UMA ARMADILHA ECUMÊNICA: O PUSEÍSMO

O ecumenismo está na moda: é uma armadilha satânica. É o instrumento mais perfeito já inventado pelo demônio para desviar as almas da Única Verdade, ensinar-lhes o desprezo pelos caminhos ensinados por Jesus Cristo, a indiferença em relação ao Verdadeiro Culto devido a Deus, e satisfazer sua necessidade natural de Deus, ensinando-lhes a prescindir dos sacramentos, os verdadeiros meios da Graça divina, e a viver numa mediocridade honesta que só se poderia chamar de "religiosa" por antífrase, sendo antes uma "ausência de vida religiosa".

Neste estudo, apresentaremos uma primeira forma de ecumenismo, tal como surgiu na Inglaterra durante o século passado, no movimento de Oxford. Não se trata de um estudo histórico, que já é feito em páginas anteriores; mas de um estudo doutrinal empreendido a partir de textos conhecidos, mas insuficientemente compreendidos na época. Vamos analisá-los e redescobrir assim, a um século de distância, os principais sofismas que então desviaram as almas da verdadeira fé.

O movimento de Oxford foi uma reação religiosa viva e profunda diante da decomposição da Igreja Anglicana, dita "Igreja Estabelecida" ("Establishment"). Formou-se então nesta Igreja uma Alta Igreja ("High Church") composta por pastores e bispos atraídos pelo sopro vivificante da Igreja Romana, suas devoções, sua liturgia, sua espiritualidade, mas contidos pelas violentas condenações dirigidas contra Roma, essa "cidadela do Anticristo", essa "Babilônia moderna"... Este movimento, sabemos pela História, culminou na retumbante conversão de Newman e seus amigos, todos intelectuais eminentes, homens de alta cultura inglesa, e depois na conversão de Manning e de um grande número de estudantes, professores e pastores da Alta Igreja, principalmente, mas não exclusivamente, ex-alunos de Oxford.

A Igreja Estabelecida ficou atônita, catastrófica. Não podia reagir brutalmente diante de tal "hemorragia" de seus melhores fiéis. A essas conversões a Roma, chamou-as de "secessões", "descarrilamentos", "abandono de postos", "traições". Formou-se então, entre o clero da "High Church", um movimento de resistência liderado por um pastor, PUSEY, ex-aluno de Oxford, que permaneceu ligado por amizade a Newman. Chamou-se Puseísmo.

É no interior deste movimento que reencontraremos todas as fórmulas que hoje servem para promover o ecumenismo. Desenvolveremo-las a partir dos textos do próprio Pusey ou de seus amigos, mostraremos sua vaidade e colocaremos diante as respostas que a ortodoxia católica lhes deu no momento e que permanecem sempre verdadeiras.


1ª fórmula: A Igreja Estabelecida é uma vinha do Senhor entre outras (a vinha romana, a vinha grega, a vinha russa, etc.). Ela é uma verdadeira Igreja, recebendo as graças sobrenaturais de Jesus Cristo. Ora, ela está em plena decomposição, esvaziada de todo atrativo sensível para os fiéis. É preciso reavivá-la.

Em 1º de setembro de 1839, Newman, antes de sua conversão, constata essa decadência da Igreja da Inglaterra e escreve a Manning, seu amigo:

"Penso que, quando chegar o tempo da secessão para Roma... devemos dizer corajosamente à seção protestante de nossa Igreja: Vocês são a causa de tudo isso; vocês devem fazer concessões, ser conciliadores, devem tornar a Igreja mais eficaz, mais conforme às necessidades do coração, mais apropriada às necessidades exteriores. Deem-nos mais serviços divinos, mais vestimentas e ornamentos religiosos; deem-nos mosteiros, deem-nos os sinais de um caráter apostólico, as garantias de que a Esposa de Cristo está entre nós. Até lá, vocês terão contínuas secessões para Roma".

Trata-se então, em Newman, de um movimento de atração sensível, "uma necessidade do coração", como ele mesmo diz, mas também da inteligência, pois ele quer sinais, garantias. Ele já aparece como atingido por uma inquietação.

Em 1845, após a conversão de Newman, Pusey publica em "English Church" estas reflexões sobre seu amigo:

"Ele partiu simplesmente para cumprir um dever, sem nenhuma visão pessoal, entregando-se inteiramente às mãos do Senhor. Ora, é assim que são os homens que Deus emprega. Assim, não me parece tanto que ele nos tenha deixado, mas que tenha sido transplantado para uma porção da vinha onde toda a energia de sua poderosa inteligência poderá ser utilizada, o que não teria sido possível aqui. E quem sabe as consequências que deve ter, nos desígnios da boa Providência, a presença de tal homem entre eles? Vocês também compreenderam que é o que há de imperfeito de ambos os lados que causa nossa separação. Não é contra o que há de verdadeiro no sistema de Roma que o sentimento das almas religiosas entre nós protesta fortemente, mas contra o que há de imperfeito em suas práticas. Por outro lado, o que em nossa Igreja impede que eles nos admitam, senão a heresia que existe mais ou menos entre nós? À medida que, pela graça divina, cada Igreja crescer em Santidade, ela reconhecerá cada vez mais a presença do Espírito Santo na Outra Igreja, e o que atualmente impede a união da Igreja Ocidental desaparecerá..."

De tal modo que, finalmente, pergunta-se qual Igreja, no pensamento de Pusey, Newman traiu ao se converter. Talvez ele seja apenas um falso irmão aparente, encarregado de trazer suficiente perfeição anglicana à igreja romana para permitir-lhe preparar-se melhor para a União futura...?

