não poderia deixar de suscitar. Partindo do princípio de que a fé cristã se baseia em um "triângulo dos fundamentos", a Tradição Apostólica oral, a Tradição escrita bíblica e a Tradição dogmática eclesial, ele considera que os gregos permaneceram fiéis à primeira, os protestantes à segunda, os católicos guardando apenas a letra do dogma. E para precisar bem seu pensamento, ele concluiu nestes termos: "Se resta uma possibilidade de praticar um ecumenismo verdadeiramente tradicional, ela não pode residir no enfraquecimento ou na renúncia da especificidade do cristianismo latino – que está aqui diretamente em causa – mas apenas no esforço para reencontrar, no seio de sua própria forma E DE DENTRO, as virtudes complementares do cristianismo integral que um melhor conhecimento das outras formas nos terá revelado. No dia em que os católicos tiverem reencontrado o sentido da transcendência soberana do Pai e da imanência deificante do Espírito, a Igreja de Pedro se tornará novamente a OIKOUMENE, a morada universal para todos os irmãos em Jesus Cristo". Fora os imbecis, quem não compreendeu? * * * O tempo das ignorâncias, fingidas ou reais, está findo; o das responsabilidades de cada um, clérigo ou leigo, chegou, inelutável, tempo em que cada um deverá tomar partido claramente numa situação turva, numa mistura quase inextricável onde em breve não se saberá mais quem ainda é católico e quem já não o é: belo resultado, para dizer a verdade, da covardia daqueles que deveriam ter sido guias... e que não foram, na melhor das hipóteses, senão avestruzes. P. R. Nota 1 – Sobre este ponto, ler o artigo " Cristianismo e Revolução " publicado no Boletim nº 3 e reproduzido em segunda edição no nº 11. Este assunto constituiu também o tema do Colóquio da S.A.B. que reuniu, no mês de agosto de 1982, uma cinquentena de ouvintes para estudar "o espiritualismo subversivo" das origens aos nossos dias. Nota 2 – "Fidelidade e Abertura" – Edições Mâme – 1972. Da maioria das comunicações deste colóquio poder-se-ia extrair uma infinidade de citações estabelecendo a doutrina do Recentramento – Será necessário outro artigo, particular e muito fornecido. NOTAS DA GERÊNCIA ESCLARECIMENTOS SOBRE PAGAMENTOS Muitos cheques, postais ou bancários, chegam até nós emitidos em nome da Sociedade Augustin Barruel; lembramos mais uma vez que não podemos descontar tais cheques, e somos obrigados a devolvê-los aos remetentes para que sejam refeitos. Todo cheque, assim como todo envio registrado, deve ser emitido exclusivamente em nome pessoal do Administrador, conforme indicado na contracapa — e enviado, se possível, junto com a ficha de renovação, em um envelope em nome da Sociedade. 90% dos nossos assinantes fazem isso corretamente; pedimos encarecidamente que os outros 10% nos imitem para poupar-nos um trabalho extra totalmente desnecessário. NOVA PAGINAÇÃO Conforme prometemos após o aumento dos preços, a paginação foi ampliada; procuraremos mantê-la assim no futuro. NOVAS DOAÇÕES PARA O ESPAÇO FÍSICO       Padre P. Ródano 50 F Sra. D.B. Côte d'Or 250 F Sr. J. B. Calvados 200 F Sr. A. M. Alta Saboia 200 F Agradecemos a esses amigos, bem como àqueles que continuarão a pensar em nosso fundo de investimento; sem esquecer todos os que, bastante numerosos nos últimos meses, arredondaram seus cheques de renovação e permitiram que nosso caixa respirasse um pouco.   N° de inscrição S/4 80 Depósito legal 2º trimestre de 1985 Impressão Circular Eco Imprimerie ISSN 0247-3607