ITINERÁRIOS EM DIREÇÃO A UM "ESOTERISMO CRISTÃO"
"A colheita poderá brotar após a morte do semeador" – Jean Reyor
René Guénon não é um pensador solitário. Certamente ele deu à sua doutrina um relevo particular, mas ele veio na sequência de outros mestres e ele próprio gerou uma multidão de discípulos muito diversos. De fato, o pensamento guenoniano, como todo pensamento esotérico, pode ser apreendido em vários níveis, e tornou-se a inspiradora comum de homens cujas doutrinas exteriores apresentam diferenças sensíveis; disso resulta que qualificar um pensador de guenoniano, se informa bastante bem sobre os princípios profundos que animam esse homem, nem sempre basta para fornecer um critério simples de reconhecimento externo: existem, na verdade, várias apresentações exteriores ou, se preferirmos, diversas aparências guenonianas.
Essa diversidade, consequência lógica do Esoterismo, foi reforçada pela evolução histórica: o meio no qual se delineou a vocação de Guénon, e onde surgiram os primeiros de seus discípulos, não se destacava particularmente por seu cristianismo, pode-se até dizer que era francamente descristianizado, enquanto os cristãos da época eram antes hostis a todas essas noções ocultistas e orientalistas.
A guinada parece ter vindo entre 1920 e 1930 com a "Crítica do Mundo Moderno" de Guénon, e do lado católico com a percepção muito nítida de que a Tradição cristã estava como que irremediavelmente minada por esse mundo moderno: daí a tentação para alguns de apoiar a defesa dessa Tradição em bases diferentes, mais amplas e, pensavam eles, realmente opostas ao racionalismo ambiente.
Essa evolução levou Guénon a refinar seu projeto, a "cristianizar" sua manobra. Não podemos fazer melhor para expressar os princípios que ele seguiu nessa matéria do que reproduzir as linhas seguintes de um de seus discípulos e biógrafos. Sua densidade é tal que é impossível resumi-las, tudo é importante, e convém, ao contrário, comentá-las um pouco para fazer sobressair toda a sua riqueza subversiva.
"E eis aí outra contribuição capital de Guénon, a mais inédita, de ter formulado primeiro a teoria da iniciação concebida como a transmissão de uma influência espiritual que engendra, por um novo nascimento, o homem novo que é o próprio sujeito da realização espiritual.
Outro ponto extremamente importante é ter afirmado, no seio das tradições de forma religiosa, a distinção do exoterismo (religião) e do esoterismo (iniciação) e, ao mesmo tempo, sua inseparabilidade, casca e núcleo do mesmo fruto que é a tradição total".
Essa noção capital, da qual todo o resto efetivamente decorre, não é de modo algum uma descoberta de Guénon; ela também não lhe foi transmitida por alguma "influência espiritual supra-humana", segundo sua expressão favorita, e ele não a encontrou no estudo de doutrinas hindus; essa noção foi simplesmente retomada da tradição muçulmana, do esoterismo muçulmano, onde é constantemente afirmada, sobretudo no xiismo. Esse ponto muito importante não pode ser desenvolvido aqui, pois exigiria mais de um artigo, mas o será mais tarde, tamanha é sua necessidade para uma boa compreensão da questão, a saber, a penetração neo-gnóstica no Ocidente do século XX.
"O grave perigo de exposições sobre o esoterismo e a iniciação, sem as precauções tomadas por Guénon, teria sido o de desviar da religião, julgada boa apenas para o vulgo, os aspirantes à Iniciação que eram anteriormente fiéis de um exoterismo regular, e de deixar sem nenhum vínculo tradicional os 'infiéis' teoricamente convertidos e em busca da iniciação.
Mas aquele que leu bem Guénon compreende que o primeiro passo em vista da iniciação é integrar-se a uma tradição regular: sob seu aspecto exotérico ou seguir suas prescrições com um rigor e um fervor aumentados, se já é um exoterista praticante."
Pode-se ler aqui, nas entrelinhas, uma crítica à Maçonaria que se tornou visivelmente antirreligiosa no século XIX, apesar das instruções das Constituições de Anderson que, em 1717, já precisava que o Irmão não deve ser um "ateu estúpido" e que, ao contrário, deve frequentar o culto religioso de seu país.
Indo mais longe que Desaguliers, Guénon afirma não apenas a possibilidade, mas a necessidade da religião exotérica. Não se deve ver aqui uma simples astúcia tática, um camuflagem, mas em um nível mais profundo a intenção de interpretar a religião exotérica à luz da doutrina esotérica e de utilizar as formas da primeira para fazer adotar os princípios da segunda.