Em todo caso, a conclusão é totalmente ecumênica: Que cada Igreja progrida em direção à Santidade na linha de sua mais bela tradição e chegaremos à Unidade... (?)

É preciso ver com que raiva Pusey se volta contra os bispos anglicanos. Ele atribui a eles a responsabilidade pelos "desvios". Em janeiro de 1851, escreve:

"As árvores doentes perdem suas folhas e não podem amadurecer os frutos que produziram. Tudo o que fortalece e aprofunda a vida da Igreja, une mais estreitamente seus filhos a ela."

Na medida em que a Igreja Anglicana cresce em Santidade, ela vê em si mesma a Graça do Espírito Santo em ação, nos diz Pusey.

Newman, convertido, não tem dificuldade em refutar tal sofisma. A Graça de Deus pode agir nas almas de boa vontade, mesmo que não pertençam visivelmente à Verdadeira Igreja, mas com a condição de que busquem sinceramente fazer a vontade de Deus, ainda não a conhecendo explicitamente. Ele retoma a distinção escolástica entre a graça ex opere operato, dada por um sacramento válido, e a graça ex opere operantis, quando age por uma ação interior sobre quem a recebe: é esta que recebe toda alma que se prepara para a conversão, mas não se pode tirar daí a conclusão de que a Igreja estabelecida seria assim legítima, por receber graças divinas: "Aprendam, meus Irmãos, dizia ele, a tremer por suas almas. Ter paz interior é algo, mas não é tudo: pode ser a calma da morte."

E o Cardeal Vaughan, sucessor de Manning na sé de Westminster, escrevia:

"Não temos a menor dificuldade em acreditar que os anglicanos receberam a visita da graça e que a receberam precisamente enquanto frequentavam sacramentos absolutamente inválidos e nulos... Eles se encontram fora da Igreja sem que haja culpa alguma de sua parte. Eles estão onde estão porque foram deserdados. Foram criados em uma atmosfera de preconceitos tradicionais contra a Igreja de Roma..."

De fato, Deus pode transmitir sua graça apesar da tela de uma Igreja herege e malévola, que semeia obstáculos a prazer para toda conversão a Roma. Não se vê como tal atitude poderia preparar uma reunião em corpo, uma "reunião corporativa" (C. U.)

2ª fórmula: É preciso encontrar uma "via média" a igual distância da Igreja estabelecida e da Igreja Romana, permitindo que os fiéis das duas Igrejas encontrem de cada lado as mesmas formas de vida religiosa, podendo, portanto, passar facilmente de uma para a outra.

Esta é a ideia central de Newman antes de sua conversão: Ele não compreendeu de imediato que, ao uniformizar assim as duas Igrejas, longe de fortalecer essa Igreja estabelecida que ele queria erguer de seu rebaixamento, provocava infalivelmente um duplo movimento nas almas:

Ele escreve em 1837:

"A via média nunca existiu, exceto no papel: nunca foi posta em prática, é conhecida não positivamente, mas negativamente em suas diferenças com os símbolos rivais, não em suas propriedades próprias; e só pode ser descrita como um terceiro sistema, que não é nem um nem outro, que é parcialmente ambos... O que é isso, senão imaginar, através de montes e rios, uma estrada que nunca foi aberta?... Tudo o que acabamos de dizer não passa de um sonho, exercício caprichoso, mais do que conclusão prática de nossa inteligência."

Vê-se; Newman permanecia ansioso, dolorosamente à procura de um fundamento sólido para sua crença numa "via média".

Em 1833, Arnold já lhe havia escrito sobre suas "extravagâncias de Oxford":

"...o que seria da Igreja Anglicana se o clero começasse a exibir as piores superstições dos católicos romanos, agravando-as e despojando-as apenas daquela consistência que marca com um certo caráter de grandeza até os erros do sistema romano... É a superstição do sacerdócio sem seu poder, a forma de um governo episcopal sem sua substância... um papismo sem autoridade, um protestantismo sem liberdade, um catolicismo sem universalidade, um evangelicalismo sem espiritualidade..."

Com tal ausência de tudo o que pudesse fundamentar essa via média em que pensava, Newman só poderia buscar na Igreja Romana o verdadeiro fundamento de seu anglo-catolicismo; o que fez, aliás, por preocupação com a coesão interior e a verdade.

Aliás, o padre WISEMAN, o futuro cardeal, já lhe havia explicado isso na "Revista de Dublin" em 1836, sob a forma de uma carta dirigida aos ingleses. Ele mostra aos Tractarianos a inconsistência de sua situação, a vaidade de seu esforço e como eles reivindicam para sua Igreja uma autoridade, uma unidade doutrinal e disciplinar que ela não pode ter devido à sua origem, constituição e princípio. Um dia virá, diz ele, em que passarão dos sonhos da teoria a uma realidade que responderá às suas mais ardentes expectativas e preencherá plenamente seus justos desejos.


3ª fórmula: É preciso promover uma liturgia capaz de responder às necessidades espirituais das almas, dando-lhes, se possível, o sentimento da presença real de Deus. E como não reencontrar na liturgia romana a majestade, a beleza do culto sagrado? É preciso, portanto, tomar emprestado de Roma tudo o que possa exaltar nas almas o sentido do sagrado. Assim, os fiéis, encontrando na Igreja estabelecida a resposta ao seu apetite sobrenatural, não sentirão mais a tentação de se juntar a Roma.

a) O "vazio glacial" da liturgia protestante. A expressão é de Manning, antes de sua conversão. No templo anglicano, já não existia nada do esplendor dos ofícios católicos. Uma igreja nua, sem beleza. No meio do coro, uma mesa nua. O oficiante fica de pé, com uma túnica preta, ao lado desta mesa. Os fiéis estão sentados ou de pé, nunca ajoelhados. Esta cerimônia não era uma missa, mas uma recitação de salmos, lições e sermões de uma frieza toda calvinista. Só ocorria de vez em quando, às vezes até um único dia do mês. No resto do tempo, o templo estava fechado. As paredes do edifício eram nuas, a estante de leitura colocada diante da mesa, os pastores ou "clérigos" eram casados, ocupados com suas famílias e com as mundanidades.

b) A liturgia anglo-romana da Alta Igreja:

Através dos esforços dos amigos de Pusey, o templo anglicano retoma a aparência de uma verdadeira Igreja Católica. O altar de mármore substituiu a mesa de madeira ricamente ornamentada, encimada por uma cruz, velas, castiçais. Outros altares são consagrados à Virgem, a São José, ao Sagrado Coração. Encontram-se estátuas piedosas, a via-sacra, bandeiras, uma pia de água benta. A "missa" é restaurada com o nome e todo o aparato da grande liturgia católica. Ela é cantada todos os dias. Se a língua não fosse ainda o inglês, pensaríamos estar numa igreja católica. Redescobrem-se as grandes festas: Corpus Christi, Ascensão, Dia de Finados, restabelece-se o uso do rosário. Alguns clérigos vão a Solesmes reaprender o canto gregoriano. Retorna-se à confissão auricular, à adoração do Santíssimo Sacramento, às procissões. O próprio Pusey traduz para o inglês livros de espiritualidade e mística, os "Exercícios de Santo Inácio" em particular, que encontrou na França. O pastor torna-se novamente "sacerdote", recomenda o celibato. Esforça-se por reconstituir mosteiros cujas regras são copiadas dos conventos romanos. Lá, até se pronunciam votos, embora sem validade.

Tudo isso não se faz da noite para o dia, nem sem resistências, mas o movimento está lançado. No entanto, ele fracassa. A imitação do catolicismo para por aí. Quando seus fiéis lhe perguntam aonde quer chegar, de repente Pusey gagueja, fica mudo. Word escreve a Pusey, que lhe pede "uma garantia formal de que não se unirá à Igreja Romana", e se recusa. Faber, outro amigo de Pusey, tenta enganar sua sede de catolicismo, "fazendo todas as coisas em sua paróquia como se fosse um romano".

Dodsworth escreve a Pusey em 7 de maio de 1850, esta solene intimação:

"O senhor foi um dos primeiros a nos conduzir a uma apreciação mais elevada deste sistema eclesial cuja graça sacramental é, na verdade, a vida e a alma. Tanto pelo preceito quanto pelo exemplo, foi entre nós um dos mais zelosos em manter os princípios católicos. Ao praticar constante e comumente a administração do sacramento da penitência, ao encorajar por toda parte, senão impor, a confissão auricular, ao dar a absolvição sacerdotal, ao pregar o sacrifício propiciatório da Santa Eucaristia como aplicação do Sacrifício da Cruz e a adoração de Cristo realmente presente no altar sob a forma de pão e vinho, ao introduzir livros católicos romanos que adaptou ao uso de nossa Igreja, ao difundir o uso de rosários e crucifixos, ao encorajar devoções especiais a Nosso Senhor, como a das cinco chagas, ao adotar uma linguagem poderosamente expressiva de nossa incorporação a Cristo, por exemplo, sobre como somos embriagados pelo sangue de Nosso Senhor, ao se fazer advogado dos conselhos de perfeição e ao buscar restaurar mais ou menos completamente a vida conventual ou monástica, digo que, pelo ensino e pela prática dos quais esta enumeração é uma indicação suficientemente típica, o senhor contribuiu muito para fazer reviver entre nós o sistema que pode ser eminentemente chamado de sacramental. E, no entanto, agora, quando, pela misericórdia de Deus sobre nós, surge uma ocasião solene de afirmar e fortalecer a verdadeira chave de abóbada desse sistema, sem a qual tudo deve ruir (perdoe-me por falar tão francamente), o senhor parece desertar da vanguarda. Parece disposto a se entrincheirar atrás de afirmações frouxas... e de definições ambíguas que podem ser subscritas em sentidos diferentes."

Eis a grande dificuldade daquele que assumiu uma atitude intermediária e não pode confessar seu grande desígnio sem afugentar todos os discípulos que depositaram nele sua confiança. Dar a seus fiéis todas as aparências da presença real de Deus, sem essa presença em si! Agir assim apenas para reter em sua igreja aqueles que são atraídos por Roma! Isso dificilmente era confessável publicamente.

Assim, Newman, seu antigo amigo convertido, pôde escrever-lhe:

"É muito bom decorar suas capelas, vestir vestimentas esplêndidas, usar seus livros de ofício e seus terços, se você tem Deus presente entre vocês. Mas que zombaria, se não o tem! Então sua igreja se torna não uma habitação, mas um sepulcro, como aquelas altas catedrais outrora católicas com as quais você não sabe mais o que fazer, que fecha e transforma em monumentos consagrados à memória do que já não existe."

E quando Roma declarou nulas as ordenações anglicanas, em 13 de setembro de 1896, Dom Vaughan exclamou:

"Como podem eles ter ainda confiança num sistema sacramental que é condenado como nulo e ineficaz pela Igreja Católica? Quão chocante não é adorar como verdadeiro Deus elementos que são apenas pão e vinho e se submeter a uma confissão auricular para receber uma absolvição puramente humana e sem efeito?"