De passagem, fica assim justificada a preferência de alguns guenonianos pela missa de São Pio V em detrimento do Novus Ordo Missae de Paulo VI.
"Graças à obra de René Guénon, um certo número de ocidentais reencontrou, portanto, o caminho da Tradição, geralmente sob a forma do Catolicismo Romano, que é a tradição regular normal da Europa e de seus prolongamentos étnicos (com exceção do Leste europeu colocado sob a regência das Igrejas ditas Ortodoxas), e eis aí um resultado cuja importância não poderia ser suficientemente sublinhada em nossa época de descristianização."
Caso alguns não tenham entendido, o autor tem a bondade de esclarecer: para se tornar um bom esoterista, um europeu deve ser (ou tornar-se) um exoterista cristão, católico ou ortodoxo. A Ortodoxia, aliás, até agora gozava do favor dos guenonianos, devido a uma certa mistura de orientalismo com o cristianismo. Nos últimos anos, os esoteristas parecem estar fazendo um grande esforço em direção ao catolicismo e dentro dele e, em boa lógica, parecem se interessar sobretudo pelo catolicismo mais tradicional, o dos grupos fiéis à liturgia tridentina; mas os meios "conciliares" não estão isentos dessa influência, e seria conveniente examinar sob essa luz os trabalhos dos partidários do "recentramento" que atuam há cerca de quinze anos e exercem hoje, em 1984, um papel determinante nos mais altos círculos vaticanos.
"Mas muitos desses se encontraram em uma cruel perplexidade diante do problema da Iniciação. Não pretendemos resolver esse problema, pois é o Caminho que escolhe o homem, e não o contrário, mas nos parece oportuno precisar como ele se coloca, se é verdade que um problema bem colocado está meio resolvido."
Evidentemente, ser ao mesmo tempo cristão e esoterista coloca muitos problemas, e compreende-se que o autor fale de cruel perplexidade! Mas Guénon, e ainda mais seus discípulos, que zelam por tudo, analisaram a situação e não faltam soluções. — Em resumo, vamos encontrar agora as diversas vias, os itinerários estabelecidos para introduzir o esoterismo oriental no cristianismo ocidental.
"Guénon fixou os elementos de forma nítida, e não pensamos alterar seu pensamento ao resumi-los como segue:
1° A obra de Guénon tem por objetivo a restauração do espírito tradicional integral no Ocidente, de forma mais ou menos ampla, conforme a elite ocidental tenha ou não conseguido exercer uma influência apreciável sobre o meio.
2° Essa restauração supõe, pelo menos em alguns, um conhecimento e uma compreensão do Cristianismo em seus aspectos mais internos e mais profundos.
3° Um conhecimento verdadeiro não poderia ser unicamente teórico ou especulativo.
4° O acesso ao conhecimento efetivo, que se pode designar também como realização espiritual ou realização metafísica, supõe:
a) o recebimento da iniciação virtual por um rito sobreposto aos ritos exotéricos dos quais participam todos os fiéis;
b) a comunicação de um método próprio para atualizar a virtualidade conferida pela transmissão iniciática.
5° Um exoterismo é indispensável a todo homem, mesmo que iniciado.
6° A Igreja Católica é o suporte normal de uma restauração do espírito tradicional integral no Ocidente, portanto o suporte normal da vida exotérica de uma elite ocidental.
7° À parte a sobrevivência de iniciações cristãs no seio da Igreja Latina, conservadas em meios muito restritos e praticamente inacessíveis, só existe uma organização iniciática autêntica difundida no mundo ocidental e acessível a todo homem de boa vontade: a Maçonaria (a iniciação corporativa estando ligada ao exercício de certos ofícios). Esta, tornada especulativa desde 1717, não possui mais que os ritos de iniciação aos diferentes graus e os ritos de abertura e fechamento dos trabalhos, com exclusão de toda técnica de realização.
8° Finalmente, é preciso acrescentar o que todo mundo sabe: a Igreja católica condenou a Maçonaria e excomungou seus membros."
Não quisemos cortar este longo parágrafo para não lhe tirar a coesão, mas é preciso agora retomá-lo ponto por ponto:
a) A obra guenoniana tende à restauração do espírito tradicional integral no Ocidente: não se trata, evidentemente, da tradição católica ordinária tal como a conhecemos, mas daquela tradição universal, comum a todas as religiões, da qual Guénon fala constantemente ao longo de todo o seu ensinamento.