Mas essa não era a preocupação maior de Pusey, pois se tratava precisamente de reter na Igreja estabelecida as almas atraídas por Roma. Em 1850, Keble, amigo de Pusey, escreve a seu bispo:

"Do que estou certo é que, se o ensino de Pusey forneceu mais recrutas a Roma do que o de qualquer outro, também foi mais eficaz do que qualquer outro para reter aqueles que eram tentados a ir para lá."

Em 1859, o presidente da "English Church Union", Lord Halifax, retoma e apoia as teses de Pusey. Ele conhece um lazarista francês, o padre Portal, que defende sob um pseudônimo (Dalbus) a validade das ordens anglicanas. O padre Duchesne e Dom Gasparri apoiam a mesma tese. O padre Portal funda uma "revista anglo-romana" com o apoio do Cardeal Rampolla. Em 1895, Leão XIII lança um apelo "Ad Anglos", Lord Halifax escreve:

"Acreditamos que algumas das diferenças doutrinárias que nos separam são mais aparentes do que reais e que as outras resultam de mal-entendidos que explicações mais aprofundadas poderiam dissipar."

Ele clama pela "corporate reunion":

"A reunião geral, dizia ele, eis nosso desejo; quanto a nos separar individualmente de nossa Igreja, é uma ideia que nem nos ocorre."

 Ele acrescenta, em 14 de fevereiro de 1895:

"Se nos pedem para renunciar à comunhão com a Igreja da Inglaterra, dando como razão que ela é herética, responderemos: Não é com pretensões como essa, incompatíveis com a fidelidade para com nossa comunhão e nosso episcopado, que se fará chegar o dia em que as duas comunhões se tornarão uma só."

Este mesmo Lord Halifax empreendeu mais tarde conversas oficiosas com o Cardeal Mercier em Malinas, na Bélgica. Muitos então depositaram esperanças quiméricas nesses encontros. Conhecemos bem hoje as intenções verdadeiras de Lord Halifax para saber que essas esperanças eram infundadas e que as conversas de Malinas só poderiam terminar em fracasso. O que de fato aconteceu.


4ª fórmula: É preciso opor com a maior energia a toda "secessão para Roma", a todo "desvio" dos fiéis da Igreja estabelecida, ou seja, a toda conversão. Para isso, existem três argumentos decisivos.

Cada cristão fiel da Igreja estabelecida foi colocado ali pela Providência divina para fazer frutificar os dons de Deus, para trabalhar na perfeição de sua igreja, "fazer secessão" seria uma traição à vontade divina.

Pusey volta frequentemente a essa ideia central:

Por ocasião da conversão de seu amigo Newman, ele se esforça para fazer seus fiéis entenderem que Newman não deixou a Igreja, mas mudou de vinha:

"Ele partiu simplesmente para cumprir um dever,... assim, não me parece tanto que nos tenha deixado, mas sim que foi transplantado para outra porção da vinha onde toda a energia de sua poderosa inteligência poderá ser utilizada..." (16 de outubro de 1845)

Keble, amigo e confidente de Pusey, escreve com emoção dirigindo-se àqueles que são atraídos por Roma:

"Todo o ar da Inglaterra me parece ressoar com as vozes dos mortos e dos vivos, especialmente dos santos mortos que concordam em nos dizer: Fiquem aqui, não pensem em partir: Façam aqui o vosso trabalho!"

Pusey escreve a Dom Darboy em 25 de janeiro de 1870:

"Não pretendemos deixar a Igreja Anglicana. Nossa intenção seria fazer a Igreja Anglicana avançar, mas seria necessário tempo..."

Ele escreve ainda:

"Espero que se possa levar as pessoas a acreditar que Newman tem uma vocação, uma missão especial e que seus discípulos não têm o direito de segui-lo..."

O fiel anglicano deve, portanto, permanecer em sua Igreja para nela fazer seu trabalho, utilizar-se, cumprir seu dever. Ele recebeu uma missão própria de Deus. Partir é desertar; uma verdadeira traição. Mas Newman, convertido, não se engana e escreve em 26 de fevereiro de 1846 ao seu antigo amigo:

"O que me deixa ansioso é saber que, apesar de sua evidente aproximação do sistema romano, você age contra ele de forma hostil e retém as almas num sistema que você não consegue formular, ao que me parece, nem fundamentar em nenhuma outra autoridade além da sua."

Não é apesar de sua aproximação com Roma que Pusey retém as almas, já que seu movimento tem por objetivo parar as "recessões" e, além disso, Pusey não pode "formular seu sistema", pois ao revelar sua intenção profunda, afugentaria seus próprios discípulos. "Levar as pessoas a acreditar que" não seria uma maneira de enganar? E toda confiança lhe seria retirada no dia em que seus próprios amigos fossem convencidos de uma certa má-fé ou duplicidade na alma de seu mestre.

O fiel da Igreja estabelecida não deve abandonar a comunhão anglicana, mas esperar a reunião em corpo de toda a Igreja, a "corporate union" (C.U.). Este será o tema de todas as exortações de Pusey e seus amigos.

Em julho de 1857, Philippe de Lisle, convertido aos 15 anos, cria a "Association for the Promotion of the Union of Christendom" (APUC). Os anglicanos unionistas escrevem em 1867:

"É melhor para nós permanecermos trabalhando onde estamos. Pois o que aconteceria à Inglaterra, se abandonássemos sua Igreja? Ela seria simplesmente perdida para o Catolicismo e ganha para o racionalismo... É somente por intermédio da própria Igreja Inglesa que a Inglaterra pode ser catolicizada e, enquanto a Igreja da Inglaterra permanecer o que é, unir-nos a vós de outra forma que não em corpo seria, do nosso ponto de vista, pecar contra a verdade."

Diante de tal pretensão, de recusar a graça da verdadeira fé para esperar a reunião de toda a Igreja Inglesa, os papas sempre reagiram com vigor, considerando-a uma recusa da graça e um exemplo de duplicidade. Quando Faber, tractariano de primeira hora e amigo de Newman, é recebido pelo papa Gregório XVI em junho de 1843, este lhe diz:

"Não deves iludir-te a ti mesmo, aspirando à unidade e, no entanto, esperando pela tua Igreja para te pores em movimento. Pensa na salvação da tua própria alma... Sabes que entre vós todas as doutrinas são ensinadas de qualquer maneira. Deves, portanto, pensar em ti mesmo e na tua alma."

Faber só permanecia ligado à Igreja estabelecida pelo único vínculo de sua amizade com Newman. Mas compreendeu a lição do papa: não se pode, ao mesmo tempo, ter reencontrado a Verdade e recusar aderir plenamente a ela por mera oportunidade; é zombar de Deus, desprezar a graça que te tocou. Assim, antecipando Newman em sua conversão, entrou para os Jesuítas.

Pusey escreve pensando que Newman também poderia se converter:

"Será uma ruptura como a pobre Igreja nunca conheceu. Tantas almas já estão em suspenso! Além dessas, centenas desejarão segui-lo..."

Após sua conversão, Newman tinha dificuldade em compreender que pessoas pressionadas pela consciência a se tornar católicas se julgavam autorizadas a "negociar sua submissão" e a "impor condições" ao Papa...

"Pois então! Imaginar que essas tão queridas e preciosas almas, digamos por exemplo o doutor Pusey, sejam retidas nesse estado, quando a graça lhes foi oferecida e eles não a seguiram!..."

O Cardeal Vaughan, sucessor de Manning na sé de Westminster, estava convencido de que a campanha da "English Church Union" de Lord Halifax tinha sido empreendida, não com a vontade sincera de alcançar essa união, mas unicamente para prevenir, pela perspectiva necessariamente enganosa de um retorno em corpo, a tentação das conversões individuais. Os partidários da E.C.U. estavam sobretudo preocupados em fortalecer uma Igreja Anglicana em plena debandada.

O Cardeal Vaughan estava muito descontente ao ver padres franceses se intrometerem num assunto que não lhes dizia respeito. Ele os qualificava de "escritores totalmente desconhecidos, de ciência no mínimo limitada, cujas opiniões não poderiam trazer nenhuma luz". O padre PORTAL era, para ele, o cúmplice de um complô pérfido para impedir as conversões. Explicou a Leão XIII que estes tinham a ideia "de buscar apenas fortalecer sua própria posição e reter os hesitantes tentados a ir a Roma". Queixou-se ao papa "desses franceses que vinham se intrometer em assuntos dos quais não entendiam absolutamente nada".

É preciso que os fiéis da Igreja estabelecida permaneçam em seus lugares para lutar com energia, em colaboração com a Igreja Romana, contra o ateísmo e o racionalismo ambiente.

Em setembro de 1864, a A.P.U.C., fundada por Philippe de Lisle, foi condenada por Roma. Pusey, embora não fizesse parte dela, acompanhara com simpatia um movimento semelhante no seio da Igreja Romana. Queixou-se amargamente da atitude dos católicos e a contrapunha à daqueles que "se alegravam com todas as obras do Espírito Santo na Igreja da Inglaterra e se entristeciam com o que enfraquecia essa Igreja que era, nas mãos de Deus, o grande baluarte contra a incredulidade neste país."

Manning respondeu-lhe imediatamente que a Igreja da Inglaterra não era "um baluarte contra a incredulidade", que ele lhe reprovava, ao contrário, ter muitas vezes espalhado e secundado essa incredulidade, que os anglo-católicos eram hereges como todos os outros e que o Espírito Santo não agia por meio da Igreja da Inglaterra, mas nessa Igreja, da mesma forma que em todos os que vivem separados de Roma. Seria necessário acrescentar ainda que é na medida em que o protestantismo se infiltrou na Igreja estabelecida que o racionalismo e a incredulidade se fortaleceram: exemplo dos filósofos do século XVIII, discípulos à moda de Locke...

Assistimos aqui à tentação sob a aparência do bem. Há nessa atitude uma incoerência notável que poderia se concretizar num diálogo deste estilo:

"Como assim", diria o convertido a Roma, "vocês tomam emprestado à Igreja Romana sua liturgia, sua espiritualidade, seus sacramentos; é, portanto, que vão buscar na fonte o meio de vivificar uma igreja em decomposição. Reconhecem, pois, Roma como a verdadeira fonte da graça divina e recusam aderir a ela! Não compreendo mais..."

— Compreenda-nos — responderia o puseyista —, a Igreja Estabelecida é uma vinha do Senhor na qual trabalha a Graça do Espírito Santo. Não podemos abandonar nossos irmãos em dificuldade; mas pensávamos que, permanecendo entre eles, poderíamos gradualmente levá-los a beber da fonte de toda graça...

— Muito bem — responderia o convertido —; se vocês julgam que a graça do Espírito Santo atua em sua Igreja sem a necessária passagem pelos sacramentos da Única Igreja, que detém sua validade, por que buscam a união com Roma, da qual podem muito bem prescindir?

Além disso, como podem levar gradualmente seus fiéis a beber da fonte, se vocês mesmos se recusam a aproximar-se dela?


5ª fórmula: A união com Roma só pode realizar-se pela conciliação das doutrinas, por concessões mútuas, por condições negociadas de ambas as partes, e não por um puro retorno à Única Verdade.