Aliás, essa restauração dependerá da ação da elite guenoniana e só poderá ocorrer se os guenonianos tiverem exercido influência suficiente: por exemplo, se os meios católicos tradicionais se deixarem penetrar, como vem acontecendo atualmente há alguns anos.
b) É perfeitamente possível que pessoas e grupos dedicados a essa "obra de restauração" não compreendam verdadeiramente em que empreendimento estão engajados, bastando que uma minoria tenha "uma compreensão do cristianismo em seus aspectos mais internos e mais profundos", ou seja, seja adepta de um cristianismo esotérico, em suma, de um orientalismo esotérico com cobertura e vocabulário cristãos.
c) Para se tornar um esoterista cristão, não basta ler livros, por mais inteligente e apaixonado pelo estudo que se seja, pois não se trata de adquirir ideias, mas de transformar o próprio ser; outros métodos são, portanto, necessários, os quais delineiam três níveis:
- os sacramentos da religião exotérica. (1)
- os ritos iniciáticos de um grupo esotérico que conferem a possibilidade, a virtualidade da iniciação, como um direito de entrada.
- por fim, um método, técnicas próprias para realizar a iniciação e, portanto, a transformação do adepto.
Encontramos aqui, ainda que de forma implícita, uma crítica à Maçonaria, que conferiria apenas um direito de entrada, mas nenhum verdadeiro método iniciático desde que se deixou invadir pelo racionalismo.
d) Diante dessas três necessidades, o candidato ocidental se depara com três realidades bastante problemáticas:
- A Igreja Católica como via exotérica, mas sem possibilidade iniciática real devido à rigidez do Magistério e do Dogma.
- A Maçonaria como via esotérica, mas sem método místico eficaz por culpa do racionalismo moderno.
- E, acima de tudo, um estado de guerra entre essas duas vias, a Igreja Católica e a Maçonaria.
Percebe-se a dificuldade, e mesmo as inúmeras dificuldades, e compreende-se que alívio a recente adequação do direito canônico realizada pelos "irmãos" romanos pôde trazer a esses "cristãos em busca". (2)
"Diante desse quadro, parece-nos que as soluções teoricamente possíveis são em número limitado, se reconhecermos a autoridade de Guénon em todos os pontos.
1° Remanifestação das iniciações cristãs conservadas no seio da Igreja Latina que, segundo modalidades que nos escapam, considerasse oportuno tornar-se menos inacessíveis.
2° Modificação das relações entre a Igreja e a Maçonaria, ou bem entre a Igreja e os Maçons que não professam nenhuma das ideologias legitimamente condenadas pela Sé Romana e desejosos de seguir integralmente o exoterismo católico. Uma segunda etapa comportaria então a busca dos meios de restituir as técnicas próprias à atualização da iniciação maçônica. Vislumbram-se aqui duas possibilidades:
a) ou bem restituição de métodos por alguma das iniciações cristãs supracitadas que teriam recolhido ao longo dos tempos o depósito técnico perdido pela Maçonaria, ou ainda que possuiria a ciência suficiente para proceder à adaptação.
b) ou bem restituição de métodos por uma ajuda oriental que não seria mais, desta vez, de ordem teórica, o que suporia que a organização oriental pertencesse a uma forma muito próxima daquela à qual pertence a iniciação maçônica e possuísse dados das ciências tradicionais muito extensos."
Com base na abertura jurídica do novo Código Canônico, "as soluções teoricamente possíveis" poderão se desenvolver, tanto mais facilmente quanto já estão sendo implementadas há muitos anos (contra a autoridade do antigo Código Canônico de 1917, é claro... mas o jurídico só tem valor exotérico, não é verdade!).
Uma primeira eventualidade, puramente teórica e fictícia, está ali apenas por simetria e também para preparar o futuro: um ramo esotérico cristão, que decidisse se manifestar, não existe e nunca existiu, mas sua afirmação atual proporcionará muitas facilidades no dia em que os guenonianos conseguirem criar um do zero, como já tentaram fazer antes de 1940 (3).
Quanto às modificações nas relações entre a Igreja e a Maçonaria, chegamos a elas, após os primeiros passos nessa direção terem sido dados há 50 anos. Naturalmente, como sugere o texto citado, a abertura realizada pelo novo Código Canônico se dirige aos maçons que não são racionalistas nem marxistas, e que pretendem seguir o exoterismo cristão... o que é exatamente o caso dos neognósticos guenonianos, como se este novo código tivesse sido feito para eles e por eles!
Uma vez que essa abertura se torne realidade, "uma segunda etapa" consistiria em devolver à Maçonaria as técnicas próprias para desenvolver o germe da iniciação, realizando assim o sonho neognóstico, com um século de idade, de retransformar a Maçonaria racionalista em Maçonaria mística (4).