Em dezembro de 1865, Pusey publica uma obra destinada a grande celebridade, intitulada A Igreja da Inglaterra, parte da Igreja UMA, SANTA, CATÓLICA DE CRISTO e um meio de restabelecer a unidade visível, com o subtítulo de EIRENICON, isto é, um apelo à paz.

Mas esse apelo à paz vem acompanhado de considerações maliciosas sobre o culto à Virgem, que ele chama de "Mariolatria", e de práticas religiosas ditas "supersticiosas" dos romanos, justamente quando o papa se prepara para proclamar o dogma da Imaculada Conceição.

Em 25 de janeiro de 1870, Pusey escreve a Lord Acton uma carta destinada a Monsenhor Darboy, que se interessava pela "união corporativa".

"Eis a grande dificuldade: ainda que se aceitassem nossas propostas, não pretendemos deixar a Igreja Inglesa. Nossa intenção seria fazer avançar a Igreja Anglicana, mas isso exigiria tempo... Ficaríamos felizes em estar em comunhão com Roma, se isso pudesse ser feito sem renunciar à nossa própria Igreja. Compreendam nossa convicção de que já estamos na Igreja, de que acreditamos gozar de todas as vantagens espirituais que teríamos na comunhão romana. Queremos o fim do cisma, como os bons católicos o queriam no tempo dos antipapas. [4]

Não renuncio às consequências dos meus princípios ao recusar renunciar à minha Igreja, na qual a Providência de Deus me colocou. Eu não faria nada para acabar com o cisma se eu, ou meus amigos, entrássemos na comunhão romana. A Igreja Anglicana tem um poder sobre seus membros que muitas vezes me surpreendeu, especialmente quando vi que a partida de meu querido amigo Newman produziu tão pouco efeito..." 

Ele ainda escreve:

"Receio que seus bispos pensem apenas em nos absorver individualmente. Eles nos concederiam individualmente tudo o que pudessem para esta curta vida, de modo que desapareceríamos como gotas d'água no oceano, e tudo voltaria a ser como antes..."

Pusey não considerou um momento sequer que esse "poder" da Igreja Anglicana sobre seus membros poderia muito bem não ser de origem divina, e que o pouco efeito produzido, segundo ele, pela partida de Newman poderia ter como causa muito próxima sua própria atitude pessoal de recusa da graça... Encontra-se também em Pusey um pano de fundo de panteísmo mais ou menos explícito. A Igreja Romana não pretende "absorver" indivíduos nem conceder favores para "esta curta vida", mas sim a graça de fazer a salvação eterna na outra vida, a eterna; os homens não são "gotas d'água no oceano", e para Deus o retorno de uma ovelha perdida tem um valor infinito.

Eis a resposta de Manning ao Eirenicon de Pusey:

"Professar, estar pronto a aceitar o Concílio de Trento, se ele for interpretado conforme a nossa opinião, não é submeter-se à autoridade do concílio, mas sim submetê-lo ao nosso julgamento. Exigir da autoridade do concílio uma interpretação, sem se comprometer a submeter-se a ela, não é agir com lealdade. Em que isso difere do juízo privado do comum dos protestantes? Declara-se que o Concílio de Trento é tolerável se for conciliável com o Tract 90, intolerável se estiver em harmonia com a fé, a piedade, a devoção e o culto público da Igreja Romana em todo o mundo; pode o juízo privado exaltar-se e engrandecer-se ainda mais? Receber todo o Concílio de Trento em virtude do juízo privado não tornaria ninguém católico. Isso introduziria entre nós uma aparência de acordo material, disfarçando uma contradição formal e vital. Não poderia senão resultar em apostasias e queixas, não sem fundamento, de terem sido enganados. É uma abertura de paz bem avisada atacar com animosidade as opiniões populares, as devoções e as doutrinas da Igreja Católica e apelar delas a alguma censura autorizada? O que é isso, senão dizer: Vocês devem vir ao meu modo de ver, antes que eu me una a vocês. Pretender esse direito de censura universal ao mesmo tempo em que se nega a infalibilidade da Igreja viva, acaso se pode achar isso razoável..."

Na Encíclica Satis cognitum, o Papa Leão XIII diz a esses ingleses que sonham com concessões, atenuações e revisões:

"Nada poderia ser mais perigoso do que esses hereges que, conservando todo o resto da integridade da doutrina, por uma única palavra, como por uma gota de veneno, corrompem a pureza e a simplicidade da Fé que recebemos da tradição dominical e depois apostólica".

UMA CARTA DE NEWMAN

Na correspondência do idoso Newman, encontra-se uma carta endereçada a um amigo de Pusey na qual ele tenta compreender o plano de Deus e explicá-lo ao seu correspondente. Curiosamente, as explicações que ele dá estão aquém de todo o seu ensinamento e marcam um retrocesso no pensamento. Parece que, antes de morrer, Newman teve algumas hesitações sobre pontos fundamentais da doutrina católica. É certo que a ordem do Oratório, que ele fundou e dirigiu na Inglaterra após sua conversão, estava impregnada de agostinianismo, e que as variações e hesitações de um Santo Agostinho sobre a graça, a predestinação e a liberdade não eram suficientes para dissipar todas as dúvidas, nem mesmo as de uma inteligência leal e de boa-fé.

Vamos, portanto, examinar esta carta: Newman primeiro coloca a questão: "Uma grande obra divina se realiza na Igreja anglicana" e, no entanto, ela não leva à conversão dos homens nem à sua reunião com a verdadeira Igreja: "Qual foi, então, o objetivo dessa obra no plano divino?" "Pois", diz ele, "uma obra divina não pode falhar".

Newman não entende aqui que não se pode julgar o plano divino de fora, a partir de uma inteligência humana imperfeita, e que está na ordem da natureza que o pensamento divino não nos seja perfeitamente inteligível, pelo menos aqui na terra. Há, portanto, alguma presunção em querer conduzir sua alma com base na suposta ideia que se faz do plano divino. Mas isso não é suficiente. "Uma obra divina não pode falhar", diz ele, sem dúvida, caso contrário Deus não seria todo-poderoso. Mas a questão é saber se a recusa da graça, a danação eterna e o inferno não fazem parte do plano divino. O condenado também, à sua maneira, proclama a Glória e o Poder de Deus. O inferno é, no vazio, a prova da Bondade infinita de Deus...

Newman continua:

"Reconheço a elevação do espírito religioso e a excelência de tais homens (os discípulos de Pusey) que nomeais. Longe de mim afirmar que eles tenham conscientemente fechado os olhos à luz que os teria conduzido ao seio da Igreja e que, consequentemente, tenham faltado à graça do céu; lembrai-vos de que há uma eleição da graça. Alguns, não todos, são eleitos para os privilégios e bênçãos do reino celestial. Todos seremos julgados segundo as ocasiões que nos forem oferecidas. A questão é saber se vós e eu somos chamados, e não saber por que os outros não o são..."

Três temas abordados neste parágrafo, mas incompletamente elucidados: (Compreendemos bem que uma simples carta não pode ter as dimensões de um tratado de Teologia ou Metafísica; no entanto, ela não deve deixar o correspondente com a impressão de que o problema não tem solução).

a) O tema da Luz: Pode-se fechar os olhos à Luz, mas isso não tira a menor força dessa Luz, que continua a brilhar "para os bons e os maus". A onipotência divina permanece intacta, mesmo que uma ou outra criatura recuse essa Luz. Newman avança muito ao supor que tais homens religiosos não poderiam ter fechado os olhos e, portanto, faltado à graça.

b) O tema da Eleição da graça. Claro que Deus escolhe enviar sua Graça; mas é preciso acrescentar que Ele não a recusa a ninguém e que todo homem recebe incessantemente as graças necessárias à sua salvação, bem como a luz necessária à sua inteligência. Se nos parece que fulano ou sicrano não se beneficiou de tais graças e, portanto, não pôde usufruir dos privilégios e bênçãos do reino celestial, é que nossa visão curta não nos permite penetrar no interior de uma alma e assistir ao diálogo dessa alma com Deus. Não podemos tirar conclusões mais amplas disso. Devemos reservar nosso julgamento. Somos chamados, certamente, mas não podemos afirmar que outros não receberam o mesmo chamado.

c) O tema das ocasiões oferecidas: Para cada um, o mesmo evento não é necessariamente uma ocasião oferecida pela bondade divina. Sabemos que Deus enviará sempre, mesmo às almas mais refratárias, os eventos destinados a abrir seus olhos à luz que Ele apresenta naquela circunstância. Mas cada uma delas pode responder ou não, é o privilégio de sua liberdade.

"Perguntais se o fato de que alguns homens bons estão satisfeitos com o que têm na Igreja da Inglaterra não é uma prova de que esta Igreja é uma parte da Igreja Católica? Já que suas virtudes e suas diversas excelências devem vir de Deus, o seu ensinamento também não vem de Deus? Não foram eles criados para impedir, por seu forte protesto, como fizeram por vós, que as almas fossem a Roma? Isso vos parece; mas certamente podemos supor outra razão para a conduta de Deus para com eles. Eles estão agora onde estão, sem mais luz do que têm, estando de boa-fé anglicana, a fim de preparar gradualmente seus ouvintes e leitores, em maior número do que de outra forma seria possível, para a fé verdadeira e perfeita, e para conduzi-los em tempo oportuno à Igreja Católica..."

Claro, e num primeiro movimento, Newman afasta a hipótese de que Deus poderia agir sobre as almas para afastá-las positivamente da verdadeira Fé; e, portanto, o ensinamento desses pastores e bispos discípulos de Pusey não poderia vir de Deus.

No entanto, ele retorna a essa hipótese por dois raciocínios.

1° Esses anglicanos estão de boa-fé, Newman o afirma com veemência, mas ele conhece as condições: é, antes de tudo, a ignorância invencível. Portanto, precisam de uma certa ausência de Luz que não venha de sua negligência pessoal. É preciso encontrar um obstáculo que faça tela a essa Luz. Esse obstáculo não pode ser a ignorância da Verdadeira Igreja, uma vez que esses mesmos Pastores e Bispos a reconheceram como a Fonte da qual eles bebem abundantemente para revigorar sua pobre Igreja anglicana em plena "débâcle".

2° Esses anglicanos devem trazer gradualmente as almas de seus fiéis à Verdadeira fé, plena e perfeita, e fazê-lo em tempo oportuno.

O verdadeiro obstáculo que faz tela à Luz é o julgamento dialético que pretende submeter a Verdade plena e inteira a verdades fragmentárias, sobrecarregadas de obscuridades e erros, e a eventos fortuitos que não estão necessariamente sob a dependência de nossa vontade. A alma "barganha" sua adesão à Verdade, embora conhecida com evidência, e segundo critérios bem discutíveis: quando será oportuno aderir plenamente a Roma? Talvez nunca. No domínio do que poderia eventualmente acontecer, a alma poderá indefinidamente permanecer em suspenso. A oportunidade será sempre discutível.