Novamente, dois caminhos são propostos para este "milagre":
-
um caminho cristão, o ramo esoterista cristão remanifestado comunicando suas receitas à Maçonaria (o que é um belo exemplo de humor negro!)
-
um caminho oriental, muito mais realista e que é precisamente o que está em curso. Releia o parágrafo citado e pese cada palavra. A ajuda oriental não é mais teórica desta vez: começou com um ensino intelectual à la Guénon, continua no seio de grupos secretos, orientais e quase, senão totalmente, maçônicos, que mantiveram, eles, as técnicas místicas de realização espiritual pelas quais o homem acede à divindade, acredita tornar-se Deus novamente.
Concedemos que toda solução apresenta um número respeitável de dificuldades, algumas das quais não podem ser superadas apenas pela iniciativa individual.
Para começar, no entanto, é preciso que alguns tenham a clara consciência do que deve ser feito e a firme vontade de realizá-lo. E, sem dúvida, alguns estariam em condições de poder, desde já, dar um primeiro passo.
Há, em todo caso, uma preparação que está ao alcance de todos: é a aquisição desse conhecimento teórico amplo e inabalável que Guénon fazia ser a condição prévia de toda tentativa de realização.
Especificamos: conhecimento da obra de Guénon em sua totalidade e conhecimento, na medida compatível com a disciplina do segredo, do que nos chegou do esoterismo ocidental.
É para facilitar essa preparação indispensável que, sem deixar de dar sua parte às doutrinas orientais, nos dedicamos, desde a morte de Guénon, em nossa revista "Etudes Traditionnelles", publicando traduções e reimpressões de textos essenciais do esoterismo cristão e da Cabala, na esperança de que, como escrevia Jean Reyor:
"A colheita poderá brotar após a morte do semeador".
O autor sublinha "conhecimento da obra de Guénon em sua totalidade", ou seja, não apenas de sua faceta hindu, mas também das outras, a chinesa e a islâmica, e conhecimento do esoterismo ocidental. Encontramos, através dessas fórmulas, uma alusão às diversas variantes de discípulos guenonianos de que falamos no artigo do Boletim nº 10, e cuja evolução da Revista "Etudes Traditionnelles" ao longo dos anos do pós-guerra testemunha as inúmeras "nuances".
Observemos, de passagem, como esse conhecimento, necessário aos discípulos, é igualmente necessário aos adversários do neognosticismo contemporâneo: é por essa razão que nosso Colóquio de agosto de 1982 dedicou o segundo de seus três dias ao estudo dos Teosofistas ocidentais dos séculos passados (nota 5).
Acreditar que se pode evitar este tipo de estudo no momento em que a epidemia gnóstica se alastra entre clérigos e leigos ignorantes não é uma doce ilusão, é um crime contra a fé católica, pelo qual se prestará contas no limiar da eternidade.
Pois agora estamos nela!
"A colheita poderá brotar após a morte do semeador", escrevia há alguns anos Jean Reyor, fiel discípulo de René Guénon. A colheita brotou, colheita do joio entre o trigo: o joio do falso tradicionalismo guenoniano agora infesta o verdadeiro e bom trigo tradicional católico.
Quem, então, se recusará a vê-lo, senão os cúmplices daquele que semeou o joio? Quem, sobretudo, se recusará a fazer o esforço necessário para discernir os fundamentos e desdobramentos dessa vasta manobra que se desenrola há mais de cinquenta anos? Quem, por fim, pretenderá não poder fazer tal esforço no momento em que os documentos e as confissões abundam de tal modo que somos quase submersos por sua profusão?
O estudo do pessoal guenoniano é certamente um pouco complicado pelo fato de seus membros nem sempre declararem explicitamente tal rótulo; na realidade, a vinculação a essa categoria de pensamento se dá por sinais externos mais ou menos marcados conforme cada um, mas que desenham, no entanto, uma fisionomia moral, um tipo de mentalidade que se reconhece sem muita dificuldade quando se está familiarizado com os princípios do guenonismo.
É preciso também levar em conta a evolução histórica, já que Guénon recrutou seus discípulos por quarenta anos, através de épocas diversas e meios variados, de 1910 a 1950; e é, ainda mais, após sua morte que surgiram aqueles de seus discípulos que nos interessam hoje, especialmente depois de 1960, quando o Concílio Vaticano II deu à Tradição Católica o abalo final que conhecemos.
A partir desse momento, cruzaram-se e encontraram-se dois movimentos totalmente estranhos um ao outro: de um lado, o projeto guenoniano de subversão "tradicionalista"; de outro, a inquietude e o desespero de certos católicos.