Finalmente, como pode alguém se apresentar como o campeão da Verdade, como aquele que pretende conduzir os outros à Verdade plena e inteira, e simultaneamente esforçar-se para dar apenas parcelas dela, insuficientes por si mesmas para provocar a evidência e a adesão. Agindo assim, a pessoa se torna tela para a Luz. Se pode ser oportuno, às vezes para o bem das almas, guardar discrição quando se trata de emitir juízos sobre os homens e as coisas contingentes que nos cercam, Deus sempre fez questão de pregar a tempo e a contratempo, isto é, sem qualquer critério de oportunidade, as grandes Verdades da Fé em sua integralidade. Não se tem o direito de graduá-las, isto é, de truncá-las. A Igreja Católica sempre condenou os catecismos ditos "progressivos". Com efeito, se pode haver progressão na penetração ou aprofundamento dessas verdades, não pode havê-la em seu conhecimento. As Verdades da Fé formam uma grande Síntese que é destruída por fragmentações, assim como a abóbada do edifício desaba, se dela se retirar uma única pedra.

Aliás, na Encíclica "SATIS COGNITUM", Leão XIII diz, dirigindo-se aos anglo-católicos:

"Nada poderia ser mais perigoso do que esses hereges que, conservando em todo o resto a integridade da doutrina, por uma única palavra, como por uma gota de veneno, corrompem a pureza e a simplicidade da fé que recebemos da tradição dominical e, em seguida, apostólica".

Concluamos a carta de Newman:

"E se eles mesmos tivessem sentido que era seu dever tornarem-se todos católicos de uma só vez, a obra de conversão teria, ao mesmo tempo, terminado; teria havido uma reação. Eles, ao contrário, como São João Batista, endireitam o caminho do Senhor".

Eis, enfim, um julgamento bastante presunçoso sobre as relações entre o poder de Deus e o de Satã. Se todos os tractarianos de Oxford e os amigos de Pusey tivessem se convertido, teria havido um influxo de uma multidão de almas, arrastadas por um tal exemplo de fervor. Teria havido, também, uma reação; com certeza! O demônio teria se desencadeado! Nós o sabemos. Ao passo que, com a interrupção do movimento desses retornos a Roma, o demônio descansou sobre sua vitória.

A comparação com São João Batista é verdadeiramente audaciosa.

"Endireitar o caminho do Senhor" é designar a Pessoa para a qual é preciso se dirigir, é apontá-la com o dedo; "não para mim, mas para Ele!" é apagar-se diante do outro, a ponto de fazer-se esquecer; não é, portanto, "reter as almas" em seu movimento em direção à Verdade. A atitude dos puseístas não é reta: em vez de irem diretamente a Roma e de conduzirem para lá as almas que os seguem, eles permanecem a meio caminho, recusam-se a avançar, aguardando, dizem eles, o grosso da tropa que se arrasta ao longe. Mas essa tropa, vendo os homens da frente parados no caminho diante dela, recusa-se a avançar e se abate no chão.

CONCLUSÃO:

Não ignoramos que certas fórmulas ecumênicas, expostas aqui, já não se apresentam sob a mesma forma no ecumenismo de hoje. Mas as variações que essas fórmulas podem sofrer ao longo dos séculos são apenas superficiais; no fundo mesmo das coisas, o Ecumenismo permanece bem idêntico a si mesmo.

Assim, na Inglaterra protestante do século passado, era necessário romanizar o culto e as formas da vida religiosa, se quiséssemos chegar a essa simbiose de todas as confissões e a essa indiferença dos fiéis em relação à Única Verdade e, sobretudo, se quiséssemos desviá-los dos verdadeiros sacramentos de Cristo. Na Europa católica de hoje, o Ecumenismo pratica o movimento inverso, ele protestantiza a liturgia e as formas da piedade, para chegar à mesma simbiose das religiões.

Do mesmo modo, para responder às necessidades sensíveis da alma naturalmente religiosa, era bom tomar emprestadas as formas da piedade católica e introduzi-las nas comunidades protestantes, cujo "vazio glacial" (disse o próprio Manning) afugentava os fiéis. Isso tinha a vantagem de reter as almas fora da Única Igreja de Cristo e de privá-las da "presença real" nos sacramentos. Hoje, o Ecumenismo se esforça para atrair as almas para fora da liturgia católica e dos verdadeiros sacramentos por dois meios simultâneos e complementares:

a) O Ecumenismo organiza o "vazio glacial" da Liturgia católica, para desviar dela os últimos fiéis que ainda lhe permanecem apegados; daí o desprezo pelas devoções populares (procissões, salvas do Santíssimo Sacramento, veneração das relíquias, etc.), a nudez das igrejas e a vulgaridade das formas litúrgicas, etc.

b) Ao mesmo tempo, o Ecumenismo desenvolve toda uma para-liturgia em comunidades religiosas informais, onde os fiéis encontram o desabrochar de sua sensibilidade religiosa, a exaltação de sua necessidade de Deus através de formas aberrantes, simulando uma "presença real" ilusória, fora da validade de todos os sacramentos: grupos carismáticos diversos, comunidades com pretensão religiosa, etc.

Constata-se, aliás, que nessas comunidades de um novo gênero, os organizadores têm o cuidado de excluir tudo o que poderia lhes manter uma aparência católica: supressão do sinal da cruz, das orações oficiais da Igreja, o Pai-Nosso e a Ave-Maria; fala-se do "Espírito", sem precisar se é do Espírito Santo ou do outro, do Espírito de Satã. Exalta-se a sensibilidade mais equívoca, a meio caminho entre a espiritual e a carnal.

Assim, as multidões humanas são desviadas da Única Verdade, do único Caminho, aquele que foi instituído por Jesus Cristo, e da "Presença Real" de Deus. Vê-se bem a quem beneficia um tal movimento ecumênico.

E. C.


Revision #4
Created 5 July 2026 12:19:55 by Admin
Updated 5 July 2026 19:03:46 by Admin