Apesar de sua diversidade, os "guenonianos" podem, portanto, ser divididos, ao menos de um ponto de vista pragmático, em duas grandes categorias:
- de um lado, aqueles que ostentam doutrinas mais ou menos orientalistas – hinduístas, taoístas, cabalistas, islâmicas – e que puxam os fios da manobra.
- de outro lado, aqueles que, embora professando as mesmas doutrinas "in pectore", fazem profissão externa de catolicismo integral e buscam ostensivamente a missa de São Pio V – por suas aptidões intelectuais e sua duplicidade, também integral, estes são capazes de enganar os verdadeiros católicos, muitas vezes ignorantes dessas questões, e de arrastá-los pelos caminhos demoníacos de um pseudo-tradicionalismo tão antigo quanto o mundo.
Essa união antinatural, que tende a arruinar por dentro o verdadeiro catolicismo, só pôde ser realizada graças a inúmeras cumplicidades, especialmente eclesiásticas, e sobretudo devido à ignorância da maioria dos católicos.
A única verdadeira reação consiste, portanto, em trazer luz onde a sombra reinou até agora, para desacelerar e precisar a penetração e o desenvolvimento da Revolução na Igreja. Nossa Sociedade encontra-se assim no centro da tarefa que se propôs desde sua criação e que desde então sempre se esforçou por realizar, apesar de meios bastante fracos.
Ao contrário do que alguns podem crer ou imaginar, não se trata de uma empresa extraordinária, mas de um trabalho comum de síntese que exige, no final das contas, muita aplicação para não reduzir o campo de estudos e, ao contrário, mantê-lo o mais amplamente aberto.
Se tantos de nossos contemporâneos são surpreendidos pelas manobras gnósticas – as de ontem e de hoje, assim como as que o amanhã nos reserva – é porque reduziram imprudentemente seu campo de interesse: um só se interessa pela política, outro pela economia, um terceiro pela teologia católica, e quase todos se gloriam de ignorar as teorias e os movimentos não católicos.
Estamos pagando caro por essa atitude insana que já levou mais de um católico tradicional a se deixar seduzir pelo inimigo gnóstico: que todos os que puderem, especialmente os padres, se recomponham antes que o mal se alastre, é mais que tempo...
P. R.
Nota 1 - O próprio Guénon não parecia atribuir grande importância aos sacramentos católicos. Ocorreu exatamente o oposto com alguns de seus discípulos, como F. Schuon, que, aliás, lhe fazia severas críticas por isso, e que queria transformá-los em vias iniciáticas, secularizadas, certamente, mas reais. Essa posição é obviamente lógica para quem empreende desenvolver um esoterismo no interior do cristianismo.
Nota 2 - O novo Código de Direito Canônico, iniciado por João XXIII em 1963 e efetivamente aplicado desde 25 de novembro de 1983, prevê no cânon 2335 que a excomunhão dos Maçons não é mais automática. A partir de agora, apenas são visados os Irmãos que atacam a Igreja e, portanto, não aqueles que se declaram "espiritualistas"; consequentemente, os católicos que frequentam tais Maçons, ou mesmo que aderem às suas lojas, não estão mais sujeitos à excomunhão.
Nota 3 - Após a partida de Guénon para o Egito, entre 1933 e 1940, alguns de seus discípulos, especialmente Jean Reyor, tentaram "ressuscitar" uma hipotética "Fraternidade do Paráclito", que teria sido uma antiga rede esotérica católica! Sem sucesso, aparentemente, e cedo demais, sem dúvida!
Nota 4 - Esta importante questão do renascimento místico da Maçonaria moderna, contemporânea, ao menos de alguns de seus ramos, não poderia ser tratada aqui, nem mesmo considerada - mas a ela chegaremos um dia próximo, é evidente.
Nota 5 - Se não houve esoterismo católico no passado, por outro lado, não faltaram, ao longo dos séculos de cristandade, homens e mulheres, cristãos de origem em sua maioria, seja externamente, seja até mesmo no interior da Igreja, que professassem uma variante do velho gnosticismo milenar e praticassem seus métodos místicos, tudo sob um véu cristão mais ou menos frouxo.
Todo mundo conhece o famoso caso de "Mestre Eckhart", esse provincial da ordem de São Domingos que foi finalmente condenado após semear muitos miasmas heterodoxos na igreja renana, mas este exemplo é apenas um entre tantos.
É perfeitamente compreensível, e muito hábil, que os guenonianos "catolicizantes" queiram investigar nessa direção com a secreta esperança de nos fazer "tomar gatos por lebres". Cabe aos católicos não ter a tolice de cair nessa armadilha